Una, romance gráfico e empatia

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Alfredo Bosi, no artigo “A Poesia Ainda é Necessária?”, afirma que uma das principais funções da linguagem lírica é aproximar o leitor daqueles que estão distante de nós, dar visibilidade aos socialmente invisíveis. A prosa também tem essa capacidade, especialmente se considerarmos a visão de Mikhail Bakhtin sobre o romance (e a linguagem prosaica em geral), segundo a qual esse tipo de escrita tem o poder de veicular vozes diversas e nos fazer compreender diferentes formas de se representar o mundo.

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O universo colorido de Steven

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Há tanta, tanta coisa a se falar sobre Steven Universo (Steven Universe) que cá eu fico planejando vários textos para abordar tantos dos temas que aparecem ao longo dessa bela série. Mas se não vier a ser o caso, ao menos vou apresentar aqui diversas das razões porque acho esse desenho animado tão apaixonante e instigante e porque penso que vale a pena lhe dar uma chance.

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Estupro – violência hierárquica e institucionalizada

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A cultura do estupro se constitui a partir de discursos que banalizam e naturalizam a violência contra a mulher. Esta vem sendo perpetuada a partir da reprodução de determinadas práticas sociais, ilustrando, assim, o cenário de ampla misoginia em que vivemos.

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Empatia e estupro

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Para muitas pessoas, o processo de cultivar a empatia é um exercício de abstração. Para homens vivendo numa sociedade machista, por exemplo, é quase impossível entender o que sentem as mulheres quanto a assuntos como estupro. Por isso é que há diversos homens se divertindo com a notícia de uma adolescente estuprada por 30 indivíduos do sexo masculino, fato ocorrido no Rio de Janeiro no último dia 20 e divulgado pelos próprios agressores no dia 25; por isso é que os estupradores em questão não conseguem pensar na vítima como uma pessoa com sentimentos, com inteligência, com alma; por isso é que mesmo entre aqueles que se indignaram há os que relativizam a violência e amenizam o papel dos agressores, atribuindo parte da culpa à vítima; por isso é que vemos poucos homens comentando com racionalidade sobre o assunto enquanto muitas mulheres expressam sua revolta.

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A desconstrução do universo continua – #UD2

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2013 marcou o cenário da ficção científica brasileira com o lançamento da coletânea Universo Desconstruído: Ficção Científica Feminista. No livro, distribuído gratuitamente em formato digital e disponibilizado para compra no Clube de Autores, Lady Sybylla e Aline Valek, junto a outros oito autores, apresentaram dez contos em que as mulheres aparecem como personagens centrais e sem cair nos estereótipos da indústria do entretenimento. Ao invés de aparecerem como donzelas em apuros, aqui elas são heroínas; no lugar de objetos decorativos, as protagonistas são agentes de mudança social; em vez de mulheres trabalhando para auxiliar personagens masculinos, vemos sujeitos com autonomia e na busca da realização de seus anseios.

O volume teve grande repercussão na internet e fora dela, e em 2014 as editoras do selo Universo Desconstruído publicaram a primeira tradução para o português do conto “O Sonho da Sultana“, de Roquia Sakhawat Hussein, escrito em 1905, considerado o primeiro conto de ficção científica feminista. Nesse ínterim, elas organizaram a segunda coletânea de contos originais, chamando diversas autoras e autores para compor Universo Desconstruído – Volume II.

Contendo contribuições da própria Lady Sybylla, de Jarid Arraes (que traz um inusitado cordel de ficção científica!), Fábio Kabral, Marta Preuss, Ben Hazrael, Clara Madrigano, M. M. Drack, Thiago Leite e Theodore Guilherme (que produziu a arte da capa), a nova coletânea está sendo lançada hoje e continua seu trabalho de desconstruir o status quo de um gênero literário que muitos pretendem manter sob monopólio daqueles que são privilegiados socialmente, especialmente homens brancos heterossexuais e cisgêneros. Esses “protetores” da ficção científica ignoram que o gênero há muito tempo vem sendo construído por autores os mais diversos, tendo sido inclusive inaugurado por uma mulher (Mary Shelley, com Frankenstein), e não percebem que essa noção de que a ficção científica “pertence” aos homens brancos é recente.

Tive a inestimável honra e o enorme prazer de participar desse segundo volume do Universo Desconstruído, contribuindo com o conto “O Resgate de Andrômeda”. Foi muito bom trocar ideias com as organizadoras da coletânea e conhecer pessoas novas que se preocupam em desconstruir ideias preconcebidas e estereótipos, divulgando suas ideias e abrindo portas para o debate transformador.

Para baixar o livro, basta selecionar um dos formatos disponíveis (PDF, epub ou mobi) e clicar no link correspondente abaixo. Você deverá “pagar” o download com um compartilhamento no Twitter ou no Facebook. Se preferir a versão impressa, clique na imagem da capa (canto superior direito do post) ou aqui para ser redirecionado ao site Clube de Autores.

PDF epub (e-reader)
mobi (Kindle)

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Blogagem coletiva dos autores

O sonho lúcido de Roquia

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O século XIX pode ser considerado o berço da Ficção Científica. De acordo com Isaac Asimov, na Introdução a Imortais: o Melhor da Ficção Científica do Século XIX,

a verdadeira ficção científica, por sua moderna definição (ou, pelo menos, minha moderna definição), não poderia ter sido escrita antes do século XIX, pois foi somente com a chegada da Revolução Industrial, nas últimas décadas do século XVIII, que a velocidade da mudança tecnológica se tornou grande o bastante para ser notada durante uma vida – naquelas áreas do globo afetadas por essa revolução.

De fato, foi nesse âmbito cronológico que surgiram autores pioneiros como Mary Shelley (provavelmente a mãe da Ficção Científica), H. G. Wells (ambos na Inglaterra) e Júlio Verne (na França). Suas obras, produzidas entre meados do século XIX e início do século XX, são referências e influências eternas na produção literária posterior e na maioria dos autores contemporâneos de Ficção Científica, mesmo que indiretamente. Mas é notório que estes autores, entre outros da mesma época, como Edgar Allan Poe (EUA), E. T. A. Hoffmann (Alemanha), Sir Arthur Conan Doyle (Inglaterra) e Guy de Maupassant (França), sejam todos originários de nações imperialistas e são quase todos homens. É muito difícil vermos escritores de Ficção Científica, na mesma época, advindos de povos colonizados, mesmo que a estes tenha sido imposta uma economia baseada na mesma tecnologia que impulsionou a Revolução Industrial nos países colonialistas.

Por isso é tão pertinente falar sobre Roquia Sakhawat Hussain (1880-1932), ativista social, escritora, muçulmana, nascida em Bengala (que atualmente se constitui numa região da Índia). Mas não apenas porque ela representa a voz do colonizado ou porque era uma mulher. Ela era uma feminista, e uma escritora feminista, e provavelmente a primeira escritora de ficção científica feminista.

A primeira tradução do conto de ficção científica feminista O Sonho da Sultana para o português foi feita por Lady Sybylla em 2014, como parte do projeto Universo Desconstruído, que começou com uma coletânea de contos inéditos. Ele está disponível gratuitamente em formato ebook e a edição impressa pode ser comprada no Clube de Autores. É com base nessa tradução, editada e revisada por Aline Valek (que também fez a belíssima ilustração da capa) que faço esta resenha.

O Sonho da Sultana

O conto O Sonho da Sultana (Sultana’s Dream) foi escrito em 1905. Também considerado um escrito satírico, é a primeira narrativa de ficção científica feminista de que se tem notícia. Seguindo a esteira da literatura europeia, tem muitos elementos que lembram os autores supramencionados, mas traz ideias inovadoras para a literatura de então, principalmente no que tange à crítica das relações de gênero da sociedade patriarcal em que viveu e na qual muitas mulheres ainda vivem, no Oriente e no Ocidente.

A história, narrada em primeira pessoa, se passa durante o sono da personagem título. Como se Sultana estivesse experimentando um sonho lúcido ou uma experiência-fora-do-corpo que a levou para outra dimensão, ela faz a seguinte observação:

Não tenho certeza se cochilei. Mas, pelo que me lembro, estava bem acordada.

Esse trecho é bem revelador sobre aquilo de que se trata o conto. Ela descreve cenas que se passam em um sonho e num mundo fantástico, ou seja, que são fictícias. Porém, ela não está passiva nesse sonho, pois, como num sonho lúcido, não apenas se dá conta do que está acontecendo como também aponta, sutilmente, que está “bem acordada” para a realidade que ela pretende desconstruir com sua narrativa. A mensagem dela aqui é a de que, por trás da aparência de um “sonho”, de uma ficção, revela-se uma verdade.

Nesse sonho, Sultana se encontra com Irmã Sara, uma habitante da TerraD’Elas, um lugar utópico em que todos os conflitos sociais e males naturais foram sanados e contidos. Além disso, os habitantes dessa terra guiam-se por uma religião baseada no Amor e na Verdade, levados às últimas consequências num exemplo prático de ética. O uso da utopia como tema dessa história serve, na narrativa de Roquia, para evidenciar os problemas reais de seu tempo e de sua cultura. Nos diálogos entre Sultana e Sara, vai se revelando uma crítica à violência, simbólica e física, a que estão sujeitas cotidianamente as mulheres numa sociedade patriarcal.

(…) não é seguro enquanto há homens perambulando pelas ruas, assim como também não é seguro quando um animal selvagem entra num mercado.

Sara ajuda Sultana a desconstruir essa violência com metáforas perspicazes que evidenciam a arbitrariedade da dominação masculina, que é mostrada aqui como uma construção social e não como um dado natural.

– Não temos voz alguma na gestão dos nossos assuntos sociais. Na Índia, o homem é nosso senhor e mestre. Ele tomou para si todos os poderes e privilégios e trancou as mulheres na zanana.

– Por que vocês se deixam trancafiar?

– Porque não podemos nos ajudar se eles são mais fortes que as mulheres.

– Um leão é mais forte que um homem, mas isso não permite que ele domine a raça humana. Vocês têm negligenciado os direitos que devem a si próprias. Perderam seus direitos naturais, fechando os olhos aos seus próprios interesses.

