Afrofuturismo em cinco pequenos gestos

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Pode-se dizer que o Afrofuturismo é uma reinvenção do futuro das pessoas negras vivendo na cultura racista ocidental. Seja concebendo a presença dos descendentes de africanos nas narrativas fictícias futuristas, seja representando-os como pertencentes ao mundo da alta tecnologia (e não só de uma certa cultura pautada num passado “primitivo”), seja os negros se apropriando da Ficção Científica para contar histórias pertinentes a sua existência enquanto minoria, o Afrofuturismo se compõe de uma gama de manifestações que atualizam a cultura pop/nerd/geek/futurista segundo um ideal igualitário ainda difícil de ser concretizado, tanto na vida cotidiana quanto nas artes e na ficção.

Em artigo anterior, eu discorri sobre potenciais releituras afrofuturistas de temas recorrentes da Ficção Científica, baseando-me nas ideias de Ytasha Womack em seu livro Afrofuturism: The World of Black Sci Fi and Fantasy Culture, mostrando como os diversos temas e tropos do gênero podem ser reinterpretados como metáforas da tragédia dos afrodescendentes no Atlântico Negro. Mas essas releituras não resultam necessariamente em produtos afrofuturistas e podem não radicalizar suficientemente a proposta. Para que isso seja feito, penso, é preciso que as manifestações de reinvenção afrofuturista da cultura seja protagonizada por negros. Aliás, esse é necessariamente um pré-requisito para se considerar certas iniciativas como autenticamente afrofuturistas.

Isso foi feito por seus principais expoentes, como Sun Ra, na música, Octavia Butler, na literatura, e Spike Lee, no cinema. As grandes obras desses artistas são por si só instrumentos de inspiração. Mas há alguns pequenos gestos, iniciativas e atitudes que fizeram e fazem grande diferença e cujo significado é bastante contundente, não só por terem sido empreendidos por pessoas negras, mas porque ajudaram a mudar certos paradigmas ou, no mínimo, chamaram atenção para certas falhas na representatividade negra na mídia.

1. Nichelle Nichols: where no black woman has gone before

1966 testemunhou o advento de uma grande franquia de Ficção Científica na televisão estadounidense. Em Jornada nas Estrelas (Star Trek), Gene Roddenberry visualizou um futuro de alta tecnologia onde estava presente uma significativa diversidade humana. E entre os principais componentes da ponte de comando da nave estelar Enterprise estava Uhura, oficial de comunicações, uma mulher negra.

Embora a concepção da personagem em si não tenha sido feita pela própria Nichelle Nichols, atriz que a interpretou, há um detalhe interessante a respeito do seu nome. Uhura é derivado de uhuru, palavra suaíli que significa “liberdade”. De acordo com Nichols, o nome da personagem foi concebido por ela junto a Gene Roddenberry, que se basearam no nome de um romance popular na época (Uhuru, de Robert Ruark).

Isso é significativo porque representa a participação de uma atriz negra na construção de uma personagem que viria a ser um ícone muito significativo na cultura pop, além de trazer uma óbvia referência à luta contra a escravidão e à emancipação dos negros como um ideal a ser perseguido e plenamente realizado num futuro utópico.

Podemos perceber que a própria personalidade de Nichols influenciou Uhura, muito notadamente em sua caracterização como uma cantora e dançarina apaixonada que canta e dança por um ímpeto pessoal e não por demanda de uma plateia branca.

A mera presença Nichols/Uhura na tripulação principal de uma série de televisão popular foi tão influente que inspirou muitas crianças negras a seguir carreiras de difícil acesso à população racialmente discriminada. Mae Jemison é uma física e astronauta da NASA que se sentiu encorajada pela atriz/personagem a realizar seu sonho e foi a primeira mulher negra a viajar ao espaço (ela também viria a fazer uma ponta na série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração). Whoopi Goldberg relembra que em sua infância, ao ver Uhura pela primeira vez, correu para avisar sua família:

Acabei de ver uma mulher negra na televisão, e ela não é uma empregada!

Goldberg não apenas veio a ser uma renomada e versátil atriz como fez um papel semirrecorrente em Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, a misteriosa Guinan.

2. Martin Luther King aposta em Uhura

A história contada acima não estaria completa se deixássemos de mencionar o gesto de encorajamento que manteve Nichelle Nichols na franquia Star Trek. A atriz, por considerar seu papel na série como de pouca importância, havia decidido não renovar o contrato para a segunda temporada.

Nichols conta que um dos principais motivadores para que ela se mantivesse na série foi uma rápida conversa com ninguém menos do que Martin Luther King, grande ativista negro que, segundo ela, fez questão de lhe pedir pessoalmente que não abandonasse Star Trek, pois a presença dela na televisão representava um grande incentivo para jovens negras e negros dos EUA, em plena luta pelos direitos civis e contra o segregacionismo racial.

O gesto de Martin Luther King pode ser dividido em duas atitudes encorajadoras. Primeiro, ele se declarou fã de Star Trek e de Uhura, quebrando de forma contundente a ideia preconceituosa de que os negros não se interessam por Ficção Científica ou por ideias futuristas. Puro Afrofuturismo. Segundo, ele foi corresponsável por manter na televisão uma das grandes referências e influências da representatividade negra (e feminina) da cultura pop. Nichelle Nichols não apenas ficaria nas duas temporadas seguintes da série original, como participaria da Série Animada e de todos os seis filmes com a tripulação clássica.

3. Michael Jackson caminha na Lua

Michael Jackson pode ser considerado uma das grandes figuras do Afrofuturismo na música. Ele era um verdadeiro nerd, gostava de quadrinhos e video games. Parte de suas maiores composições musicais, performances coreográficas e videoclipes tem referências a temas da Ficção Científica, do Fantástico e do Terror.

Em 1983, no festival Motown 25: Yesterday, Today, Forever, Jackson executou em público pela primeira vez e de forma espetacular o passo de dança que ele batizou de moonwalk, “caminhada na Lua”. Veja no vídeo abaixo, em 3’37”.

Embora muitos pensem que o dançarino inventou o gesto, na verdade ele aprendeu de outro artista, e a bem da verdade, desde pelo menos 1932 esse passo já era realizado por dançarinos e cantores nos Estados Unidos. Mas o que há de interessante nisso em termos de Afrofuturismo, já que o passo não foi invenção de Michael Jackson?

O que importa neste gesto é o fato de ele ter sido reimaginado por Jackson como uma referência aos avanços científicos. O dançarino que executa o moonwalk parece estar livre da influência da gravidade terrestre, como se estivesse caminhando na Lua. Ou seja, o artista trouxe para a música e a dança negras um conceito futurista. Se faltava representatividade negra na Astronomia em termos de pessoas que já pisaram na Lua ou que já haviam no mínimo ido ao espaço, o cantor e dançarino negro Michael Jackson trouxe para a Terra uma forma de sonhar com a ida de pessoas negras ao satélite natural da Terra.

É interessante lembrar que a primeira pessoa negra a viajar ao espaço foi o cubano Arnaldo Tamayo Méndez, em 1980, na missão soviética Soyuz 38, três anos antes da apresentação de Michael Jackson. Em 1983, deu-se a primeira ida de uma pessoa afro-americana ao espaço, Guion Bluford. Desde então, houve algumas pessoas negras em missões espaciais, entre as quais a primeira mulher negra, Mae Jamison, citada acima, em 1992. Porém, até hoje não houve uma negra ou um negro na Lua.

4. Samuel L. Jackson: o negro é o último a morrer

Star Wars é uma das mais lucrativas e populares franquias de Fantasia Científica de todos os tempos. Mas desde seu início tem sido um tanto pobre em termos de representatividade da diversidade. No elenco original, Leia Organa (Carrie Fisher) cumpria seu papel como elemento do Princípio da Smurfette e Lando Calrissian (Billy Dee Williams) marcava presença num papel coadjuvante.

Mesmo a segunda trilogia continuou fraca em termos de presença de personagens negros, mas melhorou um pouquinho ao colocar Samuel L. Jackson no papel de Mace Windu, um dos mais poderosos mestres da Ordem Jedi e também um dos mais populares personagens dos novos filmes. Sua popularidade se deve em parte por causa de certas características ligadas ao ator que o interpreta. Jackson, sendo careca, costuma incorporar personagens com cabelos extravagantes, e Mace Windu foi uma exceção que chamou atenção do público. Além disso, o sabre-de-luz deste mestre jedi é o único que tem a cor roxa em todos os filmes da franquia (todos os outros jedi têm lâminas que variam entre azul, verde, vermelho e amarelo), e é uma marca da intervenção do próprio ator na concepção visual do personagem.

Como se não bastasse o versátil ator negro ter construído a figura de Mace Windu como um tipo afrofuturista durão e de grande força presencial, ele ainda contribuiu para transgredir um tropo muito comum no cinema, conhecido como “o cara negro morre primeiro“. Segundo este tropo, se há uma pessoa negra num grupo de personagens que vão morrer durante a trama, a probabilidade de ela ser a primeira a ser eliminada é altíssima, e muitas vezes de forma estúpida. O personagem aparece ali, talvez, no máximo para cumprir uma cota de diversidade e é logo descartado quando não se precisa mais dele.

Porém, Samuel L. Jackson solicitou pessoalmente a George Lucas que seu personagem, fadado a morrer no roteiro, não fosse eliminado “como um marginal qualquer” (“like some punk”). Assim, Mace Windu subverteu o tropo ao ser o último de seu grupo a morrer na luta contra o Senador Palpatine e ao fazê-lo de maneira heroica, tendo a vida do inimigo em suas mãos e só sucumbindo porque foi traído por Anakin Skywalker.

5. Janelle Monáe e os androides

Janelle Monáe é uma musicista, compositora, cantora e dançarina estadounidense que tem na versatilidade de estilos uma de suas marcas. Sua música é temática e envolve uma elaborada história de Ficção Científica com temas como viagens no tempo, distopia e inteligência artificial (androides). É considerada, na música contemporânea, como um expoente do Afrofuturismo, não só por misturar música negra com Ficção Científica, mas também por subverter, em suas performances musicais, videoclípicas e de palco, as identidades raciais estabelecidas e as tradicionais camisas-de-força do gênero. Eu a vejo como uma herdeira espiritual de Michael Jackson, uma figura excêntrica que constrói sua imagem pública como uma obra de arte viva e inspiradora.

Na mitologia narrativa criada por Monáe em sua música, a figura dos androides é uma constante, usada como metáfora da alteridade, das minorias oprimidas, dos grupos discriminados e objetificados, especialmente os povos escravizados, como os africanos e seus descendentes na América. E foi usando essa metáfora que a artista, num pequeno gesto afrofuturista, respondeu de maneira magnífica a uma pergunta da imprensa sobre sua sexualidade, sobre se ela é lésbica:

I only date androids. That’s great, they can claim me as well as the straight community, as well as androids. I speak about androids because I think the android represents the new ‘other’. You can compare it to being a lesbian or being a gay man or being a black woman … What I want is for people who feel oppressed or feel like the ‘other’ to connect with the music and to feel like, ‘She represents who I am’.

