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	<title>Teia Neuronial &#187; Filosofia</title>
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	<description>Antropologia, Ficção Científica, cultura e sociedade</description>
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		<title>Liberdade e livre-arbítrio &#8211; parte 2</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Jan 2012 11:00:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Paradoxos da liberdade e o fim das marchas]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A restrição da liberdade é condição sine qua non da própria vida humana em sociedade. Se não fosse o refreamento dos impulsos vitais, por exemplo, os conflitos interpessoais quase sempre terminariam em derramamento de sangue ou morte. Se as pessoas fossem totalmente desimpedidas para expressar o que pensam, qualquer discordância se tornaria uma troca de insultos, xingamentos e ataques verbais preconceituosos, desperdiçando-se a oportunidade do debate de ideias. Se não fosse a cultura, enfim, não seríamos humanos.</p>
<p>Esse refreamento deveria se tornar uma prática consciente, parte de uma autocrítica constante, norteada pela razão e por uma noção realmente libertária da liberdade. Esta só tem sentido como valor social quando se aplica a todos igualmente, e isso necessariamente significa que, paradoxalmente, nem tudo é permitido numa sociedade livre.</p>
<p><span id="more-6099"></span>Se isso não ocorrer, regrediremos a uma época em que vários avanços democráticos não haviam ainda sido cogitados, como os direitos iguais de mulheres e homens, dos grupos étnicos minoritários, da população racialmente discriminada, das pessoas com orientação e identidade sexuais não-convencionais, de praticantes de religiões marginalizadas e daqueles que não professam religião ou crença nenhuma.</p>
<p>Na prática, as pessoas são livres para expressar seus preconceitos, e muitas o fazem o tempo todo. Mas os discursos têm grande poder de reproduzir os preconceitos. Para que realmente haja mudanças libertárias, paradoxalmente, temos que nos restringir, pois estamos todos corrompidos com sexismo, racismo, homofobia e xenofobias de todos os tipos, que lutam o tempo todo dentro de nós para vir à tona, e não queremos que as próximas gerações os herdem (bem, nem todos nós, alguns educam abertamente os filhos para herdar esses preconceitos).</p>
<p>A democracia deve se pautar na razão, e esta se alia muito melhor ao conhecimento científico e à reflexão filosófica (que tratam dos fatos como eles são) do que à crença religiosa (baseada em pré-concepções e dogmas). Esta, em muitas de suas correntes, defende que os homossexuais são prejudiciais à sociedade (a Bíblia prescreve a pena de morte para sodomitas), e constrói um arcabouço de argumentações para justificar essa ideia, todas inspiradas em preconceitos.</p>
<p>O conhecimento científico, pela observação mais objetiva dos fatos sociais, demonstra que as coisas não são bem assim, que <a href="http://bulevoador.haaan.com/2012/01/32334/" target="_blank">as repercussões dos atos de um homossexual na realidade ao seu redor não são diferentes das de um heterossexual</a>. Não há justificativa racional para a restrição da liberdade de exercermos direitos iguais aos de todos os outros. A democracia não é simplesmente fazer o que a maioria quer (argumento usado de maneira falaciosa por cristãos que defendem que, se a maioria dos brasileiros é cristã, a lei deveria seguir os preceitos bíblicos), mas possibilitar a realização de um ideal em que a liberdade de cada um não seja reprimida pelas crenças de uma entre muitas parcelas da sociedade.</p>
<p>A liberdade de um indivíduo viver segundo suas crenças pessoais não deve implicar no constrangimento da liberdade de outros. Existe uma lei estatal que se sobrepõe a qualquer “lei divina”, e garante (ou está aí para garantir) direitos iguais para todos, religiosos, ateus, gays, héteros, mulheres, homens, negros, brancos etc. Embora eu não acredite na obediência cega à lei (isso seria o pensamento de quem se submete a uma ditadura), acho que ela precisa ir se construindo de forma cada vez mais racional e democrática.</p>
<p>Para Aristóteles, em <em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89tica_a_Nic%C3%B4maco" target="_blank">Ética a Nicômaco</a>,</em> a virtude deve ser buscada no equilíbrio, na dosagem (temperança) entre o excesso e a falta. Nas relações humanas, essa ideia pode ser traduzida como o esforço para se alcançar um equilíbrio entre a liberdade individual irrestrita (excesso) e a autoabnegação absoluta (falta). Se houver a primeira, existirá apenas o indivíduo solitário no mundo. Se a segunda dominar, ninguém vive.</p>
<p>Defender a ideia de que certas crenças deveriam se tornar leis é defender o pensamento ditatorial. Por exemplo, <a href="http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?&amp;id=87954" target="_blank">querer que o Cristianismo em sua versão católica seja ensinado obrigatoriamente nas escolas</a> é ignorar a diversidade religiosa do país e pretender a universalização de ideias pertencentes a um grupo particular. Se essa medida fosse democraticamente válida, seria preciso ensinar todas as religiões do mundo (não só as variedades cristãs – muita gente pensa que Religião é sinônimo de Cristianismo), sem colocá-las numa hierarquia e sem considerar nenhuma delas como mais certa do que as outras.</p>
