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	<title>Teia Neuronial &#187; Religião</title>
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	<description>Antropologia, Ficção Científica, cultura e sociedade</description>
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		<title>Da onipotência</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Dec 2009 22:52:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou É melhor ser temido do que amado As conversas sobre religião cristã ou sobre crenças religiosas do Cristianismo podem revelar muitas das contradições e preconceitos inerentes aos discursos teístas, notadamente quando os envolvidos na conversa são evangélicos. Não porque sejam pessoas mais preconceituosas ou contraditórias, mas, talvez, porque as religiões evangélicas, herdeiras de Lutero, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">ou <strong>É melhor ser temido do que amado</strong></p>
<p>As conversas sobre religião cristã ou sobre crenças religiosas do Cristianismo podem revelar muitas das contradições e preconceitos inerentes aos discursos teístas, notadamente quando os envolvidos na conversa são evangélicos. Não porque sejam pessoas mais preconceituosas ou contraditórias, mas, talvez, porque as religiões evangélicas, herdeiras de Lutero, encorajam os crentes a elaborar suas convicções (os católicos se contentam mais com um discurso instituído).</p>
<p>Tomem como exemplo o diálogo abaixo, que parafraseio por não ter podido gravá-lo, mas que reproduz a maior parte das ideias expressas pelos interlocutores. As duas personagens são colegas de trabalho que se encontravam na mesma sala que eu no momento da conversa. Eu apenas ouvi e não participei.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1223" title="Da onipotência" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/onipotencia.JPG" alt="Da onipotência" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-1087"></span></p>
<blockquote><p>Sabe aquele menino que trabalhou no Setor X, que usava touca, umas roupas coloridas? Você soube que ele morreu?</p>
<p>Soube.</p>
<p>Quando você soube?</p>
<p>Fulana me contou semana passada.</p>
<p>Eu soube hoje, pois Beltrano me falou. Era tão novo, só tinha 16 anos! Mas é assim mesmo. Coisa de Deus.</p>
<p>Pois é, o mistério de Deus.</p>
<p>É uma pena, mas Deus sabe o que faz. Essas coisas acontecem, às vezes é até uma forma de evitar um sofrimento&#8230;</p>
<p>É, esse menino era meio alegrinho&#8230;</p>
<p>&#8230;então, isso poderia trazer um sofrimento para os pais&#8230; mas não sei, só Deus sabe.</p>
<p>É por isso, irmã, que a gente tem que orar pelos nossos filhos. Você ora pelos seus filhos, irmã?</p>
<p>Oro!</p>
<p>Todo dia eu oro a Deus pelos meus filhos.</p></blockquote>
<p>A ideia corrente de Deus em nossa cultura se reveste de centenas de aspectos. É um prisma multifacetado que se vê de maneiras diversas e díspares de acordo com o ângulo, tal como o Diabo no <em>Inferno</em> de Dante, que tem três cabeças.</p>
<p>Não é novidade que o discurso cristão, católico, protestante ou evangélico, é homofóbico. A exortação &#8220;crescei e multiplicai-vos&#8221; não é somente uma ordem para que as pessoas tenham filhos, mas subjaz também a heterossexualidade como orientação sexual padrão. Há ainda outras passagens da Bíblia que condenam o comportamento e a orientação homossexual como crimes que devem ser punidos.</p>
<p>Mas é interessante averiguar as formas que essa homofobia encontra de justificar o preconceito. Na conversa reproduzida acima, entende-se como melhor a precaução de um possível sofrimento por parte dos pais do que a suposta assunção de uma preconcebida homossexualidade.</p>
<p>&#8220;Deus é tão bom que poupou o sofrimento dos pais desse menino&#8230; ah, e o dele próprio também, não nos esqueçamos do pobre coitado.&#8221; Mas ele não poupou o &#8220;sofrimento&#8221; de cerca de 10% da população humana e seus pais. Também não poupou o&#8221; sofrimento&#8221; daqueles que morreram sem ter esse &#8220;problema&#8221;.</p>
<p>Essa é a crueldade do &#8220;mistério de Deus&#8221;. Tudo o que ocorre, para esses teístas, é vontade de Deus e parte de um plano elaborado para o bem dos mortais. Não adianta argumentar (se você o fizer, é possível que o Diabo esteja lhe cochichando no ouvido), &#8220;Deus sabe&#8221;, &#8220;Deus não faz nada em vão&#8221;, é preciso aceitar, por mais que sua liberdade, felicidade e saúde intelectual estejam em risco.</p>
