As mulheres de Star Trek

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Uma africana, um nipo-americano, um russo, um escocês e um alienígena. Esses eram os principais não-americanos da tripulação da Enterprise nos idos da década de 1960. Desde então, Star Trek tem se empenhado, embora com menos sucesso do que o satisfatório, em representar a diversidade humana entre seus protagonistas. Embora a representação de negros, por exemplo, não tenha sido lá tão contundente e até tenha decaído, como já discorri em outro texto, pode-se dizer que a representação feminina apresentou um crescendo que teve como fenomenal ápice a série Voyager (para depois decair bruscamente com a sofrível Enterprise).

Sem grandes pretensões de esgotar o tema, vamos aqui fazer uma viagem aonde nenhuma mulher jamais esteve, partindo da Série Clássica dos anos 60 até a última série da franquia, nos anos 2000, dissertando sobre as principais mulheres que tiveram destaque. Até onde Star Trek conseguiu ser revolucionária quando se trata de representar as mulheres fora dos padrões androcêntricos que dominaram e ainda dominam nossa cultura?

A Série Clássica

A primeira série, transmitida entre 1966 e 1969, em suas três temporadas, teve poucas mulheres em papel de protagonistas recorrentes. De maneira geral, os heróis da série foram os três homens principais da nave Enterprise, e as mulheres se destacavam mais como antagonistas ou coadjuvantes eventuais, interpretadas por atrizes convidadas para representar o interesse amoroso de um dos protagonistas homens, especialmente Kirk. Mas, apesar dos vestidos curtíssimos e reveladores, o pouco que as tripulantes do sexo feminino apareceram foi suficiente para causar um impacto duradouro que posteriormente se desenvolveria de maneira bem mais interessante.

Número Um (Majel Barrett)

Não podemos deixar de lado “A Jaula” (“The Cage”), o primordial episódio piloto de Star Trek, onde o capitão Christopher Pike é acompanhado por uma mulher no posto de imediata. O contexto cultural da época certamente não permitia que a protagonista, o papel principal, fosse uma mulher, mas mesmo estando em segundo lugar de importância na hierarquia da tripulação, a Número Um (cujo nome nunca foi mencionado) foi um dos motivos para que a NBC rejeitasse o episódio e pedisse outro.

Mas sempre podemos retomar a esse episódio e admirar a importância de que se reveste a personagem em questão, mostrada não de forma objetificada, mas como uma figura de liderança e uma mulher muito inteligente e racional. Ela foi a primeira mulher a se sentar na cadeira de capitão (enquanto Pike descia para uma missão), o que demoraria muito a acontecer de novo na franquia.

Felizmente, a maior parte do episódio, que nunca foi ao ar, foi resgatada posteriormente no episódio “A Coleção” (“The Menagerie”), e voltamos a ver Majel Barrett naquele importante papel. A atriz, diga-se, foi uma pessoa de presença marcante ao longo da franquia, aparecendo como três personagens diferentes em três das séries e dando voz aos computadores das naves da Frota Estelar.

Uhura (Nichelle Nichols)

Tenente Uhura pode não ter sido a primeira mulher a ocupar um posto importante na ponte de comando de uma nave da Frota Estelar (embora tenha sido a primeira a aparecer na televisão, visto que o episódio piloto não fora ao ar até então). Porém, contrariando o contexto sócio-cultural da época, foi a primeira mulher negra, o que era extraordinário.

Não nos enganemos, a importância do papel de Uhura nas histórias da Série Clássica não é tão grande se a compararmos com outras personagens femininas que surgiram nas séries posteriores. Mas ela teve um impacto enorme, tendo sido uma referência para atrizes como Whoopi Goldberg e para líderes de movimentos sociais antirracistas, como Martin Luther King.

Curiosamente, um dos episódios em que Uhura aparece com mais destaque é “Mirror, Mirror”, onde a tenente assume o lugar de sua contraparte de uma brutal realidade paralela e precisa se fazer durona e violenta para executar o plano de retorno à normalidade. Porém, foram poucas as vezes em que Uhura se mostrou mais do que uma oficial de comunicações sentada em seu posto na ponte de comando.

No início da série, por exemplo, ela demonstrou um grande talento como cantora nas horas de folga, talento que, aliado a um semi-strip tease, utilizaria no filme A Última Fronteira (1989) para seduzir um bando de capangas. Infelizmente, isso meio que diminui sua importância como indivíduo ao colocá-la numa posição de isca, mas paradoxalmente a coloca no lugar de breve destaque de uma estrela num palco. Felizmente, sua sensualidade não exclui seu papel de oficial de comunicações, antes se soma a ele na configuração de uma personagem complexa que não se reduz a um corpo-objeto de desejo. Felizmente, apesar de qualquer limitação da Série Clássica quanto a questões de gênero, os personagens, tanto homens quanto mulheres, conseguem carregar várias facetas, incluindo a de agentes, sujeitos e objetos da libido.

Outras mulheres da Série Clássica

Christine Chapel (Majel Barrett)

Majel Barrett retornou para interpretar a assistente do Dr. McCoy, a Enfermeira Chapel. Ela manteve um papel secundário nas tramas dos episódios em que aparecia, estando subordinada ao temperamental médico-chefe da nave e representando um interesse romântico platônico pelo Sr. Spock. Ela sobreviveu à Série Clássica e se tornou médica da Frota Estelar em Jornada nas Estrelas: O Filme (Star Trek: The Motion Picture). Mas é uma personagem que tinha potencial desaproveitado para tramas interessantes que envolvessem cuidados médicos e o objeto de seu amor platônico, o frio e racional vulcano da Enterprise (que, diga-se de passagem, também tinha uma queda por Christine).

Janice Rand (Grace Lee Whitney)

Por outro lado, a ordenança Janice Rand, uma figura apagada e paradoxalmente cultuada como uma beldade no meio dos heróis masculinos, era a típica mulher decorativa. Estava ali ao pé da cadeira do capitão, uma secretária sem nenhum talento aparente, compartilhando um certo flerte com seu chefe. É interessante observar como essa figura persiste na lembrança dos fãs da Série Clássica, mesmo carregando pouca importância e tendo aparecido em poucos episódios. Talvez o gérmen da valorização da diversidade já fosse forte o suficiente para lhe conceder certa importância. Porém, ela não é lembrada por nenhum feito significativo, senão por suas características físicas.

A Nova Geração

Enquanto na primeira série somente Uhura era uma mulher com presença constante, A Nova Geração melhorou bastante a representação feminina, não só em termos de quantidade quanto de relevância e destaque. O episódio piloto já trouxe três figuras fortes e bem distintas entre si, a ponderada Dra. Crusher, a conciliadora Conselheira Troi e a impetuosa chefe de segurança, Tenente Yar. Uma novidade interessante em comparação com a Série Clássica foi a mudança dos uniformes. Desta vez as fardas da Frota Estelar eram unissex e não diferenciavam os tripulantes pelo gênero.

Beverly Crusher (Gates McFadden)

Celebrity CityComo que uma herdeira espiritual do Dr. McCoy, Dra. Crusher chama atenção para sua postura humanista e ética. É a primeira mãe a ocupar um espaço importante entre os protagonistas da franquia. Isso é importante, por um lado, para abordar questões relacionadas à maternidade e como tais questões podem ser relevantes para se entender as relações de gênero no presente e como elas podem vir a se configurar no futuro.

Por outro lado, é importante porque mostra uma personagem que não se resume ao papel de mãe. De fato, sua carreira como médica da Frota Estelar é tão notável que o fato de ela ser mãe fica em segundo plano e só com certo esforço eu me lembro de Wesley Crusher e, ainda mais, tem alguma relação com ela. O que realmente é relevante nessa personagem é sua dedicação a uma carreira na qual ela demonstra excelência. Importa mencionar que Beverly Crusher é uma cientista, não apenas aplicando os conhecimentos da Medicina, mas desenvolvendo novas teorias e tratamentos.

Essa dedicação à carreira às vezes representa um conflito interno, compartilhado com o Capitão Picard. Ambos têm uma afeição mútua que só não se concretiza na forma de um relacionamento porque isso poderia ser arriscada para ambos e para a tripulação da Enterprise-D. No entanto, há um episódio que mostra o futuro de Picard e ficamos sabendo que em determinado momento de sua história ele e Crusher se casaram. Porém, neste momento nos deparamos com uma grande mancada dos roteiristas ao apresentar a médica com o sobrenome Picard, mantendo uma mentalidade tradicionalmente patrilinear que a essa altura já deveria ter sido superada há muito. Apesar disso, nessa mesma cena temos um vislumbre do promissor futuro de Beverly Crusher, tornando-se capitã de sua própria nave.

Deanna Troi (Marina Sirtis)

Conselheira Troi é uma híbrida de um humano com uma betazoide, e herdou desta a capacidade de se comunicar empaticamente com outras criaturas. Ela assume o papel de conselheira da tripulação da nave, um papel que não existia na Série Clássica e que deixou de existir nas séries seguintes. Ela é como uma psicóloga e terapeuta que aconselha os tripulantes que a procuram com problemas pessoais.

Ela recebeu bastante atenção em diversos episódios da série, protagonizando várias narrativas interessantes que exploraram sua história como mestiça, filha de Lwaxanna Troi (em mais um grande papel de Majel Barrett), a pitoresca embaixatriz do planeta Betazed, e de um homem humano, dotada de habilidade empática (quase telepática) e compartilhando uma certa amizade colorida com o Comandante Riker. Deanna Troi teve vários relacionamentos ao longo das sete temporadas da Nova Geração, sendo retratada como uma mulher emocionalmente livre das amarras de um relacionamento patriarcal.

Estranhamente, Troi é a única mulher da tripulação a usar um uniforme diferente do padrão. Sua roupa, no início da série, lembra os vestidos usados na Série Clássica. Posteriormente, na maior parte do tempo ela usará um colante que se diferencia até mesmo nas cores dos uniformes normais. Neste sentido, a personagem acabou por ter sua sensualidade exacerbada, com roupas mais reveladoras do que as das outras mulheres da Enterprise. Apesar disso não ser um peoblema em si, parece que ela só passou a interagir como um verdadeiro membro oficial da tripulação quando começou a usar o uniforme padrão, lá pelas últimas temporadas da série.

Tasha Yar (Denise Crosby)

Tenente Yar é uma das figuras femininas mais impressionantes da Nova Geração. Apresentando-se no posto de chefe de segurança, bastante incomum para mulheres, ela não só quebra a barreira dos papéis de gênero tradicionais como rompe com o estereótipo da mulher com temperamento frágil ou, no máximo, brando. Na ponte de comando, ela encarna o temperamento colérico, ainda mais do que o klingon Worf.

Em pouco tempo de série, ficamos conhecendo parte da história conturbada de Tasha Yar e o potencial dramático da personagem. Infelizmente, ela morreu muito cedo, no final da primeira temporada, um evento chocante, inesperado e lamentável, tendo em vista que ela representava uma feminilidade atípica em termos do que estávamos acostumados até então.

A personalidade “masculina” de Tasha suscitou especulações sobre sua sexualidade, e houve quem sugerisse que ela era lésbica. Ela teve um momento de intimidade física com o androide Data, o que poderia ter sido uma forma de os produtores afirmarem sua heterossexualidade, como se a possibilidade de ela ser homossexual fosse um problema. De qualquer forma, é interessante encará-la como uma alegoria de uma identidade transgênera e de uma sexualidade queer, tendo em vista que o própria Data não é exatamente um homem no sentido pleno do termo (ao menos não no início da série, antes de conquistar vários aspectos que vieram a torná-lo cada vez mais humano), e pode ele mesmo ser visto como um transgênero queer.

Outras mulheres da Nova Geração

Katherine Pulaski (Diana Muldaur)

Na segunda temporada, Dra. Crusher foi substituída em seu posto pela Dra. Pulaski, uma mulher mais velha (interpretada por uma atriz que, a propósito, apareceu mais de uma vez na Série Clássica), mais experiente e mais geniosa. Sua personalidade a faz lembrar o rabugento Dr. McCoy. Não há uma grande diferença entre Katherine e Beverly em termos do que elas representam para as tramas dos episódios. Ambas são médicas, ambas possuem um exacerbado grau de preocupação ética. Mas Pulaski poderia ter sido melhor explorada quanto a sua identidade de “cinquentona” e a forma como a sociedade ocidental (e outras culturas) encaram mulheres mais velhas.

Guinan (Whoopi Goldberg)

A segunda mulher negra de destaque em Star Trek na verdade não é humana. Guinan, a bartender do salão recreativo da Enterprise-D, é o arquétipo da feiticeira errante ou cigana misteriosa. Embora tenha um poder fora do comum e incompreensível para os humanos, ela foi pouco explorada, por vezes passando um certo tempo sem aparecer. Guinan, a meu ver, deveria ter ganhado ao menos um pouco mais de destaque, assumido o papel de protagonista de pelo menos um ou dois episódios da longa série, pois Whoopi Goldberg certamente teria sido espetacular se a misteriosa alienígena mostrasse quem realmente é e o que pode fazer, mesmo que o fizesse de maneira sutil.

Ro Laren (Michelle Forbes)

Sua aparição foi muito breve mas marcante. A primeira bajoriana da franquia, a indisciplinada Alferes Ro representava um povo oprimido pelas forças imperiais dos cardassianos. Ela é a clássica personagem com ideias ambivalentes, ao mesmo tempo parte da Frota Estelar como uma de suas oficiais, mas discordante dos métodos da Federação no trato de questões diplomáticas. Ro acabaria por abandonar a tripulação da Enterprise e seu uniforme para se juntar a um grupo de rebeldes de seu povo e enfrentar os cardassianos. Neste sentido, ela pode ser vista como um exemplo de mulher que toma suas próprias decisões sobre aquilo que lhe diz respeito.

Keiko O’Brien (Rosalind Chao)

Uma das mulheres de papel recorrente de menos destaque é a esposa do operador de teletransporte Miles O ‘Brien. Keiko é digna de menção por ser oriental (uma herdeira de Hikaru Sulu da Série Clássica), já que personagens com identidade asiática não são tão comuns em Star Trek. Mas é colocada em destaque poucas vezes, como em episódios que mostram a creche que ela administra. Porém, em certos episódios da série Deep Space 9 (da qual também participou e sobre a qual discutirei abaixo), Rosalind Chao se mostrou uma atriz acima da média. É uma pena que, assim como Dra. Crusher, Keiko tenha abdicado de seu sobrenome quando se casou com O’Brien. Apesar disso, ela se mostra uma mulher independente quando precisa passar meses trabalhando longe de seu marido, dando mais importância ao seu sucesso profissional do que a cuidar de um homem adulto.

Deep Space 9

O principal impacto de Deep Space 9 veio com o protagonista negro, Comandante Benjamin Sisko. Em termos da quantidade de personagens femininas recorrentes, a série foi inferior à anterior. Porém, as poucas que fizeram presença foram tão significativa que não se pode dizer que Deep Space 9 tenha sido negativa com relação a esse aspecto. Duas fortes mulheres alienígenas fizeram parte da equipe principal, e algumas personagens menos recorrentes também mostraram uma representatividade feminina importante.

Kira Nerys (Nana Visitor)

A bajoriana mais célebre de toda a franquia tem uma personalidade forte e irascível, construída por anos de liderança na guerrilha de resistência contra o domínio dos cardassianos em seu planeta. Major Kira assumiu o posto de segunda em comando na estação espacial Deep Space 9, administrada pelo Comandante Sisko, da Frota Estelar.

Kira às vezes pode ser instável, pois sua experiência com os cardassianos, com quem é obrigada a conviver, a tornaram desconfiada. Mas ela é uma líder forte e uma mulher confiante. Isso a coloca numa posição importante no rol das figuras femininas de Star Trek.

