Frigatriscaidecafóbica

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Foi num dia como este que ela se deparou com o abismo dos olhos do gato. Não foi um encontro qualquer, não só porque se assustou pelo inesperado deparar-se com a criatura, nem somente por causa da assimetria cromática das íris do animal, mas porque do fundo das retinas deste faiscava algo fantasmático.

O olho verde, o da esquerda, era uma roda com 8 setas apontadas para fora, e emanava uma energia entrópica e muito forte, como se aquela pupila obscura fosse o manancial do próprio Caos. O azul, direito, era sulcado com 13 raios, e a luz do sol poente parecia fazer com que o disco do olho girasse, uma Roda da Fortuna que prometia o inaudito naquele anoitecer de lua cheia, embora fosse o que ela menos quisesse depois de uma semana exaustiva, mas era o que ela mais necessitava, apesar de ainda não saber disso.

Tudo isso ela observou no único segundo em que esteve diante do felino, que rapidamente pulou da janela em que estava empoleirado e correu como um feixe de luz branca para dentro de um beco próximo. Sem pensar demais, ela seguiu o bicho, adentrando o estreito corredor entre duas casas, quase perdendo de vista sua presa. Mas conseguiu avistar a ponta alva da cauda sumindo por cima do telhado.

Prontamente ela começou a subir o andaime que ligava os três andares da casa à sua direita, e foi tão afoita que não percebeu que deixara cair um dos sapatos, só sentindo falta dele quando alcançou o teto, só tendo tempo de ver o gato pular para o telhado de outro prédio, o que rapidamente ela também fez, para o que teve que abandonar resolutamente seu outro sapato. Sem compreender como foi capaz de saltar aquele abismo, achou ainda mais difícil entender como sentiu em que direção o gato correra, tendo ele desaparecido de sua vista.

Mas para descer pelo poste que a levaria até a entrada do terreno baldio em que ela tinha certeza que o diabrete se escondera, teve que largar, sem pestanejar, a bolsa. O céu já escurecera um bocado e ficou difícil se localizar o meio daquele mato denso. Ela parou um instante para se acostumar à penumbra e começou a ver pequenas luzes ao seu redor. Nunca vira vaga-lumes por essa região antes. Porém, não estava vendo senão os olhos de vários gatos que a cercavam.

O susto se arrefeceu aos poucos ao perceber que os animais não estavam se aproximando dela, como pensou a princípio, mas se mantinham posicionados num círculo no exato meio do qual ela se encontrava. E nisso o pavor começou a tomar conta dela. Ela girou sobre os calcanhares e percebeu que havia ali 12 felinos de várias cores, nenhum igual ao outro, formando um círculo perfeito, cada um deles como uma das marcações de um relógio. Repentinamente ela se perguntou onde estava o gato branco que a trouxera ali…

…quando ele surgiu do nada, caminhando despreocupadamente até ela, miando algo que parecia uma frase balbuciada por um moribundo. Um a um, todos os gatos começaram a miar, e ela se sentiu no meio de uma orgia felina agonizante que a fez girar várias vezes, vendo as 26 retinas luminosas formando estrelas cadentes ao seu redor e desfalecendo no exato lugar em que pisava. O gato lambeu seu nariz e sua testa. Fitou seus olhos assustados e piscou, tranquilizando-a. Então aconchegou-se no regaço dela e os dois dormiram enquanto os outros 12 se dispersavam na noite.

Ela sonhou que era uma gata branca que tinha o Sol num olho e a Lua no outro.

[Continua…]

Veneno do Diabo

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Havia um homem cuja origem todos desconheciam. O que todos sabiam é que usava roupas pretas e tinha um sorriso contagioso. Seu modo de andar saltitando e dançando também o fazia muito carismático para com as crianças. Diz-se que os padres não se davam muito bem com ele. Na verdade, os sacerdotes não gostavam da figura de botas altas, colete, camisa e cabelos longos pretos ao redor de um rosto pálido e vívido, olhos escuros e cheios de uma luz maliciosa. Quanto a ele, apenas sorria para os padres quando passava por eles.

Pois bem, uma clara manhã ele apareceu numa cidade cujo nome se apagaria de sua memória, mas cujos habitantes ainda se lembram de sua passagem por lá. Um fato curioso é que nenhum adulto nota sua presença a não ser quando ele deixa a cidade por onde passa. Mas as crianças e algumas pessoas grandes com coração sensível o percebem.

Sabe-se também que coisas estranhas acontecem nos lugares que recebem sua visita, e ninguém pode fazer nada a não ser arcar com as loucuras que ele deixa como rastro. Outro problema é que as pessoas só sabem quem é o culpado depois que o estranho deixa o lugar. E não foi diferente na cidadezinha sobre a qual vos conto.

— Lá vem ele! — gritou uma das crianças espalhadas pela rua, e todas correram para se divertir com o homem esquisito, alto e elegante, que andava de modo divertido.

— Seus olhos brilham!

— Ele anda dançando!

— Ele ri engraçado!

