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	<title>Teia Neuronial &#187; Ensaios</title>
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		<title>Pela crítica contra a censura &#8211; parte 3</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Apr 2012 11:00:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quem são os subversivos?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A reação dos autoproclamados “politicamente incorretos” costuma se pautar pela defesa da liberdade de expressão. Acusa-se os “politicamente corretos” de agirem autoritária e repressivamente, antecipando o prelúdio de uma distopia bradburiana <em>(Fahrenheit 451)</em> ou orwelliana <em>(198</em><em>4).</em></p>
<p>Dentro do debate sobre a correção política, têm destaque as questões relativas à linguagem, seja na tentativa de se reformar o vocabulário e os preconceitos nele embutidos, trocar o uso de certas palavras por outras ou admitir as variedades menos privilegiadas das línguas como formas legítimas de manifestação de certo idioma.</p>
<p><span id="more-6362"></span><img class="alignright size-full wp-image-6351" title="Da Correção Política à Censura" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/texto4.jpg" alt="Da Correção Política à Censura" width="300" height="250" />Os defensores do uso tradicional da língua são talvez os que mais facilmente encontram apoiadores. Como afirma Marcos Bagno, citando John Milroy, o preconceito linguístico ainda se mantém fora das discussões sobre discriminação, que já aprofundaram o debate sobre racismo, sexismo, etnocentrismo, homofobia etc., mas ainda advogam a favor do “idioma correto” e das regras gramaticais, condenando os usos que fogem a essa norma. Por isso é tão difícil entender a proposta do MEC de não corrigir os “erros” (na realidade, variantes menos prestigiadas socialmente), sem deixar de ensinar a norma culta escrita. Muita gente acha que a proposta é “ensinar errado”.</p>
<p>Não podemos ignorar que certas palavras reproduzem preconceitos. Há vocábulos que carregam em si noções pejorativas. Mas isso não se deve a qualquer valor intrínseco a essas palavras. Se “negro” tem conotação ofensiva quando se refere a pessoas de fenótipo africanoide, não é porque ela possua em si mesma uma carga negativa que transcenda o contexto em que é usada. Isso se dá porque temos uma história que marcou os descendentes de africanos no ocidente com diversos estigmas. Passar a chamar os negros de afrodescendentes não vai mudar os preconceitos que temos a respeito deles. O que vai acontecer é que “afrodescendente” (duvido muito que essa palavra se torne de uso comum) assumirá toda a carga racista e pejorativa com que ainda representamos os não-brancos no Brasil, com qualquer nome que seja.</p>
<p>Um dos equívocos dessa correção política é justamente achar que qualquer referência à alteridade é negativa, e isso acaba revelando seu próprio preconceito, como se simplesmente apontar a diferença fosse um tipo de discriminação. Mas não importa que palavra seja usada, ela sempre vai se imbuir de preconceito. Nos EUA, o termo “black” foi substituído por “negro”, depois por “Afro-American” e “African American”. Todas elas acabaram se investindo do mesmo preconceito do termo anterior.</p>
<p>A reação dos autoproclamados politicamente incorretos acaba confundindo as pessoas. Normalmente, na História, quem reclama da falta de liberdade são aqueles cujas ideias vão de encontro ao status quo. Eram justamente os hereges que ameaçavam o poder (político) da Igreja Católica que incorriam em incorreção política e precisavam ser silenciados.</p>
<p>O que acontece nos dias atuais é que o movimento reacionário à correção política moderna é tão ferrenho que acaba se passando por subversivo (e de fato pode ser entendido assim se considerarmos a forma conservadora que assumiu o discurso que deveria ser libertário). As pessoas tendem a imaginar que a censura vem contra manifestações subversivas, que ferem a ordem instituída e é por isso que são atacadas. Aqueles que têm motivações libertárias (mas nem sempre se utilizam de meios coerentes com os fins) bancam os conservadores, defensores dos “bons costumes”, e é assim que a pecha de politicamente correto inverte seu significado medieval e recai neles.</p>
<p>O que muda em ambos os casos é que um se preocupa em eliminar qualquer ameaça ao poder instituído, enquanto o outro tenta reprimir tudo aquilo que ameaça a criação de uma nova ordem menos excludente. Porém, embora simpatize com os fins do segundo, não concordo com os meios a que acaba chegando quando pretende se valer da censura (um dos mecanismos prediletos de qualquer regime conservador).</p>
<p>Felizmente, vivemos numa época em que a liberdade é valorizada e a censura repudiada. Infelizmente, o repúdio à censura é mobilizado por forças conservadoras para defender sua liberdade de expressar quaisquer ideias, até as mais absurdas. O efeito disso é desculpar todo tipo de manifestação, por mais restringidora, preconceituosa e intolerante que seja.</p>
<p>O que poderia nos levar a um mundo com menos violência e intolerância cai na armadilha reacionária e acaba atrasando os avanços libertários. A atitude intolerante e exclusiva daqueles que advogam a tolerância e a inclusão atrapalham os projetos para uma sociedade diferente.</p>
<p>A defesa contra a correção política se fortalece num movimento mais organizado do que os seus antagonistas. Hoje em dia é moda ser politicamente incorreto, é cool se opor à correção política. O público consumidor vai atrás do que ostente em seu rótulo essas palavras, talvez achando que se tratam de autêntica crítica social (muita gente acha que crítica social é falar mal do Brasil, por exemplo).</p>
<p>Ironicamente, à tentativa de se criticar o teor preconceituoso do humor se atribui um caráter moralista, como se a reprodução dos preconceitos, que tem história milenar, não fosse ela mesma profundamente moralista e mantenedora de hierarquias de poder.</p>
<p>Mas o humor pode ser usado no sentido inverso, para colocar em questão essa hierarquia, quando parte daqueles que são oprimidos para aqueles que oprimem, por exemplo. É o caso das charges políticas. Eu tendo a pensar nessas charges de teor mais crítico como verdadeiramente politicamente incorretas, pois mexem com o status quo. Mas elas não são a mesma coisa de uma piada que compara um negro a um macaco.</p>
<p>Por tudo isso é que vejo esse debate como uma briga de poder. Não se trata de revolucionários vs. reacionários ou progressistas vs. conservadores. É uma luta em que cada indivíduo escolhe seu time contingencialmente, da mesma forma que uma pessoa escolhe o time de futebol.</p>
<p>O efeito mais pernicioso dessa luta é fortalecer posturas moralistas por todos os lados, e fica extremamente difícil incluir no debate uma visão crítica sobre a correção política. Essa crítica deve considerar não só os perigos de uma censura bem-intencionada (toda censura o é), mas também os riscos de se manter o status quo em nome da liberdade de expressão e posar histrionicamente como “politicamente incorreto”.</p>
<p>(Este texto foi publicado originalmente na Carta Potiguar, como parte da Série ”<a href="http://www.cartapotiguar.com.br/2012/03/26/serie-da-correcao-politica-a-censura/" target="_blank">Da Correção Política à Censura</a>“)</p>
