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	<title>Teia Neuronial &#187; Religião</title>
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		<title>Deus: um agiota severo</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Mar 2012 17:00:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theo G. Alves</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O dízimo e a mercantilização da fé]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sempre compreendi a importância e a cobrança do dízimo por parte das igrejas. Sei também que há uma justificativa bíblica para sua existência e obediência. No entanto, o que me chama a atenção é a ferocidade com que as mais variadas religiões e igrejas o cobram.</p>
<p>É o dinheiro arrecadado a partir do recolhimento do dízimo e de outras doações – dinheiro esse livre de impostos, na maioria dos casos – que permite a manutenção e construção de novos templos, a implantação de serviços comunitários, o patrocínio de atividades de catequese e outras coisas mais. Não duvido disso.</p>
<p><span id="more-6312"></span><img class="alignright size-full wp-image-6325" title="" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/dizimo_cartao.jpg" alt="" width="250" height="178" />Mas a mercantilização da fé é realmente constrangedora: é comum ver os mais variados pregadores cobrarem de maneira embaraçosa a seus fiéis, atribuindo-lhes culpa quando as arrecadações são miúdas, no que se lhes impõem os malogros do grupo religioso a que pertencem, bem como os de sua vida pessoal. Quem nunca ouviu um pregador dizer que a vida de um sujeito anda mal porque ele não observa as leis de Deus e não recolhe o dízimo como deveria?</p>
<p>É esse jogo de mercado, essa cobrança dura e mesquinha que me faz pensar que as religiões apresentam Deus como um agiota severo e sem compaixão. Se as pessoas querem felicidade, bons empregos, sucesso, saúde e amor, paguem o dízimo, “contribuam com a obra de Deus”. E se essas benesses não vêm, é porque faltou fé e, claro, “generosidade” no pagamento do dízimo.</p>
<p>Pelo jeito, Deus não faz nada de graça.</p>
<p>Já ouvi absurdos como “já temos o dinheiro para a reforma de nossa igreja e ele está no bolso de cada um de vocês” ou ainda “se você recolhesse o dízimo direitinho, essas coisas não aconteceriam”. Há pregadores que se comportam como os cães de aluguel divinos.</p>
<p>Obviamente, o dízimo é um oferecimento feito pelo seguidor de uma religião por sua própria vontade, ainda que seja constantemente impelido a fazê-lo, às vezes de maneira constrangedora.</p>
<p>Mas me pergunto se é mesmo necessário mercantilizar tudo, estabelecer preços para quaisquer obras: batismo a 45 reais, casamentos a 100, 10% da receita bruta, venda de missas, terrenos no céu, fogueiras santas, estabelecimento de metas comerciais, quermesses, festas de arrecadação, shows gospel, louvores e retiros pagos, etc. Há preço, cobrança e lucro em cima dessas atividades. Lucro, essencialmente. E dever às igrejas é um risco, porque a cobrança é deveras pesada e o cobrador muito poderoso.</p>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-63130"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>Ameaça à Psicologia laica</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Mar 2012 11:00:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Afrontas evangélicas à laicidade do Estado e da Psicologia]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Conselho Federal de Psicologia proíbe os psicólogos de emitir opiniões ou tratar a homossexualidade como transtorno. Mas o deputado João Campos (PSDB-GO) apresentou um projeto legislativo que visa a permitir que psicólogos tentem curar a homossexualidade dos pacientes que assim desejarem. O Conselho criticou esse projeto, lembrando que suas normas éticas procuram combater a intolerância.</p>
<p>Essa questão veio à tona motivada pela recente polêmica protagonizada pela &#8220;psicóloga cristã&#8221; <a href="http://bulevoador.com.br/2012/02/32971/" target="_blank">Marisa Lobo</a>, que usava sua profissão para aplicar conceitos religiosos contrários à perspectiva hegemônica na ciência Psicologia, tentando curar homossexuais de sua &#8220;doença&#8221; e contrariando a ética do Conselho Federal de Psicologia.</p>
<p><span id="more-6275"></span>Que a homossexualidade não é doença existe um relativo consenso nas áreas da Saúde, especialmente aquelas ligadas à mente, como a Psicologia e a Psicanálise. Desde 1990 a Organização Mundial da Saúde (OMS) não considera mais a homossexualidade uma patologia.</p>
<p>Assim, o que ainda motiva a classificação desse comportamento sob o rótulo de &#8220;doença&#8221;? Certamente não é nenhuma teoria científica biológica ou psicológica, mas um valor tradicional ligado às noções culturais de masculinidade e feminilidade ideais e, em especial, a ideia bíblica de que a homossexualidade é um <em>pecado,</em> ou seja, um comportamento mau que deve ser <em>corrigido</em> sob pena da punição divina. Quando se transpõe essa ideia para uma terapia psicológica, ela se traduz como &#8220;uma <em>doença</em> que deve ser <em>curada&#8221;.</em></p>
<p>É preciso cuidado nessa questão ao levantar o problema da liberdade religiosa. Um homossexual evangélico adulto tem plena liberdade de buscar em sua religião, com ajuda da sua igreja e seus pastores, uma &#8220;correção&#8221; ou &#8220;cura&#8221; (espiritual) para assumir comportamento condizente com os preceitos cristãos (não estou dizendo que vá conseguir virar hétero, nem acho que seja fácil). Mas ele não vai encontrar esse tipo de abordagem na Psicologia (ao menos na psicologia feita com responsabilidade ética).</p>
<p>Se um homossexual busca um psicólogo, é papel deste buscar a origem da aflição do paciente, e ela não está no mero fato de a pessoa gostar de parceiros sexuais do mesmo sexo ou no sentimento de inadequação ao próprio sexo. O problema é social, está na discriminação sofrida por aqueles que se desviam da norma aceita, o que leva à dificuldade de autoaceitação.</p>
<p>Qualquer medida que vise ao fim do sofrimento das pessoas com sexualidade &#8220;desviante&#8221; deve buscar promover a erradicação da ignorância sobre a sexualidade humana, o fim da discriminação e a substituição da desigualdade pela assunção da diferença e da diversidade.</p>
<p>O projeto do deputado Campos faz parte de  uma constante tentativa de políticos ligados ao Cristianismo para introduzir no Estado laico brasileiro os valores de uma parcela da população que não representa a diversidade dos brasileiros. A própria ideia de uma &#8220;Frente Parlamentar Evangélica&#8221;, da qual Campos é o líder, já é uma afronta à laicidade, pois fortalece um grupo que confunde valores religiosos adstritos à esfera individual com valores democráticos que dizem respeito ao conjunto de cidadãos brasileiros.</p>
<h3>Links</h3>
<ul>
<li><em><a href="http://www.cartapotiguar.com.br/2012/03/01/o-estado-e-laico-e-a-psicologia-tambem-pronto-p-publicacao/" target="_blank">Projeto de bancada evangélica propõe legalizar &#8216;cura gay&#8217;</a></em> &#8211; Folha.com</li>
<li><em><a href="http://www.cartapotiguar.com.br/2012/03/01/o-estado-e-laico-e-a-psicologia-tambem-pronto-p-publicacao/" target="_blank">O Estado é laico e a Psicologia também</a></em> - Carta Potiguar</li>
</ul>
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		<title>Catequese no Estado laico</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Mar 2012 11:00:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Oração na escola e contradições do cristianismo estatal]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O governo de Ilhéus, Bahia, instaurou uma lei municipal que obriga os alunos das escolas públicas do município a rezar o Pai Nosso antes das aulas. Os 13 vereadores da cidade aprovaram a &#8220;Lei do Pai Nosso&#8221; por unanimidade e o prefeito a sancionou no dia 12 de dezembro de 2011. A ideia dessa norma no mínimo controversa saiu da cabeça do Vereador Alzimário Belmonte (PP), evangélico da Igreja Batista que, como tantos políticos incompetentes Brasil afora, não compreende o que é Estado laico.</p>
