<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Teia Neuronial &#187; Crônicas</title>
	<atom:link href="http://teianeuronial.com/category/cronicas/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://teianeuronial.com</link>
	<description>Antropologia, Ficção Científica, cultura e sociedade</description>
	<lastBuildDate>Fri, 03 Feb 2012 11:00:29 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.3.1</generator>
		<item>
		<title>Chico Mota</title>
		<link>http://teianeuronial.com/chico-mota/</link>
		<comments>http://teianeuronial.com/chico-mota/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 08 Jun 2011 20:09:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Academia de Trovas do Rio Grande do Norte]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Caicó]]></category>
		<category><![CDATA[Chico Mota]]></category>
		<category><![CDATA[Clube dos Trovadores do Seridó]]></category>
		<category><![CDATA[cordel]]></category>
		<category><![CDATA[cordelistas]]></category>
		<category><![CDATA[Francisco Fernandes da Mota]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[música]]></category>
		<category><![CDATA[poetas]]></category>
		<category><![CDATA[rádio]]></category>
		<category><![CDATA[Rádio Rural de Caicó]]></category>
		<category><![CDATA[repentistas]]></category>
		<category><![CDATA[Rio Grande do Norte]]></category>
		<category><![CDATA[RN]]></category>
		<category><![CDATA[violeiros]]></category>
		<category><![CDATA[Violeiros do Seridó]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://teianeuronial.com/?p=5040</guid>
		<description><![CDATA[Pequeno resumo da vida e obra de um violeiro do Seridó]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Francisco Fernandes da Mota</strong> foi um poeta, violeiro, repentista e cordelista paraibano que se tornou célebre no Seridó potiguar, especialmente em Caicó, onde viveu a maior parte de sua vida. Nasceu aos 23 de outubro de 1924, filho de Henrique Ferreira da Motta e Maria Elvira Fernandes, na Fazenda Dinamarca, município de Catolé do Rocha, Paraíba. Começou a trabalhar na agricultura aos 10 anos de idade e viveu na zona rural até 1963.</p>
<p>Em 1949, deu início à profissão de violeiro. Em 1955, na cidade de São Bento (PB), casou-se com Hermínia Joaquina Alves, com quem viveu até o dia de seu falecimento e lhe deu uma prole de 10 filhos. Em 1º de maio de 1963, criou, juntamente com o violeiro-repentista José Soares Sobrinho (in memoriam), o programa de rádio Violeiros do Seridó.</p>
<p><span id="more-5040"></span></p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-5046" title="Chico Mota" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/chicomota200.jpg" alt="Chico Mota" width="200" height="222" />Em sua trajetória como poeta, é autor de vários cordéis e publicou 4 livros:</p>
<ul>
<li><em>Veredas Nordestinas,</em></li>
<li><em>Trovas etc.</em> (contos),</li>
<li><em>Violas e Cantadores</em> e</li>
<li><em>A Saga de um Bandoleiro no Oeste Potiguar.</em></li>
</ul>
<p>Gravou 5 CDs, sendo 4 em parceria com outros cantadores.</p>
<p>Foi sócio efetivo do Clube dos Trovadores do Seridó/CTS, ocupando a cadeira número 9, que tem como patrono Júlio César da Câmara. Foi membro da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte &#8211; ATRM, ocupante da cadeira número 38, cujo patrono é o acadêmico José Gotardo Emerenciano Neto.</p>
<p>Faleceu no dia 5 de junho de 2011.</p>
<p>A repercussão de seu falecimento foi sentida na homenagem prestada pela Rádio Rural. No horário matutino, em que ele costumava cantar diariamente, violeiros compuseram versos com o mote &#8220;A viola nordestina / Mais uma vez enlutada.&#8221; Na missa de seu sepultamento, vários colegas poetas entoaram em temas de sete linhas. A Casa da Cultura de Caicó será rebatizada com seu nome.</p>
<p><object width="600" height="450"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/p32tA1lwhOc?version=3&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="600" height="450" src="http://www.youtube.com/v/p32tA1lwhOc?version=3&amp;hl=pt_BR" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
<h3>In memoriam</h3>
<p>Inês falava tanto sobre o pai que eu gostava muito dele, mais pelo que ela dizia do que pelo pouco contato que tive com ele. Era um homem alegre e inteligente, que amava a vida e, aos 86 anos de idade, não dispensava uma caminhada diária e o contato com os amigos. Gostaria de ter conhecido melhor meu sogro, ter conversado com ele sobre literatura e história. Ele está em outra dimensão agora, e provavelmente o encontrarei por aí. Ficam meus pensamentos positivos para que ele continue sua caminhada evolutiva pela eternidade.</p>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-50410"></div></div>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://teianeuronial.com/chico-mota/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>5</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Coronelismo virtual</title>
		<link>http://teianeuronial.com/coronelismo-virtual/</link>
		<comments>http://teianeuronial.com/coronelismo-virtual/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 24 Feb 2011 21:27:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[coronelismo]]></category>
		<category><![CDATA[Hugo Cardoso]]></category>
		<category><![CDATA[imperialismo]]></category>
		<category><![CDATA[Império Klingon]]></category>
		<category><![CDATA[impunidade]]></category>
		<category><![CDATA[Jornada nas Estrelas]]></category>
		<category><![CDATA[Kor]]></category>
		<category><![CDATA[plágio]]></category>
		<category><![CDATA[redes sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Star Trek]]></category>
		<category><![CDATA[Twitter]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://teianeuronial.com/?p=4268</guid>
		<description><![CDATA[O capital das redes sociais usado para justificar o plágio]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os leitores da Teia sabem que tive um texto plagiado. Em resumo, descobri o plágio de um texto meu no site <strong>Star Trek Brasil</strong> (www.jornadanasestrelas.com), enviei mensagem, pediram provas de que o texto é de minha autoria, enviei provas e não recebi mais nenhuma manifestação do site. Nesse ínterim, muita gente denunciou e enviou reclamações, diretamente ao site ou no Twitter.</p>
<p>Paralelamente, outro blogueiro, Hugo Cardoso, também alertado para um plágio no mesmo site e pela mesma colunista, Jéssica Esteves, escreveu sobre o caso e enviou uma mensagem pelo Twitter para o site. Diferentemente do que aconteceu comigo, a resposta do site foi uma demonstração de baixaria, típica de quem não tem argumentos para se defender.</p>
<p><span id="more-4268"></span>As respostas cretinas a Hugo podem ser vistas <a href="http://twitter.com/startrek_brasil/status/39659081899835392" target="_blank">aqui</a> e <a href="http://twitter.com/startrek_brasil/status/40024858029076480" target="_blank">aqui</a>. A primeira é um insulto direto e demonstra tanto que o pessoal do site sabe que a denúncia de plágio tem fundamentos quanto está disposto a não tomar providências a respeito disso.</p>
<p>A segunda foi uma forma de dizer que não têm medo de terem sua podridão exposta, e ao acusar Hugo de querer ser &#8220;dono do mundo&#8221;, estão eles mesmos afirmando que o são. É uma mensagem tão sem noção que veicula um disparate ao pretender que Hugo não tem nada a ver com o assunto. Mas ele está diretamente envolvido, pois foi espoliado por Jéssica Esteves. Como se não bastasse tanta brutalidade, ainda escrevem muito mal.</p>
<p>Toda essa manifestação é bizarra e contraditória, tendo em vista que <em>Jornada nas Estrelas</em> é uma franquia de histórias que procuram veicular elevados valores éticos, representados pela fictícia e utópica Federação dos Planetas Unidos. Mas qualquer código moral pode ser usado para justificar atos de violência, como a Inquisição promovida pelos seguidores do mítico pacifista Jesus Cristo.</p>
<p>Também achei estranho que essas ofensas, dispensadas a Hugo e também a meu irmão Diego e a meu amigo Léo Rodrigues, não tenham sido endereçadas a mim. Pelo que Hugo disse em seu próprio blog, dei-me conta de que o fato de o site ser brasileiro e Hugo ser português é um obstáculo para qualquer tipo de ação judicial, que seria muito difícil levar adiante devido às diferenças de jurisdição e de leis.</p>
<p>Quanto aos outros injuriados, não estão diretamente envolvidos, o que é visto pelo pessoal do site como uma oportunidade para jogar sua raiva em alguma direção sem correr muitos riscos de ser processado. Ou seja, são várias manifesações de covardia. Mas errar é humano, e as pessoas que fazem esse site não são vulcanos, ferengi nem trills.</p>
<p>Talvez eles quisessem deixar implícito que os erros da colunista não são culpa do site. Eles realmente podem ter agregado a moça sem saber que ela recorreria ao plágio para alimentar o site. Mas, ao perceber isso, deveriam ter sido mais sérios, tirando os textos do ar ou lhes dando os devidos créditos (além do meu e o de Hugo, havia vários outros textos plagiados). E nem precisava pedir desculpas.</p>
<p>Hoje eles tomaram, finalmente, uma providência razoável. Tiraram do ar a coluna e os artigos assinados por Jéssica Esteves. O que enfim poderia ser considerado um ato de humildade parece mais ter sido motivado por covardia. Ora, o @startrek_brasil continuou enviando insultos e demonstrando imensa arrogância (agradecendo a visibilidade que os tweets de reclamação têm dado ao site, por exemplo &#8211; francamente, não me importo se o site está fazendo sucesso ou não, mas me incomoda que enganem cada vez mais leitores).</p>
<h3>Coronelismo virtual</h3>
<p>Eis uma das lições que se podem tirar disso tudo: na internet, as estruturas de dominação se reproduzem, mesmo que virtualmente. Na história humana, temos vários exemplos de povos e pessoas que usaram algum tipo de poder para se apoderar dos bens alheios (dinheiro, terras, pessoas &#8211; que se tornavam escravos ou súditos). Esses espólios eram usados para aumentar ainda mais seu poder e para manter a ilusão de que a dominação assim criada era legítima, vontade dos deuses, prova de uma suposta superioridade de um povo ou de seu destino glorioso.</p>
<p>Um exemplo mais próximo da realidade da maioria dos leitores da Teia é a história fundiária do Brasil. Desde a Abolição da escravidão até hoje, pratica-se o chamado coronelismo, o monopólio realizado por indivíduos e famílias que possuem capital econômico e político para manter uma posição de poder, estabelecendo suas próprias regras na região em que atuam, espoliando terras ocupadas por pequenos agricultores (e se arrogando a propriedade legítima), submetendo pessoas à obediência forçada, usando meios criminosos para silenciar e matar aqueles que ameaçam seu poder.</p>
<p>O que pode ser visto como uma versão em miniatura dos impérios, como o Romano e o Mongol. No universo de <em>Jornada nas Estrelas</em> (já que estamos falando nisso), o Império Klingon utiliza esses mesmos meios para estender e ampliar seu poder na galáxia. Sua primeira aparição na série <em>(Missão de Misericórdia</em> &#8211; <em>Errand of Mercy</em> -, 27º episódio, 1ª temporada, TOS) é emblemática daquilo que os caracteriza como um povo conquistador, belicoso, orgulhoso e imperialista. Kor, agente do Império Klingon, aporta no planeta Organia declarando que este está automaticamente anexado ao Império e que toda manifestação contrária será reprimida.</p>
<p>O site Star Trek Brasil agiu como um coronel que se pensa intocável e não assume como crimes os atos de roubo que comete. Ao contrário, deixa bem claro que a visibilidade que possui na internet, a quantidade de leitores e de seguidores no Twitter, lhe serve como capital para justificar sua impunidade, e ainda envia ofensas aos injuriados, como demonstração de uma suposta imunidade.</p>
<p>Os autores cujos nomes foram mascarados pelo nome de Jéssica Esteves não têm tantos leitores nem tantos seguidores no Twitter para promover uma mobilização de tamanho significativo. Mas eles têm provas a apresentar e têm registrada a publicidade de todo o episódio na internet. Provavelmente nem Jéssica Esteves (se é que ela existe) nem o Star Trek Brasil pedirão desculpas, mas agora eles sabem que, se incorrerem novamente no erro, estão suscetíveis a novas denúncias. Não da minha parte, pois me cansei disso, tenho minha vida para viver e meus posts para escrever. Mas basta ter amigos menos pacientes e mais dispostos a nos defender para que certas falcatruas venham à tona.</p>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-42690"></div></div>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://teianeuronial.com/coronelismo-virtual/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>5</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Obrigado pelo plágio</title>
		<link>http://teianeuronial.com/obrigado-pelo-plagio/</link>
		<comments>http://teianeuronial.com/obrigado-pelo-plagio/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 18 Feb 2011 01:25:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[compartilhamento]]></category>
		<category><![CDATA[Creative Commons]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Homossexualidade em Star Trek]]></category>
		<category><![CDATA[Hugo Cardoso]]></category>
		<category><![CDATA[Jéssica Esteves]]></category>