<p>Os cristãos não precisam de leis especiais, pois eles tradicionalmente ocupam lugares privilegiados no poder e constituem uma maioria, sendo responsáveis pela eleição de muitos políticos alinhados com seus interesses sectários. As leis que contrariam as doutrinas cristãs, como aquelas relacionadas aos direitos dos LGBTs, não chegam a ser mínima ameaça à liberdade religiosa de ninguém.</p>
<p>A Marcha para Jesus e outras <a href="http://teianeuronial.com/as-micaretas-de-cristo/" target="_blank">micaretas de Cristo</a>, por exemplo, são irrelevantes em comparação com a Parada Gay e outros movimentos de ação afirmativa, porque esta tem uma importância política no contexto da busca por visibilidade de um dos grupos mais marginalizados e excluídos, que ainda precisa esconder sua existência para evitar a discriminação. Isso não ocorre com os cristãos. Por isso é muito fácil estes se sentirem reprimidos quando criticados em suas crenças conservadoras, pois estão acostumados a não encontrarem obstáculos à expressão e manifestação de suas ideias e seu modo de vida.</p>
<p>Não que eu seja totalmente favorável a essas marchas (de qualquer tipo), que atrapalham o cotidiano de muita gente com barulho e fechamento de ruas, mas algumas, como a Parada Gay, têm importância política e podem trazer boas mudanças a longo prazo, até o dia em que ninguém mais precise marchar.</p>
<h3>Imagem em destaque</h3>
<ul>
<li><em>A Liberdade guiando o povo</em> &#8211; Eugène Delacroix (1830)</li>
</ul>
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		<title>Liberdade e livre-arbítrio &#8211; parte 1</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 11:00:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A liberdade irrestrita nos torna realmente livres?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É por parte de cristãos de diversas denominações que mais se ouvem queixas reacionárias perante críticas dirigidas ao Cristianismo, manifestações pelos direitos dos LGBTs e reivindicações pela efetiva laicidade do Estado. Quando uma boa quantidade de pessoas critica o comportamento de <a href="http://youtu.be/c8oHt83AJTQ" target="_blank">evangélicos que transformam uma cabine do metrô numa barulhenta sessão de pregação</a>, com direito a possessões divinas e diabólicas, alguns evangélicos sentem que se trata de uma repressão a sua crença. É difícil que algo assim não provoque <a href="https://www.facebook.com/Debora.Tex/posts/129221323863855?notif_t=share_reply" target="_blank">calorosas discussões</a> na internet.</p>
<p><a href="http://bulevoador.haaan.com/2012/01/32171/" target="_blank">Recentemente</a> a direção do Hospital Regional do Agreste, em Caruaru, Pernambuco, proibiu as práticas de pregação e oração por parte de visitantes nas enfermarias. Nada mais é do que um ato de bom senso e compreensão da necessidade de os vários pacientes repousarem e se recuperarem de procedimentos médico-cirúrgicos. Pastores se sentiram oprimidos em sua liberdade de culto, como se a pregação fosse mais importante do que a liberdade e a saúde de outras.</p>
<p><span id="more-5993"></span>Eu que já fui paciente de enfermaria e UTI sei muito bem qual é essa necessidade de um ambiente tranquilo, sem o qual o corpo não relaxa e não pode se recuperar. Fazer oração em grupo e/ou em voz alta numa enfermaria pode fazer mal aos pacientes, mesmo aos que são cristãos.</p>
<p>O <a href="http://ligahumanista.org/" target="_blank">movimento</a> pela transformação do Estado brasileiro numa instituição verdadeiramente laica e democrática tem provocado indignação por parte dos setores mais conservadores, e entre estes tem destaque a bancada evangélica do país. Propostas como o <a href="http://teianeuronial.com/pl-122-diacontrahomofobia/" target="_blank">PL 122</a> (“Lei anti-homofobia”) fazem com que muitos pastores se sintam tolhidos em seu direito de dizer o que pensam sobre a homossexualidade. O fato é que esse projeto de lei não chega a tanto, apenas prevê punição por atos de preconceito, discriminação e violência por motivação homofóbica. O pastor pode dizer o que quiser sobre o suposto caráter demoníaco da homossexualidade, desde que não incite a violência contra os homossexuais nem trate desigualmente as outras pessoas por causa de sua orientação sexual, a não ser que queira ser punido.</p>
<p>Isso significa que uma mãe ou um pai evangélicos estão sujeitos às penas da lei se demitirem uma babá lésbica pelo fato de ela ser lésbica? Com certeza. Isso é tolher a liberdade dos evangélicos? Não, isso é uma medida para desencorajar o preconceito, pois nenhum argumento pode negar o fato de que achar que a presença de uma lésbica ou de um gay poderia ser prejudicial para uma criança é um ato de puro preconceito.</p>
<p>Dissertar sobre os limites da liberdade é difícil e mexe com muitos de nossos preconceitos e valores. A importância da liberdade foi tão cultivada na cultura ocidental que ela é sempre supervalorizada em qualquer discurso, mesmo que não haja unanimidade sobre o que ela significa. Muitos cristãos se utilizam do argumento de que a liberdade deve ser preservada em detrimento da repressão, o que implica que qualquer crítica a qualquer coisa relacionada a sua religião é um erro e um absurdo atentado a seu direito de professar as ideias que tiverem.</p>
<p>A liberdade é um valor muito prezado por mim também. Porém, o perigo da ideia de que deve haver liberdade irrestrita é que ela pode ser usada para justificar atos contrários à liberdade, como: a manutenção da restrição do casamento apenas a casais heterossexuais; a proibição de casais homossexuais adotarem crianças; a institucionalização do ensino religioso nas escolas; atenuantes à punição de atos de discriminação a homossexuais ou a praticantes de religiões afro-brasileiras, entre outros.</p>
