A alma dos robôs – parte 1

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A evolução dos robôs segue seu caminho. Para cientistas, engenheiros e entusiastas da Ciência e da Tecnologia, há, entre outros, um objetivo claro: reproduzir com cada vez mais fidelidade a inteligência humana. Não basta, portanto, criar ferramentas supereficazes em suas tarefas autômatas, mas dar a ilusão de que as máquinas têm uma alma.

Desde a Antiguidade se contam fábulas sobre criaturas artificiais que se tornam seres vivos. Histórias sobre robôs na ficção científica têm abordado o fascínio do ser humano pela possibilidade de surgirem vida e alma das criações tecnológicas. A antropomorfização de seres inanimados não é novidade na história humana, mas quando se tratam de seres que imitam comportamentos e funções humanas, como os robôs, é muito forte a fantasia de que eles podem se tornar completamente humanos.

Pigmalião e Galateia

Pigmalião e Galateia – Ernest Normand – 1886

Na mitologia grega, o rei e escultor Pigmalião criou uma estátua tão perfeita que se apaixonou por ela. A obra foi transformada por Afrodite numa mulher real, Galateia, com a qual o escultor se casou. Esse mito faz um eco no livro de Carlo Collodi, Pinóquio, história mais conhecida pelo desenho animado homônimo da Disney, em que um velho criador de marionetes vê seu “filho” mais perfeito ser transformado num menino de verdade. Nas anedotas da História, temos o causo de Michelangelo, que ao terminar Moisés, uma de suas obras-primas na escultura, bradou: “Parla!” (“Fale!”). A um ser inanimado tão parecido com um ser humano só faltava falar.

A mesma história foi revisitada diversas vezes, tanto na fantasia quanto na ficção científica (a seguir vamos relacionar várias delas), sendo uma das mais notáveis o filme idealizado por Stanley Kubrick e realizado por Steven Spielberg, A. I. – Inteligência Artificial (2001). Nessa história, um robô-menino é programado para simular com perfeição uma criança dotada de amor filial, para suprir a falta que uma mãe sente do filho comatoso. A ânsia por ficar para sempre com sua mãe de carne e osso leva David a pedir que uma fantasiosa fada azul o transforme num garoto de verdade. Ele reproduziu tão fielmente o comportamento, a cognição e a emotividade de uma criança humana, que foi ressucitado por seres evoluídos para que estes descobrissem a essência da humanidade.

Há diversos temas na ficção científica que exploram as possibilidades do desenvolvimento da inteligência e da autoconsciência de máquinas. Alguns se relacionam com o medo humano de que os robôs se voltem contra seus criadores. Ligado a isso, existe a fantasia pinoquiesca do robô que busca sua identidade como indivíduo consciente.

Programados para ser humanos

O Homem Bicentenário

Robin Williams como o “O Homem Bicentenário” de Isaac Asimov, na versão cinematográfica

Os contos robóticos de Isaac Asimov são exemplares e abarcam vários temas relacionados à inteligência artificial e o desenvolvimento da individualidade. “Sonhos de Robô” tematiza o medo do ser humano de que as máquinas tomem seu lugar no mundo. Um robô conta a uma robopsicóloga que teve um sonho em que ele era o líder de uma grande comunidade de robôs livres (que não precisavam obedecer aos humanos). Ela não hesita e o destrói com um disparo. O conto “O Homem Bicentenário” (transforado em filme homônimo em 1999) relembra Pinóquio,pois relata a longa trajetória de um robô que se torna cada vez mais parecido com um ser humano, chegando a envelhecer e a morrer.

Por que temos esse fascínio pela figura mecânica que desenvolve consciência? Se tomarmos até mesmo os mitos animistas mais antigos, veremos já uma tendência a atribuir a cada ente da natureza uma consciência, uma alma, um deus ou um demônio. Os robôs idealizados na ficção realizam de maneira mais contundente essa fantasia, pois, diferente de uma montanha que não se move, uma máquina feita para imitar o comportamento humano é quase um ser animado (com alma). Se uma estátua estática fez Michelangelo dizer “Parla!”, imagine um androide, externamente em tudo idêntico a um ser humano, capaz de andar, manusear objetos com as “mãos”, comunicar-se através da língua humana e realizar as atividades rotineiras de um Homo sapiens.