[Eu só me relaciono com androides. Isso é ótimo, elas [as lésbicas] podem se identificar comigo assim como a comunidade hétero, assim como os androides. Eu falo sobre androides porque penso que o androide representa o novo ‘outro’. Você pode enxergá-lo como representando uma lésbica ou um gay ou uma mulher negra… O que eu quero é que as pessoas que se sentem oprimidas ou se sentem como o ‘outro’ se conectem com a música e pensem: ‘Ela representa quem eu sou’.]

Dessa forma, Janelle Monáe explicita a metáfora do indivíduo coisificado, explorado, expropriado de sua autonomia, presente na figura dos androides, especialmente aqueles que, em histórias como as que ela conta, se rebelam contra a sujeição sob a qual vivem. Seja qual for a orientação sexual de Monáe, o fato é que a forma como ela se apresenta publicamente aciona os preconceitos da cultura em que vive, que assume que certa forma de se vestir e se comportar é supostamente típica de uma mulher homossexual. Neste sentido, identificar-se como androide é jogar para o público uma dúvida que representa a impossibilidade de se inferir, sem algum grau de preconceito, qualquer coisa a respeito da identidade individual de outra pessoa.

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Zumbi caminha entre nós

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No último Dia da Consciência Negra (20 de novembro de 2014 e. c.), fui chamado a participar de uma mesa redonda sobre políticas públicas voltadas à população quilombola, parte de um grande evento realizado na Comunidade Quilombola de Capoeiras, localizada no município de Macaíba, Rio Grande do Norte, vizinho a Natal.

Uma das falas, para mim a mais contundente, foi proferida por uma das mais atuantes lideranças quilombolas potiguares, Dona Neta, do Quilombo Sítio Grossos. Tendo em vista que o 20 de novembro é comemorado em homenagem à morte de Zumbi dos Palmares, a eloquente Dona Neta falou um pouco sobre a força simbólica dessa marcante figura histórica que liderou o maior quilombo já existente no Brasil.

Chamou-me particular atenção o fato de ela ter se referido à data em questão como o aniversário do “nascimento de Zumbi'”, e não de sua morte. Embora eu tenda a achar que se tratou de um lapso por parte da líder quilombola, não posso deixar de perceber nesse possível ato falho um forte significado alternativo ao sentido oficial da data. Em 20 de novembro de 1695, Zumbi nasceu para a História.

Durante sua existência, o Quilombo dos Palmares viveu como que num universo paralelo, um mundo à parte daquele da Colônia, quase como se existisse numa outra continuidade histórica, um outro tempo que não o da Metrópole portuguesa, que não o da história europeia. O líder Zumbi se criou neste mundo alternativo, sob outro calendário. Ao ser decapitado na luta contra o Império, surgiu para o mundo exterior, dominante, opressor e instituído com base na força imperialista. No dia 20 de novembro de 1695, Zumbi apareceu como um poderosa figura para a História hegemônica, foi então que ele nasceu para o Mundo. (Assim como Obi-Wan Kenobi que, ao enfrentar Darth Vader, profeticamente anunciou: “Se me matar, eu me tornarei mais poderoso do que você jamais poderia imaginar”.)

Os palmarinos consideravam que Zumbi era imortal, e seus assassinos pretenderam mostrar que ele não passava de um homem comum (o que é bastante lisonjeiro por parte de quem pensava nos negros como menos do que seres humanos). No entanto, vemos hoje que Zumbi sobrevive forte na memória do Dia da Consciência Negra. Isso é de certa forma ressentido pela elite branca, obrigada a acatar tão grande importância histórica de uma celebridade negra. Além disso, essa elite se vê diante da necessidade de se celebrar o grande líder quilombola, pois a data é legalmente instituída como comemorativa.

Dona Neta, em seu discurso, aludiu à recente polêmica em torno da proposta, revogada, de se oficializar o feriado do Dia da Consciência Negra no Rio Grande do Norte. Ela frisou que há diversos feriados dedicados a figuras históricas brancas, das quais talvez Tiradentes seja um dos mais célebres, e não há feriados nacionais dedicados a personagens afrobrasileiros, como Zumbi, que foi e é tão importante para a população negra do Brasil (não se trata, é claro, de reivindicar meramente um dia sem trabalho, mas de dar visibilidade e tratamento igual a personagens históricos não-brancos).

A notável mulher enfatizou essa importância ao comparar o grande guerreiro negro de Palmares a Jesus (o que é bastante intrigante, visto que a maioria absoluta dos quilombolas presentes no evento são cristãos – católicos ou evangélicos), afirmando que, assim como o Messias nazareno, ele morreu lutando contra um Império para salvar seu povo, para libertar os negros escravizados (não adianta, aqui, remeter ao fato de ter havido escravos negros em Palmares, “fato”, aliás, controverso e provavelmente mal-compreendido pela História Oficial, mas sim tomar o herói em sua força simbólica – assim como, para os cristãos, importa menos o Jesus histórico do que aquele imortalizado como lenda nas Escrituras).

Zumbi é um morto-vivo, um fantasma que precisa ser trazido à vida todos os dias de nosso cotidiano repleto de um racismo colonial e com vestígios de escravismo. Apenas um dia do ano para a Consciência Negra é muito pouco, pois todos os outros dias pertencem tacitamente aos brancos e são por eles protagonizados. Todos os dias o espectro de Zumbi precisa ser invocado para que cada “dia de branco” seja também dia de todos os que participam ativamente dessa mesma sociedade, na medida em que encontram e conquistam espaço para ter sua existência visibilizada, representada e reconhecida igualitariamente.

Black Kirby e a Turma da Mônica negra

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John Jennings é professor de Estudos Visuais na Universidade de Buffalo, NY (EUA). Ele e o artista afrofuturista Stacey Robinson idealizaram o projeto Black Kirby, uma homenagem e uma releitura de algumas ilustrações do renomado quadrinista Jack Kirby (cocriador de vários super-heróis da Marvel Comics). Eles produziram diversas capas alternativas de edições clássicas da Marvel, mantendo o traço de Kirby e transformando os personagens em pessoas negras e adornadas com motivos afrofuturistas, partindo da premissa: “Se Jack Kirby fosse negro”. Dessa releitura surgiram personagens como Major Sankofa (Capitão América), O Poderoso Xangô (Thor) e O Indestrutível Buck (Hulk).

Os artistas afrofuturistas como Jennings e Robinson recriam a estética do universo dos Quadrinhos, da Ficção Científica, da Fantasia e outras mídias imaginativas como forma de se sentir representados. É a reapropriação de um espaço tradicionalmente dominado por eurocentrismo. É um modo de expressar seu próprio anseio por representatividade. Num meio como os Quadrinhos, dominado por personagens brancos, do sexo masculino, heterossexuais e cisgêneros, admirados por uma enorme diversidade de leitores e leitoras, reimaginá-los com outra identidade étnica, racial, de gênero ou de sexualidade é um modo de explicitar o desejo por suprir a pouca identificação desse público.

Não se trata, como podem pensar alguns, de mero capricho de artista querendo chamar atenção. Há alguns dias repercutiu nas redes sociais a atitude de uma criança brasileira que fez quase exatamente a mesma coisa que Jennings e Robinson fizeram. Cleidison tinha que colorir a capa da prova ministrada por sua professora da 5ª série, que figurava a Turma da Mônica de Maurício de Sousa. O garoto negro entregou à professora os personagens pintados com sua própria cor e disse a ela que estava cansado de ver personagens que não se pareciam com ele.

A professora divulgou a imagem no Facebook e a repercussão dessa notícia foi muito positiva na internet. O gesto de Cleidison foi iclusive elogiado por Maurício de Sousa. Ironicamente, o quadrinista enfatizou que a diversidade faz parte da linha editorial de suas revistas, lembrando o personagem Jeremias, que é negro. Infelizmente, constatamos que seus esforços para representar os negros em suas histórias ainda são incipientes. Há apenas 4 personagens negros entre as centenas criadas por Maurício: Jeremias, Pelezinho, Ronaldinho Gaúcho e Neymar. O primeiro não faz parte do escalão principal da Turma, aparecendo como coadjuvante esporadicamente. Os três últimos são de certa forma spin-offs, e são um fiasco de representatividade se considerarmos que foram criados com base em celebridades (não são personagens originais inspirados em “pessoas comuns”) e que são jogadores de futebol. Ou seja, 75% dos personagens negros recaem num lamentável estereótipo racial.

Mas isso não é de estranhar vindo de Maurício de Sousa, que já fez declarações anacrônicas a respeito da representatividade das mulheres nos quadrinhos, tanto como personagens quanto como quadrinistas. Sua obra é sem dúvida uma referência universal e eterna para leitores e artistas de quadrinhos brasileiros, mas é preciso renovar as ideias desse meio.

Há algum tempo conversei com um amigo sobre personagens brancos de quadrinhos que foram interpretados por atores negros no cinema, como o Rei do Crime (Demolidor) e Nick Fury (Vingadores). Nós nos perguntamos na ocasião se isso poderia acontecer, por exemplo, com o Capitão América, e chegamos à conclusão de que um símbolo norte-americano nunca seria outra coisa senão um homem branco, loiro e heterossexual. Felizmente estávamos errados. A própria Marvel já anunciou que Steve Rogers será substituído por Samuel Wilson (que costumava ser o super-herói Falcão), um homem negro. De certa forma, o Major Sankofa de Black Kirby foi abraçado pela Marvel.

Além disso, tendo em vista que o personagem Thor também foi reformulado e agora será uma mulher, a Marvel sinaliza mudanças interessantes no mundo dos quadrinhos, que talvez sejam repercussões de trabalhos como o de Jennings e de Cleidison, com sua perspectiva afrofuturista. Somando-se isso à crescente demanda feminista por representatividade feminina, bem como a maior visibilidade de pessoas LGBT como consumidoras e produtoras de quadrinhos e outras mídias populares, é provável que vejamos cada vez mais uma diversidade autêntica entre super-heroínas e super-heróis fantasiados.

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Releituras afrofuturistas da Ficção Científica

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Ytasha L Womack e seu livro “Afrofuturism”.

O Afrofuturismo é um conjunto de manifestações culturais que mistura elementos da cultura negra (ou daquilo que é representado como cultura negra, de matriz africana ou afrodescendente) com aspectos da cultura pop que dizem respeito a noções de futuro e progresso tecnológico, notadamente as ideias da ficção científica futurista, e envolve literatura, música, estética e moda, artes visuais, cinema e televisão. Acima de tudo, o Afrofuturismo é uma filosofia, uma forma de revisar o modo como os negros veem a si mesmos na mídia, valorizando elementos culturais do passado e do presente e construindo uma visão de futuro com base em seus próprios anseios e não nos tradicionais estereótipos racistas (e também de identidade de gênero e sexualidade).