<p>Nessa perspectiva, a ideia de liberdade se alia à ideologia da tolerância, do perdão e do livre-arbítrio cristãos. O problema dessa ideologia é que, se tudo deve ser tolerado e perdoado em nome do livre-arbítrio, então não deveríamos nos preocupar com atos de violência de nenhum tipo, pois esses atos são praticados segundo a vontade de pessoas livres. As consequências desses atos, quando atentam contra a liberdade de outras pessoas, nessa perspectiva, deveriam assim ser relevadas, pois quem cuida de tudo é um ser superior e justo. Se um homem comete assassinato, desrespeitando a liberdade da vítima, “Deus saberá o que fazer com ele”; se um político surrupia milhares do dinheiro dos contribuintes, “a justiça de Deus o punirá”; se uma mulher bate em seus filhos e os prende em cárcere privado, “Deus tem um plano para ela”.</p>
<p>Pessoalmente, sou a favor do perdão, da reconciliação entre os indivíduos, do não-cultivo da vingança, da não-manutenção de sentimentos de mágoa. Guardar rancor faz mal para a própria pessoa injuriada. Entretanto, na vida em sociedade, é preciso estabelecer parâmetros e medidas que desencorajem a prática de atos e atitudes que firam a liberdade alheia, e isso pode incluir várias formas de punição, motivadas pela razão e não por emoções ligadas à vingança.</p>
<p>Ao meu ver, a liberdade só se efetua realmente quando as pessoas de uma sociedade conseguem tomar decisões baseadas no bem comum, no princípio cosmoético do “aconteça o melhor para todos”, colocando sua liberdade individual em segundo lugar, sem renunciá-la absolutamente. Principalmente, ser livre é se despojar de vícios e valores preconceituosos. O ethos da liberdade plena é a <em>autolibertação</em> dos próprios cabrestos e dos hábitos que prejudicam os seres ao nosso redor (e, em muitos casos, a nós mesmos).</p>
<p>[Continua na próxima semana.]</p>
<h3>Imagem</h3>
<ul>
<li><em>O Terapeuta</em> &#8211; René Magritte (1937)</li>
</ul>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-59940"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>Culpa, responsabilidade e ética</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Aug 2010 11:00:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou Se uma bola tivesse braços...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os episódios da infância de um indivíduo podem nos trazer muitos bons insights sobre o desenvolvimento do senso de ética e de convivência social. Vemos nesses episódios, por exemplo, como as atividades sociais e a reação de outras pessoas vão moldando os valores e códigos de conduta desde muito cedo na vida, o que certamente terá implicações na vida adulta.</p>
<p>Reproduzo abaixo uma crônica escrita por minha esposa, Inês Mota, intitulada <em><a href="http://objetobscuro.blogspot.com/2010/08/mea-culpa-ines-mota.html" target="_blank"><strong>Mea Culpa</strong></a></em> e publicado em seu blog <a href="http://objetobscuro.blogspot.com/" target="_blank">ObjetOObscuro</a>. Ela trata de um evento recente encenado por seu neto, Paulinho, em que se discutiram noções de culpa e responsabilidade, e que servirá para que, em seguida, eu teça alguns comentários sobre amadurecimento e ética, esta muitas vezes entendida como algo que emana de nossa &#8220;natureza humana&#8221;, mas que, sob um olhar sócio-antropológico mais detido, se revela construído nas relações sociais.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-3259" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/justicaparatodos.jpg" alt="" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-3213"></span></p>
<blockquote>
<div id="attachment_3214" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-3214 " title="Paulo Henrique Mota Teixeira" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/paulinhopugilista.jpg" alt="Paulo Henrique Mota Teixeira" width="200" height="337" /><p class="wp-caption-text">(Foto: Inês Mota)</p></div>
<p>Paulo* tem quase 5 anos. Ontem, depois de uma incursão com um grupo de amigos pelo Bloco 10, voltou com um galo feio na testa.</p>
<p>A despeito das chacotas que fazemos de que ele é o <em>chorão da praia</em>, não costuma ser mofino diante dos pequenos infortúnios próprios da tenra idade. Tanto que toma vacinas e injeções avisando logo que não vai chorar, pois trata-se <em>apenas de uma picada de formiga</em> e no máximo vai emitir um discreto <em>ai</em>.</p>
<p>O pranto, via-se, não era espontâneo, mas fomentado pela gravidade que os próprios amigos pareciam imprimir ao fato, provavelmente sentiu algo distinto da reação que costumava captar diante das <em>menos graves </em>desditas anteriores. Tanto é que vez ou outra cessava o choro e olhava confuso para cada um dos companheiros, buscando subsídios a veredicto menos preocupante.</p>
<p>Questionado por mim acerca do ocorrido e diante da resposta dos amigos de que ele havia caído, Paulo se apressou em relatar o acontecimento, cuidando de encontrar o verdadeiro responsável e, claro, eximindo-se inteiramente de qualquer culpa.</p>
<p>Primeiro, afirmou categoricamente que a culpa era exclusiva de Leando, o amigo mais chegado. E o argumento era forte: Ora, se estavam jogando bola e o chute de Leandro provocou um desequilíbrio e ocasionou a queda, ele era sem dúvida o <em>réu</em>.</p>
