Afrofuturismo em cinco pequenos gestos

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Pode-se dizer que o Afrofuturismo é uma reinvenção do futuro das pessoas negras vivendo na cultura racista ocidental. Seja concebendo a presença dos descendentes de africanos nas narrativas fictícias futuristas, seja representando-os como pertencentes ao mundo da alta tecnologia (e não só de uma certa cultura pautada num passado “primitivo”), seja os negros se apropriando da Ficção Científica para contar histórias pertinentes a sua existência enquanto minoria, o Afrofuturismo se compõe de uma gama de manifestações que atualizam a cultura pop/nerd/geek/futurista segundo um ideal igualitário ainda difícil de ser concretizado, tanto na vida cotidiana quanto nas artes e na ficção.

Em artigo anterior, eu discorri sobre potenciais releituras afrofuturistas de temas recorrentes da Ficção Científica, baseando-me nas ideias de Ytasha Womack em seu livro Afrofuturism: The World of Black Sci Fi and Fantasy Culture, mostrando como os diversos temas e tropos do gênero podem ser reinterpretados como metáforas da tragédia dos afrodescendentes no Atlântico Negro. Mas essas releituras não resultam necessariamente em produtos afrofuturistas e podem não radicalizar suficientemente a proposta. Para que isso seja feito, penso, é preciso que as manifestações de reinvenção afrofuturista da cultura seja protagonizada por negros. Aliás, esse é necessariamente um pré-requisito para se considerar certas iniciativas como autenticamente afrofuturistas.

Isso foi feito por seus principais expoentes, como Sun Ra, na música, Octavia Butler, na literatura, e Spike Lee, no cinema. As grandes obras desses artistas são por si só instrumentos de inspiração. Mas há alguns pequenos gestos, iniciativas e atitudes que fizeram e fazem grande diferença e cujo significado é bastante contundente, não só por terem sido empreendidos por pessoas negras, mas porque ajudaram a mudar certos paradigmas ou, no mínimo, chamaram atenção para certas falhas na representatividade negra na mídia.

1. Nichelle Nichols: where no black woman has gone before

1966 testemunhou o advento de uma grande franquia de Ficção Científica na televisão estadounidense. Em Jornada nas Estrelas (Star Trek), Gene Roddenberry visualizou um futuro de alta tecnologia onde estava presente uma significativa diversidade humana. E entre os principais componentes da ponte de comando da nave estelar Enterprise estava Uhura, oficial de comunicações, uma mulher negra.

Embora a concepção da personagem em si não tenha sido feita pela própria Nichelle Nichols, atriz que a interpretou, há um detalhe interessante a respeito do seu nome. Uhura é derivado de uhuru, palavra suaíli que significa “liberdade”. De acordo com Nichols, o nome da personagem foi concebido por ela junto a Gene Roddenberry, que se basearam no nome de um romance popular na época (Uhuru, de Robert Ruark).

Isso é significativo porque representa a participação de uma atriz negra na construção de uma personagem que viria a ser um ícone muito significativo na cultura pop, além de trazer uma óbvia referência à luta contra a escravidão e à emancipação dos negros como um ideal a ser perseguido e plenamente realizado num futuro utópico.

Podemos perceber que a própria personalidade de Nichols influenciou Uhura, muito notadamente em sua caracterização como uma cantora e dançarina apaixonada que canta e dança por um ímpeto pessoal e não por demanda de uma plateia branca.

A mera presença Nichols/Uhura na tripulação principal de uma série de televisão popular foi tão influente que inspirou muitas crianças negras a seguir carreiras de difícil acesso à população racialmente discriminada. Mae Jemison é uma física e astronauta da NASA que se sentiu encorajada pela atriz/personagem a realizar seu sonho e foi a primeira mulher negra a viajar ao espaço (ela também viria a fazer uma ponta na série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração). Whoopi Goldberg relembra que em sua infância, ao ver Uhura pela primeira vez, correu para avisar sua família:

Acabei de ver uma mulher negra na televisão, e ela não é uma empregada!

Goldberg não apenas veio a ser uma renomada e versátil atriz como fez um papel semirrecorrente em Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, a misteriosa Guinan.

2. Martin Luther King aposta em Uhura

A história contada acima não estaria completa se deixássemos de mencionar o gesto de encorajamento que manteve Nichelle Nichols na franquia Star Trek. A atriz, por considerar seu papel na série como de pouca importância, havia decidido não renovar o contrato para a segunda temporada.

Nichols conta que um dos principais motivadores para que ela se mantivesse na série foi uma rápida conversa com ninguém menos do que Martin Luther King, grande ativista negro que, segundo ela, fez questão de lhe pedir pessoalmente que não abandonasse Star Trek, pois a presença dela na televisão representava um grande incentivo para jovens negras e negros dos EUA, em plena luta pelos direitos civis e contra o segregacionismo racial.

O gesto de Martin Luther King pode ser dividido em duas atitudes encorajadoras. Primeiro, ele se declarou fã de Star Trek e de Uhura, quebrando de forma contundente a ideia preconceituosa de que os negros não se interessam por Ficção Científica ou por ideias futuristas. Puro Afrofuturismo. Segundo, ele foi corresponsável por manter na televisão uma das grandes referências e influências da representatividade negra (e feminina) da cultura pop. Nichelle Nichols não apenas ficaria nas duas temporadas seguintes da série original, como participaria da Série Animada e de todos os seis filmes com a tripulação clássica.

3. Michael Jackson caminha na Lua

Michael Jackson pode ser considerado uma das grandes figuras do Afrofuturismo na música. Ele era um verdadeiro nerd, gostava de quadrinhos e video games. Parte de suas maiores composições musicais, performances coreográficas e videoclipes tem referências a temas da Ficção Científica, do Fantástico e do Terror.

Em 1983, no festival Motown 25: Yesterday, Today, Forever, Jackson executou em público pela primeira vez e de forma espetacular o passo de dança que ele batizou de moonwalk, “caminhada na Lua”. Veja no vídeo abaixo, em 3’37”.

Embora muitos pensem que o dançarino inventou o gesto, na verdade ele aprendeu de outro artista, e a bem da verdade, desde pelo menos 1932 esse passo já era realizado por dançarinos e cantores nos Estados Unidos. Mas o que há de interessante nisso em termos de Afrofuturismo, já que o passo não foi invenção de Michael Jackson?

O que importa neste gesto é o fato de ele ter sido reimaginado por Jackson como uma referência aos avanços científicos. O dançarino que executa o moonwalk parece estar livre da influência da gravidade terrestre, como se estivesse caminhando na Lua. Ou seja, o artista trouxe para a música e a dança negras um conceito futurista. Se faltava representatividade negra na Astronomia em termos de pessoas que já pisaram na Lua ou que já haviam no mínimo ido ao espaço, o cantor e dançarino negro Michael Jackson trouxe para a Terra uma forma de sonhar com a ida de pessoas negras ao satélite natural da Terra.

É interessante lembrar que a primeira pessoa negra a viajar ao espaço foi o cubano Arnaldo Tamayo Méndez, em 1980, na missão soviética Soyuz 38, três anos antes da apresentação de Michael Jackson. Em 1983, deu-se a primeira ida de uma pessoa afro-americana ao espaço, Guion Bluford. Desde então, houve algumas pessoas negras em missões espaciais, entre as quais a primeira mulher negra, Mae Jamison, citada acima, em 1992. Porém, até hoje não houve uma negra ou um negro na Lua.

4. Samuel L. Jackson: o negro é o último a morrer

Star Wars é uma das mais lucrativas e populares franquias de Fantasia Científica de todos os tempos. Mas desde seu início tem sido um tanto pobre em termos de representatividade da diversidade. No elenco original, Leia Organa (Carrie Fisher) cumpria seu papel como elemento do Princípio da Smurfette e Lando Calrissian (Billy Dee Williams) marcava presença num papel coadjuvante.

Mesmo a segunda trilogia continuou fraca em termos de presença de personagens negros, mas melhorou um pouquinho ao colocar Samuel L. Jackson no papel de Mace Windu, um dos mais poderosos mestres da Ordem Jedi e também um dos mais populares personagens dos novos filmes. Sua popularidade se deve em parte por causa de certas características ligadas ao ator que o interpreta. Jackson, sendo careca, costuma incorporar personagens com cabelos extravagantes, e Mace Windu foi uma exceção que chamou atenção do público. Além disso, o sabre-de-luz deste mestre jedi é o único que tem a cor roxa em todos os filmes da franquia (todos os outros jedi têm lâminas que variam entre azul, verde, vermelho e amarelo), e é uma marca da intervenção do próprio ator na concepção visual do personagem.

Como se não bastasse o versátil ator negro ter construído a figura de Mace Windu como um tipo afrofuturista durão e de grande força presencial, ele ainda contribuiu para transgredir um tropo muito comum no cinema, conhecido como “o cara negro morre primeiro“. Segundo este tropo, se há uma pessoa negra num grupo de personagens que vão morrer durante a trama, a probabilidade de ela ser a primeira a ser eliminada é altíssima, e muitas vezes de forma estúpida. O personagem aparece ali, talvez, no máximo para cumprir uma cota de diversidade e é logo descartado quando não se precisa mais dele.

Porém, Samuel L. Jackson solicitou pessoalmente a George Lucas que seu personagem, fadado a morrer no roteiro, não fosse eliminado “como um marginal qualquer” (“like some punk”). Assim, Mace Windu subverteu o tropo ao ser o último de seu grupo a morrer na luta contra o Senador Palpatine e ao fazê-lo de maneira heroica, tendo a vida do inimigo em suas mãos e só sucumbindo porque foi traído por Anakin Skywalker.

5. Janelle Monáe e os androides

Janelle Monáe é uma musicista, compositora, cantora e dançarina estadounidense que tem na versatilidade de estilos uma de suas marcas. Sua música é temática e envolve uma elaborada história de Ficção Científica com temas como viagens no tempo, distopia e inteligência artificial (androides). É considerada, na música contemporânea, como um expoente do Afrofuturismo, não só por misturar música negra com Ficção Científica, mas também por subverter, em suas performances musicais, videoclípicas e de palco, as identidades raciais estabelecidas e as tradicionais camisas-de-força do gênero. Eu a vejo como uma herdeira espiritual de Michael Jackson, uma figura excêntrica que constrói sua imagem pública como uma obra de arte viva e inspiradora.

Na mitologia narrativa criada por Monáe em sua música, a figura dos androides é uma constante, usada como metáfora da alteridade, das minorias oprimidas, dos grupos discriminados e objetificados, especialmente os povos escravizados, como os africanos e seus descendentes na América. E foi usando essa metáfora que a artista, num pequeno gesto afrofuturista, respondeu de maneira magnífica a uma pergunta da imprensa sobre sua sexualidade, sobre se ela é lésbica:

I only date androids. That’s great, they can claim me as well as the straight community, as well as androids. I speak about androids because I think the android represents the new ‘other’. You can compare it to being a lesbian or being a gay man or being a black woman … What I want is for people who feel oppressed or feel like the ‘other’ to connect with the music and to feel like, ‘She represents who I am’.

[Eu só me relaciono com androides. Isso é ótimo, elas [as lésbicas] podem se identificar comigo assim como a comunidade hétero, assim como os androides. Eu falo sobre androides porque penso que o androide representa o novo ‘outro’. Você pode enxergá-lo como representando uma lésbica ou um gay ou uma mulher negra… O que eu quero é que as pessoas que se sentem oprimidas ou se sentem como o ‘outro’ se conectem com a música e pensem: ‘Ela representa quem eu sou’.]

Dessa forma, Janelle Monáe explicita a metáfora do indivíduo coisificado, explorado, expropriado de sua autonomia, presente na figura dos androides, especialmente aqueles que, em histórias como as que ela conta, se rebelam contra a sujeição sob a qual vivem. Seja qual for a orientação sexual de Monáe, o fato é que a forma como ela se apresenta publicamente aciona os preconceitos da cultura em que vive, que assume que certa forma de se vestir e se comportar é supostamente típica de uma mulher homossexual. Neste sentido, identificar-se como androide é jogar para o público uma dúvida que representa a impossibilidade de se inferir, sem algum grau de preconceito, qualquer coisa a respeito da identidade individual de outra pessoa.

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Éowyn e os Homens

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J. R. R. Tolkien pode ser considerado um autor extremamente imaginativo e criador de histórias instigantes, além de ser reconhecido como uma das maiores influências do gênero “alta fantasia” (high-fantasy). Eu admiro sua obra, em suas virtudes e com seus defeitos. O que é dizer que há elementos em seus escritos que podem perfeitamente ser criticados sob uma luz contemporânea.

Um desses elementos é o racismo sub-reptício em sua caracterização dos povos humanos da Terra-Média, especialmente visível em O Silmarillion, onde há humanos de natureza mais nobre, mais parecidos com europeus, e humanos de caráter mais vil e servil, cuja aparência remete aos médio-orientais e/ou aos africanos.