— Qual é o nome dele?

— Truão, truão!

— Ele conta histórias?

— Chamai-me de Truão, se quiserdes. Todas as histórias do mundo eu conheço e posso contar
até cansar vossos ouvidos.

E sentou-se numa caixa que uma menininha lhe trouxera, para contar-lhes os mais fantásticos e maravilhosos contos, tão cheios de coisas que seus pais considerariam feias e imorais que, quando se difundiam, eram chamados “contos de sátiros”, para diferenciar dos contos de fadas. (Aliás, tais contos eram das coisas que transformavam a vida da população sobre quem ele deixava seu legado.)

Ao meio-dia, as crianças se dispersaram para o almoço, já tão fatigadas e extasiadas pela infatigável voz de Truão que voltaram às suas casas cambaleando. Foi nesse momento que ele notou um infante acocorado num canto da rua, com a cabeça escondida entre os braços.

— Que tens tu? — sussurrou-lhe ao ouvido, enquanto punha a mão sobre a cabeça do cabisbaixo menino. Ao levantar a cabeça, este mostrou os olhos repletos de lágrimas.

— Eu odeio minha mãe e meu pai!

— Ora, calma — disse-lhe com voz tranqüilizante. — Explica-me melhor isso. Por que odeias tua mãe?

— Por que ela me deixou, e papai disse que ela nunca voltará.

— E é por isso que odeias teu pai?

— É, e ele nunca mais me deixou brincar com os sobrinhos de minha mãe depois que ela morreu.

— Dizes que odeia tua mãe. Tu a amavas, não?

— Sim.

— Mas não chores! Diz-me, o que mais do que qualquer coisa gostarias de fazer?

— Eu queria ser um pássaro, para voar até o alto daquela torre e ver a filha da rainha — disse ruborizando.

— E por que não te transformas numa águia e visitas a princesa?

— Já o fiz enquanto dormia.

— Qual é teu nome?

O menino deu um sorriso, fitando os olhos consoladores de Truão.

— Meu nome é Aquiles. Tu és Truão, não?

— Assim podes me chamar.

Truão levou Aquiles para os lados da floresta e contou-lhe sobre as árvores e os animais, sobre os humanos e de como eles abandonaram a Mãe Natureza para criar seus próprios destinos. À tarde Aquiles tomou da bebida de uma botelha que Truão trazia pendurada ao cinto. Este ainda lhe contou histórias sobre países onde as pessoas dormem deitadas, lugares onde se dorme no chão ou em camas, mesmo em pé e até montadas em cavalos. Ao som dessas palavras sobre o sono, Aquiles dormiu tranqüilo sob as folhas de altas árvores e sob estrelas que eram como sonhos. Seu cobertor era o vento frio que a Noite sopra, e seu leito o colo da Terra.

À noite, quando Aquiles dormia, Truão colheu das fezes que o garotinho fizera ao anoitecer e as misturou com ervas de chá que trazia num saco.

Quando Aquiles acordou, encontrou Truão sorrindo para ele e esquentando uma garrafa de chá. Este despejou um pouco numa caneca enquanto aquele se levantava.

— Bebe!

O pequeno olhou com curiosidade para a expressão jovial e ao mesmo tempo severa daquele estranho homem calçando altas botas pretas e roupas também pretas e fora de moda. O menino tomou da mão de Truão a caneca que este lhe oferecia, sorriu e entornou garganta a dentro. Não havia almoçado no dia anterior e estava com muita fome, mas a porção de chá o saciou.

Truão se virou para juntar suas coisas e, quando voltou a olhar para Aquiles, este se tinha transformado numa águia. Era a águia mais linda que jamais vira, jovem mas possante e com penas lustrosas que refletiam a luz do Sol.

Então o pássaro, livre para ver o mundo, voou para o alto da torre e encontrou a princesa, que tinha a sua idade. Ele lhe deu uma fruta estranha que trazia no bico e, ao comer, ela passou a entender a linguagem da águia. A partir daquele dia Aquiles visitaria a princesa todos os dias, e os dois se apaixonariam. Quando a rainha soube disso e quis caçar a águia, Aquiles deu à princesa um pouco do chá que Truão lhe preparara naquela manhã, e à noite e os dois voaram para o alto de uma montanha, suas penas lustrosas refletindo a luz da Lua cheia, para nunca mais serem vistos pelos súditos da dominadora rainha e seu rei opressor.

Mas, naquela mesma manhã, Truão encontrou um grupo de ciganos dançando e se juntou a eles em sua exultação.

— És um sátiro! — gargalhou uma jovem, ao som dos risos das poucas pessoas entre eles que enxergaram a figura negra e fulgente do inusitado homem.

Ele tomou a rua, saltitando como sempre fazia, e foi seguido por alguns dançarinos e por crianças. A todos Sátiro ia deixando para trás, parecendo tomar seu rumo quando, de repente, parou no chão e se virou para um ciganito que se aproximava correndo. Pegou-o no colo e o pôs sobre os ombros, deixando os nômades viverem suas vidas alegres.

