A desconstrução do universo continua – #UD2

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2013 marcou o cenário da ficção científica brasileira com o lançamento da coletânea Universo Desconstruído: Ficção Científica Feminista. No livro, distribuído gratuitamente em formato digital e disponibilizado para compra no Clube de Autores, Lady Sybylla e Aline Valek, junto a outros oito autores, apresentaram dez contos em que as mulheres aparecem como personagens centrais e sem cair nos estereótipos da indústria do entretenimento. Ao invés de aparecerem como donzelas em apuros, aqui elas são heroínas; no lugar de objetos decorativos, as protagonistas são agentes de mudança social; em vez de mulheres trabalhando para auxiliar personagens masculinos, vemos sujeitos com autonomia e na busca da realização de seus anseios.

O volume teve grande repercussão na internet e fora dela, e em 2014 as editoras do selo Universo Desconstruído publicaram a primeira tradução para o português do conto “O Sonho da Sultana“, de Roquia Sakhawat Hussein, escrito em 1905, considerado o primeiro conto de ficção científica feminista. Nesse ínterim, elas organizaram a segunda coletânea de contos originais, chamando diversas autoras e autores para compor Universo Desconstruído – Volume II.

Contendo contribuições da própria Lady Sybylla, de Jarid Arraes (que traz um inusitado cordel de ficção científica!), Fábio Kabral, Marta Preuss, Ben Hazrael, Clara Madrigano, M. M. Drack, Thiago Leite e Theodore Guilherme (que produziu a arte da capa), a nova coletânea está sendo lançada hoje e continua seu trabalho de desconstruir o status quo de um gênero literário que muitos pretendem manter sob monopólio daqueles que são privilegiados socialmente, especialmente homens brancos heterossexuais e cisgêneros. Esses “protetores” da ficção científica ignoram que o gênero há muito tempo vem sendo construído por autores os mais diversos, tendo sido inclusive inaugurado por uma mulher (Mary Shelley, com Frankenstein), e não percebem que essa noção de que a ficção científica “pertence” aos homens brancos é recente.

Tive a inestimável honra e o enorme prazer de participar desse segundo volume do Universo Desconstruído, contribuindo com o conto “O Resgate de Andrômeda”. Foi muito bom trocar ideias com as organizadoras da coletânea e conhecer pessoas novas que se preocupam em desconstruir ideias preconcebidas e estereótipos, divulgando suas ideias e abrindo portas para o debate transformador.

Para baixar o livro, basta selecionar um dos formatos disponíveis (PDF, epub ou mobi) e clicar no link correspondente abaixo. Você deverá “pagar” o download com um compartilhamento no Twitter ou no Facebook. Se preferir a versão impressa, clique na imagem da capa (canto superior direito do post) ou aqui para ser redirecionado ao site Clube de Autores.

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Blogagem coletiva dos autores

As línguas em Star Wars

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Já comentei anteriormente sobre as extrapolações de vida alienígena na franquia Star Wars (Guerra nas Estrelas), mais radicais do que, por exemplo, Star Trek (Jornada nas Estrelas). Na ocasião, apontei para o fato de que a saga de George Lucas não é tão ficção científica quanto o universo concebido por Gene Roddenberry, mas mesmo assim a fantástica galáxia dos jedis vai mais além ao imaginar espécies não-humanas do que o mundo futurista da Federação Unida de Planetas (neste os extraterrestres são apenas humanos de outras culturas disfarçados de alienígenas).

Isso tudo acontece, aparentemente, despretensiosamente, e não é um tema explorado nas histórias dos filmes. Da mesma forma, a questão dos idiomas e variantes linguísticas falados pelos personagens é um detalhe pitoresco e secundário, mas se for bem analisado pode nos levar a reflexões tão interessantes quanto as suscitadas em Star Trek. Nesta, encontramos várias situações pertinentes aos interesses da Linguística, como escrevi anteriormente, mas veremos no presente artigo que isso se dá de maneira diferente nos dois universos fictícios.

E como podemos abordar Star Wars quanto às línguas? É preciso começar dizendo que a maioria dos personagens fala inglês. Podemos, entretanto, entender que a língua mais comumente falada nessa galáxia fictícia não é a inglesa, mas foi convenientemente “traduzida” para os espectadores terráqueos (assim como Tolkien supostamente “traduziu” O Hobbit e O Senhor dos Anéis do westron para o inglês). Portanto, o que é pertinente aqui é o fato de haver uma língua franca na Galáxia. A partir desta constatação, observamos vários contextos interessantes em que essa língua está longe de ser a única maneira de as pessoas das mais variadas espécies se comunicarem entre si.

Um tradutor universal plausível

Quando discorremos anteriormente sobre as línguas em Star Trek, observamos que na realidade o fictício tradutor universal seria bem mais complicado do que parece ser nas séries e nos filmes daquela franquia. Mas em Star Wars temos um dispositivo que encarna as funções do tradutor de uma maneira que parece ser bem mais plausível: o droide C-3P0.

Diferente do maravilhoso aparelho que traduz simultaneamente (quase como se conseguisse ler os pensamentos dos interlocutores), nosso querido robô dourado (com uma perna prateada) funciona na prática como um intérprete, fazendo traduções mediatas. Fluente em mais de 6 milhões de formas de comunicação, infere-se que seu escopo de conhecimentos envolve não apenas línguas propriamente ditas, mas linguagens de outros tipos, o que pode nos levar a questionar se há espécies na Galáxia que possuem formas de comunicação que não sejam línguas.

Como C-3P0 é um droide diplomata, fica bastante verossímil seu papel de intérprete não como meramente um tradutor, mas como mediador. Podemos entender seu programa como extremamente avançado a ponto de apreender frases completas e contextualizadas (já que ele é um robô com sentidos que o permitem perceber outros elementos do contexto da comunicação que possibilitem a compreensão de elementos não-textuais da comunicação) e traduzi-las apropriadamente. Inclusive, ele é capaz de interpretar as situações com empatia, percebendo a presença de certos sentimentos e até fazer sugestões, por exemplo, para que os interlocutores tenham cautela diante de colocações maliciosas ou ameaças.

Em suma, esse carismático droide é uma solução bem mais plausível e factível, enquanto elemento de uma ficção científica verossímil, do que o tradutor universal. Não é nada absurdo imaginar um robô de tamanho humano feito com tecnologia avançadíssima e que contenha dados suficientes para estabelecer comunicação com milhões de línguas, através da interpretação mediata e não de uma tradução simultânea imediata que, num cenário realista, poderia implicar em erros toscos de tradução, mal-entendidos e até conflitos entre as partes que tentam estabelecer contato entre si.

Fonética alienígena

A primeira quebra no paradigma da língua universal se dá logo na primeira cena de Star Wars IV: Uma Nova Esperança, em que vemos dois droides dialogando enquanto tentam escapar de um tiroteio. Um deles, R2-D2, não “fala” a língua comum, mas se comunica através de zumbidos, blipes e zoada eletrônica, além de fazer alguns movimentos com sua cabeça circular que gira ao redor de um eixo. Todos ao redor entendem o que ele diz e ele entende o que todos os outros dizem.

Mas talvez chame mais atenção o grandalhão Chewbacca. Ele (e os outros wookies que aparecem no episódio III) são um exemplo interessante de extrapolação da fonética humana. É praticamente impossível para essa espécie falar o idioma comum, assim como para humanos falar a língua dos wookies, ao menos pelo que se depreende das histórias. Isso cria uma situação em que aparentemente não há hierarquia de prestígio entre as duas formas de comunicação, pois as duas são impronunciáveis para a respectiva espécie não nativa, e todos se entendem, cada um falando em seu próprio idioma.

Nessa circunstância, é inviável que cada falante se meta a ficar corrigindo os possíveis “erros” de seu interlocutor, pois a necessidade de comunicação se sobrepõe a qualquer ideia sobre algum tipo de forma ideal ou pura de um idioma. Cada comunicador sabe a forma de se expressar em seu próprio código. Isso também acontece na comunicação com R2-D2 e outros droides em sua relação com seres que falam línguas “orgânicas”. O pequeno droide emite sons eletrônicos que formam “frases” inteligíveis para os que conhecem seu código. Mas o exemplo de R2 não é dos melhores.

Um outro bom exemplo do modelo wookie de diversidade linguística aparece no Episódio II: Ataque dos Clones, com os geonosianos, insectoides bípedes que aparentam viver numa sociedade estilo colmeia. Eles falam um idioma repleto de sons inumanos, como estalidos, rangidos e claques feitos com os “lábios” de quitina. Diante de um conselho de representantes separatistas que falam idiomas diversos, o líder geonosiano fala em sua própria língua sem receio de ser incompreendido, bem como compreende os outros membros da mesa.

Variantes e dialetos

Um elemento de diversidade linguística que muitas vezes falta em universos de ficção científica e fantasia são as variações linguísticas. É difícil encontrar nessas histórias as diversas variantes léxicas, fonéticas ou sintáticas que são características de qualquer língua. O exemplo mais notório da rara presença desse elemento é a Terra-Média de Tolkien, com as diversas línguas e dialetos falados pelos elfos, todas derivadas de um idioma-mãe. Mas neste caso se trata da obra de um filólogo que tinha como um de seus principais motivos para escrever o registro de suas ideias sobre línguas e os idiomas que ele gostava de inventar.

Star Trek prescinde totalmente disso, a não ser que se considerem os diversos sotaques da língua inglesa falados pelos atores das séries e filmes, um elemento incidental. Porém, Star Wars tem um exemplo interessantíssimo de variante no estilo dialeto/jargão: a fala de Jabba o Hutt e de outros criminosos do submundo do planeta Tatooine, o chamado idioma huttês. É bastante notável que o trabalho por trás das câmeras consistiu em improvisar as falas com base na sonoridade e construção das frases em inglês.

A cena da primeira aparição de Jabba, por exemplo, foi filmada com um ator real falando em inglês que depois foi substituído por uma animação em CG e teve sua voz sobreposta por uma improvisação que soasse como a língua dos hutts mas que se parecesse foneticamente com o que o ator original falou (esse método foi usado por Marc Okrand para criar uma boa parte do idioma klingon em Star Trek). Dessa forma, às vezes dá até para adivinhar o que dizem os mafiosos, como se se tratasse de um dialeto ou um código para dificultar a compreensão por parte de intrometidos e das autoridades. Inadvertidamente, acabou sendo criado um idioma que em algumas situações parece um jargão para disfarçar negócios escusos.