Também é notório o androcentrismo da obra, elemento estrutural de suas narrativas que não está lá à toa, tendo em vista o autor pertencer a uma época e a uma cultura que tinha (e a ainda tem) no homem (do sexo masculino) o modelo arquetípico de ser humano. Não é irrelevante notar que Tolkien era um cristão devoto e que o Cristianismo é tradicionalmente machista: Adão foi criado à semelhança de Deus; Eva foi criada para servir Adão.

Não é que sua obra, sendo de natureza literária, não possua pistas e chaves para a desconstrução de valores tradicionais como os papéis de gênero e as identidades de gênero. É possível perceber na leitura de O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, entre outros escritos de Tolkien, detalhes importantes e pertinentes para ver nesses livros o caráter transgressor da Literatura, este apontado por Roland Barthes em sua Aula, mesmo que no caso do escritor britânico essa subversão seja tímida.

Melanie Rost, por exemplo, em seu ensaio Masculinity in Tolkien, mostra que diversas figuras masculinas da obra do escritor subvertem o ideal de masculinidade presente na tradição literária fantástica europeia. Aragorn, por exemplo, é diferente dos reis tradicionais de histórias como as de Arthur, pois conquista seus súditos com amor e não com glória bélica. Bilbo é diferente dos heróis convencionais, pois conquista seu heroímo através do uso da conciliação e não de seu valor em batalha, a qual evita a todo o custo.

Homens, Anões, Hobbits e Elfos

“Homens”, Anões, Hobbits e Elfos

Homens

Uma das coisas que me chamaram muita atenção desde a primeira vez em que li O Senhor dos Anéis foi a forma como Tolkien se refere à raça humana: Homens ou, em inglês, Men, sempre com inicial maiúscula (outras raças também era nomeadas com maiúsculas: Elfos, Anões, Hobbits etc.). Esse modo de designar a espécie humana com uma palavra que também denota o indivíduo de gênero masculino desta espécie não é nada muito diferente do tradicional, na realidade, pois é comum até hoje as pessoas se referirem aos seres humanos de ambos os gêneros como “homens” (“men”), e ao ser humano em geral como “o Homem” (“Man”), este às vezes com inicial maiúscula, para diferenciar da referência a um indivíduo específico. Ora, vejamos as definições tradicionais de man e de homem, retiradas, respectivamente, dos sites-dicionários Oxford Dictionaries (inglês) e Priberam (português) (os exemplos e significados derivados foram suprimidos, mas podem ser conferidos nos respectivos sites originais):

Definition of man in English:
noun (plural men /mɛn/)

1. An adult human male:
(…)
2. A human being of either sex; a person:
(…)
2.1 (also Man) [in singular] Human beings in general; the human race:
(…)

ho·mem
(latim homo,inis)
substantivo masculino

1. [Zoologia]  Mamífero primata, bípede, com capacidade de fala, e que constitui o .gênero humano.
2. Indivíduo masculino do .gênero humano (depois da adolescência).
3. [Figurado]  Humanidade, .gênero humano.
4. Cônjuge ou pessoa do sexo masculino com quem se mantém uma relação sentimental e/ou sexual.
5. Pessoa do sexo masculino que demonstra força, coragem ou vigor.

O sentido dúbio da palavra homem está instrinsecamente relacionado à representação androcêntrica do ser humano como um ser modelarmente masculino, uma representação que enxerga sub-repticiamente (às vezes explicitamente) as mulheres como uma variação do ser humano “normal”, uma criatura secundária, até mesmo incompleta comparada ao modelo ideal masculino (esta visão da mulher como um “homem defeituoso” era explicitamente defendida na Grécia Antiga, cuja cultura exerce influência milenar sobre nós). (No artigo A Evolução do Homem Branco eu explorei um pouco esse tema, inclusive a representação do ser humano idealizado como branco-europeu.)

Em Tolkien, como já afirmei acima, não se foge dessa nomenclatura tradicional e antiga. Porém, é interessante notar o uso específico pelo escritor britânico das formas Man, Men, man e men. Quando usa a palavra com inicial maiúscula (tanto no singular quanto no plural), Man/Men se referem à raça mortal à qual, por exemplo, pertencem Boromir de Gondor e Éowyn de Rohan. Quando escrito com minúscula, man/men designa indivíduos específicos do sexo masculino, em alguns casos até mesmo de raças não humanas (essa dicotomia, traduzida para o português, não traz diferença significativa em relação ao original inglês). Assim, Boromir e Éowyn são Homens (maiúsc.), pertencem à raça Homem (maiúsc.), enquanto Galadriel e Meriadoc Brandebuque, sendo respectivamente uma Elfa e um Hobbit, não podem ser chamados de Homens (maiúsc.); por outro lado, se Boromir é um homem (minúsc.), Éowyn não o é, pois pertence ao gênero feminino, é mulher; Galadriel também pode ser referida, nos termos de Tolkien, como uma mulher Elfa, enquanto Meriadoc pode ser chamado de homem (minúsc.) Hobbit.

Éowyn

Entretanto, uma das cenas mais impactantes de O Senhor dos Anéis coincide com um momento em que Tolkien flerta com uma subversão dessa regra: o embate entre a guerreira Éowyn e o Senhor dos Nazgûl, no capítulo “A Batalha dos Campos de Pelennor”. Esse momento fatídico é a culminação de um ato de rebeldia da sobrinha do rei Théoden, proibida por este de participar da batalha nos campos de Pelennor. Disfarçada com um elmo, Éowyn, usando o pseudônimo Dernhelm, não só adentra as fileiras de seus conterrâneos Rohirrim como leva seu amigo Meriadoc, mais conhecido como Merry, o Hobbit que também fora instado pelo rei a ficar com as mulheres e crianças durante o conflito.

Depois que o Rei-Bruxo derruba Théoden de seu cavalo e entrega a montaria do monarca como presa à sua própria montaria alada, Éowyn se interpõe temerariamente diante do inimigo, ao que este responde com uma zombaria (a tradução em português é da edição da Martins Fontes):

Thou fool. No living man may hinder me.

[Tu és tolo. Nenhum homem mortal pode me impedir!]

A guerreira remata:

But no living man am I! You look upon a woman. Éowyn I am, Éomund’s daughter. You stand between me and my lord and kin. Begone, if you be not deathless! For living or dark undead, I will smite you, if you touch him.

[Mas não sou um homem mortal! Você está olhando para uma mulher. Sou Éowyn, filha de Éomund. Você está se interpondo entre mim e meu senhor, que também é meu parente. Suma daqui, se não for imortal! Pois seja vivo ou morto-vivo obscuro, vou golpeá-lo se tocar nele.]

Resumindo o restante da cena, o Nazgûl hesita, Éowyn decapita o monstro alado, o inimigo ameaça atacá-la com sua maça, Merry atravessa o joelho do dele por trás com uma adaga, ela golpeia com sua lâmina a cabeça do vilão e este se deteriora em pleno ar.

O que esta sucessão de acontecimentos e, especialmente, essa troca de palavras entre a heroína e seu oponente me leva a pensar em termos de significado e ressignificação é a desconstrução que o texto de Tolkien faz de sua própria forma androcêntrica de conceber a humanidade. A narrativa neste trecho é extremamente densa, e o trocadilho que envolve a palavra “man” (“homem”) serve, explicitamente, para criar um efeito dramático que provoca um arrepio na espinha do leitor, pois a profecia do Nazgûl é posta em cheque pela quebra da expectativa de estar diante de um indivíduo do sexo masculino, contrariando ao mesmo tempo o preconceito de que num campo de batalha qualquer Homem (maiúsc.) deveria ser um homem (minúsc.).

Porém, mais do que perceber com os sentidos que se trata de uma pessoa do sexo feminino, podemos pensar que é o discurso de Éowyn que realmente provoca impacto sobre a postura desafiadora do Nazgûl: ele poderia continuar pensando, mesmo depois de ver a mulher, que ela continuava sendo um Homem (maiúsc.), ou seja, um ser humano, já que, embora o texto mostre a palavra com minúscula, na fala essa diferença de escrita é despercebida. Assim, quem acerta o primeiro golpe no duelo é Éowyn, com suas palavras, e estas já provocam o efeito que seu inimigo pensou que evitaria: ele hesita, ou seja, ele se detém (hinder), o que de certa forma já dá início a sua derrota.

O trecho pode ser lido, repito, como um momento de autodesconstrução do próprio texto. A fala de Éowyn desafia a designação tradicional do ser humano como “Homem”, tendo em vista o valor machista veiculado (intencionalmente ou não) por meio desta palavra. Se o Nazgûl, em princípio, deixa implícito que “living man” pode se referir a qualquer ser humano, o feroz contragolpe, neste duelo de palavras, chega mesmo a desconcertar o decoroso Lorde, ressoando talvez o desconcerto do leitor do livro ao descobrir que aquele jovem cavaleiro chamado Dernhelm é na verdade a sobrinha do rei, e as circunstâncias da luta concretizam o que estava previsto: o Nazgûl é detido e morto pelo golpe de uma mulher, não de um homem.

Ainda mais interessante é a profundidade que esta desconstrução e jogo de palavras alcançam se notarmos que Merry teve participação na derrota do vilão. Ele, Merry, não é um Homem (maiúsc.), embora seja, nos termos tolkenianos, um homem (minúsc.). Um Hobbit, não um Homem, também conseguiu deter (hinder) o Nazgûl com um golpe em seu joelho. Esse elemento adiciona mais sentido a essa desconstrução ao evidenciar a possibilidade de confusão entre os termos com maiúscula e com minúscula, confusão “proposital” que faz parte da própria ideologia da desigualdade de sexo/gênero, responsável por manter a ideia de que o homem do sexo masculino é o modelo padrão de ser humano; ao escutar em voz alta o texto dessa passagem do livro, não temos como identificar a marcação da diferença na letra minúscula: nem Éowyn nem Merry são (h/H)omens.

Podemos deixar essa equivalência fonética e semântica mais clara, vendo o trecho do filme O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, que corresponde ao capítulo “A Batalha dos Campos de Pelennor”, onde o diálogo foi reelaborado, mas o trocadilho se manteve e o efeito dramático mudou com o uso dos efeitos visuais.

Esclarecimentos

A ideia da desconstrução do androcentrismo estrutural reproduzido pela língua tem sido debatida entre feministas, desde pelo menos a primeira metade do século XX, com Simone de Beauvoir, e por linguistas de diversas vertentes, especialmente na área da Análise do Discurso, como a Linguística Sistêmica Funcional (Michael Halliday etc.) e a Análise Crítica do Discurso (Norman Fairclough etc.). Digo isso principalmente para que os desavisados não pensem que estou inventando moda, ou que só eu e alguns felinos gotejados estamos enxergando folículos capilares em óvulos não-fecundados de aves galináceas.

Também adianto, antes de mais nada, que gosto muito dos livros de Tolkien e que qualquer obra realizada por seres humanos portadores de individualidade única está sujeita a altos e baixos sob o olhar de quem a admira, como disse no início do texto, em suas virtudes e com seus defeitos que a tornam um objeto singular, para apreciação e para crítica. Ambas podem enriquecer a obra ainda mais.

Fontes bibliográficas

  • TOLKIEN, J. R. R. The lord of the rings – 50th anniversary edition. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 2004.
  • _______. O senhor dos anéis: o retorno do rei. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Links

Imagens

  • Destaque: Éowyn du Rohan, por Donato Giancola
  • JRR Tolkien, por Audrey Benjaminsen – DeviantArt
  • Elrond Recalls the Hosts of Gil-Galad, por Michael Kaluta
  • Trecho de Éowyn Before the Doors of Meduseld, por Michael Kaluta
  • Éowyn and the Nazgûl, por John Howe
  • Éowyn & Nazgûl, por Donato Giancola

As línguas em Star Wars

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Já comentei anteriormente sobre as extrapolações de vida alienígena na franquia Star Wars (Guerra nas Estrelas), mais radicais do que, por exemplo, Star Trek (Jornada nas Estrelas). Na ocasião, apontei para o fato de que a saga de George Lucas não é tão ficção científica quanto o universo concebido por Gene Roddenberry, mas mesmo assim a fantástica galáxia dos jedis vai mais além ao imaginar espécies não-humanas do que o mundo futurista da Federação Unida de Planetas (neste os extraterrestres são apenas humanos de outras culturas disfarçados de alienígenas).

Isso tudo acontece, aparentemente, despretensiosamente, e não é um tema explorado nas histórias dos filmes. Da mesma forma, a questão dos idiomas e variantes linguísticas falados pelos personagens é um detalhe pitoresco e secundário, mas se for bem analisado pode nos levar a reflexões tão interessantes quanto as suscitadas em Star Trek. Nesta, encontramos várias situações pertinentes aos interesses da Linguística, como escrevi anteriormente, mas veremos no presente artigo que isso se dá de maneira diferente nos dois universos fictícios.

