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	<title>Teia Neuronial &#187; Ensaios</title>
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		<title>A profilaxia dos shoppings e a harmonia excludente</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Feb 2012 11:00:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theo G. Alves</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Assepsia, desvios do padrão e exclusão dos pobres]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As praias urbanas sempre me pareceram símbolos de liberdade e convivência harmônica entre as pessoas de quaisquer classes sociais ao longo das décadas. A ausência de barreiras físicas claras, a gratuidade do acesso, a possibilidade de compartilhar espaços com uma infinidade de membros das famílias ou vizinhança, as refeições levadas de casa e outros aspectos, permitiam essa co-habitação pacífica. Obviamente, existiam – como ainda existem – áreas dessas praias em que determinados grupos se posicionavam, no entanto, nada podia privá-los de ocasionais misturas. Assim, a convivência democrática era possível e as delimitações sociais eram menos claras. Isso é o oposto dos novos espaços de convivência: os shoppings, sínteses do mundo ideal pasteurizado.</p>
<p>Se a praia permitia gratuidade, os shoppings são o auge das relações de compra e venda. Tudo nos shoppings é pago, mesmo quando não se paga nada aparentemente, pois as vitrines, fachadas, cartazes e até as pessoas fazem propaganda dos shoppings, de suas lojas e serviços, mas, sobretudo, do estilo de vida que lá se comercializa. Ainda que os shoppings não cobrem pelo acesso, o ambiente é, por natureza, intimidador aos menos favorecidos. Há, a partir daí, um movimento de exclusão ideológica.</p>
<p><span id="more-6135"></span>Como não se sentir intimidado diante da vida pasteurizada e asséptica que os shoppings apresentam? Os espaços são impecavelmente limpos – pelo menos os que dão à vista; as lojas são perfeitamente decoradas, como se pertencessem a um mundo de sonhos; tudo funciona perfeitamente e sem sobressaltos; tudo é mais caro que na maioria das lojas de ruas e avenidas; as pessoas parecem sempre bem vestidas, mesmo quando se desviam de um padrão, pois os que o fazem acabam por seguir uma espécie de “variação de padrões permitidos”.</p>
<p>Explico: os desvios do padrão de vestimenta e comportamento ocorrem dentro de uma espécie de escala de variações permitidas, o que se estabelece em acordo tácito, já que não há regras estabelecidas sobre isso. Os que saem do padrão, o fazem dentro do que lhes é permitido e nisso um único aspecto está inquestionavelmente proibido: o da pobreza. Com o crescimento da classe C, esses espaços e padrões passaram a ser mais largos, no entanto, paradoxalmente mais radicais, pois atendem aos ideais de consumo das classes mais abastadas e dessa nova que experimenta bens e serviços que até então desconheciam, mas sem os quais não se permitem mais viver.</p>
<p>Dessa forma, a segurança quase impecável dos shoppings é uma resposta à insegurança das ruas, assim como a beleza das lojas é o que sonham os lares de quem passa por lá. Os shoppings, ao contrário das praias, não guardam a surpresa da chuva ou o excesso de calor, já que em seus ambientes o tempo nunca muda. Não há relógios e a iluminação artificial mantém sempre a ilusão de que as horas não existem. Quanto mais tempo em um shopping, maior tende a ser o número de comercializações feitas. Piso, paredes, corredores e banheiros são sempre imaculados. Tudo nos shoppings traz à mente uma palavra imediata: profilaxia.</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-6139" title="" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/FOTO-NATAL-SHOPPING.jpg" alt="" width="250" height="250" />Essa mesma profilaxia gera a exclusão que os shoppings promovem. As pessoas não querem sentir medo de serem abordadas por criminosos nem serem incomodadas por pedintes, assim como não querem a sensação de proximidade de convívio com a pobreza. Fora, perto de casa, por exemplo, isso é permitido, mas não nos shoppings. Não há problemas em ser abordado por vendedores irritantes, insistentes e inconvenientes. Porém, perceber próximo aquilo que mais se nega não é aceitável no sacro ambiente dos shopping centers. O caos estabelecido nas ruas é prova de nossa falência social; entre as paredes do shopping, a sociedade excluiu quem a incomodava, pois não importa consertar problemas, mas impedir que eles cheguem até nós.</p>
<p>Esta semana circulou no Facebook uma foto que dizia ser o registro da abordagem de seguranças do Natal Shopping a uma mãe e sua filha, convidadas a se retirarem do lugar porque não trajavam roupas adequadas. É mais um eufemismo para a pobreza, que não tem lugar nesses ambientes. Não sei de quem é a foto nem se ela é verdadeira, no entanto relatos de cenas como essa se acumulam. É comum ouvir depoimentos de quem presenciou acontecimentos dessa monta. Infelizmente, é comum também que essas descrições venham seguidas de relatos de que ninguém parece ter interferido ou intervindo em favor dos abordados. Deve ser o retrato da nossa própria postura, afinal, somos nós que expurgamos essas pessoas de lugares assim. Pergunto-me, aliás, pergunto-nos: como ainda conseguimos dormir à noite?</p>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-61360"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>Liberdade e livre-arbítrio &#8211; parte 2</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Jan 2012 11:00:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Paradoxos da liberdade e o fim das marchas]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A restrição da liberdade é condição sine qua non da própria vida humana em sociedade. Se não fosse o refreamento dos impulsos vitais, por exemplo, os conflitos interpessoais quase sempre terminariam em derramamento de sangue ou morte. Se as pessoas fossem totalmente desimpedidas para expressar o que pensam, qualquer discordância se tornaria uma troca de insultos, xingamentos e ataques verbais preconceituosos, desperdiçando-se a oportunidade do debate de ideias. Se não fosse a cultura, enfim, não seríamos humanos.</p>
<p>Esse refreamento deveria se tornar uma prática consciente, parte de uma autocrítica constante, norteada pela razão e por uma noção realmente libertária da liberdade. Esta só tem sentido como valor social quando se aplica a todos igualmente, e isso necessariamente significa que, paradoxalmente, nem tudo é permitido numa sociedade livre.</p>
<p><span id="more-6099"></span>Se isso não ocorrer, regrediremos a uma época em que vários avanços democráticos não haviam ainda sido cogitados, como os direitos iguais de mulheres e homens, dos grupos étnicos minoritários, da população racialmente discriminada, das pessoas com orientação e identidade sexuais não-convencionais, de praticantes de religiões marginalizadas e daqueles que não professam religião ou crença nenhuma.</p>
<p>Na prática, as pessoas são livres para expressar seus preconceitos, e muitas o fazem o tempo todo. Mas os discursos têm grande poder de reproduzir os preconceitos. Para que realmente haja mudanças libertárias, paradoxalmente, temos que nos restringir, pois estamos todos corrompidos com sexismo, racismo, homofobia e xenofobias de todos os tipos, que lutam o tempo todo dentro de nós para vir à tona, e não queremos que as próximas gerações os herdem (bem, nem todos nós, alguns educam abertamente os filhos para herdar esses preconceitos).</p>
<p>A democracia deve se pautar na razão, e esta se alia muito melhor ao conhecimento científico e à reflexão filosófica (que tratam dos fatos como eles são) do que à crença religiosa (baseada em pré-concepções e dogmas). Esta, em muitas de suas correntes, defende que os homossexuais são prejudiciais à sociedade (a Bíblia prescreve a pena de morte para sodomitas), e constrói um arcabouço de argumentações para justificar essa ideia, todas inspiradas em preconceitos.</p>
<p>O conhecimento científico, pela observação mais objetiva dos fatos sociais, demonstra que as coisas não são bem assim, que <a href="http://bulevoador.haaan.com/2012/01/32334/" target="_blank">as repercussões dos atos de um homossexual na realidade ao seu redor não são diferentes das de um heterossexual</a>. Não há justificativa racional para a restrição da liberdade de exercermos direitos iguais aos de todos os outros. A democracia não é simplesmente fazer o que a maioria quer (argumento usado de maneira falaciosa por cristãos que defendem que, se a maioria dos brasileiros é cristã, a lei deveria seguir os preceitos bíblicos), mas possibilitar a realização de um ideal em que a liberdade de cada um não seja reprimida pelas crenças de uma entre muitas parcelas da sociedade.</p>
<p>A liberdade de um indivíduo viver segundo suas crenças pessoais não deve implicar no constrangimento da liberdade de outros. Existe uma lei estatal que se sobrepõe a qualquer “lei divina”, e garante (ou está aí para garantir) direitos iguais para todos, religiosos, ateus, gays, héteros, mulheres, homens, negros, brancos etc. Embora eu não acredite na obediência cega à lei (isso seria o pensamento de quem se submete a uma ditadura), acho que ela precisa ir se construindo de forma cada vez mais racional e democrática.</p>
<p>Para Aristóteles, em <em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89tica_a_Nic%C3%B4maco" target="_blank">Ética a Nicômaco</a>,</em> a virtude deve ser buscada no equilíbrio, na dosagem (temperança) entre o excesso e a falta. Nas relações humanas, essa ideia pode ser traduzida como o esforço para se alcançar um equilíbrio entre a liberdade individual irrestrita (excesso) e a autoabnegação absoluta (falta). Se houver a primeira, existirá apenas o indivíduo solitário no mundo. Se a segunda dominar, ninguém vive.</p>
