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	<title>Teia Neuronial &#187; Ensaios</title>
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	<description>Antropologia, Ficção Científica, cultura e sociedade</description>
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		<title>Culpa, responsabilidade e ética</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Aug 2010 11:00:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou Se uma bola tivesse braços&#8230; Os episódios da infância de um indivíduo podem nos trazer muitos bons insights sobre o desenvolvimento do senso de ética e de convivência social. Vemos nesses episódios, por exemplo, como as atividades sociais e a reação de outras pessoas vão moldando os valores e códigos de conduta desde muito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">ou <strong>Se uma bola tivesse braços&#8230;</strong></p>
<p>Os episódios da infância de um indivíduo podem nos trazer muitos bons insights sobre o desenvolvimento do senso de ética e de convivência social. Vemos nesses episódios, por exemplo, como as atividades sociais e a reação de outras pessoas vão moldando os valores e códigos de conduta desde muito cedo na vida, o que certamente terá implicações na vida adulta.</p>
<p>Reproduzo abaixo uma crônica escrita por minha esposa, Inês Mota, intitulada <em><a href="http://objetobscuro.blogspot.com/2010/08/mea-culpa-ines-mota.html" target="_blank"><strong>Mea Culpa</strong></a></em> e publicado em seu blog <a href="http://objetobscuro.blogspot.com/" target="_blank">ObjetOObscuro</a>. Ela trata de um evento recente encenado por seu neto, Paulinho, em que se discutiram noções de culpa e responsabilidade, e que servirá para que, em seguida, eu teça alguns comentários sobre amadurecimento e ética, esta muitas vezes entendida como algo que emana de nossa &#8220;natureza humana&#8221;, mas que, sob um olhar sócio-antropológico mais detido, se revela construído nas relações sociais.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-3259" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/justicaparatodos.jpg" alt="" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-3213"></span></p>
<blockquote>
<div id="attachment_3214" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-3214 " title="Paulo Henrique Mota Teixeira" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/paulinhopugilista.jpg" alt="Paulo Henrique Mota Teixeira" width="200" height="337" /><p class="wp-caption-text">(Foto: Inês Mota)</p></div>
<p>Paulo* tem quase 5 anos. Ontem, depois de uma incursão com um grupo de amigos pelo Bloco 10, voltou com um galo feio na testa.</p>
<p>A despeito das chacotas que fazemos de que ele é o <em>chorão da praia</em>, não costuma ser mofino diante dos pequenos infortúnios próprios da tenra idade. Tanto que toma vacinas e injeções avisando logo que não vai chorar, pois trata-se <em>apenas de uma picada de formiga</em> e no máximo vai emitir um discreto <em>ai</em>.</p>
<p>O pranto, via-se, não era espontâneo, mas fomentado pela gravidade que os próprios amigos pareciam imprimir ao fato, provavelmente sentiu algo distinto da reação que costumava captar diante das <em>menos graves </em>desditas anteriores. Tanto é que vez ou outra cessava o choro e olhava confuso para cada um dos companheiros, buscando subsídios a veredicto menos preocupante.</p>
<p>Questionado por mim acerca do ocorrido e diante da resposta dos amigos de que ele havia caído, Paulo se apressou em relatar o acontecimento, cuidando de encontrar o verdadeiro responsável e, claro, eximindo-se inteiramente de qualquer culpa.</p>
<p>Primeiro, afirmou categoricamente que a culpa era exclusiva de Leando, o amigo mais chegado. E o argumento era forte: Ora, se estavam jogando bola e o chute de Leandro provocou um desequilíbrio e ocasionou a queda, ele era sem dúvida o <em>réu</em>.</p>
<p>A reação da turma foi imediata e em uníssono tratou de tomar partido por  Leandro: <em>Como jogar bola sem chutá-la? </em></p>
<p>Diante da defesa inconteste, a saída foi arrumar logo outro culpado. Nesse caso, uma culpada. Claro, como não? A bola! Ela, sim, deveria ter braços e aplicar um soco bem no meio da cara de Leandro.</p>
<p>Todos se voltaram surpresos, arguindo que socar o rosto de alguém em qualquer circunstância e, principalmente, se trantando de um amigo é algo violento e inaceitável.</p>
<p>Foi assim que o nosso pequeno personagem se deu por vencido e humildemente  reconheceu de uma vez por todas que não houve culpados. Afinal de contas, como já reza o adágio, o que vale mesmo é a política da boa vizinhança. Além do que é sempre bom ter um amigo com quem jogar e em quem, ocasionalmente, pôr a culpa, ainda mais se ele for o dono da bola.</p>
<p><em>*<strong>Paulo</strong> é meu neto querido.</em></p></blockquote>
<p>Paulinho voltou da brincadeira aos prantos, com muito mais gemidos e lágrimas do que costuma exprimir. Segundo Inês, o drama dos amigos serviu como multiplicador do drama pessoal de Paulinho. A forma como reagimos às diferentes situações do dia-a-dia é amplamente moldada pelos valores da sociedade em que vivemos. Se o choro é uma reação natural à dor, sua intensidade será proporcional à importância de cada tipo de dor, de sua causa e das circunstâncias em que ocorre. E tal importância é ditada pela sociedade e aprendida na convivência dentro dela.</p>
<div id="attachment_3256" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-3256" title="Kaspar Hauser" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/kasparhauser1.jpg" alt="Kaspar Hauser" width="300" height="170" /><p class="wp-caption-text">Kaspar Hauser não sabia emitir nem um discreto &quot;ai&quot; diante da dor</p></div>
<p>Numa cena do filme <em>O Enigma de Kaspar Hauser,</em> por exemplo, Kaspar, que não passou por um processo de socialização, reage ao fogo de uma vela, que queima seus dedos ao tentar pegá-la, apenas com uma lágrima, sem emitir nenhum som nem outro gesto que indique dor. Até quando foi esfaqueado, depois de já ter aprendido a ler e a viver razoavelmente em sociedade, nem sequer gritou nem demonstrou desespero (não da forma que as pessoas ao seu redor considerariam adequada), apenas correu ao seu protetor e, banhado no seu próprio sangue, relatou o fato.</p>
<p>As &#8220;picadas de formiga&#8221;, por exemplo, que provocam apenas um discreto &#8220;ai&#8221; sem maiores dramas, é entendida por Paulinho como insignificante, devido às circunstâncias em que tomou suas primeiras vacinas. Os adultos que o acompanharam deixaram bem claro, num clima tranquilo, que aquilo não era nada demais, e o encorajaram a mostrar dignidade diante da dor, talvez até tenham recompensado seu destemor com elogios. Toda vez que ele for tomar uma injeção, manterá a serenidade e a dor será sentida com pouca intensidade.</p>
<p>Outras crianças desenvolverão medo e nervosismo diante da agulha e chorarão ou ficarão tontas, até na idade adulta, sempre que tomarem uma injeção. Pelo que diz Inês Mota, seu próprio filho, tio de Paulinho, é um &#8220;medroso&#8221; diante de jalecos brancos.</p>
<p>Tudo isso fica muito explícito no momento em que Paulinho busca no olhar dos amigos &#8220;subsídios a veredicto menos preocupante&#8221;. Ele ainda não compreendeu qual é a forma mais adequada de reagir diante da situação, o modo mais aceito e aprovado pelo meio social em que vive de &#8220;sentir dor&#8221;, não sabe até que ponto é validado ou não verter lágrimas e soltar gemidos.</p>
<p>Diante da interrogação sobre o que aconteceu, o pequeno se apressa a apontar a culpa de sua dor, deixando para depois o relatório dos acontecimentos. Isso mostra que sua mente está concentrada em entender a razão de sua própria reação e justificá-la. Já que a dor na testa é suportável, o que atestam episódios anteriores de machucados e cortes, era preciso encontrar outra solução para explicar o choro e a dor, incitados mais pelos amigos do que por sua própria psico-fisiologia.</p>
<p>A experiência parece mostrar que tendemos, ao menos em nossa cultura, a ignorar nossos próprios erros. Paulinho não conseguiu ver que sua própria inabilidade em chutar a bola causou o tropeção que levou sua testa ao chão. Numa tendência muito humana a buscar uma causa inteligente externa para qualquer fenômeno, ele viu em Leandro, que havia lançado para ele a bola, o responsável indireto por sua queda.</p>
<p>No entanto, também parece haver uma tendência, quando reconhecemos nossas inadequações às normas vigentes nos meios em que vivemos, a criarmos e instigarmos sentimentos individuais de culpa. Especialmente dentro dos valores religiosos ocidentais cristãos, essa culpa se busca redimir com condutas de mortificação e auto-humilhação, o que em si mesmo reforça o sentimento da própria vileza.</p>
<p>Às vezes a autoculpa se manifesta em quadros clínicos como a depressão e a melancolia, e podemos ver como isso se expressa em obras como a poesia de Augusto dos Anjos e a prosa de Franz Kafka. Este era tão obcecado pela culpa que seu romance <em>O Processo</em> é um suspense todo baseado num crime supostamente cometido pelo protagonista, mas este nunca consegue descobrir qual é.</p>
<div id="attachment_3252" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-3252" title="Franz Kafka" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/kafkaculpado.jpg" alt="Franz Kafka" width="586" height="300" /><p class="wp-caption-text">A obra de Franz Kafka mostra uma obsessão pela culpa</p></div>
<p>Considero, em minha própria perspectiva ética, que a culpabilização do outro e a autoculpa são extremos opostos que devem ser evitados. A mortificação acaba sendo uma forma de prorrogar a resolução do problema, enquanto focar em acusações nos faz perder a visão do conjunto da situação e os detalhes que ajudariam a elucidar a solução do conflito.</p>
<p>Inês enfatizou que Leandro é o amigo mais chegado de Paulinho. Talvez não tenha sido sua intenção, mas, em minha própria leitura, dei importância a esse detalhe pelo fato de considerar a amizade um valor inestimável, o que aprendi em minha própria socialização. Assim, Paulinho recebe a desaprovação de todos ao seu redor ao fazer uma acusação injusta, e, pior ainda, ao seu melhor amigo.</p>
<div id="attachment_3218" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-3218" title="Velho Rooter" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/rooter.jpg" alt="Velho Rooter" width="300" height="200" /><p class="wp-caption-text">&quot;A culpa não é de ninguém&quot;</p></div>
<p>Mas a ação socializadora impôs com eficácia sua lição. Paulinho se curvou aos argumentos contra a acusação de Leandro e contra a personalização da bola, que foi uma forma de projetar seu próprio impulso violento e o desejo de devolver a dor que recebeu. Porém, ele não chegou a assumir responsabilidade por seu próprio infortúnio, mas ao menos admitiu que ninguém teve culpa, o que satisfez o status quo e representou, também ao meu ver, um avanço em seu aprendizado ético.</p>
<p>A voz de Rooter, personagem misterioso do filme <em>Em Busca do Vale Encantado,</em> ecoou em minha mente quando refleti nestes assuntos:</p>
<blockquote><p>Não é sua culpa, nem culpa de sua mamãe. Agora, preste atenção ao velho Rooter. A culpa não é de ninguém. O ciclo da vida apenas começou.</p></blockquote>
<p>Paulinho não se mortificou com a culpa e absolveu Leandro e a bola. Ele pôde assim exercitar a mediania aristotélica, procurando a virtude no meio. Mas ainda está por completar 5 anos de idade e aprenderá muito. Talvez ainda tenha que aprender (e aqui falo de meus próprios valores éticos) que não vale a pena procurar culpados, mas esclarecer cada situação e, da parte dele, assumir a responsabilidade naquilo em que teve parte, perdoando os erros dos outros e tentando errar menos.</p>
<div id="attachment_3253" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-3253 " title="Fim" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/kafkafim.jpg" alt="Fim" width="586" height="300" /><p class="wp-caption-text">Fim</p></div>
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		<title>Contatos imediatos – parte 3</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Jul 2010 23:36:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou Old-fashioned space invaders Na primeira e na segunda parte de Contatos Imediatos, fiz extensos comentários sobre algumas observações de Stephen Hawking a respeito da possibilidade de vida extraterrestre (trechos retirados do site The Daily Galaxy). Discorri sobre as possibilidades advindas da mera especulação sobre as naturezas dos seres vivos extraterrestres, pensando nas inúmeras possibilidades [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">ou <strong>Old-fashioned space invaders</strong></p>
<p>Na primeira e na segunda parte de <a href="http://teianeuronial.com/tag/serie-contatos-imediatos/" target="_self"><em><strong>Contatos Imediatos</strong></em></a><em><strong>,</strong></em> fiz extensos comentários sobre algumas observações de Stephen Hawking a respeito da possibilidade de vida extraterrestre (trechos retirados do site The Daily Galaxy). Discorri sobre as possibilidades advindas da mera especulação sobre as naturezas dos seres vivos extraterrestres, pensando nas inúmeras possibilidades cósmicas.</p>
<p>Em seguida, explorei as probabilidades e improbabilidades de encontrarmos outros seres vivos fora da Terra, de reconhecermos que são mesmo seres vivos (ou de sermos reconhecidos), de eles terem inteligência como a nossa (ou diferente da nossa) e das possíveis  dificuldades na comunicação e compreensão entre espécies de planetas diferentes. Mas, e se nosso primeiro contato for uma catástrofe?&#8230;</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-2678" title="Marte Ataca!" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/marsattacks.jpg" alt="Marte Ataca!" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-2642"></span>Considerando a possibilidade de o surgimento da vida inteligente ser bastante provável, Hawking especula que, em algum ponto de seu desenvolvimento tecnológico,</p>
<blockquote><p>the system becomes unstable, and the intelligent life destroys itself. This would be a very pessimistic conclusion. I very much hope it isn&#8217;t true.</p>
<p>[o sistema se torna instável, e a vida inteligente destrói a si mesma. Esta seria uma conclusão muito pessimista. Eu espero que não seja verdadeira.]</p></blockquote>
<p>Essa é uma preocupação que concerne aos próprios seres humanos. Se o ponto ambiental crítico a que chegamos for uma constante para outras espécies inteligentes em outros astros, é possível que muitas delas já tenham se extinguido e se destruam antes de realizar viagens interplanetárias.</p>
<p>O tema da autodestruição tem uma ligação com o pensamento escatológico cristão (que herdamos do Zoroastrismo). A crença num fim do mundo, compartilhada pelo Cristianismo (com seu Apocalipse), pelo Islamismo e até pela religião escandinava (com seu Ragnarok), entre outras, chega a nossos dias modificada pelas preocupações com a guerra (o horror nuclear que ameaçava explodir o planeta) e com o meio ambiente (muitos cientistas consideram que o ser humano tem a capacidade de causar uma destruição em larga escala do ecossistema e de sua própria espécie.</p>
<p>No novo mito apocalíptico (que recentemente recebeu contribuições da mitologia maia, com a má interpretação sobre um final de uma era, interpretada pelos ocidentais como sinônimo do fim do mundo), o fim da humanidade, ou o fim da biosfera terrestre, ou até o fim do planeta Terra, serão causados pela própria irresponsabilidade humana.</p>
<p>Dois filmes recentes sobre extraterrestres tematizam essa preocupação com a autodestruição, de duas formas diversas e um tanto opostas.</p>
<p>Em <em><strong>Distrito 9</strong></em><em> (District 9,</em> 2009) (veja minha resenha <a href="http://teianeuronial.com/distrito-9-resenha/" target="_self">aqui</a>), uma raça extraterrestre apelidada pelos humanos de &#8220;camarões&#8221; chega à Terra numa nave espacial, sobrevoando Johannesburgo (no país onde está ocorrendo a Copa do Mundo). Não se sabe bem o que ocorreu com os alienígenas, que chegam famélicos à Terra, desamparados e sem rumo. Uma das interpretações possíveis é que eles exauriram seu planeta-natal e não tiveram opção senão ir embora, à procura de um novo lar.</p>
<div id="attachment_2707" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-2707 " title="Distrito 9" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/distrito9contatosimediatos.jpg" alt="Distrito 9" width="586" height="315" /><p class="wp-caption-text">Em Distrito 9, alienígenas high-tech depauperados são acolhidos e explorados pelos seres humanos da África do Sul, à maneira de estrangeiros indesejáveis, tais quais os judeus e os ciganos</p></div>
<p>Já em <em><strong>Avatar</strong></em> (2009) (veja minha resenha <a href="http://teianeuronial.com/tag/resenha-avatar-2009/" target="_self">aqui</a>) são os próprios humanos que exauriram seu mundo e saem à procura de outra fonte de energia (no caso, o satélite Pandora, do planeta Polifemo, numa das estrelas de Alfa Centauro). Há um conflito com os na&#8217;vi, nativos de Pandora, que vivem em harmonia com a natureza de seu mundo e cujo modo de vida se choca com os interesses exploratórios dos humanos.</p>
<p>Isso nos leva à observação mais polêmica de Hawking sobre esse tema. Ele considera que é possível que a existência dos humanos tenha sido ignorada por outras espécies inteligentes. Segundo ele, se nós viermos a captar sinais de vida inteligente vinda do espaço,</p>