“Han, ma bookie” = “Han, my boy” [“Han, meu garoto”].

É claro que a maior parte do que os personagens que falam huttês dizem não tem nada a ver com o inglês, mas podemos pensar que esse jargão foi evoluindo com o tempo e se diferenciou muito da língua padrão. Mais ainda, podemos dizer que ambas as línguas evoluíram de uma matriz comum. E um outro ponto interessante sobre esse caso é a necessidade de um intérprete twi’lek quando os heróis do Episódio VI conversam com o chefão Jabba, afinal, nem sempre todo mundo vai conhecer as línguas de outros povos para conversar livremente entre si.

Sintaxe e aprendizado de novas línguas

Quase sempre que alguém aprende um idioma alienígena em histórias de aventura como Star Wars, é notório seu perfeito domínio de tal idioma, mesmo que o tempo para aprender tenha sido muito curto. Mas na realidade não é difícil encontrar pessoas que mesmo depois de muitos anos falando uma língua estrangeira ainda guardam traços perfeitamente distinguíveis de seu idioma materno, sejam traços fonéticos, lexicais ou sintáticos.

Yoda é um exemplo muito interessante disso. Com cerca de 900 anos de idade e profundamente sábio, o pequeno Mestre Jedi não consegue falar o idioma comum sem usar a estrutura SOV (sujeito, objeto, verbo), que se diferencia da ordem normal do inglês e de grande parte das línguas ocidentais como o português, que elaboram as sentenças na ordem SVO (sujeito, verbo, objeto). Isso pode facilmente ser interpretado como uma sinal de que a língua materna de Yoda utiliza a ordem SOV.

Este e outros aspectos discutidos antes nos levam a notar a completa ausência de mecanismos de tradução automática tais quais o tradutor universal presente em Star Trek, que, se existisse em Star Wars, eliminaria toda essa gama de situações pitorescas e interessantes na comunicação entre os personagens, pois de outra forma todos falariam “inglês” com a mesma aparente desenvoltura. Na vida real, a tradução e o aprendizado de idiomas é um trabalho complexo e difícil.

Evolução das línguas

A maioria das espécies da Galáxia consegue se comunicar entre si sem problemas, pois em geral conhecem as línguas umas das outras e podem até conversar usando seus próprios idiomas maternos sem óbices para a compreensão mútua. Mas num lugar tão grande e com tantas centenas de sistemas planetários habitados, não pode ser surpreendente encontrar uma espécie ou outra que se manteve isolada do resto dos povos, que não conhece a língua franca e cujo idioma é praticamente desconhecido ou, em certos casos, esquecido pelas outras raças.

Os ewoks da Lua de Endor são pequenos humanoides peludos que lembram ursos antropomórficos. Seu primeiro contato com alienígenas ocorreu durante a Guerra Civil que culminou na derrocada do Império Galáctico e na qual tiveram participação importante. Nesse contato, nem os humanos da Aliança Rebelde nem os ewoks conseguiram estabelecer comunicação linguística direta, e foram obrigados a recorrer a C-3P0, que conhecia uma língua semelhante, provavelmente um idioma com raízes em comum com o dos ewoks.

Essa situação linguística é uma das mais emblemáticas em Star Wars, pois traz à tona a necessidade de aprender uma língua estrangeira para estabelecer comunicação, o que em geral é resolvido de maneira um tanto mágica em outras histórias de ficção científica. Aqui os interlocutores precisam encontrar um jeito de se entenderem sem o uso de um tradutor universal. Sua solução mais prática foi utilizar C-3P0, que traduz mutuamente aquilo que cada lado diz ao outro. Mesmo assim não foi um processo fácil e o contato entre eles quase resultou na morte dos rebeldes.

Além disso, é interessante ver aí, mesmo que de forma superficial, um caso de línguas irmãs cuja semelhança facilitou o contato direto entre o droide intérprete e os nativos de Endor. Embora C-3P0 se refira à língua dos ewoks como um dialeto “primitivo” cuja forma mais “avançada” ele conhece (termos que no âmbito da Linguística não se aplicariam), podemos considerar que são duas línguas com origem comum, assim como o são o Português e o Espanhol, derivados do Latim. Se recorrermos a Star Trek, não encontramos praticamente nada neste sentido, pois lá cada língua parece estar bem delimitada e distinguida, e parece ser dada, como se não tivesse história.

Que a Língua esteja com você

Em Star Trek, tínhamos visto que existe uma preocupação constante com a verossimilhança, característica da ficção científica, e vemos no exemplo da língua klingon a elaboração cuidadosa e detalhista da diversidade na ficção. Mas em Star Wars a diversidade parece ser concebida de modo intuitivo, o que faz aparecer exemplos pitorescos saídos da imaginação fantástica e talvez por isso mais interessantes do ponto de vista de um possível vislumbre da radical diversidade de formas de comunicação dos seres vivos no mundo e das criaturas inteligentes no Universo.

Star Wars VII: uma renovada esperança

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28 de novembro de 2014 e.c. foi marcado pelo lançamento do primeiro teaser trailer de Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força. O curto vídeo provocou comoção geral na internet e muitas especulações sobre o papel de cada personagem que aparece em tela e os lugares/planetas onde eles se apresentam.

Pessoalmente, fiquei bastante empolgado com o trailer, graças em parte, talvez, por ter mantido as expectativas bem baixas, tendo em vista o retrocesso que foi a nova trilogia, o fato de a franquia agora pertencer à Disney e o filme ser dirigido por J. J. Abrams, que, na minha opinião, dilapidou Star Trek em seus dois últimos filmes. Mas o trailer traz uma renovada esperança, talvez aquela outra sobre a qual disse Yoda a Obi-Wan.

Comentando cena por cena, começo dizendo que a súbita aparição de um personagem negro logo no início do vídeo é muito significativa, já que Star Wars é tradicionalmente dominada por figuras brancas. Se John Boyega é o primeiro a aparecer, isso provavelmente quer dizer que ele não é um coadjuvante como Lando Calrissian (Billy Dee Williams) ou Mace Windu (Samuel L. Jackson). Não conheço Boyega de nome nem lembro dele em outro filme, mas não se pode negar a importância da representatividade que se vislumbra no destaque dado a ele no trailer. (Ademais, uma das qualidades de Abrams como diretor é seu tato o quesito elenco.)

O fato de o homem estar vestindo uma armadura de stormtrooper provoca o espectador que conhece o universo de Star Wars, pois ficamos imaginando se esse indivíduo é um soldado desertor do derrocado Império ou se ele repete a memorável cena em que Luke e Han se disfarçam com as armaduras brancas para resgatar Leia. Seja como for, temos à vista um provável cliffhanger digno de Abrams.

A inusitada entrada em cena de um robozinho de design curioso, lembrando R2-D2 e outros droides astromecânicos da franquia, anuncia com veemência a renovação visual da nova proposta (é possível que a esfera sobre a qual roda o pequeno robô se encaixe de maneira inteligente na respectiva entrada da nave da qual é copiloto). Diferente de Star Trek, que teve todo o design remodelado (pelo próprio Abrams) mesmo se passado numa época já superexplorada nas séries de TV, aqui temos uma justificativa plausível e verossímil, tendo em vista que o Episódio VII se passa décadas depois da trilogia original, o que implica evolução da tecnologia.

Porém, essa evolução, felizmente, não quer dizer que o aspecto “sujo” característico de Star Wars esteja ausente. O próprio cenário desértico em que se passa a maior parte das cenas do vídeo garante o espalhamento de poeira sobre droides, indumentárias e veículos. Não sabemos ainda se o planeta aqui é Tatooine, mas mesmo que não seja, ele é certamente uma reminiscência intencional do mundo-natal de Luke e Anakin.

Como sempre, os empoeirados rebeldes (se é que ainda existe razão para haver uma Aliança Rebelde) são contrastados pelos stormtroopers reluzentes e limpos que mostram o sempiterno caráter frio e robotizante dos vilões de Star Wars. A renovação do design dos “soldados brancos” faz sentido pela supracitada evolução e pode simbolizar a renovação dos recursos dos reminiscentes do Império.

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Alterando novamente para o lado da luz do conflito, a personagem de Daisy Ridley (que também não sei quem é) se mostra como uma provável sucessora de Leia e Padmé, seguindo a boa tradição de colocar no grupo de protagonistas uma mulher forte e proativa, como atestam seus gestos e sua atitude ao conduzir um arrojado speeder pelo deserto tatooinesco. Mas se a representatividade feminina entre os papéis de destaque do filme não passar disso, será uma pena (ainda estou aguardando esperançoso para saber quais serão os papéis de Lupita Nyong’o e Gwendoline Christie, duas mulheres que escapam do padrão das atrizes hollywoodianas).

À corredora do speeder se segue a cena de um piloto de X-Wing, interpretado por Oscar Isaac (outro desconhecido para mim). Teremos, portanto, provavelmente, mais um elemento recorrente dos filmes, que é a figura do piloto prodígio, um descendente de Anakin e Luke Skywalker (será ele um novo membro da família), e aparentemente continuaremos vendo mais batalhas espaciais entre rebeldes (ou aquilo em que eles se tornaram) e Império (idem).

Adentramos então uma floresta escura e nevada, por onde anda uma figura misteriosa de capuz negro carregando um “sabre-de-luz” vermelho, ou seja, provavelmente se trata de um ou uma Sith, ou pelo menos alguém ligado ao lado sombrio da Força. Não dá para ter certeza sobre quem interpreta esse personagem, mas eu quero acreditar que é Gwendoline Christie, pois até achei seu porte parecido com o da atriz, e o fato de ela ser bem conhecida por fazer o papel de uma exímia espadachim em Game of Thrones reforça esse meu palpite talvez sem noção.

O “sabre”, aliás, é um elemento digno de nota. Ele parece ter sido feito para se parecer mais com uma espada longa medieval do que com um sabre propriamente dito, inclusive possuindo um guarda-mão característico feito da mesma matéria da lâmina. Isso pode estar ligado à possível identidade do personagem como um “inquisidor” Sith, corroborando uma das hipóteses levantadas por internautas. A espada medieval poderia ser uma referência simbólica aos cavaleiros da Idade das Trevas ou até mesmo aos Templários, ambos defensores do poder da Igreja e agentes da Santa Inquisição (não deixo de notar o simbolismo cristão da forma da espada, que lembra uma cruz, o que pode ou não ser intencional).