Nessa utopia matriarcal em que mulheres governam e homens são confinados ao ambiente doméstico, estes são apresentados como providos de uma tendência antiética, mais movidos pelos instintos do que pela razão. A própria evolução dessa sociedade fantástica só foi possível graças à liderança das mulheres, consideradas mais sensíveis e ponderadas, e à restrição das ações dos homens, causadores de confusão e conflito. É uma provocação instigante, pois inverte uma noção muito comum nas sociedades patriarcais, que é representar a mulher como mais volúvel, sujeita à imprevisibilidade de sua índole, mais próxima à natureza indomada, enquanto os homens são vistos como mais próximos de um ideal transcendente, com um caráter mais cultivado (mais próximos da cultura) e conduta menos inconstante.

A narrativa de Roquia revela, sob uma leitura acurada, que essas representações das identidades de gênero são repletas de contradições que podem ser usadas para desconstruir a si próprias. Ao mesmo tempo, ao criticar a conduta dos homens, descrevendo-os como belicosos e irascíveis, ela aponta para o fato de que a posição privilegiada do sexo masculino se faz pelo uso de uma violência institucionalizada, sendo esta, e não uma suposta força natural, o que os mantém no poder das relações de gênero.

Os elementos reconhecíveis como próprios de uma ficção científica começam a se mostrar quando Sultana indaga Sara sobre seus hábitos cotidianos.

– Como você cozinha? – perguntei.

– Com a luz solar – disse ela, ao mesmo tempo, mostrando-me o tubo por onde a luz solar concentrada era conduzida. E ela cozinhava algo aqui e ali para mostrar o processo.

Delineia-se então um cenário futurista de alta tecnologia em que a luz solar e a água da chuva são utilizadas da forma mais eficiente e versátil que se possa conceber. Mas esse cenário não é jogado para o leitor como um paraíso pronto que surgiu espontaneamente. Sara conta a Sultana toda a trajetória histórica que levou à constituição da TerraD’Elas.

– Deixe-me contar um pouco da nossa história. Trinta anos atrás, quando nossa atual rainha tinha treze anos de idade, ela herdou o trono. Era rainha apenas no nome, o primeiro-ministro é que realmente governava o país. Nossa gentil rainha gostava muito de ciência. Ela baixou um decreto dizendo que todas as mulheres em seu país deveriam ter educação formal. Assim, um grande número de escolas para meninas foram fundadas, apoiadas pelo governo. A educação espalhou-se entre as mulheres. E o casamento precoce foi interrompido. Nenhuma mulher tinha permissão de se casar antes dos 21 anos. Devo dizer que, antes desta mudança, estávamos restritas pela purdah.

– Como a situação se inverte – eu ri.

O Sonho da Sultana é uma excelente ficção especulativa que, com base em ideias simples, traça uma elaborada trama de fatos, causas e consequências imprevistas que vão transformando o destino de uma sociedade. Irmã Sara explica a Sultana os principais avanços científicos da TerraD’Elas, desenvolvidas pelas cientistas de duas das principais universidades criadas por esse reino matriarcal: uma forma de coletar água, o que teve como consequência colateral positiva parar as tempestades; e um meio de acumular energia solar para vários usos, inclusive para criar uma forma de raio de calor que permitiria que, sem derramar sangue, elas vencessem uma guerra e evitassem qualquer tentativa posterior de invasão por nações vizinhas. Sara explica ainda que a energia elétrica é usada para realizar todo o trabalho agrícola e para um sistema de transporte aéreo, prescindindo o povo de qualquer meio de locomoção terrestre.

É bastante interessante a tecnologia avançada imaginada por Roquia e genial a forma pela qual ela se encaixa num enredo de especulação histórico-cultural. Nisso eu considero que sua ficção científica explora muito bem as Ciências Humanas, tanto ou mais do que as ciências “hard”. Porém, não faltam cenas em que a Ciência é aplicada de maneira realmente digna das histórias de ficção científica mais tecnofílicas, como, por exemplo, a descrição verossímil do funcionamento de um veículo aéreo.

Sultana questiona Sara sobre como as mulheres conseguiram domar os homens, tendo em vista que estes são mais fortes fisicamente, ao que ela responde com perspicácia: “Usamos o cérebro”. E é muito interessante a crítica que Roquia apresenta aqui contra o argumento do tamanho do cérebro, usado por muitos neurocientistas, ainda hoje em dia, para “provar” que o homem é mais inteligente do que a mulher. A protagonista indaga sobre isso, e Sara replica:

– Sim, mas e daí? Um elefante também tem um cérebro maior e mais pesado que um homem. No entanto, o homem pode acorrentar elefantes e empregá-los de acordo com seus próprios desejos.

A história que leva ao atual estado de relações hierárquicas dos gêneros em TerraD’Elas pode ser assim resumida: as mulheres ganharam acesso à educação, por um decreto da rainha; foram construídas universidades, onde se desenvolveram complexas e inovadoras tecnologias; uma guerra matou a maioria dos homens, que foram confinados à reclusão doméstica pelo matriarcado; os raios de calor solar foram usados para expulsar os invasores; desde então a divisão sexual do trabalho sofreu uma profunda modificação, muitos dos papéis sociais de gênero se inverteram e alguns se tornaram obsoletos, como os de policiais e militares.

É nesse ponto que se encontra o mais contundente insight de Roquia. Através de uma ficção científica e de especulação histórica, ela desconstrói a ideia de que as relações sociais e a hierarquia de gêneros são dadas pela natureza, mostrando, através de uma narrativa complexa e repleta de acontecimentos e suas consequências, como podem ocorrer mudanças históricas e como podem surgir diversas configurações sócio-culturais entre os seres humanos. A mensagem dela é a de que, assim como as relações sociais da TerraD’Elas tiveram uma origem histórica, as sociedades da vida real também não são como são desde sempre.

De modo geral, a mensagem mais profunda de O Sonho da Sultana é a de que as informações de que precisamos para desenvolver tecnologias mais eficazes, evoluirmos enquanto sociedade e desconstruirmos as relações de dominação estão disponíveis para quem se der ao trabalho de observar com argúcia os fenômenos da natureza e os fatos das sociedades humanas. Nas palavras dela:

Nós mergulhamos fundo no oceano do conhecimento e tentamos descobrir as pedras preciosas que a natureza tem guardado para nós.

Para adquirir o conto

Fontes das imagens

Éowyn e os Homens

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J. R. R. Tolkien pode ser considerado um autor extremamente imaginativo e criador de histórias instigantes, além de ser reconhecido como uma das maiores influências do gênero “alta fantasia” (high-fantasy). Eu admiro sua obra, em suas virtudes e com seus defeitos. O que é dizer que há elementos em seus escritos que podem perfeitamente ser criticados sob uma luz contemporânea.

Um desses elementos é o racismo sub-reptício em sua caracterização dos povos humanos da Terra-Média, especialmente visível em O Silmarillion, onde há humanos de natureza mais nobre, mais parecidos com europeus, e humanos de caráter mais vil e servil, cuja aparência remete aos médio-orientais e/ou aos africanos.

Também é notório o androcentrismo da obra, elemento estrutural de suas narrativas que não está lá à toa, tendo em vista o autor pertencer a uma época e a uma cultura que tinha (e a ainda tem) no homem (do sexo masculino) o modelo arquetípico de ser humano. Não é irrelevante notar que Tolkien era um cristão devoto e que o Cristianismo é tradicionalmente machista: Adão foi criado à semelhança de Deus; Eva foi criada para servir Adão.

Não é que sua obra, sendo de natureza literária, não possua pistas e chaves para a desconstrução de valores tradicionais como os papéis de gênero e as identidades de gênero. É possível perceber na leitura de O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, entre outros escritos de Tolkien, detalhes importantes e pertinentes para ver nesses livros o caráter transgressor da Literatura, este apontado por Roland Barthes em sua Aula, mesmo que no caso do escritor britânico essa subversão seja tímida.

Melanie Rost, por exemplo, em seu ensaio Masculinity in Tolkien, mostra que diversas figuras masculinas da obra do escritor subvertem o ideal de masculinidade presente na tradição literária fantástica europeia. Aragorn, por exemplo, é diferente dos reis tradicionais de histórias como as de Arthur, pois conquista seus súditos com amor e não com glória bélica. Bilbo é diferente dos heróis convencionais, pois conquista seu heroímo através do uso da conciliação e não de seu valor em batalha, a qual evita a todo o custo.

Homens, Anões, Hobbits e Elfos

“Homens”, Anões, Hobbits e Elfos

Homens

Uma das coisas que me chamaram muita atenção desde a primeira vez em que li O Senhor dos Anéis foi a forma como Tolkien se refere à raça humana: Homens ou, em inglês, Men, sempre com inicial maiúscula (outras raças também era nomeadas com maiúsculas: Elfos, Anões, Hobbits etc.). Esse modo de designar a espécie humana com uma palavra que também denota o indivíduo de gênero masculino desta espécie não é nada muito diferente do tradicional, na realidade, pois é comum até hoje as pessoas se referirem aos seres humanos de ambos os gêneros como “homens” (“men”), e ao ser humano em geral como “o Homem” (“Man”), este às vezes com inicial maiúscula, para diferenciar da referência a um indivíduo específico. Ora, vejamos as definições tradicionais de man e de homem, retiradas, respectivamente, dos sites-dicionários Oxford Dictionaries (inglês) e Priberam (português) (os exemplos e significados derivados foram suprimidos, mas podem ser conferidos nos respectivos sites originais):

Definition of man in English:
noun (plural men /mɛn/)

1. An adult human male:
(…)
2. A human being of either sex; a person:
(…)
2.1 (also Man) [in singular] Human beings in general; the human race:
(…)

ho·mem
(latim homo,inis)
substantivo masculino

1. [Zoologia]  Mamífero primata, bípede, com capacidade de fala, e que constitui o .gênero humano.
2. Indivíduo masculino do .gênero humano (depois da adolescência).
3. [Figurado]  Humanidade, .gênero humano.
4. Cônjuge ou pessoa do sexo masculino com quem se mantém uma relação sentimental e/ou sexual.
5. Pessoa do sexo masculino que demonstra força, coragem ou vigor.

O sentido dúbio da palavra homem está instrinsecamente relacionado à representação androcêntrica do ser humano como um ser modelarmente masculino, uma representação que enxerga sub-repticiamente (às vezes explicitamente) as mulheres como uma variação do ser humano “normal”, uma criatura secundária, até mesmo incompleta comparada ao modelo ideal masculino (esta visão da mulher como um “homem defeituoso” era explicitamente defendida na Grécia Antiga, cuja cultura exerce influência milenar sobre nós). (No artigo A Evolução do Homem Branco eu explorei um pouco esse tema, inclusive a representação do ser humano idealizado como branco-europeu.)

