Caro Augusto…

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Natal, 28 de agosto de 2015 e.c.

Caro Augusto,

Desde a última vez que nos falamos um vulto alado persiste em rondar minha cabeça. Simplesmente genial sua alegoria da consciência, equiparada a um morcego que volteava sua rede naquela meia-noite desconfortável. Não sei nem quero saber se você tem problemas graves de consciência pesada ou se tudo não passou de fabulação sem conhecimento de causa. Mas de uma coisa estou bem certo: mesmo que se possa provar que há pessoas que não são atormentadas por sentimentos de culpa, todos nós temos, no mínimo, um pouco de insanidade. E tendo em vista uma pitoresca ocorrência pela qual passei outro dia, enquanto tentava descansar na sombra de uma árvore, e que me fez lembrar do seu Morcego, constatei que a consciência quiróptera é apenas uma faceta da loucura humana, ou um tipo de doideira específica (não uma doidice, o que é bem diferente).

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10 games importantes para mim

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Faz algum tempo um amigo meu compartilhou essa “corrente” no Facebook, pedindo aos amigos citados em seu post, eu incluso, que listassem 10 jogos importantes para si (pelo que entendi, deveriam ser jogos eletrônicos, ou seja, video games, embora eu tenha visto algumas pessoas fazerem suas listas incluindo jogos de tabuleiro). O desafio consistia em não pensar demais ao escolher os itens da lista, colocando aqueles que primeiro viessem à cabeça.

Eu tentei fazer isso, mas achei melhor ponderar um pouco antes de construir a lista. Resolvi “distribuir” os jogos elegendo pelo menos um título de cada plataforma das que mais joguei. Também decidi que aderiria ao desafio através de um post na Teia, formato que eu vi outras pessoas fazendo também. Ei-los, dez video games impactantes para mim, relacionados mais ou menos cronologicamente.

1. Frostbite (Atari)

O primeiro console que joguei foi um Atari da CCE, lá pela segunda metade da década de 1980. Entre os diversos jogos que tive a oportunidade de experimentar, aquele do qual tenho uma memória mais interessante é Frostbite, simplesmente porque lembro de ter chegado numa fase adiantada e ter feito muitos pontos (ao menos em comparação a outras pessoas que vi jogando, o que pode não ser tão grande coisa).

Nesse jogo, o protagonista aparentemente é um esquimó que precisa construir um iglu e para conseguir matéria-prima tem pular em cima de blocos de gelo flutuando num rio, enquanto evita ser atacado por pássaros, peixes e um urso polar.

2. Asterix (Master System)

Acho que Asterix foi o jogo que mais joguei no Master System, mais até do que Alex Kidd in Miracle World, que vinha na memória do console. Baseado numa série de quadrinhos francesa de que gostava (e gosto) muito, o jogo permitia controlar o gaulês Asterix e/ou seu amigo Obelix, numa missão para resgatar Panoramix, o druida da aldeia, raptado pelo Império Romano. Sempre que eu jogava eu me desafiava a terminar a partida sem perder nenhuma vida, o que não era tão fácil em algumas fases que exigiam rapidez e precisão. Aliás, o jogo era interessante por apresentar desafios diversos que demandavam diferentes tipos de habilidades do jogador.

3. Alien vs. Predator (Arcade)

Joguei muitas vezes esse jogo no arcade com meu irmão. Dois predadores e dois humanos enfrentam um enxame de xenomorfos. O jogo é repleto de referências aos dois primeiros filmes da franquia Alien e aos dois primeiro títulos de Predador. Por algum motivo, eu preferia e só jogava com o Predador Guerreiro (Predator Warrior). Pelo que me consta, até hoje Alien vs. Predator do arcade continua sendo a melhor adaptação desse famigerado crossover.

4. Sonic 3 & Knuckles (Mega Drive)

Esses na verdade eram dois jogos distintos originalmente feitos pela Sega para ser um só. Sonic the Hedgehog 3 era a continuação de Sonic the Hedgehog 2, e logo em seguida vinha Sonic & Knuckles. O cartucho deste possuía uma entrada para outros cartuchos do Mega Drive, e ao acoplar nele o Sonic 3 era possível jogá-los como um jogo único, somando as fases de ambos. Eu nunca havia terminado Sonic 3 (devido a um trecho do jogo cuja solução era extremamente difícil de decifrar) enquanto tinha um Mega Drive, embora tivesse zerado inúmeras vezes Sonic & Knuckles. Anos depois eu jogaria tudo de novo num emulador e conseguiria concluir o jogo todo sem usar nenhum macete.

5. The Lost Vikings e The Lost Vikings 2 (PC e emulador do SNES)

Coloco estes dois em conjunto porque um acaba implicando o outro, e basicamente o segundo é uma extensão do primeiro. É possível que estes dois joguinhos sejam meus quebra-cabeças favoritos. Joguei The Lost Vikings no PC e The Lost Vikings 2 no Super Nintendo (na verdade foi no PC também, usando um  emulador de SNES).

Acompanhando a história de três amigos vikings que foram capturados por uma poderosa entidade chamada Tomator, o jogador deve utilizar as habilidades únicas de Eric o Ágil, Baleog o Forte e Olaf o Robusto para solucionar cada fase, que não pode ser terminada sem que se utilizem os poderes combinados dos três. Muito bem-humorado e com diversas referências à cultura pop/nerd, é uma obra-prima dos puzzles eletrônicos.

6. Chrono Trigger (emulador do SNES)

No embalo dos emuladores para PC, eu joguei muitos títulos que não havia jogado nos consoles, especialmente do SNES, ao qual nunca tive muito acesso senão nas lojas que alugavam horas para jogar nos consoles que elas dispunham aos clientes. Chrono Trigger foi um dos poucos RPGs eletrônicos que joguei, talvez por ser um autêntico paradigma do gênero.

Seguindo a trajetória de Crono, um espadachim que viaja no tempo e faz amigos em diversas épocas e lugares, o jogador se envolve numa trama espaço-temporal sem começo, meio nem fim (ao menos não no sentido cronológico convencional) para reestabelecer o equilíbrio do mundo. O jogo permite vários finais alternativos, dependendo das escolhas feitas pelo jogador. Mas eu só cheguei a ver dois ou três finais diferentes, pois a aventura completa demandava tempo demais.

7. Warcraft II: Tides of Darkness (PC)

Nunca cheguei a jogar Warcraft: Orcs and Humans, conheci direto seu sucessor, através de uma demo que vinha num CD que acompanhava uma revista. Warcraft 2: Tides of Darkness, como seu antecessor, é um jogo de estratégia em tempo real (RTS), com cenário medievalesco, no qual duas facções, uma comandada por humanos e outra liderada por orcs, se enfrentam numa guerra interdimensional que envolve várias raças, como elfos, goblins, trolls e gnomos.

Eu nunca fui muito bom em jogos deste estilo, mas gostava muito do conceito do cenário, da história, do design e da possibilidade de criar fases. Anos e anos depois, eu me aventuraria a jogar World of Warcraft, um MMORPG que se passa em Azeroth, o mesmo mundo de fantasia de Warcraft 2.

8. Street Fighter Alpha 3 (Mame)

Um dos emuladores que mais joguei foi o Final Burn, uma variação do Mame, que emula jogos de arcade. E entre seus jogos aquele em que mais me detive foi Street Fighter Alpha 3, que seguia o mesmo formato tradicional da franquia e disponibilizava dezenas de personagens, cada um com sua história. Mas inevitavelmente eu jogava com Blanka 95% das vezes.

Esse jogo me acompanhou durante uma fase em que eu estava me recuperando de uma séria cirurgia no olho direito, cujas complicações que me deixaram apenas com a visão do olho esquerdo, esta já comprometida por acontecimentos anteriores. Eu suspeito que ter jogado jogos desse tipo, que exigem muita rapidez dos olhos, me ajudou a melhorar meu campo de visão.

9. Batman: Arkham Asylum e Arkham City (PS3)

Eu demorei a me atualizar nas novas gerações de video games. Nunca joguei no PS1 e só joguei poucas vezes no PS2 de outras pessoas, e com XBOXes e Wiis eu só vim ter contato há pouquíssimo tempo. Mas o PS3 fez parte da minha vida recente de gamer. E entre os melhores jogos dessa geração para mim estão os dois primeiros títulos da franquia Batman: Arkham. O primeiro deles, Batman: Arkham Asylum, mostrou finalmente uma adaptação digna do super-herói de Gotham City para os video games, com um sistema de luta inovador e empolgante, a possibilidade de agir como um predador à espreita dos capangas do Coringa e habilidades de detetive interessantes.

Eu junto esse jogo a sua sequência, Batman: Arkham City, porque este é basicamente um superaprimoramento do primeiro, com combates mais ricos e, especialmente, ferramentas de investigação que exigem mais atenção do jogador. Para se sentir na pele do Cavaleiro das Trevas, não conheço nada melhor do que esses dois jogos.

10. Portal e Portal 2 (PC)

Desde a antiga geração de jogos em primeira pessoa dos quais Doom é o mais aclamado (e que inclui o antigo Wolfenstein 3D e o popular Duke Nukem 3D), eu nunca havia jogado first person shooters da linhagem inaugurada por Counter Strike (teclado + mouse e maior complexidade de interação com cenário e personagens). Eu só fui aderir a esse modelo por causa de Portal, o primeiro first person game que realmente tive vontade de jogar, por não ser simplesmente baseado na abordagem “seek and destroy”, mas por sua proposta inovadora de se constituir como um first person puzzle extremamente instigante e inteligente.