		<category><![CDATA[Jornada nas Estrelas]]></category>
		<category><![CDATA[plágio]]></category>
		<category><![CDATA[Star Trek]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://teianeuronial.com/?p=4221</guid>
		<description><![CDATA[Creative Commons, compartilhamento de conteúdo e Ética]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Recentemente houve uma <a href="http://www.trekbrasilis.org/2011/01/25/brannon-braga-e-a-tematica-gay-em-jornada/" target="_blank">entrevista com o ex-roteirista Brannon Braga</a> sobre a temática homossexual na série <em>Jornada nas Estrelas.</em> Aproveitei a deixa para divulgar um post de outubro de 2010 intitulado <em><a href="http://teianeuronial.com/homossexualidade-em-star-trek/" target="_self">Homossexualidade em Star Trek</a>,</em> um de meus textos preferidos e que me custou uma pesquisa interessante sobre uma de minhas séries de TV favoritas.</p>
<p>Nestes dias, descobri um site brasileiro sobre <em>Jornada nas Estrelas,</em> feito por fãs, para fãs e com notícias e resenhas sobre o universo ficcional criado por Gene Roddenberry. Chamou-me atenção um link no referido site para um texto de uma de suas colunistas, com um título igual ao do meu texto, <em>Homossexualidade em Star Trek.</em> Qual não foi minha surpresa ao ver que se tratava de meu próprio texto!</p>
<p><span id="more-4221"></span>Procurei então alguma referência ao meu nome e/ou ao meu site, mas não encontrei nada senão a assinatura de &#8220;Jéssica Esteves, jornalista&#8221;. Minha reação imediata foi estupefação seguida de uma certa raiva. Tentei ser educado, e enviei um comentário pedindo que os devidos créditos fossem mencionados. Porém, o comentário nunca chegou a ser publicado. Vejam o link do texto de Jéssica:</p>
<p><a href="http://jornadanasestrelas.com/index.php?pag=noticia&amp;id_noticia=878&amp;id_menu=22" target="_blank">http://jornadanasestrelas.com/index.php?pag=noticia&amp;id_noticia=878&amp;id_menu=22</a></p>
<p>Pensando melhor, percebi que seria mais racional enviar uma mensagem para a colunista, através do e-mail disponibilizado em sua coluna. Mas a mensagem não chegou ao seu destino e retornou. Preenchi então um formulário de contato do próprio site, explicando que não vejo problema algum em ter meu texto publicado em outros sites (não há sequer necessidade de pedir permissão), contanto que se mencione a fonte.</p>
<p>Enquanto isso, escrevi sobre o caso no Twitter e procurei saber se havia outros plágios da mesma jornalista. Encontrei um texto que originalmente foi escrito por Hugo Cardoso, blogueiro português. Jéssica não teve nem o trabalho de mudar a grafia de palavras como &#8220;acção&#8221; (da grafia do português lusitano), e retirou o primeiro parágrafo do original, para tirar pistas de que o texto não é dela. Eis o link do texto de Hugo e o da cópia:</p>
<p><a href="http://hugocardoso.com/blog/archives/2277" target="_blank">http://hugocardoso.com/blog/archives/2277</a></p>
<p><a href="http://jornadanasestrelas.com/index.php?pag=noticia&amp;id_noticia=844&amp;id_menu=293&amp;conjunto=&amp;id_usuario=¬icias=&amp;id_loja=" target="_blank">http://jornadanasestrelas.com/index.php?pag=noticia&amp;id_noticia=844&amp;id_menu=293&amp;conjunto=&amp;id_usuario=¬icias=&amp;id_loja=</a></p>
<p>As datas de publicação, tanto de meu texto quanto do texto de Hugo, mostram que estão na internet há mais tempo do que os textos &#8220;de Jéssica&#8221;. Usei isso também como argumento em minha reclamação. Uma resposta veio no dia seguinte, na forma de um e-mail assinado por Lucas Laynes:</p>
<blockquote><p>Bom dia</p>
<p>Recebi uma cópia desta mensagem através do e-mail da Jéssica uma das colaboradoras do portal Jornada nas Estralas. Onde a mesma foi acusada de plágio pelos senhores.</p>
<p>Como amigo e advogado de todos os colaboradores deste portal, aconselhei a retirada do post em questão e solicito aos senhores o arquivo original do mesmo ou a data da criação do texto em DOC ou TXT para comprovação dos fatos afirmados, lembrando que a data da publicação do site ou blog que afirma ser o original, não basta para prova, pois a data de publicação pode ser alterada</p>
<p>Aguardo resposta o mais breve possível</p>
<p>Att</p>
<p>Lucas Laynes</p></blockquote>
<p>Os &#8220;senhores&#8221;, soube depois, são alguns amigos, inclusive meu irmão, que tentaram comentar no post de Jéssica e enviaram mensagens para o site.</p>
<p>Ainda fiquei estupefato por Jéssica persistir no erro e não admitir o plágio. Também não gostei do fato de eles terem tirado os links do site que levam ao post, mas não terem excluído o post, que ainda pode ser encontrado numa pesquisa do Google.</p>
<p>Bem, já que fui eu quem a acusou de plágio, nada mais justo do que eu o provar. Mas não tenho arquivo DOC ou TXT, pois sempre redijo direto no blog. Além disso, descobri depois que há softwares capazes de modificar a data de criação de um arquivo, o que inviabiliza o uso destes como prova num caso semelhante.</p>
<p>Em minha tréplica, admiti que não tinha como provar a data do post em meu blog e nem sequer as datas dos comentários, pois tudo isso pode ser editado por mim. Então passei para algumas evidências que, penso, podem sustentar que Jéssica Esteves não é autora do texto.</p>
<p>Em primeiro lugar, a atenção é suficiente para se ver que a imagem que ilustra o post dela é a mesma que uso no meu, mas deformada para caber no formato da página. Além disso, há um parágrafo solto na cópia, que em meu texto é a legenda de uma imagem e que nem sequer tem ponto final, servindo apenas para ilustrar o que é dito no parágrafo anterior. Ainda se pode recorrer a uma leitura atenta de meus textos, para averiguar o estilo destes, que destoa dos outros textos cuja autoria Jéssica se arroga.</p>
<div id="attachment_4244" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-4244" title="Prova 1" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/prova011.jpg" alt="Prova 1" width="586" height="450" /><p class="wp-caption-text">Prova 1</p></div>
<p>Entretanto, essas evidências são muito subjetivas. Então me vali de uma publicação automática feita em minha página do Facebook, que posta os links do meu blog com data próxima à do post. Esta data não pode ser modificada por mim:</p>
<p><a href="http://www.facebook.com/pages/Teia-Neuronial/220979529692" target="_blank">http://www.facebook.com/pages/Teia-Neuronial/220979529692</a></p>
<div id="attachment_4245" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-4245" title="Prova 2" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/prova021.jpg" alt="Prova 2" width="586" height="350" /><p class="wp-caption-text">Prova 2</p></div>
<p>Do mesmo modo, meus posts são divulgados no Twitter quase na mesma data em publico no blog:</p>
<p><a href="http://twitter.com/ThiagoLB/status/27786408746" target="_blank">http://twitter.com/ThiagoLB/status/27786408746</a></p>
<div id="attachment_4246" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-4246" title="Prova 3" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/prova03.jpg" alt="Prova 3" width="586" height="350" /><p class="wp-caption-text">Prova 3</p></div>
<p>Ainda não obtive nova resposta do site e a questão ainda está em aberto. Encontrei outras provas, como alguns agregadores de blogs que mantêm a data da publicação original do meu texto, e ainda pensei em outras possibilidades, mas achei que já era suficiente. De qualquer forma, tenho vários amigos que podem testemunhar a meu favor.</p>
<h3>&#8220;Depois de tudo ainda ser feliz&#8230;&#8221;</h3>
<p>Meu amigo Tiago Oliveira me disse algo interessante: não importa de quem é o texto ou quem se arroga autor deste, pois o que interessa mesmo é a ideia, e o plágio é uma forma de elogio, pois significa que alguém considerou seu trabalho bom. Concordo em parte.</p>
<p>Talvez eu nem me chateasse tanto se o texto fosse divulgado anonimamente. Certamente o que importa é a informação, a certeza de que outras pessoas estão usufruindo dela. Mas acho que os créditos são importantes para que os leitores saibam como citar a fonte e como obter mais informações semelhantes.</p>
<p><a href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/3.0/deed.pt_PT"><img class="alignright" title="Creative Commons 3.0" src="http://i.creativecommons.org/l/by-nc-sa/3.0/88x31.png" alt="Creative Commons 3.0" width="88" height="31" /></a>Meu blog está sob uma licença Creative Commons 3.0 (o que pode ser averiguado no rodapé do site), também conhecida como CC-BY-NC-SA, ou seja:</p>
<ul>
<li>BY (by, &#8220;por&#8221;): O conteúdo pode ser compartilhado e até modificado, desde que a autoria do original seja mencionada.</li>
<li>NC (non-commercial, &#8220;não-comercial&#8221;): O conteúdo não pode ser usado para fins comerciais e deve sempre ser divulgado gratuitamente.</li>
<li>SA (same, &#8220;mesma licença&#8221;): Se o conteúdo for divulgado em outro lugar, deve manter esta mesma licença.</li>
</ul>
<p>A licença Creative Commons serve para garantir os direitos dos autores que querem descomplicar a burocracia do copyright, protegendo o conteúdo de possíveis utilizações indevidas, pois esse tipo de apropriação que relatei, que tem como objetivo a autopromoção às custas de trabalho alheio, é muito comum, inclusive na internet. É um mecanismo que funciona na base da interconfiança e na Ética.</p>
<p>Esta faltou a Jéssica Esteves, ainda mais considerando que ela se diz jornalista. A impressão que tenho é que ela foi levada por um excesso de confiança na probabilidade de ninguém descobrir, pois meu blog não é tão popular quanto o dela. Mas é um risco que ela tomou, o de ficar desacreditada perante seus leitores. Mas não custava nada ter mencionado a fonte do texto, e seria pouco trabalho usar meu texto como inspiração para uma nova redação, que ela poderia assinar com o próprio nome. De qualquer forma, está para qualquer um julgar a tranquilidade com que expus o caso, pois não tenho nada a esconder, e a falta de qualquer pronunciamento público por parte do pessoal do site que abriga o plágio.</p>
<p>Admito que me deixei mover demais por esse episódio, é a primeira vez que sou plagiado (ou, ao menos, que tenho consciência disso). Mas não gostaria que isso acontecesse com outros autores, e penso que colocar tudo às claras é o mínimo que posso fazer para me autoavaliar quanto à questão e não deixar que mentiras se perpetuem.</p>
<h3>Links</h3>
<ul>
<li><em><a href="http://teianeuronial.com/homossexualidade-em-star-trek/" target="_blank">Homossexualidade em Star Trek</a></em> &#8211; Teia Neuronial</li>
<li><em><a href="http://www.cartapotiguar.com.br/?p=1493" target="_blank">Homossexualidade em Star Trek</a></em> &#8211; Carta Potiguar</li>
<li><a href="http://hugocardoso.com/blog/" target="_blank">O Portal Pessoal</a> (blog de Hugo Cardoso)</li>
<li><a href="http://www.creativecommons.org.br/" target="_blank">Creative Commons</a></li>
<li><em><a href="http://www.cartapotiguar.com.br/?p=5934" target="_blank">Creative Commons: um bem coletivo. Entrevista com Sérgio Amadeu</a></em> &#8211; Carta Potiguar</li>
</ul>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-42220"></div></div>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://teianeuronial.com/obrigado-pelo-plagio/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>12</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>30 translações</title>
		<link>http://teianeuronial.com/30-translacoes/</link>
		<comments>http://teianeuronial.com/30-translacoes/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 31 Dec 2010 02:00:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[2011]]></category>
		<category><![CDATA[aniversário]]></category>
		<category><![CDATA[camisas]]></category>
		<category><![CDATA[carteira]]></category>
		<category><![CDATA[cérebro]]></category>
		<category><![CDATA[cinto]]></category>
		<category><![CDATA[coração]]></category>
		<category><![CDATA[hobbits]]></category>
		<category><![CDATA[mentalsoma]]></category>
		<category><![CDATA[mente]]></category>
		<category><![CDATA[Philip K. Dick]]></category>
		<category><![CDATA[redes sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Ubik]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://teianeuronial.com/?p=3790</guid>
		<description><![CDATA[ou Uma renovação simbólica e uma de facto]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há 1 ano eu escrevi um texto sobre meu aniversário de 29 anos, <em><a href="http://teianeuronial.com/29-translacoes/" target="_self">29 translações ou Uma festa não muito esperada</a>.</em> Hoje eu chego a um número &#8220;redondo&#8221; (pois tem um zero, que tem forma redonda), 5 vezes 6, 3 vezes 10, 2 vezes 15. Porque um número &#8220;redondo&#8221; tem tanta importância eu não sei. Meu pai falou em 30 anos como se fosse um marco. Versão &#8220;3.0&#8243;.</p>
<p>Mas isso não importa agora. Esses momentos institucionalizados pela nossa cultura para servir como celebração e confraternização, ou seja, para reforçar os laços sociais, são para ser aproveitados mesmo, e aqueles que pensam nessas horas com certo cinismo temos mesmo é que usufruir, compartilhando a alegria dos amigos e familiares que vêm nos enviar felicitações e comemorar.</p>