E como podemos abordar Star Wars quanto às línguas? É preciso começar dizendo que a maioria dos personagens fala inglês. Podemos, entretanto, entender que a língua mais comumente falada nessa galáxia fictícia não é a inglesa, mas foi convenientemente “traduzida” para os espectadores terráqueos (assim como Tolkien supostamente “traduziu” O Hobbit e O Senhor dos Anéis do westron para o inglês). Portanto, o que é pertinente aqui é o fato de haver uma língua franca na Galáxia. A partir desta constatação, observamos vários contextos interessantes em que essa língua está longe de ser a única maneira de as pessoas das mais variadas espécies se comunicarem entre si.

Um tradutor universal plausível

Quando discorremos anteriormente sobre as línguas em Star Trek, observamos que na realidade o fictício tradutor universal seria bem mais complicado do que parece ser nas séries e nos filmes daquela franquia. Mas em Star Wars temos um dispositivo que encarna as funções do tradutor de uma maneira que parece ser bem mais plausível: o droide C-3P0.

Diferente do maravilhoso aparelho que traduz simultaneamente (quase como se conseguisse ler os pensamentos dos interlocutores), nosso querido robô dourado (com uma perna prateada) funciona na prática como um intérprete, fazendo traduções mediatas. Fluente em mais de 6 milhões de formas de comunicação, infere-se que seu escopo de conhecimentos envolve não apenas línguas propriamente ditas, mas linguagens de outros tipos, o que pode nos levar a questionar se há espécies na Galáxia que possuem formas de comunicação que não sejam línguas.

Como C-3P0 é um droide diplomata, fica bastante verossímil seu papel de intérprete não como meramente um tradutor, mas como mediador. Podemos entender seu programa como extremamente avançado a ponto de apreender frases completas e contextualizadas (já que ele é um robô com sentidos que o permitem perceber outros elementos do contexto da comunicação que possibilitem a compreensão de elementos não-textuais da comunicação) e traduzi-las apropriadamente. Inclusive, ele é capaz de interpretar as situações com empatia, percebendo a presença de certos sentimentos e até fazer sugestões, por exemplo, para que os interlocutores tenham cautela diante de colocações maliciosas ou ameaças.

Em suma, esse carismático droide é uma solução bem mais plausível e factível, enquanto elemento de uma ficção científica verossímil, do que o tradutor universal. Não é nada absurdo imaginar um robô de tamanho humano feito com tecnologia avançadíssima e que contenha dados suficientes para estabelecer comunicação com milhões de línguas, através da interpretação mediata e não de uma tradução simultânea imediata que, num cenário realista, poderia implicar em erros toscos de tradução, mal-entendidos e até conflitos entre as partes que tentam estabelecer contato entre si.

Fonética alienígena

A primeira quebra no paradigma da língua universal se dá logo na primeira cena de Star Wars IV: Uma Nova Esperança, em que vemos dois droides dialogando enquanto tentam escapar de um tiroteio. Um deles, R2-D2, não “fala” a língua comum, mas se comunica através de zumbidos, blipes e zoada eletrônica, além de fazer alguns movimentos com sua cabeça circular que gira ao redor de um eixo. Todos ao redor entendem o que ele diz e ele entende o que todos os outros dizem.

Mas talvez chame mais atenção o grandalhão Chewbacca. Ele (e os outros wookies que aparecem no episódio III) são um exemplo interessante de extrapolação da fonética humana. É praticamente impossível para essa espécie falar o idioma comum, assim como para humanos falar a língua dos wookies, ao menos pelo que se depreende das histórias. Isso cria uma situação em que aparentemente não há hierarquia de prestígio entre as duas formas de comunicação, pois as duas são impronunciáveis para a respectiva espécie não nativa, e todos se entendem, cada um falando em seu próprio idioma.

Nessa circunstância, é inviável que cada falante se meta a ficar corrigindo os possíveis “erros” de seu interlocutor, pois a necessidade de comunicação se sobrepõe a qualquer ideia sobre algum tipo de forma ideal ou pura de um idioma. Cada comunicador sabe a forma de se expressar em seu próprio código. Isso também acontece na comunicação com R2-D2 e outros droides em sua relação com seres que falam línguas “orgânicas”. O pequeno droide emite sons eletrônicos que formam “frases” inteligíveis para os que conhecem seu código. Mas o exemplo de R2 não é dos melhores.

Um outro bom exemplo do modelo wookie de diversidade linguística aparece no Episódio II: Ataque dos Clones, com os geonosianos, insectoides bípedes que aparentam viver numa sociedade estilo colmeia. Eles falam um idioma repleto de sons inumanos, como estalidos, rangidos e claques feitos com os “lábios” de quitina. Diante de um conselho de representantes separatistas que falam idiomas diversos, o líder geonosiano fala em sua própria língua sem receio de ser incompreendido, bem como compreende os outros membros da mesa.

Variantes e dialetos

Um elemento de diversidade linguística que muitas vezes falta em universos de ficção científica e fantasia são as variações linguísticas. É difícil encontrar nessas histórias as diversas variantes léxicas, fonéticas ou sintáticas que são características de qualquer língua. O exemplo mais notório da rara presença desse elemento é a Terra-Média de Tolkien, com as diversas línguas e dialetos falados pelos elfos, todas derivadas de um idioma-mãe. Mas neste caso se trata da obra de um filólogo que tinha como um de seus principais motivos para escrever o registro de suas ideias sobre línguas e os idiomas que ele gostava de inventar.

Star Trek prescinde totalmente disso, a não ser que se considerem os diversos sotaques da língua inglesa falados pelos atores das séries e filmes, um elemento incidental. Porém, Star Wars tem um exemplo interessantíssimo de variante no estilo dialeto/jargão: a fala de Jabba o Hutt e de outros criminosos do submundo do planeta Tatooine, o chamado idioma huttês. É bastante notável que o trabalho por trás das câmeras consistiu em improvisar as falas com base na sonoridade e construção das frases em inglês.

A cena da primeira aparição de Jabba, por exemplo, foi filmada com um ator real falando em inglês que depois foi substituído por uma animação em CG e teve sua voz sobreposta por uma improvisação que soasse como a língua dos hutts mas que se parecesse foneticamente com o que o ator original falou (esse método foi usado por Marc Okrand para criar uma boa parte do idioma klingon em Star Trek). Dessa forma, às vezes dá até para adivinhar o que dizem os mafiosos, como se se tratasse de um dialeto ou um código para dificultar a compreensão por parte de intrometidos e das autoridades. Inadvertidamente, acabou sendo criado um idioma que em algumas situações parece um jargão para disfarçar negócios escusos.

“Han, ma bookie” = “Han, my boy” [“Han, meu garoto”].

É claro que a maior parte do que os personagens que falam huttês dizem não tem nada a ver com o inglês, mas podemos pensar que esse jargão foi evoluindo com o tempo e se diferenciou muito da língua padrão. Mais ainda, podemos dizer que ambas as línguas evoluíram de uma matriz comum. E um outro ponto interessante sobre esse caso é a necessidade de um intérprete twi’lek quando os heróis do Episódio VI conversam com o chefão Jabba, afinal, nem sempre todo mundo vai conhecer as línguas de outros povos para conversar livremente entre si.

Sintaxe e aprendizado de novas línguas

Quase sempre que alguém aprende um idioma alienígena em histórias de aventura como Star Wars, é notório seu perfeito domínio de tal idioma, mesmo que o tempo para aprender tenha sido muito curto. Mas na realidade não é difícil encontrar pessoas que mesmo depois de muitos anos falando uma língua estrangeira ainda guardam traços perfeitamente distinguíveis de seu idioma materno, sejam traços fonéticos, lexicais ou sintáticos.

Yoda é um exemplo muito interessante disso. Com cerca de 900 anos de idade e profundamente sábio, o pequeno Mestre Jedi não consegue falar o idioma comum sem usar a estrutura SOV (sujeito, objeto, verbo), que se diferencia da ordem normal do inglês e de grande parte das línguas ocidentais como o português, que elaboram as sentenças na ordem SVO (sujeito, verbo, objeto). Isso pode facilmente ser interpretado como uma sinal de que a língua materna de Yoda utiliza a ordem SOV.

Este e outros aspectos discutidos antes nos levam a notar a completa ausência de mecanismos de tradução automática tais quais o tradutor universal presente em Star Trek, que, se existisse em Star Wars, eliminaria toda essa gama de situações pitorescas e interessantes na comunicação entre os personagens, pois de outra forma todos falariam “inglês” com a mesma aparente desenvoltura. Na vida real, a tradução e o aprendizado de idiomas é um trabalho complexo e difícil.

Evolução das línguas

A maioria das espécies da Galáxia consegue se comunicar entre si sem problemas, pois em geral conhecem as línguas umas das outras e podem até conversar usando seus próprios idiomas maternos sem óbices para a compreensão mútua. Mas num lugar tão grande e com tantas centenas de sistemas planetários habitados, não pode ser surpreendente encontrar uma espécie ou outra que se manteve isolada do resto dos povos, que não conhece a língua franca e cujo idioma é praticamente desconhecido ou, em certos casos, esquecido pelas outras raças.

Os ewoks da Lua de Endor são pequenos humanoides peludos que lembram ursos antropomórficos. Seu primeiro contato com alienígenas ocorreu durante a Guerra Civil que culminou na derrocada do Império Galáctico e na qual tiveram participação importante. Nesse contato, nem os humanos da Aliança Rebelde nem os ewoks conseguiram estabelecer comunicação linguística direta, e foram obrigados a recorrer a C-3P0, que conhecia uma língua semelhante, provavelmente um idioma com raízes em comum com o dos ewoks.

Essa situação linguística é uma das mais emblemáticas em Star Wars, pois traz à tona a necessidade de aprender uma língua estrangeira para estabelecer comunicação, o que em geral é resolvido de maneira um tanto mágica em outras histórias de ficção científica. Aqui os interlocutores precisam encontrar um jeito de se entenderem sem o uso de um tradutor universal. Sua solução mais prática foi utilizar C-3P0, que traduz mutuamente aquilo que cada lado diz ao outro. Mesmo assim não foi um processo fácil e o contato entre eles quase resultou na morte dos rebeldes.

Além disso, é interessante ver aí, mesmo que de forma superficial, um caso de línguas irmãs cuja semelhança facilitou o contato direto entre o droide intérprete e os nativos de Endor. Embora C-3P0 se refira à língua dos ewoks como um dialeto “primitivo” cuja forma mais “avançada” ele conhece (termos que no âmbito da Linguística não se aplicariam), podemos considerar que são duas línguas com origem comum, assim como o são o Português e o Espanhol, derivados do Latim. Se recorrermos a Star Trek, não encontramos praticamente nada neste sentido, pois lá cada língua parece estar bem delimitada e distinguida, e parece ser dada, como se não tivesse história.

Que a Língua esteja com você

Em Star Trek, tínhamos visto que existe uma preocupação constante com a verossimilhança, característica da ficção científica, e vemos no exemplo da língua klingon a elaboração cuidadosa e detalhista da diversidade na ficção. Mas em Star Wars a diversidade parece ser concebida de modo intuitivo, o que faz aparecer exemplos pitorescos saídos da imaginação fantástica e talvez por isso mais interessantes do ponto de vista de um possível vislumbre da radical diversidade de formas de comunicação dos seres vivos no mundo e das criaturas inteligentes no Universo.

10 games importantes para mim

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Faz algum tempo um amigo meu compartilhou essa “corrente” no Facebook, pedindo aos amigos citados em seu post, eu incluso, que listassem 10 jogos importantes para si (pelo que entendi, deveriam ser jogos eletrônicos, ou seja, video games, embora eu tenha visto algumas pessoas fazerem suas listas incluindo jogos de tabuleiro). O desafio consistia em não pensar demais ao escolher os itens da lista, colocando aqueles que primeiro viessem à cabeça.

Eu tentei fazer isso, mas achei melhor ponderar um pouco antes de construir a lista. Resolvi “distribuir” os jogos elegendo pelo menos um título de cada plataforma das que mais joguei. Também decidi que aderiria ao desafio através de um post na Teia, formato que eu vi outras pessoas fazendo também. Ei-los, dez video games impactantes para mim, relacionados mais ou menos cronologicamente.

1. Frostbite (Atari)

O primeiro console que joguei foi um Atari da CCE, lá pela segunda metade da década de 1980. Entre os diversos jogos que tive a oportunidade de experimentar, aquele do qual tenho uma memória mais interessante é Frostbite, simplesmente porque lembro de ter chegado numa fase adiantada e ter feito muitos pontos (ao menos em comparação a outras pessoas que vi jogando, o que pode não ser tão grande coisa).