O jogo também chamou-me atenção por ter uma protagonista feminina e pelo fato de também a antagonista ser feminina. Sua sequência, Portal 2, continua a história com novos elementos que complexificam a história do cenário e incrementam a jogabilidade.

Deuses e mistérios em Avalon: livros da adolescência

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A blogagem coletiva sobre livros da infância me levou a refletir mais amplamente sobre o assunto. Uma das coisas que tentei delinear enquanto escrevia aquele texto foi onde terminou minha infância e começou minha adolescência, pois disso dependia incluir ou excluir certos livros. Uma das coisas que percebi ao tentar decifrar (seria melhor dizer, recriar) essa fronteira (arbitrária) foi que, a partir de certo momento não muito bem delimitado mas mais ou menos claro, o “tipo” de livro com que mais passei a me ocupar mudou.

Depois de ler O Fantástico Mistério de Feiurinha, o que se deu pelos 12 ou 13 anos de idade, passei a escolher mais os livros que leria. Estes eram agora ou mais complexos (como Vidas Secas) ou fisicamente maiores (como As Brumas de Avalon), e a experiência da leitura passou a ser um hobby eleito e não uma mera obrigação escolar. A partir daí percebi que seria rico me delongar numa segunda parte e pensar sobre os livros de minha adolescência, pois compreendi que se trata de uma outra etapa da minha vida de leitor.

Vidas Secas – Graciliano Ramos

Comecei a ler Vidas Secas numa época em que os professores escolhiam os livros de literatura que deveríamos estudar. Acho que era época de férias, encontrei o exemplar na biblioteca do meu pai e pensei, “vou ver do que se trata”, e acabei gostando muito.

As vidas secas da família sertaneja, pai, mãe, filho mais velho e filho mais novo, além do único membro com nome do grupo, a cachorra Baleia, são retratadas com a rudeza que caracteriza o implacável mundo do pobres que enfrentam a seca nas regiões mais áridas do Brasil. A linguagem lacônica, dizendo o mínimo necessário, reproduz a forma coloquial de se comunicar das pessoas pobres das regiões rurais.

A leitura me fez visualizar de perto as agruras e alegrias de uma família que se agarra ao pouco que consegue tirar da natureza escassa e de uma sociedade desigual. E me fez emocionar com a profundamente significativa existência de Baleia e seus sonhos repletos de preás.

Devo ter lido o livro duas vezes, se me lembro bem, e minha admiração pelo autor me fez adquirir, anos depois, já na época da faculdade, um exemplar de seu romance São Bernardo. Eu tinha feito uma cirurgia ocular em São Paulo e estava me recuperando na casa de minha madrinha, em Tupã, e encontrei o livro num sebo. Mas Vidas Secas continuou sendo muito mais significativo em minha memória, tendo inclusive repercutido num interesse pela literatura brasileira, especialmente por Machado de Assis, que se tornaria um de meus romancistas/contistas preferidos.

Toda a Poesia de Augusto dos Anjos

Essa coletânea da obra de Augusto dos Anjos, da editora Paz e Terra, cujo prefácio é um ensaio de Ferreira Gullar sobre o poeta paraibano, não é completa, mas contém sua única obra poética publicada em vida, que é o livro Eu e Outras Poesias, e mais alguns poemas póstumos. O volume que eu li era emprestado de um grande amigo meu e eu cheguei mesmo a tirar xerox de todo o livro.

No ardor das emoções adolescentes, Augusto dos Anjos foi para mim uma pungente voz que representava a angústia das mudanças da puberdade e a empatia para com o sofrimento humano. Ele se tornou meu principal modelo para escrever meus poemas e é para mim o paradigma daquilo que considero poesia.

Posteriormente eu compraria uma edição da Martins Fontes, com mais poemas do que a edição da Paz e Terra, e que se tornaria um item caro em minha biblioteca. Mas durante a graduação em Ciências Sociais, eu acabaria adquirindo a obra completa dele, da Nova Aguilar, e fazendo minha monografia tendo dois poemas de Augusto como objeto de pesquisa: Do Leite Materno ao Leito Meretrício: Mãe e Meretriz como Objetos de Desejo no Imaginário de Augusto dos Anjos.

Olimpo: a Saga dos Deuses – Márcia Villas-Bôas

Cavaleiros do Zodíaco criou um público de fãs no Brasil, e eu não escapei dessa onda. Mas aquilo que tenho mais a agradecer à televisão brasileira por exibir essa série é o fato de ela me ter instigado o interesse por mitologia grega. E esse interesse me levou a fazer com que meu pai comprasse o livro Olimpo: a Saga dos Deuses, que encontrei num supermercado e que, pelo que sei, é hoje uma raridade (ainda bem que ainda guardo meu exemplar).

A obra é basicamente um longo romance que ata numa narrativa contínua todas as histórias mais conhecidas da mitologia grega. Cada capítulo se foca em um personagem (o que me veio muito fortemente à memória quando, há alguns meses, comecei a ler As Crônicas de Gelo e Fogo), e são arrolados de maneira mais ou menos cronológica, partindo desde os eventos da gênese do Universo, passando pela Era dos Deuses, adentrando a Era dos Heróis e concluindo com a partida dos seres divinos para outro mundo.

O livro tem um certo viés esotérico, ecoando certas ideias herdadas da Teosofia (que baseia muito do universo conhecido como Nova Era), o que o torna interessante no sentido de que os deuses são entendidos como algo mais do que indivíduos com forma definida, mas forças que atuam na natureza e que são interpretadas como universalmente experimentadas por qualquer cultura humana. Tanto é assim que em determinado momento os olimpianos estão se admirando com os nomes com que são conhecidos no Egito e em Roma (tratando-os, portanto, como arquétipos presentes no inconsciente coletivo).

Olimpo foi importante para mim por ter me levado posteriormente a ler muitas histórias gregas (Homero, Ésquilo, Sófocles etc.). Mas acho que um dos impactos mais positivos dessa leitura foi sobre minhas ideias a respeito de gênero e sexualidade. Enquanto a mitologia e a cultura gregas remexem com nossos valores cristãos modernos, a autora deixa bem claro, através dessa narrativa, que sexo e gênero não são determinações, e nos faz relevar, de diversas formas, os preconceitos a respeito das identidades sexuais e das sexualidades humanas.

As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley

VALON__VOL1_1250982341PA edição em quatro volumes dessa maravilhosa obra chegou às minhas mãos por um amigo que havia comprado num sebo. Eu devo ter trocado com ele por algum outro livro, o fato é que passou a fazer parte da minha seleta e embrionária biblioteca. Uma coisa curiosa a respeito do meu exemplar é que as capas estavam bastante comidas nas bordas, e eu criei capas no Microsoft Word, imprimi e encapei os volumes, cobrindo tudo com papel adesivo.

Eu sabia pouco sobre as histórias arturianas nessa época, e As Brumas foi minha primeira e principal referência sobre essa mitologia pré-medieval. O livro é na verdade a história das mulheres que viveram em Camelot, especialmente Morgana e Gwenhwyfar (o nome pelo qual é chamada Guinevere no texto). Dessa forma o mythos de Camelot é contado de maneira diferente do convencional, fugindo do androcentrismo das obras tradicionais.

Esse épico teve impactos positivos na minha forma de ver o mundo, ajudando-me a cultivar um espírito relativista, especialmente quanto à religião e às relações de gênero. Sendo uma obra repleta de referências à religiosidade anglo-saxã pré-cristã, colocada em oposição ao Cristianismo levado às Ilhas Britânicas pelo Império Romano, a história provoca simpatia pela ideia de que não há religiões certas nem erradas. A religião antiga de Avalon tem forte ênfase no feminino e na valorização da mulher, um toque feminista que a obra de Bradley sempre traz e que me ajudou a desenvolver grande simpatia pelo Feminismo e, como consequência natural, pelos estudos sobre a diversidade humana, seja de gênero e sexualidade, seja racial/étnica, seja qual for.

Acho que essa foi uma das leituras mais imersivas que fiz na adolescência e talvez em toda minha história de leitor de ficção. O reino de Arthur Pendragon, especialmente a Ilha de Avalon, é repleto de uma magia sutil, de uma ligação com uma realidade (sobre)natural, maravilhosa e antiga, e um sentimento de nostalgia era constante enquanto eu lia e “testemunhava” a desagregação da cultura bretã e sua ancestral religião pagã.

A leitura de Bradley me levou a procurar, junto com meu irmão, outras obras dela, das quais Lythande é a que lembro com mais carinho. Também com viés feminista, os contos sobre o mago Lythande são instigantes quanto a questões de gênero, principalmente quando se trata de explorar as formas pelas quais o segredo do protagonista é trazido à tona como recurso narrativo.

O Nome da Rosa – Umberto Eco

Um instigante romance policial de um autor que não se acanha de esbanjar erudição. Esse livro me foi emprestado por um amigo de meu pai, e eu acabei ficando com ele (só para constar, anos depois ele me disse que eu podia ficar com o livro – só para constar…).