Sendo uma mulher não-humana, podemos nos questionar se Kira realmente representa as mulheres na franquia. Mas é bem claro que as raças alienígenas desse universo são em geral alegorias da diversidade étnico-cultural humana. Kira pode ser encarada como um tipo de feminilidade possível (e real). A sociedade bajoriana se caracteriza pela igualdade dos gêneros, e não vemos predileção de um gênero ou outro nos papéis sociais da cultura de Bajor. Isso torna Kira uma representante de um mundo idealizado onde o sexo/gênero já não representa um problema.

Em sua versão alternativa no Universo Espelho, Kira é uma dominatrix que comanda a estação Terok Nor (denominação cardassiana da Deep Space 9). Sexualmente poderosa, ela subjuga homens e mulheres que estão sob seu controle. Infelizmente, essa imagem acaba trazendo algum aspecto negativo na representação da mulher bissexual, pois é a primeira vez na franquia que se vê uma personagem claramente não-heterossexual, e é justamente uma vilã. Felizmente, Ezri Tigan viria a corrigir isso, como veremos mais abaixo.

Jadzia Dax (Terry Farrell)

Uma força presencial notável está entre as principais características da trill simbionte Jadzia Dax. Oficial de ciências da estação, ela se caracteriza por carregar no ventre uma espécie de ser inteligente que detém as memórias de outros tantos hospedeiros que o carregaram no passado. Dax é um ser sem gênero que se manifesta como ser sexuado através de seus hospedeiros. Uma vez que Jadzia é uma mulher (da espécie trill), a personagem de maneira geral é uma figura feminina.

No entanto, a relação que Dax mantinha com o Comandante Sisko no passado, sob o semblante de um hospedeiro homem (Curzon Dax) mantém um caráter de camaradagem heterossexual mesmo na atual personalidade feminina do simbionte. Sisko continua chamando-a de “meu velho” ad infinitum. Isso configura uma situação interessante por dois motivos.

Primeiro, Jadzia aparece como uma pessoa de identidade feminina mas de personalidade andrógina. Segundo, a relação com seu amigo humano é diferente da maioria das amizades entre pessoas de gênero diferente, pois eles compartilham conversas, assuntos e formas de comunicação mútua que tradicionalmente se dão em contexto de amizade entre homens heterossexuais e homoafetividade sublimada.

Em seu relacionamento com o klingon Worf, a “Magnífica Jadzia”, como a chama seu amado, encena um casamento em que ambos os parceiros compartilham a mesma importância, ela buscando sempre demonstrar que é uma mulher extremamente forte que não se deixa dominar por um homem poderoso como Worf. Infelizmente, Jadzia é assassinada pouco tempo depois do casamento, num episódio dramático e inesperado.

Ezri Dax (Nicole de Boer)

A sucessora de Jadzia como hospedeira do simbionte Dax, Ezri trouxe as memórias da antecessora mas se manifestava de forma bastante diferente, com uma personalidade muito própria. Ela não teve grande destaque na série e tenho a impressão de que foi um acréscimo desnecessário em termos narrativo-dramáticos. Mas alegoricamente ela encenou alguns temas interessantes, como o da filha (Ezri) que precisa desconstruir a herança da mãe (Jadzia) para construir sua própria identidade.

Outro tema que pode ser lido por trás de uma alegoria é o da mulher que, por mudanças advindas das vicissitudes da vida, deixa o homem que amava. Jadzia Dax mal havia se casado com Worf quando foi assassinada, e Ezri Dax representa a mesma mulher depois de uma trágica transformação em sua vida, que a leva a deixar seu “marido”. Worf, sempre trazendo à tona o machismo tradicional, fica muito confuso com relação a seus sentimentos por Ezri, mas esta tem mais certeza sobre o que não quer, e posteriormente sobre o que quer, envolvendo-se com outro homem, o médico-chefe da estação, Dr. Bashir.

Mas é talvez em sua versão alternativa do Universo Espelho (Ezri Tigan) que ela represente a maior (mesmo que um tanto tímida) ruptura nas questões de gênero e sexualidade. Fica muito claro, através de diversas alusões, que a pequena trill, desejada por vários homens de várias espécies (incluindo homens ferengi), é lésbica e provavelmente terá algum relacionamento com Leeta, uma bajoriana com a qual compartilha um flerte ao final do episódio. Como é uma heroína nessa história, ela corrige a falsa impressão que pode ter causado a Kira alternativa de que a sexualidade não-normativa possa estar relacionada a mau caráter.

Voyager

Star Trek: Voyager é certamente a melhor das séries da franquia quanto à representatividade feminina. As mulheres da nave comandada pela Capitã Janeway não tem apenas uma presença forte, mas são diversas entre si, ambrangendo um amplo leque de feminilidades.

Kathryn Janeway (Kate Mulgrew)

Quando se fala em presença feminina em Star Trek, a capitã Kathryn Janeway é certamente o ícone mais significativo. Janeway é a alma de Voyager, e dessa forma a série reveste de uma grande importância o papel das mulheres e a representação feminina na franquia.

Capitã Janeway é, na minha opinião, a personagem feminina mais complexa de Star Trek. Ela consegue ter muitas facetas, que se revelam ao longo da série, algumas das quais antagônicas entre si (o que é normal para qualquer indivíduo tridimensional), mas sem deixar de ser coerente consigo mesma e com o conceito por trás de sua personalidade.

Ela possui um forte senso de ética ligado à sua dedicação às diretrizes da Frota Estelar, mas tem uma relação especialmente ambígua com a Primeira Diretriz, ou seja, a regra da não-interferência. Muitas vezes ela se vê na situação conflituosa de ter que decidir entre seguir à risca o protocolo de seu papel oficial e agir de acordo com uma compaixão baseada em princípios mais profundos do que os racionais procedimentos previstos para seu cargo. Nesse sentido, sua personalidade ressoa muito o Capitão Picard, mas fora isso ela é bem diferente dele.

Janeway é uma mãe para sua tripulação, acolhedora, compreensiva e dedicada, ao mesmo tempo em que age com dureza quando críticas são necessárias, mesmo que se dirija aos tripulantes mais próximos dela e com quem tem mais afinidade. Porém, ela sempre colocará a conciliação como prioritária sobre o combate, o que a diferencia sobremaneira do estilo supermasculino do Capitão Kirk, sempre antecipando o conflito. No entanto, a capitã da Voyager é uma guerreira quando precisa ser.

O único elemento que poderia ter recebido mais atenção, a meu ver, foi a vida amorosa de Kathryn. Enquanto Kirk era um Don Juan e Picard se envolveu emocionalmente com um bom número de pessoas, Janeway parece ter caído no estereótipo da mãe assexuada, dedicada emocionalmente apenas aos filhos (seus subordinados). Durante toda a série, fora o marido que deixou no Quadrante Alfa e que se casou com outra mulher por pensar que Janeway não voltaria mais, ela só teve um caso com u alienígena que se revelou um traidor, um homem com quem só se envolveu por que havia perdido a memória e um personagem holográfico, sem contar o flerte velado por seu imediato, Comandante Chakotay. Ou seja, seus romances sempre foram cercados de ilusão e decepção. Se outros capitães tão ocupados quanto ela podem se dar ao luxo de explorar a própria libido, por que não Kathryn Janeway?

Mesmo assim ela não deixa de ser um ícone, por se mostrar tão multifacetada e liderando uma tripulação de mulheres e homens fortes, representando um grupo diverso quanto às suas feminilidades e masculinidades, até mesmo bordejando os limites das identidades de gênero padrão e se envolvendo em tramas que incluem alienígenas que podem ser vistos como alegorias do transgenerismo.

B’Elanna Torres (Roxann Dawson)

Um exemplo de mulher feroz, B’Elanna é meio-humana meio-klingon, e possui um pouco da personalidade selvagem típica dos klingons. Assumindo o trabalho de engenheira-chefe supereficiente (na tradição iniciada por Scotty e continuada por Geordi Laforge), B’Elanna não aceita ser questionada em suas decisões a respeito de sua jurisdição na nave, o que leva a constantes conflitos, acirrados pelo fato de, antes de se juntar à tripulação da Voyager, ter feito parte dos Maquis, um grupo rebelde anti-Federação, e antes disso ter sido uma indisciplinada oficial da Frota Estelar.

Dessa forma, a irritadiça Tenente Torres é uma mulher lutando por autonomia em seu espaço de trabalho. Ela sente essa autonomia ameaçada quando a ex-borg Sete de Nove se junta à equipe da nave e começa a se meter em assuntos relacionados ao funcionamento do veículo espacial. O apoio da capitã Janeway, assumindo para ela um papel materno, é um dos poucos motivadores para que a ex-maqui continue em seus esforços de ajudar Voyager a retornar ao Quadrante Alfa.

B’elanna também sofre os reveses de ser uma mestiça. Os klingons (espécie à qual pertencia sua mãe) nunca foram plenamente aceitos pela xenofóbica cultura humana, e ela mesma tem dificuldades de aceitar seu lado klingon. O fato de ser interpretada por uma atriz de ascendência latina (Roxann Dawson Caballero), tendo inclusive um sobrenome espanhol (Torres), reforça a ideia de que os conflitos relativos à mestiçagem são uma metáfora das dificuldades de os “latinos” se integrarem à cultura estadounidense, e mais ainda das mulheres de origem hispano-americana.

Kes (Jennifer Lien)

Pertencente à espécie ocampa, nativa do Quadrante Delta, Kes se une à trupe da Capitã Janeway no início da série e se mantém durante algumas temporadas. Nesse meio tempo, ela ajuda a tripulação com com valiosas habilidades telepáticas; como assistente do Doutor, demonstrando uma capacidade de aprendizado surpreendente e praticamente se tornando uma médica; e com o cultivo de vegetais destinados à cozinha (esta comandada por seu companheiro Neelix).

Kes tem um aspecto que a faz lembrar um certo arquétipo da elfa ou fada mágica, reforçado pelas orelhas e pela roupa, que lembra vestimentas antigas ou medievais. Ressoando as ninfas selvagens e as bruxas dotadas de poderes misteriosos, ela representa um certo poder feminino guardado sob uma aparente fragilidade. Kes é uma personagem propositalmente construída para se parecer com uma criança que na verdade é uma adulta amadurecida e capaz de amadurecer ainda mais.

O fato de os ocampa viverem em média 9 anos também a torna um ser exótico e a faz parecer uma das personagens mais alienígenas da franquia, pois suas diferenças em relação aos humanos extrapolam o mero exotismo cultural. Em determinado ponto de sua trajetória, seus poderes psíquicos se desenvolvem tanto que ela se torna praticamente um ser sobrenatural e abandona Voyager para buscar novos horizontes.

Em um episódio, Kes protagoniza uma história na qual tem vislumbres de seu futuro, casada com o timoneiro Tom Paris. Nesse futuro, ela se vê envelhecida, tendo em vista os poucos anos de vida de uma ocampa, e percebemos uma referência interessante à questão do relacionamento afetivo entre um homem jovem e uma mulher mais velha que ele. Neste ponto, Star Trek consegue abordar a valorização da mulher idosa enquanto pleno indivíduo e sujeito de desejo.

Sete de Nove (Jeri Ryan)

Annika costumava ser uma menina humana até ser assimilada pelos Borg, seres cibernéticos, parte máquina, parte orgânicos, cujos indivíduos são capturados de outras espécies e transformados em parte de uma coletividade com a mente compartilhada. Mesmo depois de ser libertada de sua condição de ciborgue, ela manteve a denominação que recebeu da rainha borg, Sete de Nove.

Sete se caracteriza como uma mulher muito inteligente e racional, uma mente que funciona como a de um vulcano (o que faz com que sinta afinidade com Tuvok), mas sem nenhuma experiência como ser social em uma sociedade individualista como a nossa. Falta-lhe totalmente a etiqueta mínima para o convívio com seres emotivos como os humanos. Sete de Nove pode ser entendida assim como uma mulher nerd, que depois de perder o contato com a coletividade borg se tornou bastante solitária.

Por outro lado, ela é também retratada como uma mulher muito bonita e sensual, interesse amoroso de alguns dos homens da Voyager. Esse aspecto resvalou para uma ênfase na busca por um romance, que acabou concretizando com o Comandante Chakotay. A série retrata assim a constituição de um casal como uma etapa necessária para sua humanização, e infelizmente faz isso se baseando numa ideia heteronormativa, tradicional e sexista de relacionamento afetivo.

Mas de maneira geral sua trajetória é a de reconstrução de sua identidade humana. Em seu aprendizado, ela aprende os ritos da conduta de seus cotripulantes. Em sua condição de borg, Sete pode ser lida como uma alegoria da mulher sem identidade própria, parte de um tipo de harém cibernético. Sua libertação é a descoberta de seus próprios anseios e do domínio de sua própria vida.

Enterprise

Como já discuti em outros lugares, Star Trek: Enterprise foi um retrocesso. Enquanto as séries anteriores melhoraram gradativamente a representação dos negros e, muito especialmente, a das mulheres, a série estreada em 2001 colocou em destaque muitos personagens brancos do sexo masculino e praticamente só deu destaque a uma mulher, a vulcana T’Pol, deixando a primeira mulher oriental a aparecer na ponte de comando das naves da Frota Estelar num papel muito secundário.

Hoshi Sato (Linda Park)

O conceito por trás dos personagens de Enterprise é muito bom. Mas alguns deles são muito mal explorados, como é o caso da oficial de comunicações, Alferes Sato. Ela é uma especialista em Xenolinguística, capaz de aprender um novo idioma em pouquíssimo tempo, e uma das responsáveis pelo desenvolvimento do tradutor universal, tão essencial para os oficiais da Frota Estelar em seu contato com espécies alienígenas.

Mas essa mulher japonesa é deixada de lado em quase toda a série, executando seu papel eficientemente mas muito pontualmente, sem que se aprofunde uma trama mais complexa sobre sua história, suas motivações e sua personalidade (contrastando com os episódios em que os homens brancos da ponte de comando aparecem como o centro da narrativa).

Somente sua versão no Universo Espelho tem maior relevância, e mesmo assim só para a realidade paralela. Lá Hoshi Sato é a protagonista de um complô que a leva a se tornar, com base em ameaça bélica, Imperatriz da Terra. Teria sido muito interessante que ela protagonizasse com mais destaque uma história no universo principal da série.

T’Pol (Jolene Blalock)

A oficial de ciências e segunda em comando da Enterprise comandada pelo Capitão Archer é uma mulher vulcana, e como tal extremamente racional, inteligente, ponderada e fria. Dentro de uma abordagem de gênero, T’Pol é bastante rica enquanto mote para discussões sobre feminilidade. Em primeiro lugar, assim como Kira Nerys em Deep Space 9, ela pode ser vista como um tipo de feminilidade alternativa, alienígena, possível. A sociedade vulcana parece não fazer uma diferenciação de temperamento e comportamento baseada no gênero de seus indivíduos. T’Pol é ao mesmo tempo representante de um tipo diferente de feminilidade e de uma cultura com uma noção diferente de identidades e papéis de gênero.

Além disso, ela encarna uma contradição dentro do cenário de Enterprise. Acima de tudo, ela representa a racionalidade necessária para administrar a emotividade do Capitão Archer, papel análogo ao de seu conterrâneo Spock para o Capitão Kirk. Sendo assim, ela difere do papel normalmente atribuído às mulheres, mais movidas pelo sentimento. Dessa forma, é interessante notar que a relação ente T’Pol e Archer é uma inversão da estrutura sexista na qual o homem encarna a razão e a mulher incorpora a emoção.

Por outro lado, a vulcana é fisicamente apresentada de maneira muito sexualizada, com roupas justas e reveladoras e sendo objeto de conversas entre tripulantes que a acham atraente. Ela destoa das outras mulheres humanas a bordo, que usam um macacão como uniforme, igual ao dos homens. Talvez a última sucessora de uma “tradição” que começou com Deanna Troi (ou até antes, com Janice Rand), passando por Sete de Nove, ela encarna o elemento afrodisíaco da feminilidade, conjugando em sua figura o culto ao corpo com o cultivo da mente.