<p>A reação da turma foi imediata e em uníssono tratou de tomar partido por  Leandro: <em>Como jogar bola sem chutá-la? </em></p>
<p>Diante da defesa inconteste, a saída foi arrumar logo outro culpado. Nesse caso, uma culpada. Claro, como não? A bola! Ela, sim, deveria ter braços e aplicar um soco bem no meio da cara de Leandro.</p>
<p>Todos se voltaram surpresos, arguindo que socar o rosto de alguém em qualquer circunstância e, principalmente, se trantando de um amigo é algo violento e inaceitável.</p>
<p>Foi assim que o nosso pequeno personagem se deu por vencido e humildemente  reconheceu de uma vez por todas que não houve culpados. Afinal de contas, como já reza o adágio, o que vale mesmo é a política da boa vizinhança. Além do que é sempre bom ter um amigo com quem jogar e em quem, ocasionalmente, pôr a culpa, ainda mais se ele for o dono da bola.</p>
<p><em>*<strong>Paulo</strong> é meu neto querido.</em></p></blockquote>
<p>Paulinho voltou da brincadeira aos prantos, com muito mais gemidos e lágrimas do que costuma exprimir. Segundo Inês, o drama dos amigos serviu como multiplicador do drama pessoal de Paulinho. A forma como reagimos às diferentes situações do dia-a-dia é amplamente moldada pelos valores da sociedade em que vivemos. Se o choro é uma reação natural à dor, sua intensidade será proporcional à importância de cada tipo de dor, de sua causa e das circunstâncias em que ocorre. E tal importância é ditada pela sociedade e aprendida na convivência dentro dela.</p>
<div id="attachment_3256" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-3256" title="Kaspar Hauser" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/kasparhauser1.jpg" alt="Kaspar Hauser" width="300" height="170" /><p class="wp-caption-text">Kaspar Hauser não sabia emitir nem um discreto &quot;ai&quot; diante da dor</p></div>
<p>Numa cena do filme <em>O Enigma de Kaspar Hauser,</em> por exemplo, Kaspar, que não passou por um processo de socialização, reage ao fogo de uma vela, que queima seus dedos ao tentar pegá-la, apenas com uma lágrima, sem emitir nenhum som nem outro gesto que indique dor. Até quando foi esfaqueado, depois de já ter aprendido a ler e a viver razoavelmente em sociedade, nem sequer gritou nem demonstrou desespero (não da forma que as pessoas ao seu redor considerariam adequada), apenas correu ao seu protetor e, banhado no seu próprio sangue, relatou o fato.</p>
<p>As &#8220;picadas de formiga&#8221;, por exemplo, que provocam apenas um discreto &#8220;ai&#8221; sem maiores dramas, é entendida por Paulinho como insignificante, devido às circunstâncias em que tomou suas primeiras vacinas. Os adultos que o acompanharam deixaram bem claro, num clima tranquilo, que aquilo não era nada demais, e o encorajaram a mostrar dignidade diante da dor, talvez até tenham recompensado seu destemor com elogios. Toda vez que ele for tomar uma injeção, manterá a serenidade e a dor será sentida com pouca intensidade.</p>
<p>Outras crianças desenvolverão medo e nervosismo diante da agulha e chorarão ou ficarão tontas, até na idade adulta, sempre que tomarem uma injeção. Pelo que diz Inês Mota, seu próprio filho, tio de Paulinho, é um &#8220;medroso&#8221; diante de jalecos brancos.</p>
<p>Tudo isso fica muito explícito no momento em que Paulinho busca no olhar dos amigos &#8220;subsídios a veredicto menos preocupante&#8221;. Ele ainda não compreendeu qual é a forma mais adequada de reagir diante da situação, o modo mais aceito e aprovado pelo meio social em que vive de &#8220;sentir dor&#8221;, não sabe até que ponto é validado ou não verter lágrimas e soltar gemidos.</p>
<p>Diante da interrogação sobre o que aconteceu, o pequeno se apressa a apontar a culpa de sua dor, deixando para depois o relatório dos acontecimentos. Isso mostra que sua mente está concentrada em entender a razão de sua própria reação e justificá-la. Já que a dor na testa é suportável, o que atestam episódios anteriores de machucados e cortes, era preciso encontrar outra solução para explicar o choro e a dor, incitados mais pelos amigos do que por sua própria psico-fisiologia.</p>
<p>A experiência parece mostrar que tendemos, ao menos em nossa cultura, a ignorar nossos próprios erros. Paulinho não conseguiu ver que sua própria inabilidade em chutar a bola causou o tropeção que levou sua testa ao chão. Numa tendência muito humana a buscar uma causa inteligente externa para qualquer fenômeno, ele viu em Leandro, que havia lançado para ele a bola, o responsável indireto por sua queda.</p>
<p>No entanto, também parece haver uma tendência, quando reconhecemos nossas inadequações às normas vigentes nos meios em que vivemos, a criarmos e instigarmos sentimentos individuais de culpa. Especialmente dentro dos valores religiosos ocidentais cristãos, essa culpa se busca redimir com condutas de mortificação e auto-humilhação, o que em si mesmo reforça o sentimento da própria vileza.</p>
<p>Às vezes a autoculpa se manifesta em quadros clínicos como a depressão e a melancolia, e podemos ver como isso se expressa em obras como a poesia de Augusto dos Anjos e a prosa de Franz Kafka. Este era tão obcecado pela culpa que seu romance <em>O Processo</em> é um suspense todo baseado num crime supostamente cometido pelo protagonista, mas este nunca consegue descobrir qual é.</p>
<div id="attachment_3252" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-3252" title="Franz Kafka" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/kafkaculpado.jpg" alt="Franz Kafka" width="586" height="300" /><p class="wp-caption-text">A obra de Franz Kafka mostra uma obsessão pela culpa</p></div>