Nesse jogo, o protagonista aparentemente é um esquimó que precisa construir um iglu e para conseguir matéria-prima tem pular em cima de blocos de gelo flutuando num rio, enquanto evita ser atacado por pássaros, peixes e um urso polar.

2. Asterix (Master System)

Acho que Asterix foi o jogo que mais joguei no Master System, mais até do que Alex Kidd in Miracle World, que vinha na memória do console. Baseado numa série de quadrinhos francesa de que gostava (e gosto) muito, o jogo permitia controlar o gaulês Asterix e/ou seu amigo Obelix, numa missão para resgatar Panoramix, o druida da aldeia, raptado pelo Império Romano. Sempre que eu jogava eu me desafiava a terminar a partida sem perder nenhuma vida, o que não era tão fácil em algumas fases que exigiam rapidez e precisão. Aliás, o jogo era interessante por apresentar desafios diversos que demandavam diferentes tipos de habilidades do jogador.

3. Alien vs. Predator (Arcade)

Joguei muitas vezes esse jogo no arcade com meu irmão. Dois predadores e dois humanos enfrentam um enxame de xenomorfos. O jogo é repleto de referências aos dois primeiros filmes da franquia Alien e aos dois primeiro títulos de Predador. Por algum motivo, eu preferia e só jogava com o Predador Guerreiro (Predator Warrior). Pelo que me consta, até hoje Alien vs. Predator do arcade continua sendo a melhor adaptação desse famigerado crossover.

4. Sonic 3 & Knuckles (Mega Drive)

Esses na verdade eram dois jogos distintos originalmente feitos pela Sega para ser um só. Sonic the Hedgehog 3 era a continuação de Sonic the Hedgehog 2, e logo em seguida vinha Sonic & Knuckles. O cartucho deste possuía uma entrada para outros cartuchos do Mega Drive, e ao acoplar nele o Sonic 3 era possível jogá-los como um jogo único, somando as fases de ambos. Eu nunca havia terminado Sonic 3 (devido a um trecho do jogo cuja solução era extremamente difícil de decifrar) enquanto tinha um Mega Drive, embora tivesse zerado inúmeras vezes Sonic & Knuckles. Anos depois eu jogaria tudo de novo num emulador e conseguiria concluir o jogo todo sem usar nenhum macete.

5. The Lost Vikings e The Lost Vikings 2 (PC e emulador do SNES)

Coloco estes dois em conjunto porque um acaba implicando o outro, e basicamente o segundo é uma extensão do primeiro. É possível que estes dois joguinhos sejam meus quebra-cabeças favoritos. Joguei The Lost Vikings no PC e The Lost Vikings 2 no Super Nintendo (na verdade foi no PC também, usando um  emulador de SNES).

Acompanhando a história de três amigos vikings que foram capturados por uma poderosa entidade chamada Tomator, o jogador deve utilizar as habilidades únicas de Eric o Ágil, Baleog o Forte e Olaf o Robusto para solucionar cada fase, que não pode ser terminada sem que se utilizem os poderes combinados dos três. Muito bem-humorado e com diversas referências à cultura pop/nerd, é uma obra-prima dos puzzles eletrônicos.

6. Chrono Trigger (emulador do SNES)

No embalo dos emuladores para PC, eu joguei muitos títulos que não havia jogado nos consoles, especialmente do SNES, ao qual nunca tive muito acesso senão nas lojas que alugavam horas para jogar nos consoles que elas dispunham aos clientes. Chrono Trigger foi um dos poucos RPGs eletrônicos que joguei, talvez por ser um autêntico paradigma do gênero.

Seguindo a trajetória de Crono, um espadachim que viaja no tempo e faz amigos em diversas épocas e lugares, o jogador se envolve numa trama espaço-temporal sem começo, meio nem fim (ao menos não no sentido cronológico convencional) para reestabelecer o equilíbrio do mundo. O jogo permite vários finais alternativos, dependendo das escolhas feitas pelo jogador. Mas eu só cheguei a ver dois ou três finais diferentes, pois a aventura completa demandava tempo demais.

7. Warcraft II: Tides of Darkness (PC)

Nunca cheguei a jogar Warcraft: Orcs and Humans, conheci direto seu sucessor, através de uma demo que vinha num CD que acompanhava uma revista. Warcraft 2: Tides of Darkness, como seu antecessor, é um jogo de estratégia em tempo real (RTS), com cenário medievalesco, no qual duas facções, uma comandada por humanos e outra liderada por orcs, se enfrentam numa guerra interdimensional que envolve várias raças, como elfos, goblins, trolls e gnomos.

Eu nunca fui muito bom em jogos deste estilo, mas gostava muito do conceito do cenário, da história, do design e da possibilidade de criar fases. Anos e anos depois, eu me aventuraria a jogar World of Warcraft, um MMORPG que se passa em Azeroth, o mesmo mundo de fantasia de Warcraft 2.

8. Street Fighter Alpha 3 (Mame)

Um dos emuladores que mais joguei foi o Final Burn, uma variação do Mame, que emula jogos de arcade. E entre seus jogos aquele em que mais me detive foi Street Fighter Alpha 3, que seguia o mesmo formato tradicional da franquia e disponibilizava dezenas de personagens, cada um com sua história. Mas inevitavelmente eu jogava com Blanka 95% das vezes.

Esse jogo me acompanhou durante uma fase em que eu estava me recuperando de uma séria cirurgia no olho direito, cujas complicações que me deixaram apenas com a visão do olho esquerdo, esta já comprometida por acontecimentos anteriores. Eu suspeito que ter jogado jogos desse tipo, que exigem muita rapidez dos olhos, me ajudou a melhorar meu campo de visão.

9. Batman: Arkham Asylum e Arkham City (PS3)

Eu demorei a me atualizar nas novas gerações de video games. Nunca joguei no PS1 e só joguei poucas vezes no PS2 de outras pessoas, e com XBOXes e Wiis eu só vim ter contato há pouquíssimo tempo. Mas o PS3 fez parte da minha vida recente de gamer. E entre os melhores jogos dessa geração para mim estão os dois primeiros títulos da franquia Batman: Arkham. O primeiro deles, Batman: Arkham Asylum, mostrou finalmente uma adaptação digna do super-herói de Gotham City para os video games, com um sistema de luta inovador e empolgante, a possibilidade de agir como um predador à espreita dos capangas do Coringa e habilidades de detetive interessantes.

Eu junto esse jogo a sua sequência, Batman: Arkham City, porque este é basicamente um superaprimoramento do primeiro, com combates mais ricos e, especialmente, ferramentas de investigação que exigem mais atenção do jogador. Para se sentir na pele do Cavaleiro das Trevas, não conheço nada melhor do que esses dois jogos.

10. Portal e Portal 2 (PC)

Desde a antiga geração de jogos em primeira pessoa dos quais Doom é o mais aclamado (e que inclui o antigo Wolfenstein 3D e o popular Duke Nukem 3D), eu nunca havia jogado first person shooters da linhagem inaugurada por Counter Strike (teclado + mouse e maior complexidade de interação com cenário e personagens). Eu só fui aderir a esse modelo por causa de Portal, o primeiro first person game que realmente tive vontade de jogar, por não ser simplesmente baseado na abordagem “seek and destroy”, mas por sua proposta inovadora de se constituir como um first person puzzle extremamente instigante e inteligente.

O jogo também chamou-me atenção por ter uma protagonista feminina e pelo fato de também a antagonista ser feminina. Sua sequência, Portal 2, continua a história com novos elementos que complexificam a história do cenário e incrementam a jogabilidade.

Star Wars VII: uma renovada esperança

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28 de novembro de 2014 e.c. foi marcado pelo lançamento do primeiro teaser trailer de Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força. O curto vídeo provocou comoção geral na internet e muitas especulações sobre o papel de cada personagem que aparece em tela e os lugares/planetas onde eles se apresentam.

Pessoalmente, fiquei bastante empolgado com o trailer, graças em parte, talvez, por ter mantido as expectativas bem baixas, tendo em vista o retrocesso que foi a nova trilogia, o fato de a franquia agora pertencer à Disney e o filme ser dirigido por J. J. Abrams, que, na minha opinião, dilapidou Star Trek em seus dois últimos filmes. Mas o trailer traz uma renovada esperança, talvez aquela outra sobre a qual disse Yoda a Obi-Wan.

Comentando cena por cena, começo dizendo que a súbita aparição de um personagem negro logo no início do vídeo é muito significativa, já que Star Wars é tradicionalmente dominada por figuras brancas. Se John Boyega é o primeiro a aparecer, isso provavelmente quer dizer que ele não é um coadjuvante como Lando Calrissian (Billy Dee Williams) ou Mace Windu (Samuel L. Jackson). Não conheço Boyega de nome nem lembro dele em outro filme, mas não se pode negar a importância da representatividade que se vislumbra no destaque dado a ele no trailer. (Ademais, uma das qualidades de Abrams como diretor é seu tato o quesito elenco.)

O fato de o homem estar vestindo uma armadura de stormtrooper provoca o espectador que conhece o universo de Star Wars, pois ficamos imaginando se esse indivíduo é um soldado desertor do derrocado Império ou se ele repete a memorável cena em que Luke e Han se disfarçam com as armaduras brancas para resgatar Leia. Seja como for, temos à vista um provável cliffhanger digno de Abrams.

A inusitada entrada em cena de um robozinho de design curioso, lembrando R2-D2 e outros droides astromecânicos da franquia, anuncia com veemência a renovação visual da nova proposta (é possível que a esfera sobre a qual roda o pequeno robô se encaixe de maneira inteligente na respectiva entrada da nave da qual é copiloto). Diferente de Star Trek, que teve todo o design remodelado (pelo próprio Abrams) mesmo se passado numa época já superexplorada nas séries de TV, aqui temos uma justificativa plausível e verossímil, tendo em vista que o Episódio VII se passa décadas depois da trilogia original, o que implica evolução da tecnologia.

Porém, essa evolução, felizmente, não quer dizer que o aspecto “sujo” característico de Star Wars esteja ausente. O próprio cenário desértico em que se passa a maior parte das cenas do vídeo garante o espalhamento de poeira sobre droides, indumentárias e veículos. Não sabemos ainda se o planeta aqui é Tatooine, mas mesmo que não seja, ele é certamente uma reminiscência intencional do mundo-natal de Luke e Anakin.

Como sempre, os empoeirados rebeldes (se é que ainda existe razão para haver uma Aliança Rebelde) são contrastados pelos stormtroopers reluzentes e limpos que mostram o sempiterno caráter frio e robotizante dos vilões de Star Wars. A renovação do design dos “soldados brancos” faz sentido pela supracitada evolução e pode simbolizar a renovação dos recursos dos reminiscentes do Império.

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Alterando novamente para o lado da luz do conflito, a personagem de Daisy Ridley (que também não sei quem é) se mostra como uma provável sucessora de Leia e Padmé, seguindo a boa tradição de colocar no grupo de protagonistas uma mulher forte e proativa, como atestam seus gestos e sua atitude ao conduzir um arrojado speeder pelo deserto tatooinesco. Mas se a representatividade feminina entre os papéis de destaque do filme não passar disso, será uma pena (ainda estou aguardando esperançoso para saber quais serão os papéis de Lupita Nyong’o e Gwendoline Christie, duas mulheres que escapam do padrão das atrizes hollywoodianas).

À corredora do speeder se segue a cena de um piloto de X-Wing, interpretado por Oscar Isaac (outro desconhecido para mim). Teremos, portanto, provavelmente, mais um elemento recorrente dos filmes, que é a figura do piloto prodígio, um descendente de Anakin e Luke Skywalker (será ele um novo membro da família), e aparentemente continuaremos vendo mais batalhas espaciais entre rebeldes (ou aquilo em que eles se tornaram) e Império (idem).

Adentramos então uma floresta escura e nevada, por onde anda uma figura misteriosa de capuz negro carregando um “sabre-de-luz” vermelho, ou seja, provavelmente se trata de um ou uma Sith, ou pelo menos alguém ligado ao lado sombrio da Força. Não dá para ter certeza sobre quem interpreta esse personagem, mas eu quero acreditar que é Gwendoline Christie, pois até achei seu porte parecido com o da atriz, e o fato de ela ser bem conhecida por fazer o papel de uma exímia espadachim em Game of Thrones reforça esse meu palpite talvez sem noção.

O “sabre”, aliás, é um elemento digno de nota. Ele parece ter sido feito para se parecer mais com uma espada longa medieval do que com um sabre propriamente dito, inclusive possuindo um guarda-mão característico feito da mesma matéria da lâmina. Isso pode estar ligado à possível identidade do personagem como um “inquisidor” Sith, corroborando uma das hipóteses levantadas por internautas. A espada medieval poderia ser uma referência simbólica aos cavaleiros da Idade das Trevas ou até mesmo aos Templários, ambos defensores do poder da Igreja e agentes da Santa Inquisição (não deixo de notar o simbolismo cristão da forma da espada, que lembra uma cruz, o que pode ou não ser intencional).