Em Tolkien, como já afirmei acima, não se foge dessa nomenclatura tradicional e antiga. Porém, é interessante notar o uso específico pelo escritor britânico das formas Man, Men, man e men. Quando usa a palavra com inicial maiúscula (tanto no singular quanto no plural), Man/Men se referem à raça mortal à qual, por exemplo, pertencem Boromir de Gondor e Éowyn de Rohan. Quando escrito com minúscula, man/men designa indivíduos específicos do sexo masculino, em alguns casos até mesmo de raças não humanas (essa dicotomia, traduzida para o português, não traz diferença significativa em relação ao original inglês). Assim, Boromir e Éowyn são Homens (maiúsc.), pertencem à raça Homem (maiúsc.), enquanto Galadriel e Meriadoc Brandebuque, sendo respectivamente uma Elfa e um Hobbit, não podem ser chamados de Homens (maiúsc.); por outro lado, se Boromir é um homem (minúsc.), Éowyn não o é, pois pertence ao gênero feminino, é mulher; Galadriel também pode ser referida, nos termos de Tolkien, como uma mulher Elfa, enquanto Meriadoc pode ser chamado de homem (minúsc.) Hobbit.

Éowyn

Entretanto, uma das cenas mais impactantes de O Senhor dos Anéis coincide com um momento em que Tolkien flerta com uma subversão dessa regra: o embate entre a guerreira Éowyn e o Senhor dos Nazgûl, no capítulo “A Batalha dos Campos de Pelennor”. Esse momento fatídico é a culminação de um ato de rebeldia da sobrinha do rei Théoden, proibida por este de participar da batalha nos campos de Pelennor. Disfarçada com um elmo, Éowyn, usando o pseudônimo Dernhelm, não só adentra as fileiras de seus conterrâneos Rohirrim como leva seu amigo Meriadoc, mais conhecido como Merry, o Hobbit que também fora instado pelo rei a ficar com as mulheres e crianças durante o conflito.

Depois que o Rei-Bruxo derruba Théoden de seu cavalo e entrega a montaria do monarca como presa à sua própria montaria alada, Éowyn se interpõe temerariamente diante do inimigo, ao que este responde com uma zombaria (a tradução em português é da edição da Martins Fontes):

Thou fool. No living man may hinder me.

[Tu és tolo. Nenhum homem mortal pode me impedir!]

A guerreira remata:

But no living man am I! You look upon a woman. Éowyn I am, Éomund’s daughter. You stand between me and my lord and kin. Begone, if you be not deathless! For living or dark undead, I will smite you, if you touch him.

[Mas não sou um homem mortal! Você está olhando para uma mulher. Sou Éowyn, filha de Éomund. Você está se interpondo entre mim e meu senhor, que também é meu parente. Suma daqui, se não for imortal! Pois seja vivo ou morto-vivo obscuro, vou golpeá-lo se tocar nele.]

Resumindo o restante da cena, o Nazgûl hesita, Éowyn decapita o monstro alado, o inimigo ameaça atacá-la com sua maça, Merry atravessa o joelho do dele por trás com uma adaga, ela golpeia com sua lâmina a cabeça do vilão e este se deteriora em pleno ar.

O que esta sucessão de acontecimentos e, especialmente, essa troca de palavras entre a heroína e seu oponente me leva a pensar em termos de significado e ressignificação é a desconstrução que o texto de Tolkien faz de sua própria forma androcêntrica de conceber a humanidade. A narrativa neste trecho é extremamente densa, e o trocadilho que envolve a palavra “man” (“homem”) serve, explicitamente, para criar um efeito dramático que provoca um arrepio na espinha do leitor, pois a profecia do Nazgûl é posta em cheque pela quebra da expectativa de estar diante de um indivíduo do sexo masculino, contrariando ao mesmo tempo o preconceito de que num campo de batalha qualquer Homem (maiúsc.) deveria ser um homem (minúsc.).

Porém, mais do que perceber com os sentidos que se trata de uma pessoa do sexo feminino, podemos pensar que é o discurso de Éowyn que realmente provoca impacto sobre a postura desafiadora do Nazgûl: ele poderia continuar pensando, mesmo depois de ver a mulher, que ela continuava sendo um Homem (maiúsc.), ou seja, um ser humano, já que, embora o texto mostre a palavra com minúscula, na fala essa diferença de escrita é despercebida. Assim, quem acerta o primeiro golpe no duelo é Éowyn, com suas palavras, e estas já provocam o efeito que seu inimigo pensou que evitaria: ele hesita, ou seja, ele se detém (hinder), o que de certa forma já dá início a sua derrota.

O trecho pode ser lido, repito, como um momento de autodesconstrução do próprio texto. A fala de Éowyn desafia a designação tradicional do ser humano como “Homem”, tendo em vista o valor machista veiculado (intencionalmente ou não) por meio desta palavra. Se o Nazgûl, em princípio, deixa implícito que “living man” pode se referir a qualquer ser humano, o feroz contragolpe, neste duelo de palavras, chega mesmo a desconcertar o decoroso Lorde, ressoando talvez o desconcerto do leitor do livro ao descobrir que aquele jovem cavaleiro chamado Dernhelm é na verdade a sobrinha do rei, e as circunstâncias da luta concretizam o que estava previsto: o Nazgûl é detido e morto pelo golpe de uma mulher, não de um homem.

Ainda mais interessante é a profundidade que esta desconstrução e jogo de palavras alcançam se notarmos que Merry teve participação na derrota do vilão. Ele, Merry, não é um Homem (maiúsc.), embora seja, nos termos tolkenianos, um homem (minúsc.). Um Hobbit, não um Homem, também conseguiu deter (hinder) o Nazgûl com um golpe em seu joelho. Esse elemento adiciona mais sentido a essa desconstrução ao evidenciar a possibilidade de confusão entre os termos com maiúscula e com minúscula, confusão “proposital” que faz parte da própria ideologia da desigualdade de sexo/gênero, responsável por manter a ideia de que o homem do sexo masculino é o modelo padrão de ser humano; ao escutar em voz alta o texto dessa passagem do livro, não temos como identificar a marcação da diferença na letra minúscula: nem Éowyn nem Merry são (h/H)omens.

Podemos deixar essa equivalência fonética e semântica mais clara, vendo o trecho do filme O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, que corresponde ao capítulo “A Batalha dos Campos de Pelennor”, onde o diálogo foi reelaborado, mas o trocadilho se manteve e o efeito dramático mudou com o uso dos efeitos visuais.

Esclarecimentos

A ideia da desconstrução do androcentrismo estrutural reproduzido pela língua tem sido debatida entre feministas, desde pelo menos a primeira metade do século XX, com Simone de Beauvoir, e por linguistas de diversas vertentes, especialmente na área da Análise do Discurso, como a Linguística Sistêmica Funcional (Michael Halliday etc.) e a Análise Crítica do Discurso (Norman Fairclough etc.). Digo isso principalmente para que os desavisados não pensem que estou inventando moda, ou que só eu e alguns felinos gotejados estamos enxergando folículos capilares em óvulos não-fecundados de aves galináceas.

Também adianto, antes de mais nada, que gosto muito dos livros de Tolkien e que qualquer obra realizada por seres humanos portadores de individualidade única está sujeita a altos e baixos sob o olhar de quem a admira, como disse no início do texto, em suas virtudes e com seus defeitos que a tornam um objeto singular, para apreciação e para crítica. Ambas podem enriquecer a obra ainda mais.

Fontes bibliográficas

  • TOLKIEN, J. R. R. The lord of the rings – 50th anniversary edition. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 2004.
  • _______. O senhor dos anéis: o retorno do rei. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Links

Imagens

  • Destaque: Éowyn du Rohan, por Donato Giancola
  • JRR Tolkien, por Audrey Benjaminsen – DeviantArt
  • Elrond Recalls the Hosts of Gil-Galad, por Michael Kaluta
  • Trecho de Éowyn Before the Doors of Meduseld, por Michael Kaluta
  • Éowyn and the Nazgûl, por John Howe
  • Éowyn & Nazgûl, por Donato Giancola

Frozen: Pesado como o frio e Leve como um floco de neve

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Atenção: o artigo contém SPOILERS sobre o filme Frozen, da Disney, de 2013.


Então explore o coração, frio e límpido
Que pulsa por amor e por medo
Veja a beleza pura e simples
Separe o gelo!
E quebre o coração gelado

(…)

Belo!
Poderoso!
Perigoso!
Frio!

O gelo tem uma magia, não pode ser controlado
Mais forte que um, mais forte que dez!
Mais forte que cem homens!

(…)

Nascida do frio e dor ar invernal
E da chuva da montanha juntos!
A força gélida, desleal e justa
Tem um coração a ser minerado!

(…)

Cuidado com o coração congelado

(Trechos da música “Frozen Heart”, que abrem o filme.)

Frozen (Disney, 2013) é um filme belíssimo, com passagens muito engraçadas e roteiro bem amarrado que fez e ainda faz pessoas no mundo inteiro chorarem e simpatizarem com seus personagens, tornando-se hoje uma das franquias mais lucrativas da empresa. Em uma análise mais profunda, Frozen pode ser considerada uma Tragédia (no sentido clássico da palavra) nos primeiros 3/4 do filme e finalizando uma Comédia (também no sentido aristotélico), como será explicado daqui a pouco. A animação é uma história sobre a Leveza vencendo o Peso*, sendo os dois representados de diversas formas. O uso da Leveza é tão poderoso que faz com que o sofrimento daquelas duas meninas seja concebível para os espectadores, crianças, em sua imensa maioria, e é exatamente por isso que o filme merece todos os méritos de ser uma obra inteira dedicada à Leveza. Em termos de comparação e exemplificação, vemos “momentos de Leveza” em grandes obras de arte e, selecionando apenas filmes pra comparar, temos em Up a forma em que é contado o processo de derrota pelo câncer e a morte da esposa de Frederikssen no início do filme; nas conversas infantis entre o protagonista e um garoto judeu em O Menino do Pijama Listrado; na performance do pai do garoto judeu em A Vida é Bela ao contar-lhe que o campo de concentração era uma gincana; na metalinguagem que o filme Dancer in the Dark de Lars Von Trier faz com as músicas entre uma desgraça e outra durante o filme; isso só pra citar alguns exemplos. Já Frozen, como disse lá em cima, é uma Tragédia contada de forma que crianças reconheçam sua existência, porém apenas adultos poderão fazer ideia do nível desse horror.