<blockquote><p>we should have be wary of answering back, until we have evolved [a bit further].</p>
<p>[deveríamos ter cautela ao responder, até que evoluamos [um pouco mais].]</p></blockquote>
<p>Um encontro entre os atuais humanos e uma civilização mais avançada</p>
<blockquote><p>might be a bit like the original inhabitants of America meeting Columbus. I don&#8217;t think they were better off for it.</p>
<p>[poderia ser mais ou menos como os habitantes originais da América encontrando Colombo. Não acho que eles tenham tirado bom proveito disso.]</p></blockquote>
<p>A história humana está recheada de episódios e e narrativas épicas encenadas por grandes impérios e povos subjugados. Os relatos dos vencedores são geralmente imbuídos de um caráter heroico e grandioso, enfatizando a prevalência da civilização e seus valores morais &#8220;superiores&#8221; sobre a barbárie com sua vida degenerada.</p>
<p>O Império Egípcio unificou os povos nilóticos, desde o delta do Nilo até sua nascente. Alexandre foi aclamado por fundar várias Alexandrias ao redor do mediterrâneo. O Império Romano latinizou quase tudo aquilo que conhecemos hoje como Europa. Gêngis Khan saiu da extremidade leste da Ásia e conquistou tudo até parar em Viena. O Império Britânico ensinou inglês ao &#8220;Oriente&#8221;, à África e à América. Os Estados Unidos da América vestiram o mundo com jeans, viciaram-no com MacDonald&#8217;s e balançaram a terra com o rock and roll.</p>
<p>A história contemporânea mostrou a situação dos povos subjgugados, massacrados, mortos às centenas, aos milhares, obrigados a servir uma autoridade estrangeira, a reverenciar deuses estranhos, a enrolar a língua para falar idiomas alienígenas. Os projetos imperialistas da história humana foram sempre pautados no etnocentrismo, na supervalorização da cultura daqueles que os empreenderam e no desfalque da cultura e vida dos povos espoliados.</p>
<p>A colonização se faz de pelo menos duas formas: 1) a destruição da população local para a exploração dos recursos naturais e 2) a imposição da obediência e/ou de uma cultura nova aos nativos. Normalmente, as duas coisas acontecem ao mesmo tempo e representam de duas formas a anulação e o desrespeito à diferença.</p>
<h3>Os destruidores de mundos</h3>
<div id="attachment_2945" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-2945" title="Guerra dos Mundos" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/guerradosmundos.jpg" alt="Guerra dos Mundos" width="200" height="253" /><p class="wp-caption-text">O veículo dos invasores do espaço em Guerra dos Mundos; ilustração de Alvim Corréa</p></div>
<p>Essas duas formas de se tratar os povos conquistados são a fonte básica para a fantasia que criamos sobre os alienígenas vindos do espaço. Em alguns casos (como em <em><strong>Independence Day</strong></em> (1996) e <em><strong>Guerra dos Mundos</strong></em> <em>(War of the Worlds,</em> 2005)), os extraterrestres high-tech pretendem destruir completamente o planeta invadido, neste caso a Terra, seja por mera crueldade, seja para habitá-lo e/ou explorá-lo.</p>
<p>A destruição de uma espécie alienígena, seja qual for o motivo, só é justificada por uma moral que desconsidera o direito à vida daqueles que são diferentes de nós, ou por serem um empecilho ao desenvolvimento de uma civilização com valores superiores, seja por se os considerar animais inferiores que só servem como matéria-prima (como gado para se comer ou para dar couro).</p>
<p>Será que uma espécie que alcance a tecnologia necessária para viajar a outros planetas não desenvolve também uma ética mais evoluída? Se olharmos para nós mesmos, que tanto erramos em nosso passado, não estamos na iminência de uma decisão global para manter nosso próprio planeta vivo? E essa decisão não depende de uma ética mais universalista? Essa ética deverá ser herdada por nossos descendentes da aldeia global, o que talvez aconteça em outros planetas que passam ou passaram por um processo semelhante.</p>
<p>Talvez a conduta dos humanos em <em>Distrito 9</em> e <em>Avatar</em> seja condizente com a forma de a humanidade reagir hoje em dia, e talvez a abordagem de alguns grupos e indivíduos humanos seja antiética mesmo num contexto social em que domine uma ética mais desenvolvida. Mas penso que, se os humanos viajassem a outros planetas, estariam já num estágio social e cultural que os levariam a tomar muito cuidado no contato com outros mundos habitados.</p>
<h3>Os colonizadores de planetas</h3>
<div id="attachment_2941" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-2941 " title="Cor e Kirk" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/corekirk.jpg" alt="Cor e Kirk" width="300" height="229" /><p class="wp-caption-text">O representante do Império Klingon e o da Federação, num conflito de interesses sobre o destino do planeta Organia</p></div>
<p>Em outros casos, como no episódio <em><strong>Missão de Misericórdia</strong> (Errand of Mercy,</em> 1967), de <em>Jornada nas Estrelas,</em> a espécie invasora quer apenas anexar o planeta invadido ao &#8220;território&#8221; de seu império, obrigando aquele a servir este (neste caso, o Império Klingon, cujos interesses se chocam com os da Federação Unida de Planetas, que deseja a aliança do planeta Organia).</p>
<p>Essa situação é explicitamente baseada na Guerra Fria, em que duas superpotências planetárias disputam o mundo e vivem na expectativa paranoica de que o rival pode tomar o primeiro passo numa guerra de proporções hercúleas, o que justificaria a estocagem preventiva de armas. Essa paranoia belicista sempre existiu desde que há povos falando idiomas diferentes, líderes acumulando poder e terra com recursos naturais sendo disputada. E não é difícil imaginar de onde vem a inspiração para as histórias que descrevem uma inevitável guerra entre espécies de planetas distintos.</p>
<h3>Os humanos seriam um risco para os extraterrestres?</h3>
<p>Se de repente tivéssemos à nossa disposição, hoje, uma tecnologia capaz de nos levar a outro planeta, uma pequeníssima parte da humanidade participaria dos projetos de exploração espacial, pelos seguintes motivos:</p>
<ol>
<li>Alguns povos e países não têm condições nem interesse em participar de projetos científicos internacionais;</li>
<li>Os povos e países que têm essas condições têm um contingente da população socialmente excluído;</li>
<li>Nem todos os indivíduos da população não-excluída são interessados nesses projetos, e alguns até se oporiam a eles.</li>
</ol>
<p>Ou seja, a humanidade ainda não é coesa o suficiente para que concebamos um &#8220;projeto humano&#8221; de exploração espacial, e qualquer delegação humana que viesse a entrar em contato com extraterrestres não representaria a humanidade como um todo.</p>
<p>Porém, na ficção científica, às vezes se vislumbra a unificação da humanidade a partir do desenvolvimento tecnológico. Em <em><strong>Contato,</strong></em> de Carl Sagan, por exemplo, a construção de uma máquina (cujo projeto foi enviado por uma mensagem alienígena), envolvendo esforços de vários países da Terra, aproxima povos que costumavam ser rivais. Em outro momento, o autor narra que várias pessoas abastadas passaram a viver em estações espaciais, o que tem um efeito interessante sobre suas mentes: elas passam a ser menos nacionalistas e a se considerar pertencentes a uma espécie planetária. Ao ver a Terra de longe,</p>
<blockquote><p>As fronteiras nacionais são tão invisíveis quanto os meridianos ou os Trópicos de Câncer e Capricórnio. As fronteiras são arbitrárias. O planeta é real.</p></blockquote>
<p>No filme <em><strong>Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato,</strong></em> entende-se que a descoberta de uma tecnologia que permite viajar mais rápido do que a luz e o consequente contato com uma espécie alienígena significariam o início da resolução de todos os problemas sociais do mundo terráqueo, com a união de toda a humanidade frente à vastidão do espaço sideral.</p>
<div id="attachment_2484" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-2484" title="Space Invaders" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/space-invaders-200.jpg" alt="Space Invaders" width="200" height="240" /><p class="wp-caption-text">A ideia de invasores do espaço se baseia no belicismo da própria espécie humana</p></div>
<p>Se soubéssemos que é grande a probabilidade de tudo vir a ocorrer dessa forma para nós, teríamos bons motivos para ser otimistas em relação a espécies alienígenas mais avançadas tecnologicamente do que nós, pois seria provável que quaisquer problemas sociais, econômicos, étnicos etc. estariam resolvidos em qualquer planeta que viesse a viajar a outros mundos. Ou seja, neste sentido, seria muito provável que uma espécie na era das viagens interplanetárias já tivesse uma ética mais desenvolvida do que a que atualmente temos na Terra, o que quereria dizer que os riscos de sermos vítimas de uma invasão aniquiladora ou colonizadora seriam pequenos.</p>
<p>Praticamente toda especulação que se pode fazer sobre os possíveis riscos de um contato entre humanos e uma espécie extraterrestre inteligente é baseada em nossa própria experiência passada. As guerras entre povos, o etnocentrismo, a intolerância, a segregação, o racismo, a opressão imperialista, tudo isso nos faz pensar em extraterrestres invasores e numa inevitável guerra contra eles.</p>
<p>Mas um vislumbre utópico de nosso futuro, baseado nas mudanças que já houve desde há muito tempo em nossa história até os dias de hoje, podem nos dar uma perspectiva otimista sobre os possíveis alienígenas ultra-tech que venham a se encontrar conosco. A única coisasensata que podemos fazer a respeito disso tudo é nos tornarmos uma espécie melhor, mais integrada e unida, mais respeitosa perante a diversidade biológica cósmica.</p>
<div id="attachment_2978" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-2978" title="Continua" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/distrito9continua.jpg" alt="Continua" width="586" height="315" /><p class="wp-caption-text">Continua...</p></div>
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		<title>O preço do direito</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Jul 2010 01:13:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou A Justiça é uma deusa que exige sacrifícios? Desde que o Estado brasileiro aboliu o sistema econômico escravista com a Lei Áurea (uma lei de 2 artigos simplórios), a distribuição da propriedade da terra tem mantido um padrão: grandes e ricas propriedades concentradas em poucas mãos e uma grande massa de gente com pouca [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">ou <strong>A Justiça é uma deusa que exige sacrifícios?</strong></p>
<p>Desde que o Estado brasileiro aboliu o sistema econômico escravista com a Lei Áurea (uma lei de 2 artigos simplórios), a distribuição da propriedade da terra tem mantido um padrão: grandes e ricas propriedades concentradas em poucas mãos e uma grande massa de gente com pouca ou nenhuma terra, para morar nem de onde tirar sobrevivência.</p>
<p>A Reforma Agrária promovida pelo Estado foi um projeto que trouxe certa esperança de reverter esse quadro desumano. Parece muito justo repassar grandes montantes de terras ociosas para as enxadas de quem vive ruralmente e quer trabalhar e sobreviver. Mas há casos em que as populações despossuídas foram também desapossadas, perderam suas terras para quem pôde pagar pela lei, pois os direitos muitas vezes não são distribuídos de graça.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.artrenewal.org/pages/artwork.php?artworkid=38681&amp;size=huge" target="_blank"><img class="size-full wp-image-2872 aligncenter" title="Dura Lex Sed Lex, de Paul Gervais" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/duralex.jpg" alt="Dura Lex Sed Lex, de Paul Gervais" width="600" height="150" /></a></p>
<p><span id="more-2834"></span></p>
<h3>Má notícia</h3>
<p>Trabalho no Instituto Nacional de Colonização e Reforma, ou INCRA, como é mais conhecido. Se este é um órgão amplamente vilipendiado e incompreendido (ou mal compreendido, o que é bem diferente&#8230;) pela mídia hegemônica e por grande parte da elite ruralista do país, o serviço em que estou lotado é ainda mais obscuro e marginalizado: Regularização de Territórios Quilombolas.</p>
<p>Há algum tempo recebi a notícia de que o processo administrativo sob meus cuidados, referente à regularização do território da comunidade quilombola de Acauã, localizada no município de Poço Branco/RN, foi alvo de uma ação judicial movida por um dos opulentos proprietários cuja terra é visada pelo INCRA para desapropriação em favor do quilombo de Acauã, e que o Tribunal Regional Federal da 5ª Região lançou uma liminar impedindo qualquer atividade do INCRA nesse imóvel até o julgamento da ação. Deveríamos continuar com a desapropriação apenas de outros 5 imóveis.</p>
<p>O processo de regularização do território de Acauã foi aberto em setembro de 2004, mas o acompanho desde setembro de 2006, quando assumi meu cargo no INCRA. Desde então venho assistindo de perto a uma história de resistência, opressão e sacrifício.</p>
<h3>O legado de Zé Acauã</h3>
<p>Numa pesquisa feita pelo antropólogo Carlos Guilherme Octaviano do Valle, da UFRN, constatou-se que a história oral transmitida pelas antigas gerações de Acauã mostram que sua origem remonta a uma figura mítica chamada José Acauã ou Zé Acauã, a que os acauanenses se referem como um escravo que fugiu do cativeiro. Há outros relatos que explicam como as famílias foram se formando, mas toda essa história demonstra que a origem desse grupo remonta a escravos negros que construíram uma comunidade que hoje em dia conta com 57 núcleos familiares.</p>
<p>A vida da comunidade de Acauã, ou Cunhã, como eles também chamam, ia bem desde o século XIX. Muitas casas foram erigidas nas duas margens do Rio Ceará-Mirim, a terra era farta e fértil. Apesar das dificuldades de infraestrutura, a terra era deles e, mais importante, eles eram donos das próprias vidas.</p>
<p>Mas a construção da Barragem de Poço Branco no Rio Ceará-Mirim, na década de 1960, é lembrada com pesar pelos anciãos que acordaram à noite com a água ensopando suas camas e redes e viram o dia amanhecer sobre suas casas e pertences totalmente submersos.</p>
<p>As autoridades locais e os responsáveis pela Barragem não apresentaram nenhuma compensação pela perda, nenhuma indenização pelo enorme prejuízo material e simbólico sofrido pelos negros de Acauã. Tudo o que lhes foi oferecido em troca de seu desamparo foram míseros 4 hectares, onde foram erquidas 16 casas. Estas se reproduziram nas últimas décadas, e formam um conjunto de mais de 50 famílias.</p>
<p>Acauã deixou de ser uma comunidade livre para viver confinada num pequeno terreno que pode chamar de seu e que nem é suficiente para sua subsistência. Se antes eles trabalhavam para si, hoje eles são obrigados a plantar em terras alheias e pagar uma corveia atávica. A Cunhã Velha é hoje uma Atlântida perdida sob as águas do Ceará-Mirim.</p>
<h3>Remanescentes das comunidades dos quilombos</h3>
<p>A Constituição Federal Brasileira  de 1988 trouxe o seguinte artigo no seu Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT):</p>
<blockquote><p>Art. 68 &#8211; Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.</p></blockquote>
<p>A legislação que regulamenta o Art. 68 do ADCT &#8211; CF/1988 (<a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2003/d4887.htm" target="_blank">Decreto Nº 4.887/2003</a> e Instrução Normativa INCRA Nº 57/2009) foge do antigo conceito colonial de quilombo e prevê a desapropriação como forma de recompor o território étnico da comunidade quilombola:</p>
<blockquote><p>Art. 2o  Consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos, para os fins deste Decreto, os grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida.</p>
<p>§ 1o  Para os fins deste Decreto, a caracterização dos remanescentes das comunidades dos quilombos será atestada mediante autodefinição da própria comunidade.</p>
<p>§ 2o  São terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos as utilizadas para a garantia de sua reprodução física, social, econômica e cultural.</p>
<p>§ 3o  Para a medição e demarcação das terras, serão levados em consideração critérios de territorialidade indicados pelos remanescentes das comunidades dos quilombos, sendo facultado à comunidade interessada apresentar as peças técnicas para a instrução procedimental.</p></blockquote>
<p>A estratégia de se ampliar o conceito de quilombo para os diversos casos de descendentes de escravos que ficaram marginalizados e despossuídos na sociedade e economia brasileiras foi um meio de atender a uma demanda fundiária muito maior do que a dos descendentes daqueles que escaparam do cativeiro. Muito do contingente da população rural miserável não é sem-terra, ou seja, não vive sem um chão para chamar de lar. Os quilombos representam as comunidades que têm chão e têm teto, mas não o suficiente para viver com dignidade, e muitas vezes a terra que consideram sua por direito, por ter pertencido a seus tataravós, está hoje esbulhada e usurpada por quem tem dinheiro para comprar direito.</p>
<p>A Política de Regularização de Territórios Quilombolas representou uma chance de os quilombolas de Acauã receberem a indenização que nunca tiveram. Ao se reconhecerem como remanescentes das comunidades dos quilombos, o Estado pôde atender a uma demanda por um direito que de outra forma eles não conseguiriam adquirir.</p>