Foram assim andando até quase os limites da cidade, parando ao lado da igreja para descansar. Como Sátiro nunca tivesse fome, apenas ofereceu um gole de sua garrafa ao pequeno cigano, pois já era hora do almoço. Enquanto, sentados, aproveitavam a sombra que o Sol deixava como rastro, Sátiro perguntou:

— Diz-me, pequeno, como te chamas?

— Meus pais me chamam de Pã.

— Ora, ora! Eu vejo em teus olhos o brilho da Lua e do Sol, a serenidade do mocho e o ímpeto da águia, a ferocidade do leão e a argúcia do lobo.

— Eu queria ser como tu.

— Ora, o que vejo aqui! Respondes-me antes que eu faça a pergunta. Muito vivo é teu espírito, Pã.

Pã adormeceu no colo de Sátiro e repousou até o entardecer, quando as pessoas da cidade se dirigiam à missa.

O badalo do sino acordou o menino, que sorriu para seu novo amigo e recebeu um sorriso de volta.

— Vamos — disse-lhe Sátiro.

E se foram, passando à frente da porta do templo, de mãos dadas, uma grande figura de preto e um pequeno em vermelho. Avistaram o padre e lhe sorriram. Este olhou de soslaio, desconfiado, para a dupla estranha, e murmurou:

— Diabo!

Quase todos os sacerdotes tinham a mesma reação.

Foi ao pôr-do-sol que o Diabo, com seu novo amiguinho, deixou a pequena cidade, à vista de olhares estupefatos, perplexos mais por uma emanação estranha daquele inusitado personagem do que pela situação.
Passaram a noite na floresta. Pela manhã, Pã ajudou o Diabo a preparar seu chá especial.

— Não o quero — disse-lhe o menino.

— Não é para ti.

E tomou de um gole. E sumiu dentro das roupas, e destas saíram uma coruja, um corvo preto e uma gata branca. O corvo voou para longe, crocitando “Pã!” A gata correu de volta para a cidade. E a coruja falou ao garoto:

— Daqui em diante, serei teu guia. Ajudar-te-ei a sobreviver, a aprender, a ser como eu. No momento certo, deixar-te-ei.

Para aquela criança ele tinha planos diferentes.

— Tu és especial, sabes disso?

Alguns anos depois, uma figura alta, morena, em roupas vermelhas e atitude alegre, com expressão jovial e contagiante, seria vista de tempos em tempos, a deixar um rastro de loucuras inusitadas por onde passasse.


Este conto foi escrito em 2002 e é inspirado num sonho.

Deleite condensado

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Erguia-se dos degraus transpostos. Como se do alto pudesse possuir mais que o horizonte. Desejava ser único em ponto mais elevado: valia-se da circunferência de suas búfalas narinas. Abertas as cartilagens, todo corpo – feminino – fazia-se carne. O seu: abismo de anseios. Bastava que milímetro de flâmula penetrasse nas pífias cavidades para fazer vibrar os músculos: dos menores e ingênuos aos engrandecidos de vontade.

Por vezes tão forte a vibração, de fazer estremecer todos os degraus, de ameaçar a apoteose. Em estado quase convulso – saliva crespa acumulando na quina da boca, malha viscosa de suor em segunda pele – o homem sequer pensava em percorrer o caminho do chão. Investia energicamente na conquista, lançando do alto o melhor de si sobre o corpo desejado: jatos robustos de urina alaranjada, malcheirosa e quente; gomos salgados de suor e saliva; fezes pastosas; consummé de espermatozoides em alvoroço.

Rebaixadas a alvo, as mulheres se desviavam, quando podiam, dos mísseis-excrementos. Entrincheiravam-se em buracos, arbustos. Apagavam a imagem de seus corpos já perfumados de adrenalina e quase sempre aguardavam o cessar-fogo. Acumulados instantes frustrados, o homem recolhia-se em torno de seu próprio ventre, adormecendo pensamentos e músculos. Deste ponto, quase sempre acontecia: dos corpos vitimados escaparem e de urubus e decompositores surgirem em volumosas esquadrarias.

Os bichos se alimentavam de toda feiúra malcheirosa. Consumidos os minutos, nem réstia de fezes, de urina, de esperma. Até as espessas camadas de suor e saliva eram meticulosamente removidas. Depois partiam sobreavisados de iminente retorno. Aquele era local de passagem. De outro modo as mulheres, uma vez ovacionadas pelo homem – na dicromática visão do bufalino – não mais regressavam: não as mesmas.

Por não permitir a mortal hipótese de descer os degraus custosamente vencidos, alimentava-se de seres vivos: com asas. Aquele que por tolice se aproximasse de sua cabeça imediatamente era capturado por voluptuosa língua e ensacado no estômago: borboleta, gafanhoto, esperança, cavalo-do-cão, mutuca, abelha, marimbondo, muriçoca, pardal, anu (branco ou preto), morcego, coruja, pombo, ziguezague, cigarra, percevejo, vagalume, rola-bosta, bicho-pau.

