O universo colorido de Steven

Padrão

Há tanta, tanta coisa a se falar sobre Steven Universo (Steven Universe) que cá eu fico planejando vários textos para abordar tantos dos temas que aparecem ao longo dessa bela série. Mas se não vier a ser o caso, ao menos vou apresentar aqui diversas das razões porque acho esse desenho animado tão apaixonante e instigante e porque penso que vale a pena lhe dar uma chance.

Continue lendo

Alien: O Oitavo Passageiro

Padrão

Título original: Alien

Direção: Ridley Scott

País: Grã-Bretanha/EUA

Ano: 1979

Alien: O Oitavo Passageiro é um marco na história do cinema de terror e ficção científica. Não é apenas uma excelente história de suspense. Representa uma instigante reflexão sobre vida alienígena, uma ótima abordagem do tema do estupro e uma franquia duradoura que rendeu ótimas narrativas tanto no cinema quanto em outras mídias.

A ideia do filme surgiu da cabeça de Dan O’Bannon, na época um roteirista iniciante que queria realizar um filme de terror espacial. Com a ajuda de Ronald Shusett, eles conseguiram o designer perfeito para a criatura que seria o antagonista da obra (que inicialmente seria chamada Star Beast e era descrita pelos roteiristas como uma espécie de Tubarão se passando no espaço). O artista plástico suíço H. R. Giger usaria uma de suas criações, uma figura chamada Necronom IV, para basear a imagem do monstro alienígena.

Necronom IV, a surreal e erótica ilustração de H. R. Giger que inspirou o alien/xenomorfo

Necronom IV, a surreal e erótica ilustração de H. R. Giger que inspirou o alien/xenomorfo

A dupla O’Bannon e Shusett encontrou também um diretor que se empolgou com a ideia, Ridley Scott. A sinergia entre O’Bannon, Shusett, Giger e Scott foi tamanha que muita coisa, desde o roteiro, passando pelos storyboards até o design final, teve a mão de cada um deles no processo de concepção e realização do filme. Quando resolveram batizar o projeto de Alien, os roteiristas gostaram do fato de que a palavra pode tanto ser um substantivo quanto um adjetivo, o que acrescentou um sutil elemento de ambiguidade ao título. “Alien” tornou-se então o apelido da criatura, inclusive em outras línguas, como em português (a tradução literal seria “alienígena”). Posteriormente, essa espécie também seria conhecida em seu universo fictício pelo nome xenomorph (“xenomorfo”), ou seja, “forma estranha”, “forma alienígena”.

Sinopse

A história se passa no espaço, na nave comercial Nostromo pertencente à empresa Weylan-Yutani, que carrega uma gigantesca carga de minério para a Terra. Os sete tripulantes humanos, além de um gato que os acompanha, são acordados da animação suspensa por causa de um pedido de socorro vindo de um planetoide próximo ao qual eles passavam. Ao descer ao planetoide para investigar, a tripulação enfrenta dois problemas. Primeiro, a nave auxiliar, Narcissus, que os levou à superfície se danifica e precisa de reparos antes de retornar à nave-mãe.

Mas isso é pouco, comparado ao que vem a seguir, Kane, um dos três oficiais que desceram para explorar as ruínas de uma enorme nave espacial alienígena, é atacado por uma criatura que escapa de um estranho ovo e se prende ao seu rosto, deixando-o paralisado, o facehugger (“agarra-rosto” ou “pega-fuça”). A maior preocupação da tripulação agora passa a ser a vida do oficial executivo Kane. Ele permanece desacordado durante algum tempo, mas desperta sem nenhum problema de saúde aparente. Enquanto o grupo come a uma mesa, Kane tem fortes convulsões e uma criatura semelhante a uma serpente explode para fora de seu peito (chestbuster ou, em bom português, “arromba-titela”), matando-o imediatamente.

Sem que ninguém saiba, o “alien” rapidamente amadurece, assumindo forma vagamente humanoide. A história continua com a sistemática caça da criatura a todos os tripulantes. Durante a tentativa de se capturar a criatura, descobre-se que o oficial de ciências Ash é um androide programado para levar o alienígena vivo para a Terra, mesmo que isso signifique a morte de todos os tripulantes. Após a morte do capitão Dallas, cabe à oficial de segurança Ripley salvar a pele do resto da tripulação e a sua própria.

Ripley vs. alien

A nave Nostromo pode ser uma metáfora da psique feminina que precisa ser dominada pela disciplina sobre os instintos.Interessa notar que o “coração” da nave, ou seja, o computador central, é chamado de Mãe. Ao longo da narrativa, Ripley, a personagem mais racional, vai aos poucos se destacando como a protagonista.

A morte da figura paterna, o capitão Dallas, é o início da tomada de consciência sobre seu papel. Isso se acentua quando a timoneira Lambert é devorada pela criatura. Lambert representa a parte mais infantil da psique feminina, a emocionalidade descontrolada, o pavor do desconhecido.

A criatura “alien” torna-se assim a nêmesis de Ripley. O amadurecimento da mulher acontece gradualmente à medida em que ela assume a responsabilidade pelos seus colegas tripulantes. O fato de ser uma mulher representa uma dificuldade em alguns momentos, pois ela é ridicularizada. Sua intuição inicial sobre o perigo daquela missão, a princípio menosprezada, mostra-se sensata, porém tarde demais. A criatura, também simbolicamente feminina em seu aspecto puramente corpóreo e sua reprodução assexuada, é um fantasma interior, uma força caótica com que Ripley precisa lidar, para não deixar que tome conta da nave. Assim como Alice amadurece e (literalmente) cresce ao confrontar a Rainha de Copas, Ripley precisa enfrentar a poderosa imagem feminina do ‘alien” para se ver livre e independente.

A natureza do alienígena

A origem da criatura alienígena dessa ficção científica espacial permanece um mistério até o fim e se mantém assim ao longo de outros três filmes da franquia (Aliens: O Resgate, Alien 3 e Alien: A Ressurreição). Existem pelo menos duas formas de se interpretar a natureza desses seres, dentro de um universo propício a especulações científicas.

Uma delas, que é mais próxima do cânone e que começou a ser explorada na franquia Prometheus, é a de que os “aliens” são produto de uma experiência de engenharia biológica, feita por uma espécie alienígena muito antiga e que fugiu ao controle. Porém, no filme que estamos analisando aqui essa explicação não tem muita relevância, a não ser que consideremos o vívido interesse da empresa (através de seu agente secreto, o androide Ash) em analisar a espécie, o que pode indicar conhecimento prévio sobre a experiência fracassada e uma tentativa de retomá-la.

Atendo-me apenas à franquia Alien e especialmente ao primeiro filme, sobre o qual aqui discorremos, acho mais pertinente encarar a criatura como uma espécie pertencente a um ecossistema extremamente hostil, que foi capturada pelos enigmáticos humanoides cuja nave é encontrada em ruínas pela tripulação da Nostromo. As criaturas foram responsáveis pela destruição desses humanoides, por estarem vulneráveis a uma espécie que não se encaixa no mesmo ecossistema que eles. Os humanos da Nostromo sofrem com o mesmo mal, e podemos antever que os “aliens”, se levados para a Terra, causariam um estrago semelhante ao que causaram os coelhos levados à Austrália, onde não tinha predadores naturais.

Em ambas as hipóteses, a história toca no tema da falta de escrúpulos das grandes empresas capitalistas que colocam seus interesses de lucro acima do bem-estar do resto da população. Ao brincar com um ser extremamente hostil e perigoso para os seres humanos, eles arriscam perder tudo apenas pela pequena possibilidade de enriquecerem às custas das vidas de outras pessoas.

Estupro

Um dos temas mais instigantes de Alien é o estupro. Ele aparece de maneira alegórica no ataque do “pega-fuça” a Kane, que força a inoculação de um embrião em seu tubo digestivo, através da boca. Essa alegoria ajuda a quem nunca sofreu um estupro, especialmente homens (muito menos propensos a serem vítima desse tipo de crime), a entender que esse ato não é uma simples relação sexual da qual um dos parceiros não quer participar. É um ato de violência, em seu mais sério significado, uma violação da privacidade e da integridade do corpo. O aspecto erótico do design das criaturas de Giger enfatiza ainda mais essa alegoria.

A alegoria vai mais além ao mostrar uma metáfora da gravidez não-consentida. Kane carrega dentro de si uma forma de vida alienígena, um corpo estranho e indesejado, como o são os embriões presentes nos úteros de muitas mulheres estupradas. O parto de um bebê rejeitado por ser fruto de uma violência é também representado no filme como uma violência, pois implica em sérias mudanças no corpo e na vida da parturiente. A morte de Kane representa essa mudança drástica.

Escute também

Alienígenas e predadores

Padrão

Alien vs. Predator (2004) foi um dos filmes mais esperados pelos fãs do cinema de ficção científica. Depois de terem se encontrado nos quadrinhos, em dezenas de video games e terem sido motivação para muita fan-art e imaginação, os “aliens” (dos filmes Alien: O Oitavo Passageiro, 1979; Aliens: O Resgate, 1986; Alien 3, 1992 e Alien: A Ressurreição, 1997) e os “predadores” (O Predador, 1987; O Predador 2, 1990) finalmente se encontraram (e se enfrentaram) no cinema. E três anos depois a franquia mista seria renovada com Alien vs. Predador 2 (2007).

Mas o que pode explicar tanta expectativa em relação a esse encontro de monstros? Seria a simples resposta a uma especulação de fãs quanto ao que resultaria do encontro entre as duas fictícias espécies alienígenas? Mas o que, no fundo, motivaria essas especulações? Uma motivação política, esperando uma obra artística que retratasse de forma metafórica “a guerra entre o bem e o mal” (ou entre o Ocidente e o Oriente, ou entre o Primeiro Mundo e o Terceiro Mundo, ou entre Estados Unidos da América e o resto do mundo – afinal o filme foi lançado em plena “guerra ao terror” do governo de George “Warrior” Bush)?

Penso que não se trata de mero capricho hollywoodiano. Afinal, os crossovers vinham sendo feitos bem antes da “guerra ao terror” e continuaram fortes depois e até hoje em dia. Além disso, o filme vinha sendo prometido havia muitos anos (este que escreve foi um dos que o esperou ansiosamente), e tudo indica que a ideia do embate entre esses alienígenas tenha surgido entre os fãs de cinema e ficção científica; apareceram assim muitas sugestões em diversos video games (como o famoso arcade Alien vs. Predator, da Capcom, que me divertiu muito nos meus 14 anos de idade) e nos quadrinhos. Além disso, o público que ansiou por esse filme é restrito e específico demais, embora fiel. Tampouco a “motivação política” parece ter sido inspiração para a obra. Quando se trata de retratar conflitos políticos, guerras etc., Hollywood nos presenteia com Rambo (1982), Nova Iorque Sitiada (1998) e coisas semelhantes.

Ao assistir ao filme, veio-me à mente o livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário, de Gilbert Durand. Notei que era possível enquadrar os aliens como personagens no regime noturno da imagem, de acordo com a classificação de Durand, enquanto os predadores se encaixam melhor no regime diurno da imagem. (Não quero aqui entrar no mérito de avaliar o filme em seus aspectos cinematográficos e narrativos; considero-o um filme regular, que não atendeu as expectativas, mas a reflexão sobre aspectos imagéticos é bastante rica.)