<p>Essa tentativa de cristianizar o Estado brasileiro não é a primeira nem a mais séria. Felizmente, vivemos numa época em que a imposição teocraticista encontra forte resistência da sociedade civil secularista. Neste sentido, a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) ingressou no Ministério Público da Bahia contra a lei, argumentando sua inconstitucionalidade, tendo em vista que viola a liberdade de crença dos estudantes.</p>
<p><span id="more-6254"></span>Belmonte acredita que a oração na sala de aula contribui para a diminuição da violência na escola.</p>
<blockquote><p>Alunos ameaçam e violentam professores, a escola se tornou um espaço perigoso. A situação pode melhorar se implementamos ações que façam a juventude refletir. Precisamos despertar os jovens para a importância da oração na vida do ser humano.</p></blockquote>
<p>O vereador se equivoca redondamente ao pensar que o ato de orar pode amansar as crianças, sem ter feito nenhuma pesquisa que indique provas de sua afirmação. Repetindo a velha cantilena de que o ser humano só pode ter moralidade se acreditar em Deus (suposta única fonte dos valores morais), ignora o fato de que, na história humana, a religião foi ostensivamente usada para justificar todo tipo de violência, intolerância e guerra. Assume preconceituosamente que a prática dos dogmas religiosos cristãos implica necessariamente em menos conflito.</p>
<p>Outra ideia controversa de Belmonte é a de que a oração serve para refletir. A oração, como tantos mantras e técnicas de meditação, não tem o objetivo de levar à reflexão, mas de suspender o pensamento crítico. A oração do Pai Nosso é um texto decorado que, repetido à exaustão, rapidamente deixa de ter sentido para uma criança. Mesmo considerando que a oração do Pai Nosso tenha algum potencial de refrear os impulsos do indivíduo, não há garantia de que funcione sem que haja uma diretriz pedagógica que inspire a cultura da tolerância e da paz.</p>
<blockquote><p>Não estou induzindo ninguém a uma religião, estou apenas sugerindo uma oração que é universal.</p></blockquote>
<p>É nesse trecho de suas declarações que o vereador mostra total desconhecimento do significado da palavra <em>laicidade.</em> Dizer que o Pai Nosso é uma oração universal é desconhecer a humanidade e a realidade de que existem centenas de culturas e religiões diferentes ao redor do mundo, dezenas no Brasil, com diferentes repertórios, diversas ideias a respeito do que é oração ou mesmo a ausência de qualquer conceito semelhante.</p>
<p>Ele alega estar &#8220;sugerindo&#8221; e não &#8220;induzindo&#8221;, porém a lei é bem clara a respeito da <em>obrigatoriedade</em> da medida. Mesmo que não estivesse obrigando, quando o Estado &#8220;sugere&#8221; que uma determinada oração seja praticada, ele está se posicionando a respeito da religião que considera a mais adequada para o povo brasileiro. Deixa de levar em consideração muitos pais que não desejam ter seus filhos catequizados pela escola e corre o risco de provocar situações de exclusão e bullying.</p>
<p>Lidiney Campos, secretária de Educação do município, afirma a seguinte contradição:</p>
<blockquote><p>Lei existe para ser cumprida, mas com relação a essa, não estamos obrigando ninguém. Não há vigilância ou punição por parte da prefeitura. Entendemos que o Estado é laico, mas muitos dos nossos professores já têm a prática de fazerem uma oração em sala de aula, de ler salmos e textos bíblicos. Nada mudará com essa lei.</p></blockquote>
<p>Caminhando no movimento contrário ao da história contemporânea, o governo de Ilhéus, ao invés de laicizar as instituições de ensino e dar uma verdadeira liberdade religiosa para as crianças, está sancionando uma prática que deveria ser abolida e não incentivada. Afinal, embora não obrigue e não preveja sanções para o descumprimento da lei, ela serve como forma de constranger os professores a manterem ou darem início a uma prática de cristianização dos alunos, além de constranger os estudantes a participarem de um rito, sob pena de se sentirem excluídos. As crianças, reais interessadas e atingidas por essa política, não terão grande chance de escolha, pois quem decide se vão orar ou não são os professores (grande parte dos quais é cristã e, ao que tudo indica, favorável à prática da oração na escola).</p>
<p>A secretária, compartilhando da forma de pensar do Vereador Belmonte, demonstra completa ignorância sobre a relação entre religião, liberdade e Estado laico. Afirma disparatadamente que &#8220;todo ser humano deve ter uma religião&#8221;. Essa afirmação contraria frontalmente a noção constitucional de liberdade religiosa. Esta não diz somente que um indivíduo pode escolher qualquer religião, mas também que alguém tem o direito de não ter nenhuma crença nem pertencer a igreja nenhuma.</p>
<p>Ademais, ao pretender impor um rito cristão (ou seja, de uma doutrina específica) sob o argumento de que a religião é necessária ao ser humano, ignora a diversidade de culto da população, sujeita à velha catequização outrora praticada pela Igreja Católica e hoje pretendida por um Estado que deveria ser laico.</p>
<h3>Link e fonte da foto</h3>
<ul>
<li><em><a href="http://sul21.com.br/jornal/2012/02/lei-do-pai-nosso-obriga-criancas-a-rezarem-antes-das-aulas-em-ilheus/" target="_blank">Lei do Pai Nosso obriga crianças a rezarem antes das aulas em Ilhéus</a></em> &#8211; Sul21</li>
</ul>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-62550"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>Liberdade e livre-arbítrio &#8211; parte 2</title>
		<link>http://teianeuronial.com/liberdade-e-livre-arbitrio-parte-2/</link>
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		<pubDate>Mon, 30 Jan 2012 11:00:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Paradoxos da liberdade e o fim das marchas]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A restrição da liberdade é condição sine qua non da própria vida humana em sociedade. Se não fosse o refreamento dos impulsos vitais, por exemplo, os conflitos interpessoais quase sempre terminariam em derramamento de sangue ou morte. Se as pessoas fossem totalmente desimpedidas para expressar o que pensam, qualquer discordância se tornaria uma troca de insultos, xingamentos e ataques verbais preconceituosos, desperdiçando-se a oportunidade do debate de ideias. Se não fosse a cultura, enfim, não seríamos humanos.</p>
<p>Esse refreamento deveria se tornar uma prática consciente, parte de uma autocrítica constante, norteada pela razão e por uma noção realmente libertária da liberdade. Esta só tem sentido como valor social quando se aplica a todos igualmente, e isso necessariamente significa que, paradoxalmente, nem tudo é permitido numa sociedade livre.</p>
<p><span id="more-6099"></span>Se isso não ocorrer, regrediremos a uma época em que vários avanços democráticos não haviam ainda sido cogitados, como os direitos iguais de mulheres e homens, dos grupos étnicos minoritários, da população racialmente discriminada, das pessoas com orientação e identidade sexuais não-convencionais, de praticantes de religiões marginalizadas e daqueles que não professam religião ou crença nenhuma.</p>
<p>Na prática, as pessoas são livres para expressar seus preconceitos, e muitas o fazem o tempo todo. Mas os discursos têm grande poder de reproduzir os preconceitos. Para que realmente haja mudanças libertárias, paradoxalmente, temos que nos restringir, pois estamos todos corrompidos com sexismo, racismo, homofobia e xenofobias de todos os tipos, que lutam o tempo todo dentro de nós para vir à tona, e não queremos que as próximas gerações os herdem (bem, nem todos nós, alguns educam abertamente os filhos para herdar esses preconceitos).</p>