<p><span id="more-3790"></span>Às voltas com o pós-operatório de uma cirurgia cardíaca realizada em 30 de agosto deste ano, ainda com algumas sequelas físicas que me mantêm em tratamento diário <sup>1</sup>, vejo-me na condição de uma peça em manutenção, que vai retomar suas atividades normais com mais energia e eficácia.</p>
<p>O coração é o centro do corpo <sup>2</sup>, protegido pela caixa torácica junto com outros órgãos vitais, encontra-se bem no meio, para distribuir igualmente o rubro líquido oxigenador por todo o soma <sup>3</sup>. É um órgão fundamental para o funcionamento do cérebro, que, sem o oxigênio capturado pelos pulmões e levado à corrente sanguínea, não poderia tecer ideias, pensamentos, emoções nem sonhos, ficando desligado do mentalsoma, o corpo mental que se manifesta na dimensão mentalsomática, que não pode se manifestar na dimensão intrafísica sem a conexão com a glândula pineal, o coração do cérebro <sup>4</sup>.</p>
<p>Hoje, dia seguinte ao meu aniversário, escrevo aqui só para constar. Somando os presentes de Natal com os de aniversário (pois acontece tudo tão perto que eu considero os presentes como referentes a uma situação só), ganhei uma carteira, um cinto, camisas, um par de sandálias, uma miniatura de dragão púrpura, o livro de receitas <em>Quase Vegetariano: Alimentação Saudável através de Receitas Deliciosas,</em> de Geni Coli <sup>5</sup>, o livro de ficção científica <em>Ubik,</em> de Philip K. Dick, um lindo vaso de flores-do-serrado, e talvez algo mais que eu tenha esquecido. Um conjunto e tanto para começar as atividades de 2011 e.c..</p>
<p>Houve também, como é costume nos dias atuais, muitas mensagens de felicitações nas redes sociais virtuais, todas &#8220;curtidas&#8221; e respondidas, além de ligações telefônicas apreciadas.</p>
<p>Last but not least, espero que este post represente um singelo presente aos leitores desta Teia que teço com tanto carinho e cuidado. À maneira dos hobbits, gosto da ideia de dar presentes em meu aniversário. Ademais, também pode servir como presente de Natal atrasado e de Ano Novo antecipado. Boas festas e felicidade a todos nós!</p>
<hr />
<h3>Notas</h3>
<ol>
<li>Depois da cirurgia, fui internado mais 3 vezes. Na primeira, tive que ter parte da cicatriz aberta de novo, para a inserção de um tubo para drenar um derrame no pericárdio. Na segunda vez, após o diagnóstico de uma arritmia cardíaca, tive que ser medicado na UTI e submetido a uma cardioversão (um choque com desfibrilador; ainda estou tomando diariamente um comprimido para manter a regularidade da frequência cardíaca). A terceira vez, bem recentemente, foi para a retirada de um fio de aço, colocado durante a cirurgia original para segurar as duas partes do esterno enquanto este cicatrizava, e que meu corpo estava rejeitando. Ainda vou quase diariamente ao hospital para chek-ups e trocas de curativo.</li>
<li>Talvez por isso ele receba tantas atribuições nas filosofias mundo afora, tendo sido considerado na Grécia antiga o órgão onde se sedia a mente.</li>
<li>&#8230;eu acho.</li>
<li>Então, retomando a nota 2, o coração, se não é a sede da mente, ao menos desempenha papel importante em sua manutenção.</li>
<li>Vou me esforçar ao máximo para aprender a cozinhar este ano. Eu não juro, mas prometo.</li>
</ol>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-37910"></div></div>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://teianeuronial.com/30-translacoes/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Da amizade &#8211; parte 2</title>
		<link>http://teianeuronial.com/da-amizade-parte-2/</link>
		<comments>http://teianeuronial.com/da-amizade-parte-2/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 18 Nov 2010 20:55:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[aniversário]]></category>
		<category><![CDATA[binômio admiração-discordância]]></category>
		<category><![CDATA[Da Amizade]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Michel de Montaigne]]></category>
		<category><![CDATA[Rúbio Medeiros]]></category>
		<category><![CDATA[Série Amizade]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://teianeuronial.com/?p=3649</guid>
		<description><![CDATA[ou Feliz aniversário, Rúbio]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na primeira vez que li o ensaio <em>Da Amizade,</em> de Michel de Montaigne, na universidade, aos 20 e poucos anos de idade, não me surpreendi muito com sua descrição tão espetacular de uma relação de proximidade, intimidade, apoio, lealdade e compreensão mútua. Eu já tinha vivenciado e vivenciava uma relação desse tipo desde os 16 ou 17 anos, com um amigo que, acho, foi a primeira pessoa que, sem ser meu parente, não hesitei em chamar de irmão.</p>
<p>Hoje ele completa mais uma translação ao redor da estrela Sol, desde que chegou a esta dimensão pela última vez. Aproveitando este fato, combinado com minha vontade de continuar a série <em><a href="http://teianeuronial.com/tag/da-amizade/" target="_blank">Da Amizade</a></em> com uma resenha do referido ensaio de Montaigne, faço jus, espero, ao que a amizade de Rúbio representa para mim &#8211; e talvez para ele.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-3653" title="Rúbio" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/rubio2.jpg" alt="Rúbio" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-3649"></span>Segundo Montaigne:</p>
<blockquote><p>Para construí-la [à amizade] são necessárias tantas circunstâncias que é muito se a fortuna o conseguir uma vez cada três séculos.</p></blockquote>
<p>Não posso me enganar quanto a essa afirmação. Foi pouco tempo depois de conhecer o ora homenageado que ambos percebemos uma afinidade. Ela foi aflorando aos poucos, com o passar dos encontros no segundo grau do colégio. Mas ela não apareceu de imediato. Ao mesmo tempo, foi mais rápido do que eu poderia imaginar, e quando nos demos conta já éramos amigos milenares. E ambos não duvidamos que esse relacionamento realmente é milenar, vindo de algumas vidas passadas.</p>
<p>Afinal, não é o tipo de coisa que se construa, por exemplo, com a simples e intensa convivência familiar, que pode proporcionar laços firmes, mas não necessariamente uma amizade do tipo que aqui se discute, pois,</p>
<blockquote><p>em geral, todas as [relações] que a volúpia ou o proveito, a necessidade pública ou privada engendram e alimentam são menos belas e nobres e menos amizades na medida em que misturam à amizade outra causa e objetivo e fruto que não ela mesma.</p></blockquote>
<p>As relações sociais humanas se constroem a partir de instituições culturais, e nossa natureza gregária nos força a criar uma série de regras e preceitos morais e éticos para a vida em comum. No entanto, todas as conveniências de parentesco, de casamento e de coleguismo não chegam necessariamente ao ponto de constituir o sentimento e o relacionamento sublime (e também sublimado) que Montaigne chama de amizade.</p>
<p>Mesmo que aquelas coisas que fazemos juntos contribuam muito para a manutenção de um laço de amizade, quando esta está relativamente consolidada já é possível usufruir com grande prazer da mera companhia do outro. Aliás, não é uma mera companhia ou presença, mas um exercício de telepatia em que a conversa não para por causa do silêncio. E, por outro lado, quando a conversa é intensa, seja num debate, seja nos desabafos, ela ocorre como um monólogo, como se fosse apenas uma pessoa falando consigo mesma.</p>
<p>Segundo Montaigne, nenhum laço de parentesco é suficiente para construir esse tipo de amizade nobre e sublime. Não posso negar que há uma afeição especial por cada um de meus progenitores e por cada um de meus irmãos, e que posso contar com eles incondicionalmente em situações de necessidade, assim como eles podem contar comigo. Mas não chega a ser forçosamente a mesma coisa, pois sempre falta algo, os parentes raramente têm as convergências de personalidade e a vivência específica, necessárias para promover a amizade.</p>
<p>Montaigne também diferencia o amor, entendido como a relação afetivo-sexual, da amizade. Para ele, o amor é unilateral, acontece como uma relação entre caçador e presa, e não representa o compartilhamento dos mesmos sentimentos da amizade. Esta é uma troca bilateral, mais ligada à alma do que ao corpo.</p>
<p>(Mas temos que relativizar essa afirmação, considerando que Montaigne se referia aí ao relacionamento entre homem e mulher e que a ideologia de sua época era muito mais androcêntrica e machista do que atualmente em nossa sociedade, e que para o homem era inconcebível uma relação de amizade com uma mulher e entre estes poderia haver apenas uma relação sexual ou, no casamento, uma relação entre possuidor e posse. É possível, hoje em dia, com a crescente superação das rígidas regras de divisão sexual do trabalho, que um casal heterossexual forme um laço de amizade.)</p>
<blockquote><p>De resto, o que costumamos chamar de amigos e amizades são apenas contactos e convivências entabulados devido a alguma circunstância ou conveniência por meio da qual nossas almas se mantêm juntas. Na amizade de que falo, elas se mesclam e se confundem uma na outra, numa fusão tão total que apagam e não mais encontram a costura que as uniu. Se me pressionarem para dizer porque o amava, sinto que isso só pode ser expresso respondendo: &#8220;Porque era ele; porque era eu.&#8221;</p></blockquote>
<p>Há pessoas que banalizam de tal forma a palavra <em>amizade</em> que não se evadem de chamar de amigos quaisquer pessoas com quem convivam com um mínimo de civilidade. Não que o uso das palavras não mude com o passar do tempo, mas, desta forma, é difícil nomear, para diferenciar da Amizade (com A maiúsculo) a amizade banal que a maioria vive no dia-a-dia.</p>
<p>Percebo que há pessoas que, por causa da troca de um favor ou por causa de uma simples conversa em que compartilhou com alguém algo pessoal, já considera este seu amigo. Pior, há pessoas que colecionam &#8220;amigos&#8221;, seduzindo quem encontram no caminho, garantindo assim várias opções de refúgio quando estiverem em apuros. Geralmente são indivíduos que não conseguem estabelecer uma vida segura, vivendo também uma insegurança pessoal e íntima (o que não quer dizer, é claro, que eu trate mal os &#8220;amigos&#8221; ou sinta por eles o oposto do que sinto pelos Amigos; é preciso procurar conviver bem e, quanto possível, ter uma postura amigável e assistencial para com qualquer pessoa).</p>
<p>Com meus verdadeiros amigos não acontece assim. Seja em situação favorável ou em penúria (o que realmente nunca aconteceu drasticamente), cada uma de nossas casas sempre esteve aberta para o outro. Compartilhar e dividir nunca foram obrigação, mas sempre nos sentimos impelidos a fazê-lo, por livre arbítrio, por satisfação pessoal e mútua.</p>
<p>A fusão de que fala Montaigne causava episódios pitorescos. Era muito surpreendente (hoje em dia nem tanto) que as pessoas ao nosso redor nos confundissem um com o outro, chamando-me de Rúbio e chamando-o de Thiago, dizendo a ele que falasse com Rúbio ou me dizendo que desse um recado a Thiago. Fisicamente, nem somos tão parecidos, mas a amizade nos moldou a ambos.</p>
<blockquote><p>Não está no poder de todos os argumentos do mundo afastar-me da certeza que tenho sobre as intenções e julgamentos de meu amigo. Nenhuma de suas ações me poderia ser apresentada, sob qualquer aparência, sem que eu descobrisse incontinenti seu motivo.</p></blockquote>
<p>Não concordo totalmente com essa afirmação de Montaigne. Eu não poderia condescender com um ato que considero ilícito e/ou antiético, premeditado ou cometido por meu amigo. Não sem ameaçar nossa amizade. Se realmente me considero seu amigo, não posso aceitar que ele prejudique a si mesmo nem a outras pessoas. É claro que considerar algo certo ou errado é relativo, mas há algo que precisa ser dito sobre a relação entre amizade e Ética.</p>
<p>Retomando Montaigne, e desta vez concordando com ele, a amizade que ele propõe só se sustenta com um elevado senso de ética. Não quero dizer exatamente que isso implica numa compreensão do que é melhor ou pior por parte de cada um dos amigos, mas sim que eles têm, no mínimo, algumas noções e a predisposição para sempre acertar mais e sempre desenvolver sua ética infinitamente, da mesma forma que a Ciência busca eternamente compreender a realidade.</p>
<p>Duas pessoas que se relacionam numa amizade mas não têm esse senso ético não podem ser considerados verdadeiros amigos, pois a falta de noções éticas dificultará a confiança mútua, e eles tenderão a trair um ao outro, por desconfiança e medo, e poderão até abandonar o amigo quando estiver em situação melhor do que ele. Porém, uma amizade baseada na Ética fará com que ambos ajudem um ao outro a evoluir, trocando ideias e experiências que beneficiam aos dois (ou mais).</p>
<p>Assim, conhecendo-nos a fundo, eu e meu amigo compreenderemos porque o outro escolheu pensar e/ou agir (pensar é uma ação, agir é pensar com o corpo) de determinada forma, e deverá repreendê-lo se discordar. A discordância, no entanto, jamais será motivo de desavença, pois o que discorda sabe que tem, ele mesmo, aspectos que merecem reprovação do amigo, e sempre espero que ele esteja disposto a apontar se estou no caminho certo. O binômio admiração-discordância deve prevalecer em qualquer relação sadia de amizade, sempre na busca mútua pelo o desenvolvimento intelectual e emocional.</p>