O regime diurno da imagem, segundo Durand, é aquele da antítese que separa o dia da noite, o claro do escuro, a luz das trevas. Nesse regime, existe um maniqueísmo que coloca as noções de virtude e força em oposição às de vício e fraqueza. É o regime do conflito e da guerra, do humano domesticando ou caçando o animal, da individualidade do herói que empunha uma espada para destruir em nome da honra e da glória. É, assim, um conjunto de imagens que remete, em grande parte, à noção ocidental do masculino.

Por outro lado, o regime noturno da imagem é o da antífrase e da síntese, da conciliação entre luz e trevas, ligado à valorização do corpo e suas funções digestivas e reprodutivas (que são vistas com desprezo pelo regime diurno). É o regime da transmutação, no qual a morte é vista como parte do processo vital (enquanto para o regime diurno não se podem conciliar vida e morte). É ainda o regime da comunhão física, seja entre mãe e filho ou entre amantes. Forma um conjunto de imagens relacionado à ideia ocidental do feminino.

Uma das coisas que me chamam atenção nas duas franquias tratadas aqui é a escolha da designação de cada uma das espécies nos títulos de seus respectivos filmes. Ambas são alienígenas (alien em inglês), e ambas são predadoras. Mas os aliens são mais animalescos, mais próximos da natureza, numa palavra, são mais orgânicos. Em nossa cultura ocidental androcêntrica, normalmente a mulher (e o feminino) é representada como mais próxima da natureza e, assim, um ser estranho em relação ao homem (e o masculino), que seria mais próximo da cultura, do refinamento civilizatório. A mulher é tratada por nossas representações milenares como o segundo sexo, como um alienígena, uma criatura diferente do homem, sendo este visto como modelo de ser humano. O homem/macho, por sua vez, é o sexo guerreiro, suas motivações são vistas como as de um caçador em busca do sustento da família e também de um predador que luta por troféus (sejam riquezas ou mulheres).

A rainha bota os ovos; o ovo eclode e o "facehugger" se agarra ao rosto do hospedeiro; o parasita inoculado no hospedeiros emerge ("chestburster") como uma espécie de serpente e cresce até sua forma adulta e mortal

A rainha bota os ovos; o ovo eclode e o “facehugger” se agarra ao rosto do hospedeiro; o parasita inoculado no hospedeiro emerge (“chestburster”) como uma espécie de serpente e cresce até sua forma adulta e mortal

Os aliens, também chamados de xenomorfos, têm uma relação estreita com sua mãe-rainha, uma relação orgânica no sentido mais romântico que a semântica dessa palavra pode alcançar. São bem como abelhas ou formigas, o que pode nos autorizar pensar que são todos fêmeas, vivendo num mundo natural, biológico, como em nossa cultura se representa a mãe com os filhos, nos laços afetivos de um mundo feminino. Suas armas são seus próprios corpos, a cauda flexível e perfurante, o sangue ácido, a arcada bucal dupla e a hiper-resistente couraça. A relação que estabelecem com os protagonistas humanos é orgânica também, pois, além de os humanos lhes servirem de alimento, sua procriação depende de um organismo hospedeiro na primeira fase da vida, e os ovos dos quais eclodem as larvas aparecem provocando uma curiosidade sedutora. Essa sedução feminina se evidencia no constante desejo, presente em quase todos os filmes da franquia Alien, da empresa Weyland-Yutani em sacrificar vidas para capturar um espécime.

alienlifecycle

Esquematização do ciclo de vida de um xenomorfo/alien

Já os predadores, cuja espécie também é conhecida como yautja, se caracterizam por ser mais individualistas, “livres” num certo sentido, sem um vínculo afetivo materno que lhes tolha a individualidade. Aparentam ser todos machos (possuem um físico masculino, segundo os padrões humanos), numa sociedade cooperativa-competitiva, em que lutam lado a lado mas parecem ter objetivos pessoais (que no entanto e de maneira geral coincidem). Agem como heróis em busca de troféus de suas caçadas, e viajam pelos planetas em busca de satisfação para seu esporte. Suas armas são artificiais, lanças e garras retráteis, discos cortantes que voltam como bumerangues, canhões de plasma em suas ombreiras, redes de aprisionamento, bombas (que podem usar para se matar, numa espécie de seppuku ritual, um gesto de honra masculina tipicamente conhecido entre guerreiros da Terra) e outras, além de uma armadura sem a qual podemos imaginar que seriam bem vulneráveis.

Por um lado, os aliens se mostram como realmente são, agindo instintivamente. Mas os predadores são seres com cultura, cheios de artifícios, e o uso da máscara é simbólico de seu esforço para domar o monstro que têm em si mesmos (como os humanos fazem com a ética e as regras sociais) e cujo rosto ele mostra apenas em situações extremas. Também é interessante notar que a antagonista/alter-ego do alien é exclusivamente uma mulher, especialmente a figura de Ellen Ripley, enquanto o predador sempre tem como nêmesis um homem.

A alien rainha contra sua nêmesis (a fêmea-alfa) e o predador perante seu rival (o macho-alfa)

A alien rainha contra sua nêmesis (a fêmea-alfa) e o predador perante seu rival (o macho-alfa)

Esse contraste, aparente quando observamos os filmes de cada uma das franquias, se evidencia ainda mais em Alien vs. Predador, onde as duas espécies se enfrentam. Nas lutas, os xenomorfos usam exclusivamente seus corpos para atacar e se defender, ou seja, suas garras, presas, caudas em forma de lanças, sangue ácido e couraça ultrarresistente. Por outro lado, os yautja só se valem de sua tecnologia, sem a qual seriam indefesos: suas armas e armaduras e seus sensores. Além disso, xenomorfos são seres mais instintivos do que racionais, enquanto os predadores usam uma inteligência estratégica.

O embate se caracteriza como uma caçada esportiva, em que os predadores buscam satisfazer o desejo de subjugar a natureza, o que remete ao desejo masculino de subjugar e domesticar o feminino, representado em nossa cultura misógina como perigoso, ardiloso, emotivo e irracional. As aliens se defendem como animais, como uma força da natureza, sem rosto (literalmente) e sem identidade. Sua motivação é apenas a sobrevivência enquanto espécie.

Também é interessante observar a belíssima imagem da rainha alien coberta por suas crias, como um gigantesco escorpião-fêmea carregando seus filhotes. É uma imagem plenamente feminina de comunhão carnal, em que não há diferenciação entre os membros do grupo, como se fossem um só organismo e uma só inteligência coletiva. Mas a primeira imagem em que aparecem os três predadores, por outro lado, é emblemática, neste caso, de seu caráter masculino e guerreiro, pois eles aparecem caminhando lado a lado, cada um com sua individualidade e personalidade, evidenciada em armaduras únicas e armas de preferência.

Predadores do filme Predador 2

Predadores do filme Predador 2

Vale lembrar o momento em que a única humana (uma mulher) sobrevivente do conflito se junta ao último predador para enfrentar a rainha. O caçador confecciona para a mulher uma lança e um escudo improvisados, utilizando respectivamente a cauda e a cabeça de um alien, como que misturando os aspectos masculino (do estilo de lutar dos predadores) e feminino (os corpos dos aliens). É como se o predador considerasse mais adequado que uma mulher usasse armas mais ligadas ao feminino, ao alien animalesco. Se não, por que não disponibilizou para ela as armas de seus companheiros mortos?

Resumindo, parece que esse embate entre aliens e predadores simboliza uma querela que perdura entre seres humanos há milênios, e que sempre foi motivo para elaboradas teorias sexistas e piadas preconceituosas sobre mulheres e homens, que parecem não perder a validade entre aqueles (muitos)  que pensam que está na natureza a origem das diferenças de comportamentos entre os machos e as fêmeas humanas, e daí também as desigualdades entre eles. Metaforicamente, a luta entre essas duas espécies alienígenas também pode ser extrapolada para uma alegoria dos esforços humanos (os predadores) para domar a natureza (os aliens), seja esta considerada literalmente ou como metáfora dos instintos que a cultura precisa domesticar para existir.


Uma versão menos elaborada deste texto foi publicada originalmente na Teia Neuronial Beta, em 25 de março de 2005.

Solaris e as dimensões da vida

Padrão

Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

O romanceSolaris, escrito em 1961 pelo escritor polonês Stanislaw Lem, extrapola a um nível incomum dentro da Ficção Científica o complicado tema do contato entre espécies alienígenas.

Solaris é um planeta que gira ao redor de duas estrelas (sistema binário) e se mantém numa órbita regular devido à misteriosa ação de um oceano que cobre a maior parte da superfície do astro. Sem essa ação, as forças físicas fariam com que a órbita não se mantivesse constante, e vários estudos levam pesquisadores e cientistas a considerar que o oceano é um organismo vivo.

O caso Solaris levou, desde a descoberta do planeta pelos humanos, à constituição de uma escola acadêmica cujos membros ficaram conhecidos como solaristas. Ao longo de décadas, muitos pesquisadores de diversas áreas se reuniram numa estação flutuante construída para esse fim, e uma extensa produção científica tentou “desvendar os mistérios” do oceano e, especialmente, encontrar um meio de se comunicar com ele.

A trama do livro tem início já na decadência dos estudos solaristas. A estação de Solaris, outrora fartamente povoada de ávidos pesquisadores, hoje só conta com três melancólicos cientistas (Gibarian, Snow e Sartorius) que aguardam a chegada do psicólogo Kris Kelvin. Este se depara com uma desolação, descobre que seu mestre Gibarian morreu recentemente e os sobreviventes estão atormentados. Após alguma sondagem, Kelvin começa a ser assombrado pela presença de um clone (aparentemente surgido do nada) de sua falecida esposa suicida.

Os outros habitantes da estação também são assombrados por fantasmas, recriações físicas do oceano, que de alguma forma sondou as mentes dos cientistas e “trouxe à vida” pessoas ligadas a eles por algum forte laço emocional. A história se desenvolve com as tentativas do grupo para destruir os “fantasmas” (possuidores de incomum invulnerabilidade), o dilema de Kelvin, que gostaria de manter viva sua “esposa” Rheya, tudo permeado pelas leituras que o psicólogo empreende dos livros disponíveis na estação, mostrando ao leitor uma recapitulação da história dos solaristas e suas teorias.

Essa recapitulação começa com as primeiras teorizações sobre a natureza do oceano de Solaris, mostrando uma luta constante dos cientistas para enquadrar a estranha forma de vida nos padrões conhecidos pela Ciência, a frustração desse empreendimento intelectual, as mortes decorrentes da investigação in loco do oceano e a decadência dos estudos solaristas, que passaram a ser simplesmente descritivos.

O que é um ser vivo?

Lem criou uma situação extrema que poderia, grosso modo, ser comparada à relação entre um elefante e um formigueiro. As formigas que caminham sobre o joelho dianteiro de um elefante talvez não percebam que estão em cima de um animal, e dificilmente o paquiderme perceberá tão pequenos insetos sobre sua grossa pele. A diferença nas dimensões e tamanho é um obstáculo, quase um entrave, para a comunicação entre humanos e o oceano planetário, para o qual aqueles são ínfimos, pouco mais que grãos de poeira trazidos pelos ventos cósmicos.