A obra traz elementos que me encantaram e me tornaram um fã de histórias fantásticas, a começar pelo fato de Eco afirmar, no prefácio, que esse livro é a tradução de um manuscrito em latim que ele encontrou e que teria sido escrito pelo protagonista da história (mais ou menos a mesma relação entre Tolkien e Bilbo/Frodo). O que já constitui um mistério e prepara o leitor para o tipo de história que se segue.

Além disso, o fato de haver um mapa do mosteiro onde ocorre a narrativa a torna bastante imersiva, pois de vez em quando o texto nos leva a consultar o mapa para compreender melhor o que está acontecendo na trama. Esse tipo de recurso extratextual enriquece de maneira interessante a experiência de leitura (como eu disse, no artigo anterior, sobre O Reino Perdido de Beleléu).

O Nome da Rosa é uma história instigante sobre o obscurantismo da Igreja Católica na Idade Média e o perigo que é a sonegação de conhecimento, que pode acabar se perdendo sob um regime de censura. A narrativa policial e as reviravoltas da trama são geniais. Os temas tratados em episódios esporádicos são muito pertinentes para se pensar a importância da quebra de tabus e a desmistificação das relações de poder.

Eu gostei tanto desse livro que logo em seguida tentei ler O Pêndulo de Foucault, do mesmo autor, mas não consegui passar da metade (fiquei todo enrolado com a história e já não estava entendendo mais nada). Porém, muitos anos depois eu ganharia um presente muito especial: Quase a Mesma Coisa, também de Eco, um livro sobre experiências de tradução e um dos melhores ensaios que já li.

Outras leituras e continuações

Houve várias leituras importantes que não citei acima porque não foram exatamente livros, mas contos ou partes de livros. Por exemplo, eu li na adolescência A Sociedade do Anel, primeiro volume de O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, mas só leria o livro completo vários anos depois, já na época da faculdade. No entanto, foi uma leitura mágica para mim, e fiquei encantado com a épica Terra-Média, mas principalmente com os singelos hobbits.

Outro livro muito importante foi Imortais: O Melhor da Ficção Científica do Século XIX, organizado por Isaac Asimov. Mas eu li esse livro tão espaçadamente que só terminei quando estava na universidade (de novo…). É uma coletânea de contos que Asimov considera serem os verdadeiros precursores da Ficção Científica, segundo um conceito que ele elabora na introdução do livro. Dos que eu li na adolescência, lembro principalmente dos contos “O Homem de Areia”, uma perturbadora narrativa de E. T. A. Hoffmann, e “A Filha de Rappaccini”, de Nathaniel Hawthorne, que depois eu descobriria ter sido uma inspiração para a personagem Hera Venenosa, vilã do Batman.

A primeira vez que li Edgar Allan Poe foi numa coleção que meu pai tinha, chamada Para Gostar de Ler, que reunia diversas histórias curtas de variados autores, brasileiros ou não. Lá eu encontrei “O Retrato Oval” e “O Coração Delator”, que me instigariam depois a procurar outros contos do perturbado escritor norte-americano. Cheguei a ler várias de suas narrativas de suspense, terror e histórias policiais, e cheguei a ensaiar uma tradução do clássico e grandioso poema “O Corvo”.

Elenquei acima os livros que considero mais importantes em minha memória afetiva. Mas, além desses, houve outros importantes para mim na época e que me inspiraram a ler mais, como Dom Casmurro, de Machado de Assis, Espada da Galáxia, de Marcelo Cassaro, Frankenstein, de Mary Shelley, O Caso de Charles Dexter Ward, de H. P. Lovecraft, A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, e O Relato de Arthur Gordon Pym, de Poe. Olhando para todo esse conjunto de obras, percebo quanto meus atuais interesses de leitura foram formados nesse período, bem como minha perspectiva a respeito da humanidade, em sua diversidade e naquilo que nos torna todos iguais.

Sapos e princesas no Beleléu: livros da infância

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Ando muito defasado em relação à Teia, ao mesmo tempo com muita vontade de escrever e com dificuldades para me sentar diante de caderno e caneta ou na frente de um computador para atualizar o blog. Vários textos inacabados, algumas ideias concebidas e não-realizadas… então decidi aderir a uma blogagem coletiva sugerida pela Sybylla em seu blog Momentum Saga e listar, comentando, alguns livros que foram importantes para minha idade pueril e dos quais até hoje lembro com carinho.

Não vou me delongar demais, até porque faz tanto tempo que li esses livros que não tenho condições de lembrar deles suficientemente bem para tecer resenhas elaboradas. Aliás, vou abordá-los segundo o que a memória me traz deles e de acordo com o impacto que eu penso que tiveram em minha vida até hoje.

A maioria dos livros que listo abaixo têm em suas edições atuais capas diferentes das edições que li, mas procurei no Google as ilustrações originais, pois a capa faz parte da identidade afetiva das obras que lemos em qualquer idade. Além disso, pesquisei os nomes dos autores, dos quais eu não lembrava, e dei uma espiada nas sinopses só para garantir que estava lembrado dos livros certos. Os livros estão na ordem cronológica que li (eu acho).

Falando pelos Cotovelos – Lúcia Pimentel Góes

Este livro, escrito por Lúcia Pimentel Góes, foi comprado por meus pais como parte do material escolar que as escolas exigiam (não sei se ainda exigem hoje em dia). Se bem lembro, eu podia escolher qualquer livro infantil na papelaria e foi esse que peguei, talvez por ter achado o título e a capa engraçados. Depois eu descobriria que o livro faria parte da minibiblioteca da sala de aula, junto com os livros que os outros alunos tivessem escolhido e levao, mas eu não esperei as aulas começarem e li meu exemplar antes.

Nessa história, o protagonista é um garoto que interpreta literalmente todas as expressões idiomáticas que escuta. Quando a irmã mais velha fala que seu namorado é um “bundão”, por exemplo, o garoto imagina um cara com enormes nádegas. Ele fica o tempo todo intrigado com essas expressões, tentando entender como elas se aplicam na realidade.

A ideia do livro é ótima para apresentar às crianças as peculiaridades da língua portuguesa em suas figuras de linguagem e como elas enriquecem nossa experiência comunicativa. Não sei exatamente qual foi o impacto desse livro em minha vida, mas desconfio que minha tendência a interpretar literalmente (de propósito) certas expressões nas conversas com amigos (transformando-as em papos surreais) tenha alguma coisa a ver com o fato de eu ter gostado desse livro.

Sapomorfose ou O Príncipe que Coaxava – Cora Rónai

Este conto de Cora Rónai ilustrado por Millôr Fernandes foi uma leitura de sala de aula quando eu morava em Carajás (Pará) e estudava a 4ª série no Colégio Pitágoras. Mas se a memória não me falha eu cheguei a pegar o livro na biblioteca de novo, pois era uma história muito interessante.

Eis a premissa da história: um sapo é transformado num príncipe por uma bruxa e só poderá se tornar um sapo novamente se receber um beijo de amor (acho que era isso). O sapo então precisa se acostumar com sua nova forma humana, tenta caminhar com suas pernas desajeitadas e se esforça para não ceder ao impulso de saltar (quando o faz, as pernas humanas pouco flexíveis o levam a se esbofetear no chão). Ele passa a viver numa corte, e é cortejado por princesas, mas elas não o agradam e a única coisa que ele realmente anseia é voltar para o pântano onde morava, coaxar e comer insetos.

Embora tenha sido um dos meus livros preferidos na infância, não lembro de quase nada dos detalhes da história, mas lembro bem de algumas das ilustrações de Millôr Fernandes. Acho que esse livro teve um impacto positivo em mim ao me fazer pensar em formas alterativas de contar histórias, inverter papéis e questionar as tradições veiculadas pelo folclore.

No Reino Perdido do Beleléu – Maria Heloísa Penteado

Esse eu encontrei perdido na biblioteca da escola. A sabedoria popular diz que, quando uma coisa se perdeu, ela “foi pro Beleléu”. A partir desta premissa, Maria Heloísa Penteado concebeu um mundo mágico, um universo paralelo, para onde as coisas perdidas vão: o Reino do Beleléu.

A protagonista da história é uma menina muito organizada, que sempre deixa suas coisas nos devidos lugares e dessa forma nunca perde nada. Em contraste, seu irmão é muito bagunceiro e já fez sumirem tantas coisas em seu próprio quarto que ele tem algumas meias e sapatos sem par. O menino é tão desorganizado que certo dia perdeu a si mesmo e desapareceu. Sua irmã acaba descobrindo uma forma de chegar ao Beleléu através da vendedora de doces da escola, que é na verdade a rainha daquele reino perdido. Em sua jornada, ela encontra um orangotango gigante que é lacaio da rainha e descobre como funciona a logística das coisas perdidas.

Este foi um livro especial. Lembro principalmente de ele ter a ilustração de uma paisagem do Reino do Beleléu, por onde a heroína caminhava. Nessa imagem, havia diversos objetos escondidos e a autora oferecia ao leitor o desafio de encontrá-los. Isso simbolizava a própria natureza do Reino do Beleléu, um lugar onde as coisas (e pessoas) se perdem, mas não deixam de existir e podem ser reencontradas. Para mim esse elemento narrativo-lúdico representou uma mudança na forma de ver um livro de estórias, como algo para além do texto, uma mistura multimídia em que palavras escritas e elementos gráficos se juntam para formar uma obra envolvente. Talvez por isso eu goste tanto de quadrinhos hoje em dia.