<p>Quando um crente vê frustradas suas preces, ele pode se justificar achando que não foi digno da graça ou considerando que Deus decidiu não concedê-la. Neste caso, ele entende que houve um motivo justo.</p>
<div id="attachment_1258" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-1258" title="Nicolau Maquiavel" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/maquiavel.jpg" alt="Segundo Maquiavel, para o governante, é melhor ser temido do que amado" width="200" height="222" /><p class="wp-caption-text">Segundo Maquiavel, para o governante, é melhor ser temido do que amado</p></div>
<p>Porém, em toda essa situação o crente se vê sujeito às vontades onipotentes de Deus, sem se preocupar em entendê-las, sem se dignar a perguntar, a questionar o motivo de as coisas acontecerem. E, principalmente, sem colocar dúvidas sobre a índole do Deus em que acredita. Não importaria, por exemplo, descobrir que Deus é um safado que brinca com as vidas dos mortais; o importante é ser fiel a uma crença consagrada e ao ser que supostamente lhe deu a vida.</p>
<p>Que grande diferença há entre esse Deus e o príncipe maquiavélico que domina pelo medo em detrimento do amor? É muito mais fácil obedecer e ser fiel a uma divindade que ameaça com punição e recompensa com favores do que se sentir livre para procurar discernir entre o que é melhor e o que é pior para todos, fazendo escolhas segundo o bom senso e não de acordo com leis que serviam para apaziguar povos conflituosos e belicosos na Antiguidade.</p>
<p>Que grande diferença há, enfim, entre esse Deus e um chefe da Máfia? Este recompensa aqueles que beijam sua mão e obedecem suas prerrogativas, enquanto pune aqueles que o decepcionam. Não há aí senão a luta para sobreviver, pouco importando, para a maioria dos envolvidos, o caráter ilícito ou antiético das maquinações do Poderoso Chefão.</p>
<p>Pedir todos os dias a Deus que proteja seus filhos é como implorar para que estes fiquem imunes ao mal que aquele, onipotente, permite que exista. É como participar de uma loteria na qual os que têm mais chance são os que pedem ao dono da Casa Lotérica que dê um jeitinho em troca de um voto nas eleições.</p>
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		<title>Tabu</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Oct 2009 22:40:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou É Proibido Duvidar Há assuntos que o bom senso nos faz evitar a muito custo. Por mais convicção que tenhamos em relação a um assunto, quando tal convicção se opõe à opinião (pública), ao que a maioria acredita ser verdade, temos receio de colocá-la em questão, especialmente diante de pessoas que defendem de modo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">ou <strong>É Proibido Duvidar</strong></p>
<p>Há assuntos que o bom senso nos faz evitar a muito custo. Por mais convicção que tenhamos em relação a um assunto, quando tal convicção se opõe à opinião (pública), ao que a maioria acredita ser verdade, temos receio de colocá-la em questão, especialmente diante de pessoas que defendem de modo aguerrido essa opinião pública. Um exemplo clássico (que se trata de minha exeriência pessoal) é falar sobre religião e Deus.</p>
<p>Não é nada fácil ser agnóstico e muito menos ser ateu numa cultura em que predomina o monoteísmo cristão. Dizer que não se tem certeza se existe um deus ou Deus é convidar os teístas mais fanáticos a nos dar um sermão. Afirmar que Deus não existe é despertar pena ou ganhar a desconfiança de algumas pessoas.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1135" title="O nascimento de Deus" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/tabu.jpg" alt="O nascimento de Deus" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-1125"></span>Pior ainda é quando sua forma de encarar a existência de Deus é complexa demais para ser denominada pelos termos disponíveis no mercado linguístico. Se alguém me pergunta se acredito em Deus, responder que &#8220;não acredito&#8221; resume bem minha visão, mas desperta uma série de preconceitos atrelados a essa frase que não correspondem exatamente à minha visão do tema.</p>