(Sobre a própria utilidade desses guarda-mão de luz, vale ressaltar que ele seria um elemento inteligente de defesa da espada-de-luz, pois sabe-se que essas lâminas repelem os ataques de outras armas do mesmo tipo, e ele serviria para impedir que o oponente deslizasse uma lâmina pela outra para ferir sua mão.)

A cena final do vídeo é uma batalha entre naves espaciais, notadamente a célebre Millenium Falcon, enfrentando TIE Fighters. Esse é o primeiro e único elemento pertencente aos filmes antigos a aparecer no trailer, e pode ser um sinal de que não veremos somente os rostos novos que se mostraram antes, mas que a antiga trupe estará de volta para ajudar a nova geração de heróis.

O trailer, assim, faz um favor para os fãs de Star Wars ao pontuar alguns dos ingredientes imprescindíveis para a receita de um filme da franquia: pessoas comuns procurando seu lugar na galáxia, droides, soldados inimigos sem rosto, tecnologia velha e empoeirada ao lado de tecnologia nova e limpa, vilões misterioros, sabres-de-luz e batalhas de naves espaciais. Tudo sem exageros visuais, para que se destaque o que realmente importa: os personagens. (A paródia deste link mostra uma “versão editada por George Lucas”, com acréscimos como os que ele inseriu nas versões remasterizadas dos filmes antigos, e evidencia justamente essa qualidade do trailer de Abrams.)

Considerando tudo isso, eu tenho a esperança de que essa nova obra cinematográfica corrija um erro crasso cometido por J. J. Abrams aos tomar as rédeas da franquia Star Trek: a sub-representação da alteridade não-branca, não-masculina, não-heterossexista. A diversidade fazia parte da alma de Star Trek, mesmo que ela só tenha se realizado gradativamente e tenha despencado depois de seu ápice em Voyager. O que Abrams não fez em Star Trek talvez seja concretizado em Star Wars (talvez não…), se levarmos em conta o elenco do filme, e essa pode, ironicamente, ser sua redenção perante os trekkies (ou não!). Isso seria, ademais, um bem-vindo e grande avanço para o fantástico universo criado por George Lucas. Que a Força esteja conosco.

Releituras afrofuturistas da Ficção Científica

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Ytasha L Womack e seu livro “Afrofuturism”.

O Afrofuturismo é um conjunto de manifestações culturais que mistura elementos da cultura negra (ou daquilo que é representado como cultura negra, de matriz africana ou afrodescendente) com aspectos da cultura pop que dizem respeito a noções de futuro e progresso tecnológico, notadamente as ideias da ficção científica futurista, e envolve literatura, música, estética e moda, artes visuais, cinema e televisão. Acima de tudo, o Afrofuturismo é uma filosofia, uma forma de revisar o modo como os negros veem a si mesmos na mídia, valorizando elementos culturais do passado e do presente e construindo uma visão de futuro com base em seus próprios anseios e não nos tradicionais estereótipos racistas (e também de identidade de gênero e sexualidade).

O livro Afrofuturism: The World of Black Sci Fi and Fantasy Culture, da escritora norte-americana Ytasha L. Womack, apresenta um panorama das diversas vertentes do Afrofuturismo, seus diversos artistas e pensadores. O que mais me interessou no livro foram as diversas referências a temas da Ficção Científica (literatura, cinema e televisão) e como eles são reconstruídos na perspectiva da experiência negra no Ocidente e também na África. Há não apenas uma forma alternativa de ver a ficção científica clássica, mas uma produção de literatura negra que remonta a W. E. B. Du Bois e tem em Octavia Butler uma de suas principais referências.

Há algum tempo venho me interessando por essa parte ainda marginalizada da Ficção Científica, da qual aos poucos estou me inteirando. Mas ainda não li muita coisa da produção afrofuturista propriamente dita. No entanto, na apropriação desse gênero literário pelos negros, uma vez que o Afrofuturismo abrange também uma forma alternativa de interpretar a produção eurocêntrica mais consagrada, é muito interessante a forma pela qual ele ressignifica temas clássicos como a abdução alienígena e a inteligência artificial, usados como metáforas para a história dos africanos e seus descendentes no Atlântico Negro.

Naves e abduções alienígenas

Ilustração de Henrique Alves Corrêa para a edição francesa de 1906 de "A Guerra dos Mundos"

Invasores alienígenas na ilustração de Henrique Alves Corrêa para a edição francesa de 1906 de “A Guerra dos Mundos”

A diáspora negra resultante do comércio de escravos africanos por europeus pode ser colocada nestes exatos termos:

Alienígenas chegaram em naves e abduziram pessoas.

Com essas palavras, é impossível não pensar numa história de ficção científica sobre seres extraterrestres que chegam à Terra em espaçonaves e raptam seres humanos. Mas se explorarmos outros sentidos dos termos da expressão acima destacada, podemos pensar no significado próprio de alienígena como “estrangeiro”, nave como “embarcação” (navio) e abdução como “captura”.

Os autores Mark Dery, Mark Sinker e Reynaldo Anderson, citados por Womack, escreveram sobre essa pungente metáfora. Assim, se por um lado as histórias de invasão e abdução extraterrestres representam o medo europeu e norte-americano de sofrer na pele o mesmo processo de dominação colonial que esses povos empreenderam e ainda empreendem, elas falam sobre a história real daqueles que sofreram e sofrem essa mesma dominação, em especial os africanos.

Mas a abdução é apenas uma parte desse processo de contato com alienígenas. Os contos sobre invasão de grandes naves espaciais prontas para subjugar e, em alguns casos, exterminar a humanidade são exatamente uma representação do que os “conquistadores” fizeram em suas viagens de “descoberta”. Os enredos de A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, de Independece Day e o histriônico Marte Ataca! são ótimas analogias da invasão, escravização e dominação dos africanos pelos europeus imperialistas.

Distopias pós-apocalípticas

O apocalipse zumbi de "The Walking Dead", ilustrado por Charlie Adlard

O apocalipse zumbi de “The Walking Dead”, ilustrado por Charlie Adlard

Se continuarmos a sequência dessa história e falarmos sobre a diáspora negra, o pesadelo dos africanos e seus descendentes, tanto na África colonizada quanto nos países para os quais foram levados em navios negreiros, a desolação de viver subjugados a alienígenas de cara pálida num mundo desagregado, podemos extrapolar a interpretação das histórias distópicas de teor pós-apocalíptico.

Estas histórias retratam uma humanidade vivendo à beira de um colapso, geralmente ameaçada por seres perigosos, como robôs, monstros, zumbis ou ditaduras totalitárias. 1984, de George Orwell, com sua metáfora da bota militar esmagando um rosto, é a síntese perfeita da opressão absoluta de uma classe sobre uma minoria social (mesmo que esta seja maioria em quantidade), o que é visto nos regimes de apartheid e nas nações escravocratas.

A alegoria do apocalipse zumbi também pode ter repercussões imagéticas interessantes na descrição da vida dos escravos vivendo entre seres que são semelhantes a eles (como o são os mortos-vivos) mas que carregam diferenças consideradas inconciliáveis. Zumbis se assemelham a vampiros em sua natureza parasítica, sempre em busca dos cérebros ou do sangue dos vivos, e é como parasitas vampíricos que podem ser vistos os senhores de escravos, explorando a energia dos cativos. Além disso, a metáfora encontrada na série de quadrinhos Os Mortos-Vivos (The Walking Dead), que foi adaptada para a TV, também é muito pertinente, pois nessa história os “mortos caminhantes” não são os zumbis, mas os próprios sobreviventes que estão à beira da morte. Os escravos negros também eram mortos-vivos neste sentido, pois suas vidas estavam à mercê dos implacáveis senhores, não eram donos de suas vidas, sempre à beira da morte ou, em certo sentido, mortos em vida.

Robôs

Data, o androide em busca de sua humanidade em Star Trek

Data, o androide em busca de sua humanidade em Star Trek

As histórias sobre robôs trazem diversos temas antropológicos interessantes. Um deles está ligado diretamente à etimologia da palavra robô, que pode ser entendida como sinônimo de “escravo”.

As máquinas que servem como substitutos do trabalho humano são entendidas por seus criadores e usuários como autômatos desprovidos de vontade própria, utensílios sem alma que apenas se assemelham vagamente a seres humanos. Essa forma de ver os robôs resume o que era a ideologia defendida para justificar a subjugação de seres humanos escravizados, representando-os como indivíduos dotados de menos humanidade que seus escravizadores, máquinas de carne negra sem alma.

O estigma que atrela a noção de escravo à de pessoa negra é tão forte hoje em dia que temos dificuldade de pensar em escravidão que não envolva pessoas negras. A escravidão existiu em toda parte ao redor do mundo, e povos de várias origens étnicas e diversos matizes já se encontraram sob o jugo da servidão forçada. Mas as consequências sócio-culturais dessa forma de trabalho não são tão sentidas na contemporaneidade quanto pelos negros descendentes de africanos, ainda tentando, em diversos contextos, provar seu status de humanos pensantes, do mesmo modo que robôs como Johnny 5 (Um Robô em Curto-circuito), Andrew (O Homem Bicentenário) e Data (Star Trek) tentam.

Essa metáfora que compara os afrodescendentes a androides foi explorada pela musicista Janelle Monáe em sua obra. A sinfonia The ArchAndroid, uma ficção científica em forma de música, conta sobre a profetizada vinda de uma Arquiandroide que libertará todos os androides.

Fábulas com robôs que querem ser humanos são excelentes metáforas do processo de humanização dos indivíduos de nossa espécie: estamos o tempo todo nos esforçando para nos aproximar de um ideal de humanidade, condicionado pela cultura em que vivemos. Minorias discriminadas, seja por racismo, sexismo ou outras normatividades, se vêem numa luta ainda mais hercúlea. Aliadas a isso, as fantasias de revolta contra os opressores e de tomada do poder encontram nas histórias com robôs um interessante paralelo. A revolta das máquinas em Matrix e O Exterminador do Futuro é uma alegoria do levante de escravos contra os portadores do látego. O Quilombo dos Palmares é uma sociedade de robôs libertos que provaram sua humanidade.

Hibridismos

O xenomorfo híbrido em “Alien: O Oitavo Passageiro”

Um tema da Ficção Científica que se relaciona com nossa dificuldade de lidar com sentimentos racistas é o hibridismo, seja entre duas ou mais espécies orgânicas, seja entre ser vivo e máquina. O exemplo mais clássico do parasita alienígena do cinema talvez seja a franquia Alien, onde a contaminação de seres humanos (e de outros animais) pelos xenomorfos produz criaturas que são amálgamas monstruosos, belos e mortais.