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		<title>Pela crítica contra a censura &#8211; parte 2</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Mar 2012 11:00:57 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O monopólio do poder da palavra]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A correção política é importante para que meçamos os limites das manifestações das diversas intolerâncias, muitas vezes reprodutoras de preconceitos arraigados. Sendo assim, sou a favor de uma postura politicamente correta. Mas ela deve ser educadora e não impositiva. Deve, acima de tudo, atacar as causas e não os efeitos (os signos) da intolerância.</p>
<p>E é de se notar que a correção política tem sido feita por meio da imposição e tem criado um ambiente de paranoia e de melindres, que levam a extremos como a tentativa, por parte do MPF de Minas Gerais, de retirar de circulação o <em>Dicionário Houaiss</em> por causa de seu teor preconceituoso na definição do verbete “cigano”. Uma mente ponderada percebe imediatamente o absurdo que é tentar apagar de nossa memória coletiva os significados pejorativos que as palavras assumem, e qualquer dicionário sério como o <em>Houaiss</em> deixa claro quando um significado é pejorativo, figurado ou chulo (claro, para quem sabe consultar o dicionário).</p>
<p><span id="more-6357"></span><img class="alignright size-full wp-image-6359" title="Da Correção Política à Censura" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/texto15_thiago.jpg" alt="Da Correção Política à Censura" width="300" height="250" />Porém, não são só os politicamente corretos que jogam sujo. Seus antagonistas, ao defender o <em>Houaiss,</em> terminam por defender o uso tradicional das palavras, revelando seus próprios preconceitos e ignorância.</p>
<p>Por exemplo, André, do blog Ceticismo.net, argumenta contra os ciganos, dizendo que eles não têm cultura e não contribuíram com nada significativo para a humanidade. Ele ignora, em primeiro lugar, o que significa <em>cultura</em> no contexto em questão (talvez por lhe faltar alguma noção de Antropologia), sem saber que toda e qualquer sociedade tem cultura. Em segundo lugar, mostra desconhecimento, por exemplo, da influência dos ciganos no patrimônio cultural da Espanha, que em parte deve o flamenco a esse povo nômade.</p>
<p>Ademais, isso nem deveria ser levado em conta, pois uma visão universalista não trata com tolerância só os povos a quem devemos alguma coisa e que não são parasitas da cultura ocidental. O que está em pauta aqui é o preconceito, é achar que todos os ciganos são ladrões, trapaceiros e vigaristas, só porque todo mundo diz que o são, mesmo sem nunca ter visto um cigano na vida. Com base nisso, pessoas são tratadas como se não fossem seres humanos dignos dos mesmos direitos, negando, por exemplo, um atendimento médico pelo sistema gratuito do governo, como se um indivíduo não merecesse os mesmos cuidados só porque acham que é ladrão.</p>
<p>O que André acaba fazendo, talvez sem querer, é reafirmar esse preconceito, dizendo que cigano é sim sinônimo de ladrão, com isso deixando implícito que todos os ciganos são ladrões e parasitas sociais. Por isso tudo é importante que sejam feitas pesquisas que averiguem até onde os preconceitos se confirmam na realidade, e deixem claro ao público quem realmente são os ciganos. Isso e não a destruição de livros.</p>
<h3>Links</h3>
<ul>
<li><a href="http://cpd1.ufmt.br/meel/arquivos/artigos/245.pdf" target="_blank">“A Linguagem Politicamente Correta no Brasil: Uma Língua de Madeira?”</a> – Sírio Possenti &amp; Roberto Leiser Baronas</li>
<li><em><a href="http://ceticismo.net/2012/03/02/mpf-quer-retirar-dicionario-de-circulacao-por-ofender-ciganos/" target="_blank">MPF quer retirar dicionário de circulação por “ofender” ciganos</a></em> &#8211; Ceticismo.net</li>
<li><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Politicamente_correto" target="_blank">Politicamente correto</a></em> – Wikipédia</li>
<li><em><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Political_correctness" target="_blank">Political correctness</a></em> &#8211; Wikipedia</li>
</ul>
<p>(Texto publicado originalmente na Carta Potiguar, como parte da série &#8221;<a href="http://www.cartapotiguar.com.br/2012/03/26/serie-da-correcao-politica-a-censura/" target="_blank">Da Correção Política à Censura</a>&#8220;)</p>
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		<title>Pela crítica contra a censura &#8211; parte 1</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Mar 2012 18:00:22 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Notas sobre o debate em torno da correção política]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma ONG da Itália pretende censurar a <em>Divina Comédia</em> de Dante nas escolas do país, cujo conteúdo é eivado de intolerância religiosa, sexual e racial. Há algum tempo se ouviu uma polêmica sobre um professor norte-americano que &#8220;revisou&#8221; Mark Twain, retirando de um de seus livros as palavras ofensivas aos negros. Na mesma linha e pouco tempo antes, uma discussão no Conselho Nacional de Educação trouxe a consideração sobre restrições ao uso de uma das obras de Monteiro Lobato no Ensino Fundamental, também por causa de seu conteúdo racista.</p>
<p><em>Alea jacta est</em>. Cada um se posiciona e constrói um debate sem fim, os defensores da correção política se arriscam a ser taxados de simpatizantes da ditadura e os defensores do patrimônio cultural se arriscam a ser responsabilizados pela manutenção de preconceitos difíceis de erradicar.</p>
<p><span id="more-6349"></span><img class="alignright size-full wp-image-6351" title="Da Correção Política à Censura" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/texto4.jpg" alt="Da Correção Política à Censura" width="300" height="250" />Quando escutei pela primeira vez as expressões “politicamente correto” e seu antônimo “politicamente incorreto”, imaginei que este se aplicava ao humor subversivo, no estilo das charges que difamam os políticos corruptos e as brincadeiras que servem para abalar valores conservadores como sexismo e racismo. Afinal, o que seria “correto” numa visão moralista é aquilo que se enquadra nos valores tradicionais a ser defendidos de qualquer movimento revolucionário.</p>
<p>Tanto é assim que a expressão “politicamente correto” é muitas vezes usada para se referir a valores tradicionais. A pornografia, por exemplo, que vai de encontro a uma certa moral cristã assexuada, pode com muito mais probabilidade ser chamada de politicamente incorreta, mesmo nas versões em que a mulher não aparece exclusiva e meramente como objeto do prazer masculino, do que a defesa dos direitos dos homossexuais, condenada pela mesma moral cristã. A pornografia é politicamente incorreta porque é convencionalmente obscena e, certamente, fere os “bons costumes”.</p>
<p>Não é à toa que o critério para a Igreja Católica incluir uma obra no <em>Index Librorum Prohibitorum</em> era justamente a incorreção política. Nesse contexto, tudo aquilo que é transgressor (ou seja, que contraria o poder da Igreja) é politicamente incorreto. Mas, por uma série de fatores, aquilo que outrora poderia ser considerado politicamente correto não o é mais hoje em dia, pois o significado assumido hodiernamente pelo termo se aplica justamente ao que seria mais condizente com os valores democráticos.</p>