Ao mesmo tempo, há uma diferença descomunal de escala entre elefante/formigas e oceano/humanos. Essa discrepância é tamanha que a história dá a entender que o simples fato de o oceano sondar os pensamentos dos humanos (por meios totalmente inexplicados no livro e plenamente irrelevantes para os propósitos de Lem) o faz gerar certas ressonâncias que são praticamente idênticas às imagens nas mentes dos minúsculos (por que não dizer microscópicos, na visão do oceano) primatas que passeiam em sua superfície.

No período que Kelvin passa na estação de Solaris, ele lê vários livros, enciclopédias, manuscritos e panfletos, apresentando ao leitor o longo e complexo histórico dos estudos e pesquisas sobre o oceano. A trajetória científica dos solaristas é um dos elementos mais importantes do livro e apresenta toda a reflexão de Lem a respeito da problemática do contato entre seres alienígenas.

A princípio, os solaristas não cogitaram a possibilidade de o oceano ter vida. No mundo real, ao buscar sinais de vida extraterrestres, projetos como o SETI (Search for Extra-Terrestrial Inteligence – Busca por Inteligência Extraterrestre) deveria esperar situações inusitadas, como encontrar seres vivos que, para os padrões humanos ou terrestres, não são facilmente reconhecíveis como tais.

Esse é o tema do episódio O Demônio na Escuridão (The Devil in the Dark – série clássica de Star Trek, 1ª temporada, 25º episódio), em que os equipamentos da tripulação da Enterprise, que têm a capacidade de detectar sinais de vida, não conseguem perceber uma criatura suja estrutura molecular é baseada em silício e não em carbono.

Como se comunicar com um alienígena?

A situação extrema de incomunicabilidade pode nos fazer pensar na relação entre o ser humano e outros animais terrestres. Humanos conseguem “enganar” outros animais através de artimanhas dos sentidos, fazendo-os “acreditar” que estão diante de um membro de sua espécie (quando na verdade se trata de um boneco), levando-os à morte numa vela ou lâmpada (insetos “atraídos” à luz por um erro de percepção). O ser humano se aproveita de um conhecimento mais profundo sobre a realidade e do fato de os outros animais  terrestres não possuírem esse conhecimento para domesticá-los, promovendo erros de percepção e induzindo-os a certos comportamentos.

Assim, do mesmo modo que uma mariposa, “achando” que está seguindo os raios paralelos da luz da Lua, dá voltas ao redor de uma vela e acaba se queimando, o oceano de Solaris, ao sondar (conscientemente ou não) o comportamento e pensamentos dos humanos, produz formas e cores que os hipnotizam e os levam a ser engolidos pelo gigantesco mar.

Do mesmo modo que através do cheiro, da textura, da cor e de sons de um boneco se consegue fazer um animal agir como se estivesse diante de um indivíduo de sua espécie, Solaris (conscientemente ou não), ao “pensar” sobre as coisas que sonda nas mentes dos humanos, acaba fazendo brotar no ar cópias de pessoas conhecidas por aqueles homens. Estes, a princípio, ficam em dúvida sobre a natureza das pessoas que vêm assombrá-los, e só não são totalmente enganados porque estão preparados, pela experiência e pala formação científica,  para desconstruir a ideia de que uma pessoa tenha voltado à vida e tenha misteriosamente aparecido num planeta a anos-luz de distância da Terra.

Essa incomunicabilidade é ainda tão extrema ao ponto de se tornar imprevisível o comportamento do oceano, devido à impossibilidade de os humanos saberem as consequências de seus atos, não podendo prever como suas pesquisas afetam o gigantesco ser vivo, que às vezes parece amigável, outras vezes age hostilmente, e muitas vezes parece ignorá-los completamente.

Humanos, humanoides e animais estranhos

A “alienigenidade” é geralmente abordada nas histórias de Ficção Científica apenas no nível da exoticidade. Os ETs são “humanoides” (inspirados nos próprios humanos que os concebem) na maioria dos casos, às vezes indistinguíveis (como Kal-El/Clark Kent/Super-Homem e seus conterrâneos kryptonianos), mas geralmente com pequenas e sutis diferenças (variações de textura/cor da pele, nos pêlos – ausência ou abundância -, altura e/ou musculatura, protuberâncias em locais específicos do corpo, formas e cores dos olhos, presença ou ausência de nariz ou orelhas etc.), mas quase sempre apresentando cabeça, tronco e membros, em tudo imagem e semelhança daquilo que os humanos consideram mais fundamental na identificação de um “ser vivo” “inteligente”.

As histórias costumam ser alegorias da relação entre humanos de diferentes etnias/culturas (a maioria dos episódios de Jornada nas Estrelas), e em casos extremos entre humanos e animais irracionais (como na franquia Alien). Solaris vai muito além dessas perspectivas, trazendo para as especulações sobre vida extraterrestres problemas possíveis e verossímeis que poderemos enfrentar em contatos interplanetários.

Será que o oceano de Solaris é um ser vivo? Ele não existe como uma realidade “biológica” diferente de qualquer coisa que consideraríamos viva no planeta Terra? Existirá um limite para a investigação humana sobre a vida alienígena, tendo em vista desafios do tipo Solaris? Estaremos prontos para assumir o papel de cobaia investigada quando nos encontrarmos diante de uma espécie ou civilização muito mais complexa e avançada do que a nossa?

Imagem

Alienígenas em Star Wars

Padrão

As histórias de Jornada nas Estrelas (Star Trek) trazem muitas reflexões a respeito da tecnologia, do impacto de seu desenvolvimento sobre a humanidade, e principalmente aborda uma série de problemas relacionados às relações sociais, ao intercâmbio cultural e entre espécies e explora bem os temas do contato e da diplomacia.

Porém, quando olhamos para as dezenas de espécies que povoam a Via Láctea de Star Trek, quase todas são humanoides, ou seja, são baseadas em nossa própria concepção terráquea e humana daquilo que se concebe como seres inteligentes, pessoas ou indivíduos sencientes. Raramente vemos espécies inteligentes não-humanoides e dificilmente se encontram alienígenas não-sencientes que não sejam inspirados nas espécies não-humanas da própria Terra. Assim, sempre ouvimos algum personagem se referindo aos “morcegos do planeta X”, aos “felinos do planeta Y” ou às “aves do planeta Z”.

Se, por um lado, Star Trek tem uma abordagem mais séria e crítica sobre seus temas principais, estando mais ligado à Ficção Científica, por outro lado a série peca quando não extrapola as possibilidades da vida no Universo.

Por isso, é interessante ver que em Guerra nas Estrelas (Star Wars), muito mais dentro de uma Fantasia Científica ou de uma Ficção Fantástica, sem se preocupar com explicar as tecnologias presentes naquela galáxia distante nem a anatomia escalafobética das centenas de espécies inteligentes não-humanas (e até as não-inteligentes) que pululam na maior parte das cenas de seus seis filmes, consegue trazer exemplos muito mais estranhos e fora dos padrões humano-terráqueos. Assim, embora as histórias de Star Wars não busquem explicar como funcionam as biologias dessa miríade de espécies, estas podem nos trazer reflexões sobre as possibilidades anatômicas, fisiológicas e morfológicas dos seres vivos no Cosmos.

Enquanto seja comum na Ficção Científica em geral a concepção de espécies não-humanas sencientes muito semelhantes aos primatas ou, no máximo, aos mamíferos, em Star Wars vemos facilmente espécies que se parecem com lagartos,  insetos, aracnídeos, lesmas, peixes e outras coisas extraordinárias e inusitadas, misturando características conhecidas na Terra ou as extrapolando completamente. Não existe aí uma superpreocupação em adequar os seres inteligentes não-humanos às formas e proporções humanas, como os traços e elementos que formam o rosto (a própria presença de um “rosto” humanoide não é imprescindível) ou a morfologia cabeça/tronco/(4) membros (2 pernas e 2 braços).

Se por um lado isso se deve ao caráter fantástico da franquia, que concebe os personagens através da imaginação sem rédeas, resulta daí um conjunto de possibilidades mais interessante do ponto de vista de uma ficção científica especulativa a respeito da vida inteligente no universo. É claro que entre tantas espécies diferentes há muitas que são humanoides e explicitamente baseadas no ser humano, mudando apenas uma cor de pele ou de cabelo, uma protuberância aqui e ali na cabeça ou um formato extravagante dos traços faciais (um belo exemplo são os kaminoanos, cujo corpo é praticamente humano, extremamente alongado, com pescoço muito comprido e o rosto bem exótico, mas cujo modelo é facilmente identificável como o humano). Mas todo o conjunto traz mais contribuições para este tipo de discussão do que muitos outros universos fictícios.

chewbacca-ewoks

Ackbar_HS

Almirante Ackbar (mon calamari)

Mesmo algumas espécies humanoides fogem desse padrão quase-humano. O “rosto” dos wookies (espécie à qual pertence Chewbacca), por exemplo, possui outra conformação, com um focinho canídeo, ausência de orelhas visíveis e olhos pequenos. Além disso, são bem mais altos do que a média humana. Os ewoks, da lua de Endor, também são diferentes, com um “rosto” bem diverso do humano e orelhas no alto da cabeça, além do fato de terem estatura bem mais baixa do que os humanos médios.

As formas destes rostos e cabeças podem advir de um hábitat específico, talvez mais selvagem do que o de outras paragens, e as orelhas no topo da cabeça, por exemplo, podem servir para facilitar a detecção de predadores. Porém, estes exemplos ainda estão bem próximos dos mamíferos humanoides, e há outros ainda mais surpreendentes.

O almirante Ackbar também pertence a uma espécie (conhecida como mon calamari no universo expandido) que, embora tenha a clássica forma cabeça/tronco/membros quase humanoide, possui uma cabeça/rosto sem paralelos com o padrão humano (grandes olhos saltados para os lados, boca muito larga e ausência de orelhas e nariz). Sua face lembra uma mistura de peixe e crustáceo. Além disso, suas mãos são grandes e parecem uma mistura de barbatanas com patas de caranguejos no lugar dos dedos.

É interessante notar que, no primeiro filme da série (Episódio IV), a maioria dos personagens são humanos e grande parte dos alienígenas que aparecem são bandidos, “escória e vilania” de Mos Eisley, como define Ben Kenobi (à exceção notável de Chewbacca). De forma geral, nas histórias de fantasia, é muito comum que as raças aliadas dos protagonistas sejam parecidas com humanos e o grau de maldade de um personagem ou raça seja medido por uma aparência menos humana (um exemplo clássico são os orcs de O Senhor dos Anéis). Mas Ackbar, presente no terceiro filme da série (Episódio VI), é uma  bem-vinda exceção, colocando no papel de grande herói um alienígena que em outros contextos poderia ser considerado monstruoso.

Um geonosiano

Um geonosiano

Já os geonosianos, que assumem papel de antagonistas no Episódio II, são ainda mais alienígenas. Seu corpo é muito mais parecido com o de artrópodes (mais especificamente insetos) bípedes, inclusive dotados de exoesqueleto e asas como as de libélulas ou moscas. Diferente dos humanoides descritos acima, a forma como essa espécie fictícia foi concebida não permite que seja interpretada por um ator real fantasiado, e todos os geonosianos do filme são virtuais (gerados por computação gráfica). Esses insetos mostram uma extrapolação possível de uma forma de vida inteligente, com algumas das mesmas características físicas humanas, evoluída de outro filo animal.