Como nos mitos infantis clássicos, não sabemos como Elsa adquire seus poderes e qual sua magnitude, o espectador cai de “paraquedas” na história e esse fator dá um tom Fantástico ao filme.

Começamos acompanhando a brincadeira entre as irmãs, ainda crianças, e é nessa hora que o filme nos apresenta o Peso do poder quando Elsa atinge a irmã com um raio. Anna: Leve e descompromissada; Elsa: Pesada pelo medo, pela maldição e pelo dever de cuidar da irmã. Anna está ferida e é levada para os trolls da floresta, quando um deles diz:

Têm sorte de não ter sido o coração dela.

Mais direto impossível: o frio que atingiu o cabelo de Anna e sua mente, na mitologia do filme, significa a apatia, a dor, a tristeza ou até mesmo a melancolia. De Anna, toda a lembrança do Peso é extraída, todo o sofrimento; uma magia poderosa que nos faz pensar quem somos como humanos: uma reação à dor passada, almas endurecidas que aos poucos vão perdendo a magia, a Leveza. Os traumas do passado forçando nosso subconsciente a agir mais defensivamente ou até a evitar situações que nos remetem a eles, mudando o rumo de nossas vidas. Anna a partir de agora é uma pessoa sem memória, sem traumas ou frustrações: Uma pessoa Leve.

E é aí que a Tragédia começa: Elsa sabe do Peso desse poder, que é belo e ao mesmo tempo terrível. A exclusão dela do mundo e da própria irmã é um absurdo: uma vida miserável dentro de um quarto em contato apenas e por pouco tempo com seus pais, e essa dor é cantada por Anna em “Do You Want to Build a Snowman?” (“Você Quer Fazer um Boneco de Neve?”) – um artifício humano para aplacar a dor: a música, o som ritmado e melodioso que vem de tempos imemoriais desde os épicos, passando pelo teatro e chegando ao audiovisual. As canções vêm sendo usadas em musicais há muitos anos para esse fim: diminuir o Peso da história, e esse é um dos (vários) artifícios de que Frozen vai se utilizar. A canção vai encobrir o Peso dos anos de terror que as duas meninas vão passando pela separação – duas irmãs sofrendo juntas e completamente separadas por uma parede apenas: a solidão, o tédio, a perda dos pais e da amizade, não consigo pensar em maior sofrimento pra aquelas crianças!

Daqui por diante vou selecionar os personagens e seus símbolos, além de momentos-chave de dualismo Leveza x Peso que, claro, são interpretações minhas e que podem haver falhas, porém espero que fique clara a ideia que quero passar aqui, escrita no primeiro parágrafo:

Anna: a pura Leveza: uma menina estabanada, engraçada, ingênua, que quer sair, mesmo que por um dia (o da coroação da irmã) – “for the first time in forever” daquela eternidade de privações e viver como uma “princesa” pela primeira vez – Anna quer amar! Anna quer tudo que lhe foi tirado e nem sabe por quê! Ela sente um Peso que nunca mereceu ou entendeu – por anos! Anna procura um amor Romântico, como uma típica garota do século XV, XVI e XVII, inundada de Romances em que as princesas eram mulheres virgens e cheias de virtudes esperando pelo príncipe encantado que irá lhe propor em casamento e ser “feliz para sempre”, e o filme será feliz em desconstruir essa imagem, como será analisado mais à frente.

Agora vamos à Elsa: o Peso a possui – o frio, que é retratado em várias culturas como a época de se resguardar e racionar a comida estocada durante o verão e outono; o Inferno é gelado na Divina Comédia – enfim, esse poder é o Mal e Elsa tem que “conceal, don’t feel” (“reprimir, não sentir”), porém agora eles (o povo) já sabem, então “let it go!” (“deixe ir!”). Elsa libera todo seu poder e nós vamos com ela, pois sabemos de toda sua história de privações e sofrimento; essa é a verdadeira Elsa, uma mulher livre do Peso da majestade, das obrigações para com os outros e do medo do seu poder (“o mal”). Elsa em “the cold never bothered me anyway” (“o frio nunca me incomodou mesmo”) deixa escapar uma falha de caráter que raramente se vê em filmes infantis onde os protagonistas são seres perfeitos aos olhos da Moral: Elsa permite-se dizer que o poder é a sua Natureza – ela é Pesada por si e faz pirraça como que dissesse: “e daí, se eu sou o Mal, que seja”. Esse momento eu chamo de A Primeira Catarse: o filme nos induz, pela primeira vez ao “erro” e esse apoio à Elsa nos faz esquecer que todos na cidade podem morrer de frio por causa desse súbito egoísmo da garota.

O castelo de gelo: Construído por Elsa, o castelo, belíssimo, traz consigo uma dúvida a respeito do julgamento dessa “maldição” – como é possível algo tão “ruim” como o inverno proporcionar algo tão belo? Seria esta a forma de o filme mostrar que a dor e a melancolia são capazes de proporcionar obras-de-arte belas, que o Peso faz parte da vida e não é tão ruim assim tê-lo de vez em quando?

Elsa x Anna no castelo de gelo: o Peso volta à vida de Elsa quando Anna revela que a cidade entrou num “eterno inverno”, ou seja: (na concepção dela) o “Mal” tomou conta do lugar e Elsa precisa resolver isso, porém Elsa diz à irmã que é impossível reverter a magia, uma metáfora para “essa tristeza é da minha natureza e não há como tirá-la de mim”. Com isso, a dona do castelo expulsa a todos com um monstro de gelo que se contrapõe ao…

Olaf: representante da Leveza dos anos da infância: ingênuo e engraçado, Olaf é um outro artifício utilizado pela arte, conhecido como “alívio cômico”, “bobo” ou “fonzie”(nos sitcoms), ele serve como “redutor de Peso”; já o Monstro de gelo é Elsa assumindo o seu lado Pesado e Mau: “o frio nunca me incomodou mesmo”.

Os Trolls: Kristoff declara em alto e bom som: “eles são como família / (…) eles podem ser inapropriados, barulhentos, autoritários e PESADOS, BEM PESADOS.” Quando Anna replica: “Kristoff, eles são MARAVILHOSOS”, temos aí uma mensagem bela sobre a família: eles podem ser Pesados, mas são sua família, como Elsa é para Anna, e nem isso os faz menos maravilhosos: o Peso pode ser contornado com o amor verdadeiro, e isso com certeza será um ponto a ser dedicado agora!

O Amor Romântico x o Amor “verdadeiro” e a verdadeira Leveza: “O amor! O amor! É isso!”, grita Elsa depois de ver Anna morrer congelada na sua frente. Elsa e Anna concluem que a única forma de se salvarem mutuamente e ao mundo que lhes rodeia é através do amor verdadeiro; o Peso do mundo real só pode ser sobrepujado pela Leveza do amor, não do amor Romântico criado com fins controladores e mercadológicos da Idade Média: o amor entre irmãos, família e amigos. Esse amor está espalhado no filme inteiro como a resolução de um crime em um livro policial, esfregando em nossa cara a amizade do Kristoff e sua rena; dos pais de Anna e Elsa para com elas; do ato de Kristoff em levar sua amada para outro homem para que ela seja salva; do amor dos Trolls para com seu “filho humano” e o amor entre as irmãs princesas. A desconstrução que o filme faz de toda uma cultura Romântica é poderosa e catártica, assim como a total vitória da Leveza sobre o Peso; da tragédia à comédia (também no sentido original da palavra).

O filme Frozen pode ser uma metáfora sobre como o Peso pode deixar as pessoas mais responsáveis, reflexivas e contemplativas, bem como isoladas e depressivas. Desse Peso pode-se extrair coisas belíssimas como o castelo de gelo de Elsa – belo e Leve – e da arte como forma de expressão. A Leveza, na figura de Anna, em contraponto, poderá reduzir esse Peso tomando para si parte dele através de um ato de amor verdadeiro – um sacrifício que os heróis cometem. E essa é a terceira Catarse, a quebra do paradigma do herói macho e único, que resolve tudo sozinho: Frozen, no final das contas, tem duas heroínas.

Elsa, nos segundos finais do filme: deslizando pelo gelo, alegre e decidida, em contraponto com a Elsa séria e sem coragem de sequer tocar as pessoas e Pesada, andando na neve. Ítalo Calvino iria pular da cadeira com essa cena.

Elsa, nos segundos finais do filme: deslizando pelo gelo, alegre e decidida, em contraponto com a Elsa séria e sem coragem de sequer tocar as pessoas e Pesada, andando na neve. Ítalo Calvino iria pular da cadeira com essa cena.


*A “Leveza”, como descrito por Ítalo Calvino (Seis Propostas Para o Próximo Milênio. Companhia das Letras, 1990) era (é), bem resumidamente, um artifício artístico que visa reduzir o “Peso”, que pode ser desde o peso do mundo real, de uma situação qualquer, e trazer um mínimo que seja de fuga, de beleza ou esperança. São imagens, metáforas, alegorias em grande parte.

O Rei Leão e o Patriarcado

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lion_king_ver1É bem conhecido o viés sexista da maioria das animações dos Estúdios Disney. Via de regra, os protagonistas dos contos de fadas transformados em longas metragens pela empresa se encontram na camisa-de-força dos papéis de gênero. Homens são guerreiros, heróis, príncipes; mulheres são donzelas, damas, princesas. Com louváveis exceções trazidas pela Pixar e por obras mais recentes da Disney, o androcentrismo, a subjugação da mulher, o patriarcalismo e até mesmo a homofobia (personagens homens afeminados ou mulheres masculinizadas em geral são vilões ou, no mínimo, coadjuvantes que servem como alívio cômico) estão marcantemente presentes em filmes como Branca-de-Neve e os Sete Anões, A Bela e a Fera e Aladdin, para citar só alguns.

No entanto, essa ideologia sexista pode passar despercebida para a maioria dos expectadores e pode até ser posta em dúvida, quando se traz à tona a exceção do exemplo de Mulan como uma possível transgressão. Porém, a heroína chinesa empreende sua luta contra os invasores hunos para que no final tudo volte ao status quo em que mulheres são fêmeas e homens são machos.