<p>Essa amizade, enfim, é o que baseia qualquer tipo de relação, seja a dois, seja grupal ou mesmo universal. Se cada vez mais pessoas experimentarem esse ideal (estou falando, é claro, de um modelo idealizado, muito difícil de concretizar plenamente, mas possível de ser vislumbrado), mais e mais indivíduos vão se sentir impelidos a tratar qualquer pessoa como se fosse seu amigo, e talvez o mundo venha a ser um lugar melhor.</p>
<h3>Referência</h3>
<ul>
<li><strong>Montaigne,</strong> Michel de. &#8220;Da amizade&#8221;. In: <em>Os ensaios: volume 1.</em> São Paulo: Martins Fontes, 2000.</li>
</ul>
<h3>Crédito da foto</h3>
<ul>
<li>Maria Betânia Monteiro, minha amiga, namorada do meu amigo.</li>
</ul>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-36500"></div></div>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://teianeuronial.com/da-amizade-parte-2/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>9</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O paciente</title>
		<link>http://teianeuronial.com/o-paciente/</link>
		<comments>http://teianeuronial.com/o-paciente/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 13 Oct 2010 18:36:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[4 humores]]></category>
		<category><![CDATA[Albert Einstein]]></category>
		<category><![CDATA[As Flores do Mal]]></category>
		<category><![CDATA[Babylon 5]]></category>
		<category><![CDATA[Bernardo Guimarães]]></category>
		<category><![CDATA[bom humor]]></category>
		<category><![CDATA[Budismo]]></category>
		<category><![CDATA[Charles Baudelaire]]></category>
		<category><![CDATA[Civilizações Extraterrenas]]></category>
		<category><![CDATA[cólera]]></category>
		<category><![CDATA[Contos Proibidos do Marquês de Sade]]></category>
		<category><![CDATA[experiência fora do corpo]]></category>
		<category><![CDATA[faquir]]></category>
		<category><![CDATA[faquirismo]]></category>
		<category><![CDATA[fleuma]]></category>
		<category><![CDATA[Ioga]]></category>
		<category><![CDATA[Isaac Asimov]]></category>
		<category><![CDATA[Jornada nas Estrelas]]></category>
		<category><![CDATA[Lennier]]></category>
		<category><![CDATA[mantra]]></category>
		<category><![CDATA[Medicina]]></category>
		<category><![CDATA[meditação]]></category>
		<category><![CDATA[melancolia]]></category>
		<category><![CDATA[minbari]]></category>
		<category><![CDATA[O Devanear de um Cético]]></category>
		<category><![CDATA[O Outro Lado da Nobreza]]></category>
		<category><![CDATA[paciência]]></category>
		<category><![CDATA[paciente]]></category>
		<category><![CDATA[René Descartes]]></category>
		<category><![CDATA[sangue]]></category>
		<category><![CDATA[Sidarta Gautama]]></category>
		<category><![CDATA[Spleen]]></category>
		<category><![CDATA[Spock]]></category>
		<category><![CDATA[Sr. Spock]]></category>
		<category><![CDATA[Star Trek]]></category>
		<category><![CDATA[temperança]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria da Relatividade]]></category>
		<category><![CDATA[unidade de tempo infinito]]></category>
		<category><![CDATA[unidade de tortura infernal]]></category>
		<category><![CDATA[unidade de tratamento intensivo]]></category>
		<category><![CDATA[UTI]]></category>
		<category><![CDATA[vulcanos]]></category>
		<category><![CDATA[Yôga]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://teianeuronial.com/?p=3389</guid>
		<description><![CDATA[ou Divagações de um internado]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nas circunstâncias em que se encontra uma pessoa sujeita a tratamento médico-hospitalar, o tempo se torna um elemento de preocupação intermitente, como o é o próprio tempo. Ora, todo processo  de cura leva tempo para se concretizar, e a medicina, mais do que a simples aplicação do remédio, é muitas vezes o acompanhamento técnico desse processo de cura, que se dá quase naturalmente, como resposta a algum estímulo químico ou outras terapias adequadas a cada caso.</p>
<p>Numa cena do filme <em>O Outro Lado da Nobreza (Restoration,</em> 1995), o médico Merivel, instado pelo rei a curar a doença de sua cachorrinha, tem a intuição de que a natureza e o tempo deveriam ali fazer seu papel; ele apenas observaria e acompanharia o processo de cura, o que afinal se concretizou e o levou a ser eleito médico real.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-3478" title="O paciente" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/bonsai.jpg" alt="O paciente" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-3389"></span></p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="600" height="475" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/rqEUgjPQ_Ys?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="600" height="475" src="http://www.youtube.com/v/rqEUgjPQ_Ys?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p>Para nossas existências humanas, o tempo representa um fator elementar, e a passagem do tempo, sendo um processo natural e, de certa forma, afetando de maneira igualitária toda a matéria existente, (dentro, é claro, das mesmas condições físicas), não é experimentada da mesma forma pelas diferentes mentes que sofrem com ela, sendo, portanto, para nós um fenômeno subjetivo.</p>
<p>O substantivo <em>paciência</em> (do latim <em>patientia,</em> &#8220;capacidade de suportar, de resistir&#8221;) serve para designar a condição de quem lida mais ou menos bem com a passagem do tempo. O indivíduo <em>paciente</em> é aquele que se deixa abalar o menos possivelmente pela passagem do tempo. Nas circunstâncias em que se encontra uma pessoa sujeita a tratamento médico-hospitalar, usa-se o substantivo <em>paciente,</em> que não por acaso é homônimo e cognato daquele sujeito que suporta a passagem do tempo.</p>
<p>Na cena do filme supracitado, a paciente teve que ser paciente (assim como o médico), suportando as dores até que seu corpo sanasse a si mesmo. E muitas vezes o paciente num hospital precisa exercitar sua paciência, tanto porque se encontra em situação atípica (tendemos a perceber a passagem do tempo mais lenta em situações com que não estamos acostumados) quanto porque fica privado de várias de suas atividades corriqueiras (o que dá a impressão de que o tempo foi &#8220;esvaziado&#8221;).</p>
<p>Para quem é forçado a se internar na UTI (unidade de tratamento intensivo), há mais razões para que o tempo lhe corra lentamente: a necessidade de se manter por bastante tempo (&#8220;bastante tempo&#8221; sendo também, ora, uma quantidade subjetiva) numa só posição (deitada ou semideitada), com os movimentos do corpo limitados temporariamente, aliada à dificuldade de os enfermeiros atenderem prontamente aos desconfortos dos vários pacientes (fazendo-os esperar um tempo imprevisível até serem atendidos) e a ausência prolongada de pessoas do convívio cotidiano, que têm um intervalo de tempo muito limitado para efetuar visitas.</p>
<p>A situação é tão reconhecidamente desconfortável que próximo a cada leito da UTI há um televisor, cujo uso, um enfermeiro certa vez me aconselhou, faz &#8220;o tempo passar mais rápido&#8221;. Mas para que alguém quereria que o tempo passasse mais rápido? Em situações cotidianas e ordinárias, a maioria das pessoas gostaria que o tempo passasse mais lentamente e desejariam ter mais tempo com que se ocupar com atividades mais satisfatórias. Quando estamos na UTI (unidade de tempo infinito) há tempo de sobra com que ocupar a mente, mas a maioria absoluta das pessoas não consegue conceber esse aproveitamento se não for de uma maneira convencional de &#8220;passatempo&#8221;, ou seja, ouvindo música, vendo TV ou dormindo (o que, para muita gente, é uma técnica para &#8220;apagar&#8221; certos intervalos de tempo em que seria preciso <em>esperar).</em></p>
<div id="attachment_3458" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-3458" title="Albert Einstein" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/einstein200.jpg" alt="Albert Einstein" width="200" height="260" /><p class="wp-caption-text">Einstein demonstra que a língua é mais rápida que a luz do flash da câmera</p></div>
<p>Mas lembremo-nos da Teoria da Relatividade de Einstein e suas aplicações quando o assunto é velocidade x tempo. Uma pessoa que viajasse à velocidade da luz durante 50 anos não sofreria nenhum envelhecimento significativo, o tempo não haveria passado para ela quando a viagem chegasse ao fim, mas as pessoas ao seu redor envelhecerão 50 anos e algumas morrerão. Quando estamos ocupados, o tempo parece passar mais rápido, e mais rápido ainda quando estamos ocupados com algo prazeroso, mas o tempo se arrasta quando estamos ociosos e nos oprime com sua lentidão quando estamos fazendo algo que nos desagrada profundamente.</p>
<p>A primeira noite que passei na UTI (unidade de tortura infernal) depois de uma cirurgia cardíaca foi sentida por mim como uma das mais longas de minha vida. A sensação de passagem do tempo estava alterada em relação à sensação que normalmente experimento, e quando eu achava que haviam passado duas horas, em meio a cochilos e despertares de duração incertíssima, o relógio da enfermeira revelava a passagem de uns 30 minutos. A janela aberta mostrava que o Sol parecia não querer acordar o céu.</p>
<p>Entretanto, o tempo dilatado nesta situação é, à primeira vista, difícil de ser aproveitado com algo menos banal do que a TV (é difícil ficar ouvindo música, pois às vezes as inesperadas interrupções dos enfermeiros e a manipulação do mp3-player &#8211; ou equivalente &#8211; é complicada pela limitação física; além disso, é difícil dormir devido aos desconfortos). A mente ficará divagando, tal como a avezinha no poema <em><a href="http://pt.wikisource.org/wiki/Cantos_da_Solid%C3%A3o/X" target="_blank">O Devanear de um Cético</a>,</em> de Bernardo Guimarães, sem um caderno para registrar os pensamentos e ajudar a elaborá-los e desenvolvê-los. Se o pa-ciente já estiver ciente do que o espera depois da cirurgia, pode pedir que alguém providencie antecipadamente um gravador a ficar-lhe disponível (se a dificuldade de manipulá-lo não for grande demais).</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-3460" title="Civilizações Extraterrenas, de Isaac Asimov" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/civextraasimov.jpg" alt="Civilizações Extraterrenas, de Isaac Asimov" width="200" height="303" />Na situação em que escrevo este ensaio (estou pela terceira vez na UTI do mesmo hospital depois da cirurgia), as circunstâncias físicas são mais favoráveis, as limitações corporais são menores e as possibilidades de &#8220;passatempo&#8221; são mais variadas. Pude facilmente dedicar um bom tempo à escrita num caderno (a falta de um computador se fez sentida, é realmente uma ferramenta muito prática &#8211; há quem diga que o PC dificulta a escrita, pois a possibilidade de apagar qualquer resultado momentaneamente insatisfatório supostamente paralisa o escritor, e prefira uma máquina de escrever, na qual o texto vai sendo escrito até o fim e as correções e ajustes são deixadas para depois; discordo disso e não tenho essa dificuldade diante de um teclado e um monitor, tudo depende da desenvoltura desenvolvida pelo escritor), a facilidade de relaxar o corpo me permitiu um bom tempo de expansão da consciência e ainda me foi possível desfrutar a leitura de um bom livro, <em>Civilizações Extraterrenas,</em> de Isaac Asimov, no qual até encontrei uma citação adequada a este texto:</p>
<blockquote><p>é mais fácil imaginar uma vitória sobre a morte do que uma vitória sobre o tédio.</p></blockquote>
<p>Asimov afirmou isso num contexto em que discute a possibilidade (improvável) de alcançarmos a imortalidade física enquanto exploramos o espaço em busca de outro sistema planetário, viajando em naves espaciais que não possuem distrações suficientes para&#8221;preencher&#8221; o tempo dos exploradores. Mas o tédio pode, em algumas circunstâncias, ser até fonte de inspiração para a mente, como o demonstrou Charles Baudelaire num conjunto de poemas denominado <em>Spleen</em> (poemas LXXVIII a LXXXI de <em>As Flores do Mal).</em> O que pode demonstrar que alguma virtude mental permite à pessoa em condição de tédio (predisponente à impaciência) passar <em>bem</em> o tempo.</p>
<p>No filme <em>Contos Proibidos do Marquês de Sade (Quills,</em> 2000), cada vez que o personagem do título é privado em sua cela de seus pertences (até ficar plenamente nu), ele encontra alguma forma de escrever e dar vazão à sua imaginação pornográfica, seja rabiscando com sangue suas roupas, seja sussurrando o texto para seus vizinhos de cela, através de pequenas frestas, para que, num telefone-sem-fio, alguém o registre em algum lugar.</p>
<div id="attachment_3441" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-3441" title="Contos Proibidos do Marquês de Sade" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/sade.jpg" alt="Contos Proibidos do Marquês de Sade" width="586" height="390" /><p class="wp-caption-text">O marquês de Sade escreveu em suas próprias roupas, usando sangue como tinta</p></div>
<p>Em várias partes da Terra, desenvolveram-se técnicas capazes de <em>pacificar</em> a mente, de modo que um indivíduo não precisa de mais do que de si mesmo para &#8220;sobreviver&#8221; à falta do que fazer. A Ioga (ou o Yôga), as diversas formas do que se generaliza sob o termo meditação, as técnicas para autopromover a experiência fora do corpo e os mantras que induzem o transe são alguns exemplos dessa tecnologia da paciência. Essas técnicas não são simplesmente usadas pontualmente, para &#8220;o tempo passar&#8221;, mas têm a importância de servir como cultivadoras de uma disposição mental mais permanente, que permite suportar melhor a situação potencialmente estressante.</p>