<p>Também foi o início de um fervilhar de conflitos latentes sob a aparente harmonia social na qual Acauã está inserida. Por exemplo, alguns dos proprietários que  costumavam arrendar terras aos quilombolas (e cujos imóveis foram visados pelo INCRA para beneficiar a comunidade) impediram o uso de suas terras pelos trabalhadores acauanenses.</p>
<p>Um dos episódios mais traumáticos começou com um boato de que o MST pretendia ocupar a Fazenda Gamellare, vizinha do pequeno terreno onde moram os quilombolas. Com medo de que a referida fazenda fosse perdida para os sem-terra, alguns moradores de Acauã acamparam lá. No dia seguinte, um indivíduo que se identificou como advogado do proprietário chegou ao local acompanhado de homens armados. Atearam fogo no acampamento e ameaçaram passar um trator por cima.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="600" height="475" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/SrTDLhsEadc&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1?color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="600" height="475" src="http://www.youtube.com/v/SrTDLhsEadc&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1?color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<h3>Má notícia (continuação)</h3>
<p>A ação movida na Justiça, que impediu o INCRA de desapropriar um dos imóveis levou o advogado da comunidade de Acauã, Luciano Ribeiro Falcão, a tentar conversar com o desembargador responsável pelo caso, em Recife. Ele foi ao INCRA e conseguimos um carro para a viagem. Dois representantes da comunidade foram conosco, Aleandro e Júnior. E praticamente não fomos atendidos, pois o desembargador só admitiu falar com o advogado e com um dos quilombolas. E mesmo assim só admitiu 5 minutos de audiência.</p>
<div id="attachment_2867" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-2867" title="Dois quilombolas e um antropólogo do INCRA batendo na porta da Lei" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Quilombolas-no-TRF-Recife-1.jpg" alt="Dois quilombolas e um antropólogo do INCRA batendo na porta da Lei" width="586" height="781" /><p class="wp-caption-text">Júnior e Aleandro, dois quilombolas, e um antropólogo do INCRA batendo na porta da Lei. Notem a imensidão do lugar e como ele faz qualquer um se sentir minúsculo</p></div>
<p>Recentemente recebi uma informação da procuradora-chefe do INCRA do RN de que todo o processo administrativo em questão deveria ficar suspenso atá o julgamento da supracitada ação&#8230; neste dia eu fiquei um pouco abatido e triste.</p>
<p>A decisão de se impedir o andamento da desapropriação da Fazenda Maringá foi baseada numa interpretação literal do marco legal que fundamenta toda a política de regularização de territórios quilombolas, o Art. 68 do ADCT. Ou seja, o juiz pretendeu ignorar qualquer coisa que fosse além da interpretação de que quilombo é apenas o reduto de escravos fugidos e que a regularização de seus territórios poderia prever a desapropriação com vistas à autonomia dessas comunidades.</p>
<p>Grandes controvérsias giram em torno dos fundamentos (tanto jurídicos quanto antropológicos) da política de regularização fundiária voltada para remanescentes das comunidades dos quilombos. Eu mesmo tive muitíssimas dúvidas quando comecei a trabalhar com isso, e sempre me perguntei se era mesmo válido e honesto ressemantizar o conceito de quilombo e, em alguns casos, propor a regularização de um território que não pertenceu realmente à comunidade, mas que atende suas necessidades de sobrevivência.</p>
<p>Um dos principais pontos de que discordo nessa política é a identificação das comunidades quilombolas por um critério &#8220;étnico-racial&#8221;, ou seja, sua atuação focada em comunidades &#8220;negras&#8221;. As comunidades quilombolas são heterogênas demais em termos dos problemas que enfrentam para serem classificadas de modo tão homogêneo. E há muitas comunidades não-negras que enfrentam problemas fundiários semelhantes. Em minha opinião, os critóerios para esse tipo de regularização fundiária de comunidades rurais deveria considerar aspectos sócio-econômicos e não fenotípicos.</p>
<p>No entanto, mesmo com todas essas dúvidas e discordâncias, especialmente no caso de Acauã, eu senti fortemente a repercussão negativa de uma ação contrária. Por mais que eu pense que a regularização de territórios de comunidades rurais deveria ser um tanto diferente, ela é uma saída viável para problemas urgentes que de outra forma não seriam solucionados.</p>
<p>O quilombo de Acauã não teve a justa compensação pelas inúmeras privações, perdas e descasos que vem sofrendo em sua história. Se não podem se enquadrar no perfil de sem-terra, se as terras perto das quais moram não se enquadram nos requisitos para desapropriação nos moldes da Reforma Agrária&#8230; então a identidade quilombola, um meio de serem vistos pelo Estado, e a <em>reconstrução</em> de seu território, são meios legítimos de lhes oferecer oportunidades menos desiguais.</p>
<p>Não dá para não lembrar de Franz Kafka, no trecho fundamental de <em>O Processo,</em> um pequeno conto ditado por um padre a Josef K., no opressor e racional ambiente de uma catedral. No filme de Orson Welles, o conto vem na abertura:</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="600" height="475" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/SXA7RtM_GFY&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1?color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="600" height="475" src="http://www.youtube.com/v/SXA7RtM_GFY&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1?color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<blockquote><p>Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo dirige-se a este porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde. &#8220;É possível&#8221;, diz o porteiro, &#8220;mas agora não.&#8221; Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta, e o porteiro se põe de lado, o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso, o porteiro ri e diz: &#8220;Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. Eu sou apenas o úlitmo dos porteiros. De sala para sala, porém, existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a visão do terceiro&#8221;. O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo e a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta. Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido, e cansa o porteiro com seus pedidos. Muitas vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito da sua terra e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que costumam fazer os grandes senhores, e no final repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que havia se equipado para a viagem com muitas coisas, lança mão de tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Este aceita tudo, mas sempre dizendo: &#8220;Eu só aceito para você não achar que deixou de fazer alguma coisa&#8221;. Durante todos esses anos, o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos, amaldiçoa em voz alta o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil, e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião. Finalmente, sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está escurecendo em volta ou se apenas os olhos o enganam. Contudo, agora reconhece no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem. &#8220;O que é que você ainda quer saber?&#8221;, pergunta o porteiro. &#8220;Você é insaciável.&#8221; &#8220;Todos aspiram à lei&#8221;, diz o homem. &#8220;Como se explica que, em tantos anos, ninguém além de mim pediu para entrar?&#8221; O porteiro percebe que o homem já está no fim, e para ainda alcançar sua audição em declínio, ele berra: &#8220;Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a&#8221;.</p>
<p style="text-align: right;">[Franz Kafka]</p>
</blockquote>
<div id="attachment_2870" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-2870" title="Durus finis, sed finis" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Quilombolas-no-TRF-Recife-2.jpg" alt="Durus finis, sed finis" width="586" height="781" /><p class="wp-caption-text">Durus finis, sed finis</p></div>
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		<title>Copa do Mundo &#8211; parte 1</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Jun 2010 04:33:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou Vendo o jogo de longe Não há nada mais brasileiro do que um esporte inventado na Inglaterra. A bola no pé faz parte da cultura brasileira de uma forma que impressiona os outsiders. Digo isso porque nunca fui fã de futebol e sempre achei exagerada a &#8220;cultura futebolística&#8221;, as incessantes conversas sobre &#8220;o jogo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">ou <strong>Vendo o jogo de longe</strong></p>
<p>Não há nada mais brasileiro do que um esporte inventado na Inglaterra. A bola no pé faz parte da cultura brasileira de uma forma que impressiona os outsiders. Digo isso porque nunca fui fã de futebol e sempre achei exagerada a &#8220;cultura futebolística&#8221;, as incessantes conversas sobre &#8220;o jogo de ontem&#8221; e os usuais cumprimentos entre amigos: &#8220;E aí, flamenguista!&#8221; &#8211; &#8220;Diga lá, fluminense!&#8221;</p>
<p>Mas desde há muito tempo reconheço o esporte como um espetáculo de inteligência corporal digno de ser visto e apreciado. E a Copa do Mundo é uma chance de se ver os melhores (é o que se espera) jogadores de cada país mostrando suas habilidades numa competição acirrada e emocionante, com bons exemplos de extrapolação das habilidades do corpo humano. Mas estou longe de ser um típico brasileiro quando o assunto é futebol.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-2791" title="Spock camisa 10" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/spock10.jpg" alt="Spock camisa 10" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-2774"></span></p>
<h3>Um brasileiro (não muito) longe do futebol</h3>
<div id="attachment_2787" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-2787" title="Thiago flamenguista" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/thiagoflamengo.jpg" alt="Thiago flamenguista" width="200" height="290" /><p class="wp-caption-text">A foto fatídica que não deixou marcas no tempo... ou sim?</p></div>
<p>Meu padrinho, flamenguista, me deu uma camisa rubro-negra quando eu tinha 2 anos, e eternizou o momento em que desejou passar adiante seu fanatismo. Não conseguiu, e eu só lembro muito vagamnente daquele momento. Provavelmente a falta de entusiasmo do meu pai, pouco afeito aos campeonatos nacionais, e de minha mãe, mulher tipicamente desinteressada por futebol, contribuíram (e eu lhes agradeço) para que eu não me interessasse tanto (quase nada) por futebol.</p>
<p>Acho que foi em 1994 que, em clima de Copa do Mundo, 13  anos de idade, com meu irmão e com um primo, treinávamos na garagem de uma casa vazia, na vizinhança de uma tia-avó, alguns chutes e defesas. Eu me convenci que tinha jeito para goleiro. Mas as recomendações oftalmológicas eram de que eu evitasse esportes de impacto, que poderiam causar descolamento das retinas. Vicissitudes da Síndrome de Marfan&#8230;</p>
<p>Torcer para um time era algo que nunca me atiçou. A camisa do Flamengo que vestiu minha pele na infância não tocou meu coração, e houve até certa época em que eu acompanhei um campeonato norte-americano de basquete, torcia para o Chicago Bulls (d&#8217;oh!), mas não me tornei fã e nem voltaria a torcer (eu acho).</p>
<p>Num episódio de escola, meus colegas perceberam que eu não acompanhava as conversas futebolísticas. Um deles me perguntou qual era meu time, e eu respondi &#8220;Chicago Bulls&#8221;. Zombaram de mim, e alguns tentaram me convencer a escolher seus times preferidos. Contei que era flamenguista por imposição avuncular, e um deles, corintiano, se revoltou. A filiação a um time, em nossa cultura, é quase uma obrigação, especialmente para os homens, chegando a ser uma forma de manifestar virilidade competitiva. Na época em que eu tinha um Mega Drive, eu nem sequer entrava em discussões para discutir se a Sega era melhor do que a Nintendo.</p>
<p>Até hoje nunca me dei ao trabalho de jogar um video game de futebol. <em>FIFA Soccer</em> e quejandos sempre me causavam certa repulsa, não via graça alguma em simular o técnico de um time e controlar vários bonequinhos levando uma bola para fazer gols. Acho que isso tem muito a ver com minha dificuldade com jogos de estratégia, como <em>Warcraft II</em> e <em>Total Annihilation.</em> Controlar várias unidades a mesmo tempo, ou seja, fazer duas ou mais coisas concomitantemente, sempre foi uma dificuldade.</p>
<div id="attachment_2801" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-2801" title="Fifa Soccer" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/fifasoccer.jpg" alt="Fifa Soccer" width="586" height="312" /><p class="wp-caption-text">Por mais que os novos games de futebol tenham belos atrativos áudio-visuais, ainda não sinto vontade de jogá-los</p></div>
<p>A última vez em que me envolvi mais de perto com a Copa do Mundo foi em 1998, quando eu tinha 17 anos e me deixava levar pelo clima festivo, anotando os resultados dos jogos numa tabela da revista <em>Veja,</em> que meu pai assinava. A final superdisputada entre Brasil e Itália, com um pênalti atrás do outro, prolongou inusitadamente a decisão. O interessante, ao rever o vídeo abaixo, é observar Dunga, atual e rabugento técnico da seleção brasileira, como capitão e chutador que ajudou a decidir os pênaltis, com um semblante bem diferente da carranca de treinador.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="600" height="480" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/QH7aduFlPmQ&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="600" height="480" src="http://www.youtube.com/v/QH7aduFlPmQ&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p>Em 2002, a Copa aconteceu num período em que eu estava com problemas na retina direita, fazendo cirurgia em São Paulo, com tampão num olho (o outro já tinha a visão ruim) e sem condições de <em>ver</em> os jogos. Ma eu me emocionei especialmente com um jogo acirrado entre Inglaterra e Argentina, que acompanhei só ouvindo.</p>
<p style="text-align: center;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="600" height="480" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/n8kHIUWyPik&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="600" height="480" src="http://www.youtube.com/v/n8kHIUWyPik&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p>Acho que foi uma experiência que me mostrou como é possível acompanhar um jogo pelo rádio, sem altos recursos áudio-visuais, o que para muitos da juventude contemporânea é impensável. Mas minha mãe conta que a final da Copa de 1970 ela e toda a sua vizinhança ouviram pelo rádio, e se emocionaram tanto quanto os telespectadores atuais.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="600" height="480" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/3_3nRplehGk&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="600" height="480" src="http://www.youtube.com/v/3_3nRplehGk&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p>A imaginação humana é poderosa.</p>
<p>Eu impliquei muito com o futebol em minha vida. Mas passei a me interessar pelo seu aspecto &#8220;arte&#8221;, pelo espetáculo corporal, a inteligência somática e estratégica levada para fora dos limites do cotidiano. Mesmo em casos que extrapolam a própria normalidade do âmbito do futebol, como as estripulias de um René Higuita, são motivos para prestar atenção.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="600" height="480" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/LA6oQufLcD8&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="600" height="480" src="http://www.youtube.com/v/LA6oQufLcD8&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p>Nas raríssimas vezes em que vejo jogos, ou seja, a cada 4 anos, procuro apreciar o jogo em si, ver as seleções mais preparadas, as partidas mais desafiadoras. Jogos como Eslováquia x Itália foram bonitos de se ver.</p>
<p style="text-align: center;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="600" height="480" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/hd-zKIZkrX0&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="600" height="480" src="http://www.youtube.com/v/hd-zKIZkrX0&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<h3>Pequeno ensaio despretensioso sobre antropologia do futebol</h3>
<p>Mas as pessoas não se atêm muito a uma apreciação do esporte pelo esporte. As conversas sobre futebol costumam girar em torno de superficialidades, que às vezes nada têm a ver com a partida em si. O senso comum, com seus muitos preconceitos, se manifesta com vigor nessas conversas e não menos nos comentários dos narradores.</p>
<p>Ouvi, por exemplo, alguém dizer que &#8220;os negros jogam melhor&#8221;. E pouco tempo depois li um <a href="http://www.viomundo.com.br/opiniao-do-blog/e-depois-ainda-dizem-que-dunga-e-o-atrasado.html" target="_blank">artigo de Luiz Carlos Azenha</a> criticando, com muita razão, a infeliz afirmação de um comentarista de que &#8220;o negro é cientificamente mais forte&#8221; e, pior ainda, a de um narrador que completou a ideia sugerindo que aos times africanos falta inteligência. Isso tudo sem mencionar as várias vezes em que a plateia xingou algum jogador com ofensas racistas ou homofóbicas. O próprio nacionalismo que incita ufanismos e etnocentrismos, além dos ódios aos rivais e xenofobias, é para mim uma excrescência que deveria ser superada.</p>