A alegoria zoomórfica de O Rei Leão torna mais difícil perceber sua mensagem androcentrista, já que se tratam de animais vivendo, teoricamente, só pelo instinto, sem as regras sociais artificiais da cultura humana. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, quando a olhamos como metáfora das relações humanas, a história deixa bem evidente, por baixo da bela fábula de reconciliação e assunção da responsabilidade, uma mensagem mais sinistra: uma defesa do Patriarcado.

A dinastia patrilinear

MufasaSarabiSimba

O rei, o herdeiro varão e a consorte tornada rainha.

A linda cena inicial do conto, ao som de uma bela música africana, cheia de cores da savana africana com sua fauna despertando ao nascer do sol para ver o recém-nascido herdeiro do trono como símbolo do próximo passo no ciclo da vida, é uma metáfora de uma monarquia humana em que o imponente rei celebra junto a seus súditos o nascimento de seu primeiro filho varão.

Por enquanto, a ideia de que o herdeiro tem que ser necessariamente um macho não fica tão explícita, pois Simba é a primeira cria de Mufasa com sua companheira Sarabi, presumidamente a rainha da savana, e podemos imaginar a possibilidade de que qualquer que fosse o sexo da criança ela seria considerada herdeira do reino. Mas a figura materna e feminina de Sarabi é secundária nessa cena, pois quem se destaca aqui são o pai masculino e o filho. A mãe mal aparece, como se seu papel se resumisse a dar à luz o pequeno leão.

Um dos cuidados que os Estúdios Disney costumam ter ao representar animais é a relativa fidedignidade e verossimilhança dos personagens zoomórficos com as respectivas espécies a que fazem referência no mundo real. Os leões, na natureza, vivem em grupos dominados por um macho e compostos na maior parte por fêmeas e filhotes. Estes são crias do macho dominantes com todas as outras fêmeas.

É interessante observar uma cena instigante do filme, em que Simba acorda seu pai para sair e brincar. Uma criança talvez não se dê conta disso, mas um adulto mais atento verá que a “corte” dormindo no “palácio” só tem um macho adulto (Mufasa) e várias fêmeas, incluindo Sarabi. Esta é somente uma das consortes do rei. Posteriormente veremos que no mesmo grupo há outros filhotes, dos quais só conhecemos Nala, a amiga de Simba, provavelmente da mesma idade que ele.

Dessas observações podemos presumir o seguinte: Mufasa tem um harém com várias esposas e/ou concubinas, e todas elas provavelmente têm filhotes dele; é provável que Simba tenha sido o primeiro filhote macho de Mufasa, e Sarabi se tornou “rainha” justamente por ter sido a primeira fêmea do grupo a lhe dar um varão; Nala é meio-irmã de Simba e tem a mesma idade que ele, mas sua importância no grupo é muito menor do que a dele, por ela ser fêmea (é até possível que ela seja um pouco mais velha que ele, tendo em vista que ela parece ser mais sábia e mais habilidosa, mas ela é preterida na sucessão do trono, já que não pode ser um rei).

Scar, o macho desviante

Mufasa, o macho reconhecido, e Scar, o macho desviante.

No entanto, há outro elemento que reforça a predominância não apenas do macho, mas sobretudo do masculino, da masculinidade e, ligada a isso, a heteronormatividade nessa sociedade patriarcal. É o que se vê na preterência de Scar, irmão de Mufasa, como herdeiro do reino. Ele não se encontra em segundo lugar apenas por não ser primogênito, mas porque não representa um ideal de masculinidade e sexualidade encontrado no exemplo de seu irmão. Além de aparentemente ser mais fraco fisicamente, Scar tem uma personalidade covarde e maliciosa, o que se opõe à bravura e honradez que se espera de um grande leão macho. A fraqueza, a covardia e a malícia estão ligadas, no imaginário conservador do sexismo ocidental, ao feminino.

Tradicionalmente, no Ocidente, a masculinidade se confunde com heterossexualidade. Um homem “verdadeiro” é capaz de passar sua semente adiante, e isso implica que ele seja heterossexual, que saiba lidar com, ou melhor, tenha poder para dominar as mulheres e impregná-las. Já vimos que Mufasa possui um harém e filhos com mais de uma fêmea. Porém, Scar não parece se interessar nas fêmeas, o que se torna ainda mais evidente na segunda parte do filme, quando ele se torna rei após matar seu irmão. Diferente de Mufasa, o usurpador não se cerca de leoas em seu decadente palácio, apenas as envia para caçar. Sua relação afetiva maior é com as hienas, suas lacaias. A anti-heterossexualidade de Scar (não há como afirmar com certeza que ele é homossexual, embora alegoricamente possa ser considerado assim) é reforçada pelo estereótipo afeminado de seu comportamento. Ele tem trejeitos que podem ser considerados como emasculados, vilipendiados numa sociedade machista e heteronormativa como a nossa.

É preciso enfatizar que o personagem do irmão traidor é concebido explicitamente como um mau caráter, o que em si mesmo pode não estar relacionado diretamente a sua identidade de gênero. Ele realmente se mostra um líder inepto e sua inabilidade para governar traz a penúria e a fome para seus súditos. Mas importa observá-lo como integrante de uma estrutura imagética ligada ao sexismo de nossa cultura. Scar é apenas um exemplo ente outros semelhantes em que coincide uma masculinidade desviante com o mau caráter vilanesco. Jafar, por exemplo, em Aladdin, é muito semelhante a Scar em quase todos os aspectos aqui tratados, bem como Hades em Hércules. Não é mera coincidência que em várias histórias de heróis masculinos da Disney a virtude do protagonista esteja atrelada a uma masculinidade idealizada e o vício do vilão a um desvio dessa masculinidade.

As hienas e o Matriarcado

Hyenas

Banzai, Shenzi e Ed. A fêmea no meio é a líder.

Mas é no antagonismo mais explícito encontrado na figura das hienas que vemos uma evidência ainda mais forte da defesa do Patriarcado. Neste caso, as hienas são um contraexemplo da sociedade dominada pelos machos.

Assim como os leões de O Rei Leão são apresentados com certa fidedignidade em relação aos Panthera leo reais, as hienas caricaturais são mostradas com características semelhantes às da espécie verdadeira, sendo a mais pertinente sua estrutura social matriarcal. Os membros da espécie Crocuta crocuta se organizam através da dominação de uma fêmea alfa e das outras fêmeas do grupo sobre os machos. Isso está evidente no trio principal de hienas do filme, liderado por Shenzi, a única fêmea do grupo.

Elas são vilãs no filme, e representam covardia, ardil e traição. Dessa forma, é por uma questão de estrutura narrativa que, uma vez que leões e hienas são retratados como antagonistas entre si, seus modos de vida se oponham um ao outro. O Matriarcado das hienas é condenado pelo viés patriarcalista da fábula, e isso se reforça pela forma desprezível por que elas são retratadas. A sociedade leonina, liderada por um leão macho reconhecido (e que domina inclusive outras espécies, tidas como súditos da família real dos leões), é defendida como a organização social legítima e desejável para todos.

Hakuna Matata e a irresponsabilidade

Simba, Timão e Pumbaa vivendo uma eterna infância.

Um dos momentos cruciais da vida de Simba é o período em que ele passa vivendo com a dupla Timão e Pumbaa, um suricato e um javali, respectivamente. Levando a vida segundo a filosofia do Hakuna Matata (expressão suaíle que significa “sem problemas”), os três passam seus dias se divertindo, imersos em total hedonismo. Com Timão e Pumbaa, Simba esquece quase completamente sua origem.

Seu modo de vida guarda analogias com o das hienas, sempre buscando a maneira mais fácil de sobreviver e sem assumir nenhuma responsabilidade ética por seus atos (no caso das hienas, delegando essa responsabilidade a alguém mais forte que elas – Scar -; no caso dos três amigos, anarquicamente desvinculados de qualquer relação de poder).

É interessante resgatar o que a antropóloga francesa Élisabeth Badinter escreve sobre a analogia que muitas culturas humanas fazem entre a infância e a condição feminina. Muitos povos consideram que a mulher é uma criança que não amadureceu, enquanto o homem é visto como uma criança que completou seu desenvolvimento, o que é uma forma de justificar a dominação masculina. O infantilismo de Timão e Pumbaa é um reflexo da sociedade matriarcal (feminina) das hienas, e a mensagem aí é a de que ambas são indesejadas para um domínio masculino ditado pelas regras patriarcais.

Essa fase de exílio é criticada duramente pelo fantasma de Mufasa, que adverte seu filho a assumir seu papel como legítimo herdeiro do reino. Contrapõe-se, assim, a irresponsabilidade do modo de vida infantil de Timão e Pumbaa à necessidade da assunção das responsabilidades de “homem” adulto formado, da adequação a um modelo de masculinidade idealizado.

O ciclo da vida

O Rei Leão é uma de minhas animações preferidas da Disney. Gosto do visual, da música e dos personagens, e admiro a história de reconciliação e amadurecimento do protagonista. Porém, como costumo dizer, apreciar uma obra não impede de enxergar vieses com os quais discordamos. A trajetória de Simba é repleta de símbolos pró-patriarcado, machistas e heteronormativistas, e é importante apontar para isso, especialmente quando levamos esse e outros filmes para as crianças, capazes de reproduzir as ideias e valores culturais sub-reptícias com as quais mantêm contato. Por isso outras obras devem ser vistas pela geração mais nova, especialmente os filmes da Pixar (sendo Valente um dos melhores exemplos) e os do Estúdio Ghibli, para citar dois ótimos exemplos, repletos de desconstrução dos papéis tradicionais de gênero e sexualidade. Assim o cinéfilo em formação pode perceber desde cedo que não existe apenas uma forma de se viver em sociedade e que os diversos meios de as pessoas se associarem afetivamente são válidos para aqueles que livremente optam por adotá-los.

As mulheres de Star Trek

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Uma africana, um nipo-americano, um russo, um escocês e um alienígena. Esses eram os principais não-americanos da tripulação da Enterprise nos idos da década de 1960. Desde então, Star Trek tem se empenhado, embora com menos sucesso do que o satisfatório, em representar a diversidade humana entre seus protagonistas. Embora a representação de negros, por exemplo, não tenha sido lá tão contundente e até tenha decaído, como já discorri em outro texto, pode-se dizer que a representação feminina apresentou um crescendo que teve como fenomenal ápice a série Voyager (para depois decair bruscamente com a sofrível Enterprise).