<p>A democracia deve se pautar na razão, e esta se alia muito melhor ao conhecimento científico e à reflexão filosófica (que tratam dos fatos como eles são) do que à crença religiosa (baseada em pré-concepções e dogmas). Esta, em muitas de suas correntes, defende que os homossexuais são prejudiciais à sociedade (a Bíblia prescreve a pena de morte para sodomitas), e constrói um arcabouço de argumentações para justificar essa ideia, todas inspiradas em preconceitos.</p>
<p>O conhecimento científico, pela observação mais objetiva dos fatos sociais, demonstra que as coisas não são bem assim, que <a href="http://bulevoador.haaan.com/2012/01/32334/" target="_blank">as repercussões dos atos de um homossexual na realidade ao seu redor não são diferentes das de um heterossexual</a>. Não há justificativa racional para a restrição da liberdade de exercermos direitos iguais aos de todos os outros. A democracia não é simplesmente fazer o que a maioria quer (argumento usado de maneira falaciosa por cristãos que defendem que, se a maioria dos brasileiros é cristã, a lei deveria seguir os preceitos bíblicos), mas possibilitar a realização de um ideal em que a liberdade de cada um não seja reprimida pelas crenças de uma entre muitas parcelas da sociedade.</p>
<p>A liberdade de um indivíduo viver segundo suas crenças pessoais não deve implicar no constrangimento da liberdade de outros. Existe uma lei estatal que se sobrepõe a qualquer “lei divina”, e garante (ou está aí para garantir) direitos iguais para todos, religiosos, ateus, gays, héteros, mulheres, homens, negros, brancos etc. Embora eu não acredite na obediência cega à lei (isso seria o pensamento de quem se submete a uma ditadura), acho que ela precisa ir se construindo de forma cada vez mais racional e democrática.</p>
<p>Para Aristóteles, em <em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89tica_a_Nic%C3%B4maco" target="_blank">Ética a Nicômaco</a>,</em> a virtude deve ser buscada no equilíbrio, na dosagem (temperança) entre o excesso e a falta. Nas relações humanas, essa ideia pode ser traduzida como o esforço para se alcançar um equilíbrio entre a liberdade individual irrestrita (excesso) e a autoabnegação absoluta (falta). Se houver a primeira, existirá apenas o indivíduo solitário no mundo. Se a segunda dominar, ninguém vive.</p>
<p>Defender a ideia de que certas crenças deveriam se tornar leis é defender o pensamento ditatorial. Por exemplo, <a href="http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?&amp;id=87954" target="_blank">querer que o Cristianismo em sua versão católica seja ensinado obrigatoriamente nas escolas</a> é ignorar a diversidade religiosa do país e pretender a universalização de ideias pertencentes a um grupo particular. Se essa medida fosse democraticamente válida, seria preciso ensinar todas as religiões do mundo (não só as variedades cristãs – muita gente pensa que Religião é sinônimo de Cristianismo), sem colocá-las numa hierarquia e sem considerar nenhuma delas como mais certa do que as outras.</p>
<p>Os cristãos não precisam de leis especiais, pois eles tradicionalmente ocupam lugares privilegiados no poder e constituem uma maioria, sendo responsáveis pela eleição de muitos políticos alinhados com seus interesses sectários. As leis que contrariam as doutrinas cristãs, como aquelas relacionadas aos direitos dos LGBTs, não chegam a ser mínima ameaça à liberdade religiosa de ninguém.</p>
<p>A Marcha para Jesus e outras <a href="http://teianeuronial.com/as-micaretas-de-cristo/" target="_blank">micaretas de Cristo</a>, por exemplo, são irrelevantes em comparação com a Parada Gay e outros movimentos de ação afirmativa, porque esta tem uma importância política no contexto da busca por visibilidade de um dos grupos mais marginalizados e excluídos, que ainda precisa esconder sua existência para evitar a discriminação. Isso não ocorre com os cristãos. Por isso é muito fácil estes se sentirem reprimidos quando criticados em suas crenças conservadoras, pois estão acostumados a não encontrarem obstáculos à expressão e manifestação de suas ideias e seu modo de vida.</p>
<p>Não que eu seja totalmente favorável a essas marchas (de qualquer tipo), que atrapalham o cotidiano de muita gente com barulho e fechamento de ruas, mas algumas, como a Parada Gay, têm importância política e podem trazer boas mudanças a longo prazo, até o dia em que ninguém mais precise marchar.</p>
<h3>Imagem em destaque</h3>
<ul>
<li><em>A Liberdade guiando o povo</em> &#8211; Eugène Delacroix (1830)</li>
</ul>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-61000"></div></div>]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Liberdade e livre-arbítrio &#8211; parte 1</title>
		<link>http://teianeuronial.com/liberdade-e-livre-arbitrio-parte-1/</link>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 11:00:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A liberdade irrestrita nos torna realmente livres?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É por parte de cristãos de diversas denominações que mais se ouvem queixas reacionárias perante críticas dirigidas ao Cristianismo, manifestações pelos direitos dos LGBTs e reivindicações pela efetiva laicidade do Estado. Quando uma boa quantidade de pessoas critica o comportamento de <a href="http://youtu.be/c8oHt83AJTQ" target="_blank">evangélicos que transformam uma cabine do metrô numa barulhenta sessão de pregação</a>, com direito a possessões divinas e diabólicas, alguns evangélicos sentem que se trata de uma repressão a sua crença. É difícil que algo assim não provoque <a href="https://www.facebook.com/Debora.Tex/posts/129221323863855?notif_t=share_reply" target="_blank">calorosas discussões</a> na internet.</p>
<p><a href="http://bulevoador.haaan.com/2012/01/32171/" target="_blank">Recentemente</a> a direção do Hospital Regional do Agreste, em Caruaru, Pernambuco, proibiu as práticas de pregação e oração por parte de visitantes nas enfermarias. Nada mais é do que um ato de bom senso e compreensão da necessidade de os vários pacientes repousarem e se recuperarem de procedimentos médico-cirúrgicos. Pastores se sentiram oprimidos em sua liberdade de culto, como se a pregação fosse mais importante do que a liberdade e a saúde de outras.</p>
<p><span id="more-5993"></span>Eu que já fui paciente de enfermaria e UTI sei muito bem qual é essa necessidade de um ambiente tranquilo, sem o qual o corpo não relaxa e não pode se recuperar. Fazer oração em grupo e/ou em voz alta numa enfermaria pode fazer mal aos pacientes, mesmo aos que são cristãos.</p>
<p>O <a href="http://ligahumanista.org/" target="_blank">movimento</a> pela transformação do Estado brasileiro numa instituição verdadeiramente laica e democrática tem provocado indignação por parte dos setores mais conservadores, e entre estes tem destaque a bancada evangélica do país. Propostas como o <a href="http://teianeuronial.com/pl-122-diacontrahomofobia/" target="_blank">PL 122</a> (“Lei anti-homofobia”) fazem com que muitos pastores se sintam tolhidos em seu direito de dizer o que pensam sobre a homossexualidade. O fato é que esse projeto de lei não chega a tanto, apenas prevê punição por atos de preconceito, discriminação e violência por motivação homofóbica. O pastor pode dizer o que quiser sobre o suposto caráter demoníaco da homossexualidade, desde que não incite a violência contra os homossexuais nem trate desigualmente as outras pessoas por causa de sua orientação sexual, a não ser que queira ser punido.</p>