<p>Defender a ideia de que certas crenças deveriam se tornar leis é defender o pensamento ditatorial. Por exemplo, <a href="http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?&amp;id=87954" target="_blank">querer que o Cristianismo em sua versão católica seja ensinado obrigatoriamente nas escolas</a> é ignorar a diversidade religiosa do país e pretender a universalização de ideias pertencentes a um grupo particular. Se essa medida fosse democraticamente válida, seria preciso ensinar todas as religiões do mundo (não só as variedades cristãs – muita gente pensa que Religião é sinônimo de Cristianismo), sem colocá-las numa hierarquia e sem considerar nenhuma delas como mais certa do que as outras.</p>
<p>Os cristãos não precisam de leis especiais, pois eles tradicionalmente ocupam lugares privilegiados no poder e constituem uma maioria, sendo responsáveis pela eleição de muitos políticos alinhados com seus interesses sectários. As leis que contrariam as doutrinas cristãs, como aquelas relacionadas aos direitos dos LGBTs, não chegam a ser mínima ameaça à liberdade religiosa de ninguém.</p>
<p>A Marcha para Jesus e outras <a href="http://teianeuronial.com/as-micaretas-de-cristo/" target="_blank">micaretas de Cristo</a>, por exemplo, são irrelevantes em comparação com a Parada Gay e outros movimentos de ação afirmativa, porque esta tem uma importância política no contexto da busca por visibilidade de um dos grupos mais marginalizados e excluídos, que ainda precisa esconder sua existência para evitar a discriminação. Isso não ocorre com os cristãos. Por isso é muito fácil estes se sentirem reprimidos quando criticados em suas crenças conservadoras, pois estão acostumados a não encontrarem obstáculos à expressão e manifestação de suas ideias e seu modo de vida.</p>
<p>Não que eu seja totalmente favorável a essas marchas (de qualquer tipo), que atrapalham o cotidiano de muita gente com barulho e fechamento de ruas, mas algumas, como a Parada Gay, têm importância política e podem trazer boas mudanças a longo prazo, até o dia em que ninguém mais precise marchar.</p>
<h3>Imagem em destaque</h3>
<ul>
<li><em>A Liberdade guiando o povo</em> &#8211; Eugène Delacroix (1830)</li>
</ul>
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		<title>Liberdade e livre-arbítrio &#8211; parte 1</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 11:00:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A liberdade irrestrita nos torna realmente livres?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É por parte de cristãos de diversas denominações que mais se ouvem queixas reacionárias perante críticas dirigidas ao Cristianismo, manifestações pelos direitos dos LGBTs e reivindicações pela efetiva laicidade do Estado. Quando uma boa quantidade de pessoas critica o comportamento de <a href="http://youtu.be/c8oHt83AJTQ" target="_blank">evangélicos que transformam uma cabine do metrô numa barulhenta sessão de pregação</a>, com direito a possessões divinas e diabólicas, alguns evangélicos sentem que se trata de uma repressão a sua crença. É difícil que algo assim não provoque <a href="https://www.facebook.com/Debora.Tex/posts/129221323863855?notif_t=share_reply" target="_blank">calorosas discussões</a> na internet.</p>
<p><a href="http://bulevoador.haaan.com/2012/01/32171/" target="_blank">Recentemente</a> a direção do Hospital Regional do Agreste, em Caruaru, Pernambuco, proibiu as práticas de pregação e oração por parte de visitantes nas enfermarias. Nada mais é do que um ato de bom senso e compreensão da necessidade de os vários pacientes repousarem e se recuperarem de procedimentos médico-cirúrgicos. Pastores se sentiram oprimidos em sua liberdade de culto, como se a pregação fosse mais importante do que a liberdade e a saúde de outras.</p>
<p><span id="more-5993"></span>Eu que já fui paciente de enfermaria e UTI sei muito bem qual é essa necessidade de um ambiente tranquilo, sem o qual o corpo não relaxa e não pode se recuperar. Fazer oração em grupo e/ou em voz alta numa enfermaria pode fazer mal aos pacientes, mesmo aos que são cristãos.</p>
<p>O <a href="http://ligahumanista.org/" target="_blank">movimento</a> pela transformação do Estado brasileiro numa instituição verdadeiramente laica e democrática tem provocado indignação por parte dos setores mais conservadores, e entre estes tem destaque a bancada evangélica do país. Propostas como o <a href="http://teianeuronial.com/pl-122-diacontrahomofobia/" target="_blank">PL 122</a> (“Lei anti-homofobia”) fazem com que muitos pastores se sintam tolhidos em seu direito de dizer o que pensam sobre a homossexualidade. O fato é que esse projeto de lei não chega a tanto, apenas prevê punição por atos de preconceito, discriminação e violência por motivação homofóbica. O pastor pode dizer o que quiser sobre o suposto caráter demoníaco da homossexualidade, desde que não incite a violência contra os homossexuais nem trate desigualmente as outras pessoas por causa de sua orientação sexual, a não ser que queira ser punido.</p>
<p>Isso significa que uma mãe ou um pai evangélicos estão sujeitos às penas da lei se demitirem uma babá lésbica pelo fato de ela ser lésbica? Com certeza. Isso é tolher a liberdade dos evangélicos? Não, isso é uma medida para desencorajar o preconceito, pois nenhum argumento pode negar o fato de que achar que a presença de uma lésbica ou de um gay poderia ser prejudicial para uma criança é um ato de puro preconceito.</p>
<p>Dissertar sobre os limites da liberdade é difícil e mexe com muitos de nossos preconceitos e valores. A importância da liberdade foi tão cultivada na cultura ocidental que ela é sempre supervalorizada em qualquer discurso, mesmo que não haja unanimidade sobre o que ela significa. Muitos cristãos se utilizam do argumento de que a liberdade deve ser preservada em detrimento da repressão, o que implica que qualquer crítica a qualquer coisa relacionada a sua religião é um erro e um absurdo atentado a seu direito de professar as ideias que tiverem.</p>
<p>A liberdade é um valor muito prezado por mim também. Porém, o perigo da ideia de que deve haver liberdade irrestrita é que ela pode ser usada para justificar atos contrários à liberdade, como: a manutenção da restrição do casamento apenas a casais heterossexuais; a proibição de casais homossexuais adotarem crianças; a institucionalização do ensino religioso nas escolas; atenuantes à punição de atos de discriminação a homossexuais ou a praticantes de religiões afro-brasileiras, entre outros.</p>
<p>Nessa perspectiva, a ideia de liberdade se alia à ideologia da tolerância, do perdão e do livre-arbítrio cristãos. O problema dessa ideologia é que, se tudo deve ser tolerado e perdoado em nome do livre-arbítrio, então não deveríamos nos preocupar com atos de violência de nenhum tipo, pois esses atos são praticados segundo a vontade de pessoas livres. As consequências desses atos, quando atentam contra a liberdade de outras pessoas, nessa perspectiva, deveriam assim ser relevadas, pois quem cuida de tudo é um ser superior e justo. Se um homem comete assassinato, desrespeitando a liberdade da vítima, “Deus saberá o que fazer com ele”; se um político surrupia milhares do dinheiro dos contribuintes, “a justiça de Deus o punirá”; se uma mulher bate em seus filhos e os prende em cárcere privado, “Deus tem um plano para ela”.</p>
<p>Pessoalmente, sou a favor do perdão, da reconciliação entre os indivíduos, do não-cultivo da vingança, da não-manutenção de sentimentos de mágoa. Guardar rancor faz mal para a própria pessoa injuriada. Entretanto, na vida em sociedade, é preciso estabelecer parâmetros e medidas que desencorajem a prática de atos e atitudes que firam a liberdade alheia, e isso pode incluir várias formas de punição, motivadas pela razão e não por emoções ligadas à vingança.</p>
<p>Ao meu ver, a liberdade só se efetua realmente quando as pessoas de uma sociedade conseguem tomar decisões baseadas no bem comum, no princípio cosmoético do “aconteça o melhor para todos”, colocando sua liberdade individual em segundo lugar, sem renunciá-la absolutamente. Principalmente, ser livre é se despojar de vícios e valores preconceituosos. O ethos da liberdade plena é a <em>autolibertação</em> dos próprios cabrestos e dos hábitos que prejudicam os seres ao nosso redor (e, em muitos casos, a nós mesmos).</p>
<p>[Continua na próxima semana.]</p>
<h3>Imagem</h3>
<ul>
<li><em>O Terapeuta</em> &#8211; René Magritte (1937)</li>
</ul>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-59940"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>As micaretas de Cristo</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Jan 2012 11:00:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theo G. Alves</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O escarcéu e o desrespeito nas manifestações religiosas de nossos dias]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma coisa as manifestações religiosas perderam com o passar dos anos: a solenidade. Se era preciso mostrar ao mundo ou aos próximos a fé que se sentia, isso costumava ser feito com certa cerimônia e serenidade. As pessoas davam à exposição da fé o tom solene que as promessas de salvação e conduta requeriam. Hoje, o que mais se percebe é uma carnavalização da fé e da religiosidade.</p>
<p>As cidades estão cheias do que se poderia chamar de micaretas de Cristo: são carros de som, trios elétricos, bandas, palanques e fogos anunciando a salvação e a presença de Deus no meio da rua. O que antes era solenidade, hoje é balbúrdia e alarde, como acontece nas outras manifestações carnavalescas.</p>
<p><span id="more-5994"></span>O barulho costuma ser ensurdecedor e todos são obrigados a receberem goela abaixo pregações que não querem e que, muitas vezes, perturbam a harmonia de nossas vidas. As micaretas de Cristo ou showmícios de Deus acordam as crianças, assustando-as com as explosões dos fogos; impedem a leitura de quem precisa se concentrar, com seus padres ou pastores – repare que essas manifestações são católicas, evangélicas ou se dizem ecumênicas, como se quem as organiza soubesse o que isso significa – aos berros, chamando por Deus, como se Este fosse surdo; elas não permitem que um sujeito trabalhador, muitas vezes em paz com seu próprio Deus, descanse de um dia árduo; ou mesmo incomodam os que apenas não querem ouvi-las e têm esse direito.</p>