<p>Considero, em minha própria perspectiva ética, que a culpabilização do outro e a autoculpa são extremos opostos que devem ser evitados. A mortificação acaba sendo uma forma de prorrogar a resolução do problema, enquanto focar em acusações nos faz perder a visão do conjunto da situação e os detalhes que ajudariam a elucidar a solução do conflito.</p>
<p>Inês enfatizou que Leandro é o amigo mais chegado de Paulinho. Talvez não tenha sido sua intenção, mas, em minha própria leitura, dei importância a esse detalhe pelo fato de considerar a amizade um valor inestimável, o que aprendi em minha própria socialização. Assim, Paulinho recebe a desaprovação de todos ao seu redor ao fazer uma acusação injusta, e, pior ainda, ao seu melhor amigo.</p>
<div id="attachment_3218" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-3218" title="Velho Rooter" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/rooter.jpg" alt="Velho Rooter" width="300" height="200" /><p class="wp-caption-text">&quot;A culpa não é de ninguém&quot;</p></div>
<p>Mas a ação socializadora impôs com eficácia sua lição. Paulinho se curvou aos argumentos contra a acusação de Leandro e contra a personalização da bola, que foi uma forma de projetar seu próprio impulso violento e o desejo de devolver a dor que recebeu. Porém, ele não chegou a assumir responsabilidade por seu próprio infortúnio, mas ao menos admitiu que ninguém teve culpa, o que satisfez o status quo e representou, também ao meu ver, um avanço em seu aprendizado ético.</p>
<p>A voz de Rooter, personagem misterioso do filme <em>Em Busca do Vale Encantado,</em> ecoou em minha mente quando refleti nestes assuntos:</p>
<blockquote><p>Não é sua culpa, nem culpa de sua mamãe. Agora, preste atenção ao velho Rooter. A culpa não é de ninguém. O ciclo da vida apenas começou.</p></blockquote>
<p>Paulinho não se mortificou com a culpa e absolveu Leandro e a bola. Ele pôde assim exercitar a mediania aristotélica, procurando a virtude no meio. Mas ainda está por completar 5 anos de idade e aprenderá muito. Talvez ainda tenha que aprender (e aqui falo de meus próprios valores éticos) que não vale a pena procurar culpados, mas esclarecer cada situação e, da parte dele, assumir a responsabilidade naquilo em que teve parte, perdoando os erros dos outros e tentando errar menos.</p>
<div id="attachment_3253" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-3253 " title="Fim" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/kafkafim.jpg" alt="Fim" width="586" height="300" /><p class="wp-caption-text">Fim</p></div>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-32140"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>A morte e o texto</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Oct 2009 15:53:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Umberto Eco]]></category>

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		<description><![CDATA[ou O epitáfio como metáfora da cristalização do texto escrito]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O texto, expressão escrita da língua — literário, ficcional, filosófico ou científico —, tem o caráter simbólico da morte. A inércia do texto o faz ter essa cara de epitáfio, que simboliza o signo do qual só se tem a lembrança, evocada em cada leitura, como o morto evocado na memória inscrita na lápide.</p>
<p>O texto científico é conhecimento cristalizado, como a crisálida, letárgica, numa condição de quase morte, e que ressuscita como um ser feérico, quase etéreo como a ideia. A partir do momento em que publica seu texto, o cientista tem em mãos um fruto morto, obsoleto em relação ao conhecimento  que está sempre mudando e se aperfeiçoando.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-910" title="Trecho do Livro dos Mortos egípcio" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/livrodosmortosegipcio.jpg" alt="Trecho do Livro dos Mortos egípcio" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-909"></span>Roland Barthes, na <em>Aula,</em> diz que todo texto literário é libertário, por subverter a ordem da instituição mais repressora — a língua. Ora, liberdade é morte; é na morte que se desfazem os grilhões da dominadora cultura, inevitável para a vida humana. E, na experiência pseudolibertadora do texto — para o autor e para o leitor — pode-se sonhar; e no sono/sonho se experimenta antecipadamente a morte. Pode-se vivenciar uma realidade que ultrapassa a prisão das instituições humanas. Assim, a morte como transformação também caracteriza o texto artístico, que transforma a língua; o texto filosófico/científico, que transforma a realidade.</p>
<p>O texto acaba sendo a principal forma de transmissão de conhecimento em sociedades que conhecem a escrita. Na transmissão pela fala, os saberes se transformam mais rapidamente, porém mais caoticamente. É possível a gradual mudança do conhecimento sistematizado, racional ou artístico, através dos textos, periódicos ou livros. Mas a lentidão, que se sente na leitura de cada texto, na experiência pessoal, é comparável às sucessivas mortes e renascimentos da vida, tanto da matéria quanto da consciência. A sensação, no leitor, da desilusão, da <em>angústia sadia,</em> da solidão, que o conhecimento traz ao descortinar a realidade, da arte ao transformá-la, é a angústia da mudança brusca, da morte.</p>