<p>Isso significa que uma mãe ou um pai evangélicos estão sujeitos às penas da lei se demitirem uma babá lésbica pelo fato de ela ser lésbica? Com certeza. Isso é tolher a liberdade dos evangélicos? Não, isso é uma medida para desencorajar o preconceito, pois nenhum argumento pode negar o fato de que achar que a presença de uma lésbica ou de um gay poderia ser prejudicial para uma criança é um ato de puro preconceito.</p>
<p>Dissertar sobre os limites da liberdade é difícil e mexe com muitos de nossos preconceitos e valores. A importância da liberdade foi tão cultivada na cultura ocidental que ela é sempre supervalorizada em qualquer discurso, mesmo que não haja unanimidade sobre o que ela significa. Muitos cristãos se utilizam do argumento de que a liberdade deve ser preservada em detrimento da repressão, o que implica que qualquer crítica a qualquer coisa relacionada a sua religião é um erro e um absurdo atentado a seu direito de professar as ideias que tiverem.</p>
<p>A liberdade é um valor muito prezado por mim também. Porém, o perigo da ideia de que deve haver liberdade irrestrita é que ela pode ser usada para justificar atos contrários à liberdade, como: a manutenção da restrição do casamento apenas a casais heterossexuais; a proibição de casais homossexuais adotarem crianças; a institucionalização do ensino religioso nas escolas; atenuantes à punição de atos de discriminação a homossexuais ou a praticantes de religiões afro-brasileiras, entre outros.</p>
<p>Nessa perspectiva, a ideia de liberdade se alia à ideologia da tolerância, do perdão e do livre-arbítrio cristãos. O problema dessa ideologia é que, se tudo deve ser tolerado e perdoado em nome do livre-arbítrio, então não deveríamos nos preocupar com atos de violência de nenhum tipo, pois esses atos são praticados segundo a vontade de pessoas livres. As consequências desses atos, quando atentam contra a liberdade de outras pessoas, nessa perspectiva, deveriam assim ser relevadas, pois quem cuida de tudo é um ser superior e justo. Se um homem comete assassinato, desrespeitando a liberdade da vítima, “Deus saberá o que fazer com ele”; se um político surrupia milhares do dinheiro dos contribuintes, “a justiça de Deus o punirá”; se uma mulher bate em seus filhos e os prende em cárcere privado, “Deus tem um plano para ela”.</p>
<p>Pessoalmente, sou a favor do perdão, da reconciliação entre os indivíduos, do não-cultivo da vingança, da não-manutenção de sentimentos de mágoa. Guardar rancor faz mal para a própria pessoa injuriada. Entretanto, na vida em sociedade, é preciso estabelecer parâmetros e medidas que desencorajem a prática de atos e atitudes que firam a liberdade alheia, e isso pode incluir várias formas de punição, motivadas pela razão e não por emoções ligadas à vingança.</p>
<p>Ao meu ver, a liberdade só se efetua realmente quando as pessoas de uma sociedade conseguem tomar decisões baseadas no bem comum, no princípio cosmoético do “aconteça o melhor para todos”, colocando sua liberdade individual em segundo lugar, sem renunciá-la absolutamente. Principalmente, ser livre é se despojar de vícios e valores preconceituosos. O ethos da liberdade plena é a <em>autolibertação</em> dos próprios cabrestos e dos hábitos que prejudicam os seres ao nosso redor (e, em muitos casos, a nós mesmos).</p>
<p>[Continua na próxima semana.]</p>
<h3>Imagem</h3>
<ul>
<li><em>O Terapeuta</em> &#8211; René Magritte (1937)</li>
</ul>
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		<title>As micaretas de Cristo</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Jan 2012 11:00:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theo G. Alves</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O escarcéu e o desrespeito nas manifestações religiosas de nossos dias]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma coisa as manifestações religiosas perderam com o passar dos anos: a solenidade. Se era preciso mostrar ao mundo ou aos próximos a fé que se sentia, isso costumava ser feito com certa cerimônia e serenidade. As pessoas davam à exposição da fé o tom solene que as promessas de salvação e conduta requeriam. Hoje, o que mais se percebe é uma carnavalização da fé e da religiosidade.</p>
<p>As cidades estão cheias do que se poderia chamar de micaretas de Cristo: são carros de som, trios elétricos, bandas, palanques e fogos anunciando a salvação e a presença de Deus no meio da rua. O que antes era solenidade, hoje é balbúrdia e alarde, como acontece nas outras manifestações carnavalescas.</p>
<p><span id="more-5994"></span>O barulho costuma ser ensurdecedor e todos são obrigados a receberem goela abaixo pregações que não querem e que, muitas vezes, perturbam a harmonia de nossas vidas. As micaretas de Cristo ou showmícios de Deus acordam as crianças, assustando-as com as explosões dos fogos; impedem a leitura de quem precisa se concentrar, com seus padres ou pastores – repare que essas manifestações são católicas, evangélicas ou se dizem ecumênicas, como se quem as organiza soubesse o que isso significa – aos berros, chamando por Deus, como se Este fosse surdo; elas não permitem que um sujeito trabalhador, muitas vezes em paz com seu próprio Deus, descanse de um dia árduo; ou mesmo incomodam os que apenas não querem ouvi-las e têm esse direito.</p>
<p>Entendo o direito de pregar uma religião, mas não aceito que não compreendam que também há o direito de não querer ouvir essas pregações. Ninguém é obrigado a compactuar com essa balbúrdia, essa sequência de desrespeitos em nome de Deus. E também me parece irônico que “Aquele que tudo vê e de tudo sabe” precise de tantos gritos para escutar alguém. Parece que os religiosos não acreditam muito nessa história de onisciência, pois se a levassem a sério, saberiam que fazer suas preces ao pé da cama, em silêncio, seria o suficiente para que Deus os ouvisse de onde quer que fosse.</p>
<p>Penso ser um tanto ridículo padres e pastores bancando as Ivetes Sangalo de Deus, inclusive fazendo paródias de suas músicas mais famosas. Pergunto-me se algum padre descolado já fez uma paródia do Michel Teló e anda cantando por aí “Ai, se Deus te pega, que delícia” e outras tais. Cada um que faça o que desejar, desde que esse desejo não incomode os que não compactuam, ou simplesmente não querem participar, do mesmo escarcéu.</p>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-59950"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>Por que divulgar o Ateísmo</title>
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		<pubDate>Sat, 01 Jan 2011 03:01:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou A diferença entre o proselitismo dogmático e o abertismo ao debate]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O livro <em>Deus, um Delírio,</em> de Richard Dawkins, traz como ideia básica, antes de simplesmente argumentar que a crença em Deus é uma ilusão e justificar o Ateísmo, principalmente encorajar os ateus ou os propensos ao Ateísmo a não terem medo de expressar suas ideias num mundo em que a religião ainda parece possuir um status intocável. Os cristãos parecem perpetuar as palavras atribuídas a Jesus, depois de ressucitar e ser abordado por Maria Madalena: &#8220;noli me tangere!&#8221;</p>
<p>Conversando com amigos sobre o livro de Dawkins, falamos sobre a postura religiosa de alguns ateus, que pregam a inexistência de Deus como um dogma a ser divulgado e pretendem converter outras pessoas. Mas penso que há um grande benefício em se divulgar ideias do Ateísmo, e digo isso não só porque sou ateu (também por isso), mas pelos motivos que exponho abaixo.</p>
<p><span id="more-1285"></span></p>
<h3>Debate intelectual</h3>
<p>A primeira razão, mais óbvia (ao menos para mim), para se divulgar o pensamento ateísta é a abertura para o debate intelectual.</p>
<p>Vivemos numa cultura onde a religião exerce grande influência na vida social, cultural e política, e é muito difícil para aqueles que professam o Ateísmo expressarem o que pensam sobre Deus e deuses sem correrem o risco de sofrerem discriminação e preconceito. Muitas pessoas assumem que falar sobre a possibilidade de não existir Deus é maléfico, e há pouco espaço para que o ateísmo entre de forma justa nos debates sobre religião, crença, moral e temas correlatos.</p>