Em dia de pouco movimento, sem legitimar seus próprios pensamentos, sentia discreta alegria – mas desconhecia a razão. Por certo – dele não partira a especulação – alegrava-se pela ausência de obrigação: sem mulheres, sem investimentos, sem excrementos, sem frustração, sem dor, sem sono, sem recomeço: sem comida, sem vigília, sem flâmula.

Em dia como esse, dessentiu a presença de ser mitológico: metade menina, metade mulher. O corpo-potencial-aperitivo aproximou-se da escadaria, sentou-se no primeiro batente. Tão macio seus movimentos, que sequer um joule foi transferido dos quadris aos degraus. Em sequências de gestos antigravitacionais, recolheu miudezas no chão: partiu com as mãos abarrotadas de coisinhas.

Tantos artefatos surgiram da primeira jardinagem, que resolveu voltar. E voltar. E voltar. Dia-após-dia. Sua presença naquelas paragens inibia outras presenças: mulher nenhuma fazia-se transeunte.  Sem mulheres: sem vigília, sem flâmula, sem investimentos, sem excrementos, sem frustração, sem dor, sem sono, sem recomeço: sem comida.

Tão forte a ausência de matéria viva ensacada, que pela primeira vez – desde alcançado o ponto mais elevado da escadaria – desfez-se da discreta alegria do recesso, desgostou de olhar distante e com carga elevada de sofrimento, angulou o pescoço para baixo. As carnes enfraquecidas quase despencaram ao registrar a presença do corpo-aperitivo.

Concentrou sua energia na face, de onde surgiram dois colossais buracos enegrecidos. Sorveram toda matéria volátil. Daquele corpo não sentiu nem migalha de cheiro. Uma vez mais reuniu suas forças e aspirou o invisível com tanto vigor, que o chão foi seu único alento. Nada. O corpo aperitivo era estéril de odores. Respiração ofegante, coração à galopes, o homem, ainda assim, ergueu-se. Orgulhoso de sua tenacidade, investiu no galanteio. Mas não houve urina, suor, fezes, esperma: estava fraco.

O corpo-alvo resistia aos apelos. Distraída apenas pensava em encher outra vez mais as mãozinhas. É então que o resquício de homem lança-se ao derradeiro ato: doa seu último e mais íntimo excremento: as células mortas acumuladas nas frestas do umbigo. Com as mãos alquebradas, remove a massa, lhe dá forma de círculo e lança na escada: rola enérgica até ao encontro dos descarnados tornozelos.

Naquele mesmo instante as mãozinhas seguem os quadris de uma barata requebrante. Recolhe o inseto e satisfeita ensaia a retirada. Coloca-se de pé e de costas para a escada. Seus ouvidos apreendem o vigoroso mugido em escala ascendente. Mira o corpo no alto em trêmulos e lentos movimentos, deseja recolhê-lo.

Sobe os degraus abafando o som das pegadas. O de cima não reage. Aproxima-se e deposita o conteúdo encarcerado por seus dedos na superfície das narinas.  Baratas, formigas, besouros. O corpo transmutado – agora feminino – inerte de repúdio e nojo reaviva: o homem não homem de desejo se consome, lança-se para dentro de si. Some.

A menina-mulher, indiferente, senta-se no ponto mais alto e põe a balançar as perninhas mirando o horizonte. Deixa cair – cheia de propósito – o sapatinho nas têmporas de um homem: desavisado.

Carta ao poeta sem nome

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Natal, 20 de agosto de 2012

Parecem formigas em dia de chuva. Marcham equilibrados no rastro forjado pela modernidade. Um ter que ir e vir. Um ter que levar e trazer. Um ter. Multidão de olhares paralelos negando o cruzamento no infinito. Homens-horizonte, grudados ao chão. Então, você.

Você surge na perpendicular. Pendular. Movimento constante entre o tudo e o nada. Entre o certo e o errado. Entre o ser e o devir. Salta e livra-se da cartografia. Projétil lançado ao infinito. Saco plástico em queda livre colore de transparente o azul. Rouba-lhe o equilíbrio. Então, eu.

Eu vértice. Nós dois, triângulos no chão. Meus braços devolvem o movimento estático de sua contemplação. O plástico inerte. Pares de olhos alforriados da agonia encontram-se. Você sorriso, eu mão. Num quase aceno.

Nós dois, soluços reprimidos. Desejos de materna eternidade. Entre o tudo e o nada, entre o certo e o errado, entre o ser e o devir: palavras. Escritas. Meu endereço. O tempo mancomunado com a distância trouxe você tarde demais. Estou longe para me tornar verdade.

O desenho do caracol enrolado, estacionado fora da carapaça, não entendo. Esperava palavras… Fico sem resposta. Outro envelope e o silêncio. Sem voz permaneço e finalmente elas. Parcas.