<p>Uma colega minha do trabalho não acredita que exista Deus nem afirma sua inexistência. Para mim, ela se encaixa no conceito de agnóstica. Mas ela não se considera agnóstica nem ateia nem teísta. Conversando com ela, sugeri que ela é agnóstica, mas ela discordou, dizendo que não aceita essas denominações.</p>
<p>Desde que comecei a entender bem o que significa ateísmo, agnosticismo e Ciência, comecei a me considerar <em>cientificamente agnóstico</em> e <em>filosoficamente ateu.</em> O primeiro termo se refere à minha ideia de que não é possível, através da investigação científica, averiguar a existência ou a inexistência de um criador onipotente, onisciente e/ou onipresente. Na Ciência, não se tratam de verdades absolutas, mas de aproximações da realidade, e toda afirmação científica é, de certo modo agnóstica, pois não é revelada e sim o resultado de um esforço cognitivo.</p>
<p>O segundo termo se refere à negação de qualquer tipo de autoridade absoluta, humana ou divina. De modo que me reporto ao pensamento de Mikhail Bakunin, para quem a existência do Deus das religiões monoteístas implica a escravidão do ser humano. Parodiando Voltaire (&#8220;Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo&#8221;), Bakunin diz: &#8220;Se Deus existisse, seria preciso aboli-lo&#8221;. O que me faz relacionar filosofia e ateísmo é uma noção ética, moral, ou seja, mesmo que exista algo que se possa chamar de Deus, considero antiético que sua existência implique na servidão humana.</p>
<p>Além disso, algumas de minhas perspectivas de existência são contrárias a grande parte das crenças dos ateus. Considero, por exemplo, que as manifestações da consciência humana extrapolam os 5 sentidos do corpo físico, que podemos nos manifestar fora desse mesmo corpo (o que se conhece como projeção astral, experiência fora do corpo ou projeção da consciência), que faz sentido que cada um de nós tenha tido outras vidas e terá outras no futuro e que nesse processo estamos evoluindo, cada um, para uma condição cada vez mais avançada. Isso não quer dizer que eu não possa me considerar ateu, pois o sentido estrito dessa palavra é a negação (a-) da divindade (théos).</p>
<h3>Etiqueta</h3>
<p>Certa vez li na revista Veja um excerto de um manual de etiqueta que dizia que num jantar deve-se evitar conversar sobre 3 itens, entre os quais figurava a <em>religião.</em> Ora, quando se diz isso, o que se deixa implícito  é que &#8220;não se deve ofender as crenças das pessoas&#8221;. Na realidade, nã há riscos de haver confusão ao se falar de religião num jantar onde todos os presentes são adeptos de um mesmo credo. Esse risco é até pequeno mesmo quando cristãos de diversas correntes discorrem sobre assuntos teológicos que interessam a todos eles.</p>
<p>Entretanto, não se considera aceitável deixar à mostra a descrença ou o ceticismo, justamente porque estes abalam o apego desesperado dos crentes. Um especialista em etiqueta que recomenda a discrição na hora de se abordar religião pode estar implicitamente assumindo que tem uma religião que acredita ser a correta e não gosta que outros abordem suas crenças de maneira crítica, mesmo que seja para ajudar a entender melhor algum aspecto dessa crença.</p>
<p>A lógica dessa etiqueta se baseia na ideia de que as religiões têm que ser respeitadas (mesmo que seus discursos incluam críticas a outras formas de pensar) e que a crítica às religiões é um erro, pois seria a negação de algo fundamental da natureza humana. É a mesma lógica de quem pensa que os símbolos religiosos têm que estar presentes nas instituições públicas de um Estado laico (mesmo que eles ofendam algumas pessoas) mas se sente ofendido com uma manifestação ateísta ou de outra religião. A tirinha abaixo, de Don Addis, resume extraordinariamente bem o que tenho em mente:</p>
<div id="attachment_1140" class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><img class="size-full wp-image-1140" title="Crente vs. ateu" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/crentexateu.jpg" alt="&quot;Idiota cego! Marginal! Pervertido! Comunista! Blasfemador! Verme imoral e escória da terra!&quot; &quot;Ei! Que tal mostrar algum respeito?!&quot;" width="400" height="529" /><p class="wp-caption-text">&quot;Idiota cego! Marginal! Pervertido! Comunista! Blasfemador! Verme imoral e escória da terra!&quot; &quot;Ei! Que tal mostrar algum respeito?!&quot;</p></div>