<p>Sem a divulgação das ideias ateístas, os teístas perdem a oportunidade de pensar sobre os pontos frágeis de suas crenças, o que permitiria rever traços obsoletos e arcaicos de nossa mentalidade e de nossos costumes. Os ateus, por outro lado, perdem a oportunidade de receberem críticas relevantes dos teístas, o que lhes possibilitaria evitar equívocos e contradições na construção do pensamento ateísta.</p>
<h3>Ciência</h3>
<p>Normalmente o Ateísmo é adotado por cientistas, que, por causa dessa mesma Ciência, fortalecem a convicção de que a existência de Deus é improvável.</p>
<p>Cientistas preocupados com a divulgação do pensamento científico, como Carl Sagan e Richard Dawkins, muitas vezes se deparam com o questionamento (seja de outros, seja a si mesmos) sobre a existência de Deus (tema muito relevante para nossa cultura cristã). E normalmente expressam a visão comum na Ciência mais séria de que é mais provável que Deus não exista do que o contrário.</p>
<p>Assim, geralmente as discussões dos ateístas tocam as <em>razões científicas</em> para se justificar a improbabilidade da existência de Deus. Por isso, a divulgação do Ateísmo tem como consequência e vantagem a divulgação concomitante da Ciência, tanto dos seus conhecimentos atuais quanto, principalmente, do modo científico de abordar a realidade.</p>
<p>É claro que essa vantagem da divulgação do Ateísmo só é apreciada por quem valoriza minimamente a Ciência.</p>
<h3>Status epistemológico</h3>
<p>É uma falácia o argumento corrente segundo o qual a religião tem o mesmo valor que a Ciência enquanto crença/conhecimento. É como se fosse apenas uma questão de escolha: alguns acreditam na religião, alguns na Ciência, e ambos acham que estão certos. Portanto, não se pode dizer que religiosos estão mais certos do que cientistas e vice versa. Conclui-se, então, que se trata apenas de uma escolha entre opções com valor equivalente.</p>
<p>Mas não é assim. Há diferenças cruciais entre as epistemologias da religião e da Ciência. A começar pelo status do saber veiculado por cada uma das correntes. A religião tende a cristalizar esse saber, assumindo-o como dogma, verdade revelada, imutável. Enquanto a Ciência, por mais evidências que tenha sobre uma teoria que sustenta, está pronta a, no momento em que surgem mais evidências, revisá-la, modificá-la, ajustá-la, reformulá-la ou até refutá-la completamente. Isso está na essência do que é a Ciência.</p>
<p>O que não impede a existência de religiosos mais abertos à mudança ou de cientistas com postura dogmática, mas são exceções aos fundamentos de cada uma destas correntes do saber humano.</p>
<p>A Ciência não tem evidências suficientes para provar a existência/inexistência de Deus. Até onde sabemos, é muito mais provável que ele não exista, pois praticamente qualquer fenômeno que se atribua à sua existência tem explicações alternativas. Assim, pelo princípio científico, uma vez que há mais evidências contra a existência de Deus, é cientificamente plausível assumir sua inexistência.</p>
<h3>Antiautoritarismo</h3>
<p>Normalmente, a crença em Deus ou em deuses está ligada à ideia de que se deve obedecer à autoridade sacramentada em seu nome, seja a ele mesmo, seja aos sacerdotes de sua religião, seja a governantes. A não ser para os deístas (que, diferente dos teístas, consideram que Deus não intervém na vida humana), a crença em Deus pressupõe limitações à vida humana, mais do que a liberdade. Lembrando Bakunin, &#8220;se Deus existisse, seria preciso aboli-lo&#8221;.</p>
<p>Por isso, o Ateísmo é importante no âmbito político da vida humana, pois abraça uma crítica ao autoritarismo e a qualquer forma arbitrária de dominação. Trata-se de um posicionamento ético.</p>
<p>Dessa forma, mesmo que se provasse que existe um Deus onipotente que demanda obediência, uma mente Ateísta questionaria essa obediência cega. Se esse Deus é tão bom, a razão leva a crer que ele queira para suas criaturas tanta liberdade quanto a que ele mesmo tem. Da mesma forma que temos que renunciar à tendência natural humana a não falar e aos impulsos destrutivos, para poder nos comunicar de forma complexa e vivermos solidariamente, precisaríamos, na hipótese de esse Deus existir, renunciar à posição submissa em relação a ele.</p>
<h3>Ética</h3>
<p>Muita gente usa as palavras Ateísmo, ateu, ateia etc. com conotação negativa. Há quem afirme que a negação da existência e Deus é uma falha de caráter e que os tementes a Deus são naturalmente mais propensos a ser pessoas boas do que os que duvidam da existência da divindade.</p>
<p>Herdamos um conjunto de livros consagrados a que é atribuído status de verdade absoluta revelada e que tem servido, ao longo da história do ocidente desde a Idade Média, como suposta fonte de ensinamentos morais, como manancial de preceitos para toda a moral humana.</p>
<p>Isso leva grande parte das pessoas a crer que a aceitação (ou a negação) da Bíblia deve ser absoluta. Ou seja, aqueles que rejeitam a existência de Deus como algo relevante para a humanidade estariam automaticamente despojados de qualquer tendência a uma mente e um comportamento éticos. Porém, a ética não vem só da Religião, mas está presente no pensamento de muitos filósofos e cientistas, muitos dos quais não-teístas, desde a Antiguidade até a Idade Moderna.</p>
<p>Estamos caminhando para um mundo cada vez mais aberto às diferenças, e entre essas diferenças está a religiosidade, tão diversa e variada. Mas ainda há quem considere que a divulgação do Ateísmo é prejudicial, por supostamente ferir as crenças da pessoas religiosas. Esquece-se que as próprias religiões, cuja divulgação é muito incentivada e quase nunca impedida, são muitas vezes fonte do mesmo tipo de intolerância. Basta assistir a uma missa do canal de TV Canção Nova para ouvir um sermão afrontando o Candomblé ou o Espiritismo.</p>
<p>Também há quem tema que a divulgação do Ateísmo vai fazer mais pessoas se tornarem ateias. É como aquele medo de que os filhos de pais homossexuais tenham mais chance de se tornarem homossexuais. Ou seja, o preconceito justifica o preconceito.</p>
<p>Na Europa, tem havido há algum tempo uma campanha para expor mensagens ateístas em espaços que também são usados para propagandas de igrejas. Muita gente não gostou. É o caso do cartaz para ônibus que ilustra este texto: que diz:</p>
<blockquote><p>Provavelmente não existe Deus. Agora pare de se preocupar e vá aproveitar sua vida.</p></blockquote>
<p>Se descobríssemos provas inequívocas e irrefutáveis de que Deus não existe, será que essas pessoas que acreditam tão ferrenhamente na fonte divina da ética passariam a fazer todo tipo de mal sem se preocupar com as consequências? Acho que não. Há muitos cristãos que são bandidos, com santos tatuados no corpo. E há muitos ateus que fazem trabalhos assistenciais altamente altruístas.</p>
<p>A humanidade tem plena capacidade de desenvolver e ajustar seus preceitos éticos para viver em harmonia consigo mesma, como vem tacanhamente fazendo ao longo de sua história.</p>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-12860"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>A luta para salvar Deus</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Sep 2010 00:47:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou Argumentos falaciosos para defender a Religião]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A recente visita do Papa Bento XVI à Inglaterra trouxe à tona a atual, recorrente e insistente tentativa das igrejas cristãs de questionar o valor da Ciência e reabilitar a Religião, tão &#8220;esquecida&#8221; e &#8220;menosprezada&#8221; nos dias atuais. Numa reunião de líderes religiosos na St. Mary&#8217;s University College, Strawberry Hill, na parte sudoeste de Londres, o papa interveio no debate sobre a origem do Universo, alegando que a Ciência não pode explicar o &#8220;sentido definitivo&#8221; da existência humana.</p>