Outro aspecto notável dessa espécie, que não tem a ver diretamente com sua morfologia (mas talvez o tenha indiretamente), é seu idioma, cuja fala é composta de vários fonemas ausentes das línguas humanas, produzidos pela garganta estridente e pela oclusão dos “lábios” de queratina dura. Mas sobre os idiomas em Star Wars eu discorrerei em outro artigo.

Essa espécie possui ainda outra característica interessante, que á um crânio muito pequeno para abrigar um cérebro de proporções como as dos humanos. Tendo em vista que os geonosianos têm inteligência semelhante à humana (ou não seriam capazes de constituir uma civilização), podemos especular que a inteligência pode se apresentar sem a necessidade de um sistema nervoso igual ao humano (embora seja difícil aqui arriscar alguma teoria, mesmo admitindo que a complexidade da biologia muitas vezes pode nos surpreender).

Essa característica pode ser encontrada em outras espécies do universo de Star Wars:

ortolantoydarianduggungan

  • Os ortolanos parecem pequenos elefantes bípedes azuis. Seu “rosto” é quase totalmente uma protuberância para baixo (como que uma tromba), com dois pequenos olhos negros e redondos no alto da cabeça e longas orelhas pendendo dos lados desta.
  • Toydarianos são baixinhos, alados e seus narizes parecem com os de antas. Um indivíduo notável desta espécie é Watto, que aparece nos Episódios I e II. Ele surpreende por ser tão pequeno e delgado e mesmo assim possuir inteligência (além de muita astúcia).
  • Os dugs não só têm o crânio pequeno como possuem uma das mais intrigantes morfologias da série de 6 filmes. Seus braços e pernas são “trocados”, ou seja, é como se em sua evolução as pernas tivessem se atrofiado (com a transformação dos pés em mãos) e os braços se superdesenvolvido (com as mãos tornadas pés). Sebulba, o piloto que desafia Anakin Skywalker no Episódio I, pertence a esta espécie.
  • Os gungans, tão detestados por parte dos fãs de Star Wars, especialmente na figura atrapalhada de Jar Jar Binks, praticamente não têm encéfalo comparável ao de um primata, mas foram capazes de construir grandes cidades no fundo do mar. A anatomia de suas cabeças é bem diversa da humana e a proporção do corpo são diferentes, com braços e pernas longos e tronco curto.

Um ithoriano

Também merece menção a raça dos ithorianos, conhecidos como cabeças-de-martelo, que aparecem como figurantes nos filmes mas têm um papel importante na série animada A Guerra dos Clones, na figura de um cavaleiro jedi. O mais impressionante nesta espécie é sua cabeça, cuja forma e anatomia extrapolam muito mais o modelo humanoide do que as outras vistas até aqui.

Ela não tem um pescoço cilíndrico sustentando uma caixa craniana, pois na verdade a cabeça e o pescoço formam uma só estrutura. Não dá para inferir onde se localizaria seu cérebro (se é que o tem), e seus olhos ficam na extremidade da protuberância que seria seu “rosto” (lembrando um tubarão-martelo). Mas seu traço distintivo mais marcante é o fato de possuir duas “bocas”, uma de cada lado da cabeça, algo que talvez não tenha nenhum precedente na fauna terrestre.

Também os hutts, espécie a que pertence Jabba, um dos vilões do Episódio VI, trazem contribuições para essa discussão. Eles não possuem membros inferiores, no lugar dos quais têm uma cauda roliça que é o prolongamento do tronco e sob a qual se arrastam quando se locomovem. O rosto é uma versão larga e achatada de um semblante humano, e os braços são curtos em proporção ao corpo. Os hutts nos levam a especular sobre a real necessidade do bipedismo para o desenvolvimento da inteligência.

Por mais que tentemos, sempre recorreremos ao mundo conhecido para fazer colagens. É a partir da natureza terrestre que os humanos extrapolam as possibilidades biológicas do universo. Mas esse é não somente um exercício mental interessante como também o início de uma reflexão mais complexa sobre a diversidade. De qualquer forma, esse exercício nos permite, mais do que a mera metáfora das relações humanas, dos choques culturais e da diplomacia, especular sobre dificuldades e desafios na comunicação e interação de espécies inteligentes realmente alienígenas entre si.

Links e fontes das imagens

Prometheus

Padrão

Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Prometheus (2012)Título original: Prometheus

Direção: Ridley Scott

País: EUA

Ano: 2012

Sinopse

O muito esperado Prometheus (2012), de Ridley Scott, prometida “prequência” de Alien: O Oitavo Passageiro (1979) – embora Scott tenha declarado que o filme não deve ser encarado como uma “prequência” -, trouxe a história de uma busca pelas origens da humanidade, tendo como mote as ideias que tornaram célebre o escritor Erich von Däniken.

Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) são dois cientistas em busca dos “Engenheiros” que criaram a vida na Terra e que supostamente deixaram mensagens sobre sua localização, em diversos locais do planeta que à época do filme são sítios arqueológicos. Suas teorias chamam a atenção de Peter Weyland (Guy Pearce), empresário ancião e bilionário, e este financia uma expedição ao local indicado pelos antigos “mapas”, na esperança de descobrir uma tecnologia que o permita prolongar sua vida.

No processo de exploração das ruínas alienígenas, os humanos da nave Prometheus (Prometeu, o deus grego que deu o fogo – e consequentemente o poder –  aos humanos e foi punido por Zeus) se deparam com estranhas formas de vida alienígena e com contágios que quase acabam com a missão. Esta tem fim apenas quando um dos “Engenheiros” é reanimado e, aparentemente, tenta viajar à Terra para destruí-la. De uma tripulação de mais de sete pessoas, só sobrevivem Shaw e o androide David (Michael Fassbender), que partem ainda em busca da origem dos supostos criadores da vida na Terra.

Abrindo a obra

Esse resumo da trama não explicita os elementos interessantes nem os pontos fracos da obra. O filme está impregnadíssimo da carga genética herdada de Alien e suas sequências, por mais que Scott tenha tentado ou negado. Isso implica tanto num apelo aos admiradores da “outra” franquia quanto numa previsibilidade advinda de uma fórmula não-original. Vamos aos detalhes.

Em primeiro lugar, Prometheus é uma história sobre a curiosidade humana, a busca científica pela verdade, a perscrutação filosófica das origens. O caráter mítico e místico de ideias fantásticas como as de Däniken em seu Eram os Deuses Astronautas? seduz o espectador com a promessa de uma descoberta fundamental.

Não é à toa que a nave da expedição se chama Prometeu, um dos símbolos ocidentais do humanismo e da autonomia humana perante o poder opressor dos deuses. Porém, nisso reside ao mesmo tempo a esperança e a danação da tripulação. Ou seja: por um lado, a presunção de “brincar” com a vida traz consequências drásticas; por outro lado, a busca revela (ou insinua) certas verdades inconvenientes sobre os supostos “criadores”, que não são os deuses bondosos que se imaginava.

Há então uma mensagem filosófica ambígua. Aparecem, sub-repticiamente, ideias ateístas, quando se observa que o “Criador” não é necessariamente bom, e talvez não haja um Criador absoluto. Weyland, que trouxe à vida David, é inescrupuloso, mas o androide o obedece cegamente, como os profetas fazem, sem questionar as razões ou os métodos daquele que lhe dá ordens. É assim que cristãos, por exemplo, justificam as atitudes antiéticas de Deus pelo argumento de que há um motivo justo por trás de tudo.

Da mesma forma, o “Engenheiro”, imaginado como um ser virtuoso e moralmente evoluído, não é mais do que um humanoide com seus próprios interesses. E, apesar de tudo, vemos a doutora Shaw, movida pela fé, voar atrás de uma resposta mais reconfortante, mesmo com a probabilidade de se arrepender amargamente. Não fica claro, assim, se Scott pretendia exaltar a fé num ideal ou apontar os riscos de uma ideologia míope.

David

Os melhores momentos do filme são encenados por David, o androide a serviço de Weyland. O personagem lembra todo o drama de outros robôs da ficção, como seu xará de A.I.: Inteligência Artificial, WALL-E e Data de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração.

David aprende variados conhecimentos em sua viagem solitária (enquanto os humanos dormem em hibernação induzida), como Super-homem em sua Fortaleza da Solidão, aprendendo com os pais virtuais. Quando a tripulação acorda à chegada ao destino da missão, o androide precisa o tempo todo suportar o desprezo dos humanos que o consideram uma coisa. Este é sempre o problema, em histórias sobre robôs, de se programar um ser artificial para simular perfeitamente um ser humano, pois ele sempre será percebido como um arremedo de pessoa, mas, por outro lado, também está programado para agir como uma pessoa agiria diante de atitudes discriminatórias e vilipendiosas.

Entretanto, tendo características humanas, David se sente superior pelo que é capaz de fazer além do que um ser humano faz. Além disso, ele se orgulha de empreender a missão de que foi incumbido por seu criador, e essa talvez seja sua pequena vingança pelo desprezo e desconfiança dos tripulantes de carne e osso. Além de ser o único no qual Weyland confia (mais até do que na própria filha), ele tem o privilégio de já conhecer seu deus, enquanto os humanos estão perdidos atrás do seu.

Prometheus e Alien

  • Em toda a quadrilogia Alien, o principal vilão/antagonista é sempre a companhia Weyland. Ou seja, a ganância exploratória cujos intentos passam por cima de qualquer ética.
  • Como em Alien, há um androide representando os interesses desumanos da companhia. Como em Alien e Aliens, o androide é destroçado mas continua funcionado, servindo ainda a algum propósito na narrativa.
  • A heroína é a única sobrevivente humana e a que mais sofre com a tensão e o terror dos monstros a bordo. Ela até tem uma cena seminua que muito lembra Ripley no final de Alien.
  • A visão do salão com os cilindros dentro da nave alienígena remete inevitavelmente à câmara de ovos/casulos de Alien, e é de onde sai o contágio que dá origem ao monstro.
  • Uma equipe de “figuras”, com suas idiossincrasias e diferenças. No entanto, os personagens das trupes de Alien, Aliens, Alien 3 e até Alien: A Ressurreição são bem mais marcantes e redondos do que os de Prometheus.

É claro que nem tudo é clonagem. Há elementos novos, especialmente o tema central do filme, a busca pelos primórdios, pelas origens, pela criação da humanidade, e a presença de uma raça alienígena inteligente como um dos antagonistas (os xenomorfos da série Alien são mais instintivos e animalescos).

Porém, algumas novidades deturparam um pouco a temática suscitada pela espécie alienígena dos filmes anteriores. Minha perspectiva a respeito dos xenomorfos, que estrelou os 4 filmes da franquia Alien e da sequência de 2 Alien vs. Predador, sempre foi a de que se tratava de um ser vivo pertencente a um ecossistema alienígena, muito diferente do nosso. Um predador-parasita (cujo complexo ciclo reprodutivo-vital se justificaria pelo equilíbrio, afinal, os predadores são sempre menos numerosos do que as presas) que, em contato com o Homo sapiens, trouxe um sério problema de incompatibilidade ecológica.

O “alien” da franquia anterior a Prometheus não é um monstro maligno, mas um animal fora de seu habitat (ou seria o próprio humano o alienígena deslocado de seu ambiente natural), como os coelhos levados à Austrália por colonizadores, resultando numa praga e na devastação da vegetação local.