O livro Afrofuturism: The World of Black Sci Fi and Fantasy Culture, da escritora norte-americana Ytasha L. Womack, apresenta um panorama das diversas vertentes do Afrofuturismo, seus diversos artistas e pensadores. O que mais me interessou no livro foram as diversas referências a temas da Ficção Científica (literatura, cinema e televisão) e como eles são reconstruídos na perspectiva da experiência negra no Ocidente e também na África. Há não apenas uma forma alternativa de ver a ficção científica clássica, mas uma produção de literatura negra que remonta a W. E. B. Du Bois e tem em Octavia Butler uma de suas principais referências.

Há algum tempo venho me interessando por essa parte ainda marginalizada da Ficção Científica, da qual aos poucos estou me inteirando. Mas ainda não li muita coisa da produção afrofuturista propriamente dita. No entanto, na apropriação desse gênero literário pelos negros, uma vez que o Afrofuturismo abrange também uma forma alternativa de interpretar a produção eurocêntrica mais consagrada, é muito interessante a forma pela qual ele ressignifica temas clássicos como a abdução alienígena e a inteligência artificial, usados como metáforas para a história dos africanos e seus descendentes no Atlântico Negro.

Naves e abduções alienígenas

Ilustração de Henrique Alves Corrêa para a edição francesa de 1906 de "A Guerra dos Mundos"

Invasores alienígenas na ilustração de Henrique Alves Corrêa para a edição francesa de 1906 de “A Guerra dos Mundos”

A diáspora negra resultante do comércio de escravos africanos por europeus pode ser colocada nestes exatos termos:

Alienígenas chegaram em naves e abduziram pessoas.

Com essas palavras, é impossível não pensar numa história de ficção científica sobre seres extraterrestres que chegam à Terra em espaçonaves e raptam seres humanos. Mas se explorarmos outros sentidos dos termos da expressão acima destacada, podemos pensar no significado próprio de alienígena como “estrangeiro”, nave como “embarcação” (navio) e abdução como “captura”.

Os autores Mark Dery, Mark Sinker e Reynaldo Anderson, citados por Womack, escreveram sobre essa pungente metáfora. Assim, se por um lado as histórias de invasão e abdução extraterrestres representam o medo europeu e norte-americano de sofrer na pele o mesmo processo de dominação colonial que esses povos empreenderam e ainda empreendem, elas falam sobre a história real daqueles que sofreram e sofrem essa mesma dominação, em especial os africanos.

Mas a abdução é apenas uma parte desse processo de contato com alienígenas. Os contos sobre invasão de grandes naves espaciais prontas para subjugar e, em alguns casos, exterminar a humanidade são exatamente uma representação do que os “conquistadores” fizeram em suas viagens de “descoberta”. Os enredos de A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, de Independece Day e o histriônico Marte Ataca! são ótimas analogias da invasão, escravização e dominação dos africanos pelos europeus imperialistas.

Distopias pós-apocalípticas

O apocalipse zumbi de "The Walking Dead", ilustrado por Charlie Adlard

O apocalipse zumbi de “The Walking Dead”, ilustrado por Charlie Adlard

Se continuarmos a sequência dessa história e falarmos sobre a diáspora negra, o pesadelo dos africanos e seus descendentes, tanto na África colonizada quanto nos países para os quais foram levados em navios negreiros, a desolação de viver subjugados a alienígenas de cara pálida num mundo desagregado, podemos extrapolar a interpretação das histórias distópicas de teor pós-apocalíptico.

Estas histórias retratam uma humanidade vivendo à beira de um colapso, geralmente ameaçada por seres perigosos, como robôs, monstros, zumbis ou ditaduras totalitárias. 1984, de George Orwell, com sua metáfora da bota militar esmagando um rosto, é a síntese perfeita da opressão absoluta de uma classe sobre uma minoria social (mesmo que esta seja maioria em quantidade), o que é visto nos regimes de apartheid e nas nações escravocratas.

A alegoria do apocalipse zumbi também pode ter repercussões imagéticas interessantes na descrição da vida dos escravos vivendo entre seres que são semelhantes a eles (como o são os mortos-vivos) mas que carregam diferenças consideradas inconciliáveis. Zumbis se assemelham a vampiros em sua natureza parasítica, sempre em busca dos cérebros ou do sangue dos vivos, e é como parasitas vampíricos que podem ser vistos os senhores de escravos, explorando a energia dos cativos. Além disso, a metáfora encontrada na série de quadrinhos Os Mortos-Vivos (The Walking Dead), que foi adaptada para a TV, também é muito pertinente, pois nessa história os “mortos caminhantes” não são os zumbis, mas os próprios sobreviventes que estão à beira da morte. Os escravos negros também eram mortos-vivos neste sentido, pois suas vidas estavam à mercê dos implacáveis senhores, não eram donos de suas vidas, sempre à beira da morte ou, em certo sentido, mortos em vida.

Robôs

Data, o androide em busca de sua humanidade em Star Trek

Data, o androide em busca de sua humanidade em Star Trek

As histórias sobre robôs trazem diversos temas antropológicos interessantes. Um deles está ligado diretamente à etimologia da palavra robô, que pode ser entendida como sinônimo de “escravo”.

As máquinas que servem como substitutos do trabalho humano são entendidas por seus criadores e usuários como autômatos desprovidos de vontade própria, utensílios sem alma que apenas se assemelham vagamente a seres humanos. Essa forma de ver os robôs resume o que era a ideologia defendida para justificar a subjugação de seres humanos escravizados, representando-os como indivíduos dotados de menos humanidade que seus escravizadores, máquinas de carne negra sem alma.

O estigma que atrela a noção de escravo à de pessoa negra é tão forte hoje em dia que temos dificuldade de pensar em escravidão que não envolva pessoas negras. A escravidão existiu em toda parte ao redor do mundo, e povos de várias origens étnicas e diversos matizes já se encontraram sob o jugo da servidão forçada. Mas as consequências sócio-culturais dessa forma de trabalho não são tão sentidas na contemporaneidade quanto pelos negros descendentes de africanos, ainda tentando, em diversos contextos, provar seu status de humanos pensantes, do mesmo modo que robôs como Johnny 5 (Um Robô em Curto-circuito), Andrew (O Homem Bicentenário) e Data (Star Trek) tentam.

Essa metáfora que compara os afrodescendentes a androides foi explorada pela musicista Janelle Monáe em sua obra. A sinfonia The ArchAndroid, uma ficção científica em forma de música, conta sobre a profetizada vinda de uma Arquiandroide que libertará todos os androides.

Fábulas com robôs que querem ser humanos são excelentes metáforas do processo de humanização dos indivíduos de nossa espécie: estamos o tempo todo nos esforçando para nos aproximar de um ideal de humanidade, condicionado pela cultura em que vivemos. Minorias discriminadas, seja por racismo, sexismo ou outras normatividades, se vêem numa luta ainda mais hercúlea. Aliadas a isso, as fantasias de revolta contra os opressores e de tomada do poder encontram nas histórias com robôs um interessante paralelo. A revolta das máquinas em Matrix e O Exterminador do Futuro é uma alegoria do levante de escravos contra os portadores do látego. O Quilombo dos Palmares é uma sociedade de robôs libertos que provaram sua humanidade.

Hibridismos

O xenomorfo híbrido em “Alien: O Oitavo Passageiro”

Um tema da Ficção Científica que se relaciona com nossa dificuldade de lidar com sentimentos racistas é o hibridismo, seja entre duas ou mais espécies orgânicas, seja entre ser vivo e máquina. O exemplo mais clássico do parasita alienígena do cinema talvez seja a franquia Alien, onde a contaminação de seres humanos (e de outros animais) pelos xenomorfos produz criaturas que são amálgamas monstruosos, belos e mortais.

A história começa com a chegada de exploradores numa terra estranha e seu contato com uma espécie nativa, da qual resulta um ser mestiço, o “alien”. Esta criatura surge do estupro de um dos tripulantes, um homem branco, por parte da criatura feminina que eclode de um ovo e que pode ser vista como uma reminiscência simbólica de uma mulher africana. Há portanto a inversão da relação da violência sexual. Porém, tendo em vista a representação, por parte do colonizador, dessa relação como prejudicial a este – inclusive com a ideia de contaminação de DSTs supostamente originárias da África -, a metáfora invertida cumpre seu papel de remontar ao processo de exploração do continente africano e da consequente “contaminação” da cultura e biologia europeias pelas africanas. De acordo com Célia Magalhães, no livro Os Monstros e a Questão Racial na Narrativa Modernista Brasileira, a alegoria do parasitismo pode ser uma referência à mestiçagem colonial, em que os elementos culturais dos dominados são vistos como indesejados pelos defensores de uma idealizada pureza da cultura dominante.

O ser estranho que assim surge, mesmo tendo metade do DNA do conquistador, é visto como totalmente alienígena. E bastante emblemático que o xenomorfo tenha a cor negra e é bastante interessante o fato de, no primeiro filme da franquia, ele ser interpretado por um ator africano, escolhido justamente pelo exotismo de seu corpo. A parcela africana da herança das culturas ocidentais é ainda hoje vista como algo exótico e não propriamente normal, e ainda existem pessoas e grupos que defendem a extirpação dessa herança, como se o elemento negro de nossa cultura e de nossa população fosse uma monstruosidade incômoda. Nosso racismo velado ainda percebe a presença negra como um elemento intruso em nossa sociedade, ainda sentido como alienígena e passível de ocultamento ou até mesmo extirpação.

Embora um pouco diferente, o hibridismo cibernético também se presta à mesma alegoria. Como vimos, os robôs podem ser vistos como metáforas da minoria escravizada e desumanizada. Quando a máquina é integrada ao humano, dando origem aos ciborgues, temos toda sorte de enredos admoestando-nos sobre os perigos dessa união, o medo de que a parte máquina tome conta da parte orgânica e até mesmo oprima seu livre-arbítrio. É o que acontece com o policial Alex Murphy em Robocop, que precisa lutar internamente para não deixar que a máquina sem alma assuma o controle de suas ações. Também é o drama do Dr. Octopus em Homem-Aranha 2, que perde quase totalmente sua vontade ao ser seduzido pela frieza ambiciosa do implante que colocou em si mesmo, e dos Borgs em Star Trek, cuja parte mecânica embota completamente a liberdade do ser orgânico animado.

Representatividade

Depois que uma obra é publicada, ela não pertence mais ao autor. Seus leitores se apropriam dela como bem entendem e lhe imprimem os significados que consideram mais pertinentes. Dessa forma, é muito importante que as obras clássicas tradicionalmente carregadas de eurocentrismo, androcentrismo e heteronormatividade sejam relidas pelo olhar das minorias pouco ou nada representadas nessas obras. Além de ser um meio de enriquecer o cânone com mais possibilidades de leitura, é uma forma de os leitores se constituírem como ativos construtores de significado, fomentando a criação de novas obras carregadas de mais representatividade, especialmente uma representatividade de autoras e autores.