<p>Penso que essa tendência geral a colocar em segundo plano o esporte em si tenha a ver com a função social do futebol, como um meio mais de congregar as pessoas e atender a uma necessidade psicossocial do que uma oportunidade de se debater sobre as potencialidades psíquicas e somáticas humanas. Como disse certa vez meu amigo sociólogo Flaubert Mesquita, a experiência do torcedor é análoga à experiência religiosa, na comunhão e no êxtase. É uma forma também de se ter um meio de socialização, como observou meu amigo antropólogo Samuel Cruz.</p>
<p>Além dessa observação mais básica e óbvia para qualquer cientista social, sempre percebi uma relação mais estreita entre o meio do futebol e a religião, especialmente me reportando à teoria ainda atual de Émile Durkheim <em>(As Formas Elementares da Vida Religiosa)</em> e de Sigmund Freud <em>(Totem e Tabu).</em> A forma elementar da vida religiosa pode ser extrapolada para quase qualquer tipo de instituição social, pois os elementos básicos da religião são formas de se criar coesão social e dar sentido ao mundo humano.</p>
<p>As sociedades menos complexas se organizam como grandes grupos denominados <em>tribos,</em> que representam um grupo étnico maior (a tribo dos torcedores de futebol), subdividido em vários clãs (os times), cada qual com seu totem, que é um animal, planta ou algum ser da natureza (o mascote), com seus símbolos específicos que o diferenciam dos outros clãs (o brasão do time e as cores) e com uma noção de ancestralidade comum (geralmente os filhos torcem para o mesmo time que os pais; mas mesmo nos casos em que se foge à regra, o importante é que os torcedores de um mesmo time se sentem como uma família). Isso tudo se amplia planetariamente na Copa do Mundo: a tribo é o conjunto dos países que participam, os clãs são as seleções, com seus símbolos, brasões e cores e com a noção de pertencimento a um mesmo grupo étnico e linhagem.</p>
<h3>Seleção universal</h3>
<div id="attachment_2795" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-2795" title="Camisa 10 - Spock" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/thiagotrekkerfc.jpg" alt="Camisa 10 - Spock" width="200" height="275" /><p class="wp-caption-text">Uma camisa nada séria para um campeonato que não se deve levar a sério</p></div>
<p>Minha esposa gosta mais de futebol do que eu, e ela acabou me levando a gostar um pouco mais, principalmente neste campeonato mundial. Recentemente, comentei no <a href="http://www.botecagemsa.com/" target="_blank">Botecagem S.A.</a>, dos irmãos Heering, que não me daria ao trabalho de fazer considerações sobre os posts que tratem de futebol. Ironicamente, aqui estou eu escrevendo um texto sobre o famigerado esporte (e ainda mais com a parte 2 em forma de rascunho.)</p>
<p>Este ano o Brasil não é favorito. De qualquer forma, nem para o Brasil eu torço. A onda, na Copa, para quase todos os brasileiros, os leva para a torcida ferrenha pela seleção canarinho. Embora seja apenas uma diversão, não compartilho do espírito competitivo, não tomo partido nenhum, nem mesmo do time do &#8220;meu país&#8221;. Para mim, os jogos são um show para ser apreciado. O importante para mim é ver um jogo bem disputado no final.</p>
<p>Anteontem vi o jogo em que disputaram Brasil e Portugal. Vesti minha camisa da seleção da Federação Unida de Planetas, camisa 10, do Sr. Spock. Um símbolo do que eu acho que deveria ser o espírito da Copa. Não uma competição entre nações (que leva os times desclassficados a ficarem deprimidos &#8211; ora, alguém tem que vencer, uns perdem, outros ganham, os que já venceram antes devem dar a chance para que outros levem a copa dourada para casa), mas a celebração da humanidade, com todos os povos pisando o mesmo gramado e desmentindo qualquer teoria que coloque numa hierarquia natural os diversos grupos humanos.</p>
<div id="attachment_2806" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-2806" title="Continua..." src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/ficasoccercontinua.jpg" alt="Continua..." width="586" height="312" /><p class="wp-caption-text">Continua...</p></div>
<p><strong>Links</strong></p>
<ul>
<li><a href="http://www.botecagemsa.com/" target="_blank">Botecagem S.A.</a></li>
<li><a href="http://www.redbug.com.br/produto/camiseta-trekkers-f-c-.html" target="_blank">Camiseta Trekkers F. C.</a> &#8211; Red Bug</li>
<li><em><a href="http://www.viomundo.com.br/opiniao-do-blog/e-depois-ainda-dizem-que-dunga-e-o-atrasado.html" target="_blank">E depois ainda dizem que Dunga é o “atrasado”</a></em> &#8211; Vi o Mundo</li>
<li><a href="http://jovemnerd.ig.com.br/nerdcast/nerdcast-214-copa-2010-cala-boca-galvao/" target="_blank">Nerdcast 214 &#8211; Copa 2010 &#8211; Cala Boca, Galvão!</a> &#8211; Jovem Nerd</li>
</ul>
<h3>Nota pós-texto &#8211; 27/06/2010 10:03</h3>
<h4>Errata</h4>
<ol>
<li>A Copa do Mundo em que a Itália e o Brasil disputaram a final dos pênaltis foi em 1994, como mostra o vídeo, e não em 1998, como afirmei. Eu tinha 13 anos.</li>
<li>O vídeo sobre a partida entre Itália e Eslováquia que eu incorporara ao texto foi retirado pelo usuário; coloquei outro no lugar.</li>
</ol>
<p><strong> </strong></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Contatos imediatos – parte 2</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Jun 2010 19:05:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou Graus infinitos de contatos possíveis Em Contatos imediatos &#8211; parte 1, comentei algumas observações de Stephen Hawking a respeito da probabilidade da existência de seres vivos extraterrestres e das possibilidades de sua natureza. É improvável que a Terra seja o único astro da galáxia a ter vida, e é possível que esta se manifeste [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">ou <strong>Graus infinitos de contatos possíveis</strong></p>
<p>Em <em><a href="http://teianeuronial.com/contatos-imediatos-parte-1/" target="_self">Contatos imediatos &#8211; parte 1</a>,</em> comentei algumas observações de Stephen Hawking a respeito da probabilidade da existência de seres vivos extraterrestres e das possibilidades de sua natureza. É improvável que a Terra seja o único astro da galáxia a ter vida, e é possível que esta se manifeste de várias formas.</p>
<p>Dando continuidade aos meus comentários ensaísticos sobre as observações de Hawking (retiradas diretamente de <a href="http://www.dailygalaxy.com/my_weblog/2010/04/stephen-hawking-update-alien-contact-not-a-wise-idea-a-sunday-feature.html" target="_blank">um post</a> do site <a href="http://www.dailygalaxy.com/" target="_blank">The Daily Galaxy</a>), faço mais algumas especulações sobre as probabilidades e possibilidades da vida extraterrestre, de esta vida vir a desenvolver inteligência e de esta inteligência assumir várias naturezas, reportando-me a referências da Ficção Científica e da Antropologia.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-2650" title="Contatos Imediatos do Terceiro Grau" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/closeencounters.jpg" alt="Contatos Imediatos do Terceiro Grau" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-2513"></span>Hawking certa vez questionou:</p>
<blockquote><p>What are the chances that we will encounter some alien form of life, as we explore the galaxy?</p>
<p>[...] there ought to be many other stars, whose planets have life on them. Some of these stellar systems could have formed 5 billion years before the Earth. So why is the galaxy not crawling with self-designing mechanical or biological life forms?</p>
<p>[Quais são as chances de nós encontrarmos alguma forma de vida alienígena quando estivermos explorando a galáxia?</p>
<p>[...] deve haver muitas outras estrelas cujos planetas tenham vida. Alguns desses sistemas estelares podem ter se formado 5 bilhões de anos antes da Terra. Então por que a galáxia não está infestada por formas de vida mecânicas ou biológicas autoprojetadas?]</p></blockquote>
<p>Boa pergunta. Mas uma coisa que me vem à mente é o tamanho dos seres vivos da Terra, minúsculos em comparação com o tamanho dos astros. Já os astros são minúsculos em comparação com a quantidade de espaço vazio que existe na Via Láctea. Se houver um planeta habitado em cada constelação, destes apenas alguns teriam forma de vida inteligente, e destes apenas alguns teriam alcançado a Era Espacial, e destes só uns poucos conseguiriam viajar a uma velocidade com que valesse a pena explorar outras constelações.</p>
<p>Outra variável a ser considerada no &#8220;cálculo&#8221; acima é a sobrevivência dos extraterrestres antes de poderem fazer viagens interplanetárias. Se seres inteligentes chegarem a um ponto semelhante ao que chegamos na Terra, arriscando-se a exaurir os recursos naturais de seu planeta, eles podem vir a destruir seu mundo, e provavelmente não os encontraremos vivos.</p>
<p>Assim, a probabilidade de criaturas minúsculas vagando em tanto espaço vazio se encontrarem é também bem reduzida. E nós nem sabemos com certeza ainda se iremos um dia realmente viajar na velocidade da luz ou dobrando o espaço.</p>
<div id="attachment_2500" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-2500" title="A Discovery e o Sistema Solar" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/discoverysistemasolar.JPG" alt="A pequenina nave espacial Discovery perdida na imensidão do espaço; análogo a um átomo, o Sistema Solar é, na maior parte, espaço vazio (a distância entre o Sol e os planetas está fora de escala - eles são bem mais espaçados -, mas os tamanhos estão)" width="586" height="188" /><p class="wp-caption-text">A pequenina nave espacial Discovery perdida na imensidão do espaço; análogo a um átomo, o Sistema Solar é, na maior parte, espaço vazio (a distância entre o Sol e os planetas está fora de escala - eles são bem mais espaçados -, mas os tamanhos estão na escala correta)</p></div>
<p>Apenas com uma tecnologia capaz de detectar numa determinada seção tridimensional do espaço qualquer objeto do tamanho de um ônibus espacial ou maior poderia resolver esse problema (afinal, detectar com radar um jato no céu é uma coisa, mas detectar uma nave espacial no espaço sideral é bem diferente&#8230; ou não?). Como não sei se essa tecnologia existe, não sei se seria tão fácil assim ver uma nave se aproximando da Terra, se ela tiver o tamanho, por exemplo, da Discovery.</p>
<blockquote><p>I discount suggestions that UFO&#8217;s contain beings from outer space. I think any visits by aliens, would be much more obvious, and probably also, much more unpleasant.</p>
<p>[Eu descarto as sugestões de que os ÓVNIs contenham seres do espaço sideral. Acho que quaisquer visitas de alienígenas seriam muito mais óbvias e, provavelmente, muito mais desagradáveis.]</p></blockquote>
<p>Talvez sim, talvez não. Talvez nós precisássemos de muito tempo observando e avaliando um planeta habitado antes de aterrissar, se chegássemos a encontrar um. Há muitos possíveis riscos, como doenças desconhecidas que podem ser mortais (que foi a causa da ruína dos marcianos em <em>A Guerra dos Mundos),</em> plantas e/ou animais cujos corpos são venenosos para certos visitantes do espaço, ou até mesmo uma reação violenta e intolerante por parte dos nativos.</p>
<p>Dito isso, podemos imaginar que, se alguns dos ÓVNIs avistados da Terra são naves extraterrestres, seus tripulantes tomariam essas mesmas precauções antes de pousar na superfície terráquea. Isso sem considerar uma ou outra espécie com tendências mais arredias ou paranoicas. Isso tudo explicaria porque é tão difícil ver ETs na superfície terrestre.</p>
<p>Por outro lado, possíveis problemas técnicos por parte dos tripulantes extraterrestres já deveriam ter ocasionado alguma aparição mais evidente, no meio de uma cidade populosa, por exemplo. No entanto, essas aparições, se em alguns casos forem mesmo alienígenas do espaço, acontecem na zona rural ou em locais ermos, sem grande concentração populacional humana, e as testemunhas sempre são escassas.</p>
<p>Porém, quase todos os relatos impactantes conhecidos de pessoas que dizem que viram e/ou encontraram extraterrestres são envoltos em mistério e confusão, além de serem abafados pelas autoridades militares. O ET de Varginha foi visto por um militar, que deu um depoimento à mídia, mas pouco tempo depois desmentiu tudo o que disse à mesma mídia.</p>
<p>Uma outra possibilidade para a dificuldade da obviedade de um encontro com uma espécie extraterrestre é ela ser composta de matéria num estado sutil ou em outra dimensão, ou ainda serem muito pequenos. Pode ser até que nem consideremos os alienígenas como seres vivos, e os confundamos com robôs (como no filme <em>O Milagre Veio do Espaço)</em> ou até com naves espaciais (como no primeiro episódio de <em>Jornada nas Estrelas: A Nova Geração).</em></p>
<p><em> </em></p>
<div id="attachment_2617" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-2617" title="O Milagre veio do Espaço" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/milagreespaco.jpg" alt="O Milagre veio do Espaço" width="586" height="450" /><p class="wp-caption-text">No filme O Milagre veio do Espaço, humanos conhecem uma forma de vida não-orgânica, que mais nos parecem robôs</p></div>
<blockquote><p>What is the explanation of why we have not been visited? One possibility is that the argument, about the appearance of life on Earth, is wrong. Maybe the probability of life spontaneously appearing is so low, that Earth is the only planet in the galaxy, or in the observable universe, in which it happened. Another possibility is that there was a reasonable probability of forming self reproducing systems, like cells, but that most of these forms of life did not evolve intelligence.</p>
<p>[Qual é a explicação para nós não termos sido visitados? Uma possibilidade é que o argumento sobre a aparição da vida na Terra está errado. Talvez a probabilidade de a vida aparecer espontaneamente seja tão baixa que a Terra é o único planeta na galáxia, ou no Universo visível, no qual isso aconteceu. Outra possibilidade é que houve uma razoável probabilidade de se formarem sistemas autorreprodutivos, como células, mas que a maioria dessas formas de vida não desenvolveu inteligência.]</p></blockquote>
<p>Essa é uma possibilidade que temos que considerar. Porém, em termos puramente físicos, astronômicos e bioquímicos, alguns cientistas, como Carl Sagan, concordam que é improvável, pelas dimensões do Universo, que não exista vida fora da Terra. Mas que essa vida tenha evoluído para um estágio de inteligência como a conhecemos na Terra, ou até superior a ela, é uma outra possibilidade.</p>
<blockquote><p>It took a very long time, two and a half billion years, to go from single cells to multi-cell beings, which are a necessary precursor to intelligence. This is a good fraction of the total time available, before the Sun blows up. So it would be consistent with the hypothesis, that the probability for life to develop intelligence, is low. In this case, we might expect to find many other life forms in the galaxy, but we are unlikely to find intelligent life.</p>
<p>[Levou muito tempo, dois e meio bilhões de anos, para células simples evoluírem para seres pluricelulares, que é um precursor necessário para a inteligência. Esta é uma boa fração do tempo total disponível antes que o Sol exploda. Então isso seria consistente com a hipótese de que a probabilidade da vida desenvolver inteligência é baixa. Neste caso, deveríamos esperar encontrar muitas outras formas de vida na galáxia, mas é improvável que encontremos vida inteligente.]</p></blockquote>
<p>Nós temos um conceito de vida muito restrito aos parâmetros terráqueos, àquilo que conhecemos na superfície do terceiro planeta do Sistema Solar. E temos padrões mais restritos ainda para o que concebemos como vida inteligente.</p>
<p>A vida celular foi o que vingou na Terra, e talvez não houvesse muitas outras possibilidades neste ambiente. Mas o vírus é uma forma de vida não-celular, que talvez tivesse mais possibilidades de diferenciação num planeta diferente, e talvez até viesse a evoluir e alcançar o status de vida inteligente em outras paragens do Cosmos.</p>
<p>A vida pluricelular também deve ter sido o mais adequado para as condições deste planeta. Mas  não seria possível que, em determinadas condições, uma espécie unicelular evoluísse de modo a crescer mais e mais, se diferenciando cada vez mais em suas organelas e assumindo uma forma macroscópica com um sistema interno próprio ao desenvolvimento da inteligência? O sistema neurológico é a única estrutura que a natureza poderia ter encontrado para desenvolver cérebros?</p>
<p>Toda essa especulação vai no sentido de vislumbrar uma forma de vida com inteligência da maneira como entendemos esta. Por mais que façamos abstrações, a cognição humana pode ser apenas uma de inúmeras possibilidades.</p>