A história começa com a chegada de exploradores numa terra estranha e seu contato com uma espécie nativa, da qual resulta um ser mestiço, o “alien”. Esta criatura surge do estupro de um dos tripulantes, um homem branco, por parte da criatura feminina que eclode de um ovo e que pode ser vista como uma reminiscência simbólica de uma mulher africana. Há portanto a inversão da relação da violência sexual. Porém, tendo em vista a representação, por parte do colonizador, dessa relação como prejudicial a este – inclusive com a ideia de contaminação de DSTs supostamente originárias da África -, a metáfora invertida cumpre seu papel de remontar ao processo de exploração do continente africano e da consequente “contaminação” da cultura e biologia europeias pelas africanas. De acordo com Célia Magalhães, no livro Os Monstros e a Questão Racial na Narrativa Modernista Brasileira, a alegoria do parasitismo pode ser uma referência à mestiçagem colonial, em que os elementos culturais dos dominados são vistos como indesejados pelos defensores de uma idealizada pureza da cultura dominante.

O ser estranho que assim surge, mesmo tendo metade do DNA do conquistador, é visto como totalmente alienígena. E bastante emblemático que o xenomorfo tenha a cor negra e é bastante interessante o fato de, no primeiro filme da franquia, ele ser interpretado por um ator africano, escolhido justamente pelo exotismo de seu corpo. A parcela africana da herança das culturas ocidentais é ainda hoje vista como algo exótico e não propriamente normal, e ainda existem pessoas e grupos que defendem a extirpação dessa herança, como se o elemento negro de nossa cultura e de nossa população fosse uma monstruosidade incômoda. Nosso racismo velado ainda percebe a presença negra como um elemento intruso em nossa sociedade, ainda sentido como alienígena e passível de ocultamento ou até mesmo extirpação.

Embora um pouco diferente, o hibridismo cibernético também se presta à mesma alegoria. Como vimos, os robôs podem ser vistos como metáforas da minoria escravizada e desumanizada. Quando a máquina é integrada ao humano, dando origem aos ciborgues, temos toda sorte de enredos admoestando-nos sobre os perigos dessa união, o medo de que a parte máquina tome conta da parte orgânica e até mesmo oprima seu livre-arbítrio. É o que acontece com o policial Alex Murphy em Robocop, que precisa lutar internamente para não deixar que a máquina sem alma assuma o controle de suas ações. Também é o drama do Dr. Octopus em Homem-Aranha 2, que perde quase totalmente sua vontade ao ser seduzido pela frieza ambiciosa do implante que colocou em si mesmo, e dos Borgs em Star Trek, cuja parte mecânica embota completamente a liberdade do ser orgânico animado.

Representatividade

Depois que uma obra é publicada, ela não pertence mais ao autor. Seus leitores se apropriam dela como bem entendem e lhe imprimem os significados que consideram mais pertinentes. Dessa forma, é muito importante que as obras clássicas tradicionalmente carregadas de eurocentrismo, androcentrismo e heteronormatividade sejam relidas pelo olhar das minorias pouco ou nada representadas nessas obras. Além de ser um meio de enriquecer o cânone com mais possibilidades de leitura, é uma forma de os leitores se constituírem como ativos construtores de significado, fomentando a criação de novas obras carregadas de mais representatividade, especialmente uma representatividade de autoras e autores.

As línguas em Star Trek

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Star Trek (Jornada nas Estrelas) sempre foi reconhecida como uma franquia de ficção científica que explora vários subtemas dentro do grande tema da diversidade humana (e extra-humana), seja étnico-racial (com suas limitações), seja de identidade de gênero ou, de forma mais alegórica do que explícita, de sexualidade. Porém, no que tange a diversidade linguística, Star Trek nunca foi muito a fundo, e só não vale a pena repreender seus criadores porque esse é um tema quase universalmente menosprezado e incompreendido.

Segundo o linguista brasileiro Marcos Bagno, os diversos tipos de preconceito, mesmo não tendo sido plenamente erradicados ainda, são quase todos temas de nossas preocupações hoje em dia, mas o preconceito linguístico é ainda ostensivamente ignorado e até menosprezado, considerado irrelevante. Tendo isso em mente, penso que vale a pena considerar a possibilidade de ampliar a representação da diversidade linguística na ficção científica e outras literaturas, não apenas de forma romantizada e idealizada (como a criação de línguas diferentes da “língua humana”, como o élfico e o klingon), mas com base na realidade linguística humana, com suas variações dentro de uma mesma língua, os preconceitos e hierarquizações, as transformações e sua lógica fonética e de uso circunstancial.

Além disso, seria extremamente pertinente extrapolar o tema para formas alienígenas de comunicação, explorando as possibilidades de manifestações não-humanas de fonética, sintaxe, léxico etc. Apesar de tudo, há sim coisas interessantes no âmbito da linguística fictícia em Star Trek, embora a maioria delas apareça de forma pontual em episódios específicos.

O mítico tradutor universal

Uma versão portátil do tradutor universal, no filme "Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida"

Uma versão portátil do tradutor universal, no filme “Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida”

A quase completa ausência de questões linguísticas na franquia é constatada pelo sempiterno uso do tradutor universal como recurso para explicar porque todos os personagens se comunicam sem entraves entre si, como se todos falassem inglês. Do ponto de vista da produção dos seriados e filmes, o tradutor universal é uma maneira simples de evitar os esforços no sentido de elaborar idiomas complexos, sendo mais fácil colocar todos os atores falando o mesmo idioma para que os espectadores não tenham dificuldade de compreender os diálogos.

Algumas versões portáteis do aparelho já apareceram nas séries e nos filmes, mas em geral se assume que ele está instalado nos circuitos internos das naves ou nos comunicadores, sejam os portáteis ou os embutidos nas insígnias do uniforme da Frota Estelar (ou, no caso dos ferengi, preso no interior de suas orelhas), permitindo que a tradução simultânea seja feita sem nenhum incômodo.

Mas do ponto de vista da ficção, essa maravilhosa ferramenta suscita questionamentos no âmbito da ciência Linguística, e podemos levantar questões a respeito de seu caráter enquanto elemento de ficção científica. Se tomarmos a discussão de Umberto Eco em Quase a Mesma Coisa: Experiências de Tradução, em que o erudito italiano fala de sua experiência como tradutor e autor traduzido, trazendo também as ideias de outros pensadores sobre a traduzibilidade dos idiomas entre si, vemos como é utópica a ideia de um aparelho que faça traduções automáticas, simultâneas e imediatas. Mesmo entre dois idiomas humanos, é necessário um lapso de tempo para que uma frase seja apropriadamente traduzida, pois a sentença precisa chegar até o fim e o contexto (altamente subjetivo) precisa ser compreendido pela inteligência artificial do tradutor.

Podemos imaginar que tal aparelho seja capaz de fazer um trabalho quase automático quando lida com duas línguas que ele já “conhece”, bem como as respectivas culturas dos povos que as falam, desde que tenha uma inteligência artificial capaz de identificar emoções e um banco de dados amplo e eficiente a ponto de entender qualquer contexto sem precisar “pensar” muito. Mas isso é muito improvável de acontecer quando duas espécies entram em contato pela primeira vez entre si. Uma das raríssimas vezes em que isso é retratado (e mesmo assim aparece como exceção) é no episódio “Santuário”, da segunda temporada de Deep Space Nine, no qual o tradutor universal demora várias horas para decodificar o idioma dos Skrreeanos, provenientes do Quadrante Gama, devido a existir uma grande diferença de estrutura entre seu idioma e a maioria das línguas do Quadrante Alfa.

Esse tipo de situação deveria ser muito mais comum e poderia render muitas histórias interessantes (veremos adiante um ótimo exemplo disso). Além disso, é bastante estranho que haja situações em que algumas espécies, principalmente os klingons, que misturam termos de sua língua (como saudações e xingamentos) com o inglês. O que acontece com o tradutor universal nessas horas? Ele simplesmente falha em momentos-chave ou possui algum obscuro critério para traduzir certos termos em detrimento de outros?

A meu ver, o tradutor universal raramente foi abordado sob uma perspectiva de hard sci-fi, pois seu funcionamento é simplesmente aceito sem explicações profundas de caráter científico (linguístico). Da maneira como é utilizado na franquia, tendo a vê-lo, no máximo, como um elemento de soft sci-fi, e no mínimo como algo mágico que poderia estar presente em histórias de Fantasia e ser explicado como dotado de caráter sobrenatural.

Uma língua extraterrestre, mas nem tanto

O idioma dos klingons foi a primeira língua não-humana a ser elaborada no universo de Star Trek. Na série clássica, todos os personagens falavam inglês (não havia barreiras para a comunicação, por causa do tradutor universal) e portanto não havia motivos para colocar em cena as peculiaridades de um idioma alienígena. Mas no primeiro longa metragem da franquia, Jornada nas Estrelas: O Filme, decidiram incluir uma cena muito rápida no início, em que apareciam klingons falando algumas frases improvisadas em seu idioma-natal.

Quando o terceiro filme, À Procura de Spock, estava sendo produzido, tendo como antagonista um general klingon, seu idioma começou a ser elaborado com um vocabulário e gramática completos para que, quando falado em qualquer outro contexto na televisão ou no cinema, não fosse apenas um punhado de fonemas aleatórios sem significado. É um idioma único, extremamente diferente da maioria das línguas humanas em sua sintaxe e sua fonética. Marc Okrand, o linguista que sistematizou esse idioma fictício, teve o cuidado de elaborá-lo como algo realmente alienígena. Fez combinações de fonemas muito incomuns em qualquer língua humana e estabeleceu a ordem dos elementos das orações segundo o esquema mais raro dos encontrados na Terra.

Porém, há dois pontos em que o klingon se mostra limitado nessa proposta (embora continue sendo uma das criações mais interessantes e complexas dos universos de sci-fi): 1) ele se utiliza apenas e tão-somente de fonemas humanos, sendo perfeitamente pronunciável por qualquer indivíduo humano suficientemente treinado (e que não tenha algum defeito no aparelho fonador); 02) seu vocabulário é quase exclusivamente uma tradução termo a termo de palavras inglesas, relação que não acontece entre dois idiomas humanos, sendo a tradução uma tarefa extremamente complicada (esta crítica lexicológica é apresentada pelo antropólogo-linguista David Samuels, no artigo “Alien Tongues”, que se encontra no livro E.T. Culture: Anthropology in Outerspaces).