O Fantástico Mistério de Feiurinha – Pedro Bandeira

o-fantastico-misterio-de-feiurinha-pedro-bandeira-86-MLB4645155375_072013-OTambém da vertente da releitura dos contos de fadas, a história de Feiurinha, escrita por Pedro Bandeira, unifica os contos das conhecidas princesas Bela Adormecida, Cinderela, Rapunzel, Branca de Neve e outras.

Todas essas princesas são amigas e costumam se encontram para conversar. É pitoresca a forma como cada uma delas é retratada, com personalidades que remontam a suas histórias: Bela Adormecida é dorminhoca, Chapeuzinho Vermelho é comilona, Rapunzel não corta os cabelos… o que todas têm em comum é que cada uma delas se casou com um Príncipe Encantado (todos eles com esse mesmo nome).

Durante um desses encontros, elas se dão conta de que falta uma princesa encantada sobre a qual ninguém nunca mais falou: Feiurinha. Para redescobrir sua história e descobrir onde ela está, as princesas recorrem a um escritor (o próprio autor do livro), para que ele se inspire e reescreva o conto de Feiurinha. Ele consegue, claro, e a parte principal do livro é a própria história de Feiurinha, uma menina bonita que foi criada por três bruxas feias que a fizeram pensar que feia era ela.

Apesar de hoje, em retrospecto, eu achar que a ideia da dicotomia absoluta beleza/feirúra (ligada ao dualismo bem/mal) seja bem retrógrada e obsoleta (a propósito, eu aprendi a palavra “obsoleta” nesse livro), toda essa recriação do universo dos contos de fadas, que ressoam Sapomorfose, ainda me fascina.  Esse tipo de brincadeira com o universo dos contos de fadas me levaria, bem mais tarde, a gostar de coisas como a série de filmes do Shrek e em especial a série de quadrinhos Fábulas.

Muitos anos depois apareceu uma adaptação cinematográfica com a Xuxa, mas eu achei que a probabilidade de terem feito besteira nessa transposição era tão grande (xega de Xuxa!) que preferi ficar só com a lembrança daquela pequena obra literária.

Arqueologia da bibliofilia reconstruída

Ainda há outros livros de que me lembro com carinho. Um dos mais instigantes era uma espécie de apologia ao Lobo Mau, recontando Chapeuzinho Vermelho sob o ponto de vista do lobo, mostrando que ele não tinha culpa pela morte da Vovó, que na verdade tinha sido morta por um homem que, para se safar, usou o lobo como bode expiatório (ou seja, mais uma reimaginação dos contos de fadas). Infelizmente, não me lembro do nome do livro e não consegui encontrar nenhuma referência na internet.

Eu não coloquei Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, porque, pelo que me lembro, não consegui terminar de ler minha edição da Ediouro (comprada por meu pai através do boleto postal) na infância, e só o leria completo na época da faculdade. Mas o pouco que eu tinha lido era muito interessante. Outro cuja maior parte se perdeu no Beleléu da memória foi O Pequeno Fantasma, de Otfried Preussler (também comprado pelo boleto postal da Ediouro), que era interessante, contando a rotina do noite-a-noite de um fantasminha, mas por algum motivo não concluí.

De qualquer forma, dá para refletir por que alguns livros são mais fáceis de lembrar do que outros e o que isso pode dizer sobre mim mesmo e sobre a forma como eu mesmo me vejo. Às vezes eu me pego relembrando esses livros e com vontade de reencontrá-los e relê-los, para relembrar os detalhes e investigar melhor as marcas que eles deixaram em mim, com certeza muito significativas.

Mas o mais interessante deste exercício autobiográfico é constatar o caráter artificial da memória (re)construída. Essa foi a primeira vez que parei para pensar sobre os livros que li na infância e dispô-los numa categoria histórica. As memórias são dados esparsos e desconexos, e só ao juntá-las é que preenchemos as lacunas e elaboramos um (novo) sentido para elas, criando um fio de lembranças que só existe no presente e diz muito mais a respeito do nosso eu atual do que do eu infante de um passado recente.


Hashtag da blogagem coletiva: #BCLivrosdaInfância

Chico Mota

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Francisco Fernandes da Mota foi um poeta, violeiro, repentista e cordelista paraibano que se tornou célebre no Seridó potiguar, especialmente em Caicó, onde viveu a maior parte de sua vida. Nasceu aos 23 de outubro de 1924, filho de Henrique Ferreira da Motta e Maria Elvira Fernandes, na Fazenda Dinamarca, município de Catolé do Rocha, Paraíba. Começou a trabalhar na agricultura aos 10 anos de idade e viveu na zona rural até 1963.

Em 1949, deu início à profissão de violeiro. Em 1955, na cidade de São Bento (PB), casou-se com Hermínia Joaquina Alves, com quem viveu até o dia de seu falecimento e lhe deu uma prole de 10 filhos. Em 1º de maio de 1963, criou, juntamente com o violeiro-repentista José Soares Sobrinho (in memoriam), o programa de rádio Violeiros do Seridó.

Chico MotaEm sua trajetória como poeta, é autor de vários cordéis e publicou 4 livros:

  • Veredas Nordestinas,
  • Trovas etc. (contos),
  • Violas e Cantadores e
  • A Saga de um Bandoleiro no Oeste Potiguar.

Gravou 5 CDs, sendo 4 em parceria com outros cantadores.

Foi sócio efetivo do Clube dos Trovadores do Seridó/CTS, ocupando a cadeira número 9, que tem como patrono Júlio César da Câmara. Foi membro da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte – ATRM, ocupante da cadeira número 38, cujo patrono é o acadêmico José Gotardo Emerenciano Neto.

Faleceu no dia 5 de junho de 2011.

A repercussão de seu falecimento foi sentida na homenagem prestada pela Rádio Rural. No horário matutino, em que ele costumava cantar diariamente, violeiros compuseram versos com o mote “A viola nordestina / Mais uma vez enlutada.” Na missa de seu sepultamento, vários colegas poetas entoaram em temas de sete linhas. A Casa da Cultura de Caicó será rebatizada com seu nome.

In memoriam

Inês falava tanto sobre o pai que eu gostava muito dele, mais pelo que ela dizia do que pelo pouco contato que tive com ele. Era um homem alegre e inteligente, que amava a vida e, aos 86 anos de idade, não dispensava uma caminhada diária e o contato com os amigos. Gostaria de ter conhecido melhor meu sogro, ter conversado com ele sobre literatura e história. Ele está em outra dimensão agora, e provavelmente o encontrarei por aí. Ficam meus pensamentos positivos para que ele continue sua caminhada evolutiva pela eternidade.

Coronelismo virtual

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Os leitores da Teia sabem que tive um texto plagiado. Em resumo, descobri o plágio de um texto meu no site Star Trek Brasil (www.jornadanasestrelas.com), enviei mensagem, pediram provas de que o texto é de minha autoria, enviei provas e não recebi mais nenhuma manifestação do site. Nesse ínterim, muita gente denunciou e enviou reclamações, diretamente ao site ou no Twitter.

Paralelamente, outro blogueiro, Hugo Cardoso, também alertado para um plágio no mesmo site e pela mesma colunista, Jéssica Esteves, escreveu sobre o caso e enviou uma mensagem pelo Twitter para o site. Diferentemente do que aconteceu comigo, a resposta do site foi uma demonstração de baixaria, típica de quem não tem argumentos para se defender.

As respostas cretinas a Hugo podem ser vistas aqui e aqui. A primeira é um insulto direto e demonstra tanto que o pessoal do site sabe que a denúncia de plágio tem fundamentos quanto está disposto a não tomar providências a respeito disso.

A segunda foi uma forma de dizer que não têm medo de terem sua podridão exposta, e ao acusar Hugo de querer ser “dono do mundo”, estão eles mesmos afirmando que o são. É uma mensagem tão sem noção que veicula um disparate ao pretender que Hugo não tem nada a ver com o assunto. Mas ele está diretamente envolvido, pois foi espoliado por Jéssica Esteves. Como se não bastasse tanta brutalidade, ainda escrevem muito mal.

Toda essa manifestação é bizarra e contraditória, tendo em vista que Jornada nas Estrelas é uma franquia de histórias que procuram veicular elevados valores éticos, representados pela fictícia e utópica Federação dos Planetas Unidos. Mas qualquer código moral pode ser usado para justificar atos de violência, como a Inquisição promovida pelos seguidores do mítico pacifista Jesus Cristo.

Também achei estranho que essas ofensas, dispensadas a Hugo e também a meu irmão Diego e a meu amigo Léo Rodrigues, não tenham sido endereçadas a mim. Pelo que Hugo disse em seu próprio blog, dei-me conta de que o fato de o site ser brasileiro e Hugo ser português é um obstáculo para qualquer tipo de ação judicial, que seria muito difícil levar adiante devido às diferenças de jurisdição e de leis.

Quanto aos outros injuriados, não estão diretamente envolvidos, o que é visto pelo pessoal do site como uma oportunidade para jogar sua raiva em alguma direção sem correr muitos riscos de ser processado. Ou seja, são várias manifesações de covardia. Mas errar é humano, e as pessoas que fazem esse site não são vulcanos, ferengi nem trills.