Macacos

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Num jogo de futebol recente, algum torcedor idiota lançou uma banana ao campo, direcionada ao jogador negro Daniel Alves. Como já é costume, a atitude de mau gosto do torcedor foi aludir à velha piada racista que desumaniza os negros ao insinuar que eles se parecem com macacos (estes, segundo o senso comum, têm uma predileção natural por bananas). A contundente reação do jogador foi pegar a banana, descascá-la, comê-la e continuar jogando.

A atitude de Daniel tem grande força simbólica porque é uma forma de ele mostrar que não tem medo do racismo, uma maneira de dizer, “seu racismo não me afeta”. E isso serve de exemplo para a sociedade que costuma assistir aos negros baixarem a cabeça ou se entristecerem com esse tipo de ofensa. Embora seja muito difícil contornar a violência simbólica do racismo, a mensagem é clara: as coisas estão mudando e não vão ser assim para sempre.

Porém, Neymar, colega de Daniel, levou adiante o gesto deste ao lançar a campanha “Somos Todos Macacos”, convidando os internautas a postar fotos suas comendo uma banana e repetindo a hashtag correspondente (#somostodosmacacos). Em pouco tempo o Facebook e outras redes sociais se encheram com fotos e textos louvando a campanha e rapidamente pessoas começaram a ganhar dinheiro com isso.

Mas o que realmente significa dizer que “somos todos macacos” e quais as consequências de promover essa frase da forma como está sendo divulgada?

Importa salientar que Neymar é conhecido por não se autorreconhecer como negro, embora para o mundo ele seja negro e seja alvo também de racismo. Dessa forma, fica a dúvida se, ao dizer que é macaco, ele está se autorreconhecendo como negro e como pertencente a uma identidade suscetível ao tipo de ofensa sofrida por Daniel ou se está reproduzindo um tipo de campanha comum hoje em dia que é se identificar com uma minoria oprimida apenas a título de solidariedade. Ou Neymar está dizendo

  • ok, eu sou negro e, como Daniel, não me ofendo com o racismo do qual sou alvo; ou
  • embora não seja negro, me solidarizo com Daniel e com todos os negros chamados de macacos pelos racistas; ou ainda,
  • somos todos seres humanos e, como tais, somos uma espécie de macaco.

Infelizmente, como estamos vendo, as coisas são muito mais complicadas do que parecem à primeira vista. Para mim, a única forma que a frase “somos todos macacos” poderia ter algum sentido positivo seria entendê-la com um significado zoológico: “Como Homo sapiens, somos todos pertencentes a uma espécie de primatas e, portanto, somos macacos, tanto os negros quanto os brancos quanto os de qualquer outra cor de nossa raça humana”. Se a frase fosse unanimemente entendida assim, poderia ter, quem sabe, uma força libertária enorme e nos colocaria todos no mesmo lugar, ou seja, desconstruiria qualquer sentido negativo relacionado à palavra “macaco”.

Mas não é bem assim que ocorre na prática. Não podemos ignorar o peso simbólico e político impregnado nas palavras e nos gestos em nossa cultura. Para grande parte das pessoas, o ser humano não é um macaco, e esta palavra se reveste de um significado que a opõe a vocábulos como ser humano, pessoa, homem, mulher etc. Vide um pronunciamento de 2012, viralizado recentemente, em que Ariano Suassuna deixa bem claro a noção de senso comum (e de grande parte das pessoas religiosas) que vê o ser humano como uma criação diferente de qualquer outro animal. Assim, são muito poucos os que apreendem o suposto sentido zoológico presente na expressão “somos todos macacos”.

Infelizmente, o que se apreende dessa frase, em geral, é semelhante ao que estava implícito na frase “somos todos Guarani-Kaiowá”, em campanha a favor dos grupos indígenas citados, e em que pessoas que não eram indígenas se identificaram com eles de maneira fortuita, num gesto político de solidariedade. Quando uma grande parcela de pessoas brancas se identifica como “macacos”, infelizmente o sentido racista ressoa na expressão, e é como se essas pessoas estivessem dizendo que, num gesto de solidariedade, estão se identificando como negros (e não genericamente como seres humanos). Ou seja, por mais bem-intencionada que seja, a pessoa que diz “sou macaco”, nesse contexto em que se discute o racismo, está sem querer dizendo que negro e macaco se equivalem e que macaco não abrange semanticamente o branco.

"Não sou macaca!" (Fang)

“Não sou macaca!” (Fang)

Grande parte das pessoas, além de acreditarem nessa noção de senso comum que vê o ser humano como uma criatura especial, misturam-na com um saber científico difuso sobre a evolução que, contaminado pelo racismo científico do século XIX, não só vê o Homo sapiens como uma evolução do macaco (que supostamente deixou de ser macaco) como também vê nos diversos grupos humanos estágios diferentes dessa evolução. Sabemos bem aonde esse raciocínio leva: grande parte das pessoas, conscientes disso ou não, considera os negros como mais próximos evolutivamente dos macacos do que os brancos, ou seja, como menos evoluídos do que estes e, portanto, menos humanos do que estes.

E é aí que está a força racista do termo macaco, usado ostensivamente em nosso cotidiano como uma palavra “naturalmente” ofensiva. Não é à toa que parte significativa dos representantes dos movimento negros estão rechaçando sumariamente a campanha (difundindo, ao invés disso, a frase “Não Somos Macacos”), pois consideram que ela não desconstrói o racismo subjacente à palavra em questão e pode até reforçar esse racismo. A maioria das pessoas que se deparar com a campanha do “Somos Todos Macacos” não conseguirá dissociar o termo macaco de um sentido negativo profundamente difundido na cultura ocidental.

Há uma grande diferença entre abordar a “macaquice” humana do ponto de vista zoológico e do ponto de vista sócio-antropológico. Embora a Biologia nos permita afirmar a igualdade dos indivíduos da espécie, nos colocando evolutivamente como “macacos”, a cultura, através da representação, nos divide em grupos, nos faz diversos, diferentes, e até desiguais e antagônicos. E, nessa diversidade, a força da representação da identificação entre negros e macacos (diferenciando-os dos humanos brancos) não pode ser menosprezada.

Como disse um amigo, aludindo ao famigerado vídeo “Dancem, Macacos, Dancem”,

Este debate atual – afinal somos ou não somos macacos – tem relação direta com o grande dilema da nossa espécie que é fundante da antropologia: a contradição de sermos uma espécie una do ponto de vista biológico, ao mesmo tempo em que somos diversos do ponto de vista sociocultural. É por causa desse dilema que nos defrontamos com situações inusitadas como o fato de que raças humanas não existem para a biologia, mas são operantes no espectro sociocultural, sendo definidoras de hierarquia e papéis sociais. Assim sendo, estamos diante do atual dilema em que biologicamente não faz sentido negar nossa animalidade – afinal somos primatas, logo, macacos -, mas sociologicamente podemos ser o que quisermos – ou o que os outros querem que sejamos. Ou seja, ser ou não ser macacos depende, diretamente, do contexto em que se insere essa macaquice. Como disse, mundo contraditório…

A nomeação e/ou classificação de nossa espécie como pertencente ao grupo dos macacos é arbitrária e depende da abordagem e do contexto. O que posso dizer com o mínimo de incerteza é que só faz sentido dizer que “somos todos macacos” se com isso entendermos que negros são tão macacos quanto brancos são macacos (bem como quaisquer outras classificações de grupos humanos). Mas é praticamente impossível hoje em dia não associar o malfadado termo a uma noção racialmente negativa, herdada de nossa história recente de subjugação dos africanos e seus descendentes.

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Etnocentrismo em LittleBigPlanet

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Certamente um dos mais divertidos video games exclusivos da plataforma Playstation 3, da Sony, LittleBigPlanet segue uma diretriz interessante: jogar, criar, compartilhar. Não só proporciona horas de incursão em mundos coloridos e dinâmicos, com centenas de itens para coletar, como permite a criação de novas fases pelos jogadores e o compartilhamento delas com a comunidade do Playstation Network, que tem à disposição milhares de possibilidades de diversão. Apesar de ser um dos meus jogos preferidos, no entanto, desde que comecei a jogá-lo percebi que os diversos “mundos”, que se passam em versões em miniatura de várias partes da Terra, carregam certa ideologia etnocêntrica em suas concepções visuais e musicais, tendo como centro a Europa e retratando de forma caricatural os outros continentes.

No jogo, em resumo, o jogador interpreta uma “Sackperson” (uma pessoazinha feita de pano) e viaja através de um mundo fantástico construído com materiais do cotidiano, como pano, papel e madeira, e objetos comuns como sapatos, penas e carrinhos de brinquedo. Cada fase se passa em uma parte estilizada de um miniplaneta Terra. Tudo é muito colorido e bem feito, e imergimos em uma espécie de brincadeira infantil e divertida, com desafios interessantes. Porém, há uma série de estereótipos culturais que embasam a concepção de cada um dos mundos visitados pelo protagonista.

Europa – “Os Jardins”

O primeiro mundo se chama “Os Jardins” e se encontra na própria Europa, com motivos medievais e personagens humanos, num ambiente com poucos perigos e com uma arquitetura “civilizada”. O líder desse mundo é um rei bondoso, que tem a companhia de uma rainha. Há por toda parte objetos familiares às sociedades ocidentais urbanas, como sapatos, iô-iôs e skates, compondo o cenário como se este fosse uma brincadeira de criança, que improvisa suas fantasias a partir de itens que encontra no ambiente. É a partir dessa autocaricatura (a equipe que produziu o jogo é britânica) que todos os outros “mundos” são concebidos.

África – “A Savana”

O segundo mundo se encontra no continente africano, e é conhecido como “A Savana”. Vista desde há muito pelos colonizadores brancos como um meio selvagem e incivilizado, não se vê nessa África imaginária nenhum ser humano. O único sinal de Homo sapiens que está presente pode ser ouvido numa das músicas, que tem vozes africanas entoando notas encantadoras. Mas todos os habitantes desse local são animais: macacos, búfalos, crocodilos, suricatos, girafas e reinando sobre todos, um leão.

A África e outros locais que sofreram a colonização europeia são muitas vezes vistos pelos europeus como destino de turistas que querem explorar as atrações “naturais”, quase ignorando a presença humana nativa ou considerando-a inferior ou como parte da “natureza” local. Mesmo que a África de LittleBigPlanet possa ser considerada um lugar divertido e desafiador para os gamers, não se deve ignorar a influência do euocentrismo (etnocentrismo europeu) em sua concepção, retratando a população nativa como selvagem. É uma visão que lembra o universo do personagem Babar, em cujas histórias elefantes, rinocerontes e macacos são os habitantes sencientes da África, sendo os europeus humanos os que vêm “ensinar” os animais a falar, andar sobre duas patas e vestir roupas.