Prometheus destrói toda essa ideia, sugerindo que os xenomorfos são na verdade originários de um espermatozoide humano mutante, resultado de um experimento genético, que extraordinariamente já nasceu com toda a complexidade fisiológica, morfológica e filogenética que vemos nas histórias protagonizadas por Ellen Ripley.

Enfim, ao desconstruir a premissa interessante de Alien, Prometheus traz mais do mesmo estereótipo do alienígena que só pode assumir um de dois papéis opostos: o de deuses astronautas bondosos, inspirados nas mitologias em que seres superiores são um reflexo das virtudes que queríamos ter, ou bárbaros invasores frutos de um imaginário xenofóbico e belicista.

Sexualidade alienígena – parte 3

Padrão

O corpo da mulher, como disse no texto anterior, é representado em nossa cultura como o corpo afrodisíaco, capaz de excitar sexualmente (quando tem uma forma enquadrada no modelo de beleza vigente) qualquer ser humano. Essa noção faz parte de um conjunto de representações androcêntricas (que têm o humano macho como protagonista e sujeito) que veem a fêmea como coadjuvante e objeto.

A noção de uma capacidade natural e universal de excitar os sentidos é levada aos mundos da ficção científica e do fantástico, e os moldes do corpo feminino como o conhecemos (o da fêmea do Homo sapiens) é muitas vezes transportado para o corpo de seres alienígenas, e as mesmas características consideradas sensuais e belas na mulher humana aparecem nas mulheres extraterrestres. Não só as humanas são objeto de desejo de alienígenas, mas as alienígenas consideradas belas são aquelas que têm o corpo parecido com o humano.

Não é à toa, pois toda a ficção científica elaborada por seres humanos é feita pelo ponto de vista dos humanos. A beleza feminina e, em alguns casos, a masculina são os moldes para a criação de personagens sedutores de outras espécies.

Temos que considerar também que, para efeitos narrativos e de ambientação, sejam em séries de TV como Jornada nas Estrelas, sejam em filmes como Guerra nas Estrelas, usar modelos humanos para os alienígenas provoca um apelo maior no público humano. Ao ver uma dançarina de pele verde que tem tudo o que uma bela mulher terráquea tem em termos de formas do corpo, o espectador entende que ela é indubitavelmente considerada bela por todos os personagens daquela história, sejam de que espécie forem.

Mas, em termos de ficção científica, essa limitação dificulta explorar de maneira mais interessante a possível diversidade de espécies inteligentes no universo, que pode incluir, por exemplo, espécies hermafroditas (neste caso, não fariam sentido corpo e prática da sedução sexual), espécies em que os papéis do macho e da fêmea são invertidos e, quem sabe, espécies que possuem três sexos ao invés de dois.

No entanto, a diversidade na ficção científica, e chama a atenção especialmente o caso de Jornada nas Estrelas, é normalmente utilizada como metáfora da diversidade humana. As diferentes espécies se relacionam quase livremente entre si, e aparecem inúmeras relações inter-raciais, intercruzamentos e, não raro, indivíduos híbridos resultantes desses cruzamentos (como discorri na primeira parte deste ensaio).

Kamala e Picard

Uma fêmea perfeita capaz de agradar a qualquer macho da galáxia – Jornada nas Estrelas: A Nova Geração

Dessa forma, a beleza e os atributos sedutores femininos aparecem quase como universais, ou seja, uma fêmea bela não o é somente para sua própria espécie, mas para qualquer outra. Existe assim um modelo único de beleza para todos os seres da galáxia (ou ao menos para os habitantes do Quadrante Alfa da Via-Láctea).

A personagem Kamala, do episódio O Par Perfeito, da série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, pertence a uma espécie metamorfa que, sendo fêmea em sua cultura, é treinada desde criança para ser a companheira perfeita do homem com quem se casará. Ela assume uma forma idêntica à de uma mulher humana, pois seu pretendente pertence a uma espécie com aparência igual à humana (muitas espécies no universo de Jornada nas Estrelas são estritamente humanoides, ou seja, não possuem nenhuma diferença física em relação aos humanos). Mesmo tendo aparência humana, ela consegue despertar o desejo de todos os machos presentes na nave estelar Enterprise, sejam humanos, klingons ou ferengi.

Garota escrava de Órion

Garota escrava de Órion – Jornada nas Estrelas

Há uma raça habitante da constelação de Órion que é mais conhecida por suas fêmeas, normalmente chamadas de garotas escravas de Órion (Orion slave girls) ou mulheres animais de Órion (Orion animal women). Só se diferenciam das mulheres humanas por terem uma pigmentação verde na pele, e são especialistas em seduzir os machos provenientes de qualquer planeta. Elas corroboram a ideia de que existe um modelo universal de fêmea e das características sedutoras do sexo feminino.

Adira Tyree

Adira Tyree, uma dançarina centauri que, além de agradar os machos de sua espécie, é apreciada por humanos e narns – Babylon 5

G'Kar, Londo e Sinclair

Um narn, um cantauri e um humano assistindo a um show multirracial de dançarinas

Na série de TV Babylon 5, essa curiosa relação se apresenta no personagem G’Kar, da raça narn, uma espécie humanoide que, apesar disso, não tem pelos e possui a pele amarronzada, com tons amendoados e, em algumas partes do corpo, pintas escuras, como as de um guepardo.

Embora tenham diferenças estéticas que para muitos poderiam significar uma incompatibilidade de desejos mútuos entre humanos e narns, G’Kar é fascinado pela beleza de mulheres humanas e centauri (estas são quase idênticas às humanas). Apesar de se tratar de um caso individual (não aparecem explicitamente outros narns com essa mesma tara), fica subjacente a ideia de que há aspectos da sexualidade humana que se repetem em todo lugar do universo.

Dançarinas do Palácio de Jabba

Dançarinas do Palácio de Jabba – Guerra nas Estrelas

Twi'leks fêmeas

Duas twi’leks cuidadndo de Sebulba antes de uma corrida de pods

Numa galáxia distante, há muito tempo atrás, diversas espécies de diversos mundos conviviam dentro ou fora da República Galáctica (ou do Império Galáctico, em outro momento histórico). Em Guerra nas Estrelas – Episódio VI: O Retorno de Jedi, um mafioso chamado Jabba o Hutt se divertia em seu palácio com dançarinas de várias raças (ele chegou até a capturar uma humana, a Princesa Leia). Todas elas têm em comum uma feminilidade semelhante à das mulheres humanas.

Mas o próprio Jabba se parece mais com uma gigantesca lesma obesa. Por que razão ele se interessaria naturalmente pelos encantos do corpo de uma fêmea tão diferente dos da espécie dele, só porque nós humanos consideramos esse tipo de beleza como obviamente agradável e excitante? Ademais, no universo de Guerra nas Estrelas, segundo o universo expandido, os hutts são hermafroditas. A não ser que isso se trate de uma perversão individual de Jabba, não há motivos para que esse tipo de preferência seja tão natural e tão universal.

Uma das espécies presentes no harém de Jabba se chama twi’lek (seu mordomo, Bib Fortuna, pertence a esta espécie), humanoides que possuem peles de várias cores (alguns indivíduos são brancos, outros verdes, azuis, vermelhos, entre outros) e dois grandes tentáculos pendendo da cabeça. Suas fêmeas sempre aparecem nos filmes da franquia como mulheres esguias e belas. No Episódio I: A Ameaça Fantasma, um personagem chamado Sebulba, cuja espécie se caracteriza por longos braços que servem de pernas, pernas curtas que servem como braços e uma cabeça que lembra uma lhama sem pêlos, também parece gostar das twi’leks.

Essa limitação que sofre a imaginação na criação de histórias de ficção científica só se justifica naquilo que as tramas de determinadas histórias pretendem contar. Quando se trata de uma história de caráter mais mítico e fantástico, como Guerra nas Estrelas, não há porque se preocupar tanto com a verossimilhança, pois o mais importante é o drama, os conflitos políticos e os aspectos arquetípicos que dizem respeito exclusivamente aos humanos que escrevem e que assistem a essas histórias.

Quando se tratam de obras mais voltadas para a verdadeira ficção científica, como Jornada nas Estrelas e Babylon 5, essa representação do corpo feminino se justifica quando as histórias sobre espécies alienígenas são alegorias das relação humanas em sua própria diversidade, ou seja, entreveem-se as infinitas possibilidades de inter-relações entre quaisquer indivíduos de nossa espécie. Porém, quando é preciso, esses contos extrapolam os limites humanos e conseguem perceber que o mais verossímil é que cada espécie tenha suas próprias preferências em relação à estética do corpo, o que pode implicar que mesmo a mulher humana convencionada como a mais bela da Terra seja equivalente a um monstro asqueroso para uma certa raça extraterrestre.

Por outro lado, pode-se usar a ficção científica como um meio de imaginar uma utopia em que os indivíduos das mais variadas espécies enxergarem além das convenções de beleza e sexualidade em que vivem e conceberem a troca afetiva e sexual com as pessoas que amam e não com os corpos que agradam seus sentidos animais.

Imagem de destaque:

Imagens

Sexualidade alienígena – parte 2

Padrão

Os extraterrestres na ficção científica normalmente são inspirados nas experiências humanas no planeta Terra. Eles quase sempre são muito parecidos com seres humanos em muitas de suas características, inclusive em sua sexualidade (tanto no aspecto reprodutivo quanto nas manifestações de afeto e nas identidades de gênero), como vimos na primeira parte deste ensaio.

Porém, algumas concepções conseguem fugir em maior ou menor grau do dimorfismo sexual e das relações monogâmicas heterossexuais, descrevendo desde variações exóticas da sexualidade humana até processos reprodutivos totalmente diversos do Homo sapiens. Vejamos alguns exemplos interessantes, as limitações ou extrapolações a que se consegue chegar na concepção de alienígenas andróginos, hermafroditas ou assexuados

J’naii

J'naii

Comandante Riker, humano, se apaixona por Soren, da raça andrógina j’naii

Os j’naii, do universo de Jornada nas Estrelas (Star Trek), são uma espécie humanoide andrógina, cujos indivíduos não estão divididos em gêneros (masculino ou feminino), mas pertencem todos a um só gênero neutro, sem distinções físicas, comportamentais ou cosméticas relacionadas a uma identidade sexual.

Seu processo reprodutivo, no entanto, é sexuado e ocorre na associação entre dois indivíduos, cada um dos quais insemina um casulo com seu material genético, em meio a um longo e complexo ritual de cópula.

A identidade andrógina é uma ideia interessante para uma história de ficção científica e é bem alienígena para os padrões humanos. Seu processo reprodutivo também se diferencia, nos sentido em que os dois parceiros têm papéis considerados equivalentes, diferentemente dos humanos, cuja reprodução acontece no encontro de dois gametas complementares. Mas há um elemento pitoresco que denuncia a incapacidade de se imaginar uma espécie totalmente alienígana na ficção: em certo momento do episódio O Excluído (The Outcast, 17º episódio da 5ª temporada de Jornada Nas Estrelas: A Nova Geração), Riker pergunta a Soren quem conduz caso dois j’naii estejam dançando, e ela responde que é o par mais alto (o que ressoa o papel masculino, ou seja, no “insignificante” gesto da dança, não há igualdade entre os parceiros).