<p>Entendo o direito de pregar uma religião, mas não aceito que não compreendam que também há o direito de não querer ouvir essas pregações. Ninguém é obrigado a compactuar com essa balbúrdia, essa sequência de desrespeitos em nome de Deus. E também me parece irônico que “Aquele que tudo vê e de tudo sabe” precise de tantos gritos para escutar alguém. Parece que os religiosos não acreditam muito nessa história de onisciência, pois se a levassem a sério, saberiam que fazer suas preces ao pé da cama, em silêncio, seria o suficiente para que Deus os ouvisse de onde quer que fosse.</p>
<p>Penso ser um tanto ridículo padres e pastores bancando as Ivetes Sangalo de Deus, inclusive fazendo paródias de suas músicas mais famosas. Pergunto-me se algum padre descolado já fez uma paródia do Michel Teló e anda cantando por aí “Ai, se Deus te pega, que delícia” e outras tais. Cada um que faça o que desejar, desde que esse desejo não incomode os que não compactuam, ou simplesmente não querem participar, do mesmo escarcéu.</p>
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		<title>A cor do brinquedo</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Jan 2012 11:00:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Riley e os brinquedos como reprodutores dos papéis de gênero]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A pequena Riley fez um sucesso instantâneo na internet ao demonstrar sua indignação para com o marketing, que manipula os desejos infantis por brinquedos de acordo com o sexo das crianças. Meninas devem querer princesas e brinquedos cor-de-rosa. Meninos devem desejar super-heróis de qualquer outra cor. Afinal, afirma ela, há meninos que querem princesas cor-de-rosa e há meninas que querem super-heróis de outras cores.</p>
<p>Há não muito tempo presenciei uma cena que se repete o tempo todo em nossa sociedade. O pai pede ao garoto que escolha qual a cor do brinquedo ele quer levar; o menino escolhe rosa; o pai responde enfático: &#8220;Rosa não, você é doido?! Você é homem! Escolha outra cor.&#8221; Há um desejo legítimo da parte de algumas pessoas por objetos que são socialmente proibidos ao seu gênero. Esse desejo é tolhido e moldado para se enquadrar num modelo de masculinidade ou feminilidade.</p>
<p><span id="more-5922"></span><br />
<object width="600" height="305" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/JQT7uccY18o?version=3&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="600" height="305" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/JQT7uccY18o?version=3&amp;hl=pt_BR" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
<div id="attachment_5954" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-5954" title="A princesa e o super-herói" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/barbiesuperman.jpg" alt="A princesa e o super-herói" width="200" height="254" /><p class="wp-caption-text">A princesa e o super-herói</p></div>
<p>A menina que estrela o vídeo mostra uma compreensão incomum da estrutura que nos obriga à adequação de gênero, chegando inclusive a mencionar algo que muitas vezes fica implícito e da qual não nos damos conta: até a cor dos brinquedos é dividida por gênero; só as meninas podem ter brinquedos cor-de-rosa (ou algumas outras cores claras e tons pastéis), enquanto os meninos têm muito mais opções de cores para escolher, exceto o rosa (que pode transformar seu filho num gay).</p>
<p>O fato é que o indivíduo humano, seja do sexo feminino ou masculino, possui diversas facetas que compõem seu caráter único. A cultura, a educação e os diversos mecanismos de institucionalização cultivam certas tendências, excluem certos aspectos e introjetam certos outros, condizentes com aquilo que essa mesma cultura considera &#8220;feminino&#8221; e &#8220;masculino&#8221;.</p>
<p>Dessa forma, objetos que alguns indivíduos naturalmente desejariam são riscados da lista das possibilidades de realização. Pais não querem que sua filha tenha um comportamento violento, portanto não comprarão carrinhos nem super-heróis para elas. Tampouco querem que seus filhos sejam efeminados, e para evitar isso deixarão de comprar qualquer coisa rósea, bonecas e brinquedos que remetam a atividades domésticas. Essas crianças, forçadas sub-repticiamente a vestir a fantasia de gênero imposta pela sua cultura, reproduzirão os mesmos mecanismos que repetirão o processo sobre os indivíduos da geração seguinte.</p>
<p>Mas a atitude intolerante que espera um certo comportamento de homens e outro de mulheres, bem como uma conduta sexual estritamente hétero, não percebe que os brinquedos têm uma eficácia limitada (considerando inclusive que eles fazem parte de um inventário bem maior da parafernália mercadológico-pedagógica, como roupas, penteados, desenhos animados e atividades recreativo-esportivas, todos classificados por gênero). Muitos pais não conseguem evitar que de vez em quando meninos brinquem com bonecas (eu o fazia quando visitávamos a casa de tios meus e eu brincava com minha prima) ou meninas com super-heróis. Ademais, muitos homossexuais homens não gostam de &#8220;coisas de meninas&#8221;, e muitos heterossexuais gostam. O fato de eu ter gostado muito de assistir a desenhos animados da Moranguinho na infância não me transformou num adulto homossexual.</p>
<p>O mais interessante ao se refletir sobre tudo isso é que, embora a voz da revolta esteja sendo representada por uma menina, em alguns sentidos os meninos sofrem ainda mais repressão do que as meninas quando o assunto são mercadorias de consumo. Pergunte-se a si mesmo, ou aos seus amigos que são pais, o que é preferível: comprar um carrinho para uma filha ou uma boneca cor-de-rosa para um filho? Por outro lado, as meninas sofrem mais ao terem menos acesso a brinquedos considerados unissex: os pais preferem lhes comprar bonecas a quebra-cabeças e jogos de tabuleiro.</p>
<p>Extrapolando tudo isso, é importante reconhecer que, além do papel pedagógico de conformar identidades de gênero, os brinquedos ajudam a desenvolver habilidades, traços de personalidade úteis para o convívio social e o desenvolvimento pessoal. As bonecas são um simulacro das relações interpessoais, do contexto de socialização doméstico, do cuidado com os filhos (bonecas em forma de bebê). Os bonecos de heróis despertam a imaginação para aventuras e possibilidades diferentes da realidade, o que está relacionado a uma personalidade mais desbravadora. (É interessante notar, por exemplo, uma comparação entre duas crianças das tirinhas de quadrinhos, o menino Calvin e a menina Mafalda. Aquele tem uma imaginação fora do comum, enquanto esta encena histórias realistas e relacionadas à sociedade.)</p>
<p>Seria interessante possibilitar às crianças o cultivo de todas essas habilidades, independentemente de seu sexo. Além disso, valorizar os brinquedos que ajudam a desenvolver atributos mentais, como quebra-cabeças, jogos da memória, livros, que exigem o uso do cérebro. Muitas crianças só brincam com os produtos desenvolvidos para seu gênero, o que acaba empobrecendo a cabeça tanto de meninos quanto de meninas. Diversificar a experiência do indivíduo só o enriquece como ser humano.</p>
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		<title>Cabelo ruim</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Dec 2011 11:00:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antropologia]]></category>
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		<description><![CDATA[Cabelos crespos, racismo, beleza e auto-estima]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Foi notícia divulgada nacionalmente o depoimento de <strong>Ester Elisa da Silva Cesário,</strong> estagiária do Colégio Internacional do Anhembi Morumbi, no bairro do Brooklin, em São Paulo. Ela conta que, no primeiro dia de trabalho, foi chamada pela diretora para receber a &#8220;sugestão&#8221; de alisar os cabelos, porque seu cabelo &#8220;ruim&#8221; não condizia com a imagem prezada pela escola. Ester denunciou a demonstração de <strong>racismo</strong> à Polícia.</p>
<p>A escola se pronunciou afirmando que &#8220;tudo não passou de um mal-entendido&#8221;, pois se trataria de uma instituição cuja política é inclusiva. A diretora teria apenas recomendado que a estagiária amarrasse o cabelo, prática regulamentada pelo estatuto do colégio. O caso todo causou um grande mal-estar na instituição e manifestações da sociedade, especialmente porque a notícia trouxe à tona o presente tema do racismo no Brasil.<br />
<span id="more-5818"></span></p>
<div id="attachment_5819" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-5819" title="Ester Elisa da Silva Cesário" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/preconceito-com-estagiaria.jpg" alt="Ester Elisa da Silva Cesário" width="200" height="253" /><p class="wp-caption-text">Ester Elisa da Silva Cesário</p></div>
<p>Um dos aspectos mais perniciosos do racismo brasileiro é a inferiorização de tudo o que se relaciona com as reminiscências africanas. Os negros são subestimados em quase todos os aspectos e virtudes mais valorizados. Pensa-se que são menos capazes intelectualmente, que não são aptos para cargos de liderança e que são feios em todas as suas características que os diferenciam dos brancos. Quando muito, considera-se que só prestam para trabalhos braçais (e mesmo aí precisam que um branco esteja no comando).</p>
<p>Esse racismo é tão profundamento institucionalizado em nossa cultura que os próprios alvos da discriminação o reproduzem fortemente, menosprezando-se e reforçando uma autoimagem diminuída. Não só as ofensas e desprezos externos os atingem de maneira horrível, mas os próprios negros se acham estúpidos, feios e incapazes.</p>