(Sobre a própria utilidade desses guarda-mão de luz, vale ressaltar que ele seria um elemento inteligente de defesa da espada-de-luz, pois sabe-se que essas lâminas repelem os ataques de outras armas do mesmo tipo, e ele serviria para impedir que o oponente deslizasse uma lâmina pela outra para ferir sua mão.)

A cena final do vídeo é uma batalha entre naves espaciais, notadamente a célebre Millenium Falcon, enfrentando TIE Fighters. Esse é o primeiro e único elemento pertencente aos filmes antigos a aparecer no trailer, e pode ser um sinal de que não veremos somente os rostos novos que se mostraram antes, mas que a antiga trupe estará de volta para ajudar a nova geração de heróis.

O trailer, assim, faz um favor para os fãs de Star Wars ao pontuar alguns dos ingredientes imprescindíveis para a receita de um filme da franquia: pessoas comuns procurando seu lugar na galáxia, droides, soldados inimigos sem rosto, tecnologia velha e empoeirada ao lado de tecnologia nova e limpa, vilões misterioros, sabres-de-luz e batalhas de naves espaciais. Tudo sem exageros visuais, para que se destaque o que realmente importa: os personagens. (A paródia deste link mostra uma “versão editada por George Lucas”, com acréscimos como os que ele inseriu nas versões remasterizadas dos filmes antigos, e evidencia justamente essa qualidade do trailer de Abrams.)

Considerando tudo isso, eu tenho a esperança de que essa nova obra cinematográfica corrija um erro crasso cometido por J. J. Abrams aos tomar as rédeas da franquia Star Trek: a sub-representação da alteridade não-branca, não-masculina, não-heterossexista. A diversidade fazia parte da alma de Star Trek, mesmo que ela só tenha se realizado gradativamente e tenha despencado depois de seu ápice em Voyager. O que Abrams não fez em Star Trek talvez seja concretizado em Star Wars (talvez não…), se levarmos em conta o elenco do filme, e essa pode, ironicamente, ser sua redenção perante os trekkies (ou não!). Isso seria, ademais, um bem-vindo e grande avanço para o fantástico universo criado por George Lucas. Que a Força esteja conosco.

Zumbi caminha entre nós

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No último Dia da Consciência Negra (20 de novembro de 2014 e. c.), fui chamado a participar de uma mesa redonda sobre políticas públicas voltadas à população quilombola, parte de um grande evento realizado na Comunidade Quilombola de Capoeiras, localizada no município de Macaíba, Rio Grande do Norte, vizinho a Natal.

Uma das falas, para mim a mais contundente, foi proferida por uma das mais atuantes lideranças quilombolas potiguares, Dona Neta, do Quilombo Sítio Grossos. Tendo em vista que o 20 de novembro é comemorado em homenagem à morte de Zumbi dos Palmares, a eloquente Dona Neta falou um pouco sobre a força simbólica dessa marcante figura histórica que liderou o maior quilombo já existente no Brasil.

Chamou-me particular atenção o fato de ela ter se referido à data em questão como o aniversário do “nascimento de Zumbi'”, e não de sua morte. Embora eu tenda a achar que se tratou de um lapso por parte da líder quilombola, não posso deixar de perceber nesse possível ato falho um forte significado alternativo ao sentido oficial da data. Em 20 de novembro de 1695, Zumbi nasceu para a História.

Durante sua existência, o Quilombo dos Palmares viveu como que num universo paralelo, um mundo à parte daquele da Colônia, quase como se existisse numa outra continuidade histórica, um outro tempo que não o da Metrópole portuguesa, que não o da história europeia. O líder Zumbi se criou neste mundo alternativo, sob outro calendário. Ao ser decapitado na luta contra o Império, surgiu para o mundo exterior, dominante, opressor e instituído com base na força imperialista. No dia 20 de novembro de 1695, Zumbi apareceu como um poderosa figura para a História hegemônica, foi então que ele nasceu para o Mundo. (Assim como Obi-Wan Kenobi que, ao enfrentar Darth Vader, profeticamente anunciou: “Se me matar, eu me tornarei mais poderoso do que você jamais poderia imaginar”.)

Os palmarinos consideravam que Zumbi era imortal, e seus assassinos pretenderam mostrar que ele não passava de um homem comum (o que é bastante lisonjeiro por parte de quem pensava nos negros como menos do que seres humanos). No entanto, vemos hoje que Zumbi sobrevive forte na memória do Dia da Consciência Negra. Isso é de certa forma ressentido pela elite branca, obrigada a acatar tão grande importância histórica de uma celebridade negra. Além disso, essa elite se vê diante da necessidade de se celebrar o grande líder quilombola, pois a data é legalmente instituída como comemorativa.

Dona Neta, em seu discurso, aludiu à recente polêmica em torno da proposta, revogada, de se oficializar o feriado do Dia da Consciência Negra no Rio Grande do Norte. Ela frisou que há diversos feriados dedicados a figuras históricas brancas, das quais talvez Tiradentes seja um dos mais célebres, e não há feriados nacionais dedicados a personagens afrobrasileiros, como Zumbi, que foi e é tão importante para a população negra do Brasil (não se trata, é claro, de reivindicar meramente um dia sem trabalho, mas de dar visibilidade e tratamento igual a personagens históricos não-brancos).

A notável mulher enfatizou essa importância ao comparar o grande guerreiro negro de Palmares a Jesus (o que é bastante intrigante, visto que a maioria absoluta dos quilombolas presentes no evento são cristãos – católicos ou evangélicos), afirmando que, assim como o Messias nazareno, ele morreu lutando contra um Império para salvar seu povo, para libertar os negros escravizados (não adianta, aqui, remeter ao fato de ter havido escravos negros em Palmares, “fato”, aliás, controverso e provavelmente mal-compreendido pela História Oficial, mas sim tomar o herói em sua força simbólica – assim como, para os cristãos, importa menos o Jesus histórico do que aquele imortalizado como lenda nas Escrituras).

Zumbi é um morto-vivo, um fantasma que precisa ser trazido à vida todos os dias de nosso cotidiano repleto de um racismo colonial e com vestígios de escravismo. Apenas um dia do ano para a Consciência Negra é muito pouco, pois todos os outros dias pertencem tacitamente aos brancos e são por eles protagonizados. Todos os dias o espectro de Zumbi precisa ser invocado para que cada “dia de branco” seja também dia de todos os que participam ativamente dessa mesma sociedade, na medida em que encontram e conquistam espaço para ter sua existência visibilizada, representada e reconhecida igualitariamente.

Antonio Candido e a libertação da Literatura

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Ora, o esforço para incluir o semelhante no mesmo elenco de bens que reivindicamos está na base da reflexão sobre os direitos humanos.

Antonio Candido é um renomado sociólogo que fez parte de uma das primeiras levas de formandos da USP, tendo sido discípulo de Roger Bastide e um de seus principais herdeiros intelectuais no Brasil. Sua área de maior interesse acadêmico foi a Literatura, tendo escrito obras literárias e se constituído uma das principais referências em crítica literária no país. Um de seus textos mais importantes é um artigo chamado “O Direito à Literatura”, escrito em 1988 e publicado no livro Vários Escritos, de 1995.

Direitos humanos e Literatura

Neste belo ensaio, Candido parte do tema “direitos humanos e literatura”, para desenvolver sua tese de que a Literatura (entendida por ele de forma muito ampla, como veremos adiante) deve ser considerado um bem indispensável para o ser humano e portanto é necessário garantir o amplo acesso a ela pelos indivíduos humanos. Logicamente, o autor começa seu texto se perguntando o que são direitos humanos, e inicia essa reflexão afirmando que o nível tecnológico a que chegamos hoje permitiria mitigar todos os problemas básicos da humanidade, mas a irracionalidade e a má distribuição de recursos impede que isso seja realizado. Candido concordaria com Carl Sagan, que disse que o ser humano, enquanto espécie, é capaz de destruir seu planeta, mas também tem a capacidade de resolver todas as injustiças e desigualdades existentes na Terra.

Alcançamos um nível tecnológico altíssimo, mas vivemos uma barbárie social, em que os benefícios desses avanços não são usufruídos por toda a humanidade. Paradoxalmente, essa mesma tecnologia nos permite planejar soluções, mas o ciclo vicioso nos mantém essa contradição. Apesar disso, há um certo otimismo, tendo em vista alguns avanços sócio-econômicos pontuais testemunhados nas últimas décadas. De fato, embora continuem ocorrendo atrocidades, promovidas por aqueles que detêm o poder, elas não são mais celebradas ou, pelo menos, não são proclamadas sem alguma dose de vergonha. E mesmo aqueles que se gabam de atitudes antiéticas são facilmente criticados pela opinião pública (no passado, eles seriam amplamente ovacionados).

A correção política da visão hegemônica sobre os pobres (e negros, além de outras minorias tradicionalmente discriminadas) também é um sinal desse otimismo. Mesmo ainda havendo a ideologia classista e meritocrática, que engendram diversos preconceitos sobre os pobres, essas posturas não são mais defendidas com tranquilidade. As minorias podem ser um fator de rompimento e as atitudes politicamente corretas são alimentadas pelo medo dessa quebra do status quo. Isso pode ser visto, por exemplo, na reação negativa a peças publicitárias de teor racista, como bem explicada na reflexão de Dinix sobre o assunto na Carta Potiguar.

Os políticos mais influentes já reconhecem como necessidade premente o combate à desigualdade, contrariando os discursos mais antigos. Tendo em vista essas novas necessidades aceitas como unanimidades e normalmente ligadas ao viés da esquerda política, esses políticos dificilmente se declaram “de direita”, “conservadores” ou “reacionários”, preferindo ser vistos como “de centro” ou até “centro-esquerda”. A desigualdade é declarada como insuportável, o que fomenta um discurso ético idealizado, mas as ações para efetuá-lo dificilmente são postas em prática. É esse discurso da empatia que nos leva a pensar sobre os direitos humanos.

Numa perspectiva ética ideal, aquilo que eu considero indispensável para mim deve sê-lo também para os outros, mas a tendência geral é que pensemos em nossas próprias necessidades como mais urgentes do que as dos demais indivíduos. Isso nos leva à questão: quais direitos estamos dispostos a compartilhar com os outros? Apenas aqueles ligados à mera sobrevivência física? E quanto às artes e a recreação?

Podemos especular que, enquanto seres humanos, não sobrevivemos apenas com pão e água. A história bíblica na qual Jesus afirma que “não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mateus 4:4 e Lucas 4:4) é muito simbólica. Não podemos nos constituir como seres humanos completos apenas com alimento para o corpo (pão), mas necessitamos também de alimento para o espírito, representado aqui metaforicamente como “palavra de Deus”. Mas será que esses bens “espirituais”, como a Literatura, são imprescindíveis?

Candido nos remete ao sociólogo francês Louis-Joseph Lebret, segundo o qual os bens podem ser classificados como compressíveis, considerados supérfluos, ou incompressíveis, quer dizer, os que não podem ser negados a ninguém e que, portanto, constituiriam os direitos humanos essenciais. Porém, as necessidades são relativas e mudam ao longo da história e das culturas ao redor do mundo, o que traz a dificuldade de se estabelecer as fronteiras entre o que é compressível e o que é incompressível. No entanto, estabelecer essa fronteira é importante para definirmos uma noção de igualdade e podermos decidir como aplicá-la na prática. (Esta noção de igualdade deve ser embasada, no âmbito individual, por uma moral altruísta, enquanto que, do ponto de vista social, são as leis que devem garantir essa igualdade).

Então Candido se pergunta se os bens compressíveis podem ser reduzidos apenas aos bens materiais ou se devemos incluir os “espirituais”. Devemos pensar no direito ao acesso às Artes e Literatura, mas como averiguar se estas são incompressíveis? Elas são tão necessárias aos seres humanos a ponto de representar uma parte daquilo que os fundamenta enquanto indivíduos e sociedades? Vale lembrar do discurso corrente segundo o qual os pobres que se divertem estão perdendo tempo, pois deviam gastar seu tempo apenas com trabalho. Por que a ideologia da meritocracia pensa que os despossuídos não têm direito ao lazer?

O que é Literatura

Candido afirma que não existe povo que não produza Literatura, se a entendermos da forma como ele a define:

Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em  todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações.