O desejo de um robô se tornar ou aprender a ser humano é paradoxal. Um ser inanimado não pode ter anseios. Se os tem, já pode ser considerado um ser animado. Seres como os replicantes do filme Blade Runner (1982) replicam quase fielmente um indivíduo humano, sendo necessário um especialista altamente treinado para diferenciar um androide de um ser humano. Seu design é tão perfeito que gerou indivíduos replicantes com o desejo de viver mais do que os 4 anos de idade que são programados para viver.

Blade Runner

Blade Runner

No seriado Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, o androide Data está constantemente buscando compreender e reproduzir as emoções humanas. Sua busca frustrada muitas vezes o faz parecer angustiado, o que o torna humano em certo sentido. Já o Doutor de Jornada nas Estrelas: Voyager é um holograma que extrapola quase infinitamente sua programação original, passando a exercer inúmeras funções além da Medicina, para a qual fora designado originalmente.

Todos esses robôs procuram ser algo além de autômatos sem personalidade. Alguns já “nasceram” com um gérmen de humanidade que só precisava ser cultivado, como no caso de David (A. I. – Inteligência Artificial) e de Data (Jornada nas Estrelas: A Nova Geração), cujo criador lhe concedeu a capacidade de escolher seu próprio destino.

Humanos por acidente

Um Robô em Curto-Circuito

Johnny 5, “Um Robô em Curto-Circuito”

Os exemplos acima se diferenciam de algumas máquinas que, por algum acaso ou acidente, acabam ultrapassando o limite entre o inanimado e o animado, como é o caso de Johnny 5, dos filmes Short Circuit: O Incrível Robô (1986) e Um Robô em Curto-circuito (1988). Como se fosse repentina e miraculosamente dotado de uma alma, no descarregar de um raio no mais estapafúrdio estilo Frankenstein, Johnny 5 deixa de ser um autômato e passa a se preocupar com a autopreservação. No segundo filme, ele demonstra uma inteligência e uma personalidade tais que se vê numa busca pela própria individualidade e até consegue a cidadania norte-americana.

O belo WALL-E (2008), cujo protagonista que lhe dá título, robozinho cuja aparência foi meio que copiada dos 2 filmes supracitados, é desses indivíduos pertencentes a uma produção em série, com uma programação pré-definida, mas cuja história e experiências o levam a desenvolver gostos, anseios, sentimentos e valores. Único remanescente de sua “espécie”, encarna um herói dotado de idealizada humanidade.

Um dos mais extremos exemplos desse salto transicional do inanimado para o animado é O Gigante de Ferro (1999), que apresenta um robô alienígena programado simplesmente para ser uma máquina de guerra perfeita. Devido a um acidente e à amizade de um garoto, ele consegue suprimir seu “instinto” e escolhe se tornar um herói, salvando as vidas daqueles que ameaçaram sua própria existência.

Então…

Por que esse fascínio da parte dos humanos por personagens robóticos? O que há neles com que nos identificamos tanto? Por que, aliás, essa fantasia do robô tornado humano extrapola para histórias em que as máquinas se tornam uma ameaça à humanidade, subjugando-a e invertendo os papéis de dominação e subserviência? Tentaremos dizer algo sobre isso na próxima semana em A Alma dos Robôs – Parte 2.

Referências

3 comentários sobre “A alma dos robôs – parte 1

  1. Adendo

    Apenas um adendo ao comentário acima.Não são os centros que controlam a máquina. A máquina humana TEM os centros emocional inferior, mental inferior, instintivo, sexual e motor. Estes centros são controlados por padrões de comportamento que se cristalizaram como uma segunda natureza em nós_ como programas de computador–Estes padrões foram denominados de diferentes formas ao longo dos milenios:No Bagavaguita eram os parentes de Arjuna.Na Odisséia de Homero eram os pretendentes que saqueavam os celeiros e riquezas de Ulisses.No Tibet, agregados psicologicos.No cristianismo, os pecados capitais e seus derivados…

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