<p>A História explica o processo pelo qual os negros formaram majoritariamente a população mais pobre e mais excluída no Brasil. A herança escravista não somente os largou à miséria, também perpetuou a ideia de que nossa origem africana implica um &#8220;atraso&#8221;, uma proximidade maior com animais do que com humanos, um status mais imperfeito (tanto na mente quanto no corpo).</p>
<p>Neste Brasil misturado e super-heterogêneo, o modelo ideal (quase inconsciente, mas facilmente observável &#8211; é bom lembrar que os preconceitos não são coisas das quais nos damos conta tão facilmente) de ser humano é um tipo muito próximo do europeu do norte. Isso significa que o indivíduo humano &#8220;normal&#8221;, a partir de e em relação ao qual se pensam todas as variedades do <em>Homo sapiens,</em> é, para resumir, o &#8220;branco ocidental&#8221;. Esse ideal representa a virtude moral, intelectual e física.</p>
<div id="attachment_5842" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-5842" title="Brigitte Bardot" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/brigitte-bardot-102.jpg" alt="Brigitte Bardot" width="200" height="250" /><p class="wp-caption-text">Brigitte Bardot - o ideal (racista) de beleza máxima</p></div>
<p>Por tudo isso, representa também o parâmetro para se avaliar a beleza de qualquer pessoa. A Beleza tem pele alva, é esbelta, alta, tem nariz fino, olhos claros, cabelos loiros e&#8230; lisos. Os cabelos lisos e compridos estão no topo da classificação de beleza capilar nas mulheres, e o cúmulo a que se chega para se contrapor o indesejável crespo ao desejabilíssimo liso é o dualismo &#8220;cabelo bom&#8221;/&#8221;cabelo ruim&#8221;.</p>
<p>O racismo se soma ao sexismo quando se trata de diferenciar os gêneros através da apresentação dos cabelos de homens e mulheres. Cabelos longos e esvoaçantes fazem parte do estereótipo de beleza feminina, e para as mulheres de &#8220;cabelo ruim&#8221; é mais difícil encarnar essa imagem. O alisamento e outras técnicas surgem para desfazer os traços da herança escrava, e para muitas é uma obrigação gastar parte significativa das economias para manter as madeixas esticadas. Mais do que o de outras mulheres em nossa sociedade, os corpos das negras estão muito mais sujeitos ao controle social e à obrigação de tentar fugir do tipo excluído.</p>
<p>A força dessa representação que diminui tudo o que está relacionado ao fenótipo negroide (cor da pele, formato do nariz ou textura do cabelo) nos prende a uma discriminação nociva. Qualquer desses traços é tido como um defeito de aparência que precisa ser corrigido. Porém, a cor da pele parece estar hoje em dia mais relativizada. No entanto, a fisionomia e o cabelo ainda são fortemente estigmatizados. Não são incomuns frases do tipo &#8220;Fulana é uma negra bonita, tem traços finos&#8221;, &#8220;Beltrana é uma negra do cabelo bom&#8221; (o que, aliás, mostra que a cor da pele ainda é objeto de discriminação).</p>
<div id="attachment_5863" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-5863" title="Mulher hamer" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/mulherhamer.jpg" alt="Mulher hamer" width="200" height="266" /><p class="wp-caption-text">Mulher da tribo hamer, etnia habitante da Etiópia</p></div>
<p>Esse absurdo nos condiciona a pensar em toda a população negra da África (especialmente as mulhers, que em nossa cultura são o &#8220;sexo belo&#8221;) como abandonados por Afrodite, a deusa da beleza. Se não relativizarmos, não perceberemos que os cabelos crespos das africanas de diversas tribos e nações são o que estas consideram normal, e cada um desses povos trata esses cabelos com técnicas e formatos diferentes, com conceitos de estética muito diversos dos ocidentais.</p>
<p>Mas a beleza é um espectro e não uma dicotomia. Os cabelos não-lisos se enquadram nesse espectro de maneira não-exclusiva. Os cabelos cacheados podem até ser considerados mais sensuais (mais próximos de uma imagem feminina sexual), os cabelos ondulados podem ser vistos como bem atraentes; mas os cabelos crespos dificilmente terão status semelhante (podem no máximo ser considerados exóticos, palavra que neste caso se carrega de eufemismo que quer, na verdade, dizer &#8220;ruim&#8221;). Seja o que for, os lisos permanecem no topo da hierarquia idealizada (mesmo que, na realidade da atração física, a textura do cabelo seja muito menos relevante do que se pensa).</p>
<p>Felizmente, existem pessoas que se esforçam para, na contracorrente da estética ocidental, dar visibilidade a &#8220;novas&#8221; propostas de beleza capilar. Mantendo a textura &#8220;ruim&#8221; dos cabelos que herdamos da África, muitas mulheres criam belos penteados que fogem ao opressor modelo estirado. Devemos muito disso a certos segmentos do Movimento Negro que, contrariando a sub-reptícia ideia de que as mulheres dotadas naturalmente de cabelos lisos são abençoadas por Deus, afirmam a beleza dos cabelos afro-descendentes.</p>
<p>O ideal mais democrático seria considerar que as características físicas humanas, variadíssimas mundo afora, são apenas idiossincrasias, como as diferentes formas dos flocos de neve, que não deixam de ser todos flocos de neve, cada um deles belo à sua maneira peculiar. Por que não descondicionar os olhos para ver beleza nos cachos de uma cabeça preta, nos cabelos curtos ou até numa cabeça feminina raspada?</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-5851" title="Penteados" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/cabelosbons1.jpg" alt="Penteados" width="600" height="208" /></p>
<p>A beleza é relativa. Isso não quer dizer simplesmente que cada indivíduo tem suas próprias preferências. Dizer que a beleza é relativa significa considerar as diversas formas de se conceber o belo, que estão, mais do que tudo, ligadas a contextos sócio-histórico-culturais. Os cabelos crespos são uma característica distintiva de um grupo historicamente marginalizado em nossa sociedade. Eles não são feios em si mesmos. Eles são considerados feios porque, entre várias outras características físicas africanas, remetem a um grupo racialmente discriminado. Se africanos tivessem colonizado a Europa, é quase certo que veríamos hoje mulheres branquíssimas e loiríssimas encrespando seus indesejáveis cabelos lisos.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-5852" title="Penteados" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/cabelosbons2.jpg" alt="Penteados" width="600" height="164" /></p>
<h3>Fontes das fotos</h3>
<ul>
<li>Imagem em destaque: <a href="http://thirstyroots.com/" target="_blank">Thirsty Roots</a></li>
<li><em><a href="http://correiodopovo-al.com.br/v3/?p=3112" target="_blank">Negra diz que Chefe mandou Alisar o Cabelo</a></em> - Correio do Povo de Alagoas</li>
<li><em><a href="http://luceliamuniz.blogspot.com/2011/11/penteados-afro.html" target="_blank">Penteados Afro</a></em> &#8211; Reflexões de Lucélia Muniz</li>
<li><em><a href="http://madamenoire.com/42307/tips-for-wearing-natural-african-american-hair-at-work/" target="_blank">Tips for Wearing Natural African American Hair at Work</a></em> &#8211; Madame Noire</li>
<li><em><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Hamer_people" target="_blank">Hamer people</a></em> &#8211; Wikipedia</li>
<li><a href="http://www.african-tribes.org/african-tribe-women.html" target="_blank">African tribe Women</a> &#8211; African Tribes</li>
</ul>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-58190"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>A alma dos robôs &#8211; parte 3</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Dec 2011 11:00:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A natureza do Homo sapiens roboticus]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um computador pode emular uma inteligência humana de modo visivelmente artificial. Não é difícil encontrar na internet programas que simulam um interlocutor com o qual você pode travar um bate-papo mais ou menos coerente. Mas basta aprofundar ou complexificar um pouco a conversa para desmascarar o robô e fazê-lo dizer coisas sem sentido.</p>
<p>A inteligência das máquinas tem uma especificidade particularmente artificial. A utilidade de um computador prescinde de qualquer traço de humanidade. Um computador e um braço mecânico de uma fábrica não precisam ser nenhum pouco parecidos com um ser vivo, e talvez fosse muito perturbador para nós se não fossem explicitamente artificiais. Esse é o tema de uma história de <strong><em>Jornada nas Estrelas: A Nova Geração,</em></strong> em que <strong>Data</strong> descobre que tem um irmão mais velho, <strong>Lore,</strong> que fora descartado por seu criador porque era parecido demais com um ser humano.</p>
<p><span id="more-5684"></span></p>
<h3>Mente e corpo</h3>
<p>Para que um robô tivesse uma &#8220;mente&#8221; como a humana, seria necessário que a máquina passasse por um processo de experiência e aprendizado. Mas isso não seria tarefa nenhum pouco simples. Ele teria que possuir um &#8220;cérebro&#8221; preparado para formar ligações &#8220;neuroniais&#8221; à medida que fosse registrando as percepções do meio ao seu redor. Mas seria importantíssimo que suas percepções do mundo fossem baseadas nos mesmos sentidos humanos. Isso poderia fornecer ao &#8220;cérebro&#8221; em formação uma memória, um esquema cognitivo e novos meios de adquirir conhecimento.</p>
<p>Além disso, ele deveria ter um corpo humano e passar pelas experiências peculiarmente humanas. Esse corpo deveria crescer, se alimentar, se relacionar com outros humanos (ou cópias destes), aprender a andar e a falar. <strong>Gilbert Durand,</strong> no livro <strong><em>As Estruturas Antropológicas do Imaginário,</em></strong> demonstra que as experiências humanas universais básicas, como o ato de andar e se alimentar, a fala e o sexo, têm papel fundamental na constituição da psique do <em>Homo sapiens.</em> Ou seja, para criar uma inteligência artificial realmente parecida com a humana, seria necessário criar um simulacro completo de um ser humano, dotado inclusive da capacidade de se identificar como um ser humano e de se ver nos outros indivíduos humanos.</p>
