A mamushka arqueológica

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O arqueólogo James M. McClay esreveu muito livros sobre suas descobertas a respeito da civilização de Auqitneycna. As ruínas da antiga cidade foram por muito tempo um enigma para os estudiosos do passado, mas McClay conseguiu decifrar grande parte de sua língua e de sua cultura. O que mais chamou atenção da comunidade científica foi o grande avanço a que chegou Auqitneycna no campo da Paleontologia.

Certo dia, a irmã de McClay deixou sua filha, Agnes, na casa do arqueólogo enquanto viajava. Fascinada com tantos livros, relíquias e mapas no escritório do tio, Agnes quis saber se tudo aquilo fazia parte de alguma história fantástica de aventura. Tio James a fez sentar num divã e, reclinado em sua poltrona, lhe contou a seguinte história.

O sábio de Auqitneycna – parte 1

Há milhares de anos, havia uma cidade grande como um país, que se estendia por planícies e elevações. Ela não era somente ampla, mas também possuía vastas câmaras subterrâneas e grandes construções sólidas no alto das montanhas. Essa cidade se chamava Auqitneycna.

A Grande Universidade de Auqitneycna era conhecida pelas pesquisas sobre fósseis pré-históricos, e muito se sabia sobre os ancestrais mais próximos do ser humano. Sabia-se também que, na época dos primeiros seres humanos, outro povo disputava os recursos naturais do mundo. Esse povo eram os neandertais.

Zuddipas era um dos maiores estudiosos do humano pré-histórico, e escreveu um grande tratado sobre a vida do neandertal. Eis um trecho de seu livro, que foi escrito num estilo misto, em parte técnico e em parte literário.

As pegadas do monstro

Certa manhã, R’tana saiu sozinho para caçar alguma coisa para sua família. Acostumado a buscar presas na planície, aproveitando a grama alta para espreitar as manadas de herbívoros cuja carne enchia os estômagos de seu clã, R’tana resolveu procurar animais novos para abater. Desafiou a si mesmo a subir as encostas de um morro muito alto, que lhe dava muito medo. Mas uma história que ouvira, sobre um monstro que vivia no alto das montanhas, fortaleceu sua curiosidade e ele enfrentou seu temor.

Na verdade, ele se levantou muito mais cedo do que o resto de seus companheiros caçadores, pois pretendia enfrentar a missão como um empreendimento pessoal, tendo em vista que os outros não se empenhariam em tamanha estultícia. R’tana realmente costumava ser chamado de louco quando pensava estar agindo com coragem, mas de vez em quando reconheciam-no como corajoso em seus atos de loucura.

A primeira coisa que avistou no topo do morro foi uma imensa pegada de quatro dedos, como se tivesse sido impressa na rocha pelo pé de um galo gigante. Certamente, pelo tamanho daquela marca, não se tratava de mero animal, mas de um monstro, talvez uma criatura horripilante. Os boatos estavam certos, havia um colosso monstruoso nas montanhas.

A curiosidade, que já naquela época animava o ser humano e o impelia a um caminho evolutivo diferente dos outros seres da natureza, cresceu ainda mais e quase suprimiu completamente seu medo, mas este ainda estava alerta, e o embate entre os dois fazia o corpo de R’tana tremer levemente numa tensão excitante.

Por quase uma hora, ele seguiu o monstro invisível, com cautela e ânsia, e, subindo cada vez mais encostas, chegou a um planalto desolado. Os rastros do gigante iam até o meio da elevação, onde R’tana avistou um amontoado de ossos enormes, formando o esqueleto de algum tipo de ave gigante sem asas e com o bico repleto de dentes pontiagudos.

Fascinado com a grandeza antiga das ruínas de um animal colossal, aliviado por não ter que encarar tão terrível monstro e ao mesmo tempo desapontado pelo fato de os boatos estarem só parcialmente corretos, R’tana se sentou próximo ao fóssil e o contemplou por alguns minutos, até o momento em que ouviu fortes passos se aproximando, vindo de trás do esqueleto. Assustado, ele por um segundo pensou que era um daqueles monstros, vivo. Mas logo reconheceu que eram pegadas de um mamute macho velho.