<p>O complicado de toda essa história é que não dá para ser maniqueísta sem desconsiderar aspectos problemáticos de ambas as posições extremas do debate, ou seja, da posição dos censuradores (os politicamente corretos) e a dos defensores da tradição (em parte conservadores pouco preocupados com uma visão crítica da sociedade e da cultura).</p>
<p>E é a crítica (junto com a temperança) que deveria nortear esse debate. Ao defender as obras clássicas da correção política, não se pode ignorar o fato de que <em>Caçadas de Pedrinho</em> tem expressões racistas, e é preciso se lembrar que Monteiro Lobato não só reproduzia preconceitos de sua época como era favorável ao segregacionismo e era até simpatizante da Ku Klux Klan.</p>
<p>Ainda vivemos inundados de racismo, sexismo e tantas outras intolerâncias. Uma criança que lê Monteiro Lobato não vai aprender com ele a ser racista. Mas não se pode menosprezar a força e a impressão que uma boa leitura pode causar numa mente em formação. Se há algum valor na obra de Lobato, então mantenhamos seus livros nas grades curriculares. Mas se há algum problema com ela, é imperativo que a abordagem seja atualizada, que os escritos sejam contextualizados, evitando-se demonizar o autor, mas da mesmíssima forma tentando não endeusá-lo.</p>
<p>Seria um retrocesso obscurantista se os livros fossem censurados e reescritos, perder-se-ia a memória histórica e correríamos o risco de cometer novamente erros crassos de nosso passado. Pessoalmente, minha posição é difícil de ser localizada dentro das casas brancas e pretas desse xadrez. Sou fortemente contra a censura, e acho que qualquer medida que busque dificultar o acesso a obras importantes de nossa história cultural é desmedida. Porém, todas essas obras, sem exceção, possuem algum tipo de preconceito, reflexo do contexto em que foram produzidas.</p>
<p>Eu me oporia, por exemplo, à censura da Bíblia, mesmo tendo opiniões anticristãs. Considerando que o livro sagrado do Cristianismo transborda racismo, belicismo, machismo, homofobia e vários outros tipos de intolerância, ele deve ser lido com cuidado pelas gerações contemporâneas.</p>
<p>Meu trabalho de conclusão do curso de Ciências Sociais abordou as imagens da mãe e da prostituta na poesia de Augusto dos Anjos. Mesmo sendo admirador da obra do poeta paraibano, não deixei de considerar nesse trabalho que o imaginário do artista está carregado de pré-noções típicas de sua época. Esse tipo de crítica é importante para que os clássicos não sejam tomados como obras puramente racionais de portadores de uma genialidade atemporal.</p>
<p>As obras que entraram no cânone literário ocidental, os ditos “clássicos”, estão ali devido a circunstâncias históricas e escolhas intelectuais que, se fossem um pouco diferentes, as preteririam, e os clássicos seriam outros. É difícil imaginar que um defensor dos clássicos defenderia com a mesma ênfase uma “obra menor”, de um “escritor menor”. Também é difícil supor que um defensor da correção política atacaria um livro pouco conhecido e com pouca repercussão em nossa cultura. A disputa é sempre em torno de objetos de grande valor, pois o importante não é a crítica ponderada sobre as grandes obras, mas a imposição de uma visão de mundo sobre a outra, e nisso os “politicamente incorretos” são tão aguerridos quanto os “politicamente corretos”.</p>
<p>[Continua...]</p>
<h3>Links</h3>
<ul>
<li><a href="http://cpd1.ufmt.br/meel/arquivos/artigos/245.pdf" target="_blank">&#8220;A Linguagem Politicamente Correta no Brasil: Uma Língua de Madeira?&#8221;- Sírio Possenti &amp; Roberto Leiser Baronas</a></li>
<li><em><a href="http://teianeuronial.com/ebooks/monografiathiago2004.pdf" target="_blank">Do Leite Materno ao Leito Meretrício: Mãe e Meretriz como Objetos de Desejos no Imaginário de Augusto dos Anjos</a></em></li>
<li><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Politicamente_correto" target="_blank">Politicamente correto</a></em> - Wikipédia</li>
</ul>
<p>(Este texto foi publicado originalmente na Carta Potiguar, como parte da Série &#8221;<a href="http://www.cartapotiguar.com.br/2012/03/26/serie-da-correcao-politica-a-censura/" target="_blank">Da Correção Política à Censura</a>&#8220;)</p>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-63500"></div></div>]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Serviço público</title>
		<link>http://teianeuronial.com/servico-publico/</link>
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		<pubDate>Fri, 02 Mar 2012 17:00:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theo G. Alves</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um jogo de cartas e um baralho sujo]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O serviço público sempre serviu de piada para a sociedade brasileira. O excesso de burocracia, a falta de igualdade no tratamento do público, a ineficiência, a lentidão, os favorecimentos e favorecidos, as manobras inescrupulosas e a corrupção sempre foram elementos facilmente associados às atividades da máquina pública no país. Desde seu surgimento até os dias de hoje.</p>
<p>É verdade que todas essas características não são atribuições esvaziadas de sentido ou puramente míticas: a política brasileira, ponto máximo do serviço público, vive em quase total descrédito diante da população e ilustra perfeitamente a situação.</p>
<p><span id="more-6287"></span>No entanto, se as práticas historicamente têm sido essas, também é certo que nos últimos anos tem havido uma corrida para diminuir as desigualdades e possíveis diferenciações de tratamento. Teoricamente, ao menos. Muito tem se falado em isonomia e equanimidade como metas e características do serviço público nacional. Esse novo comportamento tem diminuído, em alguma escala, a brutalidade dos escândalos a que nos acostumamos, ainda que estejam infinitamente longe de cessarem por completo.</p>
<p>O que se pode notar diante desse estreitamento das beiradas por onde as pequenas e grandes corrupções vazam, é que a maneira de processá-las, de permiti-las ou mesmo criá-las tem se tornado mais sofisticada: se não se pode mais nomear arbitrariamente um servidor público, por um lado, pode se criar chances e favorecimentos – quando de interesse dos membros mais graúdos dos grupos que gerem “a máquina” – de modo mais discreto, com manobras sofisticadas e legais, mesmo que imorais ou questionáveis e obscuras.</p>
<p>Aos que não têm “padrinhos” – palavra comum no universo do funcionalismo público nacional durante anos, e que ainda não se perdeu por completo – a lei reserva-se rigorosa e exigente, intransponível. Àqueles que têm quem lhes ache as brechas legais, reservam-se as facilidades e possibilidades dos códigos.</p>
<p>Por isso o jogo da imoralidade e improbidade na esfera pública está ainda muito longe de sua última cartada. Se antes, as regras eram quebradas com golpes na mesa e baralhos de cinco naipes, hoje elas têm a sutileza e os cálculos de um pôquer em que a mão sempre favorece os escolhidos.</p>