<p>Não é à toa que a linguagem é feminina, passiva, instrumento do autor para sua paixão. Feminina porque idealmente inerte (e a inércia/morte é feminina; o feminino é inércia/morte), aparece aos humanos como sujeita a eles. Porém, o citado Barthes já disse que, longe de permitir dizer, a língua obriga a dizer. E os homens ficam sujeitos a essa bruxa, prostituta que se aproveita dos indefesos meninos que estão dentro deles. A meretriz(/bruxa) é um dos grandes arquétipos femininos relacionados à morte: a mulher que nega a maternidade, Medéia que mata seus filhos. Mas, além disso, não vamos negligenciar o caráter de mãe/parteira, que dá à luz imagens, idéias, conhecimento, discernimento.</p>
<h3>Notas póstumas</h3>
<p>Este texto foi publicado originalmente em <a href="http://teia.spaces.live.com/blog/cns!D7E21C927413E37F!107.entry" target="_blank">14 de dezembro de 2004</a>, na <a href="http://teia.spaces.live.com/" target="_blank">primeira Teia Neuronial</a>. É um exemplo de texto que eu não escreveria hoje em dia, pelos seguintes motivos:</p>
<ol>
<li>O encadeamento das ideias é desordenado, seguindo o rumo caótico do pensamento em devaneio. Os parágrafos seguem um rumo parecido com o dos veios de um rio, como se a escolha dos afluentes fosse feita ao acaso. As ideias foram jogadas uma depois da outra e não me preocupei em esgotar as alusões e referências.</li>
<li>Há muitas figuras de linguagem expostas numa tentativa de compor um texto literário-filosófico. Abundam as afirmações e escassam os questionamentos. Não deixei muito espaço para a autocrítica nem heterocrítica, e o texto acabou ficando naquilo que ele mesmo descreve: na morte estática.</li>
<li>O que me leva a outro ponto: não tive, quando escrevi esse texto, a intenção de revisá-lo depois. Qualquer coisa que viesse posteriormente seria acréscimo e nunca cortaria nada. Hoje em dia, todo texto meu é passível de revisão, de desmembramentos que fujam da linha original. Ou seja, procuro fazer meus textos vivos e subverter a ideia de que eles têm necessariamente de se manter imutáveis.</li>
<li>Apesar do caráter quase autocrítico do texto, havia ali a manifestação de uma obsessão pela morte, uma tanatomania adolescente que há pouco tempo abandonei. O texto era uma forma de me manter cultivando ideias mórbidas que me fizeram mal por um período da vida.</li>
<li>Enfim, já não concordo totalmente com as ideias em si do texto.
<ol type="a">
<li>Em <em>Obra Aberta,</em> Umberto Eco mostra que os textos escritos são passíveis de releitura e de ampliação muito além daquilo que porventura o autor pensou originalmente. Todo texto pode ser resscrito pelo seu autor e revisto pelos leitores.</li>
<li>Dizer que alguma coisa tem caráter feminino é verdade até certo ponto. Se o caráter passivo do texto lembra a representação de que o lado feminino da dualidade (idealizada) de gênero é passivo, isso só se aplica a alguns aspectos (pois o &#8220;feminino&#8221; tem características ativas, é só ver a própria imagem da bruxa). Além disso, a divisão masculino/feminino da realidade é um ideal que serve mais para justificar certas divisões arbitrárias do que a representação da realidade.</li>
</ol>
</li>
</ol>
<p>Talvez eu devesse escrever um novo capítulo desta saga: <strong><em><strong>A Vida e o Texto</strong></em> </strong>ou <em>O tear como metáfora da ramificação infinita do texto escrito.</em></p>
<p>No entanto, o tema do fascínio humano pela morte e a relação dele com a escrita pode render elucubrações interessantes. Só o <em>Livro dos Mortos</em> egípcio já serve de mote para um texto.</p>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-9100"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>Lições do Sr. Spock</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Aug 2009 17:16:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou O intercâmbio de culturas e a relação entre razão e emoção]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Para I. M.</em></p>
<p>Como disse no post anterior [na verdade, no texto <em><a href="http://teianeuronial.com/star-wars-vs-star-trek/" target="_self">Star Wars vs. Star Trek</a>],</em> comecei há alguns dias a ver a série clássica de <em>Jornada nas Estrelas.</em> Como é comum entre os trekkers, elegi, por várias razões, o Sr. Spock como personagem favorito. Não costumo fazer esse tipo de escolha, mas às vezes aparecem tipos que me chamam muita atenção.</p>
<p>Spock me pareceu interessante por ser um alienígena trabalhando com humanos, ou seja, por ser um “estranho no ninho”. Mas ele é mais complexo ainda, porque não é completamente vulcano como seu pai, mas tem características humanas (mesmo que sejam muito sutis e só apareçam esporadicamente), que herdou de sua mãe terráquea. Ou seja, ele é um híbrido, o melhor meio de se estabelecer uma relação entre dois povos.</p>
<p><img class="aligncenter" title="Sr. Spock" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/spocklogico.jpg" alt="" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-844"></span>Essa característica o torna inspirador para mim, que desde cedo nesta vida sofri de <em><a href="http://www.editares.com/produtos_descricao.asp?lang=pt_BR&amp;codigo_produto=82" target="_blank">síndrome do estrangeiro</a>.</em> Há algum tempo venho me esforçando para encontrar meios de melhor me adaptar aos ambientes em que vivo. E sei que tenho coisas importantes a trazer para este mundo, assim como este mundo tem muito a oferecer para minha evolução.</p>