América do Sul – “O Casamento”

O terceiro mundo fica na América do Sul. Para minha surpresa, na primeira vez em que joguei essa parte do game, não encontrei ali uma floresta tropical, com araras, onças e talvez índios. O cenário é habitado por esqueletos mortos-vivos, num ambiente com túmulos e velas. Há referências ao mundo dos mortos, na visão de algumas religiões sincréticas sul-americanas e meso-americanas, e à relação do cristianismo popular com a morte.

Mas, neste cenário conhecido como “O Casamento”, chama atenção o disparate que é ver um conjunto de imagens que remetem muito fortemente ao Día de los Muertos mexicano, ou seja, de um país que se localiza na América do Norte, apesar de fazer parte de um universo bastante heterogêneo chamado América Latina, que inclui toda a América do Sul com sua ampla diversidade cultural. É como se toda a parte sul do continente americano girasse em torno dessa religiosidade necromântica, que não representa, na realidade, nem sequer uma parte significativa da diversidade religiosa dos diversos países e regiões do subcontinente.

América Central/do Norte – “Os Cânions”

Seguindo para o Norte, chegamos a “Os Cânions”, um mundo inspirado no México dos faroestes e das ruínas pré-colombianas. Os seres humanos vivos aparecem novamente, e tudo gira em torno de fogo e explosões. Há um vilão que assaltou um banco, há motivos inspirados na arte asteca e há uma mina com carros e trilhos. A ideia de um recanto bárbaro, sem leis e marcado por um certo abandono, um deserto inexplorado, é a tônica de uma região que foi por muito tempo considerada fonte de riquezas a ser exploradas pelo colonizador, primeiro os povos originários conquistados pelos europeus, depois o “Oeste selvagem” invadido e anexado pelos norte-americanos.

América do Norte – “A Metrópole”

Mais ainda para o Norte, chegamos à América do Norte (ou só América, para os nativos, a “verdadeira América”), o único ambiente propriamente urbano do jogo. Condensando basicamente a cultura dos EUA, modelo contemporâneo para o mundo, “A Metrópole” tem tecnologia avançada em relação a todos os outros lugares do PequenoGrandePlaneta. É habitada somente por seres humanos, que vestem roupas e andam de carro, como se fosse o ambiente mais “desenvolvido” do mundo, onde os personagens têm dinheiro e posses caras.

Essa cidade grande é como que uma continuação do mundo dos “Jardins” europeus, fazendo parte do mesmo mundo “civilizado”, mas com sotaque yankee. A representação dessa parte do mundo ressoa o etnocentrismo que parte da visão dos povos com base étnica na Europa. Dessa forma, a própria mistura cultural que resultou nos EUA é vista nesse jogo eurocêntrico como um lugar com certa malandragem, habitado por gângsteres e pessoas de maneirismos informais.

Japão/Extremo Oriente – “As Ilhas”

Viajando ao Oeste para chegar ao Extremo Oriente, a fase “As Ilhas” remete ao Japão, especialmente ao Japão medieval. Um lugar onde predominam testes de coragem e de habilidade para se enfrentar um mal diabólico e perigoso. Com uma deusa japonesa fantasiosa como guia, adentramos um mundo que tem certo misticismo no ar. Os inimigos são ninjas, sumocas e samurais malignos, com ar misterioso e exótico. São seres humanos que perdem toda aparência humana, o que representa a visão ocidental que quase considera os extremo-orientais como uma outra espécie. Os perigos e obstáculos que desafiam o jogador representa uma forma ardilosa de se usar a tecnologia, que também aparece em robôs, símbolos do Japão contemporâneo.

Índia – “Os Templos”

Ainda no âmbito do que se considera o Oriente, deixamos as ilhas do Sol nascente e vamos à península onde, no mundo real, fica a Índia. Semelhantemente à fase anterior, impera um misticismo e, mais ainda, um mistério e uma magia. Os humanos presentes são iogues, dançarinos e feiticeiros, e encontramos também uma divindade com vários braços (como nas imagens dos deuses hindus), todos com pele azulada, como em imagens sacras indianas (de Kali e Krishna, por exemplo). Essas pessoas têm um ar exótico e parecem pertencer a uma raça não-humana e sobrenatural, como aquelas das “Ilhas”, o que se casa com a visão orientalista (segundo os termos de Edward Said), que homogeneíza os povos do vasto “Oriente”.

Objetos mágicos e magos fazem com que tudo pareça nebuloso e ilusório, como na ideia ocidental que imagina os orientais como ludibriosos e cheios de truques que dão a ilusão de magia e sobrenaturalidade. Aparecem animais como a serpente, evocando encantadores de cobras (e simbolizando as danças indianas estereotipadas), e os elefantes, reduzindo o sagrado “oriental” a um bicho reverenciado pelos indianos em geral.

Rússia – “O Ermo”

A penúltima fase se chama interessantemente “O Ermo” (“The Wilderness”, o que remete à natureza selvagem), e se encontra aparentemente na Sibéria. É onde mora o vilão, “O Colecionador”, que ao longo do jogo vai capturando os habitantes do LittleBigPlanet. Um urso recebe o protagonista nesse ambiente gélido, e representa a natureza/fauno ameaçada pelo explorador. Mas os habitantes são predominantemente soldados e veículos militares (é bom frisar que, na fantasia desse jogo, há seres animados que são coisas).

O urso mostra a visão de uma Sibéria selvagem e incivilizada, enquanto os soldados representam uma Rússiaf belicista e socialisticamente repressora. De qualquer forma, mesmo os ursos, mesmo os ursos e soldados passando para o lado do Sackboy, o vilão tem seu covil escondido em algum lugar da Rússia soviética, o que ressoa uma obsoleta rivalidade entre Ocidente e Oriente, herdada da Guerra Fria.

Fantasia e diversão

Não considero que nenhuma das observações acima estrague o jogo de maneira alguma. Mesmo tendo consciência dos vestígios de etnocentrismo que perpassam LittleBigPlanet e tantos outros video games, consigo encará-lo como o que ele é essencialmente: um jogo. Ademais, mesmo os motivos que servem para construir as diversas fases da trama podem ser vistos como mundos totalmente fantásticos baseados vagamente em coisas ou ideias reais.

LittleBigPlanet 2, felizmente, conseguiu corrigir isso, trazendo várias fases cujos cenários são praticamente desvinculados de estereótipos regionais, e mesmo os personagens com características étnicas não representam imagens preconceituosas ou jocosas sobre os respectivos povos que lhes servem de inspiração. Talvez a equipe da Molecule tenha se dado conta de que a Fantasia é muito mais interessante quando liberta dos vínculos que a ligam à realidade, que é muito mais subjetiva do que costumamos pensar.

Os negros em Star Trek

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Já é quase um clichê dizer que Jornada nas Estrelas (Star Trek) foi uma franquia revolucionária em vários aspectos. Muita gente sempre se lembra de dizer que a tripulação da nave estelar Enterprise era multiétnica, tendo entre seus principais membros uma africana, um nipo-americano, um russo, um escocês e até um alienígena.

Mas é sempre notória a participação maior de personagens caucasianos nas posições de protagonismo das histórias. Apresentada inicialmente, nos idos dos anos 1960, como uma proposta libertária, era de se esperar que a franquia se desenvolvesse com cada vez mais abertismo em relação a identidades de gênero, de sexualidade e de raça-etnia. Como se deu então, na trajetória das diversas séries de Star Trek, o destaque dos personagens pertencentes à identidade racial mais menosprezada no Ocidente, ou seja, os negros?

Uhura (Nichelle Nichols)

A icônica tenente Uhura, oficial de comunicações da mais clássica das Enterprises, cujo prenome nunca foi conhecido na série clássica e só seria revelado no filme de 2009, foi uma novidade e tanto na televisão norte-americana no ano 1966, quando era extremamente difícil colocar uma atriz/personagem do sexo feminino e/ou negra entre os papéis principais de uma série de TV.

O episódio piloto da série (The Cage) foi recusado pela emissora, entre outras coisas, justamente por ter uma mulher em posição de destaque na trama. Mas Gene Roddenberry conseguiu uma façanha: apresentou uma nova proposta em que uma mulher, Nichelle Nichols, faria parte do elenco principal, se bem que numa posição não tão importante quanto a de um capitão ou de um imediato, mas mesmo assim na ponte de comando. E mais, era uma mulher negra.

O fato de ser uma mulher negra num papel importante (e com um rank de tenente) foi tão impactante que influenciou uma geração de jovens afro-americanos de ambos os sexos. Whoopi Goldberg conta que, quando criança, viu Uhura na televisão e correu para contar para a família:

I just saw a black woman on television; and she ain’t no maid!

[Acabei de ver uma mulher negra na televisão e ela não é uma empregada!]

Uhura encenou com o Capitão Kirk (William Shatner) aquele que foi considerado o primeiro beijo “inter-racial” da televisão norte-americana. Mesmo sendo uma cena em que os personagens foram forçados telepaticamente ao ato, os produtores e o diretor relutaram muito em concretizá-la, e a repercussão posterior foi grande.

O papel de Nichelle Nichols foi tão importante para o público afro-americano que ninguém menos do que Martin Luther King pediu pessoalmente a ela que não saísse do show, pois ela era um exemplo para os jovens negros em plena era de luta por direitos civis. Porém, a equiparação do destaque de personagens negros com brancos (e também de mulheres com homens) ainda estava em estágio embrionário, pois Uhura ainda era mais um elemento exótico da tripulação do que uma figura de peso.

Geordi Laforge (LeVar Burton)

Enquanto Uhura foi concebida como uma especialista em comunicações e xenoliguística, Geordi Laforge, interpretado por LeVar Burton, era um engenheiro altamente capacitado, que possuía o título de tenente e ocupava o cargo de engenheiro-chefe da Enterprise-D, comandada pelo Capitão Jean-Luc Picard.

Essa caracterização de Laforge manteve a tradição de se colocar um personagem negro que não se limita aos estereótipos racistas que menosprezam suas capacidades mentais. Geordi era um prodígio da engenharia que salvava a Enterprise de colapsar em momentos críticos, mais ou menos como o fazia Scotty na série dos anos 60, mas bem menos falastrão do que o carismático escocês.

É interessante observar que a “raça” dos personagens em Star Trek, especialmente a partir da Nova Geração, não era mais motivo de qualquer menção ou relevância no contexto fictício utópico da série. Laforge nunca teve a cor de sua pele ou a textura de seu cabelo trazidos à tona como justificativa para qualquer tipo de conflito, por menor que fosse, caracterizado o contexto do universo ficcional como um ideal antirracista. Os conflitos raciais, em Star Trek, aparecem metaforicamente em situações de relação entre espécies de planetas diferentes.