<p>A organização do pensamento humano tem uma especificidade que advém da peculiaridade da experiência do <em>Homo sapiens.</em> Grande parte da forma como o ser humano representa o mundo, o compreende e o interpreta é resultado de um modo peculiar de percebê-lo e de interagir com ele. É o que mostra Gilbert Durand no livro <em>As Estruturas Antropológicas do Imaginário:</em> aprender a se erguer e caminhar nos faz valorizar e desvalorizar de uma certa forma as noções de cima e baixo, de subida e descida; o impulso e o ato de comer e a sexualidade nos fazem entender de uma certa maneira nossa animalidade e os conceitos de dentro e fora. A especificidade dos sentidos humanos também influenciam essas valorizações, de modo que, por exemplo, a luz se torna um conceito/imagem extremamente importante nas metáforas sobre o conhecimento do mundo, já que a visão é um dos, se não o mais, sentidos mais importantes do <em>Homo sapiens.</em></p>
<p>Uma espécie sem visão, que pautasse a maior parte de suas percepções do mundo na audição, por exemplo, da forma como um morcego &#8220;enxerga&#8221; (e da forma como o super-herói Demolidor (Daredevil), da Marvel, &#8220;vê&#8221;, usando uma audição aguçadíssima), poderia construir o entendimento (interessantemente, o verbo <em>entender</em> é cognato do francês <em>entendre,</em> que significa &#8220;ouvir&#8221;) do mundo com base em metáforas que incluem a ideia de voz, de música, de melodia, e poderia, ao invés de textos para serem lidos, gravarem seus conhecimentos em meios auditivos. Como deve ser a cognição de um rapaz cego que se localiza no espaço através de ecolocalização, se a compararmos com o pensar de uma uma pessoa vidente?</p>
<p style="text-align: center;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="600" height="481" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/YBv79LKfMt4&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="600" height="481" src="http://www.youtube.com/v/YBv79LKfMt4&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p>Além disso, se buscarmos as variações da própria espécie humana, veremos como às vezes é difícil traduzir os modos de pensar de povos com cultura diferente da nossa. Essa tentativa de compreender a linguagem, o pensamento, a cosmologia e a cultura do outro é o principal esforço das obras etnográficas de autores como Bronislaw Malinowski, Ruth Benedict, Claude Lévi-Strauss e todos os antropólogos que viveram entre alienígenas e escreveram sobre suas experiências.</p>
<p>Se muitas vezes é preciso ficar imerso na cultura do outro humano por um bom período até se entender seu modo de viver e pensar, imaginemos como seria hercúleo o esforço para compreender a cultura de uma espécie nascida num planeta diferente, com composição química diferente, aparência diferente, modos de se comunicar diferentes.</p>
<p>Ora, demoramos tanto tempo para descobrir uma fração da inteligência dos golfinhos, uma das espécies mais inteligentes no planeta Terra. Douglas Adams, em <em>O Guia do Mochileiro das Galáxias,</em> mostra de forma bem-humorada como é difícil uma espécie chegar a compreender a inteligência de outra. Na história, os golfinhos, a segunda espécie mais inteligente da Terra (antes dos humanos,a terceira, e depois dos ratos), sabiam que a Terra estava prestes a ser destruída, mas não conseguiram avisar os humanos, que interpretaram sua mensagem como piruetas divertidas. Vejam o trecho inicial do filme inspirado no livro:</p>
<p style="text-align: center;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="600" height="481" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/a6855H12Ueg&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="600" height="481" src="http://www.youtube.com/v/a6855H12Ueg&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p>Podemos então vislumbrar espécies extraterrestres tão díspares daquilo que consideramos vida inteligente que teríamos dificuldade até de reconhecer que são inteligentes, como a criatura de silício encontrada por Kirk e Spock, descrita na primeira parte deste texto. Assim, qualquer primeiro contato entre duas espécies inteligentes está sujeita a muitos mal-entendidos.</p>
<p>Esse foi o tema de um episódio da série televisiva <em>Babylon 5,</em> em que a origem da guerra entre humanos e minbari é explicada: em seu primeiro contato, uma nave humana encontrou uma nave minbari, cujos tripulantes ativaram as armas da nave, que para eles é um sinal de respeito (algo como tirar a espada da bainha e pô-la no chão, significando a intenção de não entrar em conflito). Os humanos interpretaram o gesto como uma ofensiva, e teve início um longo conflito.</p>
<p>Há assim muitos motivos para ter cautela nos contatos com extraterrestres, e sobre isso me delongarei na próxima parte de <em>Contatos Imediatos.</em></p>
<div id="attachment_2638" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-2638" title="Continua..." src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/milagreespacocontinua.jpg" alt="Continua..." width="586" height="450" /><p class="wp-caption-text">Continua...</p></div>
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		<title>Contatos imediatos – parte 1</title>
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		<pubDate>Fri, 21 May 2010 10:00:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou Contatos físicos, extrafísicos e especulativos Stephen Hawking disse recentemente que é no mínimo bastante improvável que a Terra seja o único planeta onde tenha surgido vida, já que estamos num Universo com 100 bilhões de galáxias, cada uma com centenas de milhões de estrelas. De fato, a pretensão de que somos o ápice da &#8220;Criação&#8221; só [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">ou <strong>Contatos físicos, extrafísicos e especulativos</strong></p>
<p>Stephen Hawking disse recentemente que é no mínimo bastante improvável que a Terra seja o único planeta onde tenha surgido vida, já que estamos num Universo com 100 bilhões de galáxias, cada uma com centenas de milhões de estrelas. De fato, a pretensão de que somos o ápice da &#8220;Criação&#8221; só se justifica na ignorância sobre os atuais conhecimentos da Astronomia.</p>
<p>Em certa época, não se sabia que as estrelas eram corpos celestes gigantescos com astros menores ao redor de si, nem se tinha ideia da quantidade de estrelas da nossa galáxia e tampouco que Andrômeda era uma outra galáxia como a nossa e que havia muitíssimo mais delas no Universo.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-2344" title="Independence Day (1996)" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/independenceday1996.JPG" alt="Independence Day (1996)" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-2188"></span>Hawking disse ao jornal britânico The Sunday Times:</p>
<blockquote><p>To my mathematical brain, the numbers alone make thinking about aliens perfectly rational, The real challenge is working out what aliens might actually be like.</p>
<p>[Para o meu cérebro matemático, os números por si mesmos tornam perfeitamente racional pensar na existência de alienígenas. O verdadeiro desafio é imaginar qual seria a real natureza dos alienígenas.]</p></blockquote>
<div id="attachment_2358" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-2358" title="Vulcanos" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/vulcanos1.JPG" alt="Capitão Kirk no planeta Vulcano, durante o pon farr de Spock" width="300" height="177" /><p class="wp-caption-text">Capitão Kirk no planeta Vulcano, durante o pon farr de Spock</p></div>
<p>Tendo em vista o escassíssimo conhecimento sobre vida extraterrestre, não dá para ir muito mais longe do que a especulação. Apenas sabemos um pouco sobre as condições materiais e climáticas de alguns corpos celestes. Naqueles raros que possuem características semelhantes às da Terra (que na ficção científica de <em>Jornada nas Estrelas</em> são chamados de &#8220;Classe M&#8221;), pode-se imaginar um tipo de vida baseado em água e carbono que talvez se assemelhe às espécies do planeta azul. Ou talvez sejam parecidas com estas apenas microscopicamente.</p>
<p>Em planetas com composição, tamanho, órbita e/ou clima diferentes dos da Terra, poderia haver espécies vivas extremamente diversas, quem sabe feitas de metal, como os metalianos de Marcelo Cassaro <em>(Espada da Galáxia),</em> de silício, como as grandes lesmas de Janus VI <em>(Jornada nas Estrelas),</em> ou compostos de matéria mais densa do que a nossa ou até mais rarefeita.</p>
<div id="attachment_2362" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-2362" title="Sr. Spock e a criatura de silício" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/spockelesmadesilício.JPG" alt="Sr. Spock fazendo uma conexão mental com a criatura de silício de Janus VI" width="586" height="368" /><p class="wp-caption-text">Sr. Spock fazendo uma conexão mental com a criatura de silício de Janus VI</p></div>
<p><img class="alignright size-full wp-image-2360" title="Xenomorfo" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/xenomorfo.JPG" alt="Xenomorfo" width="200" height="308" />Muitas histórias de ficção científica descreveram uma enorme variedade de espécies vivas com características que, para os padrões humanos, seriam consideradas bizarras. Um exemplo é a xenomorfo, que apareceu pela primeira vez no filme <em>Alien: O Oitavo Passageiro.</em> Ele possui um ciclo reprodutivo bastante complexo, além de ser resistente aos extremos calor e frio e ter sangue altamente corrosivo.</p>
<p>Muitas pessoas relatam contatos com seres de outros planetas. Esses contatos podem ser de dois tipos (considerando a possibilidade ou probabilidade de sua veracidade, excluindo-se mentiras e alucinações):</p>
<ol>
<li>Contato imediato intrafísico, em que os alienígenas em questão se fazem presentes na dimensão material, com seus corpos físicos;</li>
<li>Contato imediato ou não extrafísico, em que a testemunha vê uma imagem ou encontra, numa projeção da consciência para fora do corpo, um ou mais indivíduos que habitam outro planeta e se apresentam, na dimensão extrafísica, com a forma que possui seu corpo físico (no caso de ainda estar vivo; pode acontecer de ele ter morrido e estar se manifestando apenas extrafisicamente).</li>
</ol>
<p>Esses encontros de ambos os tipos podem ter inspirado grande parte dos personagens fictícios que encontramos em livros, filmes e séries de TV. De qualquer forma, há muitas especulações, mais ou menos verossímeis, sobre as diversas possibilidades de formas de vida no Universo. Elas podem ter atingido ou não um grau avançado de complexidade mental, social e cultural, podem ser mais animalescas do que nós ou muito mais sofisticadas psiquicamente.</p>
<blockquote><p>We only have to look at ourselves to see how intelligent life might develop into something we wouldn&#8217;t want to meet. I imagine they might exist in massive ships, having used up all the resources from their home planet. Such advanced aliens would perhaps become nomads, looking to conquer and colonise whatever planets they can reach.</p>
<p>[Só precisamos olhar para nós mesmos para ver como a vida inteligente poderia se desenvolver em algo que nós não gostaríamos de encontrar. Imagino que eles devam existir em naves gigantes, tendo esgotado todos os recursos de seu planeta-natal. Esses alienígenas avançados poderia talvez se tornar nômades, procurando conquistar e colonizar qualquer planeta que eles encontrem.]</p></blockquote>
<p>Se a vida em outro planeta se desenvolver num caminho parecido com o que trilharam os seres vivos da Terra, é razoável pensar que uma espécie alienígena inteligente venha a possuir uma psique parecida com a nossa e desenvolver anseios parecidos com os humanos.</p>
<p>Gilbert Durand, no livro <em>As Estruturas Antropológicas do Imaginário,</em> argumenta que os esquemas básicos do imaginário humano e, portanto, de sua psicologia, apresentam certos elementos fundantes universais (universais no âmbito da espécie humana, claro), baseados na experiência básica comum a todos os indivíduos da espécie, especialmente o impulso e a experiência de se alimentar, o aprendizado de se elevar na postura ereta e andar, e o impulso e a vida sexuais.</p>
<p>Assim, muitas das características que nos tornam humanos deverão estar presentes numa espécie que possui morfologia e fisiologia parecidas com as nossas e um ciclo reprodutivo semelhante. Por outro lado, é verossímil imaginar que espécies possuidoras de uma biologia alienígena para os nossos padrões tenha uma fisiologia psicológica bem diversa, talvez chegando a desenvolver uma cognição equivalente em alguns pontos, mas com processos mentais que funcionam de outra maneira, com desejos e repulsas diferentes dos nossos.</p>
<div id="attachment_2481" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-2481" title="Klingons gritando à morte de um dos seus" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/mortedeumklingon.jpg" alt="Os klingons gritam quando um dos seus morre, para avisar aos espíritos que um guerreiro terrível agora ronda entre eles" width="300" height="230" /><p class="wp-caption-text">Os klingons gritam quando um dos seus morre, para avisar aos espíritos que um guerreiro terrível agora ronda entre eles</p></div>
<p>Essas prováveis diferenças na &#8220;natureza&#8221; mental, cultural, moral e psíquica das espécies alienígenas é muito explorada na série <em>Jornada nas Estrelas: A Nova Geração.</em> É comum, na série, que cada espécie com que os humanos entram em contato estranhe as emoções, os valores, o modus vivendi, a visão de mundo do <em>Homo sapiens,</em> e este age de modo recíproco.</p>
<p>No entanto, toda essa abordagem tem sérias controvérsias. Em <em>Jornada nas Estrelas,</em> cada espécie, inclusive a humana, é tratada de modo extremamente homogêneo, como se não houvesse variações culturais. Dessa forma, a caracterização dos humanos é grandemente baseada nos valores ocidentais, perdendo-se de vista que, por exemplo, existem povos humanos que têm uma cultura parecida com a dos klingons. Estes, por sua vez, compartilham todos o mesmo modo de viver, sem variações análogas à real condição multímoda do Homo sapiens.</p>
<p>Outra controvérsia é a própria visão hominocêntrica de Hawking, que imagina que a forma de encarar o universo de seres inteligentes de outros planetas deva ser a mesma do ser humano. Pode ser que alguma espécie tenha desenvolvido uma ética universalista que os impede de se aproveitar de uma espécie menos ou mais avançada (como a Primeira Diretriz da Federação, em <em>Jornada nas Estrelas).</em> Embora a história humana tenha sido marcada por guerras, espoliações, genocídios e violentas conquistas, é razoável imaginarmos uma situação futura em que essas coisas terão diminuído significativamente. E isso pode acontecer com outras espécies algures, nesta ou em outra galáxia.</p>
<div id="attachment_2510" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-2510" title="Continua..." src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/spocksiliciocontinua.jpg" alt="Continua..." width="586" height="368" /><p class="wp-caption-text">Continua...</p></div>
<h3>Fonte</h3>
<ul>
<li><em><a href="http://www.dailygalaxy.com/my_weblog/2010/04/stephen-hawking-update-alien-contact-not-a-wise-idea-a-sunday-feature.html" target="_blank">Stephen Hawking Update: &#8220;Alien Contact Not a Wise Idea&#8221; (A Weekend Feature)</a></em> &#8211; The Daily Galaxy</li>
</ul>
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		<title>Oroboro</title>
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		<pubDate>Sat, 15 May 2010 23:54:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou A trança interminável No filme A História sem Fim (The NeverEnding Story, 1984), de Wolfgang Petersen, o garoto Bastian encontra um livro cuja trama é afetada pela leitura de quem o tem em mãos. A terra de Fantasia, cenário da história lida por Bastian, está em declínio, e cabe a Bastian salvar a Imperatriz [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">ou <strong>A trança interminável</strong></p>
<p>No filme <em><strong>A História sem Fim</strong></em> <em>(The NeverEnding Story,</em> 1984), de Wolfgang Petersen, o garoto Bastian encontra um livro cuja trama é afetada pela leitura de quem o tem em mãos. A terra de Fantasia, cenário da história lida por Bastian, está em declínio, e cabe a Bastian salvar a Imperatriz Menina, dando-lhe um nome e assegurando a continuidade das história de Fantasia.</p>
<p>Mas a obra de Michael Ende, <em>Die Unendliche Geschichte (A História sem Fim),</em> que inspirou o filme, tem um apelo maior (infelizmente ainda não o pude ler), pois na própria trama de <em>A História sem Fim</em> acompanhamos Bastian encontrar um livro com esse mesmo nome, e temos a impressão de que nossa própria leitura afeta a história na qual há um livro cuja leitura afeta uma outra história, que no final é a mesma.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-2292" title="A História sem Fim (1984)" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/bastianahistoriasemfim.jpg" alt="A História sem Fim (1984)" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-2285"></span></p>
<div id="attachment_2293" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-2293" title="Auryn, uma variação do Oroboro" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Auryn.jpg" alt="Auryn, uma variação do Oroboro" width="300" height="178" /><p class="wp-caption-text">Auryn, uma variação do Oroboro</p></div>
<p>Dessa forma, o símbolo ostentado pela capa do livro, o Auryn, uma variação do antigo Ouroboros ou Uroboro ou ainda Oroboro (mais condizente com o seu sentido, por ser um palíndromo), a serpente que morde a própria cauda, sinaliza o fato de que a leitura cria a história e a existência da história provoca a leitura.</p>