Sem grandes pretensões de esgotar o tema, vamos aqui fazer uma viagem aonde nenhuma mulher jamais esteve, partindo da Série Clássica dos anos 60 até a última série da franquia, nos anos 2000, dissertando sobre as principais mulheres que tiveram destaque. Até onde Star Trek conseguiu ser revolucionária quando se trata de representar as mulheres fora dos padrões androcêntricos que dominaram e ainda dominam nossa cultura?

A Série Clássica

A primeira série, transmitida entre 1966 e 1969, em suas três temporadas, teve poucas mulheres em papel de protagonistas recorrentes. De maneira geral, os heróis da série foram os três homens principais da nave Enterprise, e as mulheres se destacavam mais como antagonistas ou coadjuvantes eventuais, interpretadas por atrizes convidadas para representar o interesse amoroso de um dos protagonistas homens, especialmente Kirk. Mas, apesar dos vestidos curtíssimos e reveladores, o pouco que as tripulantes do sexo feminino apareceram foi suficiente para causar um impacto duradouro que posteriormente se desenvolveria de maneira bem mais interessante.

Número Um (Majel Barrett)

Não podemos deixar de lado “A Jaula” (“The Cage”), o primordial episódio piloto de Star Trek, onde o capitão Christopher Pike é acompanhado por uma mulher no posto de imediata. O contexto cultural da época certamente não permitia que a protagonista, o papel principal, fosse uma mulher, mas mesmo estando em segundo lugar de importância na hierarquia da tripulação, a Número Um (cujo nome nunca foi mencionado) foi um dos motivos para que a NBC rejeitasse o episódio e pedisse outro.

Mas sempre podemos retomar a esse episódio e admirar a importância de que se reveste a personagem em questão, mostrada não de forma objetificada, mas como uma figura de liderança e uma mulher muito inteligente e racional. Ela foi a primeira mulher a se sentar na cadeira de capitão (enquanto Pike descia para uma missão), o que demoraria muito a acontecer de novo na franquia.

Felizmente, a maior parte do episódio, que nunca foi ao ar, foi resgatada posteriormente no episódio “A Coleção” (“The Menagerie”), e voltamos a ver Majel Barrett naquele importante papel. A atriz, diga-se, foi uma pessoa de presença marcante ao longo da franquia, aparecendo como três personagens diferentes em três das séries e dando voz aos computadores das naves da Frota Estelar.

Uhura (Nichelle Nichols)

Tenente Uhura pode não ter sido a primeira mulher a ocupar um posto importante na ponte de comando de uma nave da Frota Estelar (embora tenha sido a primeira a aparecer na televisão, visto que o episódio piloto não fora ao ar até então). Porém, contrariando o contexto sócio-cultural da época, foi a primeira mulher negra, o que era extraordinário.

Não nos enganemos, a importância do papel de Uhura nas histórias da Série Clássica não é tão grande se a compararmos com outras personagens femininas que surgiram nas séries posteriores. Mas ela teve um impacto enorme, tendo sido uma referência para atrizes como Whoopi Goldberg e para líderes de movimentos sociais antirracistas, como Martin Luther King.

Curiosamente, um dos episódios em que Uhura aparece com mais destaque é “Mirror, Mirror”, onde a tenente assume o lugar de sua contraparte de uma brutal realidade paralela e precisa se fazer durona e violenta para executar o plano de retorno à normalidade. Porém, foram poucas as vezes em que Uhura se mostrou mais do que uma oficial de comunicações sentada em seu posto na ponte de comando.

No início da série, por exemplo, ela demonstrou um grande talento como cantora nas horas de folga, talento que, aliado a um semi-strip tease, utilizaria no filme A Última Fronteira (1989) para seduzir um bando de capangas. Infelizmente, isso meio que diminui sua importância como indivíduo ao colocá-la numa posição de isca, mas paradoxalmente a coloca no lugar de breve destaque de uma estrela num palco. Felizmente, sua sensualidade não exclui seu papel de oficial de comunicações, antes se soma a ele na configuração de uma personagem complexa que não se reduz a um corpo-objeto de desejo. Felizmente, apesar de qualquer limitação da Série Clássica quanto a questões de gênero, os personagens, tanto homens quanto mulheres, conseguem carregar várias facetas, incluindo a de agentes, sujeitos e objetos da libido.

Outras mulheres da Série Clássica

Christine Chapel (Majel Barrett)

Majel Barrett retornou para interpretar a assistente do Dr. McCoy, a Enfermeira Chapel. Ela manteve um papel secundário nas tramas dos episódios em que aparecia, estando subordinada ao temperamental médico-chefe da nave e representando um interesse romântico platônico pelo Sr. Spock. Ela sobreviveu à Série Clássica e se tornou médica da Frota Estelar em Jornada nas Estrelas: O Filme (Star Trek: The Motion Picture). Mas é uma personagem que tinha potencial desaproveitado para tramas interessantes que envolvessem cuidados médicos e o objeto de seu amor platônico, o frio e racional vulcano da Enterprise (que, diga-se de passagem, também tinha uma queda por Christine).

Janice Rand (Grace Lee Whitney)

Por outro lado, a ordenança Janice Rand, uma figura apagada e paradoxalmente cultuada como uma beldade no meio dos heróis masculinos, era a típica mulher decorativa. Estava ali ao pé da cadeira do capitão, uma secretária sem nenhum talento aparente, compartilhando um certo flerte com seu chefe. É interessante observar como essa figura persiste na lembrança dos fãs da Série Clássica, mesmo carregando pouca importância e tendo aparecido em poucos episódios. Talvez o gérmen da valorização da diversidade já fosse forte o suficiente para lhe conceder certa importância. Porém, ela não é lembrada por nenhum feito significativo, senão por suas características físicas.

A Nova Geração

Enquanto na primeira série somente Uhura era uma mulher com presença constante, A Nova Geração melhorou bastante a representação feminina, não só em termos de quantidade quanto de relevância e destaque. O episódio piloto já trouxe três figuras fortes e bem distintas entre si, a ponderada Dra. Crusher, a conciliadora Conselheira Troi e a impetuosa chefe de segurança, Tenente Yar. Uma novidade interessante em comparação com a Série Clássica foi a mudança dos uniformes. Desta vez as fardas da Frota Estelar eram unissex e não diferenciavam os tripulantes pelo gênero.

Beverly Crusher (Gates McFadden)

Celebrity CityComo que uma herdeira espiritual do Dr. McCoy, Dra. Crusher chama atenção para sua postura humanista e ética. É a primeira mãe a ocupar um espaço importante entre os protagonistas da franquia. Isso é importante, por um lado, para abordar questões relacionadas à maternidade e como tais questões podem ser relevantes para se entender as relações de gênero no presente e como elas podem vir a se configurar no futuro.

Por outro lado, é importante porque mostra uma personagem que não se resume ao papel de mãe. De fato, sua carreira como médica da Frota Estelar é tão notável que o fato de ela ser mãe fica em segundo plano e só com certo esforço eu me lembro de Wesley Crusher e, ainda mais, tem alguma relação com ela. O que realmente é relevante nessa personagem é sua dedicação a uma carreira na qual ela demonstra excelência. Importa mencionar que Beverly Crusher é uma cientista, não apenas aplicando os conhecimentos da Medicina, mas desenvolvendo novas teorias e tratamentos.

Essa dedicação à carreira às vezes representa um conflito interno, compartilhado com o Capitão Picard. Ambos têm uma afeição mútua que só não se concretiza na forma de um relacionamento porque isso poderia ser arriscada para ambos e para a tripulação da Enterprise-D. No entanto, há um episódio que mostra o futuro de Picard e ficamos sabendo que em determinado momento de sua história ele e Crusher se casaram. Porém, neste momento nos deparamos com uma grande mancada dos roteiristas ao apresentar a médica com o sobrenome Picard, mantendo uma mentalidade tradicionalmente patrilinear que a essa altura já deveria ter sido superada há muito. Apesar disso, nessa mesma cena temos um vislumbre do promissor futuro de Beverly Crusher, tornando-se capitã de sua própria nave.

Deanna Troi (Marina Sirtis)

Conselheira Troi é uma híbrida de um humano com uma betazoide, e herdou desta a capacidade de se comunicar empaticamente com outras criaturas. Ela assume o papel de conselheira da tripulação da nave, um papel que não existia na Série Clássica e que deixou de existir nas séries seguintes. Ela é como uma psicóloga e terapeuta que aconselha os tripulantes que a procuram com problemas pessoais.

Ela recebeu bastante atenção em diversos episódios da série, protagonizando várias narrativas interessantes que exploraram sua história como mestiça, filha de Lwaxanna Troi (em mais um grande papel de Majel Barrett), a pitoresca embaixatriz do planeta Betazed, e de um homem humano, dotada de habilidade empática (quase telepática) e compartilhando uma certa amizade colorida com o Comandante Riker. Deanna Troi teve vários relacionamentos ao longo das sete temporadas da Nova Geração, sendo retratada como uma mulher emocionalmente livre das amarras de um relacionamento patriarcal.

Estranhamente, Troi é a única mulher da tripulação a usar um uniforme diferente do padrão. Sua roupa, no início da série, lembra os vestidos usados na Série Clássica. Posteriormente, na maior parte do tempo ela usará um colante que se diferencia até mesmo nas cores dos uniformes normais. Neste sentido, a personagem acabou por ter sua sensualidade exacerbada, com roupas mais reveladoras do que as das outras mulheres da Enterprise. Apesar disso não ser um peoblema em si, parece que ela só passou a interagir como um verdadeiro membro oficial da tripulação quando começou a usar o uniforme padrão, lá pelas últimas temporadas da série.

Tasha Yar (Denise Crosby)

Tenente Yar é uma das figuras femininas mais impressionantes da Nova Geração. Apresentando-se no posto de chefe de segurança, bastante incomum para mulheres, ela não só quebra a barreira dos papéis de gênero tradicionais como rompe com o estereótipo da mulher com temperamento frágil ou, no máximo, brando. Na ponte de comando, ela encarna o temperamento colérico, ainda mais do que o klingon Worf.

Em pouco tempo de série, ficamos conhecendo parte da história conturbada de Tasha Yar e o potencial dramático da personagem. Infelizmente, ela morreu muito cedo, no final da primeira temporada, um evento chocante, inesperado e lamentável, tendo em vista que ela representava uma feminilidade atípica em termos do que estávamos acostumados até então.