Assim como Uhura, Geordi Laforge também encenou flertes inter-raciais, com a colega tripulante Christy Henshaw e com a cientista Leah Brahms. São tão poucas as vezes em que o vemos demonstrar esforços para flertar ou namorar que Geordi também acaba escapando do estereótipo que vê os negros como propensos ao galanteio, e ele se aproxima mais do estereótipo do nerd do que do afro-americano folgazão.

Worf (Michael Dorn)

O klingon mais querido de toda a franquia não é exatamente uma pessoa negra no sentido humano do termo, já que ele é alienígena, mas é interpretado por um ator negro, Michael Dorn, que incorporou Worf, um dos mais instigantes exemplos de hibridismo cultural interespécies em Star Trek.

Entre os klingons não há divisões do tipo “racial”, pelo menos não do tipo que humanos ocidentais fazem entre si, já que eles aparentam ter a mesma cor de pele (tanto atores negros quanto brancos já interpretaram klingons, e eles sempre usam uma maquiagem que colore a pele de um tom bronzeado.

Apesar de não ter trazido grandes contribuições para a discussão de relações raciais humanas para o universo da série, a presença de um excelente ator negro na franquia foi enriquecedora, e Michael Dorn conseguiu trazer à tona uma profunda complexidade nas relações interculturais entre humanos e klingons, encarnada no próprio Worf, com seus conflitos internos entre sua cultura natal e a de seus pais adotivos humanos, e entre os valores da Federação (e da Frota Estelar da qual é oficial) e os da sociedade klingon.

Guinan (Whoopi Goldberg)

Guinan apareceu a partir da segunda temporada de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. Interpretada por Whoopi Goldberg, grande fã da franquia e admiradora de Uhura/Nichelle Nichols (como visto acima), a personagem administra o 10-Foward, um bar/restaurante na Enterprise-D.

Uma das figuras mais misteriosas de Star Trek, ninguém sabe exatamente sua origem, mas sabe-se que ela tem pelo menos séculos de idade. Guinan é caracterizada como muito sábia e é capaz de surpreender os tripulantes da Enterprise com habilidades que ninguém imagina que uma estalajadeira possua. Possui alguns poderes cuja natureza não é bem compreendida pelos mortais que a conhecem, e estes tampouco imaginam a verdadeira extensão desses poderes.

Embora tenha caído num papel até certo ponto típico para personagens negros e tenha um forte exotismo normalmente associado à identidade negra, ela não deixa de ser extremamente humana em sua relação com outras pessoas, dotada de uma empatia que a aproxima muito de pessoas comuns e lhe permite atuar quando os esforços da conselheira Deanna Troi falham. Guinan mistura a estranheza de sua condição alienígena e semidivina com uma figura que se confunde com qualquer mortal humano. Além disso, possui um visual muito marcante que remonta ao afrofuturismo, valorizando elementos da identidade negra num contexto dominado pela estética branca.

Benjamin Sisko (Avery Brooks)

Comandante Sisko talvez tenha sido o marco mais importante na inserção dos negros no elenco da franquia, depois de Uhura. Até então, o modelo do líder em Star Trek estava representado por dois homens brancos, um norte-americano (Kirk) e um europeu (Picard), e a maioria dos capitães das naves da Frota Estelar seguem esse modelo. É também ao redor de Sisko que pela primeira vez vemos uma família negra em destaque em Star Trek: Ele tem um filho, Jake, e se encontra com o pai, Joseph, em momentos cruciais de sua trajetória.

A princípio dotado do título de comandante e designado para administrar a estação espacial Deep Space Nine, que deu título à série da qual é protagonista, Benjamin Sisko é promovido a capitão no decorrer da história e assume um papel central de liderança no combate a uma ameaça gigantesca contra a Federação e todo o Quadrante Alfa.

Novamente, as questões raciais humanas não são tema em Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine, ao menos em sua história principal. No entanto, Sisko possui um alter-ego da década de 1950, chamado Benny Russell, um escritor de ficção científica negro que sofre preconceito e tem dificuldade de publicar suas histórias, a não ser ocultando sua identidade racial. Quando ele concebe escrever uma história sobre um capitão negro que comanda uma estação espacial no futuro distante (ou seja, o próprio Benjamin Sisko), o editor reluta muito, pois considera que um personagem negro em posição de destaque será mal recebido pelo público.

Apesar de tudo, um ponto até certo ponto negativo na inserção de Sisko na história de Deep Space Nine é o fato de ele representar, mais do que todos os outros protagonistas da franquia, a ambiguidade ética da Federação. Por vezes extremamente correto em suas decisões, há momentos importantes na luta contra o Dominion em que o capitão se utiliza de meios escusos para garantir os fins almejados. Em alguns aspectos, ele pode se encaixar no modelo do príncipe maquiavélico, o que ao mesmo tempo pode significar que ele é tão humano quanto qualquer oficial branco, mas também que ele está mais sujeito às falhas humanas do que, por exemplo, o impecável Capitão Picard.

Tuvok (Tim Russ)

Assim como Worf, Tuvok não é um negro humano. Sendo vulcano, ele chama atenção pelo fato de todos os vulcanos que apareceram antes nas séries e nos filmes terem pele clara. Antes de Tuvok, os vulcanos em geral pareciam um estereótipo genérico dos orientais (Spock era interpretado por um judeu, e alguns outros de sua espécie foram interpretados por atores de ascendência asiática ou aparência que remonta a alguns estereótipos orientais – mas no cômputo geral a maioria dos atores que encarnaram vulcanos é branca).

O surgimento de Tuvok, interpretado por Tim Russ, apresentou aos espectadores uma realidade vulcana plurifenotípica, ou seja, deu a entender que a variação fenotípica vulcana é semelhante à humana. Aliás, Tuvok não tem apenas a pele escura, mas cabelos crespos e feições “africanas”.

Além dele, só me lembro de ter visto outros dois vulcanos negros: a esposa de Tuvok, que só apareceu uma vez, e um figurante de um episódio de Deep Space Nine. Isso demonstra a impregnação de uma implícita visão antropocêntrica-eurocêntrica de que o fenótipo branco é a manifestação comum da espécie, sendo os negros uma minoria, como que uma variação exótica. Apesar disso, como acontecia com Geordi Laforge, o fenótipo “negro” desse vulcano nunca foi mencionado, implicando a superação utópica do racismo nessa realidade futurista.

Travis Mayweather (Anthony Montgomery)

Jornada nas Estrelas: Enterprise é a mais medíocre das séries da franquia, e regrediu em muitos aspectos quando comparada com as séries anteriores. Os ideais veiculados se tornaram muito mais americanocêntricos, belicistas, antropocêntricos e em grande parte conservadores. Embora se veja aqui e ali ideias libertárias que lembram a proposta inicial de Gene Roddenberry, de forma geral Enterprise foi uma decepção.

E isso se reflete no personagem interpretado pelo ator mediano Anthony Montgomery. Travis Mayweather é muito apagado no meio do elenco predominantemente branco. Além de não ter força presencial (talvez pela combinação da mediocridade do ator com o menosprezo velado da produção), ele não atua de forma significativa nos eventos importantes da série e sua história é muito pouco explorada.

Infelizmente, depois do Capitão Sisko a importância dos negros em Star Trek só diminuiu e decaiu totalmente com a insignificância do alferes Mayweather, que parecia estar na ponte de comando para, junto da oficial de comunicações japonesa Hoshi Sato, compor a “cota étnica” do elenco, sem dar volume e profundidade ao personagem. Enfim, é lamentável que um personagem com um conceito tão interessante (ele nasceu num cargueiro espacial e aprendeu desde cedo a pilotar naves, sendo um exímio timoneiro) tenha sido desperdiçado dessa forma.

Race, the final frontier

Sempre senti falta de ver um personagem negro em Star Trek num papel importante que usasse o uniforme azul da divisão de ciências. Embora haja vários exemplos de indivíduos geniais em suas respectivas áreas, é como se, sub-repticiamente, se considerasse mais adequado a um negro ocupar uma posição “não-intelectual”, como oficial de comunicações, engenheiro, chefe de segurança, timoneiro e até a liderança, desde que esta se baseie mais em habilidades políticas do que naquilo que se convenciona chamar de “atividades intelectuais”.

Mas seria possível utilizar esses mesmos exemplos supracitados para se colocar uma questão muito pertinente a respeito do que é a inteligência. Esta assume várias formas diversas, e alguém que domine magistralmente uma área da engenharia (como Geordi) não é menos genial do que um erudito das ciências humanas (como Picard). São áreas diferentes do saber humano, para cujo domínio se exige esforço mental semelhante. Numa perspectiva de maior abertismo, Geordi, o nerd, é tão intelectual quanto Picard, o capitão filósofo. E é difícil imaginar que dos tripulantes da nave estelar Voyager haja alguém mais inteligente do que Tuvok, o chefe de segurança (ao menos numa perspectiva ortodoxa sobre o que é inteligência, que estou criticando aqui). Mesmo assim, seria importante ver os negros ocuparem uma variedade maior de profissões, para que no final não fique a impressão de que eles são “naturalmente” limitados em certas áreas.

Outra limitação na representação dos negros diz respeito ao caráter exótico de grande parte deles, como se eles fossem personagens fantásticos, dotados de uma certa magia e sobrenaturalidade. Geordi com seu visor é um ciborgue com ar misterioso. Guinan é praticamente uma bruxa ou cigana cheia de segredos encantados. Sisko é de certa forma um semideus, filho de um humano com uma “profeta” (ser alienígena que vive fora da temporalidade linear humana).

Vale lembrar um episódio interessante da Nova Geração, em que a tripulação da Enterprise-D se encontra com os Ligonianos (Código de Honra, 1ª temporada, 4º episódio). Estes são todos interpretados por atores negros que não usam nenhuma maquiagem que os diferencie dos humanos. Esses alienígenas podem ser, por um lado, uma resposta interessante às tantas vezes em que apareceram espécies humanoides cujos membros tinham todos a aparência de humanos brancos. Ao mesmo tempo, podem ser ser vistos como uma reafirmação inconsciente de que basta uma espécie ser toda igual aos negros humanos para caracterizá-los como não-humanos (já que, para a ideologia racista eurocêntrica, o modelo default de ser humano é o branco). De qualquer forma, é um episódio instigante que levanta diversas outras questões que contribuem para o debate sobre o racismo.

Star Trek deu um impulso importante para a valorização das minorias, mas ele conseguiu isso muito mais através do contato com alienígenas como metáforas das relações raciais do que dando destaque e relevância a personagens e atores pertencentes a minorias humanas. O espírito da série é favorável para a valorização de mulheres, negros, homossexuais e outros grupos discriminados, mas infelizmente não conseguiu radicalizar até um ponto satisfatório.

Olhando para a montagem que fiz para ilustrar o topo deste post, eu imagino uma tripulação toda formada por pessoas negras. Ora, temos ali um capitão (Sisko), uma oficial de comunicações (Uhura), um engenheiro-chefe (Geordi), um chefe de segurança (Tuvok) e um timoneiro (Mayweather). Pena que não há nenhum grande exemplo de médico (que usaria, a propósito, o uniforme azul) nas naves da Federação para administrar a enfermaria de nossa imaginária nave estelar afro.