As que nomeiam destinatário e remetente. Desfeito o envelope, palavra solitária pede sentido. No papel manchado de linhas, impera único termo: poesia. Sibila na memória a imagem do som. Surge a vontade de lançar a língua nos dentes e viver livre das estruturas. P… O… E… S… I… A…

O som atravessa minha cabeça, equilibrado num fio armado entre as orelhas. A voz da leitura perfura a concha acústica direita, percorre o miolo ganhando sentido. Ao chegar à concha oposta, salta. Do lado de fora há luz e melodia.

Do percurso vivido, uma pergunta: no mundo chamado papel, o que veio a ser poesia? Contrariando seu peculiar minimalismo, devolvo estas linhas decoradas com letras. Se mais ou menos preenchidas de sentido, não escravize a resposta. Empreste-me.

Neste que se faz intervalo, entre o tudo e o nada, entre o certo e o errado, entre o ser e o devir, entre a minha pergunta e a sua resposta: penso. A poesia está para o silêncio. Na ausência do dito, a gente se encaixa. Engraçado. “A gente se encaixa…”. Não eu e você. A poesia (seus conjuntos vazios) e quem lê.

(…)

As linhas paralelas. É isso! (Euforia. Euforia.). As linhas paralelas na folha do caderno. (O nosso momento). Os olhares da multidão embevecidos consentem o não encontro. Descartam o cio do cruzamento. E nós dois escritos naquela página. Quebramos as regras e fomos arestas num instante. Tornamo-nos poesia concreta. Então poesia é isto? A existência sibilante sobreposta à vida plana?

Tripulante desta embarcação chamada livre interpretação, já percebo o caracol. Enrolado sobre si mesmo, longe de sua carapaça, é ponto de convergência entre os olhares. Seria o animal poeta?

No poente desta carta, descortino os fatos. Não fosse você quem é: seu caracol, seu silêncio e sua palavra seriam brincadeiras de gosto infantil? Descubro no curso do quase último parágrafo que a infância e o estar poeta possuem única e relevante coincidência, o potencial para a subversão semântica.

Um filósofo me disse, em livro lido, que a literatura existe como porvir. Estaria no plano virtual, anterior à execução da palavra. Fomos poesia até o momento. “A ponto de partir, já sei que nossos olhos sorriem na distância”.


Texto elaborado para a disciplina Poesia Brasileira Contemporânea, ministrada pela professora Tânia Lima, da Universidade Federal do RN.

Frames

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O tempo é a quarta dimensão. A passagem do tempo é uma ilusão. Temos essa ilusão de um mundo em mutação, tridimensional, embora nada mude na união quadridimensional do espaço e do tempo da teoria da relatividade de Einstein. Se a vida fosse um filme, a realidade física seria o DVD inteiro: quadros passados e futuros existem tanto quanto o presente.

[Max Tegmark, cosmólogo sueco]

último fio

Ele sabe que tudo está desabando; O que havia ali secou, apodreceu. O não dizer, o não falar, o silêncio: entidade invisível que segura o último fio da corda que ainda sustenta sua relação. Ar, oxigênio, toneladas – Borges tenta beijá-la como nos primeiros dias, a paixão impulsionada com o combustível do desconhecido, pelo potencial e pela inocência. Ela hesita por um segundo, e é nesse segundo no meio desse quase-beijo que ele a olha nos olhos, a corda partindo-se, sem som, sem voz ou palavra, o inevitável.

antes que

Após a décima-sexta volta naquele mini-circuito ao redor do condomínio em que morava, o recém-aposentado Borges começa a sentir o cansaço dos seus ossos já não tão sólidos, o coração batendo tão mais rápido quanto nunca, o pulmão a pedir mais ar. Vem-lhe tanta coisa à mente enquanto corre: Coisas repetidas e coisas sem solução e coisas de muita, muita saudade. Uma criança, uma menina, apenas para seus olhos. Aonde seria a curva do circuito, uma reta se transforma: Borges corre por cima dos canteiros, dos muros, da matéria, tocando em tudo enquanto pode, esbarrando nas pessoas como quem o faz: adeus.

no quarto,

O ranger antigo da porta do guarda-roupas: “aquela calça tem que estar aqui”. Um vestido antigo ainda no cabide. Pausa. Não lembra como ou porque. Tira-o do armário e o expõe por completo, cheira. Olho fechando para ver melhor: uma sorveteria, pessoas, andar despreocupado, sobe a câmera: Eles se riem e não se sabe do quê ou de quem; Um buraquinho de memória, realidade tomando cor e forma, uma peça de lego, a câmera aproximando-se de uma mancha bege: Sorvete, ela quis provar do seu sorvete, pingo no vestido, eles se riem e riem e riem, ao passo de três voltas da roda gigante, de quinze tiros do tiro-ao-alvo, de um longo sopro de vento: Avalanche de felicidade de um tempo eterno. Mancha, cheiro, vestido, zoom out, quarto, a máquina do tempo se desfazendo, voltando ao quarto, ao vestido, rosto dentro: o cheiro dela molhando.

durante

Borges puxou a fumaça para dentro. Soprou. Procurara um dos poucos lugares aonde não brotavam lembranças cruzando, vivas, sorridentes pelas ruas, parques e praias. Uma alegria-triste, ele pensa, ter lembranças. Um sorriso de canto de boca e um olhar de ternura: “É disso que a saudade é feita: de tempo e resignação: uma saudade de uma vida é a dor que lhe faz sorrir, já o paradoxo – alegria/tristeza – sendo esse um dos sintomas de seres conscientes, seres pó de estrelas, história do universo”.