<p>O que me leva a outras nuances do espectro semântico da <em>paciência.</em></p>
<div id="attachment_3454" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-3454 " title="Faquir" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/faquir300.jpg" alt="Faquir" width="300" height="229" /><p class="wp-caption-text">&quot;Um faquir em Benares&quot; (fotografia de Herbert Ponting, 1907)</p></div>
<p>Uma das coisas que um paciente de hospital precisa aprender desde logo é suportar a dor física. As partes do corpo que foram mexidas durante uma cirurgia doerão quando os efeitos dos sedativos e anestésicos passarem. De vez em quando será preciso puncionar uma(s) ou outra(s) veia(s) para retirar sangue ou para injetar soro e medicamentos (a entrada de alguns dos quais provoca uma extra dor extrema). É preciso seguir o exemplo de um <a href="http://fr.academic.ru/dic.nsf/frwiki/616923" target="_blank">faquir</a> (porém, certa vez Beakman explicou que os faquires não têm que suportar dor nenhuma quando se deitam sobre uma cama de pregos, pois estes estão tão próximos uns dos outros e tão uniformemente espalhados que a pressão do corpo se distribui igualmente sobre eles e nenhum deles chega a perfurar a pele do indivíduo).</p>
<p>A mente, em princípio, pode ser livre e fugir da opressão das urgências do corpo. O Sr. Spock, no episódio <em>Operação: Aniquilar! (Operation: Annihilate!)</em> da série original de <em>Jornada nas Estrelas,</em> consegue, com sua disciplina mental, suspender a sensação de dor excruciante e enfrentar as criaturas que impingem esta sensação em suas vítimas. Os minbari, da série <em>Babylon 5,</em> têm uma disciplina mental parecida e conseguem até controlar a respiração, o que lhes permite  economizar energia (psíquica e física) quando, por exemplo, há pouco oxigênio numa cápsula espacial.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="600" height="475" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/20xg52VEpRA?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="600" height="475" src="http://www.youtube.com/v/20xg52VEpRA?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p>Num dos episódios da história do fundador do Budismo, Sidarta Gautama, em sua busca pela iluminação, ele deliberadamente passou algumas noites numa floresta, com o fim de apaziguar seu medo dos sons noturnos, que a princípio o assustavam, mas que depois passaram a ser encarados com serenidade. Afinal, nas situações em que não se pode evitar um perigo iminente, não adianta perder a calma, o que até pode mais atrapalhar. Pensando bem, nesse tipo de situação é útil um misto de serenidade e atenção, o que ajuda a ativar o foco, e uma mente concentrada pode conseguir agir rapidamente para resolver a ameaça antes que ela piore.</p>
<div id="attachment_3451" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-3451 " title="A Temperança" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/temperança.jpg" alt="A Temperança" width="200" height="342" /><p class="wp-caption-text">A Temperança, o Arcano Maior de número XIV do Tarô</p></div>
<p>Neste caso, a paciência tem muito a ver com a virtude da temperança, que é a capacidade de dosar os sentimentos e impulsos da forma mais eficaz possível. Essa noção vem das antigas teorias dos humores, os líquidos que se acreditavam compor nossa fisiologia e cujas dosagens determinavam nossos temperamentos. A fleuma determinava uma personalidade apática, o sangue determinava um caráter sensual, a cólera ou bile amarela determinava um aspecto irascível e a melancolia ou bile negra determinava uma tendência ao abatimento. O ideal buscado era a temperança dos 4 humores.</p>
<p>Talvez daí venha a expressão <em>bom humor,</em> ou seja, o equilíbrio entre os humores formando uma personalidade saudável (tanto física como psiquicamente; na Antiguidade, não havia a rígida separação dualista entre corpo e mente estabelecida por Descartes). E isso tem particularmente a ver com a paciência, pois a mente paciente também tende a desenvolver o bom humor. Um claro sinal de paciência é quando uma pessoa consegue manter um sorriso ou fazer gracejos enquanto passa por uma tribulação.</p>
<p>Aliás, paciência e bom humor estão tão intimamente ligados que se pode dizer também, inversamente, que o bom humor pode predispor à paciência. A pessoa realmente bem-humorada tem a &#8220;alma leve&#8221;, está quase sempre se sentindo bem e fazendo os outros se sentirem assim. Quando precisa enfrentar uma dificuldade, não permite que as circunstâncias negativas o afetem, mas procura, ao contrário, contagiá-las com seu próprio temperamento.</p>
<p>Passar por uma situação estressante não é sofrimento para o portador de bom humor, que pode encontrar em tudo motivos para sorrir. Porém, isso não quer dizer que se deva contentar com o que poderia ser diferente. É preciso lutar para mudar aquilo que representa um mal às pessoas, mas sempre mantendo a serenidade e a disposição de não sofrer diante do inevitável.</p>
<div id="attachment_3444" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-3444" title="Agora chega dessa chatice e vamos direto à pornografia! “The internet is for porn!”" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/sadecontinua.jpg" alt="Agora chega dessa chatice e vamos direto à pornografia! “The internet is for porn!”" width="586" height="390" /><p class="wp-caption-text">Obrigado pela paciência</p></div>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-33900"></div></div>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://teianeuronial.com/o-paciente/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>7</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Culpa, responsabilidade e ética</title>
		<link>http://teianeuronial.com/culpa-responsabilidade-e-etica/</link>
		<comments>http://teianeuronial.com/culpa-responsabilidade-e-etica/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 23 Aug 2010 11:00:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[Augusto dos Anjos]]></category>
		<category><![CDATA[culpa]]></category>
		<category><![CDATA[Em Busca do Vale Encantado]]></category>
		<category><![CDATA[Franz Kafka]]></category>
		<category><![CDATA[Inês Mota]]></category>
		<category><![CDATA[Kaspar Hauser]]></category>
		<category><![CDATA[mea culpa]]></category>
		<category><![CDATA[O Enigma de Kaspar Hauser]]></category>
		<category><![CDATA[Paulinho Mota]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Henrique Mota Teixeira]]></category>
		<category><![CDATA[responsabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[Rooter]]></category>
		<category><![CDATA[socialização]]></category>
		<category><![CDATA[valores sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Velho Rooter]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://teianeuronial.com/?p=3213</guid>
		<description><![CDATA[ou Se uma bola tivesse braços...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os episódios da infância de um indivíduo podem nos trazer muitos bons insights sobre o desenvolvimento do senso de ética e de convivência social. Vemos nesses episódios, por exemplo, como as atividades sociais e a reação de outras pessoas vão moldando os valores e códigos de conduta desde muito cedo na vida, o que certamente terá implicações na vida adulta.</p>
<p>Reproduzo abaixo uma crônica escrita por minha esposa, Inês Mota, intitulada <em><a href="http://objetobscuro.blogspot.com/2010/08/mea-culpa-ines-mota.html" target="_blank"><strong>Mea Culpa</strong></a></em> e publicado em seu blog <a href="http://objetobscuro.blogspot.com/" target="_blank">ObjetOObscuro</a>. Ela trata de um evento recente encenado por seu neto, Paulinho, em que se discutiram noções de culpa e responsabilidade, e que servirá para que, em seguida, eu teça alguns comentários sobre amadurecimento e ética, esta muitas vezes entendida como algo que emana de nossa &#8220;natureza humana&#8221;, mas que, sob um olhar sócio-antropológico mais detido, se revela construído nas relações sociais.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-3259" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/justicaparatodos.jpg" alt="" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-3213"></span></p>
<blockquote>
<div id="attachment_3214" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-3214 " title="Paulo Henrique Mota Teixeira" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/paulinhopugilista.jpg" alt="Paulo Henrique Mota Teixeira" width="200" height="337" /><p class="wp-caption-text">(Foto: Inês Mota)</p></div>
<p>Paulo* tem quase 5 anos. Ontem, depois de uma incursão com um grupo de amigos pelo Bloco 10, voltou com um galo feio na testa.</p>
<p>A despeito das chacotas que fazemos de que ele é o <em>chorão da praia</em>, não costuma ser mofino diante dos pequenos infortúnios próprios da tenra idade. Tanto que toma vacinas e injeções avisando logo que não vai chorar, pois trata-se <em>apenas de uma picada de formiga</em> e no máximo vai emitir um discreto <em>ai</em>.</p>
<p>O pranto, via-se, não era espontâneo, mas fomentado pela gravidade que os próprios amigos pareciam imprimir ao fato, provavelmente sentiu algo distinto da reação que costumava captar diante das <em>menos graves </em>desditas anteriores. Tanto é que vez ou outra cessava o choro e olhava confuso para cada um dos companheiros, buscando subsídios a veredicto menos preocupante.</p>
<p>Questionado por mim acerca do ocorrido e diante da resposta dos amigos de que ele havia caído, Paulo se apressou em relatar o acontecimento, cuidando de encontrar o verdadeiro responsável e, claro, eximindo-se inteiramente de qualquer culpa.</p>
<p>Primeiro, afirmou categoricamente que a culpa era exclusiva de Leando, o amigo mais chegado. E o argumento era forte: Ora, se estavam jogando bola e o chute de Leandro provocou um desequilíbrio e ocasionou a queda, ele era sem dúvida o <em>réu</em>.</p>
<p>A reação da turma foi imediata e em uníssono tratou de tomar partido por  Leandro: <em>Como jogar bola sem chutá-la? </em></p>
<p>Diante da defesa inconteste, a saída foi arrumar logo outro culpado. Nesse caso, uma culpada. Claro, como não? A bola! Ela, sim, deveria ter braços e aplicar um soco bem no meio da cara de Leandro.</p>
<p>Todos se voltaram surpresos, arguindo que socar o rosto de alguém em qualquer circunstância e, principalmente, se trantando de um amigo é algo violento e inaceitável.</p>
<p>Foi assim que o nosso pequeno personagem se deu por vencido e humildemente  reconheceu de uma vez por todas que não houve culpados. Afinal de contas, como já reza o adágio, o que vale mesmo é a política da boa vizinhança. Além do que é sempre bom ter um amigo com quem jogar e em quem, ocasionalmente, pôr a culpa, ainda mais se ele for o dono da bola.</p>
<p><em>*<strong>Paulo</strong> é meu neto querido.</em></p></blockquote>
<p>Paulinho voltou da brincadeira aos prantos, com muito mais gemidos e lágrimas do que costuma exprimir. Segundo Inês, o drama dos amigos serviu como multiplicador do drama pessoal de Paulinho. A forma como reagimos às diferentes situações do dia-a-dia é amplamente moldada pelos valores da sociedade em que vivemos. Se o choro é uma reação natural à dor, sua intensidade será proporcional à importância de cada tipo de dor, de sua causa e das circunstâncias em que ocorre. E tal importância é ditada pela sociedade e aprendida na convivência dentro dela.</p>
<div id="attachment_3256" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-3256" title="Kaspar Hauser" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/kasparhauser1.jpg" alt="Kaspar Hauser" width="300" height="170" /><p class="wp-caption-text">Kaspar Hauser não sabia emitir nem um discreto &quot;ai&quot; diante da dor</p></div>
<p>Numa cena do filme <em>O Enigma de Kaspar Hauser,</em> por exemplo, Kaspar, que não passou por um processo de socialização, reage ao fogo de uma vela, que queima seus dedos ao tentar pegá-la, apenas com uma lágrima, sem emitir nenhum som nem outro gesto que indique dor. Até quando foi esfaqueado, depois de já ter aprendido a ler e a viver razoavelmente em sociedade, nem sequer gritou nem demonstrou desespero (não da forma que as pessoas ao seu redor considerariam adequada), apenas correu ao seu protetor e, banhado no seu próprio sangue, relatou o fato.</p>
<p>As &#8220;picadas de formiga&#8221;, por exemplo, que provocam apenas um discreto &#8220;ai&#8221; sem maiores dramas, é entendida por Paulinho como insignificante, devido às circunstâncias em que tomou suas primeiras vacinas. Os adultos que o acompanharam deixaram bem claro, num clima tranquilo, que aquilo não era nada demais, e o encorajaram a mostrar dignidade diante da dor, talvez até tenham recompensado seu destemor com elogios. Toda vez que ele for tomar uma injeção, manterá a serenidade e a dor será sentida com pouca intensidade.</p>
<p>Outras crianças desenvolverão medo e nervosismo diante da agulha e chorarão ou ficarão tontas, até na idade adulta, sempre que tomarem uma injeção. Pelo que diz Inês Mota, seu próprio filho, tio de Paulinho, é um &#8220;medroso&#8221; diante de jalecos brancos.</p>