<p>Esse aspecto da autossustentação nos remete ao conceito de <em>autopoiese,</em> descrito por Humberto Maturana e Francisco Varela no livro <em><strong>A Árvore do Conhecimento.</strong></em> O paradoxo da vida, segundo os dois biólogos chilenos, é que o ser vivo consome a energia que capta do ambiente, transformando-a em e/ou mantendo uma estrutura capaz de transformar a energia do ambiente, que se constitui na composição de seu corpo&#8230; coisa meio enrolada. O que temos que (tentar) entender é que o corpo vivo é uma estrutura composta de energia e é ao mesmo tempo um sistema que processa a energia para se manter existente.</p>
<div id="attachment_2295" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-2295" title="Ilustração de A Árvore do Conhecimento, de Maturana e Varela" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/ouroboros.jpg" alt="Ilustração de A Árvore do Conhecimento, de Maturana e Varela" width="300" height="245" /><p class="wp-caption-text">Ilustração de A Árvore do Conhecimento, de Maturana e Varela</p></div>
<p>É como tentar entender quem veio primeiro, o ovo ou a galinha (se bem que, entendendo como se dá a evolução dos seres vivos neste planeta, certamente houve um ovo de outra espécie que gerou a primeira galinha). O ser vivo se automantém, ou seja, funciona para existir e existe para funcionar. Ora bolas, vejam a ilustração ao lado e entendam (ou não) o que eu acho que estou querendo dizer.</p>
<p>O ciclo interminável, o looping, a profecia autorrealizada e/ou autorrealizável, é tema de várias histórias desde a antiguidade. Quando Laio e Jocasta descobrem que o destino de seu filho Édipo é matar o pai e se casar com a mãe, todos os cuidados que eles têm para impedir que isso aconteça acabam realizando a profecia. Várias histórias da mitologia grega funcionam segundo esse mote.</p>
<p>No filme <em><strong>Em Algum Lugar do Passado</strong></em><em> (Somewhere in Time,</em> 1980), uma mulher idosa dá um relógio de ouro a um homem, que volta ao passado para presenteá-lo à mesma mulher que lho deu, ainda jovem. Ele retorna ao presente por acidente e a mulher espera décadas até poder encontrar seu amado de novo e lhe dar o relógio, que é o ensejo para que ele volte no tempo&#8230; eu me pergunto se a passagem do tempo se aplica a esse relógio. O paradoxo é: a história do relógio é cíclica, ocorre num looping eterno em um determinado trecho da história do Universo. Mas enquanto o relógio existir por si mesmo, ele não estará sujeito a se estragar? Não chegará um &#8220;tempo&#8221; em que ele vai começar a apresentar marcas de uso, deixando de ser tão simbolicamente valioso, provocando uma degradação do referido looping e causando a desintegração de toda a história do Cosmos como a conhecemos?</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-2297" title="Em Algum Lugar do Passado" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/somewhereintimeoroboro.jpg" alt="Em Algum Lugar do Passado" width="600" height="337" /></p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-2300" title="Fuga do Planeta dos Macacos (1971)" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/fugaplanetamacacosoroboro.jpg" alt="Fuga do Planeta dos Macacos (1971)" width="200" height="306" />Quando Dra. Zira e Cornelius <em>(O Planeta dos Macacos &#8211; Planet of the Apes,</em> 1968; <em><strong>Fuga do Planeta dos Macacos</strong></em><em> &#8211; Escape from the Planet of the Apes,</em> 1971))voltaram ao passado, utilizando a nave espacial dos humanos que pousaram na Terra futurista em que macacos dominam humanos, eles acabaram por dar à luz o indivíduo que iniciaria o processo de ascensão dos primatas e subjugação do Homo sapiens. A viagem de humanos ao futuro, que revelou que seu destino era inverter os papéis com gorilas, chimpanzés e orangotangos, permitiu que alguns chimpanzés voltassem no tempo e, acidentalmente, provocassem esse mesmo destino.</p>
<p>Algumas abordagens humorísticas sobre os paradoxos da viagem no tempo nos permitem experimentar com mais proximidade essa vertigem cíclica, que só se experimenta quando se compreendem minimamente esses ciclos. Pois há algumas pessoas que não conseguem entender nem as explicações do Dr. Brown na trilogia <em>De Volta para o Futuro (Back to the Future,</em> 1985).</p>
<p>Num episódio longo do cartoon <em>O Laboratório de Dexter</em> chamado <em><strong>A Viagem de Dexter</strong></em><em> (Dexter&#8217;s Laboratory: Ego Trip,</em> 1999), o menino gênio viaja para o futuro para investigar como ele salvará o mundo, informação que ele recebe de robôs futuristas que vêm &#8220;destruir a pessoa que salvou o futuro&#8221;. Mais tarde, ele descobre que seria sua irmã Dee Dee a salvar o futuro, apertando um botão vermelho. Irado, Dexter e seus 3 alter-egos temporais (suas versões em 3 épocas diferentes do futuro, um jovem adulto franzino, um adulto musculoso e careca e um velhinho que usa peruca ruiva), constroem robôs programados para voltar ao &#8220;presente&#8221; e destruir Dee Dee. Quando os robôs chegam ao &#8220;presente&#8221;, Dexter os ouve dizer que vieram &#8220;destruir a pessoa que salvou o futuro&#8221; e&#8230; Oroboro!</p>
<p><img class="size-full wp-image-2304 alignleft" title="Supremo: A Era Moderna" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Supremo-4.jpg" alt="Supremo: A Era Moderna" width="200" height="289" />Na série de quadrinhos <em><strong>Supremo,</strong></em> houve um arco de histórias escrito por Alan Moore, que tratou o personagem como um puro e simples plágio do Super-Homem, e fez ao mesmo tempo uma paródia e uma homenagem so super-heróis kryptoniano.</p>
<p>Em um dos episódios escritos por Moore, um personagem chamado Meteoro Mestre viaja ao passado para destruir o jovem Supremo, por vingança, e recebe ajuda do jovem Darius Dax (sátira de Lex Luthor) para realizar seu plano. Este dá errado, e ele vai para o futuro tentar destruir o Supremo adulto, recebendo ajuda do Dax maduro e falhando novamente. Como perdeu parte da memória, ele não lembra mais que já havia ido ao passado e e decide voltar no tempo para se vingar do jovem Supremo e&#8230; bem, de onde veio esse cara? Ele só existe nesse looping temporal eterno, e em nenhum outro lugar. É quase o mesmo problema do relógio de ouro do Super-Homem&#8230; digo, do personagem de Christopher Reeve em <em>Somewhere in Time</em> (título que, a propósito, é o mesmo de um dos melhores álbuns do Iron Maiden).</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-2311" title="Sandman: Estação das Brumas" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/sandmanestacaodasbrumas.jpg" alt="Sandman: Estação das Brumas" width="200" height="300" />Em <em><strong>Sandman: Estação das Brumas</strong> (Sandman: Season of Mists,</em> 1990-1991), dois anjos são designados por Deus para tomar conta do Inferno, ordem que é questionada por eles, o que os torna automaticamente anjos caídos, incapazes de voltar ao Céu.</p>
<p>Esse é um dos problemas da crença teísta em desígnios divinos. Se Deus controla tudo, então é da vontade dele que haja pecadores, que estes ajam como agem, o que nos faz perguntar: então eles não têm escolha? Então ninguém tem escolha? Segundo o <em>Êxodo,</em> foi Deus quem fez o Faraó &#8220;endurecer o coração&#8221; e negar aos hebreus a saída do Egito, o que foi motivo da ira de Deus. É como se eu ensinasse uma criança a usar uma baladeira e a culpasse por matar um passarinho.</p>
<p>Toda essa divagação cíclica sobre o Oroboro, a serpente que morde o próprio rabo, tem a ver com a própria construção do ser humano e o desenvolvimento do conhecimento humano.São nossas capacidades psico-físicas que nos permitem apreender o mundo, e essa apreensão (palavra cognata de aprender e aprendizado) nos capacita a aprender mais, o que cria a espiral crescente da evolução humana.</p>
<p>Analogamente, os mitos e histórias fantásticas surgem de impulsos material-imaginativos, e sua acumulação cria um  repositório de imagens, símbolos, esquemas narrativos que servem de fonte para a manutenção desses impulsos material-imaginativos. Daí, a criação de ficções fantásticas em forma textual é alimentada pela necessidade cognitiva dos leitores, o que suscita a (re)criação dessas histórias sem fim.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-2308" title="Está difícil acompanhar esse raciocínio. O que é Oroboro mesmo?" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/somewhereintimeoroboroduvida.jpg" alt="Está difícil acompanhar esse raciocínio. O que é Oroboro mesmo?" width="600" height="337" /></p>
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		<title>Cotas raciais – parte 3</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Apr 2010 00:26:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou Se as e raças existissem, deveriam ser abolidas A raça é uma construção social. A maioria dos cientistas sociais e biólogos vão concordar com essa afirmação. Isso não quer dizer que ela não tenha efeitos nocivos sobre nós. A ideia de que existem raças baseia a discriminação racial. Mas, justamente por isso. a ideia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">ou <strong>Se as e raças existissem, deveriam ser abolidas</strong></p>
<p>A raça é uma construção social. A maioria dos cientistas sociais e biólogos vão concordar com essa afirmação. Isso não quer dizer que ela não tenha efeitos nocivos sobre nós. A ideia de que existem raças baseia a discriminação racial. Mas, justamente por isso. a ideia de que uma &#8220;raça&#8221; possui aspectos intrínsecos que a diferenciam das outras deveria ser desconstruída. No entanto, há muito mais coisas a ser consideradas na discussão sobre cotas raciais&#8230;</p>
<p>Nesta terceira parte da <em><a href="http://teianeuronial.com/tag/serie-cotas-raciais/" target="_self">Série Cotas Raciais</a>,</em> dou continuidade à <a href="http://teianeuronial.com/cotas-raciais-parte-2/" target="_self">análise dos comentários</a> que foram deixados na <a href="http://teianeuronial.com/cotas-raciais-parte-1/" target="_self">primeira parte</a>. Retomo aqui um comentário de Eduardo Prado, autor do blog <a href="http://www.conversadebar.net/" target="_blank">Conversa de Bar</a>, e um de AmBar Amarelo. O tema vai se complexificando ainda mais e, pessoalmente, vou ficando com grandes dúvidas sobre o posicionamento anticotas que eu costumava defender&#8230;</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1848" title="Operários, de Tarsila do Amaral" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/operariospb.jpg" alt="Operários, de Tarsila do Amaral" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-2092"></span></p>
<h3>Comentário de <a href="http://teianeuronial.com/cotas-raciais-parte-1/#comment-1012" target="_self">Eduardo Prado</a></h3>
<blockquote><p>Concordo, por exemplo, que na raiz do problema está o acesso à uma educação de qualidade.</p></blockquote>
<p>É interessante notar que a questão educacional parece ser a única unanimidade. A diferença é que os pró-cotas defendem ações emergenciais antes que a (certamente demorada) reforma educacional seja realizada, enquanto os anticotas geralmente alardeiam a imediata melhoria do ensino público, mas ninguém faz nada para mudá-lo. Neste sentido, eu tendo a concordar com cotas que atendam minorias, como forma de pressionar a implementação dessas mudanças.</p>
<blockquote><p>Discordo, no entanto, dos que acreditam que as cotas vão servir para racializar as relações sociais no Brasil, talvez por que eu não entenda raça como uma determinação biológica. A palavra raça, que provavelmete tem origem comum a palavra raíz, é muito mais antiga que o conceito biológico de raça inventado no século XIX, talvez um pouco antes, no XVIII. Eu entendo raça como uma construção cultural e dinâmica, cujos sentidos e significados variam e se transformam ao longo do tempo. Sob o meu ponto de vista, o Brasil já é um país racializado, sempre foi.</p></blockquote>
<p>Sim, raças são construções sociais. E, sim, existem relações raciais no Brasil, existem identidades raciais e existe racismo aqui. Mas justamente por ser uma construção social é que a raça deve ser desconstruídas, por um ideal antirracista. O racismo se baseia na ideia de que existem raças.</p>
<p>É claro que se pode conceber a existência de raças como meras identidades superficiais, sem que se pense em diferenças intrínsecas a elas. Como se fossem &#8220;tribos&#8221; (algo parecido com a ideia de &#8220;tribos urbanas&#8221;). Outra forma comum (embora em desuso) e com implicações bem menos sérias de se usar o termo &#8220;raça&#8221; é quando ela é sinônimo de família ou estirpe. &#8220;Fulano é da raça dos Araújo&#8221;.</p>
<p>Só através do reconhecimento de raças e de que as relações sociais sofrem interferência do racismo é que se poderiam criar políticas destinadas à mitigação dessa discriminação. Afinal, é preciso identificar de alguma forma quem é a população discriminada.</p>
<p>Eu também discordo que a implementação de cotas raciais <em>criariam</em> um racismo no Brasil. O racismo já existe. Mas eu tenho uma grande suspeita de que elas poderiam intensificar, em alguns contextos, o racismo já existente. Por outro lado, ao dar uma chance a pessoas que não têm condições de competir em igualdade no vestibular, abrir-se-ia a possibilidade de melhorar a vida dessas pessoas e, a longo prazo, melhorar sua autoestima, o que, por tabela, diminuiria até certo ponto o menosprezo e a subestimação dos negros, o que, por fim, diminuiria um pouco o racismo.</p>
<p>Mas, neste sentido, penso que seriam melhor as cotas sociais, que atuariam em cima do fator mais relevante na exclusão da Academia. O vestibular não discrimina a raça do candidato, mas a capacidade de resolver uma prova. O fato de uma pessoa ser negra não diminuiu a possibilidade de ela passar na prova, mas o fato de ela ter estudado em escola pública diminui. Mas as cotas sociais poderiam trazer um complicado dilema: será que elas 1) pressionariam o Estado a melhorar o Ensino Público ou, pelo contrário, 2) fariam o Estado relaxar nesse âmbito? Acho mais provável o primeiro caminho, e seria uma vantagem a longo prazo das cotas sociais.</p>
<p>Dito tudo isso, eu acho sim que poderiam haver cotas raciais em determinados contextos, mas não na Universidade. Existe racismo. Este precisa ser combatido. Mas há muitas outras formas, diretas e indiretas, de se fazer isso que não o acesso à Academia.</p>
<blockquote><p>É comum ouvir comparações com os EUA, que teve uma história de escravidão em comum com o Brasil em muitos aspectos. Em geral compara-se a especificidade das relações “raciais” no Brasil a dos estados do Sul dos EUA, onde a discriminação contra o negro foi legal até o fim dos anso 50. São poucos os que lembram que a situação do negro nos estados do Norte, que assim como o Brasil, não conheceu leis raciais. Lá, como aqui, a discriminação se dá a partir das praticas sociais, na seleção para uma vaga de emprego, na recusa a alugar um imóvel, entre outras. Não foram as leis raciais, já que elas não existiam no Norte, que induziram a formação de bairros negros em Nova Iorque ou Boston, e sim a precária situação econômica dos negros, que os impedia de morar em bairros melhores. Nas grandes cidades brasileiras também existem bairros de negros e bairros de brancos. Só não existe a placa.</p></blockquote>
<div id="attachment_2166" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-2166" title="Bebedouros segregados na Carolina do Norte em 1950" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/bebedourosracistas.jpg" alt="Bebedouros segregados na Carolina do Norte em 1950" width="300" height="187" /><p class="wp-caption-text">Bebedouros segregados na Carolina do Norte em 1950</p></div>
<p>É preciso averiguarmos a real/atual situação brasileira, bem diferente da norte-americana. Não só pelas histórias diferentes das duas nações, mas principalmente porque não podemos generalizar o &#8220;racismo norte-americano&#8221; ou o &#8220;racismo brasileiro&#8221;. As manifestações do racismo no Brasil variam de região para região, de estado para estado, de cidade para cidade, de classe social para classe social, entre a zona urbana e a rural, e muitos outros recortes possíveis.</p>
<p>Provavelmente a violência simbólica e não-simbólica contra negros motivada por racismo na Bahia, onde há uma população negra muito numerosa, seja proporcionalmente menor do que no Rio Grande do Norte, onde há poucos negros, a maioria pobres da zona urbana ou agricultores da zona rural (uma minoria mesmo, no sentido político-social da palavra). E as formas como o racismo afeta as pessoas também vai variar com a região. Não posso apresentar nenhum dado específico, só estou especulando, mas penso que não estou dizendo nenhuma besteira. O fato é que, para situações diferentes de racismo, deveria haver soluções diferentes.</p>
<p>Quanto à comparação com os EUA, é preciso lembrar o trabalho de Bourdieu e Wacquant, <a href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0101-546X2002000100002" target="_blank">&#8220;Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista&#8221;</a>, onde os autores apontam para a importação de modelos de ação afirmativa, de países como os EUA por países como o Brasil. Não devemos esquecer isso, para construirmos políticas antirracistas que se adéquem a nossa realidade.</p>
