Ai, se eu te pego

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O status de arte da música popular – ou pop – sempre foi posto em xeque, já que esse é um estilo que obedece a estruturas que variam dentro de um padrão pré-estabelecido, como duração, refrães, andamento e coisas do tipo. O historiador Eric Hobsbawm dá explicações muito mais completas e sensatas sobre as características da música pop em seu belíssimo livro A História Social do Jazz.

A discussão acerca do caráter artístico da música está aparentemente superada, já que essas produções voltadas para um mercado consumidor maciço podem ser desenvolvidas de forma pré-moldada, contudo seu grau de expressividade transcende suas limitações estruturais, assim como as técnicas de apropriação musical são utilizadas para criar novas linguagens, o que é um aspecto fundamental da arte.

Obviamente, o domínio técnico da música clássica, por exemplo, transcende o simples fazer repetitivo como finalidade e demanda verdadeira exegese de seus intérpretes, sendo uma música geradora, em que o compositor amplia os limites de seu universo musical constantemente. O jazz, música de cunho absolutamente popular em suas origens, atingiu o status de arte conceitual à medida que seus improvisos e expressividade contribuíam para um intenso arejamento da linguagem musical.

No entanto, o domínio da técnica sem que se permita esse arejamento de linguagens está aquém da arte e mais para o artesanato. Esse domínio da técnica é essencial para sua sobrevivência. Porém, a indústria cultural de massa fez prevalecer suas necessidades de mercado em lugar do desenvolvimento e renovações das técnicas, o que criou uma série de produtos culturais que se parecem com artesanato musical, mas cuja produção em escala industrial não permite que os vejamos assim. É daí que aparece o que podemos chamar de “artesanato industrial” da música.

Esse artesanato industrial – a expressão é tão paradoxal quanto o que ela representa – atende às necessidades mais imediatas de consumo de música, tanto da própria indústria quanto de seus ouvintes. A produção em série dá ao produto final ausência de identidade autoral, mas lhe confere um rótulo igualmente estratégico do ponto-de-vista mercadológico. Essa falta de identidade permite que as produções sejam vazias de conteúdo e absolutamente frágeis quanto à forma: a música – ou a mercadoria, se preferir chamá-la assim – precisa ser fácil para que se possa ter familiaridade com ela desde o primeiro minuto, e, para que essa facilidade seja alcançada, o ouvinte precisa recebê-la sem esforços e de maneira intensa para compreendê-la em sua totalidade. Os veículos midiáticos têm papel fundamental nessa parte do processo, especialmente porque as relações entre estúdios e canais de informação são comercialmente estreitas: uma empresa fabrica o que os veículos de mídia que ela sustenta venderão.

Se esse produto é facilmente recebido, ele também é igualmente descartado, já que a repetição intensa a que se submete cansa rapidamente seus ouvintes. Logo, há nestes uma necessidade constante de novos produtos que são, de certa forma, os mesmos. Se a obra de Beethoven sobrevive há séculos, deve-se à sua complexidade e sensibilidade; a música de Michel Teló não durará além de uns poucos meses, pois é vazia de conteúdo e forma. Os que hoje a repetem mecanicamente, logo a esquecerão por estarem saturados do prazer imediato e insuficiente que ela deve provocar em seus ouvintes, naturalmente menos exigentes. A mesma saturação que faz dessa música um sucesso absoluto irá matá-la impiedosamente quando for tempo. Brevemente.

Vale salientar que os ouvintes da música pop são cada vez menos exigentes e demandam produtos culturais cada vez mais efêmeros. Prova disso é que essa música pop a que chamamos de artesanato industrial serve como pano de fundo para os mais diversos momentos de seus ouvintes, mas nunca como peça principal: ouve-se música para dançar, para varrer a casa, conversar com os amigos, beber com eles, dirigir ou até estudar, porém não se ouve música para ouvi-la, pois o caráter industrial desse artesanato é destituído de alma e corpo.

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