<p>Porém, é preciso levar em consideração um outro aspecto, que se relaciona à mesma ética a que aludi acima: às vezes uma pessoa tem tão entranhada em si uma convicção que questionar e desconstruir de maneira lógica seu pensamento seria uma violência.</p>
<p>Mas se todos incorporassem verdadeiramente uma postura racional e civilizada, poderiam deixar de lado esses melindres e discutir abertamente seus pontos de vista, flexibilizando-se a novas experiências e novas perspectivas, sem as noções preconcebidas de que &#8220;é preciso mostrar ao outro que eu estou certo&#8221;. Surgiria então uma nova etiqueta, baseada no discernimento, no abertismo e no universalismo, e toda essa bobagem de discrição na hora de abordar certos temas seria superada.</p>
<h3>Notas</h3>
<p>Este texto é uma versão ampliada de um <a href="http://teia.spaces.live.com/blog/cns!D7E21C927413E37F!140.entry" target="_blank">post originalmente publicado</a> na <a href="http://teia.spaces.live.com/" target="_blank">primeira Teia Neuronial</a>. Seguindo a ideia que expressei no texto <a href="http://teianeuronial.com/a-morte-e-o-texto/" target="_self"><em>A Morte e o Texto</em></a><em>,</em> decidi, ao invés de pegar os textos antigos e republicá-los integralmente, reconstruí-los, atualizando as ideias a respeito dos temas abordados, seja porque mudei minha forma de vê-los, seja porque há algo novo a acrescentar.</p>
<p>Confiram o texto original <a href="http://teia.spaces.live.com/blog/cns!D7E21C927413E37F!140.entry" target="_blank">neste link</a> ou abaixo:</p>
<blockquote><p>Há assuntos que se evitam a muito custo abordar. Por mais convicção que tenhamos em relação a uma coisa, quando tal convicção se opõe à opinião (pública), teme-se-a pôr em questão. Um exemplo clássico (que se trata de minha exeriência pessoal) é <em>religião</em> e <em>Deus.</em></p>
<p>Não é nada fácil ser ateu. Ainda menos quando eu me posiciono de forma a me considerar <em>cientificamente agnóstico</em> mas <em>filosoficamente ateu.</em> Aquele termo se refere à minha idéia de que não é possível através da Ciência a averiguação da existência de Deus (o agnosticismo não se refere só à questão da existência de Deus). O segundo termo se refere à negação de qualquer tipo de autoridade, humana ou divina. Para Mikhail Bakunin, a existência de Deus implica a escravidão do ser humano. Parodiando Voltarie, Bakunin diz: &#8220;Se Deus existisse, seria preciso aboli-lo&#8221;.</p>
<p>Há algum tempo li na revista <em>Veja</em> um excerto de um manual de etiqueta, que dizia que num jantar deve-se evitar conversar sobre 3 itens, entre os quais estava <em>religião.</em> Ora, quando se diz isso, o que se quer deixar entender é que &#8220;não se deve ofender as crenças das pessoas&#8221;. Na realidade, pode-se muito bem falar de religião num jantar quando todos os presentes são adeptos de um mesmo credo. Admite-se até que cristãos de diversas correntes discorram sobre assuntos teológicos que interessam a todos eles. Mas não é bonito deixar à mostra a descrença ou o ceticismo, justamente porque estes abalam o apego desesperado dos crentes.</p></blockquote>
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		<title>A Igreja oferece o Paraíso – na Terra</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Sep 2009 17:11:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou O clube dos salvos A matéria da CartaCapital sobre o paraíso (!) fiscal protegido pelo Vaticano me levou a pensar: quando é que as religiões não servem para manter o status quo? As religiões imperialistas, como é o caso do Cristianismo em suas várias formas, são estruturas bem fundadas de dominação e poder. As religiões são como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">ou <strong>O clube dos salvos</strong></p>
<p>A <a href="http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&amp;a2=9&amp;i=2118" target="_blank">matéria</a> da <em>CartaCapital</em> sobre o paraíso (!) fiscal protegido pelo Vaticano me levou a pensar: quando é que as religiões não servem para manter o status quo? As religiões imperialistas, como é o caso do Cristianismo em suas várias formas, são estruturas bem fundadas de dominação e poder.</p>