Apagou o cigarro. Ergueu-se.

Ergueu-se.

pós

O sol se pôs. Pernas doem. Uma vida inteira passou-se naquele pôr-do-sol, o entardecer e o mar obrigando os humanos a adentrar-se. Ele abre o paletó, retira-o do corpo cansado e cheirando ao ar-condicionado. Camisa apenas e descalço, seu corpo esbelto e ombros largos: Borges prefere a aspereza do chão embaixo do seus pés, a cabeça meio baixa, a sombra já em todas as direções, o som da rua, dos carros, do clop clop das mulheres e um sorriso daquela moça de azul – um flerte sorrateiro e venenoso: Borges, barba por fazer, retornou um sorriso tímido, achou-se bonito e pensou nas possibilidades, porém há coisa mais urgente: Foi um dia longo e uma balança enorme fez-se em sua lógica, uma indecisão de dias sem fim. O problema de sua vida.

Resolve.

Endereço, ônibus, bairro, casas.

Sente o peito queimando outra vez. Uma corda se partiu há anos e seria a única a ser remendada. Ar: entrando e saindo pesado. Ele para.

Pausa.

Bate na porta. Outra vez.

Pausa.

Campainha. Balança-se. Decide sair. Porta abrindo às suas costas. Vira-se. Linda. Jovem. Linda. Olho teimando em brilhos. Expiração forte, sorriso trêmulo e uma pergunta:

“Vinte e seis?”

Sua filha o observa, ódio dos olhos se esvaindo como num ralo, focados nos dele, marejados, fixos, longos. Borges recebe sua mão. Entram. Luz embaixo da porta. Somem, infinitos.

Para adormecer rancores

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Des-asperada de saliva rompe os limites dos lábios, acompridando-se compassada pela vibração dos globos oculares, ali somente brancos. Deita-se a língua sobre o casaco de proibir frio, objetivando o pingo espesso abandonado pelos lábios derramados de um cochilo fundo. Alcança as carnes vermelhas, de arrimos de tijolos pequenos brancos. Faz-se proprietária das bochechas almofadadas, escuras, escorregadias. A língua outra, postada tapete, testemunha a passagem de metro e meio de corpo quente. Embalado pelo sono, nenhum membro se move, autorizando e acolhendo o ser de passagem. Sedutora transita adormecendo os sentidos vitais. Cessam-se os movimentos peristálticos, desliquida o estômago, rende o fígado, boca, rins. Adentra o intestino rompendo os negros obstáculos. Irradia sonolência, desviva bexiga, ureter, pênis. Então fatigada pelo êxtase do trajeto, dorme displicente, afoga-se no seu próprio sono. Não vê que aos poucos os sentidos se recompõem e reclamam seus espaços. As tripas se contraem roubando as possibilidades do movimento. Desperta-se em digestório ato, tem bruscamente removida a raiz. A boca de fora em transe, cospe sonoro ruído. Retorna o preto desbranqueando os olhos. Os corpos desabam lado a lado, desentendidos das primeiras intenções. Este dia fez-se adiante, pois que nenhum outro homem pode ser desarmado de seus viscerais rancores.

A primeira toalha de Hipólita

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“Clio, o que há de errado?”

“Nada, Hipólita, tava só pensando…”

“Quer desistir? Sei que você tem gostado muito deste lugarzinho sem graça, deste planetinha praticamente inofensivo, mas temos que seguir em frente. Nosso trabalho… quero dizer, seu trabalho aqui terminou, ainda temos muitos mundos para visitar antes de… bem, de qualquer forma, depois que tivermos concluído tudo, você pode voltar aqui e ficar dando peixes aos golfinhos até o fim do universo.”

“Não é isso… é que tenho um pressentimento… como se algo horrível fosse acontecer a qualquer momento e nunca mais vou poder voltar aqui…”

“Escute, Clio, você talvez esteja cansada desta vida de repórter interplanetária, deve ter visitado quarenta e dois mil mundos por essa galáxia afora, mas eu estou confinada à Terra desde que nasci, e não posso perder a oportunidade de conhecer outras paragens. Ter conhecido e feito amizade com uma mulher extraterrestre, na arquibancada de um jogo de críquete, que por acaso está só de passagem neste planeta e que conhece uma maneira de me tirar daqui é uma tremenda improbabilidade!”

“Infinita paciência me deem os divinos designers de Magrathea! Minha cara Hipólita, não estou querendo cortar seu barato, só estou dizendo que estou preocupada.Toda mulher de Betelgeuse tem um oitavo sentido, sabe? Mas se houver qualquer grande tragédia vindo aí para assolar a Terra, não poderemos fazer nada, não é? Mas pode ser que eu esteja enganada… o que estou querendo dizer é: NÃO ENTRE EM PÂNICO! Prometo que você vai cair fora deste seu pitoresco planeta, ou não me chamo Clio Renault!”