“Darmok e Jalad em Tanagra”

O capitão tamariano Dathon e o Capitão Picard tentando encontrar uma forma de traduzir o idioma um do outro

O capitão tamariano Dathon e o Capitão Picard tentando encontrar uma forma de traduzir o idioma um do outro

O episódio “Darmok”, da série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, é um belíssimo exemplo de extrapolação de uma forma de comunicação quase impossível de ser decodificada pelo tradutor universal. Para que um não-tamariano consiga entender essa língua, precisa antes conhecer toda a cosmologia desse povo, ou escutará apenas um conjunto de metáforas descontextualizadas e sem sentido.

Cada uma das metáforas, que envolve algum personagem mitológico em uma determinada situação, conota uma atitude ou um sentimento. Por exemplo, quando um tamariano diz “Shaka, quando os muros caíram”, a referência ao personagem mítico Shaka diante da queda de determinada muralha significa pesar, desapontamento.

Esse episódio é muito bem analisado no artigo “De Shakespeare a Wittgenstein: ‘Darmok’ e a Alfabetização Cultural”, escrito por Paul Cantor, na coletânea Star Trek e a Filosofia: A Ira de Kant. Nesse artigo, o filósofo cita Wittgenstein, que afirmou que, “se um leão pudesse falar, não conseguiríamos entendê-lo”. Isso significa que a vida psicofisiológica de uma espécie alienígena, bem com0 sua história, cultura e sociedade, implicariam uma linguagem com estrutura muito diferente da estrutura linguística humana (se considerarmos as estruturas de que falam Saussure, Chomsky etc.). Assim, imagino que a situação enfrentada pelo Capitão Picard ao lutar para estabelecer comunicação com o Capitão Dathon deveria ser muito mais comum nas histórias de Star Trek, se a Linguística, enquanto ciência, fosse realmente levada a sério como componente de uma obra de ficção científica.

Se considerarmos a teoria de Edward Sapir e Benjamin Whorf (nenhuma relação com o klingon Worf), segundo a qual um idioma está intrinsecamente ligado à cultura do povo que o fala, o que nos leva a observar a diversidade linguística humana como reflexo de sua diversidade cultural, deveríamos esperar que as diferenças entre um idioma humano e uma língua extraterrestre fossem muito mais profundas e difíceis de transpor, e “Darmok” é uma rara pérola no universo de Star Trek.

Antes do tradutor universal

A série Jornada nas Estrelas: Enterprise, embora tenha sido a mais fraca da franquia  quanto à exploração de temas relativos à diversidade, trouxe alguns bons exemplos de como explorar a Linguística na ficção científica. Na época em que se passam as histórias do Capitão Archer, os humanos ainda estão desenvolvendo o tradutor universal, e enfrentam algumas dificuldades no contato com espécies “novas”. A xenolinguista Hoshi Sato precisa intervir em diversas situações para calibrar o tradutor, que ainda está longe de funcionar com desenvoltura.

Mas ainda se mantém a ideia de que qualquer língua no universo possui a mesma estrutura e é passível de ser traduzida com o uso de padrões. A própria Hoshi explica que sua facilidade de aprender línguas alienígenas se baseia no reconhecimento desses padrões. Num nível extrapolado, isso poderia acontecer com uma linguista em âmbito terrestre, humano, traduzindo idiomas terrestres, mas é provável que entre espécies alienígenas aparecessem problemas como os que exemplificou “Darmok”.

No entanto, entre os xindi, principais antagonistas na terceira temporada de Enterprise, há duas espécies que se comunicam em idiomas foneticamente alienígenas, os insectoides e os aquáticos. É interessante ver situações em que o tradutor universal não funciona sozinho em diálogos entre humanos e insectoides, sendo necessária a constante intervenção da especialista humana para a decodificação. Nas mesmas cenas, os xindi humanoides conversam normalmente em “inglês”, como se o tradutor universal não tivesse a mesma dificuldade. São circunstâncias interessantes, pois apesar da impossibilidade de se pronunciar os fonemas da espécie alienígena, tanto insectoides quanto humanoides e aquáticos compreendem as respectivas línguas uns dos outros.

Mas é compreensível que questões linguísticas sejam abordadas superficialmente em Star Trek, assim como na maioria das narrativas de ficção (científica ou não). A própria Linguística (e suas sub-disciplinas, especialmente a Sociolinguística) ainda é incompreendida enquanto ciência e um tanto ignorada quando o tema da linguagem vem à tona. Embora os poucos exemplos presentes na franquia suscitem reflexões interessantes, ainda está para surgir uma ficção científica mais radical no tratamento do tema da diversidade linguística. A própria franquia Star Wars, mais caracterizada como “fantasia científica”, é tão ou mais interessante nesse quesito do que Star Trek, como veremos no próximo artigo da Teia Neuronial.

As mulheres de Star Trek

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Uma africana, um nipo-americano, um russo, um escocês e um alienígena. Esses eram os principais não-americanos da tripulação da Enterprise nos idos da década de 1960. Desde então, Star Trek tem se empenhado, embora com menos sucesso do que o satisfatório, em representar a diversidade humana entre seus protagonistas. Embora a representação de negros, por exemplo, não tenha sido lá tão contundente e até tenha decaído, como já discorri em outro texto, pode-se dizer que a representação feminina apresentou um crescendo que teve como fenomenal ápice a série Voyager (para depois decair bruscamente com a sofrível Enterprise).

Sem grandes pretensões de esgotar o tema, vamos aqui fazer uma viagem aonde nenhuma mulher jamais esteve, partindo da Série Clássica dos anos 60 até a última série da franquia, nos anos 2000, dissertando sobre as principais mulheres que tiveram destaque. Até onde Star Trek conseguiu ser revolucionária quando se trata de representar as mulheres fora dos padrões androcêntricos que dominaram e ainda dominam nossa cultura?

A Série Clássica

A primeira série, transmitida entre 1966 e 1969, em suas três temporadas, teve poucas mulheres em papel de protagonistas recorrentes. De maneira geral, os heróis da série foram os três homens principais da nave Enterprise, e as mulheres se destacavam mais como antagonistas ou coadjuvantes eventuais, interpretadas por atrizes convidadas para representar o interesse amoroso de um dos protagonistas homens, especialmente Kirk. Mas, apesar dos vestidos curtíssimos e reveladores, o pouco que as tripulantes do sexo feminino apareceram foi suficiente para causar um impacto duradouro que posteriormente se desenvolveria de maneira bem mais interessante.

Número Um (Majel Barrett)

Não podemos deixar de lado “A Jaula” (“The Cage”), o primordial episódio piloto de Star Trek, onde o capitão Christopher Pike é acompanhado por uma mulher no posto de imediata. O contexto cultural da época certamente não permitia que a protagonista, o papel principal, fosse uma mulher, mas mesmo estando em segundo lugar de importância na hierarquia da tripulação, a Número Um (cujo nome nunca foi mencionado) foi um dos motivos para que a NBC rejeitasse o episódio e pedisse outro.

Mas sempre podemos retomar a esse episódio e admirar a importância de que se reveste a personagem em questão, mostrada não de forma objetificada, mas como uma figura de liderança e uma mulher muito inteligente e racional. Ela foi a primeira mulher a se sentar na cadeira de capitão (enquanto Pike descia para uma missão), o que demoraria muito a acontecer de novo na franquia.

Felizmente, a maior parte do episódio, que nunca foi ao ar, foi resgatada posteriormente no episódio “A Coleção” (“The Menagerie”), e voltamos a ver Majel Barrett naquele importante papel. A atriz, diga-se, foi uma pessoa de presença marcante ao longo da franquia, aparecendo como três personagens diferentes em três das séries e dando voz aos computadores das naves da Frota Estelar.

Uhura (Nichelle Nichols)

Tenente Uhura pode não ter sido a primeira mulher a ocupar um posto importante na ponte de comando de uma nave da Frota Estelar (embora tenha sido a primeira a aparecer na televisão, visto que o episódio piloto não fora ao ar até então). Porém, contrariando o contexto sócio-cultural da época, foi a primeira mulher negra, o que era extraordinário.

Não nos enganemos, a importância do papel de Uhura nas histórias da Série Clássica não é tão grande se a compararmos com outras personagens femininas que surgiram nas séries posteriores. Mas ela teve um impacto enorme, tendo sido uma referência para atrizes como Whoopi Goldberg e para líderes de movimentos sociais antirracistas, como Martin Luther King.

Curiosamente, um dos episódios em que Uhura aparece com mais destaque é “Mirror, Mirror”, onde a tenente assume o lugar de sua contraparte de uma brutal realidade paralela e precisa se fazer durona e violenta para executar o plano de retorno à normalidade. Porém, foram poucas as vezes em que Uhura se mostrou mais do que uma oficial de comunicações sentada em seu posto na ponte de comando.

No início da série, por exemplo, ela demonstrou um grande talento como cantora nas horas de folga, talento que, aliado a um semi-strip tease, utilizaria no filme A Última Fronteira (1989) para seduzir um bando de capangas. Infelizmente, isso meio que diminui sua importância como indivíduo ao colocá-la numa posição de isca, mas paradoxalmente a coloca no lugar de breve destaque de uma estrela num palco. Felizmente, sua sensualidade não exclui seu papel de oficial de comunicações, antes se soma a ele na configuração de uma personagem complexa que não se reduz a um corpo-objeto de desejo. Felizmente, apesar de qualquer limitação da Série Clássica quanto a questões de gênero, os personagens, tanto homens quanto mulheres, conseguem carregar várias facetas, incluindo a de agentes, sujeitos e objetos da libido.

Outras mulheres da Série Clássica

Christine Chapel (Majel Barrett)

Majel Barrett retornou para interpretar a assistente do Dr. McCoy, a Enfermeira Chapel. Ela manteve um papel secundário nas tramas dos episódios em que aparecia, estando subordinada ao temperamental médico-chefe da nave e representando um interesse romântico platônico pelo Sr. Spock. Ela sobreviveu à Série Clássica e se tornou médica da Frota Estelar em Jornada nas Estrelas: O Filme (Star Trek: The Motion Picture). Mas é uma personagem que tinha potencial desaproveitado para tramas interessantes que envolvessem cuidados médicos e o objeto de seu amor platônico, o frio e racional vulcano da Enterprise (que, diga-se de passagem, também tinha uma queda por Christine).