<blockquote><p>Muitas pessoas defendem a adoção de cotas sociais, com toda razão, mas as cotas para quem se declara negro ou indígena tem um significado diferente. Não deixa de ser social, evidentemente, mas tem por objetivo acelerar a ascenção de mais brasileiros negros à classe média e a formação de negros em áreas onde sua presença é muito pequena ou quase insignificante, como a Medicina, a Engenharia, e tantas outras. O que aqueles que defendem as cotas pretendem é que o Brasil tenha uma classe média tão “colorida” como suas ruas. Claro que só garantir o acesso à Universidade não basta, é preciso dar condições para que o aluno continue no curso até o fim. Para isso, aprovar ajuda financeira ao estudante com dificuldades para se manter é fundamental.</p></blockquote>
<p>Um outro problema que vejo na &#8220;colorização&#8221; das classes mais favorecidas é que ela se faz numa perspectiva que não critica a própria estrutura de poder de nossa sociedade. Há uma estrutura social, econômica, cultural e política baseada na desigualdade de grupos (sociais, raciais, seja lá o que for, o fato é que há desigualdade), e as cotas não atuam na mitigação ou erradicação dessa desigualdade, mas a mantém, só mudando a composição de cada grupo. (Não adianta colocar um mendigo no trono do príncipe; a monarquia continua existindo.)</p>
<p>Mas as cotas, embora mantenham a ordem social vigente, poderiam ter resultados positivos a longo prazo. Como disse acima, o menosprezo a e a baixa autoestima dos negros e pobres poderiam diminuir e os preconceitos raciais e/ou sociais também diminuiriam.</p>
<p>No entanto, repetindo o que disse acima, a &#8220;raça&#8221; não dificulta a entrada de alguém na Universidade, o que dificulta é sua formação. Se devemos dar uma chance a um grupo, deveria ser aos pobres que frequentam a escola pública. Acho que seria negativo criar uma situação tal em que seja possível a um branco pobre que conseguiu, por esforço próprio, tirar uma ótima nota perder a vaga para um negro rico que não estudou e tirou uma nota medíocre.</p>
<blockquote><p>Quanto ao ensino público brasileiro, bem, é uma tragédia. Apesar das melhorias significativas apontadas pelos índices do MEC em quase todos níveis, ele vai precisar melhorar muito, mas muito mesmo, para ser considerado ruim. É lembrar que só recentemente alcançamos a universalização do acesso ao Ensino Fundamental. Hoje, segundo estatisticas do MEC, 97% das crianças dentre 6 e 12 anos estão na escola. Mas esses números não são motivo de comemoração. Metade dos estudantes brasileitos deixa a escola antes de terminar o 9º ano do Ensino Fundamental (antiga 8ª série), e só uma minoria,entre 20% e 30% conclue o Ensino Médio. Estes são os privilegiados, que apesar das dificuldades, da precariedade da escola pública (e de suas próprias condições de vida), dos professores sobrecarregados e mal pagos, podem concorrer a uma vaga no Ensino Supeior. Se a realidade fosse outra não precisaríamos estar aqui discutindo sobre cotas.</p></blockquote>
<div id="attachment_2168" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><a href="http://www.jornaldacidade.net/2008/noticia.php?id=5779" target="_blank"><img class="size-full wp-image-2168" title="Criança sergipana trabalhando" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/criançatrabalhandosergipe.jpg" alt="Criança sergipana trabalhando (www.jornaldacidade.net/)" width="200" height="267" /></a><p class="wp-caption-text">Criança sergipana trabalhando (www.jornaldacidade.net/)</p></div>
<p>Pois é, ainda há muito o que melhorar. E é necessário sanar o problema da impermanência na escola, para que mais e mais crianças pobres, negras, indígenas, ciganas etc. tenham mais chances de chegar à Universidade&#8230; agora estou me dando conta de um outro problema relacionado ao acesso à Universidade: boa parte das crianças negras/pobres nem chegam a fazer o vestibular, pois nem chegam ao final do segundo grau.</p>
<p>Um fato que pouco se discute é que a formação fundamental formal não é um índice totalmente confiável da vocação acadêmica. Há muitos graduandos que, embora tenham tirado boas notas no vestibular, são universitários medíocres. E há aqueles que não têm condições de resolver a prova do vestibular com eficácia mas, tendo a chance, se mostram excelentes acadêmicos. Esse é um tema que devo retomar em outro post.</p>
<blockquote><p>Esse é um tema que não se esgota. Na verdade, teria muito ainda pra escrever, mas já precisei cortar várias partes desse comentário para deixá-lo um pouco menor.</p></blockquote>
<p>Sem problema. Sempre haverá oportunidades para pincelarmos alguma coisa sobre esse extenso tema.</p>
<h3>Comentário de <a href="http://teianeuronial.com/cotas-raciais-parte-1/#comment-1013" target="_self">AmBar Amarelo</a></h3>
<blockquote><p>Thiago, sou CONTRA as cotas RACIAIS, e vou além: sou contra a identidade racial no Brasil (que não seja a brasileira).</p></blockquote>
<p>Também sou contra a manutenção das identidades raciais. O ideal antirracista que eu defendo é a ideia de que só existe uma identidade humana. Neste sentido, vou ainda mais além de você, pois uma &#8220;identidade brasileira&#8221; não deixa de ser um tipo de identidade racial. Ainda neste caminho, sou favorável a um cosmopolitismo e um antiufanismo.</p>
<blockquote><p>Gostaria de adicionar a discussão (por mais lenha na fogueira) que a própria idéia de “LIBERDADE-ANTE-ESCRAVISTA” é Européia (corrija-me se eu estiver errado). Tanto Europeus quanto Africanos possuíam seus próprios escravos. Porém estudos sugerem que até nos Quilombos havia escravidão entre Africanos de diferentes etnias.</p>
<p>Não que o senso de LIBERDADE , IGUALDADE e FRATERNIDADE seja exclusivamente europeu. Qualquer um que esteja preso terá senso de liberdade. Porém quem implantou isso no mundo foram eles!</p></blockquote>
<p>Já que me pediu para corrigi-lo, o correto é <em>antiescravista</em> <img src='http://teianeuronial.com/wp-includes/images/smilies/icon_razz.gif' alt=':P' class='wp-smiley' /> . Sim, os europeus impuseram, motivados por seus próprios interesses mercantis, o fim da comercialização de pessoas e, por tabela, o fim da escravidão. Mas isso não foi necessariamente inspirado por ideais humanistas (liberdade, igualdade, fraternidade).</p>
<p>Os negros ainda foram durante muito tempo considerados inferiores e com menos direitos do que os brancos (ainda há pessoas que pensam assim, nos EUA, no Brasil e muitos outros países da América). Embora estes não pudessem mais transformar aqueles em mercadorias, continuavam tendo que &#8220;aturar&#8221; sua presença.</p>
<blockquote><p>Se hoje consideramos a escravidão como algo brutal é porque os europeus impuseram isso ao mundo (não que no desenrolar a História outra civilização não pudesse fazer isso).</p></blockquote>
<div id="attachment_2169" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-2169" title="Amistad (1997)" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/amistadfilme.jpg" alt="Amistad (1997), de Steven Spielberg" width="200" height="291" /><p class="wp-caption-text">Amistad (1997), de Steven Spielberg</p></div>
<p>Dito isso, eu pergunto: e daí se foram os europeus que impuseram o antiescravismo? Por que lembrar isso com tanta ênfase? Por que insistir em que os africanos praticavam escravidão? Por que lembrar que os quilombolas tinham escravos?</p>
<p>Talvez se faça isso para relativizar a acusação de que os brancos são sempre algozes e de que os negros são sempre vítimas (o que fiz na primeira parte deste texto). Mas daí eu também me pergunto: isso é tão relevante assim? Dar crédito aos brancos que desenvolveram os ideais humanistas não diminui a gravidade da escravidão de negros por brancos. Lembrar que os negros tinham escravos não diminui o sofrimento sofrido por aqueles que estiveram no cativeiro.</p>
<p>Enfim, essas informações só são importantes para compreendermos como se deu a História humana e para evitarmos os erros cometidos no passado. Mas o importante em relação ao racismo na atualidade é entendermos como se dão <em>hoje</em> as relações raciais, de preconceito étnico, de desigualdade social etc. Procurarmos formas de resolver essas desigualdades entre os seres humanos contemporâneos. Afinal, há brancos pobres que descendem de famílias nobres e não sofrem menos por causa dessa ascendência. E há negros ricos que descendem de escravos e não necessitam de ações afirmativas para viver na liberdade de seus direitos.</p>
<blockquote><p>Quanto ao fato das relações sexuais que desencadearam a miscigenação: Será que foram apenas estupros? Então todos os mestiços do Pará são frutos de índios estuprados? CLARO QUE NÃO!</p>
<p>Lembremos de um ditado popular: “A pobreza aproxima as pessoas”. Agora imagine um sertanejo “português” esquecido nos desertos do nordeste, junto a ele uma negra “africana” compartilha de seu sofrimento (FOME, SEDE). Ambos não podem se apaixonar?</p>
<p>A grande pergunta: TODA MESTIÇAGEM BRASILEIRA FOI FRUTO DA VIOLÊNCIA?</p>
<p>É difícil de crer.</p></blockquote>
<p>Você tem toda razão, AmBar. A mestiçagem não foi fruto só da violência. Aliás, duvido que a maior parte dela tenha sido gerada por meios violentos. É um exagero dizer que toda a mistura se deu pela violência sexual dos colonizadores sobre as colonizadas e escravizadas, e é exagero afirmar que as relações entre senhores brancos e escravas negras era, em larga escala, consensual.</p>
<blockquote><p>As cotas sociais teriam o mesmo impacto positivo que as raciais, com a vantagem de não promover a identidade racial, que, ao meu ver, é um negro se achar africano e um branco se achar europeu.</p></blockquote>
<p>Eu discordo em alguns pontos. Como expus acima, penso atualmente que as cotas sociais seriam mais vantajosas do que as raciais no acesso à Universidade.</p>
<p>Quanto à identidade racial, ela não se dá necessariamente com a assunção de uma identidade africana ou europeia. As identidades raciais já existem sem essas referências geográficas de origem ancestral. É só olharmos ao nosso redor e percebermos com que facilidade nós identificamos os brasileiros como &#8220;negro&#8221;, &#8220;branco&#8221;, &#8220;japa&#8221;, &#8220;alemão&#8221;, simplesmente em referência ao fenótipo e sem nem pensar em quem eram seus ancestrais  de além-mar. É uma identidade racial que muitas vezes pode não ter grandes implicações. Às vezes pode.</p>
<p>Repetindo o que eu disse acima, tenho um ideal cosmopolita. Ser brasileiro não é mais importante do que ser alemão ou nigeriano ou coreano ou argentino. Seres humanos não têm raízes (e nem deveriam se dividir em <em>raças,</em> Eduardo). Se alguém quer se considerar &#8220;africano de alma&#8221; ou &#8220;europeu de coração&#8221;, por afinidade, acho que ela tem total liberdade.</p>
<p>Mas (e nisso concordo em certo sentido com AmBar) a intenção de se impor uma identidade em termos de uma origem extracontinental (o que se reflete em expressões como afro-brasileiro, ítalo-brasileiro, nipo-brasileiro etc.) é justamente uma violação da liberdade individual de cada um escolher sua própria identidade, baseada em suas próprias experiências e afinidades particulares.</p>
<blockquote><p>Quanto a dívida histórica eu pergunto: Mostrem-me os culpados!!</p>
<p>Negrinho da beija-flor é 80% europeu!!!! ele é 80% CULPADO!!</p>
<p>Todos os mestiços brancos são culpados? então a culpa é um fator aleatório.</p></blockquote>
<p>Como já disse na primeira parte, procurar culpados é uma tarefa improfícua e irracional. Precisamos superar a mentalidade antiquada de justiça, segundo a qual uma compensação para alguém tem que implicar necessariamente na privação de outro. Acho que é possível para o Brasil conceder compensações sem precisar prejudicar alguém. Há recursos suficientes para promover uma revolução da sociedade brasileira, mas&#8230; o dinheiro se concentra nas mãos de quem governa, de quem trabalha para manter seus exorbitantes salários e, se possível, aumentá-los.</p>
<blockquote><p>Devemos buscar o ideal de um país onde a mistura seja algo positivo e a negação à mistura seja algo terrivelmente negativo. E para que isso ocorra devemos acabar com essa mentira de identidade racial em um país mestiço.</p></blockquote>
<p>O ideal da identidade mestiça contém um paradoxo: a mistura pressupõe que há pelo menos duas coisas diferentes que deram origem a um híbrido, ou seja, se baseia na pré-noção de que há raças e de que o mestiço é uma interseção dessas raças. O ideal que defendo é a desconstrução de qualquer conceito de raça. Portanto, acho que ainda é limitado o ideal mestiço.</p>
<p>Assumir a mistura e viver segundo a ideia de que somos todos mestiços seria bem melhor do que vivermos sob a égide da segregação identitária. Mas acho que seria ainda mais evoluído considerarmos que não existe mistura por que não existe diferença. Um humano de pele escura e uma humana de pele clara dão origem a um humano.</p>
<p>Todos os indivíduos humanos são mestiços porque são resultado do cruzamento entre dois indivíduos, e nenhum indivíduo é igual a outro. Cada um de nós é uma raça, o que nos torna todos iguais.</p>
<h3>Links</h3>
<ul>
<li><em><a href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0101-546X2002000100002" target="_blank">&#8220;Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista&#8221;</a>,</em> por Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant &#8211; SciELO</li>
</ul>
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		<title>Pai e mãe não têm sexo</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Apr 2010 17:03:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou Homossexuais ainda na mira da Inquisição &#8211; parte 4 A luta daqueles que desejam ter filhos ainda tem um árduo caminho a ser percorrido no nosso homofóbico Brasil. Vejam, por exemplo, que o deputado Zequinha Marinho (PSC-PA) quer modificar o Estatuto da Criança e do Adolescente para proibir homossexuais de adotarem crianças. A primeira [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">ou <strong>Homossexuais ainda na mira da Inquisição &#8211; parte 4</strong></p>
<p>A luta daqueles que desejam ter filhos ainda tem um árduo caminho a ser percorrido no nosso homofóbico Brasil. Vejam, por exemplo, que o deputado Zequinha Marinho (PSC-PA) quer modificar o Estatuto da Criança e do Adolescente para proibir homossexuais de adotarem crianças.</p>
<p>A primeira coisa que deveria ser considerada na contra-argumentação à proposta de proibir alguém de um direito com base em seu comportamento ou orientação sexual é que, fazendo isso, incorre-se em inconstitucionalidade, pois implica em discriminar as pessoas por um critério antidemocrático. Perguntar se um candidato à adoção é homossexual equivaleria a perguntar qual é sua raça, religião, partido político ou time de futebol.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-2085" title="Procurando Nemo © Disney" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/marlinenemo.JPG" alt="Marlin e Nemo" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-2078"></span>Marinho faz parte de impertinente grupo de políticos cristãos (católicos e evangélicos) que confundem suas convicções pessoais com política, e desconsideram que estão num país democrático. O deputado diz:</p>
<blockquote><p>Como uma criança adotada se sentirá na escola, na rua, na sociedade, tendo o pai igual a mãe ou a mãe igual ao pai?</p></blockquote>
<p>Nenhuma pessoa é igual a outra. E o que se observa em qualquer relacionamento, seja heterossexual ou homossexual, é uma tendência a haver complementaridade na relação, ou seja, cada um dos parceiros tem traços pessoais que compensam os traços pessoais do outro, mesmo que haja muitas coisas em comum a ambos.</p>
<p>Além disso, há casais heterossexuais que vivem uma relação tão igualitária que, na prática, poderiam ser considerados homossexuais, os parceiros são parecidos demais entre si. E há casais homossexuais que vivem uma relação tão dicotômica que a diferença entre os parceiros é maior do que a da maioria dos pares formados por um homem e uma mulher.</p>
<p>E também não podemos esquecer a multiplicidade de tipos de famílias que existem atualmente e que fogem dos padrões &#8220;tradicionais&#8221; defendidos pelo conservadorismo do evangélico deputado Marinho: pai solteiro com filho(s), mãe solteira com filho(s), pais separados com filho(s), gays com filho(s), lésbicas com filho(s), trios de pais com filho(s), irmãos mais velhos criando os mais novos, avós criando os netos, tios criando os sobrinhos&#8230;</p>
<p>A afirmação do deputado deixa implícita a ideia de que toda criança deveria ser criada por um casal e que, portanto, uma pessoa deveria ser proibida de criar sozinha uma criança, já que se pode inferir que, segundo ele, o &#8220;normal&#8221; é ter um pai e uma mãe.</p>
<p>A criança encontrará colegas na escola com os mais diversos tipos de pais e responsáveis em sua tutela.  E mesmo quando ela entender que em nossa cultura aquilo que é considerado &#8220;normal&#8221; é a heterossexualidade e a importância de &#8220;pai e mãe&#8221;, temos que lembrar que os modelos de feminilidade e masculinidade não são exclusivamente representados por um pai e por uma mãe respectivamente (nem mesmo nos casais heterossexuais, em que, inclusive, o pai pode exercer um papel feminino e a mãe um papel masculino).</p>
<blockquote><p>Países desenvolvidos como a Holanda estão hoje perdidos sem saber para aonde vão.</p></blockquote>