Este se sentou próximo a R’tana e começou a contar-lhe uma história.

A era dos terríveis lagartos

O Rei dos Lagartos Tiranos correu atrás da manada de tricórnios, entre os quais havia filhotes recém-saídos dos ovos.

Rapidamente, os tricórnios entraram em formação, fazendo um círculo para proteger os mais novos. Os chifres apontados para fora do círculo, nenhum predador poderia sair ileso ao afrontar esse porco-espinho gigante.

Após uma breve hesitação, a fome moveu o Rei a enfrentar a manada. Sem chance de escapar aos espigões sólidos, caiu estendido e ensanguentado aos pés dos tricórnios.

Os olhares frios da manada fitaram o frio olho avermelhado do Rei. Uma fêmea tricórnio se aproximou do predador ferido, arrastando o corpo de um filhote que havia amanhecido morto. Os tricórnios se afastaram. O Rei se recuperaria mais tarde, levantar-se-ia e devoraria a carne do pequeno tricórnio morto.

O cérebro do mamute

R’tana perguntou ao mamute:

“Como você sabe dessas coisas que aconteceram há tanto tempo?”

“Aprendi de meus pais, que aprenderam dos pais deles. Nossos antepassados, que não eram maiores do que ratos, presenciaram a era dos lagartos terríveis e narraram aos seus filhos o que viram.”

“Queria saber histórias como essa para contar aos de meu clã.”

“Agora você sabe uma delas. Mas tenho muito mais histórias guardadas em minha cabeça. No entanto, estou velho e cansado e acho que não me resta mais muito tempo de vida. Nem para mim, nem para minha espécie, pois sou o último mamute.”

R’tana se levantou. “Embora tenha gostado muito de ouvi-lo, não estou agora com vontade de escutar outra história. E você parece não ter mais forças para proferir outro conto. Além disso, saí de casa para caçar e ainda não peguei presa. Hoje você será o almoço de meu clã e eu sorverei seu conhecimento. Termina sua espécie, mas seu legado passará para a minha e evoluiremos para um novo patamar.”

Assim, R’tana abateu o mamute, retornou a sua aldeia e trouxe todos os caçadores pelo rastro do monstro até a carcaça do paquiderme. Seu prêmio por abater a caça foi comer o cérebro do sábio animal. Ele se tornaria um grande contador de histórias e deixaria para todos os seus descendentes um valioso legado.

O sábio de Auqtineycna – parte 2

Porém, Zuddipas complementa esta história com a informação de que essa espécie de homens foi toda dizimada pelos seres humanos que hoje dominam a Terra e, da mesma forma que R’tana absorveu a sabedoria do mamute, o Homo sapiens sapiens herdou tudo o que sabia o Homo sapiens neanderthalensis, mas evoluiu ainda mais a partir daí.

A cidade de Auqitneycna reinou como centro cultural de uma pequena mas iluminada civilização. Chegou ao fim sob o jugo de um império belicoso que, ao invés de promover um intercâmbio cultural ou absorver os elevados conhecimentos de Auqitneycna, não deixou mais do que esqueletos e pedras, perdendo-se assim quase todo um conjunto de conquistas científicas. Mas alguns livros, como o de Zuddipas, sobreviveram para testemunhar uma parte dessa história.


James McClay observou sua sobrinha adormecida no divã, cobriu-a com um lençol e uma manta e pôs um livro ao seu lado. Ele previa que a pequena Agnes seria sua herdeira intelectual e se tornaria a próxima camada geológica do conhecimento acumulado desde há eras atrás. E ela não precisaria cometer canibalismo, matar nem comer seu tio para isso, pois o saber não se perde, mas se multiplica.

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