Janice Rand (Grace Lee Whitney)

Por outro lado, a ordenança Janice Rand, uma figura apagada e paradoxalmente cultuada como uma beldade no meio dos heróis masculinos, era a típica mulher decorativa. Estava ali ao pé da cadeira do capitão, uma secretária sem nenhum talento aparente, compartilhando um certo flerte com seu chefe. É interessante observar como essa figura persiste na lembrança dos fãs da Série Clássica, mesmo carregando pouca importância e tendo aparecido em poucos episódios. Talvez o gérmen da valorização da diversidade já fosse forte o suficiente para lhe conceder certa importância. Porém, ela não é lembrada por nenhum feito significativo, senão por suas características físicas.

A Nova Geração

Enquanto na primeira série somente Uhura era uma mulher com presença constante, A Nova Geração melhorou bastante a representação feminina, não só em termos de quantidade quanto de relevância e destaque. O episódio piloto já trouxe três figuras fortes e bem distintas entre si, a ponderada Dra. Crusher, a conciliadora Conselheira Troi e a impetuosa chefe de segurança, Tenente Yar. Uma novidade interessante em comparação com a Série Clássica foi a mudança dos uniformes. Desta vez as fardas da Frota Estelar eram unissex e não diferenciavam os tripulantes pelo gênero.

Beverly Crusher (Gates McFadden)

Celebrity CityComo que uma herdeira espiritual do Dr. McCoy, Dra. Crusher chama atenção para sua postura humanista e ética. É a primeira mãe a ocupar um espaço importante entre os protagonistas da franquia. Isso é importante, por um lado, para abordar questões relacionadas à maternidade e como tais questões podem ser relevantes para se entender as relações de gênero no presente e como elas podem vir a se configurar no futuro.

Por outro lado, é importante porque mostra uma personagem que não se resume ao papel de mãe. De fato, sua carreira como médica da Frota Estelar é tão notável que o fato de ela ser mãe fica em segundo plano e só com certo esforço eu me lembro de Wesley Crusher e, ainda mais, tem alguma relação com ela. O que realmente é relevante nessa personagem é sua dedicação a uma carreira na qual ela demonstra excelência. Importa mencionar que Beverly Crusher é uma cientista, não apenas aplicando os conhecimentos da Medicina, mas desenvolvendo novas teorias e tratamentos.

Essa dedicação à carreira às vezes representa um conflito interno, compartilhado com o Capitão Picard. Ambos têm uma afeição mútua que só não se concretiza na forma de um relacionamento porque isso poderia ser arriscada para ambos e para a tripulação da Enterprise-D. No entanto, há um episódio que mostra o futuro de Picard e ficamos sabendo que em determinado momento de sua história ele e Crusher se casaram. Porém, neste momento nos deparamos com uma grande mancada dos roteiristas ao apresentar a médica com o sobrenome Picard, mantendo uma mentalidade tradicionalmente patrilinear que a essa altura já deveria ter sido superada há muito. Apesar disso, nessa mesma cena temos um vislumbre do promissor futuro de Beverly Crusher, tornando-se capitã de sua própria nave.

Deanna Troi (Marina Sirtis)

Conselheira Troi é uma híbrida de um humano com uma betazoide, e herdou desta a capacidade de se comunicar empaticamente com outras criaturas. Ela assume o papel de conselheira da tripulação da nave, um papel que não existia na Série Clássica e que deixou de existir nas séries seguintes. Ela é como uma psicóloga e terapeuta que aconselha os tripulantes que a procuram com problemas pessoais.

Ela recebeu bastante atenção em diversos episódios da série, protagonizando várias narrativas interessantes que exploraram sua história como mestiça, filha de Lwaxanna Troi (em mais um grande papel de Majel Barrett), a pitoresca embaixatriz do planeta Betazed, e de um homem humano, dotada de habilidade empática (quase telepática) e compartilhando uma certa amizade colorida com o Comandante Riker. Deanna Troi teve vários relacionamentos ao longo das sete temporadas da Nova Geração, sendo retratada como uma mulher emocionalmente livre das amarras de um relacionamento patriarcal.

Estranhamente, Troi é a única mulher da tripulação a usar um uniforme diferente do padrão. Sua roupa, no início da série, lembra os vestidos usados na Série Clássica. Posteriormente, na maior parte do tempo ela usará um colante que se diferencia até mesmo nas cores dos uniformes normais. Neste sentido, a personagem acabou por ter sua sensualidade exacerbada, com roupas mais reveladoras do que as das outras mulheres da Enterprise. Apesar disso não ser um peoblema em si, parece que ela só passou a interagir como um verdadeiro membro oficial da tripulação quando começou a usar o uniforme padrão, lá pelas últimas temporadas da série.

Tasha Yar (Denise Crosby)

Tenente Yar é uma das figuras femininas mais impressionantes da Nova Geração. Apresentando-se no posto de chefe de segurança, bastante incomum para mulheres, ela não só quebra a barreira dos papéis de gênero tradicionais como rompe com o estereótipo da mulher com temperamento frágil ou, no máximo, brando. Na ponte de comando, ela encarna o temperamento colérico, ainda mais do que o klingon Worf.

Em pouco tempo de série, ficamos conhecendo parte da história conturbada de Tasha Yar e o potencial dramático da personagem. Infelizmente, ela morreu muito cedo, no final da primeira temporada, um evento chocante, inesperado e lamentável, tendo em vista que ela representava uma feminilidade atípica em termos do que estávamos acostumados até então.

A personalidade “masculina” de Tasha suscitou especulações sobre sua sexualidade, e houve quem sugerisse que ela era lésbica. Ela teve um momento de intimidade física com o androide Data, o que poderia ter sido uma forma de os produtores afirmarem sua heterossexualidade, como se a possibilidade de ela ser homossexual fosse um problema. De qualquer forma, é interessante encará-la como uma alegoria de uma identidade transgênera e de uma sexualidade queer, tendo em vista que o própria Data não é exatamente um homem no sentido pleno do termo (ao menos não no início da série, antes de conquistar vários aspectos que vieram a torná-lo cada vez mais humano), e pode ele mesmo ser visto como um transgênero queer.

Outras mulheres da Nova Geração

Katherine Pulaski (Diana Muldaur)

Na segunda temporada, Dra. Crusher foi substituída em seu posto pela Dra. Pulaski, uma mulher mais velha (interpretada por uma atriz que, a propósito, apareceu mais de uma vez na Série Clássica), mais experiente e mais geniosa. Sua personalidade a faz lembrar o rabugento Dr. McCoy. Não há uma grande diferença entre Katherine e Beverly em termos do que elas representam para as tramas dos episódios. Ambas são médicas, ambas possuem um exacerbado grau de preocupação ética. Mas Pulaski poderia ter sido melhor explorada quanto a sua identidade de “cinquentona” e a forma como a sociedade ocidental (e outras culturas) encaram mulheres mais velhas.

Guinan (Whoopi Goldberg)

A segunda mulher negra de destaque em Star Trek na verdade não é humana. Guinan, a bartender do salão recreativo da Enterprise-D, é o arquétipo da feiticeira errante ou cigana misteriosa. Embora tenha um poder fora do comum e incompreensível para os humanos, ela foi pouco explorada, por vezes passando um certo tempo sem aparecer. Guinan, a meu ver, deveria ter ganhado ao menos um pouco mais de destaque, assumido o papel de protagonista de pelo menos um ou dois episódios da longa série, pois Whoopi Goldberg certamente teria sido espetacular se a misteriosa alienígena mostrasse quem realmente é e o que pode fazer, mesmo que o fizesse de maneira sutil.

Ro Laren (Michelle Forbes)

Sua aparição foi muito breve mas marcante. A primeira bajoriana da franquia, a indisciplinada Alferes Ro representava um povo oprimido pelas forças imperiais dos cardassianos. Ela é a clássica personagem com ideias ambivalentes, ao mesmo tempo parte da Frota Estelar como uma de suas oficiais, mas discordante dos métodos da Federação no trato de questões diplomáticas. Ro acabaria por abandonar a tripulação da Enterprise e seu uniforme para se juntar a um grupo de rebeldes de seu povo e enfrentar os cardassianos. Neste sentido, ela pode ser vista como um exemplo de mulher que toma suas próprias decisões sobre aquilo que lhe diz respeito.

Keiko O’Brien (Rosalind Chao)

Uma das mulheres de papel recorrente de menos destaque é a esposa do operador de teletransporte Miles O ‘Brien. Keiko é digna de menção por ser oriental (uma herdeira de Hikaru Sulu da Série Clássica), já que personagens com identidade asiática não são tão comuns em Star Trek. Mas é colocada em destaque poucas vezes, como em episódios que mostram a creche que ela administra. Porém, em certos episódios da série Deep Space 9 (da qual também participou e sobre a qual discutirei abaixo), Rosalind Chao se mostrou uma atriz acima da média. É uma pena que, assim como Dra. Crusher, Keiko tenha abdicado de seu sobrenome quando se casou com O’Brien. Apesar disso, ela se mostra uma mulher independente quando precisa passar meses trabalhando longe de seu marido, dando mais importância ao seu sucesso profissional do que a cuidar de um homem adulto.

Deep Space 9

O principal impacto de Deep Space 9 veio com o protagonista negro, Comandante Benjamin Sisko. Em termos da quantidade de personagens femininas recorrentes, a série foi inferior à anterior. Porém, as poucas que fizeram presença foram tão significativa que não se pode dizer que Deep Space 9 tenha sido negativa com relação a esse aspecto. Duas fortes mulheres alienígenas fizeram parte da equipe principal, e algumas personagens menos recorrentes também mostraram uma representatividade feminina importante.

Kira Nerys (Nana Visitor)

A bajoriana mais célebre de toda a franquia tem uma personalidade forte e irascível, construída por anos de liderança na guerrilha de resistência contra o domínio dos cardassianos em seu planeta. Major Kira assumiu o posto de segunda em comando na estação espacial Deep Space 9, administrada pelo Comandante Sisko, da Frota Estelar.

Kira às vezes pode ser instável, pois sua experiência com os cardassianos, com quem é obrigada a conviver, a tornaram desconfiada. Mas ela é uma líder forte e uma mulher confiante. Isso a coloca numa posição importante no rol das figuras femininas de Star Trek.

Sendo uma mulher não-humana, podemos nos questionar se Kira realmente representa as mulheres na franquia. Mas é bem claro que as raças alienígenas desse universo são em geral alegorias da diversidade étnico-cultural humana. Kira pode ser encarada como um tipo de feminilidade possível (e real). A sociedade bajoriana se caracteriza pela igualdade dos gêneros, e não vemos predileção de um gênero ou outro nos papéis sociais da cultura de Bajor. Isso torna Kira uma representante de um mundo idealizado onde o sexo/gênero já não representa um problema.