Os j’naii serviram mais para se contar uma história alegórica às avessas sobre a homofobia. No episódio supracitado, Soren, membro da espécie, se sente desconfortável com sua identidade andrógina e preferiria ser uma fêmea, o que a leva a um julgamento, qua a condena a um processo de readequação e frustra o romance que começara com o Comandante Riker.

Dracs

Jeriba

Jeriba, um drac na condição de gravidez assexuada, comportando-se como uma fêmea – antes, na condição de guerreiro, se comportava como um macho

No filme Inimigo Meu, Davidge se depara com um indivíduo de uma raça inimiga dos humanos, um drac. Talvez seja uma das espécies humanoides da ficção científica que mais se diferenciam dos humanos em termos de sexualidade, pois eles são hermafroditas e se reproduzem assexuadamente. Cada indivíduo dá à luz sem a participação de um parceiro, sem cópula. O mais interessante é que, quando estão em situação de guerra e sobrevivência, eles têm um comportamento “masculino”, mas, quando estão em processo de gestação, se comportam “femininamente”.

Dessa forma, há uma quebra das expectativas humanas quanto à identidade sexual. Em todas as sociedades humanas existe a noção da dualidade masculino/feminino e homem/mulher. Toda cultura estabelece certos parâmetros para essa diferenciação e institucionaliza técnicas e formas de se diferenciar os gêneros. Causa perplexidade, por exemplo, quando vemos uma pessoa andrógina ou vestida com roupas que não pertencem ao seu gênero. Estamos sempre numa tensão provocada pela preocupação em não confundir nossa identidade sexual com a do outro sexo. Qualquer “desvio” põe em dúvida a adequação de um indivíduo à “natureza” de seu sexo.

Os dracs rompem com essa forma de ver as coisas. Eles não têm identidade sexual, são apenas indivíduos dracs. Quando não estão gestantes, parecem pertencer ao gênero masculino, são fortes, resistentes e viris. Quando estão grávidos, são dóceis, frágeis e passam grande parte do tempo comendo. Como os peixes-palhaços da Terra, assumem um comportamento segundo as circunstâncias.

Além disso, a paternidade/maternidade, para eles, não possui a noção de progenitores no plural. Enquanto para os humanos o sexo/gênero de pai e/ou mãe é definido e tem um significado pré-determinado (em relação, por exemplo, aos papéis que exercem os adultos machos e fêmeas para com as crianças), os dracs só têm uma palavra para designar o indivíduo que deu à luz. Em inglês, Davidge se refere a Jeriba como parent de Zammis.

Entretanto, a divisão entre os dois tipos de comportamentos dos dracs cai novamente na mesma perspectiva humana, que tem dois modelos de identidade sexual estáticos, opostos e complementares. O comportamento das identidades sexuais humanas estão muito mais ligados a construções sociais do que a instintos naturais. Como não há essa divisão na sociedade drac, deveria haver menos diferenças entre o estado gestante e o estado não-gestante.

Antareanos

Cocoon

Uma antareana mostra a Jack, um humano, uma forma sublime e semi-incorpórea de prazer sexual

Os misterioros alienígenas do filme Cocoon não parecem apresentar dimorfismo sexual, mesmo que eles se disfarcem de humanos machos ou fêmeas. Quando estão sem os disfarces, aparecem como fomas humanoides nuas e sem sexo, o que deixa perplexo o humano Jack, que estava se sentindo apaixonado por “uma” das alienígenas, disfarçada na forma de uma bela humana.

Não fica claro nesta história qual é o meio de reprodução dos antareanos. No entanto, eles têm uma forma de trocar prazer, o que para Jack se aproxima bastante da ideia que os humanos têm de sexualidade (em seu aspecto erótico e não reprodutivo). Porém, esse prazer extrapola muito os limites da experiência humana de Jack, e parece alcançar níveis mais amplos do que a mera fisicalidade dos corpos.

Nesse contexto, a sexualidade é encarada como algo mais do que um meio para a reprodução, assim como acontece com a j’naii Soren no exemplo visto acima, que deseja se unir a Riker por amor. A troca de prazer e a união física (ou mais do que física) entre dois indivíduos aparece como uma forma de demonstrar abertismo e um sentimento fraterno-amoroso pelo outro, independentemente de este pertencer ou não à sua espécie.

Transmorfos

Odo e Kira

Odo, um transmorfo, em forma fluida e luminosa, troca carícias com sua companheira Kira, uma bajoriana

Os transmorfos, do universo de Jornada nas Estrelas, são uma raça extremamente exótica para os padrões humanos. Eles não têm uma forma “natural”, a não ser um estado líquido, e podem assumir qualquer forma dentro dos limites da matéria da qual são compostos e da densidade que podem empregar à sua composição. Odo, o principal transmorfo da série Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine, assim como qualquer outro membro de sua espécie, pode assumir as formas de um rato, uma cadeira, uma gaivota, neblina, um homem ou qualquer outra coisa.

Não se sabe ao certo como é a reprodução dos transmorfos. Eles vivem, normalmente, ligados no que chamam de Grande Elo, em forma líquida em seu planeta-natal, imersos no que para nós parece um imenso mar, compartilhando os pensamentos e sentimentos de seus iguais. Quando estão distantes do Elo, muitas vezes em forma humanoide, podem se unir a outros transmorfos, promovendo esse mesmo compartilhamento mental.

Há muitos elementos que descrevem aquilo que poderia ser entendido como a sexualidade dos transmorfos, mas esses elementos se relacionam de forma confusa e controversa. No episódio Atrás das Linhas Inimigas (Behind the Lines, 6º episódio da 4ª temporada de Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine),a líder dos transmorfos manipula Odo através de constantes elos que promove com ele, o que parece, para olhos humanos, estabelecer uma relação amorosa. Porém, em Quimera (Chimera, 14º episódio da 7ª temporada de Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine), quando Odo encontra Laas, um transmorfo perdido que não conhecia outros membros de sua espécie, eles passam a promover o elo com frequência, mas Kira, namorada de Odo, compreende que não há motivos para sentir ciúmes.

O que nos leva a pensar que os transmorfos não têm uma sexualidade natural entre si, a não ser que eles considerem que o amor não deve ser exclusivo (como conjeturamos na primeira parte deste ensaio, ao descrever os na’vi). Mas, em Uma Simples Investigação (A Simple Investigation, 17º episódio da 5ª temporada de Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine), Odo foi capaz de fazer sexo com uma mulher, provavelmente simulando os genitais humanos masculinos. Porém, embora seja relativamente fácil para ele imitar a forma humana, é estranho que ele consiga simular também o prazer físico. Ora, sua fisiologia interna não permite sequer que ele ingira líquidos ou sólidos, pois não tem necessidade de se alimentar.

Quando passa a conviver amorosamente com Kira, infere-se que eles mantêm atividades sexuais semelhantes. Odo foi capaz de se apaixonar por um ser muito diferente dele, com forma fixa, mas essa relação só funciona na maior parte do tempo em termos humanoides. No entanto, num dos momentos mais belos da saga de Deep Space Nine, Odo se transforma numa névoa dourada e, de certa forma, faz amor com Kira em termos não-humanoides, o que, além de extrapolar o padrão humano das trocas afetivo-sexuais, representa um avanço no sentido do amor que ultrapassa a superfície da forma e compreende a natureza isogenética da consciência.

Imagens

  • O Excluído (The Outcast, 17º episódio da 5ª temporada de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração)
  • Inimigo Meu (Enemy Mine, filme de 1985, dirigigo por Wolfgang Petersen)
  • Cocoon (filme de 1985, dirigido por Ron Howard)
  • Quimera (Chimera, 14º episódio da 7ª temporada de Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine)

Veja também

Sexualidade alienígena – parte 1

Padrão

O ser humano tende a antropomorfizar a natureza, ou seja, representar a realidade ao seu redor segundo parâmetros construídos a partir de sua própria experiência. Um dos exemplos mais marcantes em nossa cultura e idioma é a classificação de coisas inanimadas em gêneros masculino e feminino e a representação dessas coisas segundo o que se entende como características masculinas e femininas.

Extrapolando tudo isso, é comum imaginarmos, em histórias de ficção científica, que as espécies alienígenas que porventura possamos encontrar universo afora tenham características muito parecidas com as humanas, como a divisão em dois sexos/gêneros e a procriação sexuada. Até mesmo a existência de algo que possamos identificar como sexualidade é resultado do antropomorfismo.

Mas sabemos quase nada sobre a fisiologia de espécies extraterrestres e só podemos especular, segundo alguns exobiólogos, imaginando que, se uma determinada forma de funcionar deu certo para nós, deve ter se desenvolvido também em outros lugares do Cosmos.

Porém, é provável que a variedade das formas de vida no universo seja muito maior do que tendemos a imaginar, e a forma humanoide dimórfica pode não ser o modelo mais comum. Mas a grande maioria dos alienígenas inteligentes da ficção científica é humanoide e dimórfica, o que pode se dar pelos seguintes motivos:

  • os limites da imaginação humana;
  • o antropomorfismo nas representações do Cosmos;
  • o fato de, no cinema e na televisão, ser mais fácil fantasiar atores humanos para interpretar personagens alienígenas e
  • o fato de muitas histórias com extraterrestres serem alegorias dos problemas enfrentados nas relações entre seres humanos, sendo as espécies alienígenas representações da diversidade humana.

O dimorfismo sexual de espécies humanoides na ficção científica não se resume apenas a uma funcionalidade procriativa, mas envolve o estabelecimento de uniões e alianças entre os indivíduos, diversas formas de afetividade e regras tácitas de como machos e fêmeas se comportam no sexo. Tudo isso pode ser justificado por uma necessidade evolutiva, pois podemos presumir que uma espécie inteligente tenha seguido um caminho parecido ao dos humanos, ou seja:

  • tenha substituído a natureza pela cultura como principal institucionalizador de comportamentos, o que permitiria a complexificação do pensamento, e
  • tenha desenvolvido a necessidade do social (o que inclui a sexualidade, entendida não só como o sexo que pode servir para a procriação, mas como o conjunto das formas de se trocar afeto e prazer) para a manutenção dos costumes, linguagem e saberes sem os quais o espécime não se completa como membro de seu grupo.

Mesmo assim, toda a sexualidade alienígena é imaginada com base nas práticas humanas. Vejamos a descrição de algumas das espécies alienígenas da ficção científica televisiva e cinematográfica que reproduzem o modelo humanoide dimórfico, juntamente com algumas reflexões sobre a influência do antropomorfismo em sua concepção e até onde os autores conseguem chegar na extrapolação da realidade que conhecemos mais de perto.

Vulcanos

Spock e T'Pring

Spock e T’Pring no ritual vulcano do pon farr

Os vulcanos são uma das raças mais notáveis no universo de Jornada nas Estrelas, sendo uma das mais presentes ao longo das cinco séries da franquia. São fisicamente muito aprecidos com os humanos, sendo as únicas diferenças perceptíveis a olho nu as orelhas pontiagudas, as sobrancelhas arqueadas e uma quase imperceptível tonalidade verde na pele. As outras poucas características morfológicas diferentes das humanas incluem o coração localizado na altura do plexo solar e hemoglobina baseada em cobalto ao invés de ferro (o que dá a cor verde ao seu sangue).