Universo Desconstruído: Ficção Científica Feminista

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A Ficção Científica, como outros tantos gêneros da Literatura, do Cinema e das série de TV, está impregnada dos valores arraigados na cultura em que prolifera. E isso implica na reprodução de etnocentrismo, racismo, sexismo e heteronormatividade.

Pensando nisso, as escritoras Lady Sybylla e Aline Valek organizaram uma coletânea de contos que fogem desse padrão. Focando especialmente na desconstrução dos papéis de gênero tradicionais tão presentes na ficção científica (e também tocando em outros temas relacionados à diversidade humana), as autoras e autores que participaram da coletânea exploram os limites libertadores dessa literatura, que em essência pode extrapolar a realidade e imaginar um mundo melhor, um universo livre de discriminação e preconceito, ou que pode servir para explorar alegorias fantásticas da nossa realidade ainda androcêntrica e misógina.

O livro é distribuído gratuitamente através do site oficial (http://universodesconstruido.com/), em formatos EPUB (Kobo), MOBI (Kindle) e PDF,  e pode ser comprado em formato físico no Clube dos Autores.

A seguir, faço uma apreciação de cada um dos contos presentes na coletânea, tentando não revelar pontos importantes da trama (spoilers), ao mesmo tempo trazendo minha interpretação para quem já leu e procurando instigar a leitura para quem ainda vai ler.

“Codinome Electra”

O conto que abre a coletânea, escrito por Lady Sybylla, narra eventos de um futuro distante. Há uma guerra entre dois povos, os humanos e os magojins, e a sucessão de eventos da trama é desencadeada pela captura de um magojin por uma mulher chamada Electra. Quando surge enfim a oportunidade de os humanos, que habitam o planeta Klaten, entenderem quem são seus inimigos, o governo de Klaten decide acobertar qualquer informação que tivesse sido coletada e impedir a continuidade desse plano.

Major Electra é dispensada pela coronel Vieira, sua superiora, e decide descobrir a verdade sobre os magojins, mesmo que isso represente um risco para si mesma. As revelações que se seguem mostram que há uma relação entre humanos e magojins mais significativa do que se acreditava, e passamos a entender uma série de elementos do conto até então.

O trio de personagens que protagonizam o primeiro ato do conto é muito significativo para se entender o caráter subversivo de “Codinome Electra” e Universo Desconstruído. São três mulheres, uma guerreira (Electra), uma líder (Vieira) e uma médica (Alvarez). A princípio, a “insistência” da autora em apresentar de cara três mulheres em papel importante pode ser um incômodo para muitos leitores homens (e é bom que seja), e essa escolha tende a ser vista como típica de “histórias para mulheres”. Mas é uma escolha proposital e acertada, que nos informa do que realmente se trata o livro: uma quebra de paradigmas. Afinal, não é nada incomum encontrarmos dezenas e centenas de histórias de ficção científica cujo grupo de protagonistas é todo formado por homens.

Vide o emblemático triunvirato de Star Trek, Kirk, Spock e McCoy, três homens (que, na minha leitura, parecem ter inspirado as três mulheres do conto). Mesmo a grande capitã Kathryn Janeway, de Star Trek: Voyager, possui um imediato homem, e é muito difícil encontrar space operas que tenham apenas mulheres como protagonistas (embora seja fácil encontrar grupos exclusivamente masculinos ou nos quais as mulheres, quando presentes, ocupam papel secundário).

Ao longo do conto, vamos nos deparando com mulheres em posições de poder, negros e brancos convivendo em igualdade, bissexuais vivendo sua sexualidade em paz e transexuais plenamente aceitos como iguais em suas identidades, e nos perguntamos como essa sociedade futurista conseguiu se transformar em tudo o que as histórias de ficção científica negaram fazer. “Codinome Electra” é um ponto alto e importante da literatura brasileira de ficção científica.

“Quem sabe um dia, no futuro”

Neste instigante monólogo, da autoria de Alex Luna, somos apresentados a um futuro em que a humanidade resolveu diversos problemas sociais com o uso de robôs, que passaram a realizar todas as atividades braçais. Tornaram-se, enfim, escravos (que é, a propósito, o sentido próprio da palavra robô).

Nas reflexões que a protagonista faz, compreendemos o que sente o ser oprimido diante da impossibilidade de se rebelar. Embora na sociedade pseudoutópica que é o cenário do conto não haja mais desigualdade de gêneros, na nova ordem as angústias das mulheres se repete nas mentes do novo contingente dominado.

A forma como se desencadeia o monólogo vai revelando aos poucos do que se trata essa realidade, fictícia quanto aos fatos, realista quanto à mensagem: não importa quanto tentemos mudar as sociedades humanas, só haverá uma verdadeira revolução quando a estrutura de dominação for desconstruída, quando as mudanças deixarem de ser apenas a dos atores que ocupam os papéis pré-estabelecidos. Estes é que devem ser reconstruídos.

Apreender esta mensagem é importante para se compreender a proposta feminista da coletânea. Não se trata da caricatura propagada pelo discurso tradicionalista, a das feministas que querem inverter os papéis da dominação sexista. Trata-se, isso sim, de construir uma estrutura social em que não haja desigualdade baseada no sexo/gênero dos indivíduos (tampouco sua etnia, “raça” ou orientação sexual).

“Uma terra de reis”

Confesso que tive que ler duas vezes o conto de Dana Martins para entender a trama. É como se tivesse sido escrito num jargão futurista, com abreviações de palavras (especialmente dos nomes próprios, alguns dos quais remetem à mitologia hindu) e de frases, e exigiu de mim muita atenção para compreender o que não estava dito explicitamente. O ritmo frenético de história de ação também demandou paciência, pois não estou acostumado com esse tipo de literatura. Mas depois da segunda leitura entendi melhor a proposta e achei bastante interessante.

Num mundo controlado por grandes corporações, uma epidemia fora de controle se torna fonte de enriquecimento para uma indústria, que comercializa a cura apenas para quem pode pagar por seu caro preço. Um grupo de rebeldes está tentando roubar o remédio para distribuí-lo entre a população excluída. Ou seja, a história é de forma geral uma crítica sócio-econômica.

Sua inserção na coletânea de contos feministas se justifica, em primeiro lugar, pelo fato de Maya, a protagonista e narradora, ser feminina. Além disso, ela não é humana, mas um ser artificial, parecido com os replicantes de Blade Runner. Sua condição de coisa, num mundo que relega os UROs ao papel de escravos, é motivo de constantes queixas por parte dela. Seus sentimentos são, metaforicamente (às vezes literalmente), um reflexo da opressão sofrida pelas mulheres num mundo androcêntrico.

Embora Maya participe ativamente do planejamento e execução das operações de espionagem e guerrilha, ao lado de seu companheiro humano Dev, ela é encarada por muitos como uma ferramenta e um objeto de disputa por parte das diversas forças que se opõem na história. Sua perspectiva reflete a angústia das mulheres reais, que aprendem, da cultura em que estão inseridas, a cultivar anseios e desejos, mas são tratadas como coisas sem autonomia.

Eu me concentro em respirar enquanto eles continuam a falar de mim. As palavras vindo de longe. Os dois continuam combinando o meu futuro.

Vale também mencionar o destaque para a ambivalência do personagem masculino que acompanha Maya. Dev é apresentado como uma espécie de super-herói, muito autoconfiante, destemido, ágil e forte. Mas essa aparente imagem de modelo masculino ideal é contrastada com momentos de dúvida, insegurança e ansiedade, quebrando o estereótipo do machão inquebrável das histórias de ação, mostrando um ser humano com virtudes e fraquezas.

“Meu nome é Karina”

Nesta história de Ben Hazrael, um empreendimento científico que envolve a comunicação com uma realidade alternativa coopta a personagem-título para ser uma “sonda” na outra realidade, assumindo a identidade de sua contraparte para iniciar o processo de transferência das consciências de todo o mundo para seus alter-egos naquela realidade, onde a história seguiu um caminho um pouco diferente da nossa. Porém, a motivação de Karina para ir à outra realidade não coincide com os planos dos cientistas envolvidos no “Projeto Sonda”. Ela anseia por viver uma vida em que é aceita como é, especialmente por seu pai.

Presa desde o nascimento num corpo que não reconhece como seu, Karina não aceita a identidade imposta pela sociedade e por seu pai, com quem sempre teve um profundo conflito. Nesta fábula, a figura paterna aparece como um símbolo que condensa o patriarcado, a ordem androcêntrica controlada pelos homens, o sexismo da rígida divisão sexual do trabalho, a heteronormatividade que mata os “desvios” e a cisnormatividade que castra a autenticidade individual. O pai é ainda um cientista, representando o fato de que o pensamento científico, pensado como libertador, não implica necessariamente em melhor aceitação das diferenças.

Somos capazes, hoje em dia, de enviar astronautas para Marte para construir colônias, mas somos incapazes de apagar preconceitos.

A frase acima é muito significativa pelo fato de não ser apenas uma constatação da personagem-narradora a respeito de seu universo, nem somente uma mensagem do autor sobre o que vivemos na nossa própria realidade. A sentença condensa toda a ideia de Universo Desconstruído, de que por mais imaginativa que seja a ficção científica, em geral ela ainda se mantém presa a valores tradicionais com que só a um grande custo consegue romper.

E esse conto rompe com a tradição, explorando o drama psicológico de uma transexual, uma viagem intimista por seus pesadelos, suas fantasias, os questionamentos sobre seu nascimento num “corpo errado” e seu ingresso resoluto num arriscado projeto científico pelo qual ela tem a possibilidade de ser quem é. Karina, na verdade, coloca a perder o referido “Projeto Sonda” ao dormir – nos braços do pai – na outra realidade, contrariando as recomendações da Dra. Mariza. Assim, ressoando O Homem-Elefante e A.I.: Inteligência Artificial, a protagonista morre se sentindo plena, em paz, tendo finalmente conquistado sua identidade e a aceitação, tão negadas em nossa cultura cisnormativa.

“Eu, incubadora”

Aline Valek nos traz uma história de tribunal e suspense em que duas personagens femininas se encontram no papel de rés. Num cenário pós-apocalíptico e distópico, após sobreviver a um imenso desastre que dizimou grande parte da população,  a humanidade instituiu que os embriões e fetos humanos são pessoas com direitos iguais aos de indivíduos adultos. Isso implica na completa criminalização do aborto, considerado equivalente ao assassinato.

Esse futuro socialmente catastrófico é uma extrapolação prognóstica da atual influência do perigoso discurso “pró-vida” e antiaborto, fomentado por igrejas cristãs e bancadas políticas evangélicas hodiernas. Esse discurso, profundamente atrelado à ideologia da submissão das mulheres e da domesticação de seus corpos, se torna, na ficção de Valek, uma realidade extremamente opressora para as pessoas do sexo feminino e especialmente para todas as mulheres grávidas.

Nessa sociedade, uma rígida hierarquia entre androides (ou Coisas) e seres humanos coloca estes como deuses aos olhos daqueles. As Coisas estão no grau mais baixo da hierarquia social, e veneram a capacidade de gerar vida dos seus deuses. Porém, a vida embrionária é considerada a tal ponto sagrada nessa sociedade que chega a ser mais importante do que a vida da mulher que a carrega no ventre.

Essa realidade constitui um paradoxo existente em nossa própria sociedade patriarcal e misógina: as mulheres se sentem privilegiadas quando estão grávidas e se dedicam à maternidade como a uma carreira que, em princípio, deveria significar a máxima realização individual. As mulheres são supervalorizadas e são bem tratadas nessa condição. Porém, não podem escolher quando engravidar, não se lhes permite abdicar de ser mães e elas têm que assumir todo o trabalho de cuidar dos filhos. Em suma, as mulheres são valorizadas enquanto forem submissas ao restringidor papel imposto a elas socialmente.

Neste cenário, Diana decide abdicar de ser mãe, transferindo seu filho não nascido para o ventre de uma Coisa. A partir daí, uma série de questionamentos é suscitada num grande julgamento, trazendo uma crise para as concepções sobre vida, aborto, liberdade individual e hierarquia social e de gênero – o conto é praticamente todo ele uma reflexão filosófica, aberta e irônica sobre estes temas. Os líderes que impõem e executam as leis dessa sociedade são todos homens, evidenciando a manutenção do controle masculino e a pouca empatia da autoridade sobre a condição feminina em situação de maternidade e de aborto. O título se refere diretamente à condição da Coisa grávida, mas também é uma metáfora para a condição de Diana e todas as mulheres reais que sofrem a violência simbólica desumanizadora de se ver como instrumentos para a procriação, meras incubadoras sem domínio de seus próprios corpos.

(De quebra, a história ainda nos apresenta uma abordagem crítica a respeito das crenças religiosas. Diferente de muitos ateus que consideram que as crenças são mero capricho sem motivação aparente, Valek cria uma fábula em que percebemos que uma religião não surge à toa e tem todo motivo para existir, mesmo que as crenças que a fundamentam sejam arbitrárias, ilusórias e possam servir à dominação de certos grupos por outros.)

“Um jogo difícil”

Leandro Leite nos apresenta Maria, ou 002-b, mais conhecida como Zero Dois, uma mulher estivadora, forte, em posição de chefia em seu setor. Ela chama atenção por ser uma heroína “feia”, diferente de grande parte das supermoças das histórias de ação, mais parecidas com romantizadas supermodelos do que com as mulheres da realidade, tão diversas em suas formas físicas.

Eticamente correta com os indigentes que buscam abrigo nos contêineres de seu setor, ela sofre o preconceito de seus colegas por não seguir o procedimento padrão, que é encaminhar esses invasores à execução. Ela é desprezada por ser “coração mole”, acusação que esconde e revela a misoginia no desprezo à empatia e à compaixão, consideradas uma “fraqueza” feminina. Essa misoginia acaba por demovê-la do cargo de chefia.

Porém, Maria descobrirá que foi demovida do cargo por muito mais do que sua “fraqueza” moral. Num mundo controlado por megacorporações, onde cada cidade é praticamente um conglomerado de empresas, intrigas, conspirações e guerras levam a desaparecimentos e mortes misteriosas. Maria se encontra na condição de bode expiatório e precisa fugir para não ser punida (com a morte) por suposto terrorismo.

Neste futuro distópico, a dominação pelo capital criou uma sociedade controlada por empresas interessadas apenas em enriquecer. A educação se esfacelou em favor de uma cultura consumista. A falta de uma estrutura educacional consistente leva à ignorância sobre conhecimentos científicos e filosóficos. Nesse contexto, todo o avanço que havia sido alcançado pelo pensamento e lutas feministas (e provavelmente de outras correntes libertárias) se perde quase totalmente. A narrativa é, portanto, um pretexto para o autor argumentar a favor da educação como meio de se cultivar mudanças sociais significativas.

Nesta sociedade que regrediu a um machismo violento, uma das únicas formas de Maria se defender do assédio dos homens é pelo uso da força bruta. Mas a violência contra as mulheres é aí bem mais séria do que a violência simbólica e física cotidianas. As mulheres são sistematicamente manejadas como coisas. A mensagem presente nos pensamento e falas de Maria reflete todo o sentido da mobilização da causa feminista, a união organizada daquelas que são as maiores vítimas do machismo.

“Memória sintética”

O conto de Camila Mateus traz as figuras de Marla, Gilvana e Kaira numa São Paulo futurista em que é comum, para os moribundos que têm dinheiro para pagar o serviço, transferir a própria mente para robôs e continuar “vivendo” depois que o corpo biológico deixa de funcionar. Esse conto, à primeira vista, não é sobre temas feministas. As protagonistas são mulheres, mas além disso é uma história policial. Porém, as diversas situações trazem à tona o tema da misoginia e revelam a que veio a autora.