<p>Outro asoecto, o mais óbvio, de Spock que me inspira é sua forma de pensar e resolver situações. Ele sempre enxerga as circunstâncias de forma lógica e tem uma disciplina mental extremamente sofisticada para não demonstrar ou não sentir emoções. É interessante ver cenas da série em que, diante de situações críticas, que afetam sua própria integridade, ele se mostra imperturbável. Em um dado episódio, acometido por um parasita que o faz sentir dor, ele consegue controlar sua mente, pois alega que a dor é um estado mental, para diminuir essa dor ou para não ser afetado por ela.</p>
<p>Spock é o extremo oposto das pessoas que pautam suas ações pelas emoções e que vivem com o objetivo de senti-las, o que considero estagnante evolutivamente. Mas, apesar de admirar uma personalidade como a de Spock, ela também não é a ideal, pois dificulta a empatia, o que é essencial quando se quer ajudar alguém com angústia. Já passei por momentos em que, por não procurar entender o que o outro sente, tomei atitudes que o atrapalharam ao invés de ajudarem. Mas também passei por momentos em que a dificuldade de disciplinar um desejo prejudicou a mim e a pessoas próximas a mim.</p>
<p>Da mesma forma que a relação entre Spock e Jim Kirk (melhor amigo de Spock e representante da emotividade que falta a este) é essencial para que os problemas da nave espacial Enterprise sejam resolvidos de forma equilibrada, a ponderação entre razão e emoção deve ser levada a sério por cada indivíduo. Penso que os sentimentos são importantes, pois o prazer da convivência, seja com pessoas próximas, seja com a humanidade ou seres de outros mundos (outras dimensões e planetas), nos move a ser úteis e a nos beneficiar do que há de bom no universo. Porém, as emoções surgem de forma espontânea, sendo muitas vezes resultado de nossa biologia, das influências do meio e de nossa história pessoal. Por não serem deliberadas, não devemos ter culpa de as sentir ou acusar alguém por agir de forma impensada.</p>
<p>Por isso, considero que a razão deve gerenciar essa relação entre um lado e outro do cérebro, sempre controlando a mente de forma refletida, considerando quais sentimentos devem ou podem ser cultivados e quais emoções devem ser disciplinadas ou extirpadas, para que se concretize o ideal cosmoético “que acontaça o melhor para todos”. É sempre importante estabelecer mentalmente o que é descartável e o que não é, o que é racionalmente melhor e o que devemos abandonar, e agir de forma coerente, sempre combinando atitude mental (cabeça, águia), atitude psíquica (coração, leão) e atitude física (baixo-ventre, boi). Tudo o que fazemos, mesmo um pensamento, repercute ao redor de nós. Temos uma grande responsabilidade pelas descargas elétricas de nossos neuônios.</p>
<p>Esta manhã tive um insight sobre esse problema, e percebi mais claramente quais são alguns dos esforços que tenho que fazer para disciplinar minha mente e não deixar que as emoções me controlem nem que a razão me torne frio demais (o que já aconteceu algumas vezes e foi tão problemático quanto ser arrebatado violentamente por uma emoção). Mais concentração, organização e execução prática de prioridades, bem como exercícios rotineiros de estado vibracional (sobre o EV, links <a href="http://www.conscienciologia.net/estado_vibracional.htm" target="_blank">aqui</a>, <a href="http://www.ceaec.org/Portuguese/Laboratories/VibrationalState.asp" target="_blank">aqui</a>, <a href="http://www.iipc.org/ciencias/tecnicas.php" target="_blank">aqui</a> e <a href="http://www.iacworld.org/Portuguese/Resources/FAQs/VibrationalStateFAQ.aspx" target="_blank">aqui</a>) e ampliação da consciência. Num exercício destes, apareceu-me a imagem mental de um instrumento sendo alocado na parte esquerda de minha cabeça, possivelmente representando uma melhoria (ou indicando que devo fazer mais esforços mentais) para minhas faculdades racionais em detrimento das emocionais.</p>
<p>Talvez, inspirado em algumas atitudes íntimas do Sr. Spock e dando mais atenção a (e cultivando) uma postura já latente em mim, eu possa aproveitar melhor meu relacionamento com outras pessoas e, sendo mais coerente comigo mesmo, ser mais assistencial a elas.</p>
<p>[Publicado originalmente em 16 de dezembro de 2008.]</p>
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		<title>Paradoxos</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Jul 2009 14:07:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA["Mestre, qual é meu maior defeito?"]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Numa cena de <em>Matrix,</em> o Oráculo diz a Neo que ele não se preocupe com o vaso que vai quebrar. Num gesto de surpresa, &#8220;Que vaso?&#8221;, ela bate o braço e faz um vaso cair no chão. Paradoxos podem causar vertigens. Mas são ótimos exercícios mentais: &#8220;Eu sempre minto&#8221;. Se isso é verdade, então o que eu acabei de dizer é mentira. Se é mentira, então confirmo o que eu tinha dito, ou seja, era verdade. Mas, se era verdade&#8230;</p>
<p>Os paradoxos têm uma importância que transcende a mera diversão que proporcionam em discussões que nunca terminam. Eles servem para entedermos as limitações de nossa capacidade de compreender o universo e, assim, buscar a superação dessas limitações. Se Pinóquio, cujo nariz cresce cada vez que ele mente, dissesse &#8220;<a href="http://pequenitudes.blogspot.com/2009/05/mentira.html" target="_blank">Meu nariz vai crescer agora</a>&#8220;, o que aconteceria? Ele estaria mentindo, pois não havia dito nenhuma mentira antes, o que significa que seu nariz realmente cresceria, o que caracteriza sua afirmação como verdadeira.</p>
<p><span id="more-743"></span></p>
<h3>Paradoxo da predestinação</h3>