A personalidade “masculina” de Tasha suscitou especulações sobre sua sexualidade, e houve quem sugerisse que ela era lésbica. Ela teve um momento de intimidade física com o androide Data, o que poderia ter sido uma forma de os produtores afirmarem sua heterossexualidade, como se a possibilidade de ela ser homossexual fosse um problema. De qualquer forma, é interessante encará-la como uma alegoria de uma identidade transgênera e de uma sexualidade queer, tendo em vista que o própria Data não é exatamente um homem no sentido pleno do termo (ao menos não no início da série, antes de conquistar vários aspectos que vieram a torná-lo cada vez mais humano), e pode ele mesmo ser visto como um transgênero queer.

Outras mulheres da Nova Geração

Katherine Pulaski (Diana Muldaur)

Na segunda temporada, Dra. Crusher foi substituída em seu posto pela Dra. Pulaski, uma mulher mais velha (interpretada por uma atriz que, a propósito, apareceu mais de uma vez na Série Clássica), mais experiente e mais geniosa. Sua personalidade a faz lembrar o rabugento Dr. McCoy. Não há uma grande diferença entre Katherine e Beverly em termos do que elas representam para as tramas dos episódios. Ambas são médicas, ambas possuem um exacerbado grau de preocupação ética. Mas Pulaski poderia ter sido melhor explorada quanto a sua identidade de “cinquentona” e a forma como a sociedade ocidental (e outras culturas) encaram mulheres mais velhas.

Guinan (Whoopi Goldberg)

A segunda mulher negra de destaque em Star Trek na verdade não é humana. Guinan, a bartender do salão recreativo da Enterprise-D, é o arquétipo da feiticeira errante ou cigana misteriosa. Embora tenha um poder fora do comum e incompreensível para os humanos, ela foi pouco explorada, por vezes passando um certo tempo sem aparecer. Guinan, a meu ver, deveria ter ganhado ao menos um pouco mais de destaque, assumido o papel de protagonista de pelo menos um ou dois episódios da longa série, pois Whoopi Goldberg certamente teria sido espetacular se a misteriosa alienígena mostrasse quem realmente é e o que pode fazer, mesmo que o fizesse de maneira sutil.

Ro Laren (Michelle Forbes)

Sua aparição foi muito breve mas marcante. A primeira bajoriana da franquia, a indisciplinada Alferes Ro representava um povo oprimido pelas forças imperiais dos cardassianos. Ela é a clássica personagem com ideias ambivalentes, ao mesmo tempo parte da Frota Estelar como uma de suas oficiais, mas discordante dos métodos da Federação no trato de questões diplomáticas. Ro acabaria por abandonar a tripulação da Enterprise e seu uniforme para se juntar a um grupo de rebeldes de seu povo e enfrentar os cardassianos. Neste sentido, ela pode ser vista como um exemplo de mulher que toma suas próprias decisões sobre aquilo que lhe diz respeito.

Keiko O’Brien (Rosalind Chao)

Uma das mulheres de papel recorrente de menos destaque é a esposa do operador de teletransporte Miles O ‘Brien. Keiko é digna de menção por ser oriental (uma herdeira de Hikaru Sulu da Série Clássica), já que personagens com identidade asiática não são tão comuns em Star Trek. Mas é colocada em destaque poucas vezes, como em episódios que mostram a creche que ela administra. Porém, em certos episódios da série Deep Space 9 (da qual também participou e sobre a qual discutirei abaixo), Rosalind Chao se mostrou uma atriz acima da média. É uma pena que, assim como Dra. Crusher, Keiko tenha abdicado de seu sobrenome quando se casou com O’Brien. Apesar disso, ela se mostra uma mulher independente quando precisa passar meses trabalhando longe de seu marido, dando mais importância ao seu sucesso profissional do que a cuidar de um homem adulto.

Deep Space 9

O principal impacto de Deep Space 9 veio com o protagonista negro, Comandante Benjamin Sisko. Em termos da quantidade de personagens femininas recorrentes, a série foi inferior à anterior. Porém, as poucas que fizeram presença foram tão significativa que não se pode dizer que Deep Space 9 tenha sido negativa com relação a esse aspecto. Duas fortes mulheres alienígenas fizeram parte da equipe principal, e algumas personagens menos recorrentes também mostraram uma representatividade feminina importante.

Kira Nerys (Nana Visitor)

A bajoriana mais célebre de toda a franquia tem uma personalidade forte e irascível, construída por anos de liderança na guerrilha de resistência contra o domínio dos cardassianos em seu planeta. Major Kira assumiu o posto de segunda em comando na estação espacial Deep Space 9, administrada pelo Comandante Sisko, da Frota Estelar.

Kira às vezes pode ser instável, pois sua experiência com os cardassianos, com quem é obrigada a conviver, a tornaram desconfiada. Mas ela é uma líder forte e uma mulher confiante. Isso a coloca numa posição importante no rol das figuras femininas de Star Trek.

Sendo uma mulher não-humana, podemos nos questionar se Kira realmente representa as mulheres na franquia. Mas é bem claro que as raças alienígenas desse universo são em geral alegorias da diversidade étnico-cultural humana. Kira pode ser encarada como um tipo de feminilidade possível (e real). A sociedade bajoriana se caracteriza pela igualdade dos gêneros, e não vemos predileção de um gênero ou outro nos papéis sociais da cultura de Bajor. Isso torna Kira uma representante de um mundo idealizado onde o sexo/gênero já não representa um problema.

Em sua versão alternativa no Universo Espelho, Kira é uma dominatrix que comanda a estação Terok Nor (denominação cardassiana da Deep Space 9). Sexualmente poderosa, ela subjuga homens e mulheres que estão sob seu controle. Infelizmente, essa imagem acaba trazendo algum aspecto negativo na representação da mulher bissexual, pois é a primeira vez na franquia que se vê uma personagem claramente não-heterossexual, e é justamente uma vilã. Felizmente, Ezri Tigan viria a corrigir isso, como veremos mais abaixo.

Jadzia Dax (Terry Farrell)

Uma força presencial notável está entre as principais características da trill simbionte Jadzia Dax. Oficial de ciências da estação, ela se caracteriza por carregar no ventre uma espécie de ser inteligente que detém as memórias de outros tantos hospedeiros que o carregaram no passado. Dax é um ser sem gênero que se manifesta como ser sexuado através de seus hospedeiros. Uma vez que Jadzia é uma mulher (da espécie trill), a personagem de maneira geral é uma figura feminina.

No entanto, a relação que Dax mantinha com o Comandante Sisko no passado, sob o semblante de um hospedeiro homem (Curzon Dax) mantém um caráter de camaradagem heterossexual mesmo na atual personalidade feminina do simbionte. Sisko continua chamando-a de “meu velho” ad infinitum. Isso configura uma situação interessante por dois motivos.

Primeiro, Jadzia aparece como uma pessoa de identidade feminina mas de personalidade andrógina. Segundo, a relação com seu amigo humano é diferente da maioria das amizades entre pessoas de gênero diferente, pois eles compartilham conversas, assuntos e formas de comunicação mútua que tradicionalmente se dão em contexto de amizade entre homens heterossexuais e homoafetividade sublimada.

Em seu relacionamento com o klingon Worf, a “Magnífica Jadzia”, como a chama seu amado, encena um casamento em que ambos os parceiros compartilham a mesma importância, ela buscando sempre demonstrar que é uma mulher extremamente forte que não se deixa dominar por um homem poderoso como Worf. Infelizmente, Jadzia é assassinada pouco tempo depois do casamento, num episódio dramático e inesperado.

Ezri Dax (Nicole de Boer)

A sucessora de Jadzia como hospedeira do simbionte Dax, Ezri trouxe as memórias da antecessora mas se manifestava de forma bastante diferente, com uma personalidade muito própria. Ela não teve grande destaque na série e tenho a impressão de que foi um acréscimo desnecessário em termos narrativo-dramáticos. Mas alegoricamente ela encenou alguns temas interessantes, como o da filha (Ezri) que precisa desconstruir a herança da mãe (Jadzia) para construir sua própria identidade.

Outro tema que pode ser lido por trás de uma alegoria é o da mulher que, por mudanças advindas das vicissitudes da vida, deixa o homem que amava. Jadzia Dax mal havia se casado com Worf quando foi assassinada, e Ezri Dax representa a mesma mulher depois de uma trágica transformação em sua vida, que a leva a deixar seu “marido”. Worf, sempre trazendo à tona o machismo tradicional, fica muito confuso com relação a seus sentimentos por Ezri, mas esta tem mais certeza sobre o que não quer, e posteriormente sobre o que quer, envolvendo-se com outro homem, o médico-chefe da estação, Dr. Bashir.

Mas é talvez em sua versão alternativa do Universo Espelho (Ezri Tigan) que ela represente a maior (mesmo que um tanto tímida) ruptura nas questões de gênero e sexualidade. Fica muito claro, através de diversas alusões, que a pequena trill, desejada por vários homens de várias espécies (incluindo homens ferengi), é lésbica e provavelmente terá algum relacionamento com Leeta, uma bajoriana com a qual compartilha um flerte ao final do episódio. Como é uma heroína nessa história, ela corrige a falsa impressão que pode ter causado a Kira alternativa de que a sexualidade não-normativa possa estar relacionada a mau caráter.

Voyager

Star Trek: Voyager é certamente a melhor das séries da franquia quanto à representatividade feminina. As mulheres da nave comandada pela Capitã Janeway não tem apenas uma presença forte, mas são diversas entre si, ambrangendo um amplo leque de feminilidades.

Kathryn Janeway (Kate Mulgrew)

Quando se fala em presença feminina em Star Trek, a capitã Kathryn Janeway é certamente o ícone mais significativo. Janeway é a alma de Voyager, e dessa forma a série reveste de uma grande importância o papel das mulheres e a representação feminina na franquia.

Capitã Janeway é, na minha opinião, a personagem feminina mais complexa de Star Trek. Ela consegue ter muitas facetas, que se revelam ao longo da série, algumas das quais antagônicas entre si (o que é normal para qualquer indivíduo tridimensional), mas sem deixar de ser coerente consigo mesma e com o conceito por trás de sua personalidade.

Ela possui um forte senso de ética ligado à sua dedicação às diretrizes da Frota Estelar, mas tem uma relação especialmente ambígua com a Primeira Diretriz, ou seja, a regra da não-interferência. Muitas vezes ela se vê na situação conflituosa de ter que decidir entre seguir à risca o protocolo de seu papel oficial e agir de acordo com uma compaixão baseada em princípios mais profundos do que os racionais procedimentos previstos para seu cargo. Nesse sentido, sua personalidade ressoa muito o Capitão Picard, mas fora isso ela é bem diferente dele.