“Você não se chama Clio Renault, minha amiga…”

“Não importa. Vamos às compras!”

“Hem?!”

“Se liga, Hipólita! Se quer viajar pela galáxia, tem que se preparar!”


“Vai lá, Hipólita, escolha uma.”

“Hum… gosto desta estampa com cachalotes… essa aqui com vasinhos de petúnia também me agrada…”

“Tanto faz, amiga, temos pouco tempo. Vamos logo ao caixa.”

“Ué, só vamos comprar isso?”

“Você vai precisar disso mais do que qualquer outra coisa nessa viagem. Bem, agora que já fomos na loja de roupa, mesa e banho, devo lhe entregar isto.”

“Ah, então esse é o famoso…”

“Manual do Caroneiro Interplanetário, 1ª Edição.”

“Hem? Pensei que se chamasse Guia…”

“Não trabalho mais pare eles agora. Recebi uma proposta irrecusável. O Manual é o futuro em termos de compêndios para viajantes, Hipólita! Eles têm uma proposta diferenciada, que vai revolucionar a maneira como os mochileiros aproveitam suas viagens interplanetárias.”

“Hum… para mim dá no mesmo, ainda sou iniciante…”

“Agora vem a parte divertida. Mostre-me sua orelha.”

“Ah, aquele tal de peixe-babel que você falou…”

“Errou de novo, amiga. Os pesquisadores do Manual descobriram algo muito mais surpreendente. Apresento-lhe o polvo-uhura!”

“Hem?”

“Parece um pequeno octópode arroxeado. Depois que é introduzido no ouvido, ele espalha seus finíssimos tentáculos pelo sistema nervoso do hospedeiro. E aí vem a melhor parte! Ele não apenas traduz automaticamente qualquer idioma de qualquer lugar da galáxia (como também faz o peixe-babel), mas cria ondas nervosas extracutâneas que reverberam nos cérebros de outras criaturas e as fazem achar que você pertence à espécie delas! Não é demais?!”

“Hem?! Quer dizer que, se eu usar esse peixe-uhura, uma pessoa de outra espécie, digamos, um vogon, vai me ver como uma vogon?”

“Exato! Além disso, e essa é a parte mais espetacular de todas, o polvo-uhura cria uma rede de ondas cerebrais, uma espécie de teia neuronial virtual através do espaço, que liga todos os usuários desse pequeno molusco. Essa rede angaria informações e conhecimentos que são transmitidas automaticamente para os mainframes na sede do Manual, e é aí que essa obra supera de longe o Guia, pois é constantemente alimentada por informações de pessoas que nem sabem que estão contribuindo!”

“Impressionante! E você, vai usar um desses bichinhos também?”

“Eu já uso um. Quando você me conheceu eu já usava.”

“É mesmo? Então… peraí, quer dizer que você não é assim?! Digo, sempre me perguntei quais eram as probabilidades de uma alienígena ser tão parecida com um ser humano…”

“Você é quase tão esperta quanto um rato, amiga!”

“Hem?”

“Pare de dizer ‘hem?’! Vamos nessa!”

“Puxa, Clio, nem acredito que você está fazendo esse favor por mim… você tem um coração de ouro, sabia?! Não sei nem como agradecer!”

“Que nada. É sempre bom ter companhia. Em nossa próxima parada você me paga uma dinamite pangaláctica. Agora segure sua toalha que vamos pegar uma carona…”

O libertador

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Antes de ser morto meu pai, ensinou-me que ao homem é preciso sempre superar-se, romper seus limites, como um Raskónikov capaz de relevar a culpa, de não ceder às pressões que se abatem sobre o homem que fraqueja. Antes de ser morto meu pai, disse-me tantas coisas a respeito da vida e da necessidade de não ser passageiro, de eternizar-se.

Disse-me, antes de ser morto meu pai, da glória de Caim: explicava-me que a Abel restou a inanidade dos mártires, cujo feito maior é deixar-se abater. Dizia-me que o irmão a ser celebrado era aquele capaz de quebrar a apatia em que Deus mergulhara seus pais, a quem a subserviência deveria ser uma condição inquestionável. Caim fora sempre o libertador, o que estilhaçou as amarras a com que o Criador atara suas crias: Caim desfez a escravidão de seus pais e pôde fazer-se, de fato o primeiro homem, pois que seu pai era um arremedo, a pantomima de um homem incompleto.

Antes de ser morto meu pai, contou-me que era preciso ser único em seu tempo, desenhar marcas indeléveis a seu redor, ser insuperável, destroçar a apatia, o imobilismo que tende a acomodar-se, primeiro na alma, depois nos músculos do corpo do homem.

Compreendi suas lições e, por isso, nunca precisei que ele me perdoasse por tê-lo matado.