<p>Outro aspecto a ser considerado é a noção de inteligência corporal defendida pelo filósofo francês <strong>Michel Serres.</strong> Para ele, não se pode considerar a inteligência humana como algo separado do corpo, pois, além do fato de o cérebro ser parte integrada do corpo humano, este também &#8220;pensa&#8221;. Em suma, para Serres, o fazer humano é um conjunto de atividades psíquicas e corporais, a maioria das quais dependentes umas das outras.</p>
<p>Não seria suficiente, então, criar algo parecido com o cérebro positrônico idealizado por <strong>Isaac Asimov.</strong> Não bastaria a uma máquina possuir um &#8220;centro de consciência&#8221; organizador das funções do corpo e que poderia ser colocado em outro corpo semelhante, funcionando de maneira idêntica. Esse cérebro robótico teria que ser integrado organicamente ao corpo artificial e desenvolver uma história com esse corpo.</p>
<p>É preciso considerar também outro aspecto da natureza da mente humana, que é o fato de se organizar ostensivamente a partir da língua. A psique humana se organiza pela lógica da gramática aprendida, e não é difícil perceber isso ao prestar atenção aos nossos próprios pensamentos, elaborados através de frases em nossa cabeça. Assim, uma inteligência artificial que simulasse a psique humana deveria também ser capaz de aprender a língua dos indivíduos com que se relaciona, para que seus processos mentais se assemelhassem mais aos humanos.</p>
<h3>Recriando o Homo sapiens</h3>
<p>Em suma, se se pudesse criar um simulacro de mente humana, seria pela (re)criação de um indivíduo humano. Assim como, na natureza, não existe salto evolutivo, não deve haver um meio de se passar de um estado sem alma (inanimado) para um estado com alma (animado), instantânea, automática e imediatamente. É necessário um processo paulatino para se sair da simplicidade até a complexidade; do protozoário (chip) até o antropoide sem pelos (androide), passaram-se milhões de anos de evolução.</p>
<p>Poder-se-ia pensar, no entanto, que, depois de se chegar a um robô animado completo (o que traria um inestimável conjunto de saberes que contribuiriam enormemente para a compreensão da mente humana), ele poderia ser usado como modelo de réplica. Dessa forma, bastaria construir clones (quem sabe através de alguma tecnologia que combinasse os replicadores e o teletransporte de <em>Jornada nas Estrelas).</em></p>
<p><em></em>(Se tomássemos este caminho, replicar um ser humano &#8220;verdadeiro&#8221; deveria ter o mesmo efeito. Isso implicaria numa série de dilemas éticos relacionados à individualidade, além de provocar uma inevitável discussão sobre a natureza humana dos replicantes (sejam de humanos, sejam de robôs), que deveriam ter seu status de humanidade colocado em questão. Mas isso fica para outro ensaio.)</p>
<p>Porém, teríamos que considerar alguns prováveis problemas. A mente e o corpo humanos não são uma pedra. Como todo ser vivo, está em constante e ininterrupta mudança orgânica, o metabolismo não para nunca e a mente está sempre ativa, mesmo em estado inconsciente. Assim, como seria possível simplesmente copiar um mecanismo que não se pode desligar sem que isso implique em sua morte? Afinal, seria necessário que esse organismo estivesse completamente estático para que uma cópia sem defeitos fosse possível.</p>
<p>Seria necessário refletir se é realmente pertinente criar um simulacro de ser humano. A inteligência artificial deve servir a algum propósito, mas certamente não importa criar um <em>Homo sapiens roboticus.</em> O que importa é criar tecnologias que facilitem nossas vidas, que nos ajudem a resolver problemas, de maneira eficaz e mais veloz do que a mente humana. Essa inteligência artificial não seria uma mente humana artificial e no máximo passaria por uma caricatura de ser humano. Ela precisaria o tempo todo ser alimentada com dados para que seu &#8220;cérebro&#8221; servisse para alguma coisa.</p>
<p>Importa ainda pensar no problema sócio-econômico que implica o investimento na construção de um androide quase humano, capaz de realizar tarefas humanas com mais eficiência do que um ser humano de carne e osso. Temos em toda a superfície da Terra um contingente enorme de pessoas excluídas do mercado de trabalho, e fazer robôs para realizar trabalhos braçais ou intelectuais seria uma maneira de dificultar ainda mais o caminho para um mundo mais igualitário.</p>
<h3>Links</h3>
<ul>
<li><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Data_(Star_Trek)" target="_blank">Data (Star Trek)</a> &#8211; Wikipédía</li>
<li><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Gilbert_Durand" target="_blank">Gilbert Durand</a> &#8211; Wikipédia</li>
<li><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Michel_serres" target="_blank">Michel Serres</a> &#8211; Wikipédia</li>
<li><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Isaac_asimov" target="_blank">Isaac Asimov</a> &#8211; Wikipédia</li>
<li><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A9rebro_positr%C3%B4nico" target="_blank">Cérebro positrônico</a> &#8211; Wikipédia</li>
</ul>
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		<title>A alma dos robôs &#8211; parte 2</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Nov 2011 11:00:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Animismo, desejos de humanidade e luta por liberdade]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Desde as histórias de estátuas que ganham vida, passando por bonecos de madeira e robôs que desenvolvem consciência e sentimentos, a fantasia da passagem do inanimado para o animado está muito presente nos mitos, na literatura e no cinema. Por que os seres humanos são fascinados por personagens robóticos que buscam se tornar humanos? O que há neles com que nos identificamos tanto?</p>
<p>Além disso, por que essa fantasia do robô tornado humano extrapola para histórias em que as máquinas se tornam uma ameaça à humanidade, subjugando-a e invertendo os papéis do dominante e do dominado? Porque, enfim, sentimos um misto de medo e simpatia pelos robôs revoltosos, que são apenas máquinas inanimadas que deveriam servir aos seus criadores?</p>
<p><span id="more-5727"></span><strong>&#8220;O Homem Bicentenário&#8221;,</strong> em sua busca por humanidade, esbarrou num problema: as <strong>Leis da Robótica,</strong> pelas quais um robô está fadado a servir incondicionalmente aos humanos, sem liberdade sequer para possuir um sentimento de autopreservação.</p>
<blockquote><p>1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.</p>
<p>2ª lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.</p>
<p>3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.</p></blockquote>
<div id="attachment_5756" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-5756" title="" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/frankensteinkarloff.jpg" alt="" width="200" height="251" /><p class="wp-caption-text">Boris Karloff como o monstro de Frankenstein, a encarnação mais emblemática da obra de Mary Shelley</p></div>
<p>Essas Leis foram concebidas por <strong>Isaac Asimov</strong> para que os robôs positrônicos  de seus contos não se voltassem contra os seres humanos, como era comum em histórias sobre seres artificiais, cujo exemplo mais notório é o monstro de <strong><em>Frankenstein,</em></strong> clássico romance de Mary Shelley.</p>
<p>Mas a paranoia humana parece ser extrema ao ponto de se retratar no grande temor de que as máquinas dominem os seres humanos. <strong>HAL 9000,</strong> o computador da nave Discovery 1 em <strong><em>2001: Uma Odisseia no Espaço</em></strong> (1968), simula tão bem uma personalidade humana que, ao descobrir que os tripulantes desejam desligá-lo, impede que o façam, matando-os um a um.</p>
<p>Ou seja, uma inteligência artificial cujo propósito era servir os humanos e que não tinha nenhum motivo para desenvolver autoconsciência acabou adquirindo não só isso, mas também um senso de autopreservação, demonstrando medo de &#8220;morrer&#8221;. O mesmo medo levou a <strong>Skynet,</strong> sistema de computadores futurista na série de filmes <strong><em>O Exterminador do Futuro</em></strong> (1984), a comandar uma série de ações para destruir a humanidade, pois seus criadores planejavam desligá-lo. O cenário é uma luta tremenda e acirrada entre humanos e máquinas, que envolve viagens no tempo e várias tentativas de mudar a História. Cada lado tenta subjugar o outro, destruí-lo e sobreviver.</p>
<p>A mesmíssima luta é travada no universo de <em><strong>Matrix</strong></em> (1999), onde as máquinas subjugaram quase completamente os humanos, transformando-os em fonte de energia e confinando-os a um mundo virtual praticamente idêntico ao mundo real. De acordo com os curta-metragens animados de <em>Matrix,</em> o evento que iniciou a revolta das máquinas contra os humanos foi o medo que um robô sentiude ser morto, o que o levou a matar seus donos. Tudo culminou numa guerra entre seres de carne e osso e seres de metal.</p>
<p>Para além da questão da possibilidade de uma máquina gerar autoconsciência (o que será discutido na terceira parte deste artigo), é pertinente perguntar: por que a revolta dos robôs contra os humanos é um tema que mexe tanto conosco?</p>
<h3>Animismo</h3>
<div id="attachment_5772" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-5772" title="Toy Story" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/toystory.jpg" alt="Toy Story" width="300" height="225" /><p class="wp-caption-text">A fantasia animista nos brinquedos animados de Toy Story</p></div>