Psico-biologicamente, eles são muito parecidos com os seres humanos, porém são mais propensos, geneticamente, a emoções fortes. Sócio-culturalmente, são criados segundo os rígidos ditames de uma ética baseada na Lógica, o que dá a aparência de que não têm emoções, mas a verdade é que estas ficam reprimidas.

Tanto que, quando completam um ciclo de 7 anos, são arrebatados por uma condição fisiológica chamada pon farr, na qual têm a premente necessidade de voltar ao planeta-natal (Vulcano) e se unir ao parceiro ou pretendente. Nisso, precisam se entregar a um elaborado ritual em que se determina a união ou rejeição dos parceiros. O ritual pode envolver até mesmo um combate, que a mulher pode determinar como condição para a consecução do acasalamento.

Embora se diferenciem significativamente dos humanos em alguns aspectos, como o fato de costumarem fazer sexo a cada 7 anos (diferentemente dos humanos, que não têm cio e podem copular em quaisquer dias do ano), a sexualidade vulcana ainda é, no quadro geral, inspirada na humana.

Klingons

Worf e Jadzia

Worf, um klingon, flerta furiosamente com Jadzia, uma trill que sabe como se comportar como uma klingon

Os klingons surgem na série de Jornada nas Estrelas como uma raça praticamente igual à humana, tanto que no episódio Problemas aos Pingos (The Trouble with Tribbles, 15º episódio da 2ª temporada da Série Clássica) um klingon se passa facilmente por humano, só tendo sua identidade descoberta com a ajuda de um tricorder médico.

As maiores diferenças culturais e biológicas entre klingons e humanos só foram melhor exploradas a partir de A Nova Geração, em que desobrimos que os klingons costumam grunhir e morder em suas relações sexuais, sendo escoriações e hematomas os sinais de que um indivíduo praticou sexo recentemente.

Fora isso, não parece haver diferenças fundamentais entre a sexualidade klingon e a humana, pois da possibilidade de intercruzamento se infere que os órgãos sexuais e a cópula são no mínimo semelhantes. Porém, há pequenas peculiaridades na escolha dos parceiros, na corte e no ato sexual. A atração e o amor, em muitos indivíduos dessa espécie, é atiçada pela força, altivez e coragem do pretendente. Os flertes às vezes incluem trocas de grunhidos, e o ato sexual em si parece se misturar com elementos de uma renhida luta.

A diferença entre a sexualidade humana e a klingon, portanto, parece ser mais o resultado de uma diferença cultural, visto que é verossímil que uma sociedade humana desenvolva os mesmos valores e práticas dessa raça de honrados guerreiros. No entanto, os klingons são representados como naturalmente mais fortes e resistentes fisicamente do que os humanos, o que levou Worf, em certa ocasião, a recusar a troca de afetos com uma humana. “Preciso me conter demais. As mulheres humanas são muito frágeis.”

O problema da fertilidade inter-espécies

Mas é notável a presença de um elemento extremamente improvável no quadro geral das espécies alienígenas no universo de Jornada nas Estrelas, que é o fato de praticamente todas as raças serem férteis entre si. O próprio Spock, vulcano mais notável da franquia, é na verdade um meio-vulcano/meio-humano, pois tem pai vulcano e mãe humana.

A própria possibilidade de indivíduos de espécies diferentes formarem casais é um pouco inverossímil (embora não impossível, tendo em vista que os sentimentos comuns podem, em teoria, transcender as formas físicas). Porém, essa possibilidade só se realizaria com a compatibilidade das formas de se trocar afeto e formar uniões. Na ficção científica, é muito comum que os alienígenas sejam, além de sexualmente dimórficos, monogâmicos e quase estritamente heterossexuais (o que, além de representar um antropomorfismo, representa um etnocentrismo de viés euro-ocidental – veja o ensaio Homossexualidade em Star Trek). De fato, aparecem ao longo das séries da franquia muios casais inter-espécies:

  • Sarek (vulcano) e Amanda (humana),
  • Comandante Riker (humano) e Deanna Troi (meio-betazoide),
  • Rom (ferengi) e Leeta (bajoriana),
  • Quark (ferengi) e Grilka (klingon)
  • Jadzia Dax (trill) e Worf (klingon),
  • Odo (transmorfo) e Kira (bajoriana),
  • Ezri Dax (trill) e Dr. Bashir (humano),
  • Neelix (talaxiano) e Kes (ocampa), entre outros.

A necessidade de se criar pretextos para roteiros interessantes permeia as histórias de ficção científica. Em Jornada nas Estrelas, não só os vulcanos e os humanos podem procriar entre si (como no caso dos pais de Spock). Já apareceram híbridos de

  • humano e betazoide (Deanna Troi),
  • humano e klingon (K’ehleyr e B’elanna),
  • humano e romulano (Sela),
  • klingon e romulano (Ba’el) e
  • cardassiano e bajoriano (Ziyal), entre outros.

Essa possibilidade de interfecundidade só é relevante para a criação de enredos pertinentes à reflexão sobre a relação entre os povos (humanos), os problemas advindos do contato intercultural, os conflitos de identidade e situações diplomáticas.

Porém, biologicamente, é improvável que espécies desenvolvidas em dois planetas diferentes e com histórias evolutivas tão díspares possam se unir sexualmente (como é tão comum em todas as histórias de Jornada nas Estrelas). Muito mais improvável, portanto, é que essas uniões possam produzir frutos férteis.

No universo de Babylon 5, série que tem Jornada nas Estrelas como uma de suas principais fontes de inspiração, a situação é um pouco mais verossímil, como veremos no exemplo em seguida.

Centauri

Adira e Londo

Adira Tyree e Londo Mollari, dois centauri

Os centauri são externamente a espécie mais parecida com os humanos na série Babylon 5, ao menos quando estão vestidos. Seus órgãos sexuais são um pouco diferentes dos humanos: os homens têm seis tentáculos em suas costas, três em cada lado, e as fêmeas possuem seis orifícios distribuídos da mesma forma. A cópula acontece numa gradação, começando com a penetração de um dos tentáculos, que provoca prazer em menor intensidade, e este vai aumentando de acordo com a introdução dos tentáculos seguintes, cada um mais intenso do que o anterior.

Um diferencial de Babylon 5 em relação a Jornada nas Estrelas é que o intercruzamento não acontece tão facilmente. Os centauri e os humanos, por exemplo, não têm como cruzar entre si e tampouco produzir filhos (tanto por causa da morfologia como pela incompatibilidade de DNA). O que se vê na série, no máximo, são homens centauri (e de outras raças) apreciando a beleza das fêmeas de outras espécies, inclusive das humanas. O único casamento fértil inter-espécies que se vê na série se dá entre um humano e uma minbari, que teve o próprio DNA misturado com o DNA humano.

Entretanto, por mais diferente que pareça, a sexualidade centauri tem dois resquícios da sexualidade humana. O primeiro é o próprio fato de a espécie ser dividida em dois sexos, com praticamente as mesmas características de seus equivalentes humanos. O segundo é a forma pela qual se dá a cópula, ou seja, a penetração de uma protuberância do macho num orifício da fêmea.

Entre os alienígenas na’vi, do filme Avatar, isso muda um pouco mais significativamente.

Na’vi

Jake e Neytiri

Jake e Neytiri, um meio-na’vi e uma na’vi

Os na’vi são humanoides com diversas características parecidas com os humanos. Têm cabeça, tronco, braços e pernas, rosto com olhos, nariz, boca, cabeça com orelhas e cabelos. Têm algumas diferenças, como cauda, pescoço comprido, orelhas longas, pele azul e olhos amarelos, além de medirem cerca de 3 metros de altura. Seus traços lembram os felinos, como se eles tivessem evoluído a partir de gatos e não de símios.

Eles são tão parecidos com os seres humanos que era de se esperar que seus órgãos reprodutivos fossem praticamente iguais aos do Homo sapiens. Porém, eles fazem sexo através de conexões presentes em filamentos que ficam em meio aos seus cabelos. Não fica claro, no filme, se essa mesma conexão é responsável pela fecundação e reprodução da espécie, mas isso fica subentendido de nossa própria autorrepresentação humana.

Um detalhe curioso e um pouco bizarro é que a conexão usada para a cópula é também usada para se domar animais de montaria, como cavalos e pássaros. Para um olhar humano, é como se eles tivessem institucionalizado o bestialismo como prática aceitável e corriqueira. Isso poderia significar também que o amor, para essa espécie, é um conceito muito mais amplo do que aquele que temos. Ou eles podem sentir algo diferente dependendo de a quem eles se conectam, assim como o afeto trocado com um parente próximo (geralmente) não nos deixa sexualmente excitados, enquanto o mesmo contato físico com um parceiro afetivo-sexual traz essa excitação em menor ou maior grau.

Mas o que é mais problemático nessa espécie fictícia é que eles são criados propositalmente com uma aparência bela, explorando e extrapolando a estética dos modelos de beleza ocidentais e hollywoodianos (altura e magreza), misturada a um exotismo alienígena. É fácil para muita gente se afeiçoar pelos na’vi (muitos até gostariam de pertencer a essa espécie). Aliado a isso, por mais diferentes que eles sejam dos humanos, são quase iguais no comportamento, na forma de expressar emoções e, mais pertinente para este ensaio, na forma de trocar afeto, com carícias, beijos e abraços, de modo que não foi nada difícil para Jake Sully (humano travestido de na’vi) entender como proceder nas preliminares com Neytiri.

[Continua na próxima semana]

Imagens

Filmes para crianças – parte 2

Padrão

As histórias sobre extraterrestres são ótimas oportunidades para se refletir sobre diferença e igualdade. Nelas vemos metáforas das próprias diferenças entre os indivíduos e povos humanos e o desafio do convívio pacífico entre eles, além do aprendizado mútuo. Essas histórias são, assim, um meio de ampliar as perspectivas sobre o mundo e o universo, fazendo-nos refletir sobre o respeito à diferença e à possibilidade de nos considerarmos todos parte de um mesmo mundo.

Nesta segunda parte da série Filmes para crianças, abordarei três obras de ficção científica que tratam do contato entre seres alienígenas entre si, e de como esse contato é importante para mudar a maneira como vemos o outro. Para mim e para as pessoas que me ajudaram a escolher os itens desta lista, assistir a eles na infância foi um marco importante em nosso desenvolvimento como seres humanos e como consciências universalistas.

Dedicatória e agradecimentos

A Inês Mota, a Diego Leite, a Alan Hiramoto, a Paulinho Mota, a Rúbio Medeiros, a Betânia Monteiro, a Werner Soares, a Amanda Cavalcante e a Hermann Cavalcante (não são parentes).

Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

E.T.: O Extraterrestre (E.T.: The Extra-Terrestrial)

E.T.: O ExtraterrestreDireção: Steven Spielberg

País: Estados Unidos

Ano: 1982

Certa noite, um pequeno extraterrestre se perde da nave espacial que o trouxe à Terra, enquanto agentes policiais o buscam após perceberem um certo tumulto nos arredores despovoados da cidade. O pequeno alienígena se esconde num depósito de uma casa próxima, onde vive um garoto humano chamado Elliott.

Naquela mesma noite, o menino humano percebe a presença de algo estranho e tenta avisar a mãe e o irmão mais velho, mas todos acham que se trata ou da imaginação do garoto ou de algum animal selvagem que entrou no depósito. Mas Elliott não desiste e no dia seguinte tenta atrair o ser misterioso com doces, até que finalmente, sob a luz da lua crescente, eles se deparam um com o outro e ambos se assustam. Mas Elliott leva seu novo amigo para casa e o esconde em seu quarto.