A necessidade de fabulação é universal, quase exatamente como a necessidade de sonhar. O sonho equilibra a mente durante o sono. A fabulação harmoniza o espírito durante a vigília (“sonhar acordado”), e assim pode ser considerado um fator de humanização, pois nos confirma enquanto membros da humanidade. De fato, retornamos à fábula do pão para considerar que nosso caráter humano pressupõe necessidades que superam o alimento físico. A canção Comida, dos Titãs, apresenta esse tema, afirmando que “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”:

A Literatura é muito usada como instrumento de instrução, recurso didático e ferramenta educativa, e tanto as obras sancionadas quanto as proscritas servem a esse propósito. Ela serve como meio de formação da personalidade. Mas esse caráter duplo (permitido/proibido, dicotomia que varia imprevisivelmente e que pode estar contida numa mesma obra) representa para alguns educadores um risco, pois fomenta questionamentos sobre a ordem estabelecida. Por isso a Literatura é encarada de modo paradoxal pelos professores, pois ela ao mesmo tempo confirma  seu papel de alimento do espírito e, por outro lado, seu papel transgressor. Essa antítese (bem/mal) é conciliada quando se encara a Literatura em seu papel humanizador, ou seja, ela faz o leitor viver.

Podemos pensar no professor John Keating (Robin Williams), no filme A Sociedade dos Poetas Mortos, que tinha uma visão subversiva da poesia e conciliava esses dois aspectos da Literatura, levando aos seus alunos a edificação do espírito através das obras literárias e fazendo-os se questionar sobre as visões tradicionais a respeito da Arte e da própria vida em sociedade.

O sociólogo apresenta três aspectos que ele considera serem funções humanizadoras da Literatura, e discorre sobre elas em ordem de importância.

1) Caráter estético: a obra como construção

A forma da obra é o que caracteriza sua natureza literária por excelência e lhe confere uma função organizadora da mente do leitor. A obra literária é organizada através da escolha dos elementos da linguagem de modo a constituir uma estrutura repleta de significado. Isso a diferencia de outras formas de escrita não-literárias, nas quais a preocupação estética é mínima.

A forma/estética da obra tem um impacto sobre nós mesmo quando não apreendemos completamente seu conteúdo (como acontece muitas vezes com a poesia hermética). Em minha experiência de leitor de Fernando Pessoa, nunca havia compreendido a profundidade esotérica do poema “Eros e Psiquê”, apenas via nele a beleza sonora e metafórica mais superficial. Só depois que minha esposa pesquisou sobre ele é que descobrimos que há uma referência à Maçonaria. Mas mesmo desconhecendo essa referência conseguíamos apreciar a obra de maneira satisfatória.

A forma é condição para que o conteúdo da obra atue sobre o leitor. O escritor transforma o caos do repertório de sua linguagem numa construção dotada de ordem, e essa ordem, por sua vez, ordena a mente caótica do leitor. Essa é a primeira função humanizadora da Literatura, promovendo em nós o cultivo de faculdades mentais que nos ajudam a organizar os pensamentos.

2) Caráter subjetivo: a obra como tradutora de sentimento

A obra expressa através de sua forma peculiar uma subjetividade universal que é decodificada pelo autor de maneira organizada e acessível, evidenciando aos diversos leitores a universalidade de certos sentimentos. Aquilo que temos dificuldade de exprimir é feito pelo literato através de sua obra poética, narrativa e/ou dramática, que nos permite visualizar em palavra, sons ou gestos estruturados o que apenas percebíamos de forma vaga em nossa própria subjetividade íntima.

Grande parte do que apreendemos na fruição de uma obra literária nós o fazemos inconscientemente, pois ela atua em nós de um modo que não percebemos. Os insights provocados pela leitura de um livro, por exemplo, podem aparecer muito tempo depois de tal leitura, até mesmo num sonho. Essa capacidade de nos identificar com o gênero humano através da empatia é a segunda função humanizadora da Literatura.

3) Caráter informativo: a obra como transmissora de conhecimento

Mas existe também aquele conteúdo explicitamente veiculado, que é a terceira função humanizadora da Literatura. O conteúdo veiculado conscientemente pelo autor, que pode ser de caráter político, é prescindível na obra literária, embora dificilmente esteja ausente, mesmo que esteja presente de maneira sub-reptícia e acidental. Mas mesmo quando está presente, esse conteúdo só tem efeito porque atua através da forma literária característica. Esse mesmo conteúdo pode ser veiculado por formas não-literárias de escrita, mas aí já se trata de outra coisa (artigos, dissertações e tratados, científicos, filosóficos ou teológicos etc.). Essa terceira função humanizadora, embora não seja essencial, é muito importante do ponto de vista de Antonio Candido, tão importante que ele dedica algumas páginas do artigo para elaborar o tema.

Papel social da Literatura

Graciliano Ramos

Graciliano Ramos

Existe um viés da Literatura que alimenta menos implicitamente o combate pelos direitos humanos. Mesmo quando uma obra não é literariamente interessante (ou seja, não atende muito bem à primeira função humanizadora), ela pode assumir um papel social junto a outras obras do mesmo movimento literário, promovendo uma ampla reflexão a respeito das iniquidades sociais e as possíveis formas de solucioná-las.

O romance humanitário do começo do século XIX se desenvolveu através do Romantismo e foi prolífico em obras que retratam as vidas miseráveis dos pobres na Europa, especialmente as narrativas de Victor Hugo, Charles Dickens e Fiódor Dostoiévski. No Brasil entre outros, temos o exemplo de Castro Alves, conhecido por descrever as mazelas da escravidão dos africanos.

A inclusão dos pobres na literatura romântica e a forma digna com que foram tratados foi relevante para se pensar os direitos humanos. Mesmo que certos aspectos estéticos dessas obras estejam datados, elas ainda nos tocam nesse sentido humanitário (e humanizador). Se pegarmos, por exemplo, um José de Alencar com sua rebuscada e florida linguagem em Iracema, podemos achá-la muito melosa ou melodramática, mas a mensagem humanista a respeito dos indígenas ainda faz muito sentido para nós, mesmo com as limitações de uma mentalidade ainda um tanto colonialista da época em que foi escrito.

No Naturalismo, isso se intensificou especialmente nas obras de Émile Zola, com sua análise fria e detalhista da sociedade. O impacto de seus escritos teve inclusive repercussão no próprio autor, que assumiu posição política favorável ao combate às injustiças depois de ter publicado suas obras, o que mostra o papel humanizador da Literatura até para aqueles que a produzem.

No Modernismo brasileiro (e talvez, simultaneamente, no Vanguardismo latino-americano) a vida dos excluídos foi retratada com teor crítico ainda maior, nas obras de Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Rachel de Queiroz, Érico Veríssimo, entre outros. Graciliano Ramos, por exemplo, retrata as vidas secas dos habitantes pobres do Sertão brasileiro, chamando a atenção para as dificuldades de uma existência no meio de uma sociedade desigual.

Em suma

Augusto dos Anjos

Em suma, a Literatura se relaciona com os direitos humanos de duas formas:

  1. Através de seu intrínseco caráter humanizador, nas três funções descritas por Candido, e
  2. Servindo como crítica social e explícito questionamento sobre os direitos humanos.

Porém, vivemos um problema social de falta de oportunidade de acesso a obras literárias eruditas por parte dos mais pobres, ocasionada por má distribuição de recursos e pela visão de que a Literatura é um bem compressível. Para se contornar isso, é necessário criar uma sociedade igualitária e menos estratificada, onde a alfabetização seja garantida como direito de todos e as obras literárias eruditas sejam mais acessíveis.

Talvez as iniciativas de algumas editoras, imitando um modelo mercadológico norte-americano, de oferecer publicações em formato de bolso e material mais barato tenham contribuído um pouco para a maior difusão de obras renomadas no Brasil. Lembremos que Antonio Candido escreveu seu ensaio em 1988 e desde então ocorreram mudanças mais ou menos significativas.

As iniciativas de Mário de Andrade como chefe do Departamento de Cultura da Cidade de São Paulo mostraram a possibilidade real de difusão das obras artísticas e o fato de haver influências múltiplas entre o popular e o erudito.

A intercomunicação entre os “níveis culturais”, para Candido, deve servir para que os menos favorecidos socialmente tenham acesso à cultura erudita. Isso deve se dar através de mais oportunidades e não de uma “capacitação” intelectual. O interesse pela boa literatura aparece quando o acesso a ela é garantido. Fazer uma literatura “popular” só para atender a um público “popular” é menosprezar sua capacidade de apreciar obras boas. Veja-se o caso da difusão da Divina Comédia nas diversas classes sociais da Itália, e do caso de Augusto dos Anjos, popular entre várias camadas do Nordeste brasileiro. Este último, note-se, é uma exceção, pois em geral no Brasil a literatura não é tão bem difundida.

É comum, por outro lado, que as classes privilegiadas não usufruam desses bens literários senão por comodismo, modismo ou esnobismo. Essa apropriação das boas obras representa sua privação às pessoas pobres, que poderiam estar usufruindo delas, um fato análogo à má distribuição de bens materiais. Podemos acrescentar também à análise de Antonio Candido o fato de a cultura popular ser pouco apreciada ou consumida pela elite, o que se dá não por dificuldade de acesso, mas pelo pouco prestígio social imputado a ela.

A meu ver, falta a Antonio Candido enfatizar a necessidade de relativizar mais as fronteiras arbitrárias entre popular e erudito. Devemos considerar que, assim como os analfabetos podem apreciar boas obras, são capazes de criar boas obras. Um exemplo notável é Patativa do Assaré, agricultor cearense que escreveu versos geniais, tanto em formas populares quanto eruditas. Tirar o popular e o erudito de ma hierarquia que ponha aquele abaixo deste seria um movimento de democratização também, com a valorização da produção artística e da criatividade dos que têm pouco acesso aos meios de produção da literatura, mas que em diversas ocasiões demonstram que conseguem produzir mesmo assim.

Deuses e mistérios em Avalon: livros da adolescência

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A blogagem coletiva sobre livros da infância me levou a refletir mais amplamente sobre o assunto. Uma das coisas que tentei delinear enquanto escrevia aquele texto foi onde terminou minha infância e começou minha adolescência, pois disso dependia incluir ou excluir certos livros. Uma das coisas que percebi ao tentar decifrar (seria melhor dizer, recriar) essa fronteira (arbitrária) foi que, a partir de certo momento não muito bem delimitado mas mais ou menos claro, o “tipo” de livro com que mais passei a me ocupar mudou.

Depois de ler O Fantástico Mistério de Feiurinha, o que se deu pelos 12 ou 13 anos de idade, passei a escolher mais os livros que leria. Estes eram agora ou mais complexos (como Vidas Secas) ou fisicamente maiores (como As Brumas de Avalon), e a experiência da leitura passou a ser um hobby eleito e não uma mera obrigação escolar. A partir daí percebi que seria rico me delongar numa segunda parte e pensar sobre os livros de minha adolescência, pois compreendi que se trata de uma outra etapa da minha vida de leitor.

Vidas Secas – Graciliano Ramos

Comecei a ler Vidas Secas numa época em que os professores escolhiam os livros de literatura que deveríamos estudar. Acho que era época de férias, encontrei o exemplar na biblioteca do meu pai e pensei, “vou ver do que se trata”, e acabei gostando muito.

As vidas secas da família sertaneja, pai, mãe, filho mais velho e filho mais novo, além do único membro com nome do grupo, a cachorra Baleia, são retratadas com a rudeza que caracteriza o implacável mundo do pobres que enfrentam a seca nas regiões mais áridas do Brasil. A linguagem lacônica, dizendo o mínimo necessário, reproduz a forma coloquial de se comunicar das pessoas pobres das regiões rurais.

A leitura me fez visualizar de perto as agruras e alegrias de uma família que se agarra ao pouco que consegue tirar da natureza escassa e de uma sociedade desigual. E me fez emocionar com a profundamente significativa existência de Baleia e seus sonhos repletos de preás.

Devo ter lido o livro duas vezes, se me lembro bem, e minha admiração pelo autor me fez adquirir, anos depois, já na época da faculdade, um exemplar de seu romance São Bernardo. Eu tinha feito uma cirurgia ocular em São Paulo e estava me recuperando na casa de minha madrinha, em Tupã, e encontrei o livro num sebo. Mas Vidas Secas continuou sendo muito mais significativo em minha memória, tendo inclusive repercutido num interesse pela literatura brasileira, especialmente por Machado de Assis, que se tornaria um de meus romancistas/contistas preferidos.

Toda a Poesia de Augusto dos Anjos

Essa coletânea da obra de Augusto dos Anjos, da editora Paz e Terra, cujo prefácio é um ensaio de Ferreira Gullar sobre o poeta paraibano, não é completa, mas contém sua única obra poética publicada em vida, que é o livro Eu e Outras Poesias, e mais alguns poemas póstumos. O volume que eu li era emprestado de um grande amigo meu e eu cheguei mesmo a tirar xerox de todo o livro.