Talvez eles quisessem deixar implícito que os erros da colunista não são culpa do site. Eles realmente podem ter agregado a moça sem saber que ela recorreria ao plágio para alimentar o site. Mas, ao perceber isso, deveriam ter sido mais sérios, tirando os textos do ar ou lhes dando os devidos créditos (além do meu e o de Hugo, havia vários outros textos plagiados). E nem precisava pedir desculpas.

Hoje eles tomaram, finalmente, uma providência razoável. Tiraram do ar a coluna e os artigos assinados por Jéssica Esteves. O que enfim poderia ser considerado um ato de humildade parece mais ter sido motivado por covardia. Ora, o @startrek_brasil continuou enviando insultos e demonstrando imensa arrogância (agradecendo a visibilidade que os tweets de reclamação têm dado ao site, por exemplo – francamente, não me importo se o site está fazendo sucesso ou não, mas me incomoda que enganem cada vez mais leitores).

Coronelismo virtual

Eis uma das lições que se podem tirar disso tudo: na internet, as estruturas de dominação se reproduzem, mesmo que virtualmente. Na história humana, temos vários exemplos de povos e pessoas que usaram algum tipo de poder para se apoderar dos bens alheios (dinheiro, terras, pessoas – que se tornavam escravos ou súditos). Esses espólios eram usados para aumentar ainda mais seu poder e para manter a ilusão de que a dominação assim criada era legítima, vontade dos deuses, prova de uma suposta superioridade de um povo ou de seu destino glorioso.

Um exemplo mais próximo da realidade da maioria dos leitores da Teia é a história fundiária do Brasil. Desde a Abolição da escravidão até hoje, pratica-se o chamado coronelismo, o monopólio realizado por indivíduos e famílias que possuem capital econômico e político para manter uma posição de poder, estabelecendo suas próprias regras na região em que atuam, espoliando terras ocupadas por pequenos agricultores (e se arrogando a propriedade legítima), submetendo pessoas à obediência forçada, usando meios criminosos para silenciar e matar aqueles que ameaçam seu poder.

O que pode ser visto como uma versão em miniatura dos impérios, como o Romano e o Mongol. No universo de Jornada nas Estrelas (já que estamos falando nisso), o Império Klingon utiliza esses mesmos meios para estender e ampliar seu poder na galáxia. Sua primeira aparição na série (Missão de MisericórdiaErrand of Mercy -, 27º episódio, 1ª temporada, TOS) é emblemática daquilo que os caracteriza como um povo conquistador, belicoso, orgulhoso e imperialista. Kor, agente do Império Klingon, aporta no planeta Organia declarando que este está automaticamente anexado ao Império e que toda manifestação contrária será reprimida.

O site Star Trek Brasil agiu como um coronel que se pensa intocável e não assume como crimes os atos de roubo que comete. Ao contrário, deixa bem claro que a visibilidade que possui na internet, a quantidade de leitores e de seguidores no Twitter, lhe serve como capital para justificar sua impunidade, e ainda envia ofensas aos injuriados, como demonstração de uma suposta imunidade.

Os autores cujos nomes foram mascarados pelo nome de Jéssica Esteves não têm tantos leitores nem tantos seguidores no Twitter para promover uma mobilização de tamanho significativo. Mas eles têm provas a apresentar e têm registrada a publicidade de todo o episódio na internet. Provavelmente nem Jéssica Esteves (se é que ela existe) nem o Star Trek Brasil pedirão desculpas, mas agora eles sabem que, se incorrerem novamente no erro, estão suscetíveis a novas denúncias. Não da minha parte, pois me cansei disso, tenho minha vida para viver e meus posts para escrever. Mas basta ter amigos menos pacientes e mais dispostos a nos defender para que certas falcatruas venham à tona.

Obrigado pelo plágio

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Recentemente houve uma entrevista com o ex-roteirista Brannon Braga sobre a temática homossexual na série Jornada nas Estrelas. Aproveitei a deixa para divulgar um post de outubro de 2010 intitulado Homossexualidade em Star Trek, um de meus textos preferidos e que me custou uma pesquisa interessante sobre uma de minhas séries de TV favoritas.

Nestes dias, descobri um site brasileiro sobre Jornada nas Estrelas, feito por fãs, para fãs e com notícias e resenhas sobre o universo ficcional criado por Gene Roddenberry. Chamou-me atenção um link no referido site para um texto de uma de suas colunistas, com um título igual ao do meu texto, Homossexualidade em Star Trek. Qual não foi minha surpresa ao ver que se tratava de meu próprio texto!

Procurei então alguma referência ao meu nome e/ou ao meu site, mas não encontrei nada senão a assinatura de “Jéssica Esteves, jornalista”. Minha reação imediata foi estupefação seguida de uma certa raiva. Tentei ser educado, e enviei um comentário pedindo que os devidos créditos fossem mencionados. Porém, o comentário nunca chegou a ser publicado. Vejam o link do texto de Jéssica:

http://jornadanasestrelas.com/index.php?pag=noticia&id_noticia=878&id_menu=22

Pensando melhor, percebi que seria mais racional enviar uma mensagem para a colunista, através do e-mail disponibilizado em sua coluna. Mas a mensagem não chegou ao seu destino e retornou. Preenchi então um formulário de contato do próprio site, explicando que não vejo problema algum em ter meu texto publicado em outros sites (não há sequer necessidade de pedir permissão), contanto que se mencione a fonte.

Enquanto isso, escrevi sobre o caso no Twitter e procurei saber se havia outros plágios da mesma jornalista. Encontrei um texto que originalmente foi escrito por Hugo Cardoso, blogueiro português. Jéssica não teve nem o trabalho de mudar a grafia de palavras como “acção” (da grafia do português lusitano), e retirou o primeiro parágrafo do original, para tirar pistas de que o texto não é dela. Eis o link do texto de Hugo e o da cópia:

http://hugocardoso.com/blog/archives/2277

http://jornadanasestrelas.com/index.php?pag=noticia&id_noticia=844&id_menu=293&conjunto=&id_usuario=¬icias=&id_loja=

As datas de publicação, tanto de meu texto quanto do texto de Hugo, mostram que estão na internet há mais tempo do que os textos “de Jéssica”. Usei isso também como argumento em minha reclamação. Uma resposta veio no dia seguinte, na forma de um e-mail assinado por Lucas Laynes:

Bom dia

Recebi uma cópia desta mensagem através do e-mail da Jéssica uma das colaboradoras do portal Jornada nas Estralas. Onde a mesma foi acusada de plágio pelos senhores.

Como amigo e advogado de todos os colaboradores deste portal, aconselhei a retirada do post em questão e solicito aos senhores o arquivo original do mesmo ou a data da criação do texto em DOC ou TXT para comprovação dos fatos afirmados, lembrando que a data da publicação do site ou blog que afirma ser o original, não basta para prova, pois a data de publicação pode ser alterada

Aguardo resposta o mais breve possível

Att

Lucas Laynes

Os “senhores”, soube depois, são alguns amigos, inclusive meu irmão, que tentaram comentar no post de Jéssica e enviaram mensagens para o site.

Ainda fiquei estupefato por Jéssica persistir no erro e não admitir o plágio. Também não gostei do fato de eles terem tirado os links do site que levam ao post, mas não terem excluído o post, que ainda pode ser encontrado numa pesquisa do Google.

Bem, já que fui eu quem a acusou de plágio, nada mais justo do que eu o provar. Mas não tenho arquivo DOC ou TXT, pois sempre redijo direto no blog. Além disso, descobri depois que há softwares capazes de modificar a data de criação de um arquivo, o que inviabiliza o uso destes como prova num caso semelhante.

Em minha tréplica, admiti que não tinha como provar a data do post em meu blog e nem sequer as datas dos comentários, pois tudo isso pode ser editado por mim. Então passei para algumas evidências que, penso, podem sustentar que Jéssica Esteves não é autora do texto.

Em primeiro lugar, a atenção é suficiente para se ver que a imagem que ilustra o post dela é a mesma que uso no meu, mas deformada para caber no formato da página. Além disso, há um parágrafo solto na cópia, que em meu texto é a legenda de uma imagem e que nem sequer tem ponto final, servindo apenas para ilustrar o que é dito no parágrafo anterior. Ainda se pode recorrer a uma leitura atenta de meus textos, para averiguar o estilo destes, que destoa dos outros textos cuja autoria Jéssica se arroga.

Prova 1

Prova 1

Entretanto, essas evidências são muito subjetivas. Então me vali de uma publicação automática feita em minha página do Facebook, que posta os links do meu blog com data próxima à do post. Esta data não pode ser modificada por mim:

http://www.facebook.com/pages/Teia-Neuronial/220979529692

Prova 2

Prova 2

Do mesmo modo, meus posts são divulgados no Twitter quase na mesma data em publico no blog:

http://twitter.com/ThiagoLB/status/27786408746

Prova 3

Prova 3

Ainda não obtive nova resposta do site e a questão ainda está em aberto. Encontrei outras provas, como alguns agregadores de blogs que mantêm a data da publicação original do meu texto, e ainda pensei em outras possibilidades, mas achei que já era suficiente. De qualquer forma, tenho vários amigos que podem testemunhar a meu favor.

“Depois de tudo ainda ser feliz…”

Meu amigo Tiago Oliveira me disse algo interessante: não importa de quem é o texto ou quem se arroga autor deste, pois o que interessa mesmo é a ideia, e o plágio é uma forma de elogio, pois significa que alguém considerou seu trabalho bom. Concordo em parte.

