A luta para salvar Deus

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A recente visita do Papa Bento XVI à Inglaterra trouxe à tona a atual, recorrente e insistente tentativa das igrejas cristãs de questionar o valor da Ciência e reabilitar a Religião, tão “esquecida” e “menosprezada” nos dias atuais. Numa reunião de líderes religiosos na St. Mary’s University College, Strawberry Hill, na parte sudoeste de Londres, o papa interveio no debate sobre a origem do Universo, alegando que a Ciência não pode explicar o “sentido definitivo” da existência humana.

Afirmando que as ciências nos apresentam uma “inestimável compreensão” de aspectos de nossa existência, o papa afirma que elas não conseguem responder à pergunta fundamental: “por que existimos?” Toda a argumentação do papa para “desqualificar” a Ciência no papel de “dar sentido à vida” e a suposta necessidade de a Religião assumir esse papel se baseiam em pressupostos discursivos que escondem falácias lógicas.

Papa Bento XVI

Em primeiro lugar, o discurso supostamente conciliador que busca colocar lado a lado a Ciência e a Religião se revela uma tentativa de subordinar aquela a esta. Ao dizer que as ciências nos trazem uma “compreensão inestimável de aspectos da existência”, o papa está usando um eufemismo para dizer que nenhum conhecimento sobre o mundo, por mais acurado e útil que seja, é suficiente para nos trazer felicidade, ou seja, que qualquer conhecimento científico é dispensável. O que não é dispensável, segundo ele, é o desejo humano de dar sentido à vida, o que, para ele, só pode ser feito satisfatoriamente pelas religiões (especialmente, é claro, a religião cristã em sua versão católica).

Veja mais um trecho do discurso de Bento XVI:

They cannot satisfy the deepest longings of the human heart, they cannot fully explain to us our origin and our destiny, why and for what purpose we exist, nor indeed can they provide us with an exhaustive answer to the question ‘Why is there something rather than nothing?

[Elas [as ciências] não podem satisfazer os mais profundos desejos do coração humano, elas não podem nos explicar completamente nossa origem e nosso destino, por que e para que propósito existimos, nem certamente podem nos prover uma resposta exaustiva à pergunta ‘por que existe algo ao invés de nada?’]

Este trecho condensa várias armadilhas lógicas. A primeira é que o pressuposto da necessidade de se dar sentido à existência e a ideia de que a falta desse aspecto à Ciência é uma falha. A tarefa da Ciência nunca foi dar sentido à existência, não da forma como uma perspectiva transcendente do mundo o faz. Concordo com o papa em que a Ciência por si mesma não oferece nenhum sentido fundamental à existência, nenhum elã transcendente que torne o cru Universo algo mais do que ele próprio (como o olhar brilhante de uma criança viva que se diferencia do olho de um robô – por mais perfeitamente que este seja feito para replicar uma criança).

O discurso do papa gira em torno de Religião e Ciência. Ou seja, ao negar à Ciência o papel de dar sentido à vida, a sardinha pula automaticamente para o seu lado, como se a Religião fosse a única e óbvia candidata para responder às “questões fundamentais”. No entanto, um pouco de erudição e conhecimento de mundo é suficiente para sabermos que existem muitos meios que não as diversas e díspares religiões para dar sentido à existência, como a Poesia, a Filosofia, a Mitologia, e que dentro dessas várias formas de saber, há inúmeras possibilidades, dependendo do contexto histórico e cultural que busquemos.

De fato, desde que começou a existir neste planeta, o ser humano deu início (e jamais parou) à produção de milhares de sentidos para a existência. Seja recorrendo a estórias para explicar os fenômenos naturais, seja atribuindo ao Universo uma alma única que dá coesão ao todo, seja concebendo o tempo como um ciclo que faz tudo retornar ao início eternamente, o Homo sapiens nunca deixou de criar sentido para o mundo, e é improvável que qualquer cientista, por mais ateu que seja, não tenha ele mesmo uma concepção do universo que o imbui de significado, mesmo que este seja a busca pelo conhecimento ou o bem que este pode trazer à humanidade. O que não é um sentido menos valioso para ele do que Deus é para um cristão.