Neste cenário, dois tipos de pessoa sofrem discriminação: transfers (os robôs) e as milenarmente menosprezadas mulheres. Gilvana, funcionária da empresa Skymed, contratada para jogar cadáveres num incinerador, mulher gorda, sabe bem o que é ser alvo de deboches machistas de seus colegas homens.

E não há nada mais cansativo do que essa eterna insatisfação, essa necessidade de agradar aos outros e a si mesma. Escolher entre costurar o ombro de um baleado ou usar o tempo fazendo academia. Ir a pé para o trabalho com o único tênis decente do armário, pra economizar e ajudar os pais ou gastar tudo numa cirurgia a laser para retirar as varizes e secar a barriga.

Também sabe o que sofre uma mulher pobre com poucas chances de realizar seus anseios pessoais, por ser mulher e por ser pobre.

[…] Gilvana Mara já foi mais ambiciosa, queria ser astronauta. Subir lá pros planetas pra procurar algum alien pacífico que queira trocar ideias e não aniquilar a humanidade.

Marla, por outro lado, era engenheira chefe de produção robótica da Skymed. morreu em circunstâncias misteriosas e seu transfer, ainda em processo de recomposição das memórias de sua dona, fugiu adotando o nome Kaira. Sob o ponto de vista de um transfer, Kaira vai passar por situações de preconceito e exclusão que remontam às discriminações sofridas pelas minorias humanas, tendo inclusive sua natureza senciente questionada, ou seja, sendo desumanizada. Esse é um tema crucial no conto, o questionamento sobre a natureza da consciência, a pergunta sobre se um clone com as mesmíssimas memórias que o indivíduo original pode ser considerado uma cópia de sua individualidade.

O conto nos descree um cenário em processo de mudança, tendo em vista que aos poucos os transfers vão mudando seu comportamento, exigindo autonomia e independência em relação aos donos de quem são clones. Essa gradual mudança pode ser entendida como uma metáfora do empoderamento das mulheres, que se esforçam para terem sua individualidade reconhecida e desatrelada da autoridade de um homem que a possua.

“Réquiem para a humanidade”

Este é meu conto preferido de toda a coletânea. Thabata Borine nos apresenta um pequeno drama épico, com referências (propositais ou não) a Star Trek (lembrei do episódio O Demônio na Escuridão), ao jogo The Dig, ao filme Independence Day e ao universo de O Guia do Mochileiro das Galáxias. Tudo se encaixa bem na complexa trama, e a miríade de referências não torna cansativa nem confusa a narrativa.

O conto é narrado em primeira pessoa por um personagem misterioso. Não sabemos detalhes sobre sua identidade e ficamos apenas imaginando qual é a cara dessa pessoa, até que uma sutil reviravolta na trama nos faz perceber a razão de vários dos acontecimentos que se passaram ao longo da história. Essa revelação na verdade fica relativamente fácil de adivinhar pelo fato de o conto ser um dos últimos do livro. Penso que a experiência mind-blowing desse conto seria mais eficaz se ele fosse o primeiro ou um dos primeiros da coletânea, pois a leitura dos contos anteriores já prepara o leitor antecipadamente.

Numa missão a outro planeta, descobrem-se evidências de uma forma de vida inteligente extraterrestre. Com muitas dificuldades, a pessoa responsável por essa pesquisa consegue recursos do governo para prolongar a investigação a outros planetas, onde provavelmente há mais evidências arqueológicas que levarão à descoberta da identidade e da história desse povo misterioso que não deixou mais do que alguns vestígios de sua existência. O motivo do desaparecimento dessa espécie, apelidada de glieseanos, leva a crer que, se a humanidade não mudar certas coisas em sua conduta ética e sua estrutura social, especialmente no que tange à discriminação das minorias sociais, ela terá o mesmo fim.

A mensagem secreta dos glieseanos há muito desaparecidos e do conto de Borine é que, se permanecer a estrutura de dominação baseada em diferenças de gênero, identidade racial, classe econômica e sexualidade, acabaremos por minar nossos esforços evolutivos enquanto espécie em busca de um futuro melhor.

“Cidadela”

Duas personagens femininas protagonizam esse conto escrito por Lyra Libero. Irina trabalha numa cozinha industrial do governo, é pobre e vive numa das cidades satélites ligadas à Cidadela. Luísa é uma rebelde que trabalha fora da lei, uma espécie de espiã e gatuna. Ambas vivem num mundo distópico controlado por uma junção de Estado e Igreja, uma teocracia que se fundou a partir da reconstrução de uma sociedade destruída por uma praga. Nessa reconstrução, o papel das mulheres foi relegado ao de receptáculos de fetos, e elas perderam totalmente o poder sobre seus corpos, sendo a gravidez uma decisão dos homens e todos os filhos são criados pelo Estado para servir à Coletividade, que mais parece uma colmeia de abelhas do que uma sociedade humana.

Neste cenário pós-apocalíptico, constituiu-se um forte patriarcalismo, em que praticamente todos os líderes são homens e no qual as mulheres desempenham papéis subalternos. É notório, por exemplo, que na cozinha onde Irina trabalha só haja funcionárias mulheres. Vem à tona uma crítica à forma como se têm feito as revoluções ao longo da história humana, sempre se desviando de seus ideais originais e mantendo alguma forma de opressão. Neste caso, a opressão às mulheres.

Outra consequência nefasta desse neopatriarcalismo é constituição de uma literal cultura do estupro, em que qualquer violência masculina contra mulheres é friamente tolerada e qualquer gravidez advinda dessa violência é protegida pelo Estado, sendo o aborto proibido. Há uma séria crítica ao modelo democrático vigente na atualidade, quado a autora enfatiza que na Cidadela qualquer tipo de privilégio é proibido por Lei, mas isso não impede que aqueles que já detêm os privilégios os mantenham sem receber quaisquer punições.

A história lembra muito o conto de Valek, “Eu, Incubadora”, dessa mesma coletânea. Mas aqui vemos fortes elementos orwellianos, especialmente em duas figuras vigilantes, dois big brothers, o Ministro e o Pastor (a descrição deste é uma referência ao infame Marco Feliciano). Há uma forte crítica à atual ameaça contra a laicidade do Estado. Neste cenário hipotético, ressurgem inclusive práticas inquisitoriais, tendo como principais vítimas as mulheres, ressoando a medieval caça às bruxas. Tendo em seu cerno o tema do estupro, da gravidez não consentida e do aborto, Libero traz ao leitor uma reflexão sobre os sentimentos de uma vítima:

Como poder amar um fruto de violência, uma lembrança brutal de violação, patrocinada por um governo que dizia que mulheres eram inferiores e incapazes de decidir sobre seus corpos? Quem poderia culpar aquela pobre moça do Satélite 5 por não querer o fruto do seu ventre?

“Projeto Áquila”

Temos aqui um relato de Isabel Andrade, uma mulher duplamente aprisionada. A autora, Gabriela Ventura, fazendo uma referência ao saudoso filme O Feitiço de Áquila (Ladyhawk), conta a história de um casal que, por circunstâncias trágicas, passa a não conseguir se encontrar, pois uma só está desperta quando o outro está dormindo.

Isabel decidiu ser cientista ainda quando era criança, e acabou por se formar em Neurociências e se tornar uma grande referência na área. Em seu trabalho, contratou o colega Ricardo Oeiras, com quem formou uma parceria profissional e posteriormente conjugal. Os dois juntos se empenharam na pesquisa de Isabel, que visava encontrar uma forma de reverter a perda de memória dos pacientes do Mal de Alzheimer, sofrido pela falecida mãe da cientista. Porém, discordâncias entre Isabel e Ricardo, além de um acidente, colocam-na numa prisão, para que ela o ajude em outra pesquisa chamada Projeto Áquila.

Isabel consegue denunciar os atos de Ricardo, mas ela não se resume apenas a delatar seu crime e assegurar sua punição. É importante para ela fazer ouvir sua voz, se visibilizar enquanto indivíduo. Neste sentido, podemos entender sua necessidade como uma metáfora da urgência de as mulheres serem reconhecidas enquanto dotadas de individualidade e independência, e não meras sombras invisibilizadas pelos homens.

Além disso, a situação de Isabel ecoa metafórica e indiretamente dois outros temas importantes dentro das questões de gênero: o reconhecimento da feminilidade (ou seja, dos traços que nossa cultura identifica como femininos mas que podem estar presentes em qualquer indivíduo de qualquer sexo e/ou gênero) nos homens por eles mesmos; e a transexualidade, com o drama daqueles que se sentem descolados, num corpo errado e numa identidade de gênero inadequada.

Fundamentalmente, Ricardo é a figura do homem manipulador que coloca seus próprios interesses acima daqueles de sua companheira, seguindo a lógica androcêntrica tradicional pela qual o casal heterossexual se foca na realização dos planos do marido enquanto a esposa é uma reles coadjuvante. Neste contexto, predomina o sentimento de possessividade do homem sobre a mulher, disfarçado de romantismo, e o cativeiro doméstico da esposa, tido como obrigação conjugal. A mulher que desobedece essas obrigações é demonizada pela misoginia. Assim, os esforços de Isabel para inviabilizar o Projeto Áquila representam os esforços para se acabar com os instrumentos que servem à dominação das mulheres pelo machismo, objetivando o empoderamento e a autonomia feminina.

Aonde nenhuma mulher jamais esteve

Apesar de toda a admiração que pude aqui manifestar, penso ser oportuno mencionar uma pequena crítica de caráter puramente técnico. A versão para Kindle, que foi a que li, poderia ter sido melhor diagramada. Há uma linha em branco entre cada parágrafo, o que me incomodou um pouco, tendo em vista que os parágrafos já estão marcados pelo recuo na primeira linha. Teria ficado mais elegante e agradável em termos de design a exclusão dessas linhas em branco. Ademais, com a exceção de três ou quatro dos dez contos, em geral faltou uma ostensiva revisão do texto. Acho que a obra se valorizaria bastante se se atentasse para esses dois detalhes, embora não sejam nenhum impedimento para a leitora e o leitor apreciarem a coletânea. Fica a sugestão para uma possível reedição e para os próximos volumes da série.

Mas, em suma, a coletânea representa um novo fôlego para os esforços de se constituir uma ficção científica socialmente mais crítica, trazendo uma perspectiva feminista e libertária ao evidenciar protagonistas mulheres, bastante diversas entre si e bem diferentes dos usuais padrões homogeneizantes que as confinam a papéis decorativos ou que apenas servem de objeto motivador para heróis masculinos heterossexuais. É também uma tentativa de apresentar histórias mais inteligente e menos blockbuster do que a média. Representa ainda o fortalecimento e a valorização da soft sci-fi brasileira, que fomenta muita reflexão sobre nosso universo presente, desconstruindo-o para reconstruir o futuro.

Transfobia, homofobia e o fim do mundo

Padrão

Entrou uma pessoa transgênera no ônibus. Entenda-se transgênera no sentido de alguém que não se encaixa nos esquemas tradicionais pré-concebidos de identidade de sexo e gênero, alguém que não assume, total ou parcialmente, a identidade de gênero socialmente esperada para seu sexo biológico. Não sei se era uma travesti ou uma mulher transexual. Depois que ela saiu do ônibus, dois homens trocaram impressões sobre aquela pessoa.

Eles querem ser iguais a mulher, mas não conseguem.

Era travesti mesmo? Eu fiquei olhando assim, fiquei em dúvida, mas…

Depois o segundo homem interpelou uma mulher que se sentava ao seu lado.

São as coisas do fim do mundo. Como é que ficam as crianças na escola quando perguntam “quem é seu pai, quem é sua mãe?”

A flagrante transfobia (impregnada quase indistintamente de homofobia) da primeira fala revela algo interessante sobre a imposição de identidades de gênero aos indivíduos em nossa cultura. As pessoas que nascem com sexo masculino não apenas são obrigadas a se constituir como homens e assumir a identidade e os papéis masculinos pré-estabelecidos, sendo severamente desencorajados a flertar com a identidade feminina, mas também têm suas “intenções” deslegitimadas quando abraçam totalmente ou quase totalmente uma identidade e papel femininos. Porém, a transexualidade geralmente se manifesta a partir de uma identificação muito precoce do indivíduo com o sexo/gênero “oposto”.

Não posso afirmar se a pessoa que entrou e saiu do ônibus “queria ser mulher”, mas é quase certo que assume uma identidade feminina (travesti ou transexual). A afirmação de que essa pessoa “não consegue ser mulher” é uma forma de violência simbólica que procura desqualificar sua individualidade. É também a manifestação de um machismo que trata as mulheres como objetos de consumo do desejo masculino heterossexual. Nessa visão, um “homem que tenta ser mulher” é considerado uma mercadoria falsa, e daí há toda uma representação de travestis e transexuais como pessoas maliciosas que “fingem ser o que não são e enganam os incautos”.

Ser homem e ser mulher são performances sociais, não são dados biológicos ou naturais. A satisfação pessoal de alguém que assume uma ou outra dessas performances diz respeito apenas a essa pessoa, e ela não deve se enquadrar na expectativa social só porque os homens heterossexuais esperam não se decepcionar ao “descobrir” que “ela é ele”. Ao dizer que “um homem não consegue ser mulher”, está-se afirmando implicitamente que “ele deveria tomar vergonha na cara”, “desistir” e “voltar a ser quem é realmente”.

O segundo homem a falar disse que ficou “em dúvida” sobre a identidade da pessoa em questão. O que está sub-reptício a toda essa conversa é que aqueles homens viram um possível objeto de desejo, alguém que eles possivelmente teriam prazer em cortejar e que em certas circunstâncias poderiam querer levar para a cama, se não “descobrissem a verdade” antes. Mas sabe-se que há homens (pode ou não ser o caso dos personagens dessa história) para quem a travesti e/ou o transexual é um fetiche sexual e que raramente declararão esse gosto em público.

Quando demonstram sua decepção ao constatar que “não é mulher”, estão dizendo implicitamente que gostariam que ela fosse mulher, para não se sentir culpados por nutrirem um sentimento proibido (homossexual). E precisam proferir essa “constatação” para convencer aos outros e principalmente a si mesmos de que “não foram enganados”, que “não aprovam esse tipo de coisa” e que “não gostam de homem”.

É claro que não se pode afirmar com toda a certeza que todo esse discurso sub-reptício estava presente no consciente e/ou no inconsciente desses homens. Porém, tudo isso faz parte de um discurso mais amplo que está disseminado em nossa cultura machista, heteronormativa e cisnormativa. E não foi à toa que o segundo homem fez uma tremenda digressão, puxando o tema do reconhecimento da legitimidade do casamento homossexual. O desprezo ao casamento igualitário é uma manifestação de homofobia e não de transfobia.

Porém, na ideologia heteronormativa, identidade de gênero (homem, mulher etc.) se confunde com sexualidade (hétero, homo, bi etc.). Por não reconhecer a identidade feminina de uma pessoa que nasceu com o sexo masculino, a transfobia só reconhece essa pessoa como um homem homossexual e imagina que, se ela “quer ser mulher”, necessariamente “gosta de homem”. Ignora assim que as duas coisas não estão necessariamente atreladas.

Esse discurso, em suma, mantém ideias conservadoras a respeito de uma suposta natureza ditada pelos genes e pelos genitais. Homofobia e transfobia andam juntas, de acordo com a expectativa de que cada indivíduo deve se enquadrar em uma camisa-de-força que estabelece um comportamento de gênero e uma sexualidade necessariamente voltada para a reprodução sexuada. Qualquer mínimo desvio desses ditames é temido como um sinal de desagregação da sociedade, do “fim do mundo”, e normalmente não se percebe que cada lugar e cada época tem sua própria noção de normalidade e que, segundo essa lógica, o mundo já se acabou milhares de vezes e sempre se reconstruiu.