Talvez eu nem me chateasse tanto se o texto fosse divulgado anonimamente. Certamente o que importa é a informação, a certeza de que outras pessoas estão usufruindo dela. Mas acho que os créditos são importantes para que os leitores saibam como citar a fonte e como obter mais informações semelhantes.

Creative Commons 3.0Meu blog está sob uma licença Creative Commons 3.0 (o que pode ser averiguado no rodapé do site), também conhecida como CC-BY-NC-SA, ou seja:

  • BY (by, “por”): O conteúdo pode ser compartilhado e até modificado, desde que a autoria do original seja mencionada.
  • NC (non-commercial, “não-comercial”): O conteúdo não pode ser usado para fins comerciais e deve sempre ser divulgado gratuitamente.
  • SA (same, “mesma licença”): Se o conteúdo for divulgado em outro lugar, deve manter esta mesma licença.

A licença Creative Commons serve para garantir os direitos dos autores que querem descomplicar a burocracia do copyright, protegendo o conteúdo de possíveis utilizações indevidas, pois esse tipo de apropriação que relatei, que tem como objetivo a autopromoção às custas de trabalho alheio, é muito comum, inclusive na internet. É um mecanismo que funciona na base da interconfiança e na Ética.

Esta faltou a Jéssica Esteves, ainda mais considerando que ela se diz jornalista. A impressão que tenho é que ela foi levada por um excesso de confiança na probabilidade de ninguém descobrir, pois meu blog não é tão popular quanto o dela. Mas é um risco que ela tomou, o de ficar desacreditada perante seus leitores. Mas não custava nada ter mencionado a fonte do texto, e seria pouco trabalho usar meu texto como inspiração para uma nova redação, que ela poderia assinar com o próprio nome. De qualquer forma, está para qualquer um julgar a tranquilidade com que expus o caso, pois não tenho nada a esconder, e a falta de qualquer pronunciamento público por parte do pessoal do site que abriga o plágio.

Admito que me deixei mover demais por esse episódio, é a primeira vez que sou plagiado (ou, ao menos, que tenho consciência disso). Mas não gostaria que isso acontecesse com outros autores, e penso que colocar tudo às claras é o mínimo que posso fazer para me autoavaliar quanto à questão e não deixar que mentiras se perpetuem.

Links

30 translações

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Há 1 ano eu escrevi um texto sobre meu aniversário de 29 anos, 29 translações ou Uma festa não muito esperada. Hoje eu chego a um número “redondo” (pois tem um zero, que tem forma redonda), 5 vezes 6, 3 vezes 10, 2 vezes 15. Porque um número “redondo” tem tanta importância eu não sei. Meu pai falou em 30 anos como se fosse um marco. Versão “3.0”.

Mas isso não importa agora. Esses momentos institucionalizados pela nossa cultura para servir como celebração e confraternização, ou seja, para reforçar os laços sociais, são para ser aproveitados mesmo, e aqueles que pensam nessas horas com certo cinismo temos mesmo é que usufruir, compartilhando a alegria dos amigos e familiares que vêm nos enviar felicitações e comemorar.

Às voltas com o pós-operatório de uma cirurgia cardíaca realizada em 30 de agosto deste ano, ainda com algumas sequelas físicas que me mantêm em tratamento diário 1, vejo-me na condição de uma peça em manutenção, que vai retomar suas atividades normais com mais energia e eficácia.

O coração é o centro do corpo 2, protegido pela caixa torácica junto com outros órgãos vitais, encontra-se bem no meio, para distribuir igualmente o rubro líquido oxigenador por todo o soma 3. É um órgão fundamental para o funcionamento do cérebro, que, sem o oxigênio capturado pelos pulmões e levado à corrente sanguínea, não poderia tecer ideias, pensamentos, emoções nem sonhos, ficando desligado do mentalsoma, o corpo mental que se manifesta na dimensão mentalsomática, que não pode se manifestar na dimensão intrafísica sem a conexão com a glândula pineal, o coração do cérebro 4.

Hoje, dia seguinte ao meu aniversário, escrevo aqui só para constar. Somando os presentes de Natal com os de aniversário (pois acontece tudo tão perto que eu considero os presentes como referentes a uma situação só), ganhei uma carteira, um cinto, camisas, um par de sandálias, uma miniatura de dragão púrpura, o livro de receitas Quase Vegetariano: Alimentação Saudável através de Receitas Deliciosas, de Geni Coli 5, o livro de ficção científica Ubik, de Philip K. Dick, um lindo vaso de flores-do-serrado, e talvez algo mais que eu tenha esquecido. Um conjunto e tanto para começar as atividades de 2011 e.c..

Houve também, como é costume nos dias atuais, muitas mensagens de felicitações nas redes sociais virtuais, todas “curtidas” e respondidas, além de ligações telefônicas apreciadas.

Last but not least, espero que este post represente um singelo presente aos leitores desta Teia que teço com tanto carinho e cuidado. À maneira dos hobbits, gosto da ideia de dar presentes em meu aniversário. Ademais, também pode servir como presente de Natal atrasado e de Ano Novo antecipado. Boas festas e felicidade a todos nós!


Notas

  1. Depois da cirurgia, fui internado mais 3 vezes. Na primeira, tive que ter parte da cicatriz aberta de novo, para a inserção de um tubo para drenar um derrame no pericárdio. Na segunda vez, após o diagnóstico de uma arritmia cardíaca, tive que ser medicado na UTI e submetido a uma cardioversão (um choque com desfibrilador; ainda estou tomando diariamente um comprimido para manter a regularidade da frequência cardíaca). A terceira vez, bem recentemente, foi para a retirada de um fio de aço, colocado durante a cirurgia original para segurar as duas partes do esterno enquanto este cicatrizava, e que meu corpo estava rejeitando. Ainda vou quase diariamente ao hospital para chek-ups e trocas de curativo.
  2. Talvez por isso ele receba tantas atribuições nas filosofias mundo afora, tendo sido considerado na Grécia antiga o órgão onde se sedia a mente.
  3. …eu acho.
  4. Então, retomando a nota 2, o coração, se não é a sede da mente, ao menos desempenha papel importante em sua manutenção.
  5. Vou me esforçar ao máximo para aprender a cozinhar este ano. Eu não juro, mas prometo.

Da amizade – parte 2

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Na primeira vez que li o ensaio Da Amizade, de Michel de Montaigne, na universidade, aos 20 e poucos anos de idade, não me surpreendi muito com sua descrição tão espetacular de uma relação de proximidade, intimidade, apoio, lealdade e compreensão mútua. Eu já tinha vivenciado e vivenciava uma relação desse tipo desde os 16 ou 17 anos, com um amigo que, acho, foi a primeira pessoa que, sem ser meu parente, não hesitei em chamar de irmão.

Hoje ele completa mais uma translação ao redor da estrela Sol, desde que chegou a esta dimensão pela última vez. Aproveitando este fato, combinado com minha vontade de continuar a série Da Amizade com uma resenha do referido ensaio de Montaigne, faço jus, espero, ao que a amizade de Rúbio representa para mim – e talvez para ele.

Segundo Montaigne:

Para construí-la [à amizade] são necessárias tantas circunstâncias que é muito se a fortuna o conseguir uma vez cada três séculos.

Não posso me enganar quanto a essa afirmação. Foi pouco tempo depois de conhecer o ora homenageado que ambos percebemos uma afinidade. Ela foi aflorando aos poucos, com o passar dos encontros no segundo grau do colégio. Mas ela não apareceu de imediato. Ao mesmo tempo, foi mais rápido do que eu poderia imaginar, e quando nos demos conta já éramos amigos milenares. E ambos não duvidamos que esse relacionamento realmente é milenar, vindo de algumas vidas passadas.

Afinal, não é o tipo de coisa que se construa, por exemplo, com a simples e intensa convivência familiar, que pode proporcionar laços firmes, mas não necessariamente uma amizade do tipo que aqui se discute, pois,

em geral, todas as [relações] que a volúpia ou o proveito, a necessidade pública ou privada engendram e alimentam são menos belas e nobres e menos amizades na medida em que misturam à amizade outra causa e objetivo e fruto que não ela mesma.

As relações sociais humanas se constroem a partir de instituições culturais, e nossa natureza gregária nos força a criar uma série de regras e preceitos morais e éticos para a vida em comum. No entanto, todas as conveniências de parentesco, de casamento e de coleguismo não chegam necessariamente ao ponto de constituir o sentimento e o relacionamento sublime (e também sublimado) que Montaigne chama de amizade.

Mesmo que aquelas coisas que fazemos juntos contribuam muito para a manutenção de um laço de amizade, quando esta está relativamente consolidada já é possível usufruir com grande prazer da mera companhia do outro. Aliás, não é uma mera companhia ou presença, mas um exercício de telepatia em que a conversa não para por causa do silêncio. E, por outro lado, quando a conversa é intensa, seja num debate, seja nos desabafos, ela ocorre como um monólogo, como se fosse apenas uma pessoa falando consigo mesma.

Segundo Montaigne, nenhum laço de parentesco é suficiente para construir esse tipo de amizade nobre e sublime. Não posso negar que há uma afeição especial por cada um de meus progenitores e por cada um de meus irmãos, e que posso contar com eles incondicionalmente em situações de necessidade, assim como eles podem contar comigo. Mas não chega a ser forçosamente a mesma coisa, pois sempre falta algo, os parentes raramente têm as convergências de personalidade e a vivência específica, necessárias para promover a amizade.