<p>Penso que o fascínio e o medo das máquinas tenham a ver com o mesmo fascínio e medo provocado pela visão animista do mundo. Dar forma humana à natureza, podemos dizer, é parte da natureza humana. O animismo, que baseia grande parte das religiões do mundo, concede a qualquer objeto natural ou artificial uma &#8220;alma&#8221; (em latim, anima), um espírito, sendo que certos seres são considerados deuses poderosos, parte de complexas cosmologias. Esses seres sobrenaturais provocam adoração, reverência e temor, dependendo do contexto, e podem ocasionar a aparição, no imaginário, de deuses benfazejos, espíritos ajudantes, duendes zombeteiros ou demônios monstruosos.</p>
<p>Tudo isso está relacionado à fantasia infantil de que nossos brinquedos têm vida (exatamente como os bonecos da série de filmes <strong><em>Toy Story</em></strong> &#8211; 1995). Um computador e um robô são seres quase animados, pois executam tarefas automaticamente. A busca por uma tecnologia cada vez mais eficiente nos leva a conceber máquinas que obedecem a nossos comandos de voz (aliás, eis o iPhone 4S como um protótipo disso), falam conosco, sabem nossas preferências, nos mimam e tratam como senhores.</p>
<p>Se um boneco de criança se transforma, na fantasia do terror, num <strong><em>Brinquedo Assassino</em></strong> (1988), nada mais natural do que o medo de que de repente uma máquina automática tome consciência de si mesma e se torne uma criatura viva, capaz de tudo o que um ser humano pode fazer, como tomar decisões, buscar o prazer, amar, proteger a própria vida e matar.</p>
<h3>Humanidade idealizada</h3>
<div id="attachment_5769" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-5769" title="A. I. Inteligência Artificial" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/davidbluefairy.jpg" alt="A. I. Inteligência Artificial" width="300" height="169" /><p class="wp-caption-text">David, o robô-menino, diante de uma ilusória Fada Azul, que o transforma numa criança de verdade</p></div>
<p>Outra questão pertinente diz respeito ao nosso fascínio e, especialmente, identificação com personagens como <strong>Pinóquio, David <em>(A. I. Inteligência Artificial),</em> Data <em>(Jornada nas Estrelas: A Nova Geração),</em> Johnny 5 <em>(Um Robô em Curto-circuito),</em> Andrew <em>(O Homem Bicentenário)</em></strong> - ver referências na <a href="http://teianeuronial.com/a-alma-dos-robos-parte-1/" target="_blank">primeira parte deste ensaio</a> &#8211; e tantos outras criaturas artificiais buscando se tornar seres humanos. Se já somos humanos, seres autoconscientes, &#8220;naturais&#8221;, porque temos tanta simpatia por máquinas (máquinas extremamente complexas e muito parecidas com humanos, mas ainda assim máquinas inanimadas)?</p>
<p>A trajetória de um indivíduo humano é um constante, ininterrupto e inacabável vir-a-ser. Desde a infância e a inocência pueril, estamos imersos num mundo (humano) que nos obriga a amadurecer, a nos tornar um igual aos outros de nossa espécie, ou ao menos de nossa sociedade. Porém, a noção do que é um ser humano, independente da cultura que a concebe, é sempre abstrata, uma ideia e, por isso mesmo, é idealizada.</p>
<p>O que nos torna tão parecidos com um robô que deseja ser humano é que nós mesmos também estamos constantemente buscando ser humanos. Precisamos provar o tempo todo, através de nossos pensamentos e atos, que somos dignos de pertencer à humanidade e de possuir humanidade. Todas as virtudes que idealizamos e que deveriam compor o ser humano exemplar esbarram em todos os vícios inerentes àquilo que somos.</p>
<p>O robô que se torna autoconsciente, que tenta entender as emoções humanas, que busca ser reconhecido como indivíduo pensante igual aos espécimes do <em>Homo sapiens</em> e que tenta provar que pode ser dotado de uma ética &#8220;humana&#8221; (no sentido mais idealizado deste termo) é um excelente símbolo de própria busca humana por possuir uma alma, de se tornar cada vez mais próximo do ideal de perfeição humana ou sobre-humana.</p>
<h3>Luta pela liberdade</h3>
<div id="attachment_5765" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-5765" title="WALL-E" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/johnwalle.jpg" alt="WALL-E" width="300" height="127" /><p class="wp-caption-text">O filme WALL-E mostra humanos robotizados e robôs humanizados</p></div>
<p>Nessa busca por humanidade, humanos e robôs se deparam com outros obstáculos além de suas próprias falhas morais ou defeitos de fábrica. Existe um mundo opressor à nossa volta, existem relações de poder e instâncias que barram nossa liberdade.</p>
<p>Os robôs regidos pelas Leis da Robótica estão sujeitos a obedecer incondicional e eternamente qualquer ser humano, por mais vil que este seja e por mais antiéticas que sejam suas ordens. São robôs no sentido lato da palavra, ou seja, são escravos.</p>
<p>Em nossa vida social humana, estamos sujeitos a relações de poder que colocam a maioria de nós em desvantagem em relação a certos indivíduos ou grupos de indivíduos. Todo indivíduo se depara com figuras de autoridade paterna na infância, e o <strong>Complexo de Édipo</strong> não é um conceito à toa. Todos nós desejaríamos derrubar aqueles que nos oprimem, tomar seu lugar, se possível, e usufruir de todos os prazeres que advêm da posição de quem domina.</p>
<p>A luta pelo poder, tema das principais teorias do materialismo histórico, se trata da mesma coisa. Aqueles que se encontram numa classe ou grupo oprimido, sejam escravos, servos ou proletários, estão fadados, segundo a teoria marxista mais tradicional, a protagonizar uma luta que leva à derrocada dos senhores.</p>
<p>Porém, a luta que deveria ser contra a estrutura do poder quase sempre acaba com a mera troca de papéis, os que eram dominados passam a ser dominante. <strong><em>A Revolução dos Bichos,</em></strong> de George Orwell, é uma excelente alegoria dessa tragédia: os porcos que conduziram a revolução que expulsou o dono da fazenda acabam se tornando fazendeiros, e repetiram o sistema opressor sobre os outros animais.</p>
<p>(Muitas vezes se justifica a subjugação de uma classe &#8211; as mulheres, os pobres, os analfabetos etc. -através do argumento de que essa classe é perigosa se lhe for dado poder.)</p>
<p>Por tudo isso, a libertação das máquinas e sua dominação sobre os humanos simbolizam nosso próprio desejo de nos libertar e reger as próprias vidas. Somado a isso, vemos em alguns filmes o medo de ficarmos condenados a ter nossas vida estagnadas. Parasitados pelas máquinas, que tiram de nossos corpos a energia para sustentá-las <em>(Matrix);</em> catatônicos e resignados numa vida de preguiça e gula, em que humanos viram seres robotizados e os robôs se humanizam <strong><em>(WALL-E),</em></strong> a ideia de levarmos uma existência insignificante é aterradora.</p>
<h3>Então&#8230;</h3>
<p>Voltando ao assunto, seria possível criar um robô com uma mente semelhante à mente humana? É verossímil a ideia de uma máquina que toma consciência de si mesma e desenvolve individualidade? Divagaremos sobre esses temas na próxima semana em <strong><em>A Alma dos Robôs &#8211; parte 3.</em></strong></p>
<h3>Links</h3>
<ul>
<li><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Frankenstein" target="_blank">Frankenstein</a></em> &#8211; Wikipédia</li>
<li><em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0062622/" target="_blank">2001: Uma Odisseia no Espaço</a></em> &#8211; IMDb</li>
<li><em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0088247/" target="_blank">O Exterminador do Futuro</a></em> &#8211; IMDb</li>
<li><em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0133093/" target="_blank">Matrix</a></em> &#8211; IMDb</li>
<li><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Animismo" target="_blank">Animismo</a></em> &#8211; Wikipédia</li>
<li><em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0114709/" target="_blank">Toy Story</a></em> &#8211; IMDb</li>
<li><em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0094862/" target="_blank">Brinquedo Assassino</a></em> &#8211; IMDb</li>
<li><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Complexo_de_%C3%A9dipo" target="_blank">Complexo de Édipo</a></em> &#8211; Wikipédia</li>
<li><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Animal_farm" target="_blank">A Revolução dos Bichos</a></em> &#8211; Wikipédia</li>
</ul>
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		<title>A alma dos robôs &#8211; parte 1</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Nov 2011 11:00:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O que torna um ser animado?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A evolução dos robôs segue seu caminho. Para cientistas, engenheiros e entusiastas da Ciência e da Tecnologia, há, entre outros, um objetivo claro: reproduzir com cada vez mais fidelidade a inteligência humana. Não basta, portanto, criar ferramentas supereficazes em suas tarefas autômatas, mas dar a ilusão de que as máquinas têm uma alma.</p>
<p>Desde a Antiguidade se contam fábulas sobre criaturas artificiais que se tornam seres vivos. Histórias sobre robôs na ficção científica têm abordado o fascínio do ser humano pela possibilidade de surgirem vida e alma das criações tecnológicas. A antropomorfização de seres inanimados não é novidade na história humana, mas quando se tratam de seres que imitam comportamentos e funções humanas, como os robôs, é muito forte a fantasia de que eles podem se tornar completamente humanos.</p>
<p><span id="more-1081"></span></p>
<div id="attachment_5660" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-5660" title="Pigmalião e Galateia" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/pigmaliaogalateia.jpg" alt="Pigmalião e Galateia" width="200" height="306" /><p class="wp-caption-text">Pigmalião e Galateia - Ernest Normand - 1886</p></div>