No ardor das emoções adolescentes, Augusto dos Anjos foi para mim uma pungente voz que representava a angústia das mudanças da puberdade e a empatia para com o sofrimento humano. Ele se tornou meu principal modelo para escrever meus poemas e é para mim o paradigma daquilo que considero poesia.

Posteriormente eu compraria uma edição da Martins Fontes, com mais poemas do que a edição da Paz e Terra, e que se tornaria um item caro em minha biblioteca. Mas durante a graduação em Ciências Sociais, eu acabaria adquirindo a obra completa dele, da Nova Aguilar, e fazendo minha monografia tendo dois poemas de Augusto como objeto de pesquisa: Do Leite Materno ao Leito Meretrício: Mãe e Meretriz como Objetos de Desejo no Imaginário de Augusto dos Anjos.

Olimpo: a Saga dos Deuses – Márcia Villas-Bôas

Cavaleiros do Zodíaco criou um público de fãs no Brasil, e eu não escapei dessa onda. Mas aquilo que tenho mais a agradecer à televisão brasileira por exibir essa série é o fato de ela me ter instigado o interesse por mitologia grega. E esse interesse me levou a fazer com que meu pai comprasse o livro Olimpo: a Saga dos Deuses, que encontrei num supermercado e que, pelo que sei, é hoje uma raridade (ainda bem que ainda guardo meu exemplar).

A obra é basicamente um longo romance que ata numa narrativa contínua todas as histórias mais conhecidas da mitologia grega. Cada capítulo se foca em um personagem (o que me veio muito fortemente à memória quando, há alguns meses, comecei a ler As Crônicas de Gelo e Fogo), e são arrolados de maneira mais ou menos cronológica, partindo desde os eventos da gênese do Universo, passando pela Era dos Deuses, adentrando a Era dos Heróis e concluindo com a partida dos seres divinos para outro mundo.

O livro tem um certo viés esotérico, ecoando certas ideias herdadas da Teosofia (que baseia muito do universo conhecido como Nova Era), o que o torna interessante no sentido de que os deuses são entendidos como algo mais do que indivíduos com forma definida, mas forças que atuam na natureza e que são interpretadas como universalmente experimentadas por qualquer cultura humana. Tanto é assim que em determinado momento os olimpianos estão se admirando com os nomes com que são conhecidos no Egito e em Roma (tratando-os, portanto, como arquétipos presentes no inconsciente coletivo).

Olimpo foi importante para mim por ter me levado posteriormente a ler muitas histórias gregas (Homero, Ésquilo, Sófocles etc.). Mas acho que um dos impactos mais positivos dessa leitura foi sobre minhas ideias a respeito de gênero e sexualidade. Enquanto a mitologia e a cultura gregas remexem com nossos valores cristãos modernos, a autora deixa bem claro, através dessa narrativa, que sexo e gênero não são determinações, e nos faz relevar, de diversas formas, os preconceitos a respeito das identidades sexuais e das sexualidades humanas.

As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley

VALON__VOL1_1250982341PA edição em quatro volumes dessa maravilhosa obra chegou às minhas mãos por um amigo que havia comprado num sebo. Eu devo ter trocado com ele por algum outro livro, o fato é que passou a fazer parte da minha seleta e embrionária biblioteca. Uma coisa curiosa a respeito do meu exemplar é que as capas estavam bastante comidas nas bordas, e eu criei capas no Microsoft Word, imprimi e encapei os volumes, cobrindo tudo com papel adesivo.

Eu sabia pouco sobre as histórias arturianas nessa época, e As Brumas foi minha primeira e principal referência sobre essa mitologia pré-medieval. O livro é na verdade a história das mulheres que viveram em Camelot, especialmente Morgana e Gwenhwyfar (o nome pelo qual é chamada Guinevere no texto). Dessa forma o mythos de Camelot é contado de maneira diferente do convencional, fugindo do androcentrismo das obras tradicionais.

Esse épico teve impactos positivos na minha forma de ver o mundo, ajudando-me a cultivar um espírito relativista, especialmente quanto à religião e às relações de gênero. Sendo uma obra repleta de referências à religiosidade anglo-saxã pré-cristã, colocada em oposição ao Cristianismo levado às Ilhas Britânicas pelo Império Romano, a história provoca simpatia pela ideia de que não há religiões certas nem erradas. A religião antiga de Avalon tem forte ênfase no feminino e na valorização da mulher, um toque feminista que a obra de Bradley sempre traz e que me ajudou a desenvolver grande simpatia pelo Feminismo e, como consequência natural, pelos estudos sobre a diversidade humana, seja de gênero e sexualidade, seja racial/étnica, seja qual for.

Acho que essa foi uma das leituras mais imersivas que fiz na adolescência e talvez em toda minha história de leitor de ficção. O reino de Arthur Pendragon, especialmente a Ilha de Avalon, é repleto de uma magia sutil, de uma ligação com uma realidade (sobre)natural, maravilhosa e antiga, e um sentimento de nostalgia era constante enquanto eu lia e “testemunhava” a desagregação da cultura bretã e sua ancestral religião pagã.

A leitura de Bradley me levou a procurar, junto com meu irmão, outras obras dela, das quais Lythande é a que lembro com mais carinho. Também com viés feminista, os contos sobre o mago Lythande são instigantes quanto a questões de gênero, principalmente quando se trata de explorar as formas pelas quais o segredo do protagonista é trazido à tona como recurso narrativo.

O Nome da Rosa – Umberto Eco

Um instigante romance policial de um autor que não se acanha de esbanjar erudição. Esse livro me foi emprestado por um amigo de meu pai, e eu acabei ficando com ele (só para constar, anos depois ele me disse que eu podia ficar com o livro – só para constar…).

A obra traz elementos que me encantaram e me tornaram um fã de histórias fantásticas, a começar pelo fato de Eco afirmar, no prefácio, que esse livro é a tradução de um manuscrito em latim que ele encontrou e que teria sido escrito pelo protagonista da história (mais ou menos a mesma relação entre Tolkien e Bilbo/Frodo). O que já constitui um mistério e prepara o leitor para o tipo de história que se segue.

Além disso, o fato de haver um mapa do mosteiro onde ocorre a narrativa a torna bastante imersiva, pois de vez em quando o texto nos leva a consultar o mapa para compreender melhor o que está acontecendo na trama. Esse tipo de recurso extratextual enriquece de maneira interessante a experiência de leitura (como eu disse, no artigo anterior, sobre O Reino Perdido de Beleléu).

O Nome da Rosa é uma história instigante sobre o obscurantismo da Igreja Católica na Idade Média e o perigo que é a sonegação de conhecimento, que pode acabar se perdendo sob um regime de censura. A narrativa policial e as reviravoltas da trama são geniais. Os temas tratados em episódios esporádicos são muito pertinentes para se pensar a importância da quebra de tabus e a desmistificação das relações de poder.

Eu gostei tanto desse livro que logo em seguida tentei ler O Pêndulo de Foucault, do mesmo autor, mas não consegui passar da metade (fiquei todo enrolado com a história e já não estava entendendo mais nada). Porém, muitos anos depois eu ganharia um presente muito especial: Quase a Mesma Coisa, também de Eco, um livro sobre experiências de tradução e um dos melhores ensaios que já li.

Outras leituras e continuações

Houve várias leituras importantes que não citei acima porque não foram exatamente livros, mas contos ou partes de livros. Por exemplo, eu li na adolescência A Sociedade do Anel, primeiro volume de O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, mas só leria o livro completo vários anos depois, já na época da faculdade. No entanto, foi uma leitura mágica para mim, e fiquei encantado com a épica Terra-Média, mas principalmente com os singelos hobbits.

Outro livro muito importante foi Imortais: O Melhor da Ficção Científica do Século XIX, organizado por Isaac Asimov. Mas eu li esse livro tão espaçadamente que só terminei quando estava na universidade (de novo…). É uma coletânea de contos que Asimov considera serem os verdadeiros precursores da Ficção Científica, segundo um conceito que ele elabora na introdução do livro. Dos que eu li na adolescência, lembro principalmente dos contos “O Homem de Areia”, uma perturbadora narrativa de E. T. A. Hoffmann, e “A Filha de Rappaccini”, de Nathaniel Hawthorne, que depois eu descobriria ter sido uma inspiração para a personagem Hera Venenosa, vilã do Batman.

A primeira vez que li Edgar Allan Poe foi numa coleção que meu pai tinha, chamada Para Gostar de Ler, que reunia diversas histórias curtas de variados autores, brasileiros ou não. Lá eu encontrei “O Retrato Oval” e “O Coração Delator”, que me instigariam depois a procurar outros contos do perturbado escritor norte-americano. Cheguei a ler várias de suas narrativas de suspense, terror e histórias policiais, e cheguei a ensaiar uma tradução do clássico e grandioso poema “O Corvo”.

Elenquei acima os livros que considero mais importantes em minha memória afetiva. Mas, além desses, houve outros importantes para mim na época e que me inspiraram a ler mais, como Dom Casmurro, de Machado de Assis, Espada da Galáxia, de Marcelo Cassaro, Frankenstein, de Mary Shelley, O Caso de Charles Dexter Ward, de H. P. Lovecraft, A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, e O Relato de Arthur Gordon Pym, de Poe. Olhando para todo esse conjunto de obras, percebo quanto meus atuais interesses de leitura foram formados nesse período, bem como minha perspectiva a respeito da humanidade, em sua diversidade e naquilo que nos torna todos iguais.

Black Kirby e a Turma da Mônica negra

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John Jennings é professor de Estudos Visuais na Universidade de Buffalo, NY (EUA). Ele e o artista afrofuturista Stacey Robinson idealizaram o projeto Black Kirby, uma homenagem e uma releitura de algumas ilustrações do renomado quadrinista Jack Kirby (cocriador de vários super-heróis da Marvel Comics). Eles produziram diversas capas alternativas de edições clássicas da Marvel, mantendo o traço de Kirby e transformando os personagens em pessoas negras e adornadas com motivos afrofuturistas, partindo da premissa: “Se Jack Kirby fosse negro”. Dessa releitura surgiram personagens como Major Sankofa (Capitão América), O Poderoso Xangô (Thor) e O Indestrutível Buck (Hulk).

Os artistas afrofuturistas como Jennings e Robinson recriam a estética do universo dos Quadrinhos, da Ficção Científica, da Fantasia e outras mídias imaginativas como forma de se sentir representados. É a reapropriação de um espaço tradicionalmente dominado por eurocentrismo. É um modo de expressar seu próprio anseio por representatividade. Num meio como os Quadrinhos, dominado por personagens brancos, do sexo masculino, heterossexuais e cisgêneros, admirados por uma enorme diversidade de leitores e leitoras, reimaginá-los com outra identidade étnica, racial, de gênero ou de sexualidade é um modo de explicitar o desejo por suprir a pouca identificação desse público.

Não se trata, como podem pensar alguns, de mero capricho de artista querendo chamar atenção. Há alguns dias repercutiu nas redes sociais a atitude de uma criança brasileira que fez quase exatamente a mesma coisa que Jennings e Robinson fizeram. Cleidison tinha que colorir a capa da prova ministrada por sua professora da 5ª série, que figurava a Turma da Mônica de Maurício de Sousa. O garoto negro entregou à professora os personagens pintados com sua própria cor e disse a ela que estava cansado de ver personagens que não se pareciam com ele.

A professora divulgou a imagem no Facebook e a repercussão dessa notícia foi muito positiva na internet. O gesto de Cleidison foi iclusive elogiado por Maurício de Sousa. Ironicamente, o quadrinista enfatizou que a diversidade faz parte da linha editorial de suas revistas, lembrando o personagem Jeremias, que é negro. Infelizmente, constatamos que seus esforços para representar os negros em suas histórias ainda são incipientes. Há apenas 4 personagens negros entre as centenas criadas por Maurício: Jeremias, Pelezinho, Ronaldinho Gaúcho e Neymar. O primeiro não faz parte do escalão principal da Turma, aparecendo como coadjuvante esporadicamente. Os três últimos são de certa forma spin-offs, e são um fiasco de representatividade se considerarmos que foram criados com base em celebridades (não são personagens originais inspirados em “pessoas comuns”) e que são jogadores de futebol. Ou seja, 75% dos personagens negros recaem num lamentável estereótipo racial.

Mas isso não é de estranhar vindo de Maurício de Sousa, que já fez declarações anacrônicas a respeito da representatividade das mulheres nos quadrinhos, tanto como personagens quanto como quadrinistas. Sua obra é sem dúvida uma referência universal e eterna para leitores e artistas de quadrinhos brasileiros, mas é preciso renovar as ideias desse meio.