<p>Tudo isso fica muito explícito no momento em que Paulinho busca no olhar dos amigos &#8220;subsídios a veredicto menos preocupante&#8221;. Ele ainda não compreendeu qual é a forma mais adequada de reagir diante da situação, o modo mais aceito e aprovado pelo meio social em que vive de &#8220;sentir dor&#8221;, não sabe até que ponto é validado ou não verter lágrimas e soltar gemidos.</p>
<p>Diante da interrogação sobre o que aconteceu, o pequeno se apressa a apontar a culpa de sua dor, deixando para depois o relatório dos acontecimentos. Isso mostra que sua mente está concentrada em entender a razão de sua própria reação e justificá-la. Já que a dor na testa é suportável, o que atestam episódios anteriores de machucados e cortes, era preciso encontrar outra solução para explicar o choro e a dor, incitados mais pelos amigos do que por sua própria psico-fisiologia.</p>
<p>A experiência parece mostrar que tendemos, ao menos em nossa cultura, a ignorar nossos próprios erros. Paulinho não conseguiu ver que sua própria inabilidade em chutar a bola causou o tropeção que levou sua testa ao chão. Numa tendência muito humana a buscar uma causa inteligente externa para qualquer fenômeno, ele viu em Leandro, que havia lançado para ele a bola, o responsável indireto por sua queda.</p>
<p>No entanto, também parece haver uma tendência, quando reconhecemos nossas inadequações às normas vigentes nos meios em que vivemos, a criarmos e instigarmos sentimentos individuais de culpa. Especialmente dentro dos valores religiosos ocidentais cristãos, essa culpa se busca redimir com condutas de mortificação e auto-humilhação, o que em si mesmo reforça o sentimento da própria vileza.</p>
<p>Às vezes a autoculpa se manifesta em quadros clínicos como a depressão e a melancolia, e podemos ver como isso se expressa em obras como a poesia de Augusto dos Anjos e a prosa de Franz Kafka. Este era tão obcecado pela culpa que seu romance <em>O Processo</em> é um suspense todo baseado num crime supostamente cometido pelo protagonista, mas este nunca consegue descobrir qual é.</p>
<div id="attachment_3252" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-3252" title="Franz Kafka" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/kafkaculpado.jpg" alt="Franz Kafka" width="586" height="300" /><p class="wp-caption-text">A obra de Franz Kafka mostra uma obsessão pela culpa</p></div>
<p>Considero, em minha própria perspectiva ética, que a culpabilização do outro e a autoculpa são extremos opostos que devem ser evitados. A mortificação acaba sendo uma forma de prorrogar a resolução do problema, enquanto focar em acusações nos faz perder a visão do conjunto da situação e os detalhes que ajudariam a elucidar a solução do conflito.</p>
<p>Inês enfatizou que Leandro é o amigo mais chegado de Paulinho. Talvez não tenha sido sua intenção, mas, em minha própria leitura, dei importância a esse detalhe pelo fato de considerar a amizade um valor inestimável, o que aprendi em minha própria socialização. Assim, Paulinho recebe a desaprovação de todos ao seu redor ao fazer uma acusação injusta, e, pior ainda, ao seu melhor amigo.</p>
<div id="attachment_3218" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-3218" title="Velho Rooter" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/rooter.jpg" alt="Velho Rooter" width="300" height="200" /><p class="wp-caption-text">&quot;A culpa não é de ninguém&quot;</p></div>
<p>Mas a ação socializadora impôs com eficácia sua lição. Paulinho se curvou aos argumentos contra a acusação de Leandro e contra a personalização da bola, que foi uma forma de projetar seu próprio impulso violento e o desejo de devolver a dor que recebeu. Porém, ele não chegou a assumir responsabilidade por seu próprio infortúnio, mas ao menos admitiu que ninguém teve culpa, o que satisfez o status quo e representou, também ao meu ver, um avanço em seu aprendizado ético.</p>
<p>A voz de Rooter, personagem misterioso do filme <em>Em Busca do Vale Encantado,</em> ecoou em minha mente quando refleti nestes assuntos:</p>
<blockquote><p>Não é sua culpa, nem culpa de sua mamãe. Agora, preste atenção ao velho Rooter. A culpa não é de ninguém. O ciclo da vida apenas começou.</p></blockquote>
<p>Paulinho não se mortificou com a culpa e absolveu Leandro e a bola. Ele pôde assim exercitar a mediania aristotélica, procurando a virtude no meio. Mas ainda está por completar 5 anos de idade e aprenderá muito. Talvez ainda tenha que aprender (e aqui falo de meus próprios valores éticos) que não vale a pena procurar culpados, mas esclarecer cada situação e, da parte dele, assumir a responsabilidade naquilo em que teve parte, perdoando os erros dos outros e tentando errar menos.</p>
<div id="attachment_3253" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-3253 " title="Fim" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/kafkafim.jpg" alt="Fim" width="586" height="300" /><p class="wp-caption-text">Fim</p></div>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-32140"></div></div>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://teianeuronial.com/culpa-responsabilidade-e-etica/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>6</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Cirurgia</title>
		<link>http://teianeuronial.com/cirurgia/</link>
		<comments>http://teianeuronial.com/cirurgia/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 18 Aug 2010 22:09:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Agnosticismo]]></category>
		<category><![CDATA[Ateísmo]]></category>
		<category><![CDATA[bioenergias]]></category>
		<category><![CDATA[boi]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[Christine Chapel]]></category>
		<category><![CDATA[Cirurgia]]></category>
		<category><![CDATA[Conscienciologia]]></category>
		<category><![CDATA[coração]]></category>
		<category><![CDATA[coragem]]></category>
		<category><![CDATA[Deus]]></category>
		<category><![CDATA[Don Corleone]]></category>
		<category><![CDATA[Dr. McCoy]]></category>
		<category><![CDATA[energias conscienciais]]></category>
		<category><![CDATA[enfermeira Chapel]]></category>
		<category><![CDATA[espírito de porco]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[França]]></category>
		<category><![CDATA[godfather]]></category>
		<category><![CDATA[Jornada nas Estrelas]]></category>
		<category><![CDATA[O Poderoso Chefão]]></category>
		<category><![CDATA[policarma]]></category>
		<category><![CDATA[porco]]></category>
		<category><![CDATA[religião]]></category>
		<category><![CDATA[Sarek]]></category>
		<category><![CDATA[Síndrome de Marfan]]></category>
		<category><![CDATA[Sr. Spock]]></category>
		<category><![CDATA[Star Trek]]></category>
		<category><![CDATA[Teísmo]]></category>
		<category><![CDATA[válvula aórtica]]></category>
		<category><![CDATA[válvula mitral]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://teianeuronial.com/?p=3185</guid>
		<description><![CDATA[ou Nem sempre é bom ter um coração grande]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nasci com Síndrome de Marfan e com um prolapso na válvula mitral. Algumas das minhas cavidades cardíacas desenvolveram, ao longo de 29 anos, um tamanho anormal. As válvulas mitral e aórtica sofrem um círculo vicioso em que a sua insuficiência faz parte do sangue retornar, o que a dilata e a torna insuficiente. Nisso, o próprio coração cresce e já mal cabe na caixa torácica.</p>
<p>Em muitos casos de Síndrome de Marfan, há o risco de romper-se alguma válvula, devido a um problema no tecido conjuntivo, próprio dessa síndrome. Para evitar que o quadro venha a se agravar e &#8220;o pior&#8221; aconteça, é importante uma eventual intervenção cirúrgica que corrija a insuficiência cardíaca e prolongue a expectativa de vida de um marfan. Após alguns anos sendo acompanhado por uma cardiologista que já havia me preparado para a eventualidade, finalmnte chegou a ocasião.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-3186" title="Cirurgia" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/cirurgiasarekspock.jpg" alt="Cirurgia" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-3185"></span></p>
<div id="attachment_3198" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-3198" title="Válvulas cardíacas" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/valvulascardiacas.png" alt="Válvulas cardíacas" width="300" height="243" /><p class="wp-caption-text">As válvulas mitral e aórtica estão à direita</p></div>
<p>Então, na próxima Segunda-feira, dia 23 de agosto de 2010 e.c., passarei pelo procedimento cirúrgico em que terei a válvula aórtica substituída por outra, extraída de um porco francês, e a válvula mitral corrigida (a não ser, disse o cirurgião, dr. Marcelo Cascudo, que não dê para corrigir, sendo necessária também a substituição).</p>
<p>Já brinquei com minha amada, dizendo que terei um coração de porco, mas que não ficarei com &#8220;espírito de porco&#8221;. Não por causa disso, pelo menos. No máximo, talvez eu passe a detestar bacon e a ter impulsos ocasionais de chafurdar na lama, quem sabe? Pelo menos já tenho alguma noção da língua francesa, o que pode ajudar na adaptação. A propósito, será que os porcos franceses falam &#8220;óinc&#8221; fazendo biquinho? Na verdade, nem sei se o porco é francês, só sei que as válvulas vêm da França, que pode tê-las importado da China.</p>
<p>Eu me pergunto se esse porco (ou será um boi? Na verdade, o médico disse que a válvula pode ser suína <em>ou</em> bovina, mas a piada do &#8220;espírito de porco&#8221; ficou tão marcada que acabei esquecendo dessa possbilidade.) ou boi morreu para ter suas entranhas &#8220;doadas&#8221; a um paciente como eu ou aproveitaram o abate de um animal destinado à indústria alimentícia para atender também esse propósito.</p>
<p>Caso tenha ocorrido a primeira hipótese, será que a perspectiva egoísta é eticamente válida para justificar a troca de uma vida por outra? O porco (ou boi&#8230; pode até ter sido uma porca ou uma vaca) não teve escolha, foi abatido por seres humanos treinados para coagir e matar, enquanto eu pude optar (se bem que as circunstâncias também se impuseram sobre mim) por um procedimento cujo objetivo é me manter vivo.</p>
<p>Mas, se eu tiver certeza de que minha existência nesta vida intrafísica poderá ser mais positiva para o conjunto policármico de pessoas no universo do que a vida de um animal irracional que talvez (?) esteja adiantando sua evolução individual ao deixar sua atual vida e ser encaminhado para a próxima, então posso ficar perfeitamente tranquilo quanto à implicação ética.</p>
<p>Tranquila, aliás, é o que se pode dizer de minha disposição diante da abertura de meu tórax, a intrusão de instrumentos cortantes no interior de meu peito e a longa recuperação que me espera. Como Sarek e seu filho Spock, impassíveis vulcanos sob os cuidados do Dr. McCoy, na ilustração que inicia este post (cena do episódio <em>A Caminho de Babel,</em> da 2ª temporada da série clássica de <em>Jornada nas Estrelas).</em> Não que eu não tenha um pouco de medo e excitação diante de um evento tão contundente em minha vida. Porém, diz-se que a coragem não é ausência de medo, mas a habilidade de enfrentá-lo. Tampouco é sinônimo de bravura e ímpeto destemido. A serenidade perante as vicissitudes da existência é um dos maiores sinais de coragem.</p>
<p>E nada disso tem a ver com qualquer crença religiosa ou recurso a um deus todo-protetor. Certa vez, alguns dias antes de eu me submeter a uma cirurgia ocular (problemas oftalmológicos também são comuns na Síndrome de Marfan), uma amiga me disse que embora eu fosse forte e demonstrasse calma diante de um procedimento invasivo ao meu corpo, eu precisava recorrer a algo externo e mais forte do que eu, e em circunstâncias piores do que aquela seria necessário que eu buscasse conforto em Deus.</p>
<p>Entretanto, não sinto necessidade de recorrrer a uma força misteriosa, mística e oculta para me manter &#8220;confortado&#8221;. Não vejo necessidade de acreditar que há um ser onipotente e bondoso que &#8220;guia a mão do médico&#8221; para que tudo dê certo. Afinal, se ele fosse mesmo bondoso, não ajudaria só os que a ele confiam suas vidas, como um chefão da Máfia que protege aqueles que beijam sua mão e o chamam de &#8220;padrinho&#8221;.</p>
<div id="attachment_3267" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-3267" title="Don Corleone" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/doncorleone1.jpg" alt="Don Corleone" width="586" height="383" /><p class="wp-caption-text">O padrinho da Máfia. Não é à toa que em inglês o chamem de &quot;godfather&quot;</p></div>
<p>E o adágio segundo o qual &#8220;tudo o que acontece, bom ou mau, é pela vontade de Deus&#8221;, é ainda mais ilógico e irracional, pois não é preciso dar uma explicação teológica ao que acontece aparentemente por acaso (não que eu ache que as coisas ocorrem por acaso; vejo sincronicidade e relações de causa e efeito). Além disso, observo que toda essa &#8220;teo-lógica&#8221; parece não abrandar o sofrimento de ninguém. Há pessoas muito crentes que oram desesperadamente em situações críticas e não apresentam nenhum sinal de que estão &#8220;confortadas&#8221;. A manutenção da serenidade em situações de crise depende muito mais do autocontrole e de uma força desenvolvida intimamente do que de uma força exterior. Tanto há ateus e agnósticos que se desesperam quanto os que se mantêm calmos. E há crentes tranquilos e outros não tanto.</p>