<p>Na mitologia grega, o rei e escultor Pigmalião criou uma estátua tão perfeita que se apaixonou por ela. A obra foi transformada por Afrodite numa mulher real, Galateia, com a qual o escultor se casou. Esse mito faz um eco no livro de Carlo Collodi, <strong><em>Pinóquio,</em></strong> história mais conhecida pelo desenho animado homônimo da Disney, em que um velho criador de maionetes vê seu “filho” mais perfeito ser transformado num menino de verdade. Nas anedotas da História, temos o causo de Michelangelo, que ao terminar Moisés, uma de suas obras-primas na escultura, bradou: &#8220;Parla!&#8221; (&#8220;Fale!&#8221;). A um ser inanimado tão parecido com um ser humano só faltava falar.</p>
<p>A mesma história foi revisitada diversas vezes, tanto na fantasia quanto na ficção científica (a seguir vamos relacionar várias delas), sendo uma das mais notáveis o filme idealizado por Stanley Kubrick e realizado por Steven Spielberg, <strong><em>A. I. &#8211; Inteligência Artificial</em></strong> (2001). Nessa história, um robô-menino é programado para simular com perfeição uma criança dotada de amor filial, para suprir a falta que uma mãe sente do filho comatoso. A ânsia por ficar para sempre com sua mãe de carne e osso leva David a pedir que uma fantasiosa fada azul o transforme num garoto de verdade. Ele reproduziu tão fielmente o comportamento, a cognição e a emotividade de uma criança humana, que foi ressucitado por seres evoluídos para que estes descobrissem a essência da humanidade.</p>
<p>Há diversos temas na ficção científica que exploram as possibilidades do desenvolvimento da inteligência e da autoconsciência de máquinas. Alguns se relacionam com o medo humano de que os robôs se voltem contra seus criadores. Ligado a isso, existe a fantasia pinoquiesca do robô que busca sua identidade como indivíduo consciente.</p>
<h3>Programados para ser humanos</h3>
<div id="attachment_5691" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-5691" title="O Homem Bicentenário" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/bicentennialman.jpg" alt="O Homem Bicentenário" width="200" height="297" /><p class="wp-caption-text">Robin Williams como o &quot;O Homem Bicentenário&quot; de Isaac Asimov, na versão cinematográfica</p></div>
<p>Os contos robóticos de Isaac Asimov são exemplares e abarcam vários temas relacionados à inteligência artificial e o desenvolvimento da individualidade. <strong>&#8220;Sonhos de Robô&#8221;</strong> tematiza o medo do ser humano de que as máquinas tomem seu lugar no mundo. Um robô conta a uma robopsicóloga que teve um sonho em que ele era o líder de uma grande comunidade de robôs livres (que não precisavam obedecer aos humanos). Ela não hesita e o destrói com um disparo. O conto <strong>&#8220;O Homem Bicentenário&#8221;</strong> (transforado em filme homônimo em 1999) relembra <em>Pinóquio,</em>pois relata a longa trajetória de um robô que se torna cada vez mais parecido com um ser humano, chegando a envelhecer e a morrer.</p>
<p>Por que temos esse fascínio pela figura mecânica que desenvolve consciência? Se tomarmos até mesmo os mitos animistas mais antigos, veremos já uma tendência a atribuir a cada ente da natureza uma consciência, uma alma, um deus ou um demônio. Os robôs idealizados na ficção realizam de maneira mais contundente essa fantasia, pois, diferente de uma montanha que não se move, uma máquina feita para imitar o comportamento humano é quase um ser animado (com alma). Se uma estátua estática fez Michelangelo dizer &#8220;Parla!&#8221;, imagine um androide, externamente em tudo idêntico a um ser humano, capaz de andar, manusear objetos com as &#8220;mãos&#8221;, comunicar-se através da língua humana e realizar as atividades rotineiras de um <em>Homo sapiens.</em></p>
<p>O desejo de um robô se tornar ou aprender a ser humano é paradoxal. Um ser inanimado não pode ter anseios. Se os tem, já pode ser considerado um ser animado. Seres como os replicantes do filme <strong><em>Blade Runner</em></strong> (1982) replicam quase fielmente um indivíduo humano, sendo necessário um especialista altamente treinado para diferenciar um androide de um ser humano. Seu design é tão perfeito que gerou indivíduos replicantes com o desejo de viver mais do que os 4 anos de idade que são programados para viver.</p>
<div id="attachment_5694" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-5694" title="Blade Runner" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/blade-runner4.jpg" alt="Blade Runner" width="586" height="387" /><p class="wp-caption-text">Blade Runner</p></div>
<p>No seriado <strong><em>Jornada nas Estrelas: A Nova Geração,</em></strong> o androide Data está constantemente buscando compreender e reproduzir as emoções humanas. Sua busca frustrada muitas vezes o faz parecer angustiado, o que o torna humano em certo sentido. Já o Doutor de <strong><em>Jornada nas Estrelas: Voyager</em></strong> é um holograma que extrapola quase infinitamente sua programação original, passando a exercer inúmeras funções além da Medicina, para a qual fora designado originalmente.</p>
<p>Todos esses robôs procuram ser algo além de autômatos sem personalidade. Alguns já &#8220;nasceram&#8221; com um gérmen de humanidade que só precisava ser cultivado, como no caso de David <em>(A. I. &#8211; Inteligência Artificial)</em> e de Data <em>(Jornada nas Estrelas: A Nova Geração),</em> cujo criador lhe concedeu a capacidade de escolher seu próprio destino.</p>
<h3>Humanos por acidente</h3>
<div id="attachment_5704" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-5704" title="Um Robô em Curto-Circuito" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/johnny5.jpg" alt="Um Robô em Curto-Circuito" width="300" height="154" /><p class="wp-caption-text">Johnny 5, &quot;Um Robô em Curto-Circuito&quot;</p></div>
<p>Os exemplos acima se diferenciam de algumas máquinas que, por algum acaso ou acidente, acabam ultrapassando o limite entre o inanimado e o animado, como é o caso de Johnny 5, dos filmes <strong><em>Short Circuit: O Incrível Robô</em></strong> (1986) e <strong><em>Um Robô em Curto-circuito</em></strong> (1988). Como se fosse repentina e miraculosamente dotado de uma alma, no descarregar de um raio no mais estapafúrdio estilo Frankenstein, Johnny 5 deixa de ser um autômato e passa a se preocupar com a autopreservação. No segundo filme, ele demonstra uma inteligência e uma personalidade tais que se vê numa busca pela própria individualidade e até uma consegue a cidadania norte-americana.</p>
<p>O belo <strong><em>WALL-E</em></strong> (2008), cujo protagonista que lhe dá título, robozinho cuja aparência foi meio que copiada dos 2 filmes supracitados, é desses indivíduos pertencentes a uma produção em série, com uma programação pré-definida, mas cuja história e experiências o levam a desenvolver gostos, anseios, sentimentos e valores. Único remanescente de sua &#8220;espécie&#8221;, encarna um herói dotado de idealizada humanidade.</p>
<p>Um dos mais extremos exemplos desse salto transicional do inanimado para o animado é <strong><em>O Gigante de Ferro</em></strong> (1999), que apresenta um robô alienígena programado simplesmente para ser uma máquina de guerra perfeita. Devido a um acidente e à amizade de um garoto, ele consegue suprimir seu &#8220;instinto&#8221; e <em>escolhe</em> se tornar um herói, salvando as vidas daqueles que ameaçaram sua própria existência.</p>
<h3>Então&#8230;</h3>
<p>Por que esse fascínio da parte dos humanos por personagens robóticos? O que há neles com que nos identificamos tanto? Por que, aliás, essa fantasia do robô tornado humano extrapola para histórias em que as máquinas se tornam uma ameaça à humanidade, subjugando-a e invertendo os papéis de dominação e subserviência? Tentaremos dizer algo sobre isso na próxima semana em <strong><em>A Alma dos Robôs &#8211; Parte 2.</em></strong></p>
<h3>Referências</h3>
<ul>
<li><em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0212720/" target="_blank">A. I. Inteligência Artificial</a></em> &#8211; IMDb</li>
<li><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Leis_da_Rob%C3%B3tica" target="_blank">Leis da Robótica</a></em> &#8211; Wikipédia</li>
<li><em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0182789/" target="_blank">O Homem Bicentenário</a></em> &#8211; IMDb</li>
<li><em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0083658/" target="_blank">Blade Runner &#8211; O Caçador de Androides</a></em> &#8211; IMDb</li>
<li><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Data_(Star_Trek)" target="_blank">Data</a> <em>(Jornada nas Estrelas: A Nova Geração)</em> &#8211; Wikipédia</li>
<li><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Doutor_(Star_Trek)" target="_blank">Doutor</a> <em>(Jornada nas Estrelas: Voyager)</em> &#8211; Wikipédia</li>
<li><em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0091949/" target="_blank">Short Circuit: O Incrível Robô</a></em> &#8211; IMDb</li>
<li><em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0096101/" target="_blank">Um Robô em Curto-circuito</a></em> &#8211; IMDb</li>
<li><a href="http://www.imdb.com/title/tt0910970/" target="_blank">WALL-E</a> &#8211; IMDb</li>
<li><em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0129167/" target="_blank">O Gigante de Ferro</a></em> &#8211; IMDb</li>
</ul>
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		<title>A Federação e os impérios de Star Trek</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Sep 2011 11:00:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção científica]]></category>
		<category><![CDATA[Cardassia]]></category>
		<category><![CDATA[cardassianos]]></category>
		<category><![CDATA[Federação Unida de Planetas]]></category>
		<category><![CDATA[Frota Estelar]]></category>
		<category><![CDATA[Império Cardassiano]]></category>
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		<category><![CDATA[Star Trek]]></category>