<p>O serviço público não joga mais truco, não grita mais, salvo em alguns momentos: as grandes instituições públicas preferem, atualmente, as possibilidades e sofisticações do 21. Sonhar com um jogo de cartas na mesa guarda ainda distância imensa da realidade, porque os jogadores sabem bem como burlar a banca.</p>
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		<title>O paradoxo da máscara</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Feb 2012 11:00:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Escondendo quem aparentamos ser e revelando quem somos]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A máscara pode ser tecnicamente definida como um objeto que cobre parte de ou todo o rosto de uma pessoa. Há máscaras que servem para proteger o usuário de inalar gás ou poluente venenoso; há aquelas que servem para evitar a transmissão de doenças e/ou para prevenir o usuário de uma infecção; algumas máscaras protegem os olhos do soldador das faíscas de sua solda. Em vários casos, o objeto que cobre o rosto tem uma utilidade prática.</p>
<p>Mas há máscaras decorativas cujo uso está ligado à fantasia e assunção de um papel/personagem. Essas máscaras não têm utilidade prática ou laboral. Porém, possuem um certo poder e exercem um fascínio extraordinários sobre quem a usa e quem a vê. O mascarado pode se tornar outra pessoa (pode até ficar irreconhecível para aqueles que o conhecem bem) e fazer coisas que jamais faria em seu cotidiano normal. Paradoxalmente, ao esconder quem aparentamos ser, a máscara permite que nos manifestemos como realmente somos.</p>
<p><span id="more-6189"></span>Ao observar os carnavalescos fantasiados, por exemplo, vemos que suas atitudes não são as corriqueiras de seu dia a dia. Eles agem como personagens fictícios, super-heróis, personagens folclóricos, de desenhos animados e de filmes. Ou sejam, assumem, como atores, algo que não são. Ou melhor, assumem algo que não aparentam ser. O homem sério e trabalhador dos dias letivos se torna um rufião, um palhaço, um sátiro, um malandro, um beberrão.</p>
<p>Mas todos sabemos que o Carnaval, como qualquer outra festa à fantasia, é um evento de libertação dos bons costumes repressores da sociedade e da cultura. Nele, pessoas sóbrias enchem a cara, pessoas bem-casadas pulam a cerca, pessoas castas liberam geral e homens com H maiúsculo soltam a franga. Em muitas sociedades tribais, há festas rituais semelhantes em que, temporariamente, os tabus de incesto e as interdições alimentares são quebrados. Em muitas (senão todas) as culturas há ritos em que as máscaras aparecem como forma de proteger a identidade pública da vergonha de quebrar as regras sociais.</p>
<div id="attachment_6217" class="wp-caption alignright" style="width: 260px"><img class="size-full wp-image-6217" title="Gostosuras ou travessuras" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Trick_or_Treater.jpg" alt="Gostosuras ou travessuras" width="250" height="248" /><p class="wp-caption-text">Criança brincando de &quot;gostosuras ou travessuras&quot; no Halloween (Redford, Michigan, EUA)</p></div>
<p>O Halloween, no mundo anglo-saxão, traz essa mesma ideia de forma mais amenizada. Mas é fácil perceber que a brincadeira do <em>trick or treat</em> (&#8220;gostosuras ou travessuras&#8221;) é um meio de as crianças realizarem desejos reprimidos, especialmente aqueles relacionados à alimentação e ao comportamento perante os adultos. A maioria das fantasias é de monstros e personagens relacionados a histórias de terror, que ao mesmo tempo escondem os meninos e menias travessos e revelam sua &#8220;perversidade&#8221; inconsciente.</p>
<p>A máscara serve para esconder o indivíduo atrás de um personagem, mas não pode ser à toa que uma pessoa, ao interpretar sua fantasia, faça determinadas coisas que não faz em estado normal. Ela o faz porque há um desejo reprimido de fazê-las. Todos estamos sujeitos a uma disciplina cultural que restringe nosso livre-arbítrio e, se nos angustia por tolher nossos instintos, permite que vivamos em sociedade sem matar uns aos outros. A história de <em>O Máskara (The Mask),</em> na qual Stanley Ipkiss se torna um anti-super-herói ao vestir a máscara de Loki, deus trapaceiro da mitologia escandinava, é uma alegoria da sensação de poder ilimitado concedido pela fantasia.</p>
<div id="attachment_6211" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-6211" title="O Máskara" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/omaskara.jpg" alt="O Máskara" width="586" height="329" /><p class="wp-caption-text">Stanley Ipkiss se torna o imortal e superpoderoso Máskara quando veste esse instrumento mágico</p></div>
<div id="attachment_6228" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-6228" title="Coringa" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Jokerkillingjoke.png" alt="Coringa" width="300" height="229" /><p class="wp-caption-text">O surgimento do Coringa, desenhado por Brian Bolland em A Piada Mortal, de Alan Moore</p></div>
<p>A aparente loucura promovida pela máscara, acompanhada da supressão de uma identidade mais aceita, aparece de maneira excelente no supervilão Coringa. Em sua história, um acidente fez com que assumisse permanentemente uma tez branca como giz, lábios vermelhos como sangue e cabelos verdes, uma máscara permanente, numa transformação que foi acompanhada do esquecimento ou morte de quem ela era anteriormente e do surgimento de um ser caótico e irrefreável.</p>
<p>A máscara não é só um escape dos impulsos reprimidos, mas um instrumento para o indivíduo mostrar facetas que normalmente não deixa explícitas. Porém, mais do que nos forçar a agir de determinada forma estereotipada, o indumentária modifica as expectativas dos outros em relação a nós. Nas vezes em que usei roupa toda branca, chamaram-me de pai-de-santo e de marinheiro. O uso de terno causa uma reação quase mágica de respeito e temor.</p>
<p>Falo da máscara também metonimicamente, pois um chapéu, um paramento, uma peça de roupa ou um adorno servem para provocar a ilusão de que seu usuário é alguma coisa mais do que sua identidade estabelecida. O episódio <em>Bugs&#8217; Bonnets,</em> com Pernalonga e Ortelino, traz esse tema de forma bem-humorada.</p>
<p><object width="600" height="407" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/-dWHyX6ARtc?version=3&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="600" height="407" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/-dWHyX6ARtc?version=3&amp;hl=pt_BR" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
<div id="attachment_6223" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-6223" title="Ku Klux Klan" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Klan-in-gainesville.jpg" alt="Ku Klux Klan" width="300" height="241" /><p class="wp-caption-text">Ku Klux Klan</p></div>
<p>É interessante nos reportarmos ao sentido original da palavra <em>pessoa,</em> que vem do latim <em>persona,</em> literalmente &#8220;máscara&#8221;, da qual deriva <em>personagem.</em> A <em>pessoa </em>é o papel com o qual se apresenta e não aquilo que ela &#8220;realmente&#8221; é, uma forma de ordenar o caos individual nas interações sociais. Nosso ego cotidiano é um personagem, que muda sutil ou profundamente de acordo com as instâncias nas quais convivemos, a família nuclear, a família estendida, os amigos, o trabalho, os desconhecidos, nas festas ou em cerimônias solenes.</p>