<p>Afirmando que as ciências nos apresentam uma &#8220;inestimável compreensão&#8221; de aspectos de nossa existência, o papa afirma que elas não conseguem responder à pergunta fundamental: &#8220;por que existimos?&#8221; Toda a argumentação do papa para &#8220;desqualificar&#8221; a Ciência no papel de &#8220;dar sentido à vida&#8221; e a suposta necessidade de a Religião assumir esse papel se baseiam em pressupostos discursivos que escondem falácias lógicas.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-3363" title="A luta para salvar Deus" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/savegod.jpg" alt="A luta para salvar Deus" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-3352"></span></p>
<p><img class="size-full wp-image-3377 alignright" title="Papa Bento XVI" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Papa-Bento.jpg" alt="Papa Bento XVI" width="300" height="180" /></p>
<p>Em primeiro lugar, o discurso supostamente conciliador que busca colocar lado a lado a Ciência e a Religião se revela uma tentativa de subordinar aquela a esta. Ao dizer que as ciências nos trazem uma &#8220;compreensão inestimável de aspectos da existência&#8221;, o papa está usando um eufemismo para dizer que nenhum conhecimento sobre o mundo, por mais acurado e útil que seja, é suficiente para nos trazer felicidade, ou seja, que qualquer conhecimento científico é dispensável. O que não é dispensável, segundo ele, é o desejo humano de dar sentido à vida, o que, para ele, só pode ser feito satisfatoriamente pelas religiões (especialmente, é claro, a religião cristã em sua versão católica).</p>
<p>Veja mais um trecho do discurso de Bento XVI:</p>
<blockquote><p>They cannot satisfy the deepest longings of the human heart, they cannot fully explain to us our origin and our destiny, why and for what purpose we exist, nor indeed can they provide us with an exhaustive answer to the question &#8216;Why is there something rather than nothing?</p>
<p>[Elas [as ciências] não podem satisfazer os mais profundos desejos do coração humano, elas não podem nos explicar completamente nossa origem e nosso destino, por que e para que propósito existimos, nem certamente podem nos prover uma resposta exaustiva à pergunta &#8216;por que existe algo ao invés de nada?&#8217;]</p></blockquote>
<p>Este trecho condensa várias armadilhas lógicas. A primeira é que o pressuposto da necessidade de se dar sentido à existência e a ideia de que a falta desse aspecto à Ciência é uma falha. A tarefa da Ciência nunca foi dar sentido à existência, não da forma como uma perspectiva transcendente do mundo o faz. Concordo com o papa em que a Ciência por si mesma não oferece nenhum sentido fundamental à existência, nenhum elã transcendente que torne o cru Universo algo mais do que ele próprio (como o olhar brilhante de uma criança viva que se diferencia do olho de um robô &#8211; por mais perfeitamente que este seja feito para replicar uma criança).</p>
<p>O discurso do papa gira em torno de Religião e Ciência. Ou seja, ao negar à Ciência o papel de dar sentido à vida, a sardinha pula automaticamente para o seu lado, como se a Religião fosse a única e óbvia candidata para responder às &#8220;questões fundamentais&#8221;. No entanto, um pouco de erudição e conhecimento de mundo é suficiente para sabermos que existem muitos meios que não as diversas e díspares religiões para dar sentido à existência, como a Poesia, a Filosofia, a Mitologia, e que dentro dessas várias formas de saber, há inúmeras possibilidades, dependendo do contexto histórico e cultural que busquemos.</p>
<p>De fato, desde que começou a existir neste planeta, o ser humano deu início (e jamais parou) à produção de milhares de sentidos para a existência. Seja recorrendo a estórias para explicar os fenômenos naturais, seja atribuindo ao Universo uma alma única que dá coesão ao todo, seja concebendo o tempo como um ciclo que faz tudo retornar ao início eternamente, o <em>Homo sapiens</em> nunca deixou de criar sentido para o mundo, e é improvável que qualquer cientista, por mais ateu que seja, não tenha ele mesmo uma concepção do universo que o imbui de significado, mesmo que este seja a busca pelo conhecimento ou o bem que este pode trazer à humanidade. O que não é um sentido menos valioso para ele do que Deus é para um cristão.</p>
<p>Ao colocar a pergunta &#8220;por que existe algo ao invés de nada?&#8221;, o papa pretende automaticamente legitimar a explicação bíblica para a existência do Universo, ou seja, a criação deste por Deus. Mesmo considerando que essa pergunta possa, entre outras possibilidades, ser respondida: &#8220;porque é assim que o Universo é&#8221;, a solução religiosa parece ser para o discurso do papa um caminho óbvio. No entanto, a resposta bíblica se mostra em muito incompatível com a Ciência, pois fala de uma entidade cuja existência pode ser dispensada da explicação astronômica, uma entidade que a História mostra ter aparecido no imaginário humano em um determinado contexto histórico-cultural e que não é a única alternativa teológica no vasto mundo antropológico, havendo inúmeras explicações religiosas na face da Terra, algumas contraditórias entre si.</p>
<p>Outra falácia comum na defesa da Religião como complemento necessário à Ciência é a necessidade de valores morais, o que estaria ausente de uma visão puramente científica do mundo:</p>
<blockquote><p>Never allow yourselves to become narrow. The world needs good scientists, but a scientific outlook becomes dangerous and narrow if it ignores the riches or ethical dimensions of life. Just as religion becomes narrow if it rejects the legitimate contribution of science to our understanding of the world.</p>
<p>[Nunca se permitam tornar-se estreitos. O mundo precisa de bons cientistas, mas uma visão científica se torna estreita se ela ignorar as riquezas ou a dimensão ética da vida. Assim como a religião se torna estreita se rejeitar a legítima contribuição da ciência ao nosso entendimento do mundo.]</p></blockquote>
<p>É comum os autodeclarados ateus serem repreendidos pelos crentes com a afirmação de que é preciso crer em Deus para ser uma boa pessoa. O papa defende que sem a Religião os cientistas não têm como se garantir quanto aos seus valores morais. Assim como quanto ao &#8220;sentido da vida&#8221;, o discurso católico apresenta apenas uma alternativa de fonte de valores éticos: a Religião.</p>
<p>Da mesma forma que a Ciência pura não dá por si mesma um &#8220;sentido para a existência&#8221;, ela não oferece um sentido de ética, apenas provê conhecimento sobre o Universo. Porém, temos valores morais em nossa cultura que estão presentes em nossas condutas cotidianas e que não estão vinculadas direta nem necessariamente à Religião.</p>
<p>Além disso, temos na história do pensamento universal o desenvolvimento profundo de estudos sobre a Ética fora da esfera religiosa. Se ficarmos só na Filosofia, temos um universo de autores e obras, Aristóteless, Espinoza, Nietzsche, Confúcio, entre muitos outros, que mostram a capacidade de se elaborar um intenso senso ético baseado nas necessidades humanas e não em necessidades divinas.</p>
<p>Apesar de tudo, é papel do sumo pontífice vender seu peixe e seu pão (e tentar multiplicá-los desesperadamente). O mundo católico já não é mais o mesmo, ainda bem, e o cabeça da Igreja Católica recorre às crenças cristãs mais básicas para fisgar &#8220;de volta&#8221;, com argumentos escusos, o maior número possível de cordeiros para seu rebanho. De outro lado, cientistas e entusiastas da Ciência devem permanecer atentos para não ceder tão facilmente aos pressupostos, tidos por muitos como sabedoria, de que o ser humano precisa da Religião e de que é necessária a integração entre esta e a Ciência.</p>