Imagem

A imagem que ilustra essa postagem é da personagem Poison, do universo de jogos de luta da Capcom, que inclui as franquias Street Fighter e Final Fight. Poison é uma mulher transexual.

Alien: O Oitavo Passageiro

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Título original: Alien

Direção: Ridley Scott

País: Grã-Bretanha/EUA

Ano: 1979

Alien: O Oitavo Passageiro é um marco na história do cinema de terror e ficção científica. Não é apenas uma excelente história de suspense. Representa uma instigante reflexão sobre vida alienígena, uma ótima abordagem do tema do estupro e uma franquia duradoura que rendeu ótimas narrativas tanto no cinema quanto em outras mídias.

A ideia do filme surgiu da cabeça de Dan O’Bannon, na época um roteirista iniciante que queria realizar um filme de terror espacial. Com a ajuda de Ronald Shusett, eles conseguiram o designer perfeito para a criatura que seria o antagonista da obra (que inicialmente seria chamada Star Beast e era descrita pelos roteiristas como uma espécie de Tubarão se passando no espaço). O artista plástico suíço H. R. Giger usaria uma de suas criações, uma figura chamada Necronom IV, para basear a imagem do monstro alienígena.

Necronom IV, a surreal e erótica ilustração de H. R. Giger que inspirou o alien/xenomorfo

Necronom IV, a surreal e erótica ilustração de H. R. Giger que inspirou o alien/xenomorfo

A dupla O’Bannon e Shusett encontrou também um diretor que se empolgou com a ideia, Ridley Scott. A sinergia entre O’Bannon, Shusett, Giger e Scott foi tamanha que muita coisa, desde o roteiro, passando pelos storyboards até o design final, teve a mão de cada um deles no processo de concepção e realização do filme. Quando resolveram batizar o projeto de Alien, os roteiristas gostaram do fato de que a palavra pode tanto ser um substantivo quanto um adjetivo, o que acrescentou um sutil elemento de ambiguidade ao título. “Alien” tornou-se então o apelido da criatura, inclusive em outras línguas, como em português (a tradução literal seria “alienígena”). Posteriormente, essa espécie também seria conhecida em seu universo fictício pelo nome xenomorph (“xenomorfo”), ou seja, “forma estranha”, “forma alienígena”.

Sinopse

A história se passa no espaço, na nave comercial Nostromo pertencente à empresa Weylan-Yutani, que carrega uma gigantesca carga de minério para a Terra. Os sete tripulantes humanos, além de um gato que os acompanha, são acordados da animação suspensa por causa de um pedido de socorro vindo de um planetoide próximo ao qual eles passavam. Ao descer ao planetoide para investigar, a tripulação enfrenta dois problemas. Primeiro, a nave auxiliar, Narcissus, que os levou à superfície se danifica e precisa de reparos antes de retornar à nave-mãe.

Mas isso é pouco, comparado ao que vem a seguir, Kane, um dos três oficiais que desceram para explorar as ruínas de uma enorme nave espacial alienígena, é atacado por uma criatura que escapa de um estranho ovo e se prende ao seu rosto, deixando-o paralisado, o facehugger (“agarra-rosto” ou “pega-fuça”). A maior preocupação da tripulação agora passa a ser a vida do oficial executivo Kane. Ele permanece desacordado durante algum tempo, mas desperta sem nenhum problema de saúde aparente. Enquanto o grupo come a uma mesa, Kane tem fortes convulsões e uma criatura semelhante a uma serpente explode para fora de seu peito (chestbuster ou, em bom português, “arromba-titela”), matando-o imediatamente.

Sem que ninguém saiba, o “alien” rapidamente amadurece, assumindo forma vagamente humanoide. A história continua com a sistemática caça da criatura a todos os tripulantes. Durante a tentativa de se capturar a criatura, descobre-se que o oficial de ciências Ash é um androide programado para levar o alienígena vivo para a Terra, mesmo que isso signifique a morte de todos os tripulantes. Após a morte do capitão Dallas, cabe à oficial de segurança Ripley salvar a pele do resto da tripulação e a sua própria.

Ripley vs. alien

A nave Nostromo pode ser uma metáfora da psique feminina que precisa ser dominada pela disciplina sobre os instintos.Interessa notar que o “coração” da nave, ou seja, o computador central, é chamado de Mãe. Ao longo da narrativa, Ripley, a personagem mais racional, vai aos poucos se destacando como a protagonista.

A morte da figura paterna, o capitão Dallas, é o início da tomada de consciência sobre seu papel. Isso se acentua quando a timoneira Lambert é devorada pela criatura. Lambert representa a parte mais infantil da psique feminina, a emocionalidade descontrolada, o pavor do desconhecido.

A criatura “alien” torna-se assim a nêmesis de Ripley. O amadurecimento da mulher acontece gradualmente à medida em que ela assume a responsabilidade pelos seus colegas tripulantes. O fato de ser uma mulher representa uma dificuldade em alguns momentos, pois ela é ridicularizada. Sua intuição inicial sobre o perigo daquela missão, a princípio menosprezada, mostra-se sensata, porém tarde demais. A criatura, também simbolicamente feminina em seu aspecto puramente corpóreo e sua reprodução assexuada, é um fantasma interior, uma força caótica com que Ripley precisa lidar, para não deixar que tome conta da nave. Assim como Alice amadurece e (literalmente) cresce ao confrontar a Rainha de Copas, Ripley precisa enfrentar a poderosa imagem feminina do ‘alien” para se ver livre e independente.

A natureza do alienígena

A origem da criatura alienígena dessa ficção científica espacial permanece um mistério até o fim e se mantém assim ao longo de outros três filmes da franquia (Aliens: O Resgate, Alien 3 e Alien: A Ressurreição). Existem pelo menos duas formas de se interpretar a natureza desses seres, dentro de um universo propício a especulações científicas.

Uma delas, que é mais próxima do cânone e que começou a ser explorada na franquia Prometheus, é a de que os “aliens” são produto de uma experiência de engenharia biológica, feita por uma espécie alienígena muito antiga e que fugiu ao controle. Porém, no filme que estamos analisando aqui essa explicação não tem muita relevância, a não ser que consideremos o vívido interesse da empresa (através de seu agente secreto, o androide Ash) em analisar a espécie, o que pode indicar conhecimento prévio sobre a experiência fracassada e uma tentativa de retomá-la.

Atendo-me apenas à franquia Alien e especialmente ao primeiro filme, sobre o qual aqui discorremos, acho mais pertinente encarar a criatura como uma espécie pertencente a um ecossistema extremamente hostil, que foi capturada pelos enigmáticos humanoides cuja nave é encontrada em ruínas pela tripulação da Nostromo. As criaturas foram responsáveis pela destruição desses humanoides, por estarem vulneráveis a uma espécie que não se encaixa no mesmo ecossistema que eles. Os humanos da Nostromo sofrem com o mesmo mal, e podemos antever que os “aliens”, se levados para a Terra, causariam um estrago semelhante ao que causaram os coelhos levados à Austrália, onde não tinha predadores naturais.

Em ambas as hipóteses, a história toca no tema da falta de escrúpulos das grandes empresas capitalistas que colocam seus interesses de lucro acima do bem-estar do resto da população. Ao brincar com um ser extremamente hostil e perigoso para os seres humanos, eles arriscam perder tudo apenas pela pequena possibilidade de enriquecerem às custas das vidas de outras pessoas.

Estupro

Um dos temas mais instigantes de Alien é o estupro. Ele aparece de maneira alegórica no ataque do “pega-fuça” a Kane, que força a inoculação de um embrião em seu tubo digestivo, através da boca. Essa alegoria ajuda a quem nunca sofreu um estupro, especialmente homens (muito menos propensos a serem vítima desse tipo de crime), a entender que esse ato não é uma simples relação sexual da qual um dos parceiros não quer participar. É um ato de violência, em seu mais sério significado, uma violação da privacidade e da integridade do corpo. O aspecto erótico do design das criaturas de Giger enfatiza ainda mais essa alegoria.

A alegoria vai mais além ao mostrar uma metáfora da gravidez não-consentida. Kane carrega dentro de si uma forma de vida alienígena, um corpo estranho e indesejado, como o são os embriões presentes nos úteros de muitas mulheres estupradas. O parto de um bebê rejeitado por ser fruto de uma violência é também representado no filme como uma violência, pois implica em sérias mudanças no corpo e na vida da parturiente. A morte de Kane representa essa mudança drástica.

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A Metamorfose

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ArquivoExibirFranz Kafka nasceu em Praga, em 1883, quando a cidade fazia parte do Império Austro-Húngaro (e posteriormente faria parte da Tchecoslováquia). Ele nasceu numa família judia e sua língua materna era o alemão. Sua carreira literária começou com a publicação de contos, mas ele ficaria mais conhecido por seus romances, especialmente O Processo, e suas novelas, com destaque absoluto para A Metamorfose (Die Verwandlung), escrita em 1912 ao longo de apenas 20 dias.

Kafka pretendia publicar A Metamorfose, junto com outros dois textos, numa coletânea chamada Filhos (Söhne). Posteriormente, tentou juntá-la com outras duas obras, chamando o conjunto de Punições ou Castigos (Strafen). “Filho” e “castigo” servem como pistas para se entender o tema central dessa obra, pois, como veremos adiante, trata-se de um personagem carregado de culpa e numa relação conflituosa com a família, especialmente o pai. Este conflito era marcante na própria vida de Kafka e inspiraria quase toda sua obra.

Sinopse

Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

Essa transformação de um jovem caixeiro viajante num inseto asqueroso implicará na metamorfose de sua família e da rotina da casa onde mora. Por não conseguir se virar para sair da cama, Gregor se atrasa para pegar o trem e ir ao trabalho, fazendo com que o gerente venha buscá-lo. No entanto, o estado de Gregor é repugnante demais para que ele volte a trabalhar. Sua irmã, muito dedicada, passa a arrumar o quarto de Gregor e a deixar comida para ele, mas o irmão fica confinado a seus aposentos e não interage mais com ninguém (nem sequer consegue falar mais).

O resultado dessa desgraça é que a mãe, o pai e até a adolescente irmã passam a trabalhar para sustentar a família, o que antes era obrigação apenas de Gregor. Nesse processo, o pai Samsa deixa de ser um inválido que mal podia andar e passa a ser um empregado exemplar. Gregor se torna um fardo moral para a família, e em determinado momento abdica de ser aceito pelos outros e aceita sua nova condição, comendo pão estragado (que é a única coisa que lhe apetece o paladar agora) e subindo pelas paredes de seu quarto.

Quando a mãe decide ajudar a irmã a retirar os móveis, agora inúteis, do quarto de Gregor, para que este fique mais à vontade, a sra. Samsa, que até então não havia visto a nova forma do filho, se depara com este na parede, escondendo uma moldura com a imagem de uma mulher, que ele havia recortado de uma revista, único objeto que ele não admitia ser retirado do recinto.

Essa situação desencadeia a chegada do pai ao quarto, que inicia um bombardeio de maçãs sobre o filho e acaba encravando uma fruta atrás da cabeça de Gregor. Este evento representa o clímax da tragédia de Gregor Samsa, fazendo-o retirar-se a um canto de seu quarto e eventualmente desistir da vida e morrer em paz consigo mesmo. Para a família, o fim de Gregor é um alívio e o começo de um próspero futuro, no qual a filha, irmã de Gregor, passará a ser o centro de tudo.

Moralidade familiar, Capitalismo e contradições modernas

A Metamorfose pode ser lida como uma alegoria de diversas angústias humanas recorrentes na vida de qualquer indivíduo. De modo geral, podemos entender a transformação de Gregor como a estigmatização da pessoa que foge das expectativas de seu entorno social. Quando alguém extrapola os limites morais aceitáveis para sua condição socialmente pré-determinada, ele se transforma num monstro e nunca mais será visto da mesma forma pelos outros ao se redor.

Entretanto, os detalhes da fábula de Kafka podem nos remeter mais fortemente a uma crítica das transformações sociais, culturais e econômicas da modernidade industrial. Nesse momento de transição, os valores familiares tradicionais ainda são muito fortes, mas esbarram com as exigências de uma economia implacável cujo objetivo é o enriquecimento dos empresários, às custas do sacrifício de corpos e mentes dos trabalhadores. Neste âmbito, a felicidade da família é atestada pelo sucesso econômico de seus membros.

A relação de Gregor com sua família se constitui numa espécie de parasitismo em que o filho provê tudo à família. Pai e mãe estão desempregados e sem perspectiva de voltar a trabalhar. A irmã adolescente, ainda em formação, se acomoda nessa situação e procrastina sua carreira pessoal. Os valores familiares tradicionais (“tudo à família”) obrigam Gregor a se manter trabalhando para sustentar seus parentes, e ele pouco reclama, reprimindo sua frustração.

Nesse capitalismo emergente, as exigências do mercado são prementes. Um trabalhador não pode se dar ao luxo de se distrair com futilidades que o desviem dos esforços para conseguir lucro, e Gregor comete esse erro ao alimentar, mesmo que apenas por uma noite, pensamentos libidinosos. Ele recorta a foto de uma mulher e a emoldura, tem sonhos intranquilos (talvez tenha dormido pouco por ter se masturbado e sofrido com pesadelos de culpa) e acorda mal, atrasando-se para o trabalho.

Como se já não bastasse a acusação de preguiçoso que viria de seus empregadores, Gregor sofre também o estigma de desnaturado, pois sua indolência representa um prejuízo para a família. As duas máculas promovem sua transformação num pária completo, um inseto monstruoso, proscrito tanto pela moralidade familiar tradicional (seus pensamentos libidinosos também são tidos como uma traição) quanto pela nova ética capitalista.

A superexigência das minorias

Extrapolando a interpretação mais direta apresentada acima, podemos entender a metamorfose de Gregor Samsa como uma metáfora da estigmatização das minorias que tentam se inserir em posições tradicionalmente ocupadas pelos grupos hegemônicos. Se Gregor fosse um negro numa sociedade branca pós-escravocrata, por exemplo, poderíamos imaginar o quanto ele é cobrado pela empresa e pela sociedade, além do tamanho esforço que ele precisa fazer para não incorrer na mínima falta em seu trabalho.

Se por um lado os seus colegas brancos se demoram tomando café da manhã na estação de trem e nem por isso recebem admoestações do contínuo ou do gerente da empresa, Gregor é instado a explicar seu atraso de 15 minutos (na única vez em que ele se atrasou), sob pena de ser acusado de todos os estigmas relacionados aos negros: vagabundo, preguiçoso, inepto, estúpido, depravado etc. Para a família e para a empresa, Gregor cometer um deslize é uma prova de todos os preconceitos atribuídos aos negros, e serve para evidenciar seu status social de “inseto”.

Gregor poderia também ser um homossexual, “praticante” de uma preferência sexual “desviada”, “não-natural”. São marcantes os momentos em que as testemunhas ressaltam a imoralidade da condição do protagonista, a “depravação”, a “vergonha”. Da mesma forma que os negros, os homossexuais numa sociedade homofóbica sofrem com as exigências da heteronormatividade e todas as suas falhas profissionais são atribuídas a sua “escolha” sexual.

Qualquer que seja o grupo minoritário a que pertença Gregor, qualquer que seja a etnia marginalizada, identidade sexual ou de gênero discriminada, sexualidade fora do padrão ou deficiência física menosprezada, ele é vítima de uma cultura que sacrifica seu corpo e sua alma, mumificando-o numa carapaça de quitina e confinando-o a um cubículo-túmulo que permita a sua família esconder, até certo ponto, o motivo de sua vergonha.

Trajetória de um fracassado

O caminho de Gregor através da narrativa de A Metamorfose o leva a um trágico fracasso. Sua condição de inseto é relativamente aceita por ele logo de início, resigna-se como se já estivesse esperando acontecer. Passando por todo o processo de demissão, desprezo pelas empregadas da casa e assunção pela família de que Gregor é um fardo, ele recebe a desaprovação dos três inquilinos que vêm morar na casa, símbolos da conciliação entre sucesso e família (infere-se que são irmãos), o que a família Samsa jamais conseguiria senão depois da morte de Gregor.