<p>Muitas vezes a máscara tem o papel de proteger a identidade de um contraventor ou fora-da-lei, como quando bandidos dos faroestes usam lenços para cobrir a parte inferior do rosto e os assaltantes escondem os rostos com meias-calças. Os intergantes da Ku Klux Klan, não podendo defender abertamente seus ideais ultraconservadores, fazem suas cerimônias vestindo longos capuzes brancos. Essas máscaras, devido ao uso a que se destinam, se investem de um aspecto temível; as intenções de quem as veste se tornam indecifráveis por trás do rosto artificial e sem expressão, suas ações são imprevisíveis e emanam o medo do desconhecido. É o efeito que a máscara dos vilões, como a de Darth Vader, provoca em seus inimigos e subordinados.</p>
<div id="attachment_6222" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-6222" title="Darth Vader" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/pai.jpg" alt="Darth Vader" width="586" height="393" /><p class="wp-caption-text">A terrível e insensível máscara de Darth Vader se torna sua própria personalidade imprevisível e tirana</p></div>
<div id="attachment_6236" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-6236" title="V" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/1.jpg" alt="V" width="300" height="210" /><p class="wp-caption-text">V, o anti-herói de &quot;V de Vingança&quot;</p></div>
<p>Por outro lado, é também a máscara que protege a identidade de alguns super-heróis, alguns dos quais atuam fora da lei instituída, às vezes até confrontando abertamente os detentores legais da força, a polícia. Os justiceiros, sejam nobres ou torpes seus motivos, agem na surdina e ocultos nas sombras, para proteger sua identidade cotidiana e as pessoas de seu convívio próximo.</p>
<p>Os anti-heróis revolucionários da ficção, como V <em>(V de Vingaçna),</em> usam uma máscara para despersonalizar seus atos, dando a estes um caráter social e não individual. Nessa história, a poder da máscara é tão grande que uma multidão se une à sua causa e, vestindo máscaras iguais à de V (inspirada no rosto do revolucionário Guy Fawkes), tiram deste a responsabilidade pela revolução, mostrando que a força revolucionária não parte da vontade de um indivíduo específico.</p>
<p>Daí surge a inspiração para os atos de protesto virtual em âmbito internacional, perpetrados por um grupo convenientemente chamado de Anonymous, que tem como um de seus símbolos a máscara de Guy Fawkes. Ao mesmo tempo em que o indivíduo se desresponsabiliza dos atos ilegais, protegendo-se, a causa toma proporções grupais, sociais, internacionais, sendo muito mais um reflexo das mudanças universais por que passa a humanidade na Terra do que o capricho de um mero mascarado revoltado.</p>
<h3>Imagens</h3>
<ul>
<li>Fotografia de Man Ray</li>
<li><a href="http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Trick_or_Treater.jpg" target="_blank">Foto de Don Scarborough</a> &#8211; Wikimedia Commons</li>
<li><em>O Máskara (The Mask,</em> 1994), de Chuck Russell</li>
<li>Quadrinho de <em>A Piada Mortal</em> &#8211; história de Alan Moore e desenho de Brian Bolland</li>
<li>Foto de cerimônia da Ku Klux Klan &#8211; Wikimedia Commons</li>
<li>Cena do filme <em>Guerra nas Estrelas &#8211; Episódio IV: Uma Nova Esperança</em> (1977), de George Lucas</li>
<li>Cena do filme <em>V de Vingança</em> (2005), de Jams McTeigue</li>
</ul>
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		<title>Ai, se eu te pego</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Feb 2012 11:00:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theo G. Alves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
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		<description><![CDATA[O artesanato industrial e a música efêmera]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O status de arte da música popular – ou pop – sempre foi posto em xeque, já que esse é um estilo que obedece a estruturas que variam dentro de um padrão pré-estabelecido, como duração, refrães, andamento e coisas do tipo. O historiador Eric Hobsbawm dá explicações muito mais completas e sensatas sobre as características da música pop em seu belíssimo livro <em>A História Social do Jazz.</em></p>
<p>A discussão acerca do caráter artístico da música está aparentemente superada, já que essas produções voltadas para um mercado consumidor maciço podem ser desenvolvidas de forma pré-moldada, contudo seu grau de expressividade transcende suas limitações estruturais, assim como as técnicas de apropriação musical são utilizadas para criar novas linguagens, o que é um aspecto fundamental da arte.</p>
<p><span id="more-6150"></span>Obviamente, o domínio técnico da música clássica, por exemplo, transcende o simples fazer repetitivo como finalidade e demanda verdadeira exegese de seus intérpretes, sendo uma música geradora, em que o compositor amplia os limites de seu universo musical constantemente. O jazz, música de cunho absolutamente popular em suas origens, atingiu o status de arte conceitual à medida que seus improvisos e expressividade contribuíam para um intenso arejamento da linguagem musical.</p>
<p>No entanto, o domínio da técnica sem que se permita esse arejamento de linguagens está aquém da arte e mais para o artesanato. Esse domínio da técnica é essencial para sua sobrevivência. Porém, a indústria cultural de massa fez prevalecer suas necessidades de mercado em lugar do desenvolvimento e renovações das técnicas, o que criou uma série de produtos culturais que se parecem com artesanato musical, mas cuja produção em escala industrial não permite que os vejamos assim. É daí que aparece o que podemos chamar de “artesanato industrial” da música.</p>
<p>Esse artesanato industrial – a expressão é tão paradoxal quanto o que ela representa – atende às necessidades mais imediatas de consumo de música, tanto da própria indústria quanto de seus ouvintes. A produção em série dá ao produto final ausência de identidade autoral, mas lhe confere um rótulo igualmente estratégico do ponto-de-vista mercadológico. Essa falta de identidade permite que as produções sejam vazias de conteúdo e absolutamente frágeis quanto à forma: a música – ou a mercadoria, se preferir chamá-la assim – precisa ser fácil para que se possa ter familiaridade com ela desde o primeiro minuto, e, para que essa facilidade seja alcançada, o ouvinte precisa recebê-la sem esforços e de maneira intensa para compreendê-la em sua totalidade. Os veículos midiáticos têm papel fundamental nessa parte do processo, especialmente porque as relações entre estúdios e canais de informação são comercialmente estreitas: uma empresa fabrica o que os veículos de mídia que ela sustenta venderão.</p>
<p>Se esse produto é facilmente recebido, ele também é igualmente descartado, já que a repetição intensa a que se submete cansa rapidamente seus ouvintes. Logo, há nestes uma necessidade constante de novos produtos que são, de certa forma, os mesmos. Se a obra de Beethoven sobrevive há séculos, deve-se à sua complexidade e sensibilidade; a música de Michel Teló não durará além de uns poucos meses, pois é vazia de conteúdo e forma. Os que hoje a repetem mecanicamente, logo a esquecerão por estarem saturados do prazer imediato e insuficiente que ela deve provocar em seus ouvintes, naturalmente menos exigentes. A mesma saturação que faz dessa música um sucesso absoluto irá matá-la impiedosamente quando for tempo. Brevemente.</p>