<p>As religiões são como clubes a cujos admitidos se reservam privilégios. Quando Homer Simpson percebeu que alguns de seus amigos tinham regalias que ele não tinha, não descansou até descobrir que bastava fazer parte dos Lapidários (uma sátira da Maçonaria) para mudar de vida.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-914" title="Os Lapidários" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/lapidarios.jpg" alt="Os Lapidários" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-111"></span>Os Lapidários não são apenas uma sátira das instituições secretas. Eles são uma piada com qualquer tipo de instituição religiosa e espiritualista que defende valores imateriais mas funciona como uma acumuladora de riquezas materiais. Seus interesses são materialíssimos.</p>
<p>As instituições que se estruturam como clubes, tal como as religiões, as máfias e as seitas, funcionam por uma lógica de solidariedade que privilegia os colegas em detrimento do seu merecimento. Essa lógica não se baseia numa prática altruísta, mas na troca de favores. Um ajuda o outro para assegurar que este ajudará aquele se a situação pedir.</p>
<p>Quando <a href="http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL1052774-5598,00.html" target="_blank">um padre é assaltado</a>, o bispo ou arcebispo responsável por sua paróquia faz com que as polícias Civil  e Militar sejam mobilizadas para localizar os criminosos. Quando um sacerdote é acusado de pedofilia, toda a Igreja o acolhe e o defende. Se um pastor é achado em desgraça devido a um crime cometido por ele, muitos fiéis o defenderão. Enfim, se alguém frequenta sua igreja, é mais provável que você tenha vontade de ajudá-la do que a alguém de outra afiliação.</p>
<p>Essa é a forma tradicional de funcionarem as relações entre indivíduos de uma família, que se protegem (quase sempre) incondicionalmente. Por isso é tão comum que os membros de uma igreja evangélica se chamem de irmãos e que nas relações entre os envolvidos nas máfias italianas seja tão importante o parentesco e as alianças de sangue.</p>
<p>A promessa de um lugar melhor depois da morte, feita pelas doutrinas de várias religiões, tem como uma de suas grandes motivações a expectativa de estar junto daqueles que amamos, ou seja, de não perder o vínculo ao qual estamos apegados. Complementa-se a isso o desejo de estar longe daqueles com quem não nos damos bem, que ou morrerão definitivamente ou irão para o pior dos lugares.</p>
<p>Ou seja, o importante para essas pessoas é a vida que têm na Terra e não uma vida diferente, que transcenderia o corpo e seus sentidos, que permitiria uma percepção amplíssima do universo, uma cosmovisão que poderia até permitir ajudar outras pessoas. Ao contrário, a vontade dessas pessoas é ter vida eterna no paraíso, sem a necessidade de mudar quem são, de abandonar os hábitos e posturas íntimas que lhe são tão caros e que podem até ser negativos.</p>
<p>O Velho Testamento muitas vezes descreve a copiosa e opulenta vida de um personagem como Abraão como o resultado do amor de Deus por ele, retribuição do amor do homem pela entidade divina. Ainda hoje a oração como pedido a Deus reflete essa mentalidade subserviente, que pensa o humano como fraco, incapaz de conseguir realizar suas tarefas sem a ajuda de um ser que controla tudo e que atenderá as solicitações de quem o bajular melhor. Situação que me lembra muito a cena inicial de um <a href="http://www.imdb.com/title/tt0068646/" target="_blank">certo filme</a>, em que um homem consegue um favor ao beijar a mão de um poderoso chefão e chamá-lo de <em>Padrinho.</em></p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-915" title="Vito Corleone" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/vitocorleone.jpg" alt="Vito Corleone" width="600" height="200" /></p>
<p>Assim, embora as pregações cristãs enfatizem a busca pela vida eterna ao lado de Deus como principal objetivo de um devoto, ele não vai se interessar por esse negócio se não tiver um retorno imediato, ou seja, se não conseguir ao menos a promessa de um emprego, da cura de uma doença ou do fim de um conflito familiar. Se não consegue a concretização dessa promessa, talvez procure outra igreja ou talvez se culpe por não ter rezado direito.</p>
<p>Se as coisas andarem bem para essa pessoa, ela vai procurar resolver seus problemas mobilizando suas próprias forças. E pode ser que ganhe como bônus um pouco de autoestima.</p>
<p>[Este texto foi publicado originalmente em 27 de abril de 2009 e.c.]</p>
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