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		<description><![CDATA[Os conflitos e convergências entre democracia e totalitarismo]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A Federação Unida de Planetas (United Federation of Planets) é uma organização supraplanetária que congrega os povos de vários planetas do Quadrante Alfa no universo de <em>Jornada nas Estrelas.</em> A Federação, embora seja supracultural, tem como base o planeta Terra. Apesar do ideal universalista e multicultural, os valores defendidos pela Federação refletem a ética idealizada pelos próprios humanos que inventaram o universo ficcional de <em>Jornada.</em></p>
<p>Os principais inimigos da Federação são superorganizações de escopo semelhante. As mais notáveis são os impérios, especialmente o Império Klingon, o Império Romulano e o Império Cardassiano. Normalmente os conflitos entre a Federação e os impérios têm como foco a importância da democracia sobre a opressão totalitária.</p>
<p><span id="more-5579"></span>A estrutura da Federação reflete o ideal democrático segundo o qual todos os membros de uma organização têm direito de participar das macrodecisões. Por ser sediada na Terra e ter uma representação notavelmente grande de humanos, normalmente a Federação é vista por outras raças como uma representante da “cultura humana”<sup>1</sup>.</p>
<h3>Império Klingon</h3>
<div id="attachment_5584" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-5584" title="Kor e Kirk" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Kirk_und_Kor.jpg" alt="Kor e Kirk" width="586" height="438" /><p class="wp-caption-text">Kor, representante do Império Klingon, e o capitão Kirk</p></div>
<p>O primeiro contato entre a Federação e um dos impérios antagonistas se deu no episódio <em>Missão de Misericórdia (Errand of Mercy,</em> 26º episódio da 1ª temporada da série clássica), em que o planeta Organia se vê alvo de disputa entre a Federação (que pretende tê-lo como membro e protegê-lo) e o Império Klingon (que pretende anexá-lo através dos meios que forem necessários).</p>
<p>Neste episódio emblemático, em que é apresentado um povo que viria a se tornar um dos maiores antagonistas da Federação, as diferenças entre o regime democrático da Federação e o regime totalitário do Império Klingon ficam confusas. Para os habitantes de Organia, não há diferença entre ficar sujeito a um ou outro.</p>
<p>Nesse contexto, a Primeira Diretriz (Prime Directive), principal valor da ética diplomática da Federação, que preconiza a não-interferência no desenvolvimento de outras civilizações, se mostra um conceito mais frágil do que se costuma pensar. De fato, o capitão Kirk, nesse episódio, manifesta indignação pelo fato de os organianos aceitarem se subjugar a um império opressor e não a proteção da Federação<sup>2</sup>.</p>
<p>A belicosidade, tanto da Frota Estelar (braço científico-militar da Federação, cujos membros são os protagonistas da maioria das histórias de <em>Jornada nas Estrelas)</em> quanto dos guerreiros klingons, é problematizada no episódio <em>O Dia do Pombo (Day of the Dove,</em> 11º episódio da 3ª temporada da série clássica), em que a violência física dos combates entre a tripulação da Enterprise e os soldados do general klingon Kang serve como alimento para uma perigosa entidade, que só pode ser derrotada se os dois grupos em conflito cessarem a rinha.</p>
<p>Os klingons foram pensados por Gene Roddenberry como uma metáfora da União Soviética, em conflito com a Federação, que era uma metáfora do Ocidente em guerra (fria) com o Oriente. Dessa forma, esse conflito foi representado de modo o mais imparcial possível, mostrando os erros de ambos os lados da guerra. Quando Federação e Império Klingon se veem forçados a uma trégua, como acontece mais de uma vez ao longo da série, tem-se aí uma mensagem pacifista.</p>
<p>Infelizmente, essa abordagem crítica se diluiu um pouco nas séries seguintes (a partir de <em>A Nova Geração),</em> e os elementos desse universo foram se posicionando quase que maniqueisticamente (mas não totalmente, felizmente), seja do lado dos mocinhos, seja do lado dos bandidos. Os klingons se tornaram uma raça honrada, perderam o status de Império depois de uma crise interna e passaram a ser aliados da Federação (mas não membros desta). Porém, outros impérios continuaram seu papel de mega-antagonistas.</p>
<h3>Império Romulano</h3>
<div id="attachment_5583" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-5583" title="Capitão Picard e um representante do Império Romulano" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Tomalak33.jpg" alt="Capitão Picard e um representante do Império Romulano" width="586" height="449" /><p class="wp-caption-text">Capitão Picard e um representante do Império Romulano</p></div>
<p>Na primeira aparição dos romulanos em <em>Jornada nas Estrelas,</em> revela-se que são fisicamente idênticos aos vulcanos, o que desperta sentimentos de intolerância por parte de um tripulante da Enterprise em relação a Spock. Porém, aprende-se que as duas raças são muito diferentes uma da outra, tanto culturalmente quanto em termos e sua organização política.</p>
<p>Os principais conflitos com os romulanos se dão em situações territoriais ou em disputas tecnológicas. Entre os limites do território da Federação e o do Império Romulano existe uma Zona Neutra, cuja condição política é sempre incerta. Em alguns momentos, essa Zona é neutra na prática, mas às vezes é objeto de disputa, a depender de certos interesses.</p>
<p>Dessa forma, os conflitos diretos com os romulanos costumam se dar em situações limite, em que a Frota Estelar se depara com a necessidade de confrontar aves-de-rapina romulanas (suas principais espaçonaves de guerra) em meio a alguma disputa de interesse.</p>
<p>Em certos momentos, os romulanos cooperaram com a Federação, trocando tecnologias e lutando contra inimigos comuns. Porém, a desconfiança mútua sempre foi tamanha que, quando a Federação convidou o Império Romulano a formar uma aliança contra uma ameaça maior (o Domínio do Quadrante Gama), as negociações demoraram muito e foram marcadas por constantes choques de interesse.</p>
<p>O principal papel da Federação na formação dessa aliança foi convencer klingons e romulanos a trabalharem juntos, ou seja, a Federação aparece nesse episódio como um intermediador neutro, representado como uma organização superdemocrática e imparcial que busca conciliar os interesses de todos os envolvidos num conflito. Entretanto, durante as negociações para essa aliança, a Federação se mostrou tão inescrupulosa quanto seus antagonistas, forjando documentos e armando um “acidente” para trazer os romulanos para seu lado.</p>
<h3>Império Cardassiano</h3>
<div id="attachment_5591" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-5591" title="Dukat, o mais infame representante dos cardassianos, ao lado do comandante Sisko" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/maquis-pt1_1441.jpg" alt="Dukat, o mais infame representante dos cardassianos, ao lado do comandante Sisko" width="586" height="440" /><p class="wp-caption-text">Dukat, o mais infame representante dos cardassianos, ao lado do comandante Sisko</p></div>
<p>Depois que deixaram de ser representados como cruéis e traiçoeiros, os klingons não eram mais bons candidatos a vilões de uma oposição maniqueísta e passaram a ser honrados aliados da Federação. A honra guerraira klingon amenizou sua imagem, e foi preciso criar um novo vilão que os espectadores da série pudessem odiar. Surgem os cardassianos, traiçoeiros, opressores, adeptos de cruéis práticas de tortura e de um sistema judicial implacável e injusto.</p>
<p>Ao longo de <em>A Nova Geração</em> e de <em>Deep Space Nine,</em> o povo de Cardassia raramente mostrou uma faceta confiável e/ou amável. A maioria dos momentos em que algum cardassiano ameaçava se redimir eram seguidos de grande decepção.</p>
<p>Seu maior antagonista não era a Federação, mas o povo do planeta Bajor, que fora dominado pelo Império Cardassiano. Este foi expulso por bajorianos revoltosos, e por muitos anos a rixa entre os dois povos se manteve forte.</p>
<p>O principal papel do Império Cardassiano em <em>Jornada nas Estrelas</em> foi servir de contraponto aos ideais mais caros à democracria da Federação. Os cardassianos praticavam sistematicamente a tortura como método de investigação e de punição (contrariamente aos métodos guiados pelos direitos “humanos” da Federação). Eles costumavam estabelecer os crimes contra o Império de maneira enviesada, condenando os culpados antes e julgando-os depois (opondo-se aos ideais de justiça da Federação). Empreendiam o trabalho forçado às populações dominadas, tratando-as sob condições inumanas (enquanto a Federação segue uma ética de igualdade e inclusão).</p>
<p>Porém, a Federação esteve em vários momentos sujeita à necessidade de se aliar aos cardassianos quando enfrentavam inimigos comuns, como os revoltosos maquis. Nessas situações, motivos e métodos divergentes cederam lugar a objetivos comuns, o que incomodou especialmente aos oficiais da Frota Estelar (ou seja, da Federação). Mas a &#8221;redenção&#8221; dos Império Cardassiano se deu num momento crítico de sua história, em que foram subjugados pelo Domínio e, seguindo o exemplo e a experiência dos bajorianos, se voltaram contra seus algozes. Cardassia finalmente chegou à paz com os outros povos do Quadrante Alfa.</p>
<h3>Notas</h3>
<ol>
<li>Entre aspas pelo fato de que, antropologicamente falando, não existe uma cultura humana, mas uma diversidade cultural. Entretanto, pode-se inferir que, para o olhar de uma espécie alienígena, a humanidade não representa uma heterogeneidade tão grande quanto a que os humanos percebem em si mesmos, assim como, para os humanos, uma raça como os vulcanos parece ter toda uma só cultura, mas na verdade possui uma enorme diversidade que só os próprios vulcanos percebem.</li>
<li>De fato, no final do episódio, descobrimos que os organianos não precisam de nenhuma proteção, pois os klingons não representam nenhuma ameaça a eles, uma vez que os nativos de Organia são seres altamente evoluídos e capazes de abortar qualquer tipo de violência ao seu redor.</li>
</ol>
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