<p>Vale salientar que os ouvintes da música pop são cada vez menos exigentes e demandam produtos culturais cada vez mais efêmeros. Prova disso é que essa música pop a que chamamos de artesanato industrial serve como pano de fundo para os mais diversos momentos de seus ouvintes, mas nunca como peça principal: ouve-se música para dançar, para varrer a casa, conversar com os amigos, beber com eles, dirigir ou até estudar, porém não se ouve música para ouvi-la, pois o caráter industrial desse artesanato é destituído de alma e corpo.</p>
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		<title>A profilaxia dos shoppings e a harmonia excludente</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Feb 2012 11:00:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theo G. Alves</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Assepsia, desvios do padrão e exclusão dos pobres]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As praias urbanas sempre me pareceram símbolos de liberdade e convivência harmônica entre as pessoas de quaisquer classes sociais ao longo das décadas. A ausência de barreiras físicas claras, a gratuidade do acesso, a possibilidade de compartilhar espaços com uma infinidade de membros das famílias ou vizinhança, as refeições levadas de casa e outros aspectos, permitiam essa co-habitação pacífica. Obviamente, existiam – como ainda existem – áreas dessas praias em que determinados grupos se posicionavam, no entanto, nada podia privá-los de ocasionais misturas. Assim, a convivência democrática era possível e as delimitações sociais eram menos claras. Isso é o oposto dos novos espaços de convivência: os shoppings, sínteses do mundo ideal pasteurizado.</p>
<p>Se a praia permitia gratuidade, os shoppings são o auge das relações de compra e venda. Tudo nos shoppings é pago, mesmo quando não se paga nada aparentemente, pois as vitrines, fachadas, cartazes e até as pessoas fazem propaganda dos shoppings, de suas lojas e serviços, mas, sobretudo, do estilo de vida que lá se comercializa. Ainda que os shoppings não cobrem pelo acesso, o ambiente é, por natureza, intimidador aos menos favorecidos. Há, a partir daí, um movimento de exclusão ideológica.</p>
<p><span id="more-6135"></span>Como não se sentir intimidado diante da vida pasteurizada e asséptica que os shoppings apresentam? Os espaços são impecavelmente limpos – pelo menos os que dão à vista; as lojas são perfeitamente decoradas, como se pertencessem a um mundo de sonhos; tudo funciona perfeitamente e sem sobressaltos; tudo é mais caro que na maioria das lojas de ruas e avenidas; as pessoas parecem sempre bem vestidas, mesmo quando se desviam de um padrão, pois os que o fazem acabam por seguir uma espécie de “variação de padrões permitidos”.</p>
<p>Explico: os desvios do padrão de vestimenta e comportamento ocorrem dentro de uma espécie de escala de variações permitidas, o que se estabelece em acordo tácito, já que não há regras estabelecidas sobre isso. Os que saem do padrão, o fazem dentro do que lhes é permitido e nisso um único aspecto está inquestionavelmente proibido: o da pobreza. Com o crescimento da classe C, esses espaços e padrões passaram a ser mais largos, no entanto, paradoxalmente mais radicais, pois atendem aos ideais de consumo das classes mais abastadas e dessa nova que experimenta bens e serviços que até então desconheciam, mas sem os quais não se permitem mais viver.</p>
<p>Dessa forma, a segurança quase impecável dos shoppings é uma resposta à insegurança das ruas, assim como a beleza das lojas é o que sonham os lares de quem passa por lá. Os shoppings, ao contrário das praias, não guardam a surpresa da chuva ou o excesso de calor, já que em seus ambientes o tempo nunca muda. Não há relógios e a iluminação artificial mantém sempre a ilusão de que as horas não existem. Quanto mais tempo em um shopping, maior tende a ser o número de comercializações feitas. Piso, paredes, corredores e banheiros são sempre imaculados. Tudo nos shoppings traz à mente uma palavra imediata: profilaxia.</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-6139" title="" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/FOTO-NATAL-SHOPPING.jpg" alt="" width="250" height="250" />Essa mesma profilaxia gera a exclusão que os shoppings promovem. As pessoas não querem sentir medo de serem abordadas por criminosos nem serem incomodadas por pedintes, assim como não querem a sensação de proximidade de convívio com a pobreza. Fora, perto de casa, por exemplo, isso é permitido, mas não nos shoppings. Não há problemas em ser abordado por vendedores irritantes, insistentes e inconvenientes. Porém, perceber próximo aquilo que mais se nega não é aceitável no sacro ambiente dos shopping centers. O caos estabelecido nas ruas é prova de nossa falência social; entre as paredes do shopping, a sociedade excluiu quem a incomodava, pois não importa consertar problemas, mas impedir que eles cheguem até nós.</p>
<p>Esta semana circulou no Facebook uma foto que dizia ser o registro da abordagem de seguranças do Natal Shopping a uma mãe e sua filha, convidadas a se retirarem do lugar porque não trajavam roupas adequadas. É mais um eufemismo para a pobreza, que não tem lugar nesses ambientes. Não sei de quem é a foto nem se ela é verdadeira, no entanto relatos de cenas como essa se acumulam. É comum ouvir depoimentos de quem presenciou acontecimentos dessa monta. Infelizmente, é comum também que essas descrições venham seguidas de relatos de que ninguém parece ter interferido ou intervindo em favor dos abordados. Deve ser o retrato da nossa própria postura, afinal, somos nós que expurgamos essas pessoas de lugares assim. Pergunto-me, aliás, pergunto-nos: como ainda conseguimos dormir à noite?</p>
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		<title>Liberdade e livre-arbítrio &#8211; parte 2</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Jan 2012 11:00:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Paradoxos da liberdade e o fim das marchas]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A restrição da liberdade é condição sine qua non da própria vida humana em sociedade. Se não fosse o refreamento dos impulsos vitais, por exemplo, os conflitos interpessoais quase sempre terminariam em derramamento de sangue ou morte. Se as pessoas fossem totalmente desimpedidas para expressar o que pensam, qualquer discordância se tornaria uma troca de insultos, xingamentos e ataques verbais preconceituosos, desperdiçando-se a oportunidade do debate de ideias. Se não fosse a cultura, enfim, não seríamos humanos.</p>
<p>Esse refreamento deveria se tornar uma prática consciente, parte de uma autocrítica constante, norteada pela razão e por uma noção realmente libertária da liberdade. Esta só tem sentido como valor social quando se aplica a todos igualmente, e isso necessariamente significa que, paradoxalmente, nem tudo é permitido numa sociedade livre.</p>
<p><span id="more-6099"></span>Se isso não ocorrer, regrediremos a uma época em que vários avanços democráticos não haviam ainda sido cogitados, como os direitos iguais de mulheres e homens, dos grupos étnicos minoritários, da população racialmente discriminada, das pessoas com orientação e identidade sexuais não-convencionais, de praticantes de religiões marginalizadas e daqueles que não professam religião ou crença nenhuma.</p>