Montaigne também diferencia o amor, entendido como a relação afetivo-sexual, da amizade. Para ele, o amor é unilateral, acontece como uma relação entre caçador e presa, e não representa o compartilhamento dos mesmos sentimentos da amizade. Esta é uma troca bilateral, mais ligada à alma do que ao corpo.

(Mas temos que relativizar essa afirmação, considerando que Montaigne se referia aí ao relacionamento entre homem e mulher e que a ideologia de sua época era muito mais androcêntrica e machista do que atualmente em nossa sociedade, e que para o homem era inconcebível uma relação de amizade com uma mulher e entre estes poderia haver apenas uma relação sexual ou, no casamento, uma relação entre possuidor e posse. É possível, hoje em dia, com a crescente superação das rígidas regras de divisão sexual do trabalho, que um casal heterossexual forme um laço de amizade.)

De resto, o que costumamos chamar de amigos e amizades são apenas contactos e convivências entabulados devido a alguma circunstância ou conveniência por meio da qual nossas almas se mantêm juntas. Na amizade de que falo, elas se mesclam e se confundem uma na outra, numa fusão tão total que apagam e não mais encontram a costura que as uniu. Se me pressionarem para dizer porque o amava, sinto que isso só pode ser expresso respondendo: “Porque era ele; porque era eu.”

Há pessoas que banalizam de tal forma a palavra amizade que não se evadem de chamar de amigos quaisquer pessoas com quem convivam com um mínimo de civilidade. Não que o uso das palavras não mude com o passar do tempo, mas, desta forma, é difícil nomear, para diferenciar da Amizade (com A maiúsculo) a amizade banal que a maioria vive no dia-a-dia.

Percebo que há pessoas que, por causa da troca de um favor ou por causa de uma simples conversa em que compartilhou com alguém algo pessoal, já considera este seu amigo. Pior, há pessoas que colecionam “amigos”, seduzindo quem encontram no caminho, garantindo assim várias opções de refúgio quando estiverem em apuros. Geralmente são indivíduos que não conseguem estabelecer uma vida segura, vivendo também uma insegurança pessoal e íntima (o que não quer dizer, é claro, que eu trate mal os “amigos” ou sinta por eles o oposto do que sinto pelos Amigos; é preciso procurar conviver bem e, quanto possível, ter uma postura amigável e assistencial para com qualquer pessoa).

Com meus verdadeiros amigos não acontece assim. Seja em situação favorável ou em penúria (o que realmente nunca aconteceu drasticamente), cada uma de nossas casas sempre esteve aberta para o outro. Compartilhar e dividir nunca foram obrigação, mas sempre nos sentimos impelidos a fazê-lo, por livre arbítrio, por satisfação pessoal e mútua.

A fusão de que fala Montaigne causava episódios pitorescos. Era muito surpreendente (hoje em dia nem tanto) que as pessoas ao nosso redor nos confundissem um com o outro, chamando-me de Rúbio e chamando-o de Thiago, dizendo a ele que falasse com Rúbio ou me dizendo que desse um recado a Thiago. Fisicamente, nem somos tão parecidos, mas a amizade nos moldou a ambos.

Não está no poder de todos os argumentos do mundo afastar-me da certeza que tenho sobre as intenções e julgamentos de meu amigo. Nenhuma de suas ações me poderia ser apresentada, sob qualquer aparência, sem que eu descobrisse incontinenti seu motivo.

Não concordo totalmente com essa afirmação de Montaigne. Eu não poderia condescender com um ato que considero ilícito e/ou antiético, premeditado ou cometido por meu amigo. Não sem ameaçar nossa amizade. Se realmente me considero seu amigo, não posso aceitar que ele prejudique a si mesmo nem a outras pessoas. É claro que considerar algo certo ou errado é relativo, mas há algo que precisa ser dito sobre a relação entre amizade e Ética.

Retomando Montaigne, e desta vez concordando com ele, a amizade que ele propõe só se sustenta com um elevado senso de ética. Não quero dizer exatamente que isso implica numa compreensão do que é melhor ou pior por parte de cada um dos amigos, mas sim que eles têm, no mínimo, algumas noções e a predisposição para sempre acertar mais e sempre desenvolver sua ética infinitamente, da mesma forma que a Ciência busca eternamente compreender a realidade.

Duas pessoas que se relacionam numa amizade mas não têm esse senso ético não podem ser considerados verdadeiros amigos, pois a falta de noções éticas dificultará a confiança mútua, e eles tenderão a trair um ao outro, por desconfiança e medo, e poderão até abandonar o amigo quando estiver em situação melhor do que ele. Porém, uma amizade baseada na Ética fará com que ambos ajudem um ao outro a evoluir, trocando ideias e experiências que beneficiam aos dois (ou mais).

Assim, conhecendo-nos a fundo, eu e meu amigo compreenderemos porque o outro escolheu pensar e/ou agir (pensar é uma ação, agir é pensar com o corpo) de determinada forma, e deverá repreendê-lo se discordar. A discordância, no entanto, jamais será motivo de desavença, pois o que discorda sabe que tem, ele mesmo, aspectos que merecem reprovação do amigo, e sempre espero que ele esteja disposto a apontar se estou no caminho certo. O binômio admiração-discordância deve prevalecer em qualquer relação sadia de amizade, sempre na busca mútua pelo o desenvolvimento intelectual e emocional.

Essa amizade, enfim, é o que baseia qualquer tipo de relação, seja a dois, seja grupal ou mesmo universal. Se cada vez mais pessoas experimentarem esse ideal (estou falando, é claro, de um modelo idealizado, muito difícil de concretizar plenamente, mas possível de ser vislumbrado), mais e mais indivíduos vão se sentir impelidos a tratar qualquer pessoa como se fosse seu amigo, e talvez o mundo venha a ser um lugar melhor.

Referência

  • Montaigne, Michel de. “Da amizade”. In: Os ensaios: volume 1. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Crédito da foto

  • Maria Betânia Monteiro, minha amiga, namorada do meu amigo.

O paciente

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Nas circunstâncias em que se encontra uma pessoa sujeita a tratamento médico-hospitalar, o tempo se torna um elemento de preocupação intermitente, como o é o próprio tempo. Ora, todo processo  de cura leva tempo para se concretizar, e a medicina, mais do que a simples aplicação do remédio, é muitas vezes o acompanhamento técnico desse processo de cura, que se dá quase naturalmente, como resposta a algum estímulo químico ou outras terapias adequadas a cada caso.

Numa cena do filme O Outro Lado da Nobreza (Restoration, 1995), o médico Merivel, instado pelo rei a curar a doença de sua cachorrinha, tem a intuição de que a natureza e o tempo deveriam ali fazer seu papel; ele apenas observaria e acompanharia o processo de cura, o que afinal se concretizou e o levou a ser eleito médico real.

 

Para nossas existências humanas, o tempo representa um fator elementar, e a passagem do tempo, sendo um processo natural e, de certa forma, afetando de maneira igualitária toda a matéria existente, (dentro, é claro, das mesmas condições físicas), não é experimentada da mesma forma pelas diferentes mentes que sofrem com ela, sendo, portanto, para nós um fenômeno subjetivo.

O substantivo paciência (do latim patientia, “capacidade de suportar, de resistir”) serve para designar a condição de quem lida mais ou menos bem com a passagem do tempo. O indivíduo paciente é aquele que se deixa abalar o menos possivelmente pela passagem do tempo. Nas circunstâncias em que se encontra uma pessoa sujeita a tratamento médico-hospitalar, usa-se o substantivo paciente, que não por acaso é homônimo e cognato daquele sujeito que suporta a passagem do tempo.

Na cena do filme supracitado, a paciente teve que ser paciente (assim como o médico), suportando as dores até que seu corpo sanasse a si mesmo. E muitas vezes o paciente num hospital precisa exercitar sua paciência, tanto porque se encontra em situação atípica (tendemos a perceber a passagem do tempo mais lenta em situações com que não estamos acostumados) quanto porque fica privado de várias de suas atividades corriqueiras (o que dá a impressão de que o tempo foi “esvaziado”).

Para quem é forçado a se internar na UTI (unidade de tratamento intensivo), há mais razões para que o tempo lhe corra lentamente: a necessidade de se manter por bastante tempo (“bastante tempo” sendo também, ora, uma quantidade subjetiva) numa só posição (deitada ou semideitada), com os movimentos do corpo limitados temporariamente, aliada à dificuldade de os enfermeiros atenderem prontamente aos desconfortos dos vários pacientes (fazendo-os esperar um tempo imprevisível até serem atendidos) e a ausência prolongada de pessoas do convívio cotidiano, que têm um intervalo de tempo muito limitado para efetuar visitas.

A situação é tão reconhecidamente desconfortável que próximo a cada leito da UTI há um televisor, cujo uso, um enfermeiro certa vez me aconselhou, faz “o tempo passar mais rápido”. Mas para que alguém quereria que o tempo passasse mais rápido? Em situações cotidianas e ordinárias, a maioria das pessoas gostaria que o tempo passasse mais lentamente e desejariam ter mais tempo com que se ocupar com atividades mais satisfatórias. Quando estamos na UTI (unidade de tempo infinito) há tempo de sobra com que ocupar a mente, mas a maioria absoluta das pessoas não consegue conceber esse aproveitamento se não for de uma maneira convencional de “passatempo”, ou seja, ouvindo música, vendo TV ou dormindo (o que, para muita gente, é uma técnica para “apagar” certos intervalos de tempo em que seria preciso esperar).