<div id="attachment_3272" class="wp-caption alignright" style="width: 160px"><a href="http://intercampi.org/2010/04/15/artigo-tenepes-e-parapsiquismo-assistencial/" target="_blank"><img class="size-full wp-image-3272 " title="Tenepes" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/tenepes.jpg" alt="Tenepes" width="150" height="181" /></a><p class="wp-caption-text">Há uma complexa conexão entre as consciências e suas energias conscienciais</p></div>
<p>O único conforto de que preciso é meu próprio otimismo. E a certeza de que tudo ficará bem, seja o que acontecer, é apenas uma tranquilidade advinda de uma visão consciencial das coisas. Posso parecer contraditório ao dizer que confio na ajuda de consciências extrafísicas (que alguns preferem chamar de anjos da guarda ou espíritos de luz) e até <a href="http://intercampi.org/2010/04/15/artigo-tenepes-e-parapsiquismo-assistencial/" target="_blank">solicito</a> a elas essa ajuda. Mas não se tratam de deuses numa relação de poder. São pessoas que conheço e que estão elas mesmas imersas numa imensa rede de relações de causa e efeito, e a quem hei de ajudar quando eu estiver sem este corpo físico e quando elas estiverem vivendo na dimensão intrafísica (como estou agora).</p>
<p>De qualquer forma, pensem positivamente sobre a ocasião. Se alguém quiser orar para que o deus em que acredita faça com que tudo ocorra bem, por favor, ore. Sua energia bem-intencionada será bem vinda. E se alguém preferir torcer com o mero pensamento positivo, só posso agradecer. Quem tiver a disposição de me enviar deliberadamente suas energias conscienciais benfazejas terá minha gratidão. E caso alguns de vocês, por convicção pessoal, não queiram recorrer a nenhum desses meios, só o fato de desejarem o bem-estar de todos os seres existentes (para não dizer que estou pensando só em mim) já me deixa grato.</p>
<p>Espero, como disse uma amiga minha, que a cirurgia signifique um ajuste e uma melhora em minha manifestação nesta vida, para que eu possa dar mais de mim em minha programação existencial e contribuir ainda mais em meus modestos esforços para o bem comum das consciências do universo. Como disse Galadriel a Frodo,</p>
<blockquote><p>Even the smallest person can change the course of the future.</p></blockquote>
<p>Até breve.</p>
<div id="attachment_3269" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-3269" title="Fim" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/doncorleonefim.jpg" alt="Fim" width="586" height="383" /><p class="wp-caption-text">I&#39;ll be back!</p></div>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-31860"></div></div>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://teianeuronial.com/cirurgia/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>13</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Da amizade – parte 1</title>
		<link>http://teianeuronial.com/da-amizade-parte-1/</link>
		<comments>http://teianeuronial.com/da-amizade-parte-1/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 23 Jul 2010 16:56:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[amigos]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[binômio admiração-discordância]]></category>
		<category><![CDATA[C3P0]]></category>
		<category><![CDATA[Chewbacca]]></category>
		<category><![CDATA[Da Amizade]]></category>
		<category><![CDATA[Dia da Amizade]]></category>
		<category><![CDATA[Dia do Amigo]]></category>
		<category><![CDATA[Diego Leite]]></category>
		<category><![CDATA[fraternismo]]></category>
		<category><![CDATA[Guerra nas Estrelas]]></category>
		<category><![CDATA[Han Solo]]></category>
		<category><![CDATA[irmãos]]></category>
		<category><![CDATA[Jornada nas Estrelas]]></category>
		<category><![CDATA[Michel de Montaigne]]></category>
		<category><![CDATA[mutualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Otávio Rabelo]]></category>
		<category><![CDATA[R2D2]]></category>
		<category><![CDATA[respeito]]></category>
		<category><![CDATA[Série Amizade]]></category>
		<category><![CDATA[Star Trek]]></category>
		<category><![CDATA[Star Wars]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://teianeuronial.com/?p=2892</guid>
		<description><![CDATA[ou O irmão amigo e o amigo irmão]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando adolescente, inventei uma definição de amizade para valorizá-la e diferenciá-la de outros tipos de relações mais brandas, como as de colequismo e de camaradagem. Amizade, para mim, era definida por uma troca mútua de <em>amor</em> e <em>respeito. </em>Sem respeito mútuo, poder-se-ia ter amor, namoro, relação de parentesco, mas não amizade. Sem amor mútuo, teríamos uma relação formal e respeitosa entre colegas, mas não amizade.</p>
<p>Sem a mutualidade do respeito, haveria uma relação desigual, e sem a mutualidade do amor, só se veria a adoração unilateral. Eu nem sequer conseguia  conceber que alguém pudesse chamar de <em>amor</em> um sentimento que não fosse correspondido. E me deixou desapontado que Susan Ivanova dissesse, diante do cadáver de seu sempiterno admirador Marcus, cujos avanços sempre rejeitou: &#8220;Não existe amor correspondido&#8221;.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1226" title="Da Amizade - parte 1" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/spockrindo.jpg" alt="Da Amizade - parte 1" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-2892"></span>Naquela época, havia pouquíssimas pessoas que eu dignava com a denominação de amigos, e acho que minha seletividade tinha muito a ver com o fato de eu ser bastante impopular, tímido e CDF (algo que nos EUA me daria a alcunha de nerd). Dizer a mim mesmo que a amizade era uma escolha criteriosa e que os amigos eram raros era um mecanismo de defesa do ego, que me permitia me contentar com as poucas relações de afeto que eu tinha.</p>
<p>Mas o tempo e a experiência foram me dando mais amigos e um refinamento maior do conceito de amizade. Existem grandes amigos, bons amigos e amigos, existem amigos por afinidade de interesses, amigos por causa do convívio e amigos de projetos comuns (no entanto, quase sempre há as 3 coisas numa só relação, em diferentes dosagens).</p>
<p>Aqueles que considerava amigos na época descrita nos primeiros parágrafos ainda o são, e são aqueles que eu chamava de irmãos, com toda a conotação positiva, de afeto, amor, respeito e igualdade.</p>
<div id="attachment_2923" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-2923" title="Han Solo e Chewbacca" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/han-e-chewie.jpg" alt="Han Solo e Chewbacca" width="586" height="258" /><p class="wp-caption-text">Han Solo e Chewbacca representam um fraternismo leal e uma confiança tão grandes que os levam a arriscar a vida um pelo outro</p></div>
<p>Porém, de fato, meu primeiro grande amigo nesta vida foi Diego, meu irmão com quem, desde muito pequenos, projetava brincadeiras e planejava aventuras. É interessante como nossa relação se desenvolveu a partir de uma forçosa convivência, em que brinquedos e quarto de dormir eram compartilhados, passando por uma pré-adolescência (numa época em que acho que isso nem existia ainda) em que tínhamos um ao outro mais do que qualquer colega de escola (em geral, sempre estudamos na mesma escola e no mesmo horário, ele sempre uma série a menos que eu, pela diferença de 1 ano de idade).</p>
<p>Na adolescência, vieram livros, filmes e bandas de rock, que se tornaram objetos de conversas. Jogamos muito RPG juntos e, mesmo que tenhamos construído círculos de amizades um pouco diferentes, sempre permanecemos unidos, e meus amigos consideravam Diego um bom camarada pelo simples fato de ser meu irmão e amigo, e os amigos dele pareciam pensar o mesmo de mim.</p>
<p>O video game tem sido desde muito cedo uma constante em nosso fraternismo amigo, desde o Atari pré-histórico, passando pelo Master System e pelo Mega Drive, até os Playstations 2 e 3 que hoje raramente jogamos juntos. A bibliofilia também se manteve forte até hoje, sendo ainda motivo para mantermos a troca constante de leituras e ideias.</p>
<div id="attachment_2924" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-2924" title="C3P0 e R2D2" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/c3p0-e-r2d2.jpg" alt="C3P0 e R2D2" width="586" height="414" /><p class="wp-caption-text">Apesar das divergências e das briguinhas, esses dois droides são sempre companheiros de viagem e estão sempre preocupados com a segurança um do outro</p></div>
<p>Otávio foi meu primeiro amigo de escola, desde a 8ª série. Ele era muito diferente das outras pessoas de nossa idade e havia tais diferenças entre nós que a amizade só pode se explicar pelo conceito que apresentei no início do texto: amor e, principalmente, respeito mútuo.</p>
<p>Enquanto eu era tímido, retraído e calado, ele era popular e descontraído, de modo que se poderia esperar dele conviver só com pessoas &#8220;bonitas&#8221; e &#8220;descerebradas&#8221;. Mas ele não era &#8220;descerebrado&#8221;, era e é muito inteligente e criativo, e foi nisso que nos identificamos, todo o resto se tornando secundário. Até o fato de ele ser católico e eu agnóstico (foi na época em que eu estava deixando de me considerar ligado a qualquer religiosidade e esboçava um certo ateísmo) não importava.</p>
<p>Éramos irmãos. E nunca esqueço de uma profunda conversa que tivemos sobre Deus e o Diabo, ocasião em que nossas diferenças de pensamento reforçaram ainda mais nosso respeito mútuo, num belíssimo exemplo do <em><a href="http://pt.conscienciopedia.org/Bin%C3%B4mio_admira%C3%A7%C3%A3o-discord%C3%A2ncia" target="_blank">binômio admiração-discordância</a>.</em> O que me remete, por exemplo, à relação entre Kirk, Spock e McCoy, três amigos cuja lealdade mútua não se abala por causa das profundas divergências de temperamento e caráter.</p>
<p>Idealizamos vários projetos, entre os quais, lembro bem, um jornalzinho chamado <em>Pão e Circo,</em> que tinha como símbolo uma caveira com maquiagem de palhaço e os continentes da Terra gravados na testa. Nunca saiu nem o número zero&#8230; Nossa última tentativa de criar algo interessante juntos foi o blog <a href="http://dm0104.blogspot.com/" target="_blank">DM 0104</a>, que contaria histórias sobre os povos de alguns planetas de uma constelação distante. Espero conseguir um dia construir com ele algo mais &#8220;sólido&#8221;. Ao menos, a insistência nos projetos em comum serviram para mantermos viva nossa amizade.</p>
<div id="attachment_2928" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-2928" title="Continua..." src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/c3p0-e-r2d2-continua.jpg" alt="Continua..." width="586" height="414" /><p class="wp-caption-text">Continua...</p></div>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-28930"></div></div>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://teianeuronial.com/da-amizade-parte-1/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O preço do direito</title>
		<link>http://teianeuronial.com/o-preco-do-direito/</link>
		<comments>http://teianeuronial.com/o-preco-do-direito/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 10 Jul 2010 01:13:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[Acauã]]></category>
		<category><![CDATA[comunidades quilombolas]]></category>
		<category><![CDATA[Direito]]></category>
		<category><![CDATA[Dura lex sed lex]]></category>
		<category><![CDATA[Franz Kafka]]></category>
		<category><![CDATA[Incra]]></category>
		<category><![CDATA[justiça]]></category>
		<category><![CDATA[O Processo]]></category>
		<category><![CDATA[Paul Gervais]]></category>
		<category><![CDATA[Poço Branco]]></category>
		<category><![CDATA[Raça-etnia e Identidade]]></category>
		<category><![CDATA[Reforma Agrária]]></category>
		<category><![CDATA[Regularização de Territórios Quilombolas]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://teianeuronial.com/?p=2834</guid>
		<description><![CDATA[ou A Justiça é uma deusa que exige sacrifícios?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Desde que o Estado brasileiro aboliu o sistema econômico escravista com a Lei Áurea (uma lei de 2 artigos simplórios), a distribuição da propriedade da terra tem mantido um padrão: grandes e ricas propriedades concentradas em poucas mãos e uma grande massa de gente com pouca ou nenhuma terra, para morar nem de onde tirar sobrevivência.</p>
<p>A Reforma Agrária promovida pelo Estado foi um projeto que trouxe certa esperança de reverter esse quadro desumano. Parece muito justo repassar grandes montantes de terras ociosas para as enxadas de quem vive ruralmente e quer trabalhar e sobreviver. Mas há casos em que as populações despossuídas foram também desapossadas, perderam suas terras para quem pôde pagar pela lei, pois os direitos muitas vezes não são distribuídos de graça.</p>
<p><span id="more-2834"></span></p>
<h3>Má notícia</h3>
<p>Trabalho no Instituto Nacional de Colonização e Reforma, ou INCRA, como é mais conhecido. Se este é um órgão amplamente vilipendiado e incompreendido (ou mal compreendido, o que é bem diferente&#8230;) pela mídia hegemônica e por grande parte da elite ruralista do país, o serviço em que estou lotado é ainda mais obscuro e marginalizado: Regularização de Territórios Quilombolas.</p>