<p>Na prática, as pessoas são livres para expressar seus preconceitos, e muitas o fazem o tempo todo. Mas os discursos têm grande poder de reproduzir os preconceitos. Para que realmente haja mudanças libertárias, paradoxalmente, temos que nos restringir, pois estamos todos corrompidos com sexismo, racismo, homofobia e xenofobias de todos os tipos, que lutam o tempo todo dentro de nós para vir à tona, e não queremos que as próximas gerações os herdem (bem, nem todos nós, alguns educam abertamente os filhos para herdar esses preconceitos).</p>
<p>A democracia deve se pautar na razão, e esta se alia muito melhor ao conhecimento científico e à reflexão filosófica (que tratam dos fatos como eles são) do que à crença religiosa (baseada em pré-concepções e dogmas). Esta, em muitas de suas correntes, defende que os homossexuais são prejudiciais à sociedade (a Bíblia prescreve a pena de morte para sodomitas), e constrói um arcabouço de argumentações para justificar essa ideia, todas inspiradas em preconceitos.</p>
<p>O conhecimento científico, pela observação mais objetiva dos fatos sociais, demonstra que as coisas não são bem assim, que <a href="http://bulevoador.haaan.com/2012/01/32334/" target="_blank">as repercussões dos atos de um homossexual na realidade ao seu redor não são diferentes das de um heterossexual</a>. Não há justificativa racional para a restrição da liberdade de exercermos direitos iguais aos de todos os outros. A democracia não é simplesmente fazer o que a maioria quer (argumento usado de maneira falaciosa por cristãos que defendem que, se a maioria dos brasileiros é cristã, a lei deveria seguir os preceitos bíblicos), mas possibilitar a realização de um ideal em que a liberdade de cada um não seja reprimida pelas crenças de uma entre muitas parcelas da sociedade.</p>
<p>A liberdade de um indivíduo viver segundo suas crenças pessoais não deve implicar no constrangimento da liberdade de outros. Existe uma lei estatal que se sobrepõe a qualquer “lei divina”, e garante (ou está aí para garantir) direitos iguais para todos, religiosos, ateus, gays, héteros, mulheres, homens, negros, brancos etc. Embora eu não acredite na obediência cega à lei (isso seria o pensamento de quem se submete a uma ditadura), acho que ela precisa ir se construindo de forma cada vez mais racional e democrática.</p>
<p>Para Aristóteles, em <em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89tica_a_Nic%C3%B4maco" target="_blank">Ética a Nicômaco</a>,</em> a virtude deve ser buscada no equilíbrio, na dosagem (temperança) entre o excesso e a falta. Nas relações humanas, essa ideia pode ser traduzida como o esforço para se alcançar um equilíbrio entre a liberdade individual irrestrita (excesso) e a autoabnegação absoluta (falta). Se houver a primeira, existirá apenas o indivíduo solitário no mundo. Se a segunda dominar, ninguém vive.</p>
<p>Defender a ideia de que certas crenças deveriam se tornar leis é defender o pensamento ditatorial. Por exemplo, <a href="http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?&amp;id=87954" target="_blank">querer que o Cristianismo em sua versão católica seja ensinado obrigatoriamente nas escolas</a> é ignorar a diversidade religiosa do país e pretender a universalização de ideias pertencentes a um grupo particular. Se essa medida fosse democraticamente válida, seria preciso ensinar todas as religiões do mundo (não só as variedades cristãs – muita gente pensa que Religião é sinônimo de Cristianismo), sem colocá-las numa hierarquia e sem considerar nenhuma delas como mais certa do que as outras.</p>
<p>Os cristãos não precisam de leis especiais, pois eles tradicionalmente ocupam lugares privilegiados no poder e constituem uma maioria, sendo responsáveis pela eleição de muitos políticos alinhados com seus interesses sectários. As leis que contrariam as doutrinas cristãs, como aquelas relacionadas aos direitos dos LGBTs, não chegam a ser mínima ameaça à liberdade religiosa de ninguém.</p>
<p>A Marcha para Jesus e outras <a href="http://teianeuronial.com/as-micaretas-de-cristo/" target="_blank">micaretas de Cristo</a>, por exemplo, são irrelevantes em comparação com a Parada Gay e outros movimentos de ação afirmativa, porque esta tem uma importância política no contexto da busca por visibilidade de um dos grupos mais marginalizados e excluídos, que ainda precisa esconder sua existência para evitar a discriminação. Isso não ocorre com os cristãos. Por isso é muito fácil estes se sentirem reprimidos quando criticados em suas crenças conservadoras, pois estão acostumados a não encontrarem obstáculos à expressão e manifestação de suas ideias e seu modo de vida.</p>
<p>Não que eu seja totalmente favorável a essas marchas (de qualquer tipo), que atrapalham o cotidiano de muita gente com barulho e fechamento de ruas, mas algumas, como a Parada Gay, têm importância política e podem trazer boas mudanças a longo prazo, até o dia em que ninguém mais precise marchar.</p>
<h3>Imagem em destaque</h3>
<ul>
<li><em>A Liberdade guiando o povo</em> &#8211; Eugène Delacroix (1830)</li>
</ul>
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		<title>Liberdade e livre-arbítrio &#8211; parte 1</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 11:00:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A liberdade irrestrita nos torna realmente livres?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É por parte de cristãos de diversas denominações que mais se ouvem queixas reacionárias perante críticas dirigidas ao Cristianismo, manifestações pelos direitos dos LGBTs e reivindicações pela efetiva laicidade do Estado. Quando uma boa quantidade de pessoas critica o comportamento de <a href="http://youtu.be/c8oHt83AJTQ" target="_blank">evangélicos que transformam uma cabine do metrô numa barulhenta sessão de pregação</a>, com direito a possessões divinas e diabólicas, alguns evangélicos sentem que se trata de uma repressão a sua crença. É difícil que algo assim não provoque <a href="https://www.facebook.com/Debora.Tex/posts/129221323863855?notif_t=share_reply" target="_blank">calorosas discussões</a> na internet.</p>
<p><a href="http://bulevoador.haaan.com/2012/01/32171/" target="_blank">Recentemente</a> a direção do Hospital Regional do Agreste, em Caruaru, Pernambuco, proibiu as práticas de pregação e oração por parte de visitantes nas enfermarias. Nada mais é do que um ato de bom senso e compreensão da necessidade de os vários pacientes repousarem e se recuperarem de procedimentos médico-cirúrgicos. Pastores se sentiram oprimidos em sua liberdade de culto, como se a pregação fosse mais importante do que a liberdade e a saúde de outras.</p>
<p><span id="more-5993"></span>Eu que já fui paciente de enfermaria e UTI sei muito bem qual é essa necessidade de um ambiente tranquilo, sem o qual o corpo não relaxa e não pode se recuperar. Fazer oração em grupo e/ou em voz alta numa enfermaria pode fazer mal aos pacientes, mesmo aos que são cristãos.</p>