Em sua versão alternativa no Universo Espelho, Kira é uma dominatrix que comanda a estação Terok Nor (denominação cardassiana da Deep Space 9). Sexualmente poderosa, ela subjuga homens e mulheres que estão sob seu controle. Infelizmente, essa imagem acaba trazendo algum aspecto negativo na representação da mulher bissexual, pois é a primeira vez na franquia que se vê uma personagem claramente não-heterossexual, e é justamente uma vilã. Felizmente, Ezri Tigan viria a corrigir isso, como veremos mais abaixo.

Jadzia Dax (Terry Farrell)

Uma força presencial notável está entre as principais características da trill simbionte Jadzia Dax. Oficial de ciências da estação, ela se caracteriza por carregar no ventre uma espécie de ser inteligente que detém as memórias de outros tantos hospedeiros que o carregaram no passado. Dax é um ser sem gênero que se manifesta como ser sexuado através de seus hospedeiros. Uma vez que Jadzia é uma mulher (da espécie trill), a personagem de maneira geral é uma figura feminina.

No entanto, a relação que Dax mantinha com o Comandante Sisko no passado, sob o semblante de um hospedeiro homem (Curzon Dax) mantém um caráter de camaradagem heterossexual mesmo na atual personalidade feminina do simbionte. Sisko continua chamando-a de “meu velho” ad infinitum. Isso configura uma situação interessante por dois motivos.

Primeiro, Jadzia aparece como uma pessoa de identidade feminina mas de personalidade andrógina. Segundo, a relação com seu amigo humano é diferente da maioria das amizades entre pessoas de gênero diferente, pois eles compartilham conversas, assuntos e formas de comunicação mútua que tradicionalmente se dão em contexto de amizade entre homens heterossexuais e homoafetividade sublimada.

Em seu relacionamento com o klingon Worf, a “Magnífica Jadzia”, como a chama seu amado, encena um casamento em que ambos os parceiros compartilham a mesma importância, ela buscando sempre demonstrar que é uma mulher extremamente forte que não se deixa dominar por um homem poderoso como Worf. Infelizmente, Jadzia é assassinada pouco tempo depois do casamento, num episódio dramático e inesperado.

Ezri Dax (Nicole de Boer)

A sucessora de Jadzia como hospedeira do simbionte Dax, Ezri trouxe as memórias da antecessora mas se manifestava de forma bastante diferente, com uma personalidade muito própria. Ela não teve grande destaque na série e tenho a impressão de que foi um acréscimo desnecessário em termos narrativo-dramáticos. Mas alegoricamente ela encenou alguns temas interessantes, como o da filha (Ezri) que precisa desconstruir a herança da mãe (Jadzia) para construir sua própria identidade.

Outro tema que pode ser lido por trás de uma alegoria é o da mulher que, por mudanças advindas das vicissitudes da vida, deixa o homem que amava. Jadzia Dax mal havia se casado com Worf quando foi assassinada, e Ezri Dax representa a mesma mulher depois de uma trágica transformação em sua vida, que a leva a deixar seu “marido”. Worf, sempre trazendo à tona o machismo tradicional, fica muito confuso com relação a seus sentimentos por Ezri, mas esta tem mais certeza sobre o que não quer, e posteriormente sobre o que quer, envolvendo-se com outro homem, o médico-chefe da estação, Dr. Bashir.

Mas é talvez em sua versão alternativa do Universo Espelho (Ezri Tigan) que ela represente a maior (mesmo que um tanto tímida) ruptura nas questões de gênero e sexualidade. Fica muito claro, através de diversas alusões, que a pequena trill, desejada por vários homens de várias espécies (incluindo homens ferengi), é lésbica e provavelmente terá algum relacionamento com Leeta, uma bajoriana com a qual compartilha um flerte ao final do episódio. Como é uma heroína nessa história, ela corrige a falsa impressão que pode ter causado a Kira alternativa de que a sexualidade não-normativa possa estar relacionada a mau caráter.

Voyager

Star Trek: Voyager é certamente a melhor das séries da franquia quanto à representatividade feminina. As mulheres da nave comandada pela Capitã Janeway não tem apenas uma presença forte, mas são diversas entre si, ambrangendo um amplo leque de feminilidades.

Kathryn Janeway (Kate Mulgrew)

Quando se fala em presença feminina em Star Trek, a capitã Kathryn Janeway é certamente o ícone mais significativo. Janeway é a alma de Voyager, e dessa forma a série reveste de uma grande importância o papel das mulheres e a representação feminina na franquia.

Capitã Janeway é, na minha opinião, a personagem feminina mais complexa de Star Trek. Ela consegue ter muitas facetas, que se revelam ao longo da série, algumas das quais antagônicas entre si (o que é normal para qualquer indivíduo tridimensional), mas sem deixar de ser coerente consigo mesma e com o conceito por trás de sua personalidade.

Ela possui um forte senso de ética ligado à sua dedicação às diretrizes da Frota Estelar, mas tem uma relação especialmente ambígua com a Primeira Diretriz, ou seja, a regra da não-interferência. Muitas vezes ela se vê na situação conflituosa de ter que decidir entre seguir à risca o protocolo de seu papel oficial e agir de acordo com uma compaixão baseada em princípios mais profundos do que os racionais procedimentos previstos para seu cargo. Nesse sentido, sua personalidade ressoa muito o Capitão Picard, mas fora isso ela é bem diferente dele.

Janeway é uma mãe para sua tripulação, acolhedora, compreensiva e dedicada, ao mesmo tempo em que age com dureza quando críticas são necessárias, mesmo que se dirija aos tripulantes mais próximos dela e com quem tem mais afinidade. Porém, ela sempre colocará a conciliação como prioritária sobre o combate, o que a diferencia sobremaneira do estilo supermasculino do Capitão Kirk, sempre antecipando o conflito. No entanto, a capitã da Voyager é uma guerreira quando precisa ser.

O único elemento que poderia ter recebido mais atenção, a meu ver, foi a vida amorosa de Kathryn. Enquanto Kirk era um Don Juan e Picard se envolveu emocionalmente com um bom número de pessoas, Janeway parece ter caído no estereótipo da mãe assexuada, dedicada emocionalmente apenas aos filhos (seus subordinados). Durante toda a série, fora o marido que deixou no Quadrante Alfa e que se casou com outra mulher por pensar que Janeway não voltaria mais, ela só teve um caso com u alienígena que se revelou um traidor, um homem com quem só se envolveu por que havia perdido a memória e um personagem holográfico, sem contar o flerte velado por seu imediato, Comandante Chakotay. Ou seja, seus romances sempre foram cercados de ilusão e decepção. Se outros capitães tão ocupados quanto ela podem se dar ao luxo de explorar a própria libido, por que não Kathryn Janeway?

Mesmo assim ela não deixa de ser um ícone, por se mostrar tão multifacetada e liderando uma tripulação de mulheres e homens fortes, representando um grupo diverso quanto às suas feminilidades e masculinidades, até mesmo bordejando os limites das identidades de gênero padrão e se envolvendo em tramas que incluem alienígenas que podem ser vistos como alegorias do transgenerismo.

B’Elanna Torres (Roxann Dawson)

Um exemplo de mulher feroz, B’Elanna é meio-humana meio-klingon, e possui um pouco da personalidade selvagem típica dos klingons. Assumindo o trabalho de engenheira-chefe supereficiente (na tradição iniciada por Scotty e continuada por Geordi Laforge), B’Elanna não aceita ser questionada em suas decisões a respeito de sua jurisdição na nave, o que leva a constantes conflitos, acirrados pelo fato de, antes de se juntar à tripulação da Voyager, ter feito parte dos Maquis, um grupo rebelde anti-Federação, e antes disso ter sido uma indisciplinada oficial da Frota Estelar.

Dessa forma, a irritadiça Tenente Torres é uma mulher lutando por autonomia em seu espaço de trabalho. Ela sente essa autonomia ameaçada quando a ex-borg Sete de Nove se junta à equipe da nave e começa a se meter em assuntos relacionados ao funcionamento do veículo espacial. O apoio da capitã Janeway, assumindo para ela um papel materno, é um dos poucos motivadores para que a ex-maqui continue em seus esforços de ajudar Voyager a retornar ao Quadrante Alfa.

B’elanna também sofre os reveses de ser uma mestiça. Os klingons (espécie à qual pertencia sua mãe) nunca foram plenamente aceitos pela xenofóbica cultura humana, e ela mesma tem dificuldades de aceitar seu lado klingon. O fato de ser interpretada por uma atriz de ascendência latina (Roxann Dawson Caballero), tendo inclusive um sobrenome espanhol (Torres), reforça a ideia de que os conflitos relativos à mestiçagem são uma metáfora das dificuldades de os “latinos” se integrarem à cultura estadounidense, e mais ainda das mulheres de origem hispano-americana.

Kes (Jennifer Lien)

Pertencente à espécie ocampa, nativa do Quadrante Delta, Kes se une à trupe da Capitã Janeway no início da série e se mantém durante algumas temporadas. Nesse meio tempo, ela ajuda a tripulação com com valiosas habilidades telepáticas; como assistente do Doutor, demonstrando uma capacidade de aprendizado surpreendente e praticamente se tornando uma médica; e com o cultivo de vegetais destinados à cozinha (esta comandada por seu companheiro Neelix).

Kes tem um aspecto que a faz lembrar um certo arquétipo da elfa ou fada mágica, reforçado pelas orelhas e pela roupa, que lembra vestimentas antigas ou medievais. Ressoando as ninfas selvagens e as bruxas dotadas de poderes misteriosos, ela representa um certo poder feminino guardado sob uma aparente fragilidade. Kes é uma personagem propositalmente construída para se parecer com uma criança que na verdade é uma adulta amadurecida e capaz de amadurecer ainda mais.

O fato de os ocampa viverem em média 9 anos também a torna um ser exótico e a faz parecer uma das personagens mais alienígenas da franquia, pois suas diferenças em relação aos humanos extrapolam o mero exotismo cultural. Em determinado ponto de sua trajetória, seus poderes psíquicos se desenvolvem tanto que ela se torna praticamente um ser sobrenatural e abandona Voyager para buscar novos horizontes.

Em um episódio, Kes protagoniza uma história na qual tem vislumbres de seu futuro, casada com o timoneiro Tom Paris. Nesse futuro, ela se vê envelhecida, tendo em vista os poucos anos de vida de uma ocampa, e percebemos uma referência interessante à questão do relacionamento afetivo entre um homem jovem e uma mulher mais velha que ele. Neste ponto, Star Trek consegue abordar a valorização da mulher idosa enquanto pleno indivíduo e sujeito de desejo.