Janeway é uma mãe para sua tripulação, acolhedora, compreensiva e dedicada, ao mesmo tempo em que age com dureza quando críticas são necessárias, mesmo que se dirija aos tripulantes mais próximos dela e com quem tem mais afinidade. Porém, ela sempre colocará a conciliação como prioritária sobre o combate, o que a diferencia sobremaneira do estilo supermasculino do Capitão Kirk, sempre antecipando o conflito. No entanto, a capitã da Voyager é uma guerreira quando precisa ser.

O único elemento que poderia ter recebido mais atenção, a meu ver, foi a vida amorosa de Kathryn. Enquanto Kirk era um Don Juan e Picard se envolveu emocionalmente com um bom número de pessoas, Janeway parece ter caído no estereótipo da mãe assexuada, dedicada emocionalmente apenas aos filhos (seus subordinados). Durante toda a série, fora o marido que deixou no Quadrante Alfa e que se casou com outra mulher por pensar que Janeway não voltaria mais, ela só teve um caso com u alienígena que se revelou um traidor, um homem com quem só se envolveu por que havia perdido a memória e um personagem holográfico, sem contar o flerte velado por seu imediato, Comandante Chakotay. Ou seja, seus romances sempre foram cercados de ilusão e decepção. Se outros capitães tão ocupados quanto ela podem se dar ao luxo de explorar a própria libido, por que não Kathryn Janeway?

Mesmo assim ela não deixa de ser um ícone, por se mostrar tão multifacetada e liderando uma tripulação de mulheres e homens fortes, representando um grupo diverso quanto às suas feminilidades e masculinidades, até mesmo bordejando os limites das identidades de gênero padrão e se envolvendo em tramas que incluem alienígenas que podem ser vistos como alegorias do transgenerismo.

B’Elanna Torres (Roxann Dawson)

Um exemplo de mulher feroz, B’Elanna é meio-humana meio-klingon, e possui um pouco da personalidade selvagem típica dos klingons. Assumindo o trabalho de engenheira-chefe supereficiente (na tradição iniciada por Scotty e continuada por Geordi Laforge), B’Elanna não aceita ser questionada em suas decisões a respeito de sua jurisdição na nave, o que leva a constantes conflitos, acirrados pelo fato de, antes de se juntar à tripulação da Voyager, ter feito parte dos Maquis, um grupo rebelde anti-Federação, e antes disso ter sido uma indisciplinada oficial da Frota Estelar.

Dessa forma, a irritadiça Tenente Torres é uma mulher lutando por autonomia em seu espaço de trabalho. Ela sente essa autonomia ameaçada quando a ex-borg Sete de Nove se junta à equipe da nave e começa a se meter em assuntos relacionados ao funcionamento do veículo espacial. O apoio da capitã Janeway, assumindo para ela um papel materno, é um dos poucos motivadores para que a ex-maqui continue em seus esforços de ajudar Voyager a retornar ao Quadrante Alfa.

B’elanna também sofre os reveses de ser uma mestiça. Os klingons (espécie à qual pertencia sua mãe) nunca foram plenamente aceitos pela xenofóbica cultura humana, e ela mesma tem dificuldades de aceitar seu lado klingon. O fato de ser interpretada por uma atriz de ascendência latina (Roxann Dawson Caballero), tendo inclusive um sobrenome espanhol (Torres), reforça a ideia de que os conflitos relativos à mestiçagem são uma metáfora das dificuldades de os “latinos” se integrarem à cultura estadounidense, e mais ainda das mulheres de origem hispano-americana.

Kes (Jennifer Lien)

Pertencente à espécie ocampa, nativa do Quadrante Delta, Kes se une à trupe da Capitã Janeway no início da série e se mantém durante algumas temporadas. Nesse meio tempo, ela ajuda a tripulação com com valiosas habilidades telepáticas; como assistente do Doutor, demonstrando uma capacidade de aprendizado surpreendente e praticamente se tornando uma médica; e com o cultivo de vegetais destinados à cozinha (esta comandada por seu companheiro Neelix).

Kes tem um aspecto que a faz lembrar um certo arquétipo da elfa ou fada mágica, reforçado pelas orelhas e pela roupa, que lembra vestimentas antigas ou medievais. Ressoando as ninfas selvagens e as bruxas dotadas de poderes misteriosos, ela representa um certo poder feminino guardado sob uma aparente fragilidade. Kes é uma personagem propositalmente construída para se parecer com uma criança que na verdade é uma adulta amadurecida e capaz de amadurecer ainda mais.

O fato de os ocampa viverem em média 9 anos também a torna um ser exótico e a faz parecer uma das personagens mais alienígenas da franquia, pois suas diferenças em relação aos humanos extrapolam o mero exotismo cultural. Em determinado ponto de sua trajetória, seus poderes psíquicos se desenvolvem tanto que ela se torna praticamente um ser sobrenatural e abandona Voyager para buscar novos horizontes.

Em um episódio, Kes protagoniza uma história na qual tem vislumbres de seu futuro, casada com o timoneiro Tom Paris. Nesse futuro, ela se vê envelhecida, tendo em vista os poucos anos de vida de uma ocampa, e percebemos uma referência interessante à questão do relacionamento afetivo entre um homem jovem e uma mulher mais velha que ele. Neste ponto, Star Trek consegue abordar a valorização da mulher idosa enquanto pleno indivíduo e sujeito de desejo.

Sete de Nove (Jeri Ryan)

Annika costumava ser uma menina humana até ser assimilada pelos Borg, seres cibernéticos, parte máquina, parte orgânicos, cujos indivíduos são capturados de outras espécies e transformados em parte de uma coletividade com a mente compartilhada. Mesmo depois de ser libertada de sua condição de ciborgue, ela manteve a denominação que recebeu da rainha borg, Sete de Nove.

Sete se caracteriza como uma mulher muito inteligente e racional, uma mente que funciona como a de um vulcano (o que faz com que sinta afinidade com Tuvok), mas sem nenhuma experiência como ser social em uma sociedade individualista como a nossa. Falta-lhe totalmente a etiqueta mínima para o convívio com seres emotivos como os humanos. Sete de Nove pode ser entendida assim como uma mulher nerd, que depois de perder o contato com a coletividade borg se tornou bastante solitária.

Por outro lado, ela é também retratada como uma mulher muito bonita e sensual, interesse amoroso de alguns dos homens da Voyager. Esse aspecto resvalou para uma ênfase na busca por um romance, que acabou concretizando com o Comandante Chakotay. A série retrata assim a constituição de um casal como uma etapa necessária para sua humanização, e infelizmente faz isso se baseando numa ideia heteronormativa, tradicional e sexista de relacionamento afetivo.

Mas de maneira geral sua trajetória é a de reconstrução de sua identidade humana. Em seu aprendizado, ela aprende os ritos da conduta de seus cotripulantes. Em sua condição de borg, Sete pode ser lida como uma alegoria da mulher sem identidade própria, parte de um tipo de harém cibernético. Sua libertação é a descoberta de seus próprios anseios e do domínio de sua própria vida.

Enterprise

Como já discuti em outros lugares, Star Trek: Enterprise foi um retrocesso. Enquanto as séries anteriores melhoraram gradativamente a representação dos negros e, muito especialmente, a das mulheres, a série estreada em 2001 colocou em destaque muitos personagens brancos do sexo masculino e praticamente só deu destaque a uma mulher, a vulcana T’Pol, deixando a primeira mulher oriental a aparecer na ponte de comando das naves da Frota Estelar num papel muito secundário.

Hoshi Sato (Linda Park)

O conceito por trás dos personagens de Enterprise é muito bom. Mas alguns deles são muito mal explorados, como é o caso da oficial de comunicações, Alferes Sato. Ela é uma especialista em Xenolinguística, capaz de aprender um novo idioma em pouquíssimo tempo, e uma das responsáveis pelo desenvolvimento do tradutor universal, tão essencial para os oficiais da Frota Estelar em seu contato com espécies alienígenas.

Mas essa mulher japonesa é deixada de lado em quase toda a série, executando seu papel eficientemente mas muito pontualmente, sem que se aprofunde uma trama mais complexa sobre sua história, suas motivações e sua personalidade (contrastando com os episódios em que os homens brancos da ponte de comando aparecem como o centro da narrativa).

Somente sua versão no Universo Espelho tem maior relevância, e mesmo assim só para a realidade paralela. Lá Hoshi Sato é a protagonista de um complô que a leva a se tornar, com base em ameaça bélica, Imperatriz da Terra. Teria sido muito interessante que ela protagonizasse com mais destaque uma história no universo principal da série.

T’Pol (Jolene Blalock)

A oficial de ciências e segunda em comando da Enterprise comandada pelo Capitão Archer é uma mulher vulcana, e como tal extremamente racional, inteligente, ponderada e fria. Dentro de uma abordagem de gênero, T’Pol é bastante rica enquanto mote para discussões sobre feminilidade. Em primeiro lugar, assim como Kira Nerys em Deep Space 9, ela pode ser vista como um tipo de feminilidade alternativa, alienígena, possível. A sociedade vulcana parece não fazer uma diferenciação de temperamento e comportamento baseada no gênero de seus indivíduos. T’Pol é ao mesmo tempo representante de um tipo diferente de feminilidade e de uma cultura com uma noção diferente de identidades e papéis de gênero.

Além disso, ela encarna uma contradição dentro do cenário de Enterprise. Acima de tudo, ela representa a racionalidade necessária para administrar a emotividade do Capitão Archer, papel análogo ao de seu conterrâneo Spock para o Capitão Kirk. Sendo assim, ela difere do papel normalmente atribuído às mulheres, mais movidas pelo sentimento. Dessa forma, é interessante notar que a relação ente T’Pol e Archer é uma inversão da estrutura sexista na qual o homem encarna a razão e a mulher incorpora a emoção.

Por outro lado, a vulcana é fisicamente apresentada de maneira muito sexualizada, com roupas justas e reveladoras e sendo objeto de conversas entre tripulantes que a acham atraente. Ela destoa das outras mulheres humanas a bordo, que usam um macacão como uniforme, igual ao dos homens. Talvez a última sucessora de uma “tradição” que começou com Deanna Troi (ou até antes, com Janice Rand), passando por Sete de Nove, ela encarna o elemento afrodisíaco da feminilidade, conjugando em sua figura o culto ao corpo com o cultivo da mente.