Cotas raciais – parte 4

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Em 17 de março de 2010, comecei uma série de artigos sobre o tema das cotas raciais nas universidades brasileiras. Uma parte 2 foi publicada no dia 31 do mesmo mês e foi seguida de uma terceira parte no dia 29 de abril de 2010. As duas últimas foram praticamente respostas aos comentários da primeira parte, e na ocasião eu me “posicionava” contra as cotas, tentando, apesar de tudo, não desprezar de antemão todos os argumentos dos “racialistas” nem acatar todas as ideias dos “negacionistas”.

Desde então muita coisa mudou, muitos debates aconteceram, muita polêmica rolou, várias políticas públicas foram propostas, um controverso Estatuto da Igualdade Racial entrou em vigor e várias pesquisas mostraram o impacto da inserção de cotas raciais nas universidades. E minha posição também mudou.

Obstáculos para entrar na Academia

No processo de seleção para o ingresso nas universidades brasileiras, não há racismo direto. Não há discriminação racial no vestibular, apenas se discrimina a capacidade de se fazer uma determinada pontuação numa prova. Dessa forma, qualquer pessoa que não tenha recebido o preparo necessário (o que a escola pública deveria oferecer) ou que não tenha se preparado para fazer a prova do vestibular terá mais dificuldades de entrar na universidade do que aqueles que tiveram dinheiro para pagar uma escola particular ou um cursinho pré-vestibular.

Mas se não há racismo direto no acesso à universidade, há racismo indireto? Há. Uma vez que a maioria dos pobres é negra e que a maioria dos pobres e negros não podem senão frequentar as escolas públicas, que não os qualifica para a seleção do vestibular, apenas uma minoria de negros entra na universidade. Se tivermos em mente, ainda, o sutil mas muito sério preconceito que temos a respeito dos negros ou das pessoas que têm alguns traços de ascendência africana, segundo o qual essas pessoas são menos capazes do que os brancos, crença compartilhada inclusive por grande parte dos negros, há uma dificuldade a mais: elas têm, em geral, menos autoconfiança em sua capacidade de passar numa prova, muito menos no vestibular, que é cercado de uma aura sagrada e causa enorme tensão nos candidatos. Certa vez perguntei a um jovem quilombola que estava terminando o Ensino Médio se ele pretendia fazer vestibular. Sua resposta foi:

Vou fazer, mas a gente aqui não tem muita chance de passar, não.

Esse é apenas um caso ameno entre as tantas dificuldades de os negros cursarem uma universidade. Não podemos ignorar que há uma grande quantidade de pessoas pobres (a maioria das quais negras) que não têm oportunidade de estudar o ensino fundamental, muitas vezes porque as vicissitudes da vida os obrigam a trabalhar em tempo integral desde cedo.

Não devemos menosprezar o impacto que essa exclusão generalizada tem sobre a maneira como nossa cultura tende a representar os negros, como se fossem incapazes de adquirir as formas socialmente prestigiadas de conhecimento ou, numa perspectiva neoliberal, individualista e que endossa uma meritocracia acrítica, fossem preguiçosos e não conseguissem entrar na universidade por falta de interesse e/ou esforço. As pouquíssimas exceções não servem para provar essa perspectiva a não ser que esta seja imbuída de um teor racista.

Sim, somos racistas. E as discussões sobre as cotas raciais devem se voltar para a reflexão sobre os possíveis meios de se atenuar o racismo no Brasil. A proposta de cotas é uma resposta ao problema do racismo. Este não surgiu do nada na cabeça dos favoráveis às cotas. Não só existe racismo no Brasil, como ele está ligado à coincidência entre a distribuição racial e social, ou seja, a maioria dos pobres é negra, “parda”, indígena, a maioria dos ricos é branca. Muitos dos que se opõem às cotas raciais desenham o retrato de um Brasil bem menos racista do que pensam os pró-cotas. Propõem a “solução” das cotas sociais, que em si mesma é válida como política de ação afirmativa, mas não substitui (e não exclui) o valor simbólico de uma política cujo foco é o combate ao racismo.

O vestibular e a vocação acadêmica

Não é possível falar de meritocracia numa sociedade que não dá condições iguais para que todos possam competir igualmente. Não faz nenhum sentido apregoar a ideologia do esforço individual como única forma legítima de competição num país cuja história recente excluiu um gigantesco contingente populacional dos recursos necessários para “ser bem-sucedido”. Embora haja exceções, a maioria esmagadora das pessoas que “se dão bem” já nasceram em famílias com um mínimo de condições financeiras e capital cultural necessários para frequentar uma escola até o fim do 2º grau, prestar vestibular, cursar uma universidade e conseguir um emprego. Uma das formas de se atenuar a desigualdade desse processo seria instaurar de uma vez por todas um sistema educacional público (no mínimo) bom. Mas os efeitos disso se fariam sentir a longo prazo e não alcançariam o fundo do problema urgente que as cotas raciais tentam combater de imediato, que é o racismo.

Um dos argumentos “negacionistas” diz que instituir cotas raciais implica constituir uma divisão racial que não existe na realidade ou que, se existe, é muito sutil e difusa. Para eles, nomear as “raças” dos candidatos ao vestibular significaria reforçar o racismo ou até mesmo criar um tipo de racismo que não existe no Brasil.Porém, os conflitos raciais (quando há) entre cotistas e não-cotistas nas universidades não são uma consequência da criação das cotas. Eles são um reflexo de um conflito pré-existente. O preconceito que sofrem os cotistas negros poderia ser explicado por um suposto oportunismo da parte deles, uma acusação de que eles querem levar vantagem em cima dos outros candidatos que não precisam de (ou que não podem se qualificar a) cotas. Mas os cotistas estão exercendo um direito oferecido pelo Estado e a maioria deles está tentando com isso conseguir condições de cursar uma universidade, para o que o mero esforço individual geralmente não se mostra suficiente.

Se os conflitos raciais se evidenciam quando pessoas negras entram nas universidades através do sistema de cotas, não é que eles estejam sendo engendrados pela “cisão racial” desse sistema. O racismo é ubíquo e, nas situações cotidianas, parece muitas vezes não existir, estando na verdade ostensivamente oculto. A aparente harmonia (“democracia”) racial no Brasil é uma paz relativa que só se mantém enquanto negros, brancos, índios etc. se mantêm “em seus lugares”, ou seja, nas posições de poder tradicionalmente instituídas pela nossa história recente de dominação europeia, extermínio de índios e escravidão de negros. Quando essa “ordem” implícita é ameaçada, o conflito racial se mostra. Quando os privilégios historicamente construídos dos brancos são ameaçados pela presença negra nas universidades, emerge o racismo que estava velado.

Os anticotas também gostam de argumentar que conceder vagas para indivíduos que não tiram boas notas no vestibular é um risco para a qualidade do corpo discente das universidades. Mas a capacidade de se resolver a prova do vestibular não garante que o candidato terá condições ou vocação para seguir a carreira acadêmica. É notório que muitos universitários que passam no vestibular desistem em algum ponto da graduação. E importa salientar que a desistência entre os cotistas é menor do que entre os não-cotistas.

Ademais, tem sido demonstrado que, em média, o desempenho acadêmico de cotistas é equivalente ao dos não-cotistas. O que nos leva a questionar se o vestibular é realmente um meio absolutamente seguro de se averiguar quem tem condições de cursar bem uma faculdade. A vocação para a carreira universitária não se atesta pelo exame do vestibular, e penso que, mesmo se tivéssemos que insistir num sistema meritocrático, o vestibular deveria ser revisto ou substituído por outro meio.

Meritocracia

Da maneira que as coisas estão atualmente, o vestibular é uma espécie de loteria. Aqueles que têm a sorte de ter frequentado uma escola que os prepare para tirar uma boa nota são agraciados com uma vaga na universidade. Lembremos que até os cotistas precisam tirar uma nota mínima para passar, o que implica, inclusive, que todos os que entram na universidade estão num nível equivalente, não havendo diferença tão significativa entre os desempenhos de cotistas e não-cotistas.

O fato é que, uma vez que o vestibular não é um meio seguro para se averiguar a adequação dos candidatos à vida de pesquisas acadêmicas, ele não faz muito sentido enquanto instrumento meritocrático. A meritocracia do vestibular não tem nada a ver com a vocação acadêmica dos candidatos, e tem mais a ver com receber um ingresso para visitar um museu por ter sido bem-sucedido numa competição de xadrez.

As cotas raciais são uma proposta emergencial com o objetivo de atenuar os efeitos do racismo entranhado em nossa cultura. De fato, oportunizar a alguns negros (é bom que se note que, apesar de tudo, os beneficiados das cotas são uma minoria da população) a chance de sair das condições precárias em que viveram seus pais ajuda a tornar visível que a cor da pele não torna uma pessoa inepta. Mas ainda é necessário que essa política seja acompanhada de uma ostensiva reforma do ensino público, da erradicação das desigualdades sociais e trabalho infantil, além da implantação de projetos culturais de valorização da herança africana em nossa cultura material e imaterial e em nossa biologia.

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A Metamorfose

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ArquivoExibirFranz Kafka nasceu em Praga, em 1883, quando a cidade fazia parte do Império Austro-Húngaro (e posteriormente faria parte da Tchecoslováquia). Ele nasceu numa família judia e sua língua materna era o alemão. Sua carreira literária começou com a publicação de contos, mas ele ficaria mais conhecido por seus romances, especialmente O Processo, e suas novelas, com destaque absoluto para A Metamorfose (Die Verwandlung), escrita em 1912 ao longo de apenas 20 dias.

Kafka pretendia publicar A Metamorfose, junto com outros dois textos, numa coletânea chamada Filhos (Söhne). Posteriormente, tentou juntá-la com outras duas obras, chamando o conjunto de Punições ou Castigos (Strafen). “Filho” e “castigo” servem como pistas para se entender o tema central dessa obra, pois, como veremos adiante, trata-se de um personagem carregado de culpa e numa relação conflituosa com a família, especialmente o pai. Este conflito era marcante na própria vida de Kafka e inspiraria quase toda sua obra.

Sinopse

Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

Essa transformação de um jovem caixeiro viajante num inseto asqueroso implicará na metamorfose de sua família e da rotina da casa onde mora. Por não conseguir se virar para sair da cama, Gregor se atrasa para pegar o trem e ir ao trabalho, fazendo com que o gerente venha buscá-lo. No entanto, o estado de Gregor é repugnante demais para que ele volte a trabalhar. Sua irmã, muito dedicada, passa a arrumar o quarto de Gregor e a deixar comida para ele, mas o irmão fica confinado a seus aposentos e não interage mais com ninguém (nem sequer consegue falar mais).