<h3>Fonte</h3>
<ul>
<li><a href="http://www.guardian.co.uk/world/2010/sep/17/pope-benedict-science-not-enough" target="_blank"><em>Pope&#8217;s visit: &#8216;Science cannot explain human existence&#8217;</em></a> &#8211; Guardian.co.uk</li>
</ul>
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		<title>Da onipotência</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Dec 2009 22:52:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou É melhor ser temido do que amado]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As conversas sobre religião cristã ou sobre crenças religiosas do Cristianismo podem revelar muitas das contradições e preconceitos inerentes aos discursos teístas, notadamente quando os envolvidos na conversa são evangélicos. Não porque sejam pessoas mais preconceituosas ou contraditórias, mas, talvez, porque as religiões evangélicas, herdeiras de Lutero, encorajam os crentes a elaborar suas convicções (os católicos se contentam mais com um discurso instituído).</p>
<p>Tomem como exemplo o diálogo abaixo, que parafraseio por não ter podido gravá-lo, mas que reproduz a maior parte das ideias expressas pelos interlocutores. As duas personagens são colegas de trabalho que se encontravam na mesma sala que eu no momento da conversa. Eu apenas ouvi e não participei.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1223" title="Da onipotência" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/onipotencia.JPG" alt="Da onipotência" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-1087"></span></p>
<blockquote><p>Sabe aquele menino que trabalhou no Setor X, que usava touca, umas roupas coloridas? Você soube que ele morreu?</p>
<p>Soube.</p>
<p>Quando você soube?</p>
<p>Fulana me contou semana passada.</p>
<p>Eu soube hoje, pois Beltrano me falou. Era tão novo, só tinha 16 anos! Mas é assim mesmo. Coisa de Deus.</p>
<p>Pois é, o mistério de Deus.</p>
<p>É uma pena, mas Deus sabe o que faz. Essas coisas acontecem, às vezes é até uma forma de evitar um sofrimento&#8230;</p>
<p>É, esse menino era meio alegrinho&#8230;</p>
<p>&#8230;então, isso poderia trazer um sofrimento para os pais&#8230; mas não sei, só Deus sabe.</p>
<p>É por isso, irmã, que a gente tem que orar pelos nossos filhos. Você ora pelos seus filhos, irmã?</p>
<p>Oro!</p>
<p>Todo dia eu oro a Deus pelos meus filhos.</p></blockquote>
<p>A ideia corrente de Deus em nossa cultura se reveste de centenas de aspectos. É um prisma multifacetado que se vê de maneiras diversas e díspares de acordo com o ângulo, tal como o Diabo no <em>Inferno</em> de Dante, que tem três cabeças.</p>
<p>Não é novidade que o discurso cristão, católico, protestante ou evangélico, é homofóbico. A exortação &#8220;crescei e multiplicai-vos&#8221; não é somente uma ordem para que as pessoas tenham filhos, mas subjaz também a heterossexualidade como orientação sexual padrão. Há ainda outras passagens da Bíblia que condenam o comportamento e a orientação homossexual como crimes que devem ser punidos.</p>
<p>Mas é interessante averiguar as formas que essa homofobia encontra de justificar o preconceito. Na conversa reproduzida acima, entende-se como melhor a precaução de um possível sofrimento por parte dos pais do que a suposta assunção de uma preconcebida homossexualidade.</p>
<p>&#8220;Deus é tão bom que poupou o sofrimento dos pais desse menino&#8230; ah, e o dele próprio também, não nos esqueçamos do pobre coitado.&#8221; Mas ele não poupou o &#8220;sofrimento&#8221; de cerca de 10% da população humana e seus pais. Também não poupou o&#8221; sofrimento&#8221; daqueles que morreram sem ter esse &#8220;problema&#8221;.</p>
<p>Essa é a crueldade do &#8220;mistério de Deus&#8221;. Tudo o que ocorre, para esses teístas, é vontade de Deus e parte de um plano elaborado para o bem dos mortais. Não adianta argumentar (se você o fizer, é possível que o Diabo esteja lhe cochichando no ouvido), &#8220;Deus sabe&#8221;, &#8220;Deus não faz nada em vão&#8221;, é preciso aceitar, por mais que sua liberdade, felicidade e saúde intelectual estejam em risco.</p>
<p>Quando um crente vê frustradas suas preces, ele pode se justificar achando que não foi digno da graça ou considerando que Deus decidiu não concedê-la. Neste caso, ele entende que houve um motivo justo.</p>
<div id="attachment_1258" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-1258" title="Nicolau Maquiavel" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/maquiavel.jpg" alt="Segundo Maquiavel, para o governante, é melhor ser temido do que amado" width="200" height="222" /><p class="wp-caption-text">Segundo Maquiavel, para o governante, é melhor ser temido do que amado</p></div>
<p>Porém, em toda essa situação o crente se vê sujeito às vontades onipotentes de Deus, sem se preocupar em entendê-las, sem se dignar a perguntar, a questionar o motivo de as coisas acontecerem. E, principalmente, sem colocar dúvidas sobre a índole do Deus em que acredita. Não importaria, por exemplo, descobrir que Deus é um safado que brinca com as vidas dos mortais; o importante é ser fiel a uma crença consagrada e ao ser que supostamente lhe deu a vida.</p>
<p>Que grande diferença há entre esse Deus e o príncipe maquiavélico que domina pelo medo em detrimento do amor? É muito mais fácil obedecer e ser fiel a uma divindade que ameaça com punição e recompensa com favores do que se sentir livre para procurar discernir entre o que é melhor e o que é pior para todos, fazendo escolhas segundo o bom senso e não de acordo com leis que serviam para apaziguar povos conflituosos e belicosos na Antiguidade.</p>
<p>Que grande diferença há, enfim, entre esse Deus e um chefe da Máfia? Este recompensa aqueles que beijam sua mão e obedecem suas prerrogativas, enquanto pune aqueles que o decepcionam. Não há aí senão a luta para sobreviver, pouco importando, para a maioria dos envolvidos, o caráter ilícito ou antiético das maquinações do Poderoso Chefão.</p>
<p>Pedir todos os dias a Deus que proteja seus filhos é como implorar para que estes fiquem imunes ao mal que aquele, onipotente, permite que exista. É como participar de uma loteria na qual os que têm mais chance são os que pedem ao dono da Casa Lotérica que dê um jeitinho em troca de um voto nas eleições.</p>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-10880"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>Tabu</title>
		<link>http://teianeuronial.com/tabu/</link>
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		<pubDate>Thu, 29 Oct 2009 22:40:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou É Proibido Duvidar]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há assuntos que o bom senso nos faz evitar a muito custo. Por mais convicção que tenhamos em relação a um assunto, quando tal convicção se opõe à opinião (pública), ao que a maioria acredita ser verdade, temos receio de colocá-la em questão, especialmente diante de pessoas que defendem de modo aguerrido essa opinião pública. Um exemplo clássico (que se trata de minha exeriência pessoal) é falar sobre religião e Deus.</p>
<p>Não é nada fácil ser agnóstico e muito menos ser ateu numa cultura em que predomina o monoteísmo cristão. Dizer que não se tem certeza se existe um deus ou Deus é convidar os teístas mais fanáticos a nos dar um sermão. Afirmar que Deus não existe é despertar pena ou ganhar a desconfiança de algumas pessoas.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1135" title="O nascimento de Deus" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/tabu.jpg" alt="O nascimento de Deus" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-1125"></span>Pior ainda é quando sua forma de encarar a existência de Deus é complexa demais para ser denominada pelos termos disponíveis no mercado linguístico. Se alguém me pergunta se acredito em Deus, responder que &#8220;não acredito&#8221; resume bem minha visão, mas desperta uma série de preconceitos atrelados a essa frase que não correspondem exatamente à minha visão do tema.</p>