Ao colocar a pergunta “por que existe algo ao invés de nada?”, o papa pretende automaticamente legitimar a explicação bíblica para a existência do Universo, ou seja, a criação deste por Deus. Mesmo considerando que essa pergunta possa, entre outras possibilidades, ser respondida: “porque é assim que o Universo é”, a solução religiosa parece ser para o discurso do papa um caminho óbvio. No entanto, a resposta bíblica se mostra em muito incompatível com a Ciência, pois fala de uma entidade cuja existência pode ser dispensada da explicação astronômica, uma entidade que a História mostra ter aparecido no imaginário humano em um determinado contexto histórico-cultural e que não é a única alternativa teológica no vasto mundo antropológico, havendo inúmeras explicações religiosas na face da Terra, algumas contraditórias entre si.

Outra falácia comum na defesa da Religião como complemento necessário à Ciência é a necessidade de valores morais, o que estaria ausente de uma visão puramente científica do mundo:

Never allow yourselves to become narrow. The world needs good scientists, but a scientific outlook becomes dangerous and narrow if it ignores the riches or ethical dimensions of life. Just as religion becomes narrow if it rejects the legitimate contribution of science to our understanding of the world.

[Nunca se permitam tornar-se estreitos. O mundo precisa de bons cientistas, mas uma visão científica se torna estreita se ela ignorar as riquezas ou a dimensão ética da vida. Assim como a religião se torna estreita se rejeitar a legítima contribuição da ciência ao nosso entendimento do mundo.]

É comum os autodeclarados ateus serem repreendidos pelos crentes com a afirmação de que é preciso crer em Deus para ser uma boa pessoa. O papa defende que sem a Religião os cientistas não têm como se garantir quanto aos seus valores morais. Assim como quanto ao “sentido da vida”, o discurso católico apresenta apenas uma alternativa de fonte de valores éticos: a Religião.

Da mesma forma que a Ciência pura não dá por si mesma um “sentido para a existência”, ela não oferece um sentido de ética, apenas provê conhecimento sobre o Universo. Porém, temos valores morais em nossa cultura que estão presentes em nossas condutas cotidianas e que não estão vinculadas direta nem necessariamente à Religião.

Além disso, temos na história do pensamento universal o desenvolvimento profundo de estudos sobre a Ética fora da esfera religiosa. Se ficarmos só na Filosofia, temos um universo de autores e obras, Aristóteless, Espinoza, Nietzsche, Confúcio, entre muitos outros, que mostram a capacidade de se elaborar um intenso senso ético baseado nas necessidades humanas e não em necessidades divinas.

Apesar de tudo, é papel do sumo pontífice vender seu peixe e seu pão (e tentar multiplicá-los desesperadamente). O mundo católico já não é mais o mesmo, ainda bem, e o cabeça da Igreja Católica recorre às crenças cristãs mais básicas para fisgar “de volta”, com argumentos escusos, o maior número possível de cordeiros para seu rebanho. De outro lado, cientistas e entusiastas da Ciência devem permanecer atentos para não ceder tão facilmente aos pressupostos, tidos por muitos como sabedoria, de que o ser humano precisa da Religião e de que é necessária a integração entre esta e a Ciência.

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12 comentários sobre “A luta para salvar Deus

  1. Apesar de brilhantemente conciso e bem escrito, meu caro, não me parece correta tua alusão aos "interesses escusos" de Sua Santidade: como mesmo bem o disseste, acho que ele só está querendo vender seu pão! Tal qual a loucura que a física quântica criou para explicar o inexplicável, assim me parece a Religião, fazendo a parte dela em torno de dogmas milenares e crenças imutáveis: é cada um com seu qual!

    Realmente é umafalácia querer unir Ciência e religião: missão impossível! Mas concordo com o Papito no que tange ao papel da Religião na busca de certas respostas: não creio que seja ele uma resposta em si, mas o 'religare', sem dúvida, reforça a fé (no que quer que seja) e, com ela, um sossegar espiritual numa alma original e eterna – tal qual as ondas dimensionais fora do universo como o conhecemos hoje, que se chocaram e geraram o 'big bang'! Se você prestar atenção, dá quase na mesma! Abração, meu amigo!

    P.S.: parabéns pelo Inglês – traduções mesmo impecáveis!