A queda de Gregor abala a estrutura de parasitismo na qual ele era sugado e este se torna o parasita. A irmã, a mãe e o pai até há pouco tempo inválido passam a trabalhar, e este último se torna uma figura imponente, o arquétipo do pai poderoso que toma para si as mulheres da casa, a esposa (mãe de Gregor) e a filha (irmã de Gregor), antes sujeitas ao filho. Num simbólico conflito edipiano, Gregor é enfrentado pelo pai, que reivindica o papel de provedor e a “posse” das duas mulheres. Diferente de Édipo e da maioria das histórias que seguem este esquema freudiano, Gregor fracassa diante do pai. A mãe, ao ver o filho ferido, se abraça ao vencedor vestida em trajes sumários.

Samsa remete a Sansão, o nazireu superpoderoso que se tornou um fracassado ao se deixar levar pelo amor de uma mulher. Assim como aconteceu com Gregor, os desejos pessoais de Sansão o levaram à desgraça. O herói hebreu se tornou um escravo dos filisteus, numa condição de total derrota. Mas tanto Gregor quanto Sansão se redimem em suas mortes. Enquanto este se mata junto com seus captores (derrubando as colunas do palácio em que estava e o fazendo ruir sobre todos), aquele renuncia a tudo para que a família se reconstrua feliz, unida como uma família tradicional e bem-sucedida nas modernas relações econômicas.

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Alienígenas e predadores

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Alien vs. Predator (2004) foi um dos filmes mais esperados pelos fãs do cinema de ficção científica. Depois de terem se encontrado nos quadrinhos, em dezenas de video games e terem sido motivação para muita fan-art e imaginação, os “aliens” (dos filmes Alien: O Oitavo Passageiro, 1979; Aliens: O Resgate, 1986; Alien 3, 1992 e Alien: A Ressurreição, 1997) e os “predadores” (O Predador, 1987; O Predador 2, 1990) finalmente se encontraram (e se enfrentaram) no cinema. E três anos depois a franquia mista seria renovada com Alien vs. Predador 2 (2007).

Mas o que pode explicar tanta expectativa em relação a esse encontro de monstros? Seria a simples resposta a uma especulação de fãs quanto ao que resultaria do encontro entre as duas fictícias espécies alienígenas? Mas o que, no fundo, motivaria essas especulações? Uma motivação política, esperando uma obra artística que retratasse de forma metafórica “a guerra entre o bem e o mal” (ou entre o Ocidente e o Oriente, ou entre o Primeiro Mundo e o Terceiro Mundo, ou entre Estados Unidos da América e o resto do mundo – afinal o filme foi lançado em plena “guerra ao terror” do governo de George “Warrior” Bush)?

Penso que não se trata de mero capricho hollywoodiano. Afinal, os crossovers vinham sendo feitos bem antes da “guerra ao terror” e continuaram fortes depois e até hoje em dia. Além disso, o filme vinha sendo prometido havia muitos anos (este que escreve foi um dos que o esperou ansiosamente), e tudo indica que a ideia do embate entre esses alienígenas tenha surgido entre os fãs de cinema e ficção científica; apareceram assim muitas sugestões em diversos video games (como o famoso arcade Alien vs. Predator, da Capcom, que me divertiu muito nos meus 14 anos de idade) e nos quadrinhos. Além disso, o público que ansiou por esse filme é restrito e específico demais, embora fiel. Tampouco a “motivação política” parece ter sido inspiração para a obra. Quando se trata de retratar conflitos políticos, guerras etc., Hollywood nos presenteia com Rambo (1982), Nova Iorque Sitiada (1998) e coisas semelhantes.

Ao assistir ao filme, veio-me à mente o livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário, de Gilbert Durand. Notei que era possível enquadrar os aliens como personagens no regime noturno da imagem, de acordo com a classificação de Durand, enquanto os predadores se encaixam melhor no regime diurno da imagem. (Não quero aqui entrar no mérito de avaliar o filme em seus aspectos cinematográficos e narrativos; considero-o um filme regular, que não atendeu as expectativas, mas a reflexão sobre aspectos imagéticos é bastante rica.)

O regime diurno da imagem, segundo Durand, é aquele da antítese que separa o dia da noite, o claro do escuro, a luz das trevas. Nesse regime, existe um maniqueísmo que coloca as noções de virtude e força em oposição às de vício e fraqueza. É o regime do conflito e da guerra, do humano domesticando ou caçando o animal, da individualidade do herói que empunha uma espada para destruir em nome da honra e da glória. É, assim, um conjunto de imagens que remete, em grande parte, à noção ocidental do masculino.

Por outro lado, o regime noturno da imagem é o da antífrase e da síntese, da conciliação entre luz e trevas, ligado à valorização do corpo e suas funções digestivas e reprodutivas (que são vistas com desprezo pelo regime diurno). É o regime da transmutação, no qual a morte é vista como parte do processo vital (enquanto para o regime diurno não se podem conciliar vida e morte). É ainda o regime da comunhão física, seja entre mãe e filho ou entre amantes. Forma um conjunto de imagens relacionado à ideia ocidental do feminino.

Uma das coisas que me chamam atenção nas duas franquias tratadas aqui é a escolha da designação de cada uma das espécies nos títulos de seus respectivos filmes. Ambas são alienígenas (alien em inglês), e ambas são predadoras. Mas os aliens são mais animalescos, mais próximos da natureza, numa palavra, são mais orgânicos. Em nossa cultura ocidental androcêntrica, normalmente a mulher (e o feminino) é representada como mais próxima da natureza e, assim, um ser estranho em relação ao homem (e o masculino), que seria mais próximo da cultura, do refinamento civilizatório. A mulher é tratada por nossas representações milenares como o segundo sexo, como um alienígena, uma criatura diferente do homem, sendo este visto como modelo de ser humano. O homem/macho, por sua vez, é o sexo guerreiro, suas motivações são vistas como as de um caçador em busca do sustento da família e também de um predador que luta por troféus (sejam riquezas ou mulheres).

A rainha bota os ovos; o ovo eclode e o "facehugger" se agarra ao rosto do hospedeiro; o parasita inoculado no hospedeiros emerge ("chestburster") como uma espécie de serpente e cresce até sua forma adulta e mortal

A rainha bota os ovos; o ovo eclode e o “facehugger” se agarra ao rosto do hospedeiro; o parasita inoculado no hospedeiro emerge (“chestburster”) como uma espécie de serpente e cresce até sua forma adulta e mortal

Os aliens, também chamados de xenomorfos, têm uma relação estreita com sua mãe-rainha, uma relação orgânica no sentido mais romântico que a semântica dessa palavra pode alcançar. São bem como abelhas ou formigas, o que pode nos autorizar pensar que são todos fêmeas, vivendo num mundo natural, biológico, como em nossa cultura se representa a mãe com os filhos, nos laços afetivos de um mundo feminino. Suas armas são seus próprios corpos, a cauda flexível e perfurante, o sangue ácido, a arcada bucal dupla e a hiper-resistente couraça. A relação que estabelecem com os protagonistas humanos é orgânica também, pois, além de os humanos lhes servirem de alimento, sua procriação depende de um organismo hospedeiro na primeira fase da vida, e os ovos dos quais eclodem as larvas aparecem provocando uma curiosidade sedutora. Essa sedução feminina se evidencia no constante desejo, presente em quase todos os filmes da franquia Alien, da empresa Weyland-Yutani em sacrificar vidas para capturar um espécime.

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Esquematização do ciclo de vida de um xenomorfo/alien

Já os predadores, cuja espécie também é conhecida como yautja, se caracterizam por ser mais individualistas, “livres” num certo sentido, sem um vínculo afetivo materno que lhes tolha a individualidade. Aparentam ser todos machos (possuem um físico masculino, segundo os padrões humanos), numa sociedade cooperativa-competitiva, em que lutam lado a lado mas parecem ter objetivos pessoais (que no entanto e de maneira geral coincidem). Agem como heróis em busca de troféus de suas caçadas, e viajam pelos planetas em busca de satisfação para seu esporte. Suas armas são artificiais, lanças e garras retráteis, discos cortantes que voltam como bumerangues, canhões de plasma em suas ombreiras, redes de aprisionamento, bombas (que podem usar para se matar, numa espécie de seppuku ritual, um gesto de honra masculina tipicamente conhecido entre guerreiros da Terra) e outras, além de uma armadura sem a qual podemos imaginar que seriam bem vulneráveis.

Por um lado, os aliens se mostram como realmente são, agindo instintivamente. Mas os predadores são seres com cultura, cheios de artifícios, e o uso da máscara é simbólico de seu esforço para domar o monstro que têm em si mesmos (como os humanos fazem com a ética e as regras sociais) e cujo rosto ele mostra apenas em situações extremas. Também é interessante notar que a antagonista/alter-ego do alien é exclusivamente uma mulher, especialmente a figura de Ellen Ripley, enquanto o predador sempre tem como nêmesis um homem.

A alien rainha contra sua nêmesis (a fêmea-alfa) e o predador perante seu rival (o macho-alfa)

A alien rainha contra sua nêmesis (a fêmea-alfa) e o predador perante seu rival (o macho-alfa)

Esse contraste, aparente quando observamos os filmes de cada uma das franquias, se evidencia ainda mais em Alien vs. Predador, onde as duas espécies se enfrentam. Nas lutas, os xenomorfos usam exclusivamente seus corpos para atacar e se defender, ou seja, suas garras, presas, caudas em forma de lanças, sangue ácido e couraça ultrarresistente. Por outro lado, os yautja só se valem de sua tecnologia, sem a qual seriam indefesos: suas armas e armaduras e seus sensores. Além disso, xenomorfos são seres mais instintivos do que racionais, enquanto os predadores usam uma inteligência estratégica.

O embate se caracteriza como uma caçada esportiva, em que os predadores buscam satisfazer o desejo de subjugar a natureza, o que remete ao desejo masculino de subjugar e domesticar o feminino, representado em nossa cultura misógina como perigoso, ardiloso, emotivo e irracional. As aliens se defendem como animais, como uma força da natureza, sem rosto (literalmente) e sem identidade. Sua motivação é apenas a sobrevivência enquanto espécie.

Também é interessante observar a belíssima imagem da rainha alien coberta por suas crias, como um gigantesco escorpião-fêmea carregando seus filhotes. É uma imagem plenamente feminina de comunhão carnal, em que não há diferenciação entre os membros do grupo, como se fossem um só organismo e uma só inteligência coletiva. Mas a primeira imagem em que aparecem os três predadores, por outro lado, é emblemática, neste caso, de seu caráter masculino e guerreiro, pois eles aparecem caminhando lado a lado, cada um com sua individualidade e personalidade, evidenciada em armaduras únicas e armas de preferência.

Predadores do filme Predador 2

Predadores do filme Predador 2

Vale lembrar o momento em que a única humana (uma mulher) sobrevivente do conflito se junta ao último predador para enfrentar a rainha. O caçador confecciona para a mulher uma lança e um escudo improvisados, utilizando respectivamente a cauda e a cabeça de um alien, como que misturando os aspectos masculino (do estilo de lutar dos predadores) e feminino (os corpos dos aliens). É como se o predador considerasse mais adequado que uma mulher usasse armas mais ligadas ao feminino, ao alien animalesco. Se não, por que não disponibilizou para ela as armas de seus companheiros mortos?

Resumindo, parece que esse embate entre aliens e predadores simboliza uma querela que perdura entre seres humanos há milênios, e que sempre foi motivo para elaboradas teorias sexistas e piadas preconceituosas sobre mulheres e homens, que parecem não perder a validade entre aqueles (muitos)  que pensam que está na natureza a origem das diferenças de comportamentos entre os machos e as fêmeas humanas, e daí também as desigualdades entre eles. Metaforicamente, a luta entre essas duas espécies alienígenas também pode ser extrapolada para uma alegoria dos esforços humanos (os predadores) para domar a natureza (os aliens), seja esta considerada literalmente ou como metáfora dos instintos que a cultura precisa domesticar para existir.


Uma versão menos elaborada deste texto foi publicada originalmente na Teia Neuronial Beta, em 25 de março de 2005.

Xógum: A Gloriosa Saga do Japão

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Xógum: A Gloriosa Saga do Japão (Shōgun), escrito em 1975 pelo autor inglês James Clavell, é uma semificção que conta a história do daimio Toranaga em sua escalada ao xogunato, na transição entre os séculos XVI e XVII. Este personagem é na verdade uma ficcionalização de uma figura história do Japão, Tokugawa Ieyasu. Ao mesmo tempo, a história acompanha a trajetória do navegador  Blackthorne (uma referência ao explorador inglês William Adams) em sua viagem às terras nipônicas.

Sinopse

John Blackthorne, piloto de uma embarcação chamada Erasmus, desembarca (depois de quase naufragar) numa vila costeira ao sul do Japão. Junto com uma tripulação de holandeses, ele é feito cativo pelo líder da aldeia e tem o navio confiscado, com tudo o que há dentro dele. O senhor daquela província, Kasigi Yabu, pretende utilizar o navio e as armas de fogo dos navegantes numa guerra para dominar o Japão e se tornar xógum, ou seja, um regente secular subjugado apenas ao imperador (este, considerado descendente dos deuses, tem apenas poder simbólico).

Blackthorne é usado por Yabu para ajudá-lo a utilizar os instrumentos de guerra ocidentais que agora tem à disposição, mas seus planos são frustrados pela intervenção de seu suserano, o daimio (espécie de senhor feudal no Japão medieval) Yoshi Toranaga, que toma para si a embarcação e todo o armamento dos holandeses, assumindo ele mesmo os planos de guerrear contra o Conselho de Regentes, com o fim de se tornar xógum e garantir a segurança do herdeiro do trono, que ainda é uma criança.

Na trajetória dessa trama repleta de intrigas, traições e manipulações, Blackthorne acaba se tornando conselheiro de guerra de Toranaga, adquirindo o título de hatamoto (e, por definição, também samurai). O inglês aproveita essa chance para ganhar os favores do daimio e conseguir uma tripulação japonesa para atacar o Navio Negro português daquele ano (uma espécie de navio comercial de carga), frustrar os planos mercantis dos lusitanos e espanhóis e ao mesmo tempo diminuir a influência dos ibéricos sobre o comércio japonês. Este é apenas um detalhe de um tenso conflito entre, por um lado, ingleses e holandeses (protestantes) e, por outro, portugueses e espanhóis (católicos), que permeia a narrativa.

Mas nesse caminho Blackthorne se apaixona por sua intérprete, a samurai Toda Mariko, que fala idiomas ocidentais e é uma convertida ao Catolicismo. A relação entre os dois se intensifica com as lições de língua japonesa e sobre a cultura japonesa, e Blackthorne cada vez mais se acultura, acostumando-se com banhos frequentes, quimonos, chás e a comida frugal dos nativos. Ele e Mariko acabam tendo um envolvimento romântico intenso, e é a partir dessa relação íntima que várias reviravoltas ocorrerão na trama, tanto para Toranaga e seus vassalos quanto para o navegador inglês.

Aspectos literários

William Adams, fonte de inspiração para John Blackthorne

William Adams, fonte de inspiração para John Blackthorne

Este romance possui uma narrativa envolvente. Um dos motivos para isso é a complexidade com que Clavell constrói seus personagens. Ele é genial quando se trata de apresentar cada uma das figuras que compõem o palco dessa história, e é sempre possível antever como aquele personagem vai se encaixar e se comportar na história. Um exemplo é a apresentação de Toranaga. Em sua primeira aparição, ele está cuidando de um machucado na pata de um de seus falcões de caça, com extremo zelo e atenção, enquanto seu falcoeiro, em cuja mão enluvada repousa a ave, a segura. Com o tempo, descobrimos que o papel de Toranaga na trama é de um exímio falcoeiro de pessoas, manipulando cada uma das peças do seu lado do tabuleiro de xadrez.