<p>Há algum tempo recebi a notícia de que o processo administrativo sob meus cuidados, referente à regularização do território da comunidade quilombola de Acauã, localizada no município de Poço Branco/RN, foi alvo de uma ação judicial movida por um dos opulentos proprietários cuja terra é visada pelo INCRA para desapropriação em favor do quilombo de Acauã, e que o Tribunal Regional Federal da 5ª Região lançou uma liminar impedindo qualquer atividade do INCRA nesse imóvel até o julgamento da ação. Deveríamos continuar com a desapropriação apenas de outros 5 imóveis.</p>
<p>O processo de regularização do território de Acauã foi aberto em setembro de 2004, mas o acompanho desde setembro de 2006, quando assumi meu cargo no INCRA. Desde então venho assistindo de perto a uma história de resistência, opressão e sacrifício.</p>
<h3>O legado de Zé Acauã</h3>
<p>Numa pesquisa feita pelo antropólogo Carlos Guilherme Octaviano do Valle, da UFRN, constatou-se que a história oral transmitida pelas antigas gerações de Acauã mostram que sua origem remonta a uma figura mítica chamada José Acauã ou Zé Acauã, a que os acauanenses se referem como um escravo que fugiu do cativeiro. Há outros relatos que explicam como as famílias foram se formando, mas toda essa história demonstra que a origem desse grupo remonta a escravos negros que construíram uma comunidade que hoje em dia conta com 57 núcleos familiares.</p>
<p>A vida da comunidade de Acauã, ou Cunhã, como eles também chamam, ia bem desde o século XIX. Muitas casas foram erigidas nas duas margens do Rio Ceará-Mirim, a terra era farta e fértil. Apesar das dificuldades de infraestrutura, a terra era deles e, mais importante, eles eram donos das próprias vidas.</p>
<p>Mas a construção da Barragem de Poço Branco no Rio Ceará-Mirim, na década de 1960, é lembrada com pesar pelos anciãos que acordaram à noite com a água ensopando suas camas e redes e viram o dia amanhecer sobre suas casas e pertences totalmente submersos.</p>
<p>As autoridades locais e os responsáveis pela Barragem não apresentaram nenhuma compensação pela perda, nenhuma indenização pelo enorme prejuízo material e simbólico sofrido pelos negros de Acauã. Tudo o que lhes foi oferecido em troca de seu desamparo foram míseros 4 hectares, onde foram erguidas 16 casas. Estas se reproduziram nas últimas décadas, e formam um conjunto de mais de 50 famílias.</p>
<p>Acauã deixou de ser uma comunidade livre para viver confinada num pequeno terreno que pode chamar de seu e que nem é suficiente para sua subsistência. Se antes eles trabalhavam para si, hoje eles são obrigados a plantar em terras alheias e pagar uma corveia atávica. A Cunhã Velha é hoje uma Atlântida perdida sob as águas do Ceará-Mirim.</p>
<h3>Remanescentes das comunidades dos quilombos</h3>
<p>A Constituição Federal Brasileira  de 1988 trouxe o seguinte artigo no seu Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT):</p>
<blockquote><p>Art. 68 &#8211; Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.</p></blockquote>
<p>A legislação que regulamenta o Art. 68 do ADCT &#8211; CF/1988 (<a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2003/d4887.htm" target="_blank">Decreto Nº 4.887/2003</a> e Instrução Normativa INCRA Nº 57/2009) foge do antigo conceito colonial de quilombo e prevê a desapropriação como forma de recompor o território étnico da comunidade quilombola:</p>
<blockquote><p>Art. 2o Consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos, para os fins deste Decreto, os grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida.</p>
<p>§ 1o Para os fins deste Decreto, a caracterização dos remanescentes das comunidades dos quilombos será atestada mediante autodefinição da própria comunidade.</p>
<p>§ 2o São terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos as utilizadas para a garantia de sua reprodução física, social, econômica e cultural.</p>
<p>§ 3o Para a medição e demarcação das terras, serão levados em consideração critérios de territorialidade indicados pelos remanescentes das comunidades dos quilombos, sendo facultado à comunidade interessada apresentar as peças técnicas para a instrução procedimental.</p></blockquote>
<p>A estratégia de se ampliar o conceito de quilombo para os diversos casos de descendentes de escravos que ficaram marginalizados e despossuídos na sociedade e economia brasileiras foi um meio de atender a uma demanda fundiária muito maior do que a dos descendentes daqueles que escaparam do cativeiro. Muito do contingente da população rural miserável não é sem-terra, ou seja, não vive sem um chão para chamar de lar. Os quilombos representam as comunidades que têm chão e têm teto, mas não o suficiente para viver com dignidade, e muitas vezes a terra que consideram sua por direito, por ter pertencido a seus tataravós, está hoje esbulhada e usurpada por quem tem dinheiro para comprar direito.</p>
<p>A Política de Regularização de Territórios Quilombolas representou uma chance de os quilombolas de Acauã receberem a indenização que nunca tiveram. Ao se reconhecerem como remanescentes das comunidades dos quilombos, o Estado pôde atender a uma demanda por um direito que de outra forma eles não conseguiriam adquirir.</p>
<p>Também foi o início de um fervilhar de conflitos latentes sob a aparente harmonia social na qual Acauã está inserida. Por exemplo, alguns dos proprietários que  costumavam arrendar terras aos quilombolas (e cujos imóveis foram visados pelo INCRA para beneficiar a comunidade) impediram o uso de suas terras pelos trabalhadores acauanenses.</p>
<p>Um dos episódios mais traumáticos começou com um boato de que o MST pretendia ocupar a Fazenda Gamellare, vizinha do pequeno terreno onde moram os quilombolas. Com medo de que a referida fazenda fosse perdida para os sem-terra, alguns moradores de Acauã acamparam lá. No dia seguinte, um indivíduo que se identificou como advogado do proprietário chegou ao local acompanhado de homens armados. Atearam fogo no acampamento e ameaçaram passar um trator por cima.</p>
<p><object width="600" height="475" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/SrTDLhsEadc&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1?color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="600" height="475" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/SrTDLhsEadc&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1?color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
<h3>Má notícia (continuação)</h3>
<p>A ação movida na Justiça, que impediu o INCRA de desapropriar um dos imóveis levou o advogado da comunidade de Acauã, Luciano Ribeiro Falcão, a tentar conversar com o desembargador responsável pelo caso, em Recife. Ele foi ao INCRA e conseguimos um carro para a viagem. Dois representantes da comunidade foram conosco, Aleandro e Júnior. E praticamente não fomos atendidos, pois o desembargador só admitiu falar com o advogado e com um dos quilombolas. E mesmo assim só admitiu 5 minutos de audiência.</p>
<div id="attachment_2867" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-2867" title="Dois quilombolas e um antropólogo do INCRA batendo na porta da Lei" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Quilombolas-no-TRF-Recife-1.jpg" alt="Dois quilombolas e um antropólogo do INCRA batendo na porta da Lei" width="586" height="781" /><p class="wp-caption-text">Júnior e Aleandro, dois quilombolas, e um antropólogo do INCRA batendo na porta da Lei. Notem a imensidão do lugar e como ele faz qualquer um se sentir minúsculo</p></div>
<p>Recentemente recebi uma informação da procuradora-chefe do INCRA do RN de que todo o processo administrativo em questão deveria ficar suspenso atá o julgamento da supracitada ação&#8230; neste dia eu fiquei um pouco abatido e triste.</p>
<p>A decisão de se impedir o andamento da desapropriação da Fazenda Maringá foi baseada numa interpretação literal do marco legal que fundamenta toda a política de regularização de territórios quilombolas, o Art. 68 do ADCT. Ou seja, o juiz pretendeu ignorar qualquer coisa que fosse além da interpretação de que quilombo é apenas o reduto de escravos fugidos e que a regularização de seus territórios poderia prever a desapropriação com vistas à autonomia dessas comunidades.</p>
<p>Grandes controvérsias giram em torno dos fundamentos (tanto jurídicos quanto antropológicos) da política de regularização fundiária voltada para remanescentes das comunidades dos quilombos. Eu mesmo tive muitíssimas dúvidas quando comecei a trabalhar com isso, e sempre me perguntei se era mesmo válido e honesto ressemantizar o conceito de quilombo e, em alguns casos, propor a regularização de um território que não pertenceu realmente à comunidade, mas que atende suas necessidades de sobrevivência.</p>
<p>Um dos principais pontos de que discordo nessa política é a identificação das comunidades quilombolas por um critério &#8220;étnico-racial&#8221;, ou seja, sua atuação focada em comunidades &#8220;negras&#8221;. As comunidades quilombolas são heterogênas demais em termos dos problemas que enfrentam para serem classificadas de modo tão homogêneo. E há muitas comunidades não-negras que enfrentam problemas fundiários semelhantes. Em minha opinião, os critérios para esse tipo de regularização fundiária de comunidades rurais deveria considerar aspectos sócio-econômicos e não fenotípicos.</p>
<p>No entanto, mesmo com todas essas dúvidas e discordâncias, especialmente no caso de Acauã, eu senti fortemente a repercussão negativa de uma ação contrária. Por mais que eu pense que a regularização de territórios de comunidades rurais deveria ser um tanto diferente, ela é uma saída viável para problemas urgentes que de outra forma não seriam solucionados.</p>
<p>O quilombo de Acauã não teve a justa compensação pelas inúmeras privações, perdas e descasos que vem sofrendo em sua história. Se não podem se enquadrar no perfil de sem-terra, se as terras perto das quais moram não se enquadram nos requisitos para desapropriação nos moldes da Reforma Agrária&#8230; então a identidade quilombola, um meio de serem vistos pelo Estado, e a <em>reconstrução</em> de seu território, são meios legítimos de lhes oferecer oportunidades menos desiguais.</p>
<p>Não dá para não lembrar de Franz Kafka, no trecho fundamental de <em>O Processo,</em> um pequeno conto ditado por um padre a Josef K., no opressor e racional ambiente de uma catedral. No filme de Orson Welles, o conto vem na abertura:</p>
<p><object width="600" height="475" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/SXA7RtM_GFY&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1?color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="600" height="475" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/SXA7RtM_GFY&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1?color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
<blockquote><p>Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo dirige-se a este porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde. &#8220;É possível&#8221;, diz o porteiro, &#8220;mas agora não.&#8221; Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta, e o porteiro se põe de lado, o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso, o porteiro ri e diz: &#8220;Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. Eu sou apenas o úlitmo dos porteiros. De sala para sala, porém, existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a visão do terceiro&#8221;. O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo e a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta. Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido, e cansa o porteiro com seus pedidos. Muitas vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito da sua terra e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que costumam fazer os grandes senhores, e no final repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que havia se equipado para a viagem com muitas coisas, lança mão de tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Este aceita tudo, mas sempre dizendo: &#8220;Eu só aceito para você não achar que deixou de fazer alguma coisa&#8221;. Durante todos esses anos, o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos, amaldiçoa em voz alta o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil, e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião. Finalmente, sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está escurecendo em volta ou se apenas os olhos o enganam. Contudo, agora reconhece no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem. &#8220;O que é que você ainda quer saber?&#8221;, pergunta o porteiro. &#8220;Você é insaciável.&#8221; &#8220;Todos aspiram à lei&#8221;, diz o homem. &#8220;Como se explica que, em tantos anos, ninguém além de mim pediu para entrar?&#8221; O porteiro percebe que o homem já está no fim, e para ainda alcançar sua audição em declínio, ele berra: &#8220;Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a&#8221;.</p>
<p style="text-align: right;">[Franz Kafka]</p>
</blockquote>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-28350"></div></div>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://teianeuronial.com/o-preco-do-direito/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>5</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>