  2. Diego Barros

    Acho que a ciência não procura fé numa resposta para o início do universo, força cósmica, big bang ou o que seja. O big bang é apenas a resposta tida como a mais provável, segundo a visão de muitos cientistas. A ciência se preocupa com o saber, não com a fé, e pelos indícios que nos restam hoje em dia, a melhor explicação a que se chegou foi a tal explosão. Partiram dos indícios (o que existe hoje) para se chegar a uma explicação (o que deve ter sido). A religião faz um caminho inverso. Se utiliza de um discurso antigo já tido como verdadeiro (bíblia, corão, etc., sem questiná-lo), e tenta modificar a vida AGORA para que se encaixe nesses preceitos. Não acho que dá no mesmo. Até porque há, de fato, outras formas de "sossegar espiritual", que independem da religião (filosofia).

    A bíblia, por exemplo, não deve ser considerada fonte de ética ou de valores espirituais. De maneira alguma. Dawkins critica essa idéia no seu livro "deus, um delírio". E com razão. Se tomarmos a bíblia como fonte de valores éticos, teríamos que aceitar tudo o que ela determina como sendo certo e errado. E não considero possível aceitar como certo a condenação por morte dos homossexuais, a condenação por morte de pessoas que usam roupa feita de mais de um tecido diferente, ou a morte de quem trabalha nos sábados. Ou mesmo a sacanagem que ele fez com Abrahaao, mandando ele matar o filho, só pra testar sua fé(quais devem ter sido as sequelas psicológicas para o rapaz que quase foi morto pelo seu próprio pai?). O que Dawkins diz é que escolhemos as histórias da bíblia que mais nos parecem éticas e as tomamos como verdade. E excluímos as que parecem absurdas. Sendo assim, temos um parâmetro FORA da bíblia, ANTERIOR à bíblia, que nos diz o que é certo e o que é errado. A fonte é outra. A bíblia é só uma desculpa para legitimar essas idéias.

  3. @Dilberto,

    Eu poderia até me abster de responder, depois do comentário de @Diego, mas tenho algumas coisas a acrescentar:

    Não me referi a "interesses escusos", mas a argumentos escusos. Na verdade, não questiono os interesses ou as intenções do papa, e acho até que seus argumentos escusos não o são propositalmente, mas o são pela própria visão estreita da teologia cristã.

    Não concordo com sua comparação entre a "loucura" da Física Quântica e as teorias religiosas. Por mais abstratas que sejam as teorias quânticas (toda teoria científica é abstrata, por mais que pareça não ser), elas são baseadas num rigoroso método de investigação e especulação, assentadas em observações e experimentos, e sempre sofrendo atualizações quando surgem novos dados. Muito diferente dos dogmas imutáveis da Religião, que não sofrem acréscimo nem mudança depois de milênios.

    Quanto ao papel "sossegador" da Religião, ele existe mesmo, e a escolha por seguir uma religião com esse propósito é individual. Mas não é o único caminho possível. Além disso, você menciona uma certa necessidade por fé como se ela fosse um imperativo. Mas há quem prescinda de qualquer necessidade de fé (um conceito, aliás, extremamente confuso e incerto).

    Também discordo de você na comparação entre uma "alma original e eterna" e as forças que geraram o Big Bang. A primeira é uma suposição advinda da pura imaginação e da necessidade humana de dar sentido ao Universo. As segundas são uma teoria baseada na Ciência.

    Sobre a imagem de Michelangelo, notei que Deus aparece numa posição mais tensa do que a de Adão, bem mais relaxado, o que deu ensejo à legenda.

  4. AmBAr Amarelo

    Se a religião (cristã ou alguma outra) não se modificar e se atualizar ela morrerá. A religião cristã católica até que se modifica, mas em passos lentos demais (o católico já tem permissão para ler a bíblia). A cristã protestante também se atualiza, existem diferentes vertentes, algumas até estudam não ver o homossexualismo como algo errado (vide a comunidade bolinha). Contraditório? Acho que a razão não é o que o religioso busca, ele pouco se importa com contradições.

    A religião cristã se vê em um momento de escolha: Ou se adapta e sobrevive (adaptação esta que a modificará profundamente), ou permanece imutável e morre.

    Acredito que as duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo. Alguns grupos estão se adaptando das mais diversas formas, e outros, como os católicos apostólicos romanos, permanecem praticamente os mesmos.