<p>Essa afirmação extremamente ilógica se baseia tão-somente no fato de que os holandeses não têm restrição de adoção com base na sexualidade dos pais. Não há nenhuma consequência nefasta na Holanda advinda da adoção de crianças por gays e lésbicas.</p>
<p>É a simples reiteração de que a homossexualidade é um mal em si e, portanto, ser criada por homossexuais é um enorme perigo para uma criança. E até agora não se pôde  demonstrar qualquer efeito negativo na criação por pais homossexuais nem qualquer repercussão maléfica disso tudo para a humanidade.</p>
<h3>Link</h3>
<ul>
<li><em><a href="http://bulevoador.haaan.com/2010/04/14/deputado-quer-proibir-adocao-de-criancas-por-gays/" target="_blank">Deputado quer proibir adoção de crianças por gays</a></em> &#8211; Bule Voador</li>
</ul>
<h3>Nota sobre a ilustração</h3>
<p>Os peixes-palhaços são transexuais.</p>
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		<title>Cotas raciais – parte 2</title>
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		<pubDate>Wed, 31 Mar 2010 16:10:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou Mestiçagem, mistura de assuntos e relação entre temas No primeiro artigo sobre as cotas raciais, apontei questionamentos sobre a guerra discursiva entre os pró-cotas e os anticotas, tendo como mote o pronunciamento do senador Demóstenes Torres no Supremo Tribunal Federal. Antecipei que na segunda parte eu escreveria sobre minhas razões para ser um anticotas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">ou <strong>Mestiçagem, mistura de assuntos e relação entre temas</strong></p>
<p>No <a href="http://teianeuronial.com/cotas-raciais-parte-1/" target="_self">primeiro artigo sobre as cotas raciais</a>, apontei questionamentos sobre a guerra discursiva entre os <em>pró-cotas</em> e os <em>anticotas,</em> tendo como mote o pronunciamento do senador Demóstenes Torres no Supremo Tribunal Federal. Antecipei que na segunda parte eu escreveria sobre minhas razões para ser um anticotas e sobre os problemas relacionados ao vestibular e à Universidade.</p>
<p>Porém, os comentários à primeira parte foram muito extensos e decidi que não valeria a pena respondê-los diretamente na seção específica. Ao invés disso, achei que os comentários mereciam ser respondidos como continuações ao primeiro texto, prolongando-me aos poucos nas respostas e fazendo surgir mais questionamentos, tecendo uma teia neuronial extensa sobre o tema.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1894" title="Operários, de Tarsila do Amaral" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/operariossepia.jpg" alt="Operários, de Tarsila do Amaral" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-1888"></span></p>
<h3>Comentário de Duzão</h3>
<p>Primeiramente, retomo o <a href="http://teianeuronial.com/cotas-raciais-parte-1/#comment-1006" target="_self">comentário</a> de <a href="http://duzaohb.blogspot.com/" target="_blank">Duzão</a>, que afirma o seguinte:</p>
<blockquote><p>Na minha visão, está é principalmente uma tentativa de se superar a deficiência clara do ensino fundamental e médio no país, introduzindo a força pessoas de baixa renda social e sem cultura alguma em grandes faculdades. [sic]</p></blockquote>
<p>Há pelo menos duas coisas a se dizer sobre isso:</p>
<ol>
<li>As cotas raciais provavelmente incluem mais negros de classe médiado que os de baixa renda. Não só porque aqueles tenderão a estar mais preparados, por terrem estudado em escolas particulares (imagino que um negro que tire uma nota muito ruim provavelmente não conseguirá uma cota), mas também porque muitas pessoas de baixa renda não fazem o vestibular.</li>
<li>Muitos pobres não têm autoconfiança para passar por uma prova tãodisputada quanto o vestibular. Certa vez perguntei a um jovem negro de uma comunidade rural muito pobre se ele iria fazer o vestibular, já que naquele ano ele estava terminando o 2º grau. Ele disse que ia fazer, mas acrescentou: &#8220;Mas a gente não tem muita chance de entrar, não&#8221;. Ou seja, há uma baixa autoestima que, provavelmente, atrapalha a própria prova.</li>
</ol>
<p>Neste segundo ponto, penso que jaz um dos problemas reais do racismo no caso do acesso à universidade. Afinal, ainda temos uma herança racista que coloca os negros num patamar inferior quanto às capacidades mentais, e muitos dos próprios negros, especialmente os pobres, tendem a acreditar nessa suposta inferioridade.</p>
<blockquote><p>Em alguns anos, será fácil de se observar o governo se gabando de uma grande quantidade de bacharelados vindos do ensino público.</p></blockquote>
<p>Especialmente tendo em vista que um dos principais apelos deste governo, que dificilmente será esquecido nos próximos, é o de termos um presidente semianalfabeto que se orgulha de nunca ter lido um livro.</p>
<blockquote><p>Dentro desse pacote, o Governo consegue incluir outras milhares de discussões, que nada têm a ver com educação. A principal delas, os problemas raciais. Isso desvia o foco do que realmente devia ser discutido, a qualidade de todo o sistema educacional brasileiro, q é pior que o de governos muito mais pobres que o nosso.</p>
<p>Isso não quer dizer que devemos esquecer o racismo existente em nosso país. Misturar os assuntos confunde o público, aumenta o atrito e não leva nada a lugar nenhum.</p></blockquote>
<p>Até que há uma relação entre ensino fundamental e racismo. Quantos casos já não ouvimos de professoras do primário ofendendo alunos com depreciações à cor de sua pele ou à textura de seus cabelos? Quanto ainda se representam, inocentemente, ideias racistas nos livros escolares?</p>
<p>Penso que a própria escola deveria reassumir o papel de educar cidadãos com poder de reflexão, e que as crianças deveriam ser instigadas desde cedo a enxergar a humanidade como um só, entendendo desde cedo que há diferenças que são superficiais e não implicam em inferioridade nem superioridade.</p>
<p>Dessa forma, considero importante misturar os assuntos, sim, mas de forma crítica.</p>
<h3>Comentário de Gilson</h3>
<p><a href="http://meritocriticando.blogspot.com/" target="_blank">Gilson Rodrigues</a>, a cujo <a href="http://meritocriticando.blogspot.com/2010/03/ainda-sobre-cotas-respondendo-aos.html" target="_blank">texto sobre cotas raciais</a> eu fiz referência na primeira parte, também <a href="http://meritocriticando.blogspot.com/" target="_self">comentou</a>, deixando pontos importantes a ser discutidos.</p>
<blockquote><p>Senti-me, como deveria ser, provocado pelos argumentos que listou sobre os defensores das cotas… Falastes de uma tendência a diluição da identidades racionais através de expressões como as que referi anteriormente – moreninho – Bem, o complicador ai nao está na relação semantica e sim no peso simbólico… Pelo menos em minha experiencia de quase 17 anos em Natal… o uso de tal expressão tem mt mais a ver com “um politicamente correto”, como se fosse mais educado usar “moreninho” do que preto ou negro… Qts vezes chegaram para mim ou meu pai (com a pele bem mais escura que a minha) e ao ouvirem-nos afirmando que somos negros, ou chamando um ao outro de NEGÃO… Dizem: “Voces nao são negros… Olha a cor da sua pele (para mim)” ou “Seus lábios e sei nariza são afilados” (para o meu velho)… O que é isso? Diluição? Creio q não…</p></blockquote>
<p>Não me referi exatamente a uma diluição, mas a uma multiplicação de tipos raciais. Não acho que o fato de as pessoas se negarem a considerar alguém como negro seja necessariamente um eufemismo. A situação relatada por Gilson mostra um caso específico: duas pessoas que se consideram negros e cuja identidade racial autoatribuída se choca com uma identidade heteroatribuída. Talvez, se Gilson tivesse uma pele mais escura e seu pai tivesse nariz e lábios mais grossos, as mesmas pessoas que disseram que eles não são negros tivessem concordado com o termo que pai e filho usam, &#8220;negão&#8221;.</p>
<p>Ademais, retomando a questão da multiplicação de tipos raciais, eu procurei dizer que ela implica em diversos tipos de preconceito. Os tipos mestiços que não são considerados negros nem brancos sofrem uma discriminação (eu não disse que não a sofrem) diferente daquela sofrida por indivíduos considerados negros. Já os índios sofrem um outro tipo de discriminação, e por aí vai. Isso deveria ser levado em conta nas propostas de políticas afirmativas, para não se proporem soluções baseadas num quadro irreal.</p>
<p>E ainda há as diferenças de discriminação tendo em vista o status social. Por mais que um rico negro seja de vez em quando alvo de algum constrangimento, ele não tem as mesmas dificuldades de um pobre negro. As roupas, a linguagem corporal, a forma de falar, enfim, o habitus, exercem uma grande influência no tratamento que uma pessoa recebe das outras.</p>
<p>Se eu caísse (ou cair) numa classificação racial, provavelmente serei considerado branco. Apesar disso, em minha certidão de nascimento consta &#8220;pele morena&#8221;, e já disseram que sou mulato, já disseram que tenho cara de árabe, cara de judeu e cara de francês.</p>
<p>E também já fui muitas vezes chamado de &#8220;negão&#8221; em tratamentos informais e carinhosos por parte de amigos. Mas meus irmão e irmã são mais mulatos do que eu; enquanto Diego, quando menorzinho, era chamado de &#8220;nego lindo&#8221; por meu pai, Naninha é chamada de &#8220;moreninha&#8221;, mesmo que ambos tenham a mesma tonalidade de pele. Já o filho de Diego, que tem a tez branca, herdou do pai o mesmo apelido de &#8220;nego lindo&#8221;, talvez por ter as feições muito parecidas com a de seu progenitor.</p>
<p>Não há nada homogêneo no Brasil quanto às classificações raciais e suas correspondentes (ou não) discriminações. Em cada região temos &#8220;modelos&#8221; diferentes de identidade racial e da composição populacional dessas identidades, de discriminação racial etc. Esse seria um bom motivo, bem melhor do que a suposta brandura do racismo brasileiro, para se contrapor a uma discriminação reversa que reduza a população em apenas 2 tipos raciais com uma suposta inequívoca relação de dominante/dominado.</p>
<blockquote><p>Acho bem complicado a postura de militantes dos movimentos negros que se circunscrevem a discussão, limitando-a, a certa religião (de matiz afro, o que faz com que pessoas que se identifiquem como negras, mas sigam uma “crença de branco” sejam ignoradas, isto é, alvo de preconceitos…), ou tenhe q se vestir com roupas que remtam a um mítico passado africano… Uso dreads (aqueles cabelos rasta)… Claro q isto vai gerar certo impacto e incomodo, mas n estou preocupado simplesmente em afirmar isto como coisa de negro… Basta ver qts “rastas” brancos (mestiços? )vc encontra… (A maioria dos que conheço, por sinal)… Apenas, nas transformações da vida e na reinvenção do meu cotidiano… dentro de determinada trajetória que é social, passei a achar este tipo de cabelo mais bonito esteticamente… Claro q com isso contrario uma antiga “verdade” de que negro por ter “cabelo ruim” nao pode deixá-lo crescer… Incomoda? Sim? Q bom!!!</p>
<p>Com esse tipo de discurso inflamado por parte dos militantes dos MOVIMENTOS NEGROS findam por reproduzir um preconceito… e retomando a citação feita por Thiago… acabaremos, nesse caminho, todos cegos, aprofundando-do-nos mais ainda no “estado de guerra” hobbesiano… do qual tentamos sair, mas nunca conseguimos totalmente…</p></blockquote>
<p>Há muitos casos desse tipo, e não é uma tendência nova nem é exclusiva do Brasil. Desde que as ideias de Johann Gottfried von Herder se espalharam, em todo lugar vêm aparecendo &#8220;ressurgimentos&#8221; étnicos. Esse tipo de imposição de aspectos identitários vai de encontro a um dos valores modernos que considero dos mais importantes: a liberdade individual. É pedir para esquecer tudo o que surgiu de bom da mistura cultural, até qualquer coisa que seja considerada positiva por um dado indivíduo.</p>
<p>Isso me lembra o filme <em>A Outra História Americana,</em> em que o líder neonazista proíbe seus amigos de fumar maconha, por ser &#8220;coisa de negro&#8221;. Fazer esse tipo de comparação entre Movimento Negro e Nazismo sempre incomoda, mas não há como negar que se trata da mesma tentativa de manutenção de uma suposta pureza ou autenticidade de uma suposta raça que ecoa de um suposto passado latente e inequívoco, uma cultura que parece estar nos genes.</p>
<blockquote><p>Continuo concordando com o fato de que a solução estaria na melhoria profunda da educação pública, muito longe de ser deficitária… Se assim o fosse estaria mt melhor… Porém, como dizia Maquiavel… estou falando da “realidade efetiva das coisas”, da urgencia imposta pela sociedade capitalista, que mesmo n gostando, temos de nos adaptar, em alguma medida… “Facilitar” a entrada na universidade teria esse caráter emergencial gritante…</p></blockquote>
<p>Por mais que possamos levantar críticas pertinentes ao vestibular (e farei isso num texto vindouro), ele é uma forma muito democrática de acesso à Universidade. Através dele, cria-se uma eleição baseada na capacidade de resolver alguns problemas. Essa capacidade só depende de um preparo intelectual que não tem nada a ver com a cor da pele. É claro que os pobres, em grande parte negros, não têm tantas chances de passar no vestibular sem uma &#8220;facilitação&#8221;, e as cotas seriam um meio de compensar essa deficiência. Mas, se o raciocínio seguir por aí, seria melhor adotar cotas sociais, já que o problema não é o fenótipo, e sim a qualidade do ensino gratuito.</p>
<p>Notemos um paradoxo: por um lado, os cotistas recebem uma ajuda para compensar uma deficiência; no entanto, o consequente maior número de negros com diplomas pode ajudar a erradicar a ideia de que pessoas negras são menos capazes, e isso poderia melhorar a autoestima da população que sofre preconceito racial (essa poderia ser uma vantagem das cotas, mas ainda acho negativa a classificação racial imposta a toda a população que essa política implicaria).</p>
<p>Mas acho que essa possível vantagem teria muito mais sentido numa seleção de candidatos na qual a &#8220;raça&#8221; já fosse critério de exclusão. Se os negros fossem discriminados diretamente no vestibular, sendo excluídos por causa de sua &#8220;raça&#8221;, as cotas seriam uma forma de obrigar a instituição a rever seus critérios: &#8220;Se vocês não pararem de excluir os negros, vão ter que aceitá-los na marra&#8221;. Mas felizmente a &#8220;raça&#8221; não é (ou não era) critério de seleção, e as cotas criariam esse critério, tornariam o vestibular racista.</p>
<blockquote><p>Gritante tb, como já disse em meu blog, é a força do “arbitrário cultural” sobre a auto-estima do preto pobre… Ah, e se a quantidade de dinheiro faz com que o branco pobre sofra mais preconceitos que o negro rico… a força do preconceito contra este último se reafirma, não? Enfim, n tenho respostas fechadas, e n quero mt perto de mim quem as tenha… POr isso, quero proximidade com vc, meu caro… alguem que aprofunda as perguntas… provocando… sempre… Abraços…</p></blockquote>
<p>Como coloquei acima, não é o simplesmente o dinheiro que nos faz ter menos preconceitos com pessoas ricas. São suas roupas (consideradas mais condizentes com o ideal de civilidade), seus trejeitos (considerados mais finos), sua fala (considerada mais culta). Isso tudo vem de um habitus, que aqueles pertencentes a uma certa &#8220;classe social&#8221; aprendem por ser criados e/ou conviver em determinado meio social. Tanto é assim que até um pobre que consiga adquirir uma formação erudita pode ser mais respeitado nas interações com outras pessoas do que alguém que esteja desprovido dela. Já vi isso acontecer. E um pobre qualquer, quando &#8220;bem vestido&#8221;, tem grande chance de ser bem tratado em público.</p>
<p>Mas você tem razão sobre o preconceito racial contra negros ricos. Pensando bem, essa questão é tão complicada que seriam necessárias muitas pesquisas para averiguarmos como ocorrem os preconceitos no cotidiano. Esses preconceitos são uma mistura de muitos elementos, principalmente o preconceito contra pessoas de pele escura e o preconceito contra pobres. Chamam atenção os casos em que uma pessoa negra da elite é &#8220;confundida&#8221;com uma pessoa pobre e é então maltratada. Como se maltratar um pobre fosse mais legítimo do que maltratar um negro.</p>
<p>O desrespeito contra pobres é tão grande que alguns jovens acham que podem justificar o ato de incendiar <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Galdino_Jesus_dos_Santos" target="_blank">um indivíduo</a> que dormia numa praça em Brasília por pensarem que se tratava de um mendigo.</p>
<p>Enfim, à medida que escrevo, surgem mais e mais questionamentos. Tudo vai ficando mais confuso, mas prevejo que o debate ajudar a organizar as ideias rumo a uma conclusão (temporária, espero, e que vai demorar algumas postagens para aparecer).</p>
<p>Aos poucos estou encontrando bons argumentos para me posicionar a favor de uma solução emergencial, contato que sejam em condições bem específicas e sejam bem pensadas. Acho que implantar cotas raciais nos moldes que estão sendo propostos é uma medida precipitada e mais fácil do que a solução profilática, que é o sempre caro e relegado ensino público.</p>
<p>Na próxima parte, continuarei a comentar os comentários postados na primeira. Continuem contribuindo com o debate, a Teia Neuronial não pode parar de ser tecida.</p>
<p>[Continua...]</p>
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