O resultado dessa desgraça é que a mãe, o pai e até a adolescente irmã passam a trabalhar para sustentar a família, o que antes era obrigação apenas de Gregor. Nesse processo, o pai Samsa deixa de ser um inválido que mal podia andar e passa a ser um empregado exemplar. Gregor se torna um fardo moral para a família, e em determinado momento abdica de ser aceito pelos outros e aceita sua nova condição, comendo pão estragado (que é a única coisa que lhe apetece o paladar agora) e subindo pelas paredes de seu quarto.

Quando a mãe decide ajudar a irmã a retirar os móveis, agora inúteis, do quarto de Gregor, para que este fique mais à vontade, a sra. Samsa, que até então não havia visto a nova forma do filho, se depara com este na parede, escondendo uma moldura com a imagem de uma mulher, que ele havia recortado de uma revista, único objeto que ele não admitia ser retirado do recinto.

Essa situação desencadeia a chegada do pai ao quarto, que inicia um bombardeio de maçãs sobre o filho e acaba encravando uma fruta atrás da cabeça de Gregor. Este evento representa o clímax da tragédia de Gregor Samsa, fazendo-o retirar-se a um canto de seu quarto e eventualmente desistir da vida e morrer em paz consigo mesmo. Para a família, o fim de Gregor é um alívio e o começo de um próspero futuro, no qual a filha, irmã de Gregor, passará a ser o centro de tudo.

Moralidade familiar, Capitalismo e contradições modernas

A Metamorfose pode ser lida como uma alegoria de diversas angústias humanas recorrentes na vida de qualquer indivíduo. De modo geral, podemos entender a transformação de Gregor como a estigmatização da pessoa que foge das expectativas de seu entorno social. Quando alguém extrapola os limites morais aceitáveis para sua condição socialmente pré-determinada, ele se transforma num monstro e nunca mais será visto da mesma forma pelos outros ao se redor.

Entretanto, os detalhes da fábula de Kafka podem nos remeter mais fortemente a uma crítica das transformações sociais, culturais e econômicas da modernidade industrial. Nesse momento de transição, os valores familiares tradicionais ainda são muito fortes, mas esbarram com as exigências de uma economia implacável cujo objetivo é o enriquecimento dos empresários, às custas do sacrifício de corpos e mentes dos trabalhadores. Neste âmbito, a felicidade da família é atestada pelo sucesso econômico de seus membros.

A relação de Gregor com sua família se constitui numa espécie de parasitismo em que o filho provê tudo à família. Pai e mãe estão desempregados e sem perspectiva de voltar a trabalhar. A irmã adolescente, ainda em formação, se acomoda nessa situação e procrastina sua carreira pessoal. Os valores familiares tradicionais (“tudo à família”) obrigam Gregor a se manter trabalhando para sustentar seus parentes, e ele pouco reclama, reprimindo sua frustração.

Nesse capitalismo emergente, as exigências do mercado são prementes. Um trabalhador não pode se dar ao luxo de se distrair com futilidades que o desviem dos esforços para conseguir lucro, e Gregor comete esse erro ao alimentar, mesmo que apenas por uma noite, pensamentos libidinosos. Ele recorta a foto de uma mulher e a emoldura, tem sonhos intranquilos (talvez tenha dormido pouco por ter se masturbado e sofrido com pesadelos de culpa) e acorda mal, atrasando-se para o trabalho.

Como se já não bastasse a acusação de preguiçoso que viria de seus empregadores, Gregor sofre também o estigma de desnaturado, pois sua indolência representa um prejuízo para a família. As duas máculas promovem sua transformação num pária completo, um inseto monstruoso, proscrito tanto pela moralidade familiar tradicional (seus pensamentos libidinosos também são tidos como uma traição) quanto pela nova ética capitalista.

A superexigência das minorias

Extrapolando a interpretação mais direta apresentada acima, podemos entender a metamorfose de Gregor Samsa como uma metáfora da estigmatização das minorias que tentam se inserir em posições tradicionalmente ocupadas pelos grupos hegemônicos. Se Gregor fosse um negro numa sociedade branca pós-escravocrata, por exemplo, poderíamos imaginar o quanto ele é cobrado pela empresa e pela sociedade, além do tamanho esforço que ele precisa fazer para não incorrer na mínima falta em seu trabalho.

Se por um lado os seus colegas brancos se demoram tomando café da manhã na estação de trem e nem por isso recebem admoestações do contínuo ou do gerente da empresa, Gregor é instado a explicar seu atraso de 15 minutos (na única vez em que ele se atrasou), sob pena de ser acusado de todos os estigmas relacionados aos negros: vagabundo, preguiçoso, inepto, estúpido, depravado etc. Para a família e para a empresa, Gregor cometer um deslize é uma prova de todos os preconceitos atribuídos aos negros, e serve para evidenciar seu status social de “inseto”.

Gregor poderia também ser um homossexual, “praticante” de uma preferência sexual “desviada”, “não-natural”. São marcantes os momentos em que as testemunhas ressaltam a imoralidade da condição do protagonista, a “depravação”, a “vergonha”. Da mesma forma que os negros, os homossexuais numa sociedade homofóbica sofrem com as exigências da heteronormatividade e todas as suas falhas profissionais são atribuídas a sua “escolha” sexual.

Qualquer que seja o grupo minoritário a que pertença Gregor, qualquer que seja a etnia marginalizada, identidade sexual ou de gênero discriminada, sexualidade fora do padrão ou deficiência física menosprezada, ele é vítima de uma cultura que sacrifica seu corpo e sua alma, mumificando-o numa carapaça de quitina e confinando-o a um cubículo-túmulo que permita a sua família esconder, até certo ponto, o motivo de sua vergonha.

Trajetória de um fracassado

O caminho de Gregor através da narrativa de A Metamorfose o leva a um trágico fracasso. Sua condição de inseto é relativamente aceita por ele logo de início, resigna-se como se já estivesse esperando acontecer. Passando por todo o processo de demissão, desprezo pelas empregadas da casa e assunção pela família de que Gregor é um fardo, ele recebe a desaprovação dos três inquilinos que vêm morar na casa, símbolos da conciliação entre sucesso e família (infere-se que são irmãos), o que a família Samsa jamais conseguiria senão depois da morte de Gregor.

A queda de Gregor abala a estrutura de parasitismo na qual ele era sugado e este se torna o parasita. A irmã, a mãe e o pai até há pouco tempo inválido passam a trabalhar, e este último se torna uma figura imponente, o arquétipo do pai poderoso que toma para si as mulheres da casa, a esposa (mãe de Gregor) e a filha (irmã de Gregor), antes sujeitas ao filho. Num simbólico conflito edipiano, Gregor é enfrentado pelo pai, que reivindica o papel de provedor e a “posse” das duas mulheres. Diferente de Édipo e da maioria das histórias que seguem este esquema freudiano, Gregor fracassa diante do pai. A mãe, ao ver o filho ferido, se abraça ao vencedor vestida em trajes sumários.

Samsa remete a Sansão, o nazireu superpoderoso que se tornou um fracassado ao se deixar levar pelo amor de uma mulher. Assim como aconteceu com Gregor, os desejos pessoais de Sansão o levaram à desgraça. O herói hebreu se tornou um escravo dos filisteus, numa condição de total derrota. Mas tanto Gregor quanto Sansão se redimem em suas mortes. Enquanto este se mata junto com seus captores (derrubando as colunas do palácio em que estava e o fazendo ruir sobre todos), aquele renuncia a tudo para que a família se reconstrua feliz, unida como uma família tradicional e bem-sucedida nas modernas relações econômicas.

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Cogumelos e koopas

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"Toad" (um cogumelo "plebeu"), Mario (o herói) e a Princesa Cogumelo

“Toad”, um cogumelo “plebeu”, Mario, o herói, e a Princesa Cogumelo (tela de abertura do jogo Super Mario 2)

Na série de video games Super Mario, o Reino dos Cogumelos  (Mushroom Kingdom) é habitado principalmente por uma raça de cogumelos antropomórficos, conhecidos simplesmente como cogumelos (toads). Na trama das histórias desses jogos, o Reino dos Cogumelos é geralmente alvo de invasão dos koopas, cujo líder é o Rei Bowser Koopa.

A relação entre os cogumelos e os koopas se caracteriza como um conflito político, mas assume também um aspecto étnico-racial. Enquanto os cogumelos são caracterizados normalmente como homenzinhos cuja cabeça lembra a coroa de um cogumelo, os koopas são retratados como criaturas reptilianas, semelhantes a tartarugas.

Percebemos, no jogo Super Mario World, por exemplo, que os koopas se organizam como um clã ou uma família. Se por um lado há a tropa koopa composta por uma classe inferior de koopas, de aparência simples e sem grandes poderes especiais, há os koopas de elite, como uma classe nobre, cujos membros possuem espinhos nas carapaças e poderes especiais, como cuspir fogo e subir paredes. Koopa aparece como um sobrenome dessa classe nobre: Bowser Koopa, Ludwig von Koopa, Wendy Koopa e outros mais. A relação entre esses membros de elite não é apenas política, mas de parentesco, como se eles fossem uma família real, com direitos naturais para dominar as outras. É uma visão tradicional comum que legitima e justifica a dominação de alguns grupos por outros.

A família "nobre" dos koopas, no jogo Super Mario World

A família “nobre” dos koopas, no jogo Super Mario World

Temos, de um lado, os koopas como um povo conquistador e tirano, cuja organização se assemelha à de um império. Do outro lado, os cogumelos se organizam numa pacata monarquia que mal consegue se defender dos invasores e que dependem de um herói (o encanador Mario e, por vezes, seu irmão Luigi) para libertá-los.

Vemos aí uma representação comum da oposição entre um regime de poder legítimo e outro ilegítimo. Abordando o tema politicamente, os cogumelos “vivem em paz” sob uma monarquia cujo regente é bondoso e cuja herdeira, a Princesa Cogumelo (Princess Peach ou Princess Toadstool) é louvada por sua fragilidade e bondade. Já os koopas vivem sob o despotismo do cruel Bowser Koopa, poderoso e temido.

Mas a política se confunde com racismo. Isso fica mais claro na analogia entre a relação de cogumelos e koopas e a relação entre uma sociedade ultracapitalista (como os EUA) e uma nação ditatorial (como o Iraque sob Saddam Hussein, por exemplo). De modo geral, o Ocidente branco se considera mais civilizado do que o Oriente árabe, e, na fantasia ocidental, um regime muçulmano seria imposto pelo terror totalitário.

No entanto, uma observação atenta das relações de dominação revela que qualquer tipo de sociedade com Estado é a subjugação de uma classe por outra. No caso do Reino dos Cogumelos, vemos ainda mais racismo no fato de os regentes serem humanos, como se os cogumelos fossem uma raça colonizada por outra, considera superior, mais virtuosa e capaz de organizar uma sociedade avançada. Também não é à toa que o herói do Reino dos Cogumelos seja um ser humano (Mario).