<p>Uma colega minha do trabalho não acredita que exista Deus nem afirma sua inexistência. Para mim, ela se encaixa no conceito de agnóstica. Mas ela não se considera agnóstica nem ateia nem teísta. Conversando com ela, sugeri que ela é agnóstica, mas ela discordou, dizendo que não aceita essas denominações.</p>
<p>Desde que comecei a entender bem o que significa ateísmo, agnosticismo e Ciência, comecei a me considerar <em>cientificamente agnóstico</em> e <em>filosoficamente ateu.</em> O primeiro termo se refere à minha ideia de que não é possível, através da investigação científica, averiguar a existência ou a inexistência de um criador onipotente, onisciente e/ou onipresente. Na Ciência, não se tratam de verdades absolutas, mas de aproximações da realidade, e toda afirmação científica é, de certo modo agnóstica, pois não é revelada e sim o resultado de um esforço cognitivo.</p>
<p>O segundo termo se refere à negação de qualquer tipo de autoridade absoluta, humana ou divina. De modo que me reporto ao pensamento de Mikhail Bakunin, para quem a existência do Deus das religiões monoteístas implica a escravidão do ser humano. Parodiando Voltaire (&#8220;Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo&#8221;), Bakunin diz: &#8220;Se Deus existisse, seria preciso aboli-lo&#8221;. O que me faz relacionar filosofia e ateísmo é uma noção ética, moral, ou seja, mesmo que exista algo que se possa chamar de Deus, considero antiético que sua existência implique na servidão humana.</p>
<p>Além disso, algumas de minhas perspectivas de existência são contrárias a grande parte das crenças dos ateus. Considero, por exemplo, que as manifestações da consciência humana extrapolam os 5 sentidos do corpo físico, que podemos nos manifestar fora desse mesmo corpo (o que se conhece como projeção astral, experiência fora do corpo ou projeção da consciência), que faz sentido que cada um de nós tenha tido outras vidas e terá outras no futuro e que nesse processo estamos evoluindo, cada um, para uma condição cada vez mais avançada. Isso não quer dizer que eu não possa me considerar ateu, pois o sentido estrito dessa palavra é a negação (a-) da divindade (théos).</p>
<h3>Etiqueta</h3>
<p>Certa vez li na revista Veja um excerto de um manual de etiqueta que dizia que num jantar deve-se evitar conversar sobre 3 itens, entre os quais figurava a <em>religião.</em> Ora, quando se diz isso, o que se deixa implícito  é que &#8220;não se deve ofender as crenças das pessoas&#8221;. Na realidade, nã há riscos de haver confusão ao se falar de religião num jantar onde todos os presentes são adeptos de um mesmo credo. Esse risco é até pequeno mesmo quando cristãos de diversas correntes discorrem sobre assuntos teológicos que interessam a todos eles.</p>
<p>Entretanto, não se considera aceitável deixar à mostra a descrença ou o ceticismo, justamente porque estes abalam o apego desesperado dos crentes. Um especialista em etiqueta que recomenda a discrição na hora de se abordar religião pode estar implicitamente assumindo que tem uma religião que acredita ser a correta e não gosta que outros abordem suas crenças de maneira crítica, mesmo que seja para ajudar a entender melhor algum aspecto dessa crença.</p>
<p>A lógica dessa etiqueta se baseia na ideia de que as religiões têm que ser respeitadas (mesmo que seus discursos incluam críticas a outras formas de pensar) e que a crítica às religiões é um erro, pois seria a negação de algo fundamental da natureza humana. É a mesma lógica de quem pensa que os símbolos religiosos têm que estar presentes nas instituições públicas de um Estado laico (mesmo que eles ofendam algumas pessoas) mas se sente ofendido com uma manifestação ateísta ou de outra religião. A tirinha abaixo, de Don Addis, resume extraordinariamente bem o que tenho em mente:</p>
<div id="attachment_1140" class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><img class="size-full wp-image-1140" title="Crente vs. ateu" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/crentexateu.jpg" alt="&quot;Idiota cego! Marginal! Pervertido! Comunista! Blasfemador! Verme imoral e escória da terra!&quot; &quot;Ei! Que tal mostrar algum respeito?!&quot;" width="400" height="529" /><p class="wp-caption-text">&quot;Idiota cego! Marginal! Pervertido! Comunista! Blasfemador! Verme imoral e escória da terra!&quot; &quot;Ei! Que tal mostrar algum respeito?!&quot;</p></div>
<p>Porém, é preciso levar em consideração um outro aspecto, que se relaciona à mesma ética a que aludi acima: às vezes uma pessoa tem tão entranhada em si uma convicção que questionar e desconstruir de maneira lógica seu pensamento seria uma violência.</p>
<p>Mas se todos incorporassem verdadeiramente uma postura racional e civilizada, poderiam deixar de lado esses melindres e discutir abertamente seus pontos de vista, flexibilizando-se a novas experiências e novas perspectivas, sem as noções preconcebidas de que &#8220;é preciso mostrar ao outro que eu estou certo&#8221;. Surgiria então uma nova etiqueta, baseada no discernimento, no abertismo e no universalismo, e toda essa bobagem de discrição na hora de abordar certos temas seria superada.</p>
<h3>Notas</h3>
<p>Este texto é uma versão ampliada de um <a href="http://teia.spaces.live.com/blog/cns!D7E21C927413E37F!140.entry" target="_blank">post originalmente publicado</a> na <a href="http://teia.spaces.live.com/" target="_blank">primeira Teia Neuronial</a>. Seguindo a ideia que expressei no texto <a href="http://teianeuronial.com/a-morte-e-o-texto/" target="_self"><em>A Morte e o Texto</em></a><em>,</em> decidi, ao invés de pegar os textos antigos e republicá-los integralmente, reconstruí-los, atualizando as ideias a respeito dos temas abordados, seja porque mudei minha forma de vê-los, seja porque há algo novo a acrescentar.</p>
<p>Confiram o texto original <a href="http://teia.spaces.live.com/blog/cns!D7E21C927413E37F!140.entry" target="_blank">neste link</a> ou abaixo:</p>
<blockquote><p>Há assuntos que se evitam a muito custo abordar. Por mais convicção que tenhamos em relação a uma coisa, quando tal convicção se opõe à opinião (pública), teme-se-a pôr em questão. Um exemplo clássico (que se trata de minha exeriência pessoal) é <em>religião</em> e <em>Deus.</em></p>
<p>Não é nada fácil ser ateu. Ainda menos quando eu me posiciono de forma a me considerar <em>cientificamente agnóstico</em> mas <em>filosoficamente ateu.</em> Aquele termo se refere à minha idéia de que não é possível através da Ciência a averiguação da existência de Deus (o agnosticismo não se refere só à questão da existência de Deus). O segundo termo se refere à negação de qualquer tipo de autoridade, humana ou divina. Para Mikhail Bakunin, a existência de Deus implica a escravidão do ser humano. Parodiando Voltarie, Bakunin diz: &#8220;Se Deus existisse, seria preciso aboli-lo&#8221;.</p>
<p>Há algum tempo li na revista <em>Veja</em> um excerto de um manual de etiqueta, que dizia que num jantar deve-se evitar conversar sobre 3 itens, entre os quais estava <em>religião.</em> Ora, quando se diz isso, o que se quer deixar entender é que &#8220;não se deve ofender as crenças das pessoas&#8221;. Na realidade, pode-se muito bem falar de religião num jantar quando todos os presentes são adeptos de um mesmo credo. Admite-se até que cristãos de diversas correntes discorram sobre assuntos teológicos que interessam a todos eles. Mas não é bonito deixar à mostra a descrença ou o ceticismo, justamente porque estes abalam o apego desesperado dos crentes.</p></blockquote>
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