Isso torna os personagens extremamente coerentes e verossímeis. Além disso, o narrador sempre apresenta ao mesmo tempo seus comportamentos e seus pensamentos, bem como a atitude mental de cada um deles ao escrutinar seus interlocutores. Esse escrutínio mútuo e constante caracteriza o denso clima de intriga da obra, em que muitas vezes, mesmo tendo uma relativa onisciência sobre a intimidade dos personagens, ocorrem reviravoltas, decisões inesperadas e resultados surpreendentes.

Essa facilidade de sabermos o que um personagem pensa se contradiz com a dificuldade de sabermos suas reais intenções, mas há um aspecto da cultura japonesa explorado na obra que explica porque isso ocorre. Aquilo que Mariko chama de “cerca óctupla” é uma disciplina mental, baseada nos ensinamentos budistas, pela qual a pessoa separa seus pensamentos e memórias em compartimentos mentais. As diferentes situações exigem que o indivíduo acesse compartimentos específicos, o que leva, por exemplo, Toranaga a quase acreditar na sua autorrendição forjada, que é na verdade um engodo para executar um plano de ataque e um golpe de estado.

Uma das qualidades mais reconhecidas de Xógum é o nível de detalhamento com que Clavell descreve a cultura material japonesa, bem como os costumes, hábitos e valores da hierarquizada sociedade nipônica medieval. Ele se aprofunda de tal maneira nessa espécie de etnografia literária que consegue brincar com possíveis choques culturais, mal-entendidos e ruídos de comunicação advindos das diferenças entre, por um lado, o inglês e seus tripulantes holandeses e, por outro, os japoneses. No meio de toda essa intriga, também têm papel de relativo destaque os portugueses e espanhóis católicos, cujos interesses são contrários aos dos representantes das nações protestantes.

Uma obra relativista

É justamente nesse encontro de culturas que vemos aquilo que considero o aspecto mais interessante da obra de Clavell: sua capacidade de tratar com relativismo as diferenças culturais dos personagens e povos que encenam as páginas do livro. A noção de barbarismo x civilização, por exemplo, não tem sentido absoluto em Xógum. Ocidentais consideram os japoneses fedorentos assim como estes não suportam o cheiro daqueles. De um ponto de vista ocidental contemporâneo higienista, isso parece estranho, já que os europeus da época em que se passa a história não costumam tomar banho, enquanto os japoneses são extremamente asseados, banhando-se constantemente.

Criam-se situações de constrangimento utilizando as diferenças alimentícias, como o fato de o inglês gostar de carne vermelha preparada com fogo enquanto os japonese praticamente só comem peixe cru. Chega-se ao limite quando um cozinheiro, designado para servir Blackthorne, considera inviável suportar ver uma carcaça de ave apodrecendo, que o inglês esquecera pendurada para cozinhar depois, e não consegue evitar sentir vergonha por ter jogado a carcaça fora e falhar com seu senhor, o que o leva a se suicidar.

Mas talvez não tenha havido constrangimento maior do que o sentido por Blackthorne quando Mariko pediu que ele lhe contasse sobre os hábitos de “travesseiro” dos ocidentais. Para ela e para outras duas mulheres que estavam presentes, não havia nenhum pudor em falar publicamente sobre sexo, mas o puritanismo dele o fez se sentir desconfortável. Sem entender a razão dessa timidez, Mariko disse a ele que, se ele quisesse “travesseirar”, poderia arranjar uma mulher disposta. Diante da recusa, ela o deixa ainda mais transtornado, fazendo-o se enfurecer, ao perguntar se ele preferiria um garoto. E então é ela quem se enraivece (embora sua disciplina lhe permita não demonstrar isso) diante da forma rude com que ele responde.

Mas eventualmente o inglês e sua intérprete têm um caso amoroso, no qual cada um ensina e aprende muito sobre o outro e sobre sua cultura. Mariko aprende a noção de amor romântico (o que não pode ser visto aqui como uma típica história eurocêntrica colonialista em que o ocidental “ensina” a nativa que a relação conjugal não precisa se dar através de um casamento arranjado), mas continua valorizando a importância do casamento como acordo entre famílias, como meio de se estabelecer alianças. Mas, se ela não deixa de se sentir feliz por compartilhar sua paixão com o inglês, de um modo como nunca havia sentido por outro homem, ele também aprende uma lição valiosa com ela, o desapego quanto à vida, permitindo-o aceitar a morte dela como necessária para o bem de todos.

O tema da intimidade revela também muito das diferenças entre as duas culturas sobre as relações entre homens e mulheres. Para Blackthorne, a princípio, parecia que as japonesas tinham sua liberdade extremamente  restringida. Mas Mariko entendia o contrário, que elas tinham tanta liberdade quanto os homens, embora cada gênero tivesse deveres diferentes. O fato é que tanto as situações que Blackthorne presencia ali quanto as lembranças sobre sua própria esposa na Inglaterra revelam as desigualdades sexistas em ambas as sociedades.

Gravura ukiyo-e de um guerreiro prestes a cometer seppuku

Gravura ukiyo-e de um guerreiro prestes a cometer seppuku

Particularmente incompreensível ao piloto inglês é a noção de honra que perpassa todas as castas da sociedade nipônica. Para ele é difícil entender a importância que os japoneses dão à ordem hierárquica e ao conjunto social. Qualquer ameaça a essa ordem, mesmo que seja uma pequena insubordinação, deve ser severamente punida, às vezes com a morte, para que o grupo não se  desagregue. E daí advém uma postura profundamente resignada diante da morte, que os japoneses encaram com uma tranquilidade trágica. Se em determinado momento Blackthorne fazia de tudo para evitar a morte, sua, de seus companheiros e de sua amada, em sua transformação em samurai ele passa a aceitar tudo como contingência do carma.

As crenças de todos também são relativizadas, não colocando o autor nenhum dos credos em posição privilegiada em relação aos outros. Se em um momento o Protestantismo, encarnado na figura de Blackthorne, parece se sobrepor ao Catolicismo dos inimigos do piloto inglês, em outro vemos a bela cena de uma missa católica ao ar livre, ministrada por um padre a apenas uma mulher. O xintoísmo e o budismo japoneses também aparecem como formas significativas de interpretar, ver e viver o mundo. A noção de carma, extremamente valorizada pelos japoneses, é absorvida por Blackthorne em sua transformação em nativo, e a expressão “Carma, né?”, repetida exaustivamente por ele, imitando seus anfitriões, quase substitui completamente qualquer menção à vontade do deus cristão do qual é devoto.

O sagrado, na forma como é encarado por cada um dos personagens, é respeitado por Clavell em sua importância subjetiva e transcendente em relação ao mundo profano das maquinações e politicagens. Enquanto toda a trama é permeada por interesses políticos, econômicos e carnais, que atingem todos os personagens sem exceção, a última esperança de harmonia (ua) é depositada no carma budista, na vontade dos deuses xintoístas ou na providência do Deus cristão.

Seja quanto à higiene, aos hábitos alimentares, à sexualidade, à religião, aos valores ou a qualquer outro aspecto cultural, todas as culturas no romance são tratados friamente por Clavell, que deixa os julgamentos etnocêntricos apenas nos pensamentos e bocas dos personagens, o que revela mais ainda de suas respectivas culturas. Cada cultura tem significado completo para seus respectivos membros, e podemos entender os motivos de cada um se comportar segundo a moral de seu próprio povo, sem necessariamente concordar com ela.

No entanto, talvez um dos maiores méritos de Clavell dentro de sua postura relativista seja a quebra de paradigma quanto ao papel do europeu estrangeiro em terras extraeuropeias. Diferente da figura colonizadora que se intromete em assuntos “indígenas” para tutelar os nativos e ajudá-los em suas lutas (nem uma aventura interplanetária como Avatar escapou desse esquema), Blackthorne é quem é usado pelo chefe nativo Toranaga para executar seus planos, e no final a história, “a gloriosa saga do Japão”, inicialmente centrada no navegador europeu, é realizada pelos japoneses e para os japoneses.

Links

  • Xógum (livro) – Wikipédia

Nota pós-texto

Existe uma minissérie homônima de 1980, baseada no livro, Confiram o trailer.

Sandman e as transgressões de Neil Gaiman

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Encadernado do primeiro arco, "Prelúdios e Noturnos", publicado pela Editora Conrad

Encadernado do primeiro arco, “Prelúdios e Noturnos”, publicado pela Editora Conrad

A série de quadrinhos Sandman, publicada entre 1989 e 1996, pelo selo Vertigo da DC Comics (e continuada posteriormente em vários spin-offs), conta a história de uma entidade que personifica o sono e o sonho (e assim ele é conhecido como Sonho, mas também por diversos outros nomes, como Morfeu, Devaneio, Rei do Sonhar e por qualquer outra denominação que as diversas línguas da Terra e do universo tiverem escolhido para designar esse fenômeno supostamente universal). É contada sua desgraça depois de ser capturado por um mago, a reconstrução de seu reino, uma milenar busca existencialista, os conflitos com deuses, lendas, entidades menores, mortais, e especialmente seus 6 irmãos, os Perpétuos.

Esse épico escrito pelo escritor inglês Neil Gaiman é uma grandiosa narrativa recheada de inusitadas digressões e contos menores que enriquecem o universo de Sandman, colocando em cena personalidades históricas como Shakespeare, deuses de diversas mitologias (judaico-cristã, grega, nórdica, egípcia – e até marciana), personagens do universo DC como Constantine, além de muitos outros seres, humanos, não-humanos, animais e entidades de várias dimensões, cada um com seus sonhos e pesadelos (não importa se reais ou irreais).

Mas um elemento que chama muita atenção do leitor perscrutador é o caráter transgressor de situações e personagens ao longo de toda a série, a começar pela supracitada mistura de mitologias.

Um panteão estendido

Gaiman desenvolveu em suas histórias um mashup mitológico, um pout-pourri teológico em que deuses, demônios, heróis e lendas de diversas mitologias do mundo se encontram, dialogam e entram em conflito. Um dos principais eventos da trajetória de Sonho é quando Lúcifer (da mitologia judaico-cristã) resolve entregar a ele a chave do Inferno. Sonho então preside uma grande e longa reunião com os representantes de todos os panteões da Terra, para decidir quem ficará responsável pelo grande salão das almas condenadas.

Nesse e em outros episódios, vemos uma perspectiva relativista por parte do autor, considerando que diferentes povos e culturas representam o universo de forma diferente, e deixando implícita a possível ideia de que as entidades sobrenaturais só existem por que os humanos as conceberam. Nesse sentido, contra a visão cristã de que todas as outras religiões são falsas, Gaiman apresenta a ideia de que as outras crenças são tão verdadeiras quanto o Cristianismo.

O relativismo das visões de mundo também é bem representado em situações em que Sandman e os outros Perpétuos são vistos por pessoas de culturas ou espécies diferentes. Nesses casos, eles possuem aparência e nomes diversos, como é visto na história do casamento de Orfeu e Eurídice, em que os Perpétuos têm nomes gregos e se vestem à moda helênica. E quando uma gata está sonhando com um mundo em que os felinos brincam com humanos como se estes fossem ratos, ela encontra Sonho na forma de um grande e sombrio gato preto.

Embora com certeza não tenha sido o primeiro a colocar diversas crenças e mitologias lado a lado, Gaiman radicalizou esse conceito, indo além do maniqueísmo, valorizando, indiretamente, a criatividade humana em todas as suas manifestações ao redor do mundo, reconhecendo que são todas dotadas de um significado complexo e um sentido profundo.

Chapeuzinho Vermelho, Lobo Mau, Branca-de-Neve, Pinóquio e outros numa capa da série Fábulas

Chapeuzinho Vermelho, Lobo Mau, Branca-de-Neve, Pinóquio e outros numa capa da série Fábulas, de Bill Willingham

Provavelmente influenciou diversos autores depois dele, o mais notável dos quais talvez seja Bill Williangham, escritor da série de quadrinhos Fábulas, em que os personagens dos folclores e contos de fadas de todo o mundo interagem entre si. Não por acaso Willingham é considerado herdeiro de Gaiman, não só nos temas como no caráter semiépico de suas histórias.

Gênero e sexualidade

A diversidade sexual é tratada por Gaiman com relativa naturalidade. Há personagens de destaque ao longo da narrativa que são homossexuais, e isso não aparece problematizado desnecessariamente, os casais gays e lésbicos, os travestis e os andróginos  simplesmente estão lá, com personalidades complexas e humanas, sem precisar prestar contas ao leitor quanto a suas preferências afetivo-sexuais nem qualquer adequação a identidades de gênero preconcebidas. Isso é o que se pode chamar de conteúdo adulto, não por se tratar de tema tabu, mas por este ser apresentado de maneira madura.

Também há personagens entre os irmãos de Sonho que transgridem a ordem do sex0-gênero, especialmente Desejo e Desespero. Quase todos os Perpétuos possuem um gênero. Destino, Sonho e Destruição são “homens”, Morte, Desespero e Delírio são “mulheres”. Mas Desejo não tem uma identidade de gênero definida, normalmente se apresentando como hermafrodita. Porém, a depender do episódio, Desejo pode se apresentar (ou ser identificado) como homem (chegando até a engravidar uma mulher mortal), outras vezes como mulher. Um personagem de destaque sem gênero definido é no mínimo desconcertante, tendo em vista a tendência nos quadrinhos em geral de apresentar os personagens com seu sexo/gênero bem definido, principalmente nas formas dos corpos, com mulheres extrema e idealmente curvilíneas e homens exageradamente musculosos.

Essa tendência a apresentar mulheres importantes com corpos de beleza idealizada é subvertida por Gaiman em suas personagens femininas. Morte, por exemplo, tem a aparência de uma mulher jovem um tanto diferente das super-heroínas peitudas. Ela aparece como uma mulher sensual, mas quase sem seios. Delírio tem o aspecto de uma adolescente desgrenhada, esfarrapada e aparentemente desarticulada. Porém, muito mais do que Morte e Delírio, é Desespero quem representa o ápice dessa subversão, e penso que ela mereceria ter recebido mais atenção de Gaiman nas histórias do universo de Sandman, pois é muito complexa e extremamente cativante. Desespero sempre aparece como uma mulher baixinha, obesa e “feia”, com presas de javali e ostentando cicatrizes pelo corpo nu. Como os Perpétuos são seres atemporais e transcendentes, esses aspectos estéticos não têm a menor importância para eles, o que acaba contagiando o leitor.

A partir da extrema esquerda, em sentido anti-horário, as mulheres Morte, Desespero e Delírio, @ andrógin@ Desejo e os homens Destruição, Sonho e Destino

A partir da extrema esquerda, em sentido anti-horário, as mulheres Morte, Desespero e Delírio, @ andrógin@ Desejo e os homens Destruição, Sonho e Destino

Paradoxos, nonsense e surrealismo

Sandman é uma história sobre coisas descomunais, ao mesmo tempo em que foca em coisas pequenas. Enquanto descreve a existência de seres onipotentes e a ampla repercussão de seus atos, também coloca em destaque a vida de seres comuns e como pequenas ações ou pensamentos podem reverberar Universo afora. Essas coisas todas, grandiosas e ínfimas, se encaixam de uma forma às vezes inusitada, com muitas pontas que dão nó inesperadamente na trama (e às vezes dando nó em nossas tramas neuroniais). Especialmente em seu caráter paradoxal, numa visão repleta de quebra-cabeças que subvertem a forma como costumamos encarar a realidade.