Há algum tempo conversei com um amigo sobre personagens brancos de quadrinhos que foram interpretados por atores negros no cinema, como o Rei do Crime (Demolidor) e Nick Fury (Vingadores). Nós nos perguntamos na ocasião se isso poderia acontecer, por exemplo, com o Capitão América, e chegamos à conclusão de que um símbolo norte-americano nunca seria outra coisa senão um homem branco, loiro e heterossexual. Felizmente estávamos errados. A própria Marvel já anunciou que Steve Rogers será substituído por Samuel Wilson (que costumava ser o super-herói Falcão), um homem negro. De certa forma, o Major Sankofa de Black Kirby foi abraçado pela Marvel.

Além disso, tendo em vista que o personagem Thor também foi reformulado e agora será uma mulher, a Marvel sinaliza mudanças interessantes no mundo dos quadrinhos, que talvez sejam repercussões de trabalhos como o de Jennings e de Cleidison, com sua perspectiva afrofuturista. Somando-se isso à crescente demanda feminista por representatividade feminina, bem como a maior visibilidade de pessoas LGBT como consumidoras e produtoras de quadrinhos e outras mídias populares, é provável que vejamos cada vez mais uma diversidade autêntica entre super-heroínas e super-heróis fantasiados.

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Releituras afrofuturistas da Ficção Científica

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Ytasha L Womack e seu livro “Afrofuturism”.

O Afrofuturismo é um conjunto de manifestações culturais que mistura elementos da cultura negra (ou daquilo que é representado como cultura negra, de matriz africana ou afrodescendente) com aspectos da cultura pop que dizem respeito a noções de futuro e progresso tecnológico, notadamente as ideias da ficção científica futurista, e envolve literatura, música, estética e moda, artes visuais, cinema e televisão. Acima de tudo, o Afrofuturismo é uma filosofia, uma forma de revisar o modo como os negros veem a si mesmos na mídia, valorizando elementos culturais do passado e do presente e construindo uma visão de futuro com base em seus próprios anseios e não nos tradicionais estereótipos racistas (e também de identidade de gênero e sexualidade).

O livro Afrofuturism: The World of Black Sci Fi and Fantasy Culture, da escritora norte-americana Ytasha L. Womack, apresenta um panorama das diversas vertentes do Afrofuturismo, seus diversos artistas e pensadores. O que mais me interessou no livro foram as diversas referências a temas da Ficção Científica (literatura, cinema e televisão) e como eles são reconstruídos na perspectiva da experiência negra no Ocidente e também na África. Há não apenas uma forma alternativa de ver a ficção científica clássica, mas uma produção de literatura negra que remonta a W. E. B. Du Bois e tem em Octavia Butler uma de suas principais referências.

Há algum tempo venho me interessando por essa parte ainda marginalizada da Ficção Científica, da qual aos poucos estou me inteirando. Mas ainda não li muita coisa da produção afrofuturista propriamente dita. No entanto, na apropriação desse gênero literário pelos negros, uma vez que o Afrofuturismo abrange também uma forma alternativa de interpretar a produção eurocêntrica mais consagrada, é muito interessante a forma pela qual ele ressignifica temas clássicos como a abdução alienígena e a inteligência artificial, usados como metáforas para a história dos africanos e seus descendentes no Atlântico Negro.

Naves e abduções alienígenas

Ilustração de Henrique Alves Corrêa para a edição francesa de 1906 de "A Guerra dos Mundos"

Invasores alienígenas na ilustração de Henrique Alves Corrêa para a edição francesa de 1906 de “A Guerra dos Mundos”

A diáspora negra resultante do comércio de escravos africanos por europeus pode ser colocada nestes exatos termos:

Alienígenas chegaram em naves e abduziram pessoas.

Com essas palavras, é impossível não pensar numa história de ficção científica sobre seres extraterrestres que chegam à Terra em espaçonaves e raptam seres humanos. Mas se explorarmos outros sentidos dos termos da expressão acima destacada, podemos pensar no significado próprio de alienígena como “estrangeiro”, nave como “embarcação” (navio) e abdução como “captura”.

Os autores Mark Dery, Mark Sinker e Reynaldo Anderson, citados por Womack, escreveram sobre essa pungente metáfora. Assim, se por um lado as histórias de invasão e abdução extraterrestres representam o medo europeu e norte-americano de sofrer na pele o mesmo processo de dominação colonial que esses povos empreenderam e ainda empreendem, elas falam sobre a história real daqueles que sofreram e sofrem essa mesma dominação, em especial os africanos.

Mas a abdução é apenas uma parte desse processo de contato com alienígenas. Os contos sobre invasão de grandes naves espaciais prontas para subjugar e, em alguns casos, exterminar a humanidade são exatamente uma representação do que os “conquistadores” fizeram em suas viagens de “descoberta”. Os enredos de A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, de Independece Day e o histriônico Marte Ataca! são ótimas analogias da invasão, escravização e dominação dos africanos pelos europeus imperialistas.

Distopias pós-apocalípticas

O apocalipse zumbi de "The Walking Dead", ilustrado por Charlie Adlard

O apocalipse zumbi de “The Walking Dead”, ilustrado por Charlie Adlard

Se continuarmos a sequência dessa história e falarmos sobre a diáspora negra, o pesadelo dos africanos e seus descendentes, tanto na África colonizada quanto nos países para os quais foram levados em navios negreiros, a desolação de viver subjugados a alienígenas de cara pálida num mundo desagregado, podemos extrapolar a interpretação das histórias distópicas de teor pós-apocalíptico.

Estas histórias retratam uma humanidade vivendo à beira de um colapso, geralmente ameaçada por seres perigosos, como robôs, monstros, zumbis ou ditaduras totalitárias. 1984, de George Orwell, com sua metáfora da bota militar esmagando um rosto, é a síntese perfeita da opressão absoluta de uma classe sobre uma minoria social (mesmo que esta seja maioria em quantidade), o que é visto nos regimes de apartheid e nas nações escravocratas.

A alegoria do apocalipse zumbi também pode ter repercussões imagéticas interessantes na descrição da vida dos escravos vivendo entre seres que são semelhantes a eles (como o são os mortos-vivos) mas que carregam diferenças consideradas inconciliáveis. Zumbis se assemelham a vampiros em sua natureza parasítica, sempre em busca dos cérebros ou do sangue dos vivos, e é como parasitas vampíricos que podem ser vistos os senhores de escravos, explorando a energia dos cativos. Além disso, a metáfora encontrada na série de quadrinhos Os Mortos-Vivos (The Walking Dead), que foi adaptada para a TV, também é muito pertinente, pois nessa história os “mortos caminhantes” não são os zumbis, mas os próprios sobreviventes que estão à beira da morte. Os escravos negros também eram mortos-vivos neste sentido, pois suas vidas estavam à mercê dos implacáveis senhores, não eram donos de suas vidas, sempre à beira da morte ou, em certo sentido, mortos em vida.

Robôs

Data, o androide em busca de sua humanidade em Star Trek

Data, o androide em busca de sua humanidade em Star Trek

As histórias sobre robôs trazem diversos temas antropológicos interessantes. Um deles está ligado diretamente à etimologia da palavra robô, que pode ser entendida como sinônimo de “escravo”.

As máquinas que servem como substitutos do trabalho humano são entendidas por seus criadores e usuários como autômatos desprovidos de vontade própria, utensílios sem alma que apenas se assemelham vagamente a seres humanos. Essa forma de ver os robôs resume o que era a ideologia defendida para justificar a subjugação de seres humanos escravizados, representando-os como indivíduos dotados de menos humanidade que seus escravizadores, máquinas de carne negra sem alma.

O estigma que atrela a noção de escravo à de pessoa negra é tão forte hoje em dia que temos dificuldade de pensar em escravidão que não envolva pessoas negras. A escravidão existiu em toda parte ao redor do mundo, e povos de várias origens étnicas e diversos matizes já se encontraram sob o jugo da servidão forçada. Mas as consequências sócio-culturais dessa forma de trabalho não são tão sentidas na contemporaneidade quanto pelos negros descendentes de africanos, ainda tentando, em diversos contextos, provar seu status de humanos pensantes, do mesmo modo que robôs como Johnny 5 (Um Robô em Curto-circuito), Andrew (O Homem Bicentenário) e Data (Star Trek) tentam.

Essa metáfora que compara os afrodescendentes a androides foi explorada pela musicista Janelle Monáe em sua obra. A sinfonia The ArchAndroid, uma ficção científica em forma de música, conta sobre a profetizada vinda de uma Arquiandroide que libertará todos os androides.

Fábulas com robôs que querem ser humanos são excelentes metáforas do processo de humanização dos indivíduos de nossa espécie: estamos o tempo todo nos esforçando para nos aproximar de um ideal de humanidade, condicionado pela cultura em que vivemos. Minorias discriminadas, seja por racismo, sexismo ou outras normatividades, se vêem numa luta ainda mais hercúlea. Aliadas a isso, as fantasias de revolta contra os opressores e de tomada do poder encontram nas histórias com robôs um interessante paralelo. A revolta das máquinas em Matrix e O Exterminador do Futuro é uma alegoria do levante de escravos contra os portadores do látego. O Quilombo dos Palmares é uma sociedade de robôs libertos que provaram sua humanidade.

Hibridismos

O xenomorfo híbrido em “Alien: O Oitavo Passageiro”

Um tema da Ficção Científica que se relaciona com nossa dificuldade de lidar com sentimentos racistas é o hibridismo, seja entre duas ou mais espécies orgânicas, seja entre ser vivo e máquina. O exemplo mais clássico do parasita alienígena do cinema talvez seja a franquia Alien, onde a contaminação de seres humanos (e de outros animais) pelos xenomorfos produz criaturas que são amálgamas monstruosos, belos e mortais.

A história começa com a chegada de exploradores numa terra estranha e seu contato com uma espécie nativa, da qual resulta um ser mestiço, o “alien”. Esta criatura surge do estupro de um dos tripulantes, um homem branco, por parte da criatura feminina que eclode de um ovo e que pode ser vista como uma reminiscência simbólica de uma mulher africana. Há portanto a inversão da relação da violência sexual. Porém, tendo em vista a representação, por parte do colonizador, dessa relação como prejudicial a este – inclusive com a ideia de contaminação de DSTs supostamente originárias da África -, a metáfora invertida cumpre seu papel de remontar ao processo de exploração do continente africano e da consequente “contaminação” da cultura e biologia europeias pelas africanas. De acordo com Célia Magalhães, no livro Os Monstros e a Questão Racial na Narrativa Modernista Brasileira, a alegoria do parasitismo pode ser uma referência à mestiçagem colonial, em que os elementos culturais dos dominados são vistos como indesejados pelos defensores de uma idealizada pureza da cultura dominante.

O ser estranho que assim surge, mesmo tendo metade do DNA do conquistador, é visto como totalmente alienígena. E bastante emblemático que o xenomorfo tenha a cor negra e é bastante interessante o fato de, no primeiro filme da franquia, ele ser interpretado por um ator africano, escolhido justamente pelo exotismo de seu corpo. A parcela africana da herança das culturas ocidentais é ainda hoje vista como algo exótico e não propriamente normal, e ainda existem pessoas e grupos que defendem a extirpação dessa herança, como se o elemento negro de nossa cultura e de nossa população fosse uma monstruosidade incômoda. Nosso racismo velado ainda percebe a presença negra como um elemento intruso em nossa sociedade, ainda sentido como alienígena e passível de ocultamento ou até mesmo extirpação.

Embora um pouco diferente, o hibridismo cibernético também se presta à mesma alegoria. Como vimos, os robôs podem ser vistos como metáforas da minoria escravizada e desumanizada. Quando a máquina é integrada ao humano, dando origem aos ciborgues, temos toda sorte de enredos admoestando-nos sobre os perigos dessa união, o medo de que a parte máquina tome conta da parte orgânica e até mesmo oprima seu livre-arbítrio. É o que acontece com o policial Alex Murphy em Robocop, que precisa lutar internamente para não deixar que a máquina sem alma assuma o controle de suas ações. Também é o drama do Dr. Octopus em Homem-Aranha 2, que perde quase totalmente sua vontade ao ser seduzido pela frieza ambiciosa do implante que colocou em si mesmo, e dos Borgs em Star Trek, cuja parte mecânica embota completamente a liberdade do ser orgânico animado.

Representatividade

Depois que uma obra é publicada, ela não pertence mais ao autor. Seus leitores se apropriam dela como bem entendem e lhe imprimem os significados que consideram mais pertinentes. Dessa forma, é muito importante que as obras clássicas tradicionalmente carregadas de eurocentrismo, androcentrismo e heteronormatividade sejam relidas pelo olhar das minorias pouco ou nada representadas nessas obras. Além de ser um meio de enriquecer o cânone com mais possibilidades de leitura, é uma forma de os leitores se constituírem como ativos construtores de significado, fomentando a criação de novas obras carregadas de mais representatividade, especialmente uma representatividade de autoras e autores.