Albert Einstein

Einstein demonstra que a língua é mais rápida que a luz do flash da câmera

Mas lembremo-nos da Teoria da Relatividade de Einstein e suas aplicações quando o assunto é velocidade x tempo. Uma pessoa que viajasse à velocidade da luz durante 50 anos não sofreria nenhum envelhecimento significativo, o tempo não haveria passado para ela quando a viagem chegasse ao fim, mas as pessoas ao seu redor envelhecerão 50 anos e algumas morrerão. Quando estamos ocupados, o tempo parece passar mais rápido, e mais rápido ainda quando estamos ocupados com algo prazeroso, mas o tempo se arrasta quando estamos ociosos e nos oprime com sua lentidão quando estamos fazendo algo que nos desagrada profundamente.

A primeira noite que passei na UTI (unidade de tortura infernal) depois de uma cirurgia cardíaca foi sentida por mim como uma das mais longas de minha vida. A sensação de passagem do tempo estava alterada em relação à sensação que normalmente experimento, e quando eu achava que haviam passado duas horas, em meio a cochilos e despertares de duração incertíssima, o relógio da enfermeira revelava a passagem de uns 30 minutos. A janela aberta mostrava que o Sol parecia não querer acordar o céu.

Entretanto, o tempo dilatado nesta situação é, à primeira vista, difícil de ser aproveitado com algo menos banal do que a TV (é difícil ficar ouvindo música, pois às vezes as inesperadas interrupções dos enfermeiros e a manipulação do mp3-player – ou equivalente – é complicada pela limitação física; além disso, é difícil dormir devido aos desconfortos). A mente ficará divagando, tal como a avezinha no poema O Devanear de um Cético, de Bernardo Guimarães, sem um caderno para registrar os pensamentos e ajudar a elaborá-los e desenvolvê-los. Se o pa-ciente já estiver ciente do que o espera depois da cirurgia, pode pedir que alguém providencie antecipadamente um gravador a ficar-lhe disponível (se a dificuldade de manipulá-lo não for grande demais).

Civilizações Extraterrenas, de Isaac AsimovNa situação em que escrevo este ensaio (estou pela terceira vez na UTI do mesmo hospital depois da cirurgia), as circunstâncias físicas são mais favoráveis, as limitações corporais são menores e as possibilidades de “passatempo” são mais variadas. Pude facilmente dedicar um bom tempo à escrita num caderno (a falta de um computador se fez sentida, é realmente uma ferramenta muito prática – há quem diga que o PC dificulta a escrita, pois a possibilidade de apagar qualquer resultado momentaneamente insatisfatório supostamente paralisa o escritor, e prefira uma máquina de escrever, na qual o texto vai sendo escrito até o fim e as correções e ajustes são deixadas para depois; discordo disso e não tenho essa dificuldade diante de um teclado e um monitor, tudo depende da desenvoltura desenvolvida pelo escritor), a facilidade de relaxar o corpo me permitiu um bom tempo de expansão da consciência e ainda me foi possível desfrutar a leitura de um bom livro, Civilizações Extraterrenas, de Isaac Asimov, no qual até encontrei uma citação adequada a este texto:

é mais fácil imaginar uma vitória sobre a morte do que uma vitória sobre o tédio.

Asimov afirmou isso num contexto em que discute a possibilidade (improvável) de alcançarmos a imortalidade física enquanto exploramos o espaço em busca de outro sistema planetário, viajando em naves espaciais que não possuem distrações suficientes para”preencher” o tempo dos exploradores. Mas o tédio pode, em algumas circunstâncias, ser até fonte de inspiração para a mente, como o demonstrou Charles Baudelaire num conjunto de poemas denominado Spleen (poemas LXXVIII a LXXXI de As Flores do Mal). O que pode demonstrar que alguma virtude mental permite à pessoa em condição de tédio (predisponente à impaciência) passar bem o tempo.

No filme Contos Proibidos do Marquês de Sade (Quills, 2000), cada vez que o personagem do título é privado em sua cela de seus pertences (até ficar plenamente nu), ele encontra alguma forma de escrever e dar vazão à sua imaginação pornográfica, seja rabiscando com sangue suas roupas, seja sussurrando o texto para seus vizinhos de cela, através de pequenas frestas, para que, num telefone-sem-fio, alguém o registre em algum lugar.

Contos Proibidos do Marquês de Sade

O marquês de Sade escreveu em suas próprias roupas, usando sangue como tinta

Em várias partes da Terra, desenvolveram-se técnicas capazes de pacificar a mente, de modo que um indivíduo não precisa de mais do que de si mesmo para “sobreviver” à falta do que fazer. A Ioga (ou o Yôga), as diversas formas do que se generaliza sob o termo meditação, as técnicas para autopromover a experiência fora do corpo e os mantras que induzem o transe são alguns exemplos dessa tecnologia da paciência. Essas técnicas não são simplesmente usadas pontualmente, para “o tempo passar”, mas têm a importância de servir como cultivadoras de uma disposição mental mais permanente, que permite suportar melhor a situação potencialmente estressante.

O que me leva a outras nuances do espectro semântico da paciência.

Faquir

“Um faquir em Benares” (fotografia de Herbert Ponting, 1907)

Uma das coisas que um paciente de hospital precisa aprender desde logo é suportar a dor física. As partes do corpo que foram mexidas durante uma cirurgia doerão quando os efeitos dos sedativos e anestésicos passarem. De vez em quando será preciso puncionar uma(s) ou outra(s) veia(s) para retirar sangue ou para injetar soro e medicamentos (a entrada de alguns dos quais provoca uma extra dor extrema). É preciso seguir o exemplo de um faquir (porém, certa vez Beakman explicou que os faquires não têm que suportar dor nenhuma quando se deitam sobre uma cama de pregos, pois estes estão tão próximos uns dos outros e tão uniformemente espalhados que a pressão do corpo se distribui igualmente sobre eles e nenhum deles chega a perfurar a pele do indivíduo).

A mente, em princípio, pode ser livre e fugir da opressão das urgências do corpo. O Sr. Spock, no episódio Operação: Aniquilar! (Operation: Annihilate!) da série original de Jornada nas Estrelas, consegue, com sua disciplina mental, suspender a sensação de dor excruciante e enfrentar as criaturas que impingem esta sensação em suas vítimas. Os minbari, da série Babylon 5, têm uma disciplina mental parecida e conseguem até controlar a respiração, o que lhes permite  economizar energia (psíquica e física) quando, por exemplo, há pouco oxigênio numa cápsula espacial.

Num dos episódios da história do fundador do Budismo, Sidarta Gautama, em sua busca pela iluminação, ele deliberadamente passou algumas noites numa floresta, com o fim de apaziguar seu medo dos sons noturnos, que a princípio o assustavam, mas que depois passaram a ser encarados com serenidade. Afinal, nas situações em que não se pode evitar um perigo iminente, não adianta perder a calma, o que até pode mais atrapalhar. Pensando bem, nesse tipo de situação é útil um misto de serenidade e atenção, o que ajuda a ativar o foco, e uma mente concentrada pode conseguir agir rapidamente para resolver a ameaça antes que ela piore.

A Temperança

A Temperança, o Arcano Maior de número XIV do Tarô

Neste caso, a paciência tem muito a ver com a virtude da temperança, que é a capacidade de dosar os sentimentos e impulsos da forma mais eficaz possível. Essa noção vem das antigas teorias dos humores, os líquidos que se acreditavam compor nossa fisiologia e cujas dosagens determinavam nossos temperamentos. A fleuma determinava uma personalidade apática, o sangue determinava um caráter sensual, a cólera ou bile amarela determinava um aspecto irascível e a melancolia ou bile negra determinava uma tendência ao abatimento. O ideal buscado era a temperança dos 4 humores.

Talvez daí venha a expressão bom humor, ou seja, o equilíbrio entre os humores formando uma personalidade saudável (tanto física como psiquicamente; na Antiguidade, não havia a rígida separação dualista entre corpo e mente estabelecida por Descartes). E isso tem particularmente a ver com a paciência, pois a mente paciente também tende a desenvolver o bom humor. Um claro sinal de paciência é quando uma pessoa consegue manter um sorriso ou fazer gracejos enquanto passa por uma tribulação.

Aliás, paciência e bom humor estão tão intimamente ligados que se pode dizer também, inversamente, que o bom humor pode predispor à paciência. A pessoa realmente bem-humorada tem a “alma leve”, está quase sempre se sentindo bem e fazendo os outros se sentirem assim. Quando precisa enfrentar uma dificuldade, não permite que as circunstâncias negativas o afetem, mas procura, ao contrário, contagiá-las com seu próprio temperamento.

Passar por uma situação estressante não é sofrimento para o portador de bom humor, que pode encontrar em tudo motivos para sorrir. Porém, isso não quer dizer que se deva contentar com o que poderia ser diferente. É preciso lutar para mudar aquilo que representa um mal às pessoas, mas sempre mantendo a serenidade e a disposição de não sofrer diante do inevitável.

Agora chega dessa chatice e vamos direto à pornografia! “The internet is for porn!”

Obrigado pela paciência