A perplexidade pode ser experimentada no fato de que os Perpétuos, ou seja, Sandman e seus irmãos, são onipresentes e ao mesmo tempo se apresentam em formas visíveis e interativas. Quando Sonho assume a forma de um homem vestido em roupas elizabetanas e conversa com Shakespeare, ele está ao mesmo tempo presidindo todos os sonhos de todos os seres do Universo. Sua irmã Morte acompanha cada criatura existente em seu momento de despedida da vida, e se encontra em milhões de lugares ao mesmo tempo. E assim com cada um dos outros. Gaiman nos convida a imaginar como seria ter uma individualidade e ao mesmo tempo estar imerso e atuante no Cosmos.

Os Perpétuos também são entendidos como eternos e imortais, existindo atemporalmente, mas também há referências a um momento em que eles começaram a existir. No entanto, existe um tipo de evento ainda mais paradoxal e, digamos, até nonsense. Os Perpétuos, enquanto personalidades (além de serem aspectos da realidade), podem deixar de existir e ser substituídos por outra consciência, como acontece com Sonho. Essa consciência assume totalmente o papel do Perpétuo expirado, inclusive com suas memórias. Porém, embora passe a existir naquele momento com outra personalidade, considera-se que ele sempre foi um Perpétuo e compartilha toda a história do Universo com seus irmãos.

Há um personagem importante em um dos arcos da saga chamado Fiddler’s Green, que em sua essência não é uma pessoa ou uma entidade pessoal, mas um lugar (Fiddler’s Green é o nome de um local mítico para o qual os marinheiros vão depois da morte, uma espécie de paraíso para navegantes e piratas). Esse também representa um aspecto surreal das  histórias de Sandman. Há várias “pessoas” que aparecem interagindo umas com as outras que são não apenas personificações de aspectos da realidade (como os próprios Perpétuos), mas são coisas do universo, como estrelas e planetas. Isso pode ser bem visto na história Sonho: O Coração de uma Estrela, encontrada no livro Noites sem Fim, em que várias entidades do universo se encontram numa reunião.

Outro elemento bem maduro e relativamente transgressor da abordagem de Gaiman é seu afastamento do maniqueísmo típico das histórias de Fantasia. Os próprios Perpétuos são exemplo disso, ao se mostrarem representantes não só daquilo que seus nomes revelam, mas do elemento oposto. É Destruição quem o afirma em determinado momento: Sonho também se define em complemento à Realidade, Morte à Vida, Destino à Liberdade, Delírio à Sanidade, Desespero à Esperança, Destruição à Criatividade e Desejo ao Ascetismo. Nenhum dos elementos dessas díades é entendido como mau ou bom, e todos os outros personagens da narrativa também são mais complexos do que numa visão em preto e branco.

  • [A imagem em destaque é uma ilustração de John Watkiss para Estação das Brumas, um dos episódios mais icônicos da saga de Sandman.]

O tamanho de um homem

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Uma pesquisa recente realizada por cientistas australianos procurou responder a uma pergunta que atormenta a cabeça de muitos homens mundo ocidental afora: “o tamanho do pênis  influencia na atração feminina pelos homens?” Em outras palavras: “quanto maior melhor?”

A pesquisa foi realizada da seguinte forma. Foram criados modelos tridimensionais virtuais de homens nus, cinzentos e sem pêlos, que variavam entre si em três aspectos: altura, proporção entre ombros e cintura, e tamanho do pênis. Foram mostrados 3 modelos aleatórios para cada uma das 105 mulheres heterossexuais australianas escolhidas como sujeitos da pesquisa, que apontaram qual deles consideravam o mais atraente. O resultado foi que as mulheres preferiram homens (ou melhor, modelos) altos, com corpos mais “masculinos” (ombros mais largos do que a cintura) e com pênis grandes, mas com a ressalva de que os fatores preponderantes foram os dois primeiros e que mesmo os extremos supostamente mais desejáveis foram preteridos (altura e tamanho do pênis extremos). Abaixo, um vídeo-resumo feito pelos pesquisadores.

É interessante notar duas chamadas diferentes, de dois sites diversos, para a mesma notícia. O io9 disse “Últimas pesquisas mostram que o tamanho realmente importa para as mulheres”, enquanto a Nature notificou “O maior nem sempre é o melhor quanto ao tamanho do pênis”. Ou seja, o mesmo resultado suscitou ênfases díspares. Isso revela o peso psicológico da questão e o viés que perpassa a premissa da pesquisa, a metodologia, suas conclusões e as interpretações sobre estas.

Para quem importa o tamanho?

Escultura no Museu Chinês do Sexo

Escultura no Museu Chinês do Sexo

O próprio mote da pesquisa pode ter sido enviesado por uma visão falocêntrica e androcêntrica. Os pesquisadores, antes de se perguntar se o tamanho do pênis é importante para a atração de uma mulher, deveriam se questionar por que essa pergunta é importante. É notória em nossa sociedade a ideia de que homens heterossexuais colocam a aparência física da mulher em primeiro lugar entre os critérios de avaliação da atratividade. E sabe-se que a maioria das mulheres declara que a aparência de um homem é secundária na escolha de um parceiro.

Dessa forma, antes  de se fixar nos dados estatísticos de uma pesquisa baseada em simulações artificiais, é importante antes se perguntar: a ideia de que o corpo de um homem pode determinar a atração sentida por uma mulher heterossexual não seria a aplicação do olhar masculino heterossexual que pensa nos atributos físicos da mulher como o primeiro traço a ser considerado?

(É claro que o estereótipo do homem para quem basta a mulher ser “bonita” para ele ser feliz (independentemente da personalidade dela) pode ser desconstruído na observação das inter-relações reais. A valorização de mulheres consideradas fisicamente bonitas como objeto de escolha do desejo masculino pode estar mais relacionada à ânsia pelo reconhecimento dos pares do que aos próprios anseios do indivíduo quanto à sua “mulher ideal”.)

Também é notório a ideia geral de que o tamanho do pênis é mais importante para os homens do que para as mulheres. Para eles, a autoestima pode ser fortemente influenciada negativa (pênis relativamente menor) ou positivamente (pênis relativamente maior).

Traços físicos

No centro, o modelo intermediário, ao lado dos dois modelos extremos

Ao considerar o quesito proporção do corpo, traduzida especificamente como a razão entre largura dos ombros e a da cintura, ignoram-se outras possibilidades que poderiam ser significativas, como a proporção do comprimento dos braços e/ou das pernas, tamanho e/ou formato da cabeça etc.

(A propósito, a cabeça de todos os bonecos virtuais é a mesma, tem o mesmo tamanho e o mesmo formato, e não foi levada e consideração a possibilidade de um tipo de cabeça combinar mais com um certo tipo de corpo (em termos de uma certa harmonia), ocasionando ou não uma mudança no nível de atração.)

Também vale a pena refletir sobre o fato de todos os modelos apresentados terem uma compleição próxima ao que se considera, no Ocidente, um corpo saudável. Não há modelos magros nem gordos, e uma variação no “peso” poderia ajudar a compreender se há outras combinações de variáveis que seriam mais ou menos atrativas para as mulheres.

Outro aspecto não considerado foi a presença ou quantidade de pêlos no corpo. Os bonecos não possuíam cabelos nem pêlos, e seria interessante saber se a quantidade de pêlos pubianos, por exemplo, teria algum efeito na atração, bem como o corte e o tipo de cabelos, a presença ou ausência de barba etc.

Quanto ao pênis em si, desconsideram-se ainda outras características que não apenas o “tamanho” (não fica claro se se trata exatamente do comprimento), como a largura, o formato (mais cilíndrico ou mais cônico etc.), a altura em que se encontra na pélvis, o fato de estar mais ou menos retraído ou sua proporção em relação ao tamanho do escroto. O tamanho do genital masculino ereto, a propósito, pode não ser facilmente inferido se observado em estado “de repouso”.

Aspectos sociais

Spock e Uhura

O que atrai uma mulher? A inteligência? O uniforme? As orelhas?

Os pesquisadores se basearam em pressupostos de sua própria cultura para elaborar os homens virtuais. Consideraram apenas três aspectos na variação entre os modelos: altura, proporção do corpo e tamanho do pênis. A escolha dessas variáveis, especificamente, pode revelar o tipo de aspecto considerado mais relevante para a cultura dos pesquisadores e dos sujeitos da pesquisa.

As mulheres, ao responderem ao questionamento “Qual desses homens é o mais atraente?”, podem estar respondendo simplesmente aquilo que aprenderam a conscientemente considerar importante na avaliação da atratividade masculina. Declarações desse tipo, expostas a um pesquisador, podem diferir muito daquilo que se passa no íntimo de cada indivíduo.

Além disso, mesmo se considerando que as mulheres estejam sendo sinceras na escolha daquele modelo que consideram mais atraente, isso não leva necessariamente à necessária escolha de tal modelo como parceiro sexual. Não estão sendo considerados diversos fatores subjetivos, psicológicos e sociais que poderiam ser muito mais determinantes do que os traços físicos.

Colocaram-se os sujeitos (as mulheres) diante de imagens virtuais em condições não espontâneas, ou seja, em situação muito diferente de um encontro pessoal com uma pessoa real. Uma situação real deveria considerar vários outros elementos da identidade do objeto de atração, como sua personalidade, seu aparente grau de instrução, suas vestimentas, sua postura, sua linguagem corporal, sua expressão oral, sua classe social e tantas outras variáveis sociais que um modelo estático e sem vida não representa.

Como disse acima, a atração sentida por um modelo sem vida não quer dizer necessariamente que a mulher iria até as vias de fato, se no percurso da interação ela sentisse falta de alguma coisa e desistisse (se você, leitor, é um homem heterossexual, imagine a diferença entre olhar as imagens de bonecas sem vida e interagir socialmente com diferentes tipos de mulheres reais.).

Além disso, se o tamanho e as proporções de um homem ocidental vestido no dia-a-dia podem ser facilmente perscrutados por um olhar atento, normalmente não é tão fácil inferir o tamanho do falo, o que torna esse elemento quase absolutamente irrelevante nesse tipo de situação (a não ser que se considere um possível efeito indireto do tamanho do pênis sobre a personalidade e autoestima do homem em questão).

Mas uma das faltas mais significativas é a pouca abrangência do estudo, que deveria envolver, por um lado, mulheres de diferentes estratos sociais, diferentes idades, diferentes etnias e diferentes culturas e, por outro lado, modelos de tamanhos e proporções ainda mais diversos, abrangendo um escopo maior do que a média dos homens europeus. A perspectiva biologista dos pesquisadores pode fazê-los pressupor que esse tipo de pesquisa revelaria necessariamente algum ditame biológico não afetado por fatores sócio-culturais.

Uma perspectiva mais sociológica/antropológica poderia radicalizar e permitir ir ainda mais fundo na compreensão das dinâmicas das inter-relações afetivo-sexuais de homens e mulheres, incluindo, entre outras, a homoafetividade, que poderia esclarecer ainda mais a influência do sexo-gênero na avaliação pessoal dos critérios de atratividade.

Links

Imagens

  • Destaque: Pão Antropomórfico, de Salvador Dalí
  • Escultura no Museu do Sexo da China
  • Modelos usados na pesquisa
  • Cena da Série Clássica de Star Trek

Marco Feliciano não nos representa?

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(Aviso: este texto não é nenhum pouco uma defesa de Marco Feliciano.)

A eleição pelo PSC do pastor-deputado Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias tem causado grande repercussão por todos os extratos da sociedade brasileira. Raramente se viu algo assim na História recente do Brasil, uma manifestação tão grande nas redes sociais, na mídia e nas conversas, os brasileiros demonstrando seu repúdio a uma figura frontalmente contra os princípios que deveria defender no cargo que ocupa.

O meme mais difundido agora são fotos de internautas segurando um cartaz dizendo: “Marco Feliciano NÃO me representa”, frase geralmente precedida da identificação do fotografado (“Sou gay, sou negro, sou mulher…”). A sociedade está revelando abertamente que não quer um declarado homofóbico, racista, machista e simpatizante da teocracia representando seus direitos.

Mas a verdade é que Marco Feliciano não é um corpo totalmente estranho na sociedade brasileira, que se vê idealmente como inclusiva, multiétnica, antirracista, antissexista, anti-homofóbica etc. Embora estejamos testemunhando uma positiva manifestação contrária à ideologia discriminatória personificada em Feliciano, incluindo até muitos adeptos da religião do referido pastor, o fato é que a maioria de nós ainda não resolveu plenamente seus preconceitos de raça, sexo e gênero.

Nesse sentido, se por um lado Marco Feliciano é o contrário do que queremos para representar a luta pelos direitos humanos e pela igualdade das minorias, ele nos representa sim quanto aos preconceitos e valores que estão sendo tão combatidos por todos nós.

O problema não é ele ser homofóbico, racista e machista. Eu sou homofóbico, racista e machista, a maioria de nós é. O problema real é Feliciano se manifestar publicamente como defensor de uma tradição homofóbica, racista e machista. Ao dizer que a condição de miséria dos negros é resultado de uma maldição milenar, Feliciano deixa implícito que uma política a favor da população negra é dispensável, pois só quem poderia mudar isso é uma força divina. Ao se declarar contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e ser frontalmente contra o PL 122, ele entra em contradição com o ideal materializado na Comissão em questão. Ao atribuir publicamente as “mazelas” contemporâneas à emancipação das mulheres, parece querer reverter conquistas sociais que não deveriam mais ser questionadas.

Entretanto, na verdade Feliciano é a figura de um monstro que ainda existe entre nós e dentro de nós, um reflexo ampliado de algo que ainda não conseguimos extirpar de nossa sociedade nem de nossos âmagos. Mas, enquanto a sociedade em geral está se esforçando para destruir a homofobia, o racismo e o machismo, pessoas como Feliciano estão defendendo ideias homofóbicas, racistas e machistas, trabalhando para difundi-las e tentando evitar que os direitos humanos alcancem sua plenitude.

E não são poucas as pessoas que o apoiam, como revelou uma recente enquete do UOL. Marco Feliciano representa os interesses de uma grande parcela da população brasileira, preocupada em garantir a manutenção de valores conservadores e colocar as crenças bíblicas (próprias de apenas uma parte dos cidadãos brasileiros) acima dos preceitos democráticos constitucionais laicos.

Por esses motivos, faço coro com a sociedade manifestamente contrária à escolha de Feliciano para o papel político que está (ou não) exercendo. Ele é a pessoa errada para presidir a Comissão. Mas ele o é não porque seja preconceituoso, e sim porque é um defensor desses preconceitos. Precisamos de alguém que esteja lutando para superar esses preconceitos (mesmo que essa pessoa os tenha, mas, como eu disse acima, poucos de nós não os têm) e para ajudar a sociedade brasileira a se reeducar, a desconstruir o pior que temos em nós.

O problema é que Marco Feliciano nos representa em nossos valores atávicos e em nossa hipocrisia diária, na negação de nossa herança não-europeia, tanto em nossa biologia (vide a acusação de que Feliciano faz chapinha, não assumindo o crespor de seus cabelos, prática amplamente difundida) quanto principalmente em nossa cultura, nos hábitos alimentares, na língua e, com grande força, na religiosidade. Temos muito de africano em nós, mas boa parte dos cristãos não aceita a presença de terreiros de Candomblé e Umbanda no país.

É justamente porque Feliciano me representa naquilo que eu tenho de pior que eu não o quero na Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Isso não quer dizer que ele me represente em outro sentido mais relevante, pois diferente dele eu estou constantemente tentando vencer meus preconceitos e não sustentá-los. O presidente da Comissão deveria nos representar em nossos anseios democráticos para o futuro, que ainda estamos tentando construir.

Não estou de maneira alguma justificando Feliciano na Comissão. Mas não adianta somente retirá-lo de lá, é preciso também que a sociedade se modifique. E não quero dizer com isso tudo que é bom ter na presidência da Comissão uma pessoa homofóbica, machista e/ou racista. O que não podemos permitir é que esse cargo seja ocupado por um hipócrita estagnado na tradição medieval.