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Como se chama o presidente?

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Durante décadas este pequeno país viveu sob o comando cruel dos ditadores. “Cruel” não deve ser o adjetivo mais adequado para esse tempo: em verdade, foram décadas de uma ditadura silenciosa em que o povo tornava-se cada vez mais silencioso, mais quieto, como seu governo. Não houve, senão por uns poucos nos primeiros anos, quem se rebelasse, assim como não houve, por parte do governo, quem desejasse calar os rebeldes que quase não havia. Presidentes se sucediam no Palácio Presidencial, que não era exatamente um palácio, mas uma casa bonita e bem arejada, pintada de um amarelo imune ao tempo e com uma varanda onde uma rede descansava. Foram muitos os Chefes-de-Estado: alguns governaram por meses, outros semanas, alguns dias, houve ainda os que governassem por horas e os que só tocaram a faixa presidencial para poder passá-la ao seu sucessor.

Agora havia um presidente eleito. Escolhido pelo povo, embora não por muita gente: tanto que boa parte dos eleitores não sabia onde votar, muito menos em quem. Importava pouco, muito pouco.

Em sua primeira viagem diplomática, esteve fora por três ou quatro dias, em uma reunião com líderes de outros pequenos países, onde mal fora notado, senão por um ascensorista que lhe dirigiu a palavra para dizer “Seu sapato, senhor, está desamarrado”, ao que lhe agradeceu solene e discretamente pela gentileza do aviso.

Ao chegar ao aeroporto da capital, estranhou não haver quem o recebesse: sem comitivas, sem assessores, sem povo, sem jornais. Esperou em pé, diante de um pequeno saguão quase vazio, que alguém o conduzisse. Em vão. À rua, um táxi: estendia a mão à margem da avenida semimorta, mas os esparsos motoristas que por lá passavam não pararam. Por isso caminhou mais um tanto, até que um homem gentil parou a seu lado e abriu-lhe a porta. O presidente sentou-se e sorriu, ao que não foi correspondido. Em silêncio, esperou que o taxista dirigisse-lhe a palavra, como o fez ao cabo de uns poucos minutos: “Para onde, senhor?”. Sem sentir-se de todo ultrajado pela ignorância do motorista, respondeu evasivo: “Ao Palácio Presidencial”.

Em casa, ninguém o esperava. Viu, deitado em sua cama, outro homem, abraçado a sua esposa e a quem ela chamava de “meu amado”, e os porta-retratos pela casa tinham fotos dela e do outro, mas nenhuma do homem que saíra de casa há pouco mais ou pouco menos de três ou quatro dias. Viu também chegarem seus filhos, os meninos a quem criara com todas as dificuldades, mas com toda honra que podem receber as crianças: “papai” era o apelido que dirigiam ao homem em seu lugar, no lugar que antes era seu. Sabia que a essa altura, sua mãe já chamava de filho o homem em sua história e agradeceu a Deus por seu pai estar morto há anos, para quem sua lembrança deve mesmo ter sido a última, pois seria absurdo demais que o outro lhe roubasse as memórias vivas de um pai morto.

Andou pelas ruas da capital durante dias. Não havia aonde ir ou mesmo o que fazer. Como é possível haver outro em seu lugar, que não haja resquícios seus, de sua existência e máscara? Entre ele e seu substituto, quem seria mais ou menos real?

Em meio a homens que perambulavam pela praça principal, ouviu bradar da janela do congresso alguém ser anunciado como presidente da nação, prestes a discursar. Não era ele nem seu outro, mas um terceiro. E pôde ouvir de entredentes dois homens maltrapilhos – ninguém saberia dizer se mendigos ou ex-chefes-de-Estado – que conversavam sobre política: “Como se chama o presidente?”, ao que o outro sentenciou: “Já não nos importa”.

Peixe Podre

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– para Leão Neto, que me apresentou respeitosamente este homem

A faca rasgava a barriga do peixe como se abrisse nuvens, de onde escorreria uma chuva vermelha e viscosa. A arte das facas, a sorte lida nas vísceras, infortúnios em lugar de fortuna. As mãos tingidas do vermelho sangue-chuva-viscosa das entranhas dos peixes. O cheiro impregnado no corpo, no couro, no osso, na origem da alma. O odor ancestral dos peixes arrebatados pela rede de seu pai, do pai de seu pai, e do pai deste e do outro até o início dos tempos, como se Adão carregasse no ombro sua vara de pesca.

Peixe Podre o chamavam, desde antes, de sempre. A caixa de isopor amarrada ao bagageiro da bicicleta e um cordão de cinco peixes raquíticos presos pelas bocas. “Peixe podre”, ele gritava pelas ruas, como a cidade o chamava. Vendia-os por uma pequena miséria amealhada, suficiente apenas para um tanto de feijão e outro tanto de cachaça. O cheiro fétido do isopor era também o cheiro de seu corpo e da cama de rosas mortas em que se deitava aquele homem miserável e sua mulher miserável ocupada do miserável legado que seus filhos receberiam.

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