<p>O <a href="http://ligahumanista.org/" target="_blank">movimento</a> pela transformação do Estado brasileiro numa instituição verdadeiramente laica e democrática tem provocado indignação por parte dos setores mais conservadores, e entre estes tem destaque a bancada evangélica do país. Propostas como o <a href="http://teianeuronial.com/pl-122-diacontrahomofobia/" target="_blank">PL 122</a> (“Lei anti-homofobia”) fazem com que muitos pastores se sintam tolhidos em seu direito de dizer o que pensam sobre a homossexualidade. O fato é que esse projeto de lei não chega a tanto, apenas prevê punição por atos de preconceito, discriminação e violência por motivação homofóbica. O pastor pode dizer o que quiser sobre o suposto caráter demoníaco da homossexualidade, desde que não incite a violência contra os homossexuais nem trate desigualmente as outras pessoas por causa de sua orientação sexual, a não ser que queira ser punido.</p>
<p>Isso significa que uma mãe ou um pai evangélicos estão sujeitos às penas da lei se demitirem uma babá lésbica pelo fato de ela ser lésbica? Com certeza. Isso é tolher a liberdade dos evangélicos? Não, isso é uma medida para desencorajar o preconceito, pois nenhum argumento pode negar o fato de que achar que a presença de uma lésbica ou de um gay poderia ser prejudicial para uma criança é um ato de puro preconceito.</p>
<p>Dissertar sobre os limites da liberdade é difícil e mexe com muitos de nossos preconceitos e valores. A importância da liberdade foi tão cultivada na cultura ocidental que ela é sempre supervalorizada em qualquer discurso, mesmo que não haja unanimidade sobre o que ela significa. Muitos cristãos se utilizam do argumento de que a liberdade deve ser preservada em detrimento da repressão, o que implica que qualquer crítica a qualquer coisa relacionada a sua religião é um erro e um absurdo atentado a seu direito de professar as ideias que tiverem.</p>
<p>A liberdade é um valor muito prezado por mim também. Porém, o perigo da ideia de que deve haver liberdade irrestrita é que ela pode ser usada para justificar atos contrários à liberdade, como: a manutenção da restrição do casamento apenas a casais heterossexuais; a proibição de casais homossexuais adotarem crianças; a institucionalização do ensino religioso nas escolas; atenuantes à punição de atos de discriminação a homossexuais ou a praticantes de religiões afro-brasileiras, entre outros.</p>
<p>Nessa perspectiva, a ideia de liberdade se alia à ideologia da tolerância, do perdão e do livre-arbítrio cristãos. O problema dessa ideologia é que, se tudo deve ser tolerado e perdoado em nome do livre-arbítrio, então não deveríamos nos preocupar com atos de violência de nenhum tipo, pois esses atos são praticados segundo a vontade de pessoas livres. As consequências desses atos, quando atentam contra a liberdade de outras pessoas, nessa perspectiva, deveriam assim ser relevadas, pois quem cuida de tudo é um ser superior e justo. Se um homem comete assassinato, desrespeitando a liberdade da vítima, “Deus saberá o que fazer com ele”; se um político surrupia milhares do dinheiro dos contribuintes, “a justiça de Deus o punirá”; se uma mulher bate em seus filhos e os prende em cárcere privado, “Deus tem um plano para ela”.</p>
<p>Pessoalmente, sou a favor do perdão, da reconciliação entre os indivíduos, do não-cultivo da vingança, da não-manutenção de sentimentos de mágoa. Guardar rancor faz mal para a própria pessoa injuriada. Entretanto, na vida em sociedade, é preciso estabelecer parâmetros e medidas que desencorajem a prática de atos e atitudes que firam a liberdade alheia, e isso pode incluir várias formas de punição, motivadas pela razão e não por emoções ligadas à vingança.</p>
<p>Ao meu ver, a liberdade só se efetua realmente quando as pessoas de uma sociedade conseguem tomar decisões baseadas no bem comum, no princípio cosmoético do “aconteça o melhor para todos”, colocando sua liberdade individual em segundo lugar, sem renunciá-la absolutamente. Principalmente, ser livre é se despojar de vícios e valores preconceituosos. O ethos da liberdade plena é a <em>autolibertação</em> dos próprios cabrestos e dos hábitos que prejudicam os seres ao nosso redor (e, em muitos casos, a nós mesmos).</p>
<p>[Continua na próxima semana.]</p>
<h3>Imagem</h3>
<ul>
<li><em>O Terapeuta</em> &#8211; René Magritte (1937)</li>
</ul>
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		<title>As micaretas de Cristo</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Jan 2012 11:00:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theo G. Alves</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O escarcéu e o desrespeito nas manifestações religiosas de nossos dias]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma coisa as manifestações religiosas perderam com o passar dos anos: a solenidade. Se era preciso mostrar ao mundo ou aos próximos a fé que se sentia, isso costumava ser feito com certa cerimônia e serenidade. As pessoas davam à exposição da fé o tom solene que as promessas de salvação e conduta requeriam. Hoje, o que mais se percebe é uma carnavalização da fé e da religiosidade.</p>
<p>As cidades estão cheias do que se poderia chamar de micaretas de Cristo: são carros de som, trios elétricos, bandas, palanques e fogos anunciando a salvação e a presença de Deus no meio da rua. O que antes era solenidade, hoje é balbúrdia e alarde, como acontece nas outras manifestações carnavalescas.</p>
<p><span id="more-5994"></span>O barulho costuma ser ensurdecedor e todos são obrigados a receberem goela abaixo pregações que não querem e que, muitas vezes, perturbam a harmonia de nossas vidas. As micaretas de Cristo ou showmícios de Deus acordam as crianças, assustando-as com as explosões dos fogos; impedem a leitura de quem precisa se concentrar, com seus padres ou pastores – repare que essas manifestações são católicas, evangélicas ou se dizem ecumênicas, como se quem as organiza soubesse o que isso significa – aos berros, chamando por Deus, como se Este fosse surdo; elas não permitem que um sujeito trabalhador, muitas vezes em paz com seu próprio Deus, descanse de um dia árduo; ou mesmo incomodam os que apenas não querem ouvi-las e têm esse direito.</p>
<p>Entendo o direito de pregar uma religião, mas não aceito que não compreendam que também há o direito de não querer ouvir essas pregações. Ninguém é obrigado a compactuar com essa balbúrdia, essa sequência de desrespeitos em nome de Deus. E também me parece irônico que “Aquele que tudo vê e de tudo sabe” precise de tantos gritos para escutar alguém. Parece que os religiosos não acreditam muito nessa história de onisciência, pois se a levassem a sério, saberiam que fazer suas preces ao pé da cama, em silêncio, seria o suficiente para que Deus os ouvisse de onde quer que fosse.</p>
<p>Penso ser um tanto ridículo padres e pastores bancando as Ivetes Sangalo de Deus, inclusive fazendo paródias de suas músicas mais famosas. Pergunto-me se algum padre descolado já fez uma paródia do Michel Teló e anda cantando por aí “Ai, se Deus te pega, que delícia” e outras tais. Cada um que faça o que desejar, desde que esse desejo não incomode os que não compactuam, ou simplesmente não querem participar, do mesmo escarcéu.</p>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-59950"></div></div>]]></content:encoded>
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