<p><img class="alignright size-full wp-image-757" title="Em Algum Lugar do Passado" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/somewhereintime.jpg" alt="Em Algum Lugar do Passado" width="125" height="171" />Outro tipo de paradoxo, usado em histórias sobre viagem no tempo, é o da predestinação. No filme <em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0081534/" target="_blank">Em algum Lugar do Passado</a>,</em> um jovem dramaturgo recebe a visita de uma mulher idosa que pede para que ele volte para ela. Ela lhe dá um relógio de presente e vai embora. Depois, ele descobre que aquela mulher era uma atriz que se destacou muito numa apresentação em um hotel no qual ela estava hospedado. Apaixonado pela antiga foto da jovem, ele descobre um meio de voltar no tempo e conhecê-la. Os dois se apaixonam e, por causa dele, ela faz a maior performance de sua carreira. Enquanto o casal faz planos para o futuro, ele comete um erro e retorna ao seu próprio tempo, deixando uma mulher saudosa e o relógio que havia ganhado.</p>
<p>Na série televisiva de ficção científica <em>Babylon 5,</em> um humano se destacou nos ensinamentos de Valen, um antigo minbari que fundou uma ordem de guerreiros no planeta Minbar. Ele é chamado para uma missão de viagem ao passado para capturar a estação espacial Babylon 4 e mandá-la ainda mais para o passado, para servir de estação-escola a Valen e seus primeiros discípulos. Mas os acontecimentos se configuram de modo que esse humano volta ao passado junto com Babylon 4 e descobre que ele mesmo é Valen. Ou seja, tudo o que ele aprendeu na ordem de Valen foi ensinado inicialmente por ele mesmo.</p>
<p>Num episódio de <em>Futurama,</em> Philip J. Fry volta ao passado com seus amigos e conhece o homem, com mais ou menos sua idade, que viria a ser pai de seu pai. Algum tempo depois, Fry conhece uma mulher da mesma faixa etária, com quem acaba fazendo sexo. Após o ato, lembra-se de perguntar seu nome e descobre estarrecido que ela é a mulher que viria a ser sua avó. Depois de arranjar as coisas para que ela se case com seu próprio avô, ele se dá conta de que seu próprio pai é bastardo, pois ele mesmo, Fry, é pai do próprio pai.</p>
<h3>O ovo e a galinha</h3>
<p><img class="alignright size-full wp-image-758" title="Drawing Hands, de M. C. Escher" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/drawinghandsescher.jpg" alt="Drawing Hands, de M. C. Escher" width="200" height="173" />Costumamos contrapor o egoísmo ao altruísmo de maneira absoluta e irreconciliável. Mas, quando desenvolvemos um grande bem-estar pessoal, ou seja, no âmbito egoico, muitas vezes sentimos a necessidade de compartilhar isso com os outros. Assim, desenvolvendo uma disposição mais altruísta, ajudando os outros, sentimo-nos bem. Evoluindo no âmbito pessoal, crescendo interiormente, reprecutimos do lado de fora, espalhando algo de bom, e o resultado disso nos faz sentir bem.</p>
<p>Esse paradoxo nos faz perceber que algumas contradições aparentes são processos retroalimentadores compostos de polos complementares. Mais do que isso, são processos complexos que não têm, em si, contradição. Esta só surge porque separamos a realidade arbitrariamente e damos nomes antagônicos a suas partes.</p>
<p>No livro <em>A Árvore do Conhecimento,</em> de Humbreto Maturana e Francisco Varela, os autores explicam que um organismo vivo se sustém através de um processo chamado autopoiese (do grego, significa algo como &#8220;criação de si mesmo&#8221;). Por um lado, o ser vivo possui uma estrutura que o permite buscar alimento e processá-lo. Por outro, essa mesma estrutura tem que ser mantida com a energia processada a partir do alimento. Um ciclo paradoxal. O que vem primeiro, já que a estrutura que processa o alimento é composta do próprio alimento?</p>
<h3>A solução é o problema</h3>
<p>Minha mãe certa vez pediu à cardiologista que medisse a pressão dela. O aparelho indicou pressão alta. No dia seguinte, minha mãe estava caminhando no Parque das Dunas e encontrou um pessoal medindo gratuitamente a pressão dos caminhantes. O aparelho indicou pressão normal. Noutra visita à cardiologista, a pressão alta se repetiu. doutora Fátima disse que minha mãe sofria de <em>Síndrome do Jaleco Branco.</em> O fato de estar diante de um médico a faz ficar nervosa e, consequentemente, faz subir sua pressão arterial.</p>
<p>Um paciente se dirige ao terapeuta, suando frio, gaguejando, com a voz sumida, e pergunta se ele sofre de timidez. O terapeuta só pode perguntar: &#8220;Você está gripado ou está gozando da minha cara?&#8221;</p>
<p>Muitas vezes, a própria busca pela solução de um problema já revela detalhes deste problema. Por isso a necessidade da Epistemologia. Por isso também importa lembrar a <em>sociologia da sociologia</em> sugerida por Pierre Bourdieu. Para compreendermos a fundo o modo de superar as falhas dos resultados de nossas ações, é preciso analisar com cuidado as próprias ações e o processo que pvovocou essas falhas.</p>
<p>Da mesma forma que o antídoto do veneno da serpente pode ser encontrado no próprio veneno, nós mesmos temos a capacidade de encontrar as soluções de nossos problemas pessoais. A própria busca despojada e otimista os sana.</p>
<p>Isso também se aplica à humanidade. Como diz Carl Sagan no livro <em>Bilhões e Bilhões,</em> o ser humano é atualmente o único animal capaz de destruir o planeta Terra. Ao mesmo tempo, é o único que pode salvar o planeta de si mesmo.</p>
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