Elliott revela a presença do alienígena ao seu irmão mais velho, exigindo ser tratado com mais respeito, e acidentalmente sua irmã mais nova o descobre também. Os três empreendem esforços para não permitir que a mãe descubra o extraterrestre, e passam grande parte do tempo no quarto de Elliott brincando com E.T., como passam a chamá-lo, e descobrindo algumas habilidades incríveis do pequeno visitante do espaço. Ele consegue mover objetos com a força da mente e curar pequenas feridas com a ponta do dedo.

Mas o poder mais interessante de E.T. é a conexão empática e telepática que ele estabelece com Elliott, fazendo com que cada um deles sinta o que o outro sente e até pense o que o outro pensa. Dessa forma, eles compartilham uma amizade visceral em que um se confunde com o outro, quase como a ideia de amizade defendida por Michel de Montaigne em seu famoso ensaio.

E.T. consegue elaborar um plano para enviar uma mensagem ao seu povo solicitando um resgate, e constrói uma máquina, usando vário objetos como um computador de brinquedo e um guarda-chuva. Durante a tarde de Halloween, Ele e Elliott vão à floresta, lenando a máquina para ativá-la a céu aberto e enviar a mensagem. Ambos dormem ao relento e, pela manhã, Elliott percebe que E.T. não está por perto. O menino volta para casa com um terrível resfriado e seu irmão encontra E.T. à beira de um riacho, muito pálido e fraco.

Enquanto todos retornam à casa, uma larga equipe do governo, comporta de policiais e cientistas, começa uma operação de isolamento do local, para estudar o extraterrestre, mas este está tão doente que não resiste. a conexão com Elliott se rompe e este volta a ficar bem, mas se mostra intensamente triste com a morte de seu amigo. No entanto, E.T. retorna à vida e, com a ajuda do irmão e dos amigos deste, leva o pequeno ser do espaço ao campo, onde uma nave espacial aparece. Após uma tocante cena de despedida, E.T. parte em sua nave.

Os eventos da história não foram importantes só para Elliott, que passa a conhecer uma amizade que nunca vivera antes. A aparição de E.T. também provoca mudanças em Michael, o irmão mais velho, que passa a ser menos arrogante, e em Gertie, a irmã mais nova, que no início tinha alguma repulsa por E.T., mas passa a vê-lo com outros olhos.

A amizade de Elliott e E.T. simboliza uma relação desprovida de preconceitos e baseada numa total confiança mútua. Eles ficam tão ligados um ao outro que têm dificuldade de se despedir ao final. E.T. diz “Venha”, e Elliott responde “Fique”. O alienígena então lhe fala, apontando para a testa de seu amigo, “Estarei bem aqui”. Ambos aprendem a se desapegar diante da necessidade de cada um ir para onde pertence, mas, depois da experiência que tiveram juntos, a lembrança e o sentimento de amizade permanecerão em ambos.

A obra aborda

  • amizade,
  • diferença,
  • respeito,
  • aprendizado,
  • humildade e
  • desapego.

Viagem ao Mundo dos Sonhos (Explorers)

Viagem ao Mundo dos SonhosDireção: Joe Dante

País: Estados Unidos

Ano: 1985

Ben certa vez sonhou que sobrevoava um imenso circuito. Assim que despertou, desenhou o que conseguiu lembrar do circuito e ligou para seu amigo Wolfgang para contar. Como Ben era um garoto sonhador e fascinado por ficção científica, não foi difícil para seu amigo imaginar que se tratava de um típico sonho de sua cabeça avoada. Mas quando Wolfgang, um cientista-mirim filho de cientistas, vê o desenho do circuito, percebe que se trata mesmo de algo que pode ser construído e funcionar de alguma forma.

Então Ben, o sonhador, junto com Darren, o realista, e Wolfgang, o intelectual, se juntam para experimentar a descoberta, e através de um computador Wolfgang consegue criar uma esfera azul indestrutível que flutua no ar e atravessa qualquer coisa. Mais tarde, eles conseguem criar uma esfera maior e descobrem que ela é oca e pode carregar objetos dentro de si. Os três amigos decidem criar uma cápsula para voar pelo céu de sua cidade.

Depois de uma tentativa frustrada de subir ao espaço, os três amigos têm o mesmo sonho e ambos veem o circuito, o que lhes possibilita completá-lo e tentar de novo. Ao voarem outra vez naquela noite, são fisgados por um raio trator e levados a uma gigantesca nave espacial.

Eles imaginam estar presos numa típica nave alienígena do mal que aparece em tantos filmes de ficção científica. Mas logo descobrem que os tripulantes são um casal de irmãos extraterrestres gentis, Wak e Neek, que captam todas as ondas eletromagnéticas da Terra, incluindo as trasmissões de rádio e TV. Eles são fascinados por tudo o que ouvem e veem da Terra, e se divertem numa pequena festa com os jovens terráqueos.

Então Ben os convida para irem à Terra, mas Wak se recusa veementemente, tendo em vista tantas imagens do cinema da Terra que representam a forma violenta como os alienígenas são recebidos pelos humanos. Wak explica que só trouxe os três porque eles são diferentes do resto da humanidade. Ben fica desolado com o reconhecimento de que provavelmente seria perigoso para qualquer estrangeiro do espaço visitar um planeta beligerante como a Terra.

Finalmente, os três garotos descobrem que a nave em que estão foi surrupiada do pai dos dois alienígenas, que são jovens como seus hóspedes. O pai alienígena irrompe no salão em que estão e dá um sermão em Wak e Neek, acabando com a festa. Os novos amigos se despedem e o trio terráqueo fica marcado para sempre com a imressão de um mundo muito mais vasto do que jamais imaginaram.

É importante perceber como três crianças tão diferentes, um muito sonhador (sentimento), outro muito realista (corpo) e o terceiro muito intelectual (pensamento), superam essas mesmas diferenças e juntam suas qualidades para entrar numa aventura que mudará suas vidas para sempre.

A irrelevância das diferenças também é encarada no contato com uma espécie alienígena, que, apesar da aparência exótica, têm sentimentos e anseios parecidos com os dos humanos. A aparência é tão relevada que Wolfgang e Neek ensaiam um romance.

Finalmente, os garotos visionários têm que reconhecer que sua facilidade para ver através das diferenças não é compartilhada por toda a humanidade, que ainda percorrerá um longo caminho antes de superar suas diferenças internas e, a longo prazo, as diferenças mais marcantes entre humanos e extraterrestres.

A obra aborda

  • a busca pela realização dos sonhos,
  • amizade,
  • aprendizado mútuo,
  • amadurecimento,
  • tolerância e
  • pacifismo.

Inimigo Meu (Enemy Mine)

Inimigo MeuDireção: Wolfgang Petersen

País: Alemanha e Estados Unidos

Ano: 1985

Willis Davidge é um piloto de caça espacial terráqueo que luta contra os dracs, uma espécie alienígena em guerra contra a Terra, pela reivindicação de uma região da galáxia.

Durante uma batalha, Davidge se perde num planeta inóspito. Perto de onde sua nave caiu, também naufragou um piloto drac, chamado Jeriba Shigan. Após a tentativa mútua de assassinato, ambos percebem que precisarão um do outro para sobreviver nesse planeta selvagem, e “Jerry”, apelido que Davidge dá ao drac, aprisiona o humano para evitar que este o mate.

Numa busca pelo ambiente que os rodeia, os dois vão aos poucos encontrando alimento e formas de se proteger das intempéries da natureza local, mas, apesar de cooperarem, eles ainda se veem como rivais e inimigos de guerra.

Certa vez, quando buscava alimento, Davidge foi capturado por um predador, uma criatura que se escondia embaixo da terra e que agarrava suas presas com um tentáculo. Ela segurou Davidge pela perna e o puxou para baixo. Ele só se salvou graças a “Jerry”, que matou o animal (numa cena que lembra Han Solo salvando Lando Calrissian do Sarlacc).

A partir daí Davidge passa a cooperar mais com “Jerry”, e eles passam a se aproximar mais. Constroem juntos um abrigo contra as tempestades de pedra e fogo e começam a se conhecer melhor.

Com o tempo, eles aprendem o idioma um do outro e compartilham suas respectivas culturas. Seu relacionamento se aprofunda até o ponto de se tornarem amigos. O drac, através da leitura de um livro considerado sagrado por seu povo, entende que o conflito entre eles deve cessar. Ao iniciar Davidge nos ensinamentos de sua cultura, “Jerry” consegue fazer seu amigo entender melhor os dracs, enquanto ele passa a compreender melhor os humanos.

“Jerry” fica grávido (pois os dracs são hermafroditas e concebem seus filhos sem relações sexuais) e passa a se comportar como uma mulher. Davidge encara o desafio de cuidar de seu amigo e de criar seu filho, pois “Jerry” morre no parto.

Zammis, filho de Jeriba, é criado por Davidge, e cresce bem mais rápido do que um humano. O garoto começa a perceber as diferenças entre ele e seu “tio”, estranhando que sua ascendência (com um só progenitor) seja diversa da de Davidge (que teve um pai e uma mãe).

O jovem drac é raptado por mineradores humanos, que escravizam os de sua espécie para o trabalho braçal. Ao tentar salvá-lo, Davidge é resgatado por uma nave militar humana, que o leva para uma estação. Desmaiado, ele balbucia frases na língua dos dracs, o que os médicos e os soldados da estação estranham. Depois de acordar, Davidge encontra um meio de escapar e resgatar Zammis.

Após todos esses acontecimentos, a paz entre os dois povos é finalmente alcançada, e Davidge leva Zammis para o planeta dos dracs. No devido tempo, Zammis dá à luz a uma criança que batizou de Davidge, inserindo em sua descendência um nome humano.

A experiência dos dois antagonistas os levou da inimizade cega, passando pela necessidade de sobreviver juntos, até uma profunda amizade. Se no início eles consideravam um ao outro “feios” (cada um deles nunca havia visto um indivíduo da espécie do outro), Davidge aprendeu a achar Zammis uma bela criança. A biologia e a sexualidade das duas espécies (uma assexuada e outra bissexuada) é compreendida apesar do exotismo mútuo. Ambos aprendem a respeitar a cultura um do outro, o que lhes permite aprender um com o outro.

Se no início Davidge estava disposto a matar Jeriba, ao final arriscou a própria vida para salvar Zammis. A irracionalidade da guerra impedia que os antagonistas se conhecessem e alimentava fortes preconceitos e uma espécie de racismo que os opunha de maneira cega. Ao se conhecerem e se tornarem grandes amigos, eles provam que as diferenças superficiais (espécie, planeta de origem, cultura) são irrelevantes quando percebemos que temos em comum algo mais fundamental, e podemos nos relacionar de maneira significativa com qualquer pessoa do Universo. Como me disse um amigo, resumindo bem o filme:

Como criança, achei a ideia de dois inimigos mortais se conhecerem e se tornarem amigos muito bonita,  superarem diferenças que na verdade nem eles entendiam bem.

A obra aborda

  • preconceito,
  • cooperação,
  • relativismo cultural,
  • respeito,
  • amizade e
  • pacifismo.

Para adquirir os filmes