    Parece até uma analogia ao que aconteceu aos primeiros grupos humanos que habitaram a terra.

  5. AmBAr Amarelo

    Errata: o nome da comunidade protestante não é bolinha e sim "bola de neve".
    Li uma entrevista, numa revista, acho que a veja, com um dos seus dirigentes, em que ele afirmava que não estava certo de que o homossexualismo era tão errado assim, e que ainda iriam encontrar algo na bíblia legitimando-o.

  6. Mr. T

    Não compreendo a visão deste papa. Ao tempo em q faz tais afirmações para angariar fiéis, epor outro lado confirma a proibição do uso da camisinha (e do sexo antes do casamento)…

    Do seu texto, não tiro sua razão, mas ainda sinto uma tendência ao ateísmo, aqui, como uma supervalorização do que foi dito pelo papa.
    Mas não vou entrar no mérito de certo ou errado, pq simplesmente não colaboro com esse tipo de discussão, nem por um lado nem do outro.
    ^^
    E concordo contigo, ele tem q tentar vender o peixe dele. hehehe

  7. Tiago Oliveira

    Também tive a impressão de uma supervalorização do dito pelo papa. Na verdade chega a concordar com ele na maioria do que ele disse, se não extrapolar para esta interpretação das entrelinhas.

    Mas para mim o melhor foi ver reparar – pela 1ª vez – na força que o Deus de Michelangelo faz para tocar Adão, que por sua vez mal estende a mão. tadinho do Deus, sô.. ele ta qse caindo ali do céu daquele jeito..tem até um monte de anjinhos ali segurando ele pela camisa pro pobre coitado não se esborrachar no chão..

    voltando a falar -um pouco mais- sério, concordo com a afirmação de Dilberto que religião e ciência não se misturam, devido às suas metodologias já discutidas aqui (dógma X refutabilidade teórica). Mas é importante ressaltar que existem assuntos que a modernidade e pós-modernidade excetuou do ramo de "pesquisáveis" por estes terem vínculo forte com as religiões. Nestes pontos as Ciência está sendo tão dogmática quanto a religião pois, a priori, TUDO deveria ser questionado, estudado, discutido, refutado, avaliado..
    Galileu qse vai pro saco porque resolveu pesquisar como funcionavam a mecânica dos astros, que naquele tempo era domínio religioso. Imagine se nossa ciência simplesmente deixasse de estudar os astros porque a "teoria" vigente sobre sua mecânica era de origem religiosa…
    Portanto acho extremamente válida a idéia de pesquisas nos campos ainda tidos como "espirituais". Quem sabe disso aí não sai muita coisa que vira ciência daqui a pouco?
    só pra dar um exemplo bastante chato do que estou falando: a acumpultura. A técnica já é considerada eficaz mas não se chega a conclusões de COMO ela opera. Nem se aceita -ou se aprofunda em pesquisas sobre- a teoria original, baseada nos chacras e meridianos…

  8. Diego Barros

    Tiago Oliveira, pesquisas nos campos tidos como espirituais são válidas, claro. A questão é: por que deve ser a religião a titular nesse tipo de pesquisa? Se ela se baseia em dogmas, não em pesquisas? A religião, na verdade, vai apenas retificar o que já é instituído, não vai pesquisar nada.

    E acupuntura pode não ser ciência (a palavra ciência está mais relacionada ao método de pesquisa do que ao objeto pesquisado), mas se funciona, funciona. Não é preciso uma teoria comprovada por trás. A diferença dela para a religião é que nós podemos ver ela funcionando para o que ela se propõe a fazer. A religião é mais de palavras do que de experiências, e é por isso que pode ser questionada com tanta facilidade.

  9. Décio

    Olá, saudações.
    "Abrimos" o blog <a href="http://www.blig.ig.com.br/dlmendes” target=”_blank”>www.blig.ig.com.br/dlmendes e
    conseguimos "espaço" no Portal Luis Nassif
    <a href="http://www.luisnassif.com/profile/DecioLuizMendes” target=”_blank”>www.luisnassif.com/profile/DecioLuizMendes
    Temos algo pertinennte a transmitir ( Cosmologia, concepção do "logos" – uma ponte entre a Ciência e a Religião -, etc…).
    Aguardamos a sua visita.
    Faça o seu comentário.
    Desde já agradecemos.

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