Sete de Nove (Jeri Ryan)

Annika costumava ser uma menina humana até ser assimilada pelos Borg, seres cibernéticos, parte máquina, parte orgânicos, cujos indivíduos são capturados de outras espécies e transformados em parte de uma coletividade com a mente compartilhada. Mesmo depois de ser libertada de sua condição de ciborgue, ela manteve a denominação que recebeu da rainha borg, Sete de Nove.

Sete se caracteriza como uma mulher muito inteligente e racional, uma mente que funciona como a de um vulcano (o que faz com que sinta afinidade com Tuvok), mas sem nenhuma experiência como ser social em uma sociedade individualista como a nossa. Falta-lhe totalmente a etiqueta mínima para o convívio com seres emotivos como os humanos. Sete de Nove pode ser entendida assim como uma mulher nerd, que depois de perder o contato com a coletividade borg se tornou bastante solitária.

Por outro lado, ela é também retratada como uma mulher muito bonita e sensual, interesse amoroso de alguns dos homens da Voyager. Esse aspecto resvalou para uma ênfase na busca por um romance, que acabou concretizando com o Comandante Chakotay. A série retrata assim a constituição de um casal como uma etapa necessária para sua humanização, e infelizmente faz isso se baseando numa ideia heteronormativa, tradicional e sexista de relacionamento afetivo.

Mas de maneira geral sua trajetória é a de reconstrução de sua identidade humana. Em seu aprendizado, ela aprende os ritos da conduta de seus cotripulantes. Em sua condição de borg, Sete pode ser lida como uma alegoria da mulher sem identidade própria, parte de um tipo de harém cibernético. Sua libertação é a descoberta de seus próprios anseios e do domínio de sua própria vida.

Enterprise

Como já discuti em outros lugares, Star Trek: Enterprise foi um retrocesso. Enquanto as séries anteriores melhoraram gradativamente a representação dos negros e, muito especialmente, a das mulheres, a série estreada em 2001 colocou em destaque muitos personagens brancos do sexo masculino e praticamente só deu destaque a uma mulher, a vulcana T’Pol, deixando a primeira mulher oriental a aparecer na ponte de comando das naves da Frota Estelar num papel muito secundário.

Hoshi Sato (Linda Park)

O conceito por trás dos personagens de Enterprise é muito bom. Mas alguns deles são muito mal explorados, como é o caso da oficial de comunicações, Alferes Sato. Ela é uma especialista em Xenolinguística, capaz de aprender um novo idioma em pouquíssimo tempo, e uma das responsáveis pelo desenvolvimento do tradutor universal, tão essencial para os oficiais da Frota Estelar em seu contato com espécies alienígenas.

Mas essa mulher japonesa é deixada de lado em quase toda a série, executando seu papel eficientemente mas muito pontualmente, sem que se aprofunde uma trama mais complexa sobre sua história, suas motivações e sua personalidade (contrastando com os episódios em que os homens brancos da ponte de comando aparecem como o centro da narrativa).

Somente sua versão no Universo Espelho tem maior relevância, e mesmo assim só para a realidade paralela. Lá Hoshi Sato é a protagonista de um complô que a leva a se tornar, com base em ameaça bélica, Imperatriz da Terra. Teria sido muito interessante que ela protagonizasse com mais destaque uma história no universo principal da série.

T’Pol (Jolene Blalock)

A oficial de ciências e segunda em comando da Enterprise comandada pelo Capitão Archer é uma mulher vulcana, e como tal extremamente racional, inteligente, ponderada e fria. Dentro de uma abordagem de gênero, T’Pol é bastante rica enquanto mote para discussões sobre feminilidade. Em primeiro lugar, assim como Kira Nerys em Deep Space 9, ela pode ser vista como um tipo de feminilidade alternativa, alienígena, possível. A sociedade vulcana parece não fazer uma diferenciação de temperamento e comportamento baseada no gênero de seus indivíduos. T’Pol é ao mesmo tempo representante de um tipo diferente de feminilidade e de uma cultura com uma noção diferente de identidades e papéis de gênero.

Além disso, ela encarna uma contradição dentro do cenário de Enterprise. Acima de tudo, ela representa a racionalidade necessária para administrar a emotividade do Capitão Archer, papel análogo ao de seu conterrâneo Spock para o Capitão Kirk. Sendo assim, ela difere do papel normalmente atribuído às mulheres, mais movidas pelo sentimento. Dessa forma, é interessante notar que a relação ente T’Pol e Archer é uma inversão da estrutura sexista na qual o homem encarna a razão e a mulher incorpora a emoção.

Por outro lado, a vulcana é fisicamente apresentada de maneira muito sexualizada, com roupas justas e reveladoras e sendo objeto de conversas entre tripulantes que a acham atraente. Ela destoa das outras mulheres humanas a bordo, que usam um macacão como uniforme, igual ao dos homens. Talvez a última sucessora de uma “tradição” que começou com Deanna Troi (ou até antes, com Janice Rand), passando por Sete de Nove, ela encarna o elemento afrodisíaco da feminilidade, conjugando em sua figura o culto ao corpo com o cultivo da mente.

Universo Desconstruído: Ficção Científica Feminista

Padrão

A Ficção Científica, como outros tantos gêneros da Literatura, do Cinema e das série de TV, está impregnada dos valores arraigados na cultura em que prolifera. E isso implica na reprodução de etnocentrismo, racismo, sexismo e heteronormatividade.

Pensando nisso, as escritoras Lady Sybylla e Aline Valek organizaram uma coletânea de contos que fogem desse padrão. Focando especialmente na desconstrução dos papéis de gênero tradicionais tão presentes na ficção científica (e também tocando em outros temas relacionados à diversidade humana), as autoras e autores que participaram da coletânea exploram os limites libertadores dessa literatura, que em essência pode extrapolar a realidade e imaginar um mundo melhor, um universo livre de discriminação e preconceito, ou que pode servir para explorar alegorias fantásticas da nossa realidade ainda androcêntrica e misógina.

O livro é distribuído gratuitamente através do site oficial (http://universodesconstruido.com/), em formatos EPUB (Kobo), MOBI (Kindle) e PDF,  e pode ser comprado em formato físico no Clube dos Autores.

A seguir, faço uma apreciação de cada um dos contos presentes na coletânea, tentando não revelar pontos importantes da trama (spoilers), ao mesmo tempo trazendo minha interpretação para quem já leu e procurando instigar a leitura para quem ainda vai ler.

“Codinome Electra”

O conto que abre a coletânea, escrito por Lady Sybylla, narra eventos de um futuro distante. Há uma guerra entre dois povos, os humanos e os magojins, e a sucessão de eventos da trama é desencadeada pela captura de um magojin por uma mulher chamada Electra. Quando surge enfim a oportunidade de os humanos, que habitam o planeta Klaten, entenderem quem são seus inimigos, o governo de Klaten decide acobertar qualquer informação que tivesse sido coletada e impedir a continuidade desse plano.

Major Electra é dispensada pela coronel Vieira, sua superiora, e decide descobrir a verdade sobre os magojins, mesmo que isso represente um risco para si mesma. As revelações que se seguem mostram que há uma relação entre humanos e magojins mais significativa do que se acreditava, e passamos a entender uma série de elementos do conto até então.

O trio de personagens que protagonizam o primeiro ato do conto é muito significativo para se entender o caráter subversivo de “Codinome Electra” e Universo Desconstruído. São três mulheres, uma guerreira (Electra), uma líder (Vieira) e uma médica (Alvarez). A princípio, a “insistência” da autora em apresentar de cara três mulheres em papel importante pode ser um incômodo para muitos leitores homens (e é bom que seja), e essa escolha tende a ser vista como típica de “histórias para mulheres”. Mas é uma escolha proposital e acertada, que nos informa do que realmente se trata o livro: uma quebra de paradigmas. Afinal, não é nada incomum encontrarmos dezenas e centenas de histórias de ficção científica cujo grupo de protagonistas é todo formado por homens.

Vide o emblemático triunvirato de Star Trek, Kirk, Spock e McCoy, três homens (que, na minha leitura, parecem ter inspirado as três mulheres do conto). Mesmo a grande capitã Kathryn Janeway, de Star Trek: Voyager, possui um imediato homem, e é muito difícil encontrar space operas que tenham apenas mulheres como protagonistas (embora seja fácil encontrar grupos exclusivamente masculinos ou nos quais as mulheres, quando presentes, ocupam papel secundário).

Ao longo do conto, vamos nos deparando com mulheres em posições de poder, negros e brancos convivendo em igualdade, bissexuais vivendo sua sexualidade em paz e transexuais plenamente aceitos como iguais em suas identidades, e nos perguntamos como essa sociedade futurista conseguiu se transformar em tudo o que as histórias de ficção científica negaram fazer. “Codinome Electra” é um ponto alto e importante da literatura brasileira de ficção científica.

“Quem sabe um dia, no futuro”

Neste instigante monólogo, da autoria de Alex Luna, somos apresentados a um futuro em que a humanidade resolveu diversos problemas sociais com o uso de robôs, que passaram a realizar todas as atividades braçais. Tornaram-se, enfim, escravos (que é, a propósito, o sentido próprio da palavra robô).

Nas reflexões que a protagonista faz, compreendemos o que sente o ser oprimido diante da impossibilidade de se rebelar. Embora na sociedade pseudoutópica que é o cenário do conto não haja mais desigualdade de gêneros, na nova ordem as angústias das mulheres se repete nas mentes do novo contingente dominado.

A forma como se desencadeia o monólogo vai revelando aos poucos do que se trata essa realidade, fictícia quanto aos fatos, realista quanto à mensagem: não importa quanto tentemos mudar as sociedades humanas, só haverá uma verdadeira revolução quando a estrutura de dominação for desconstruída, quando as mudanças deixarem de ser apenas a dos atores que ocupam os papéis pré-estabelecidos. Estes é que devem ser reconstruídos.

Apreender esta mensagem é importante para se compreender a proposta feminista da coletânea. Não se trata da caricatura propagada pelo discurso tradicionalista, a das feministas que querem inverter os papéis da dominação sexista. Trata-se, isso sim, de construir uma estrutura social em que não haja desigualdade baseada no sexo/gênero dos indivíduos (tampouco sua etnia, “raça” ou orientação sexual).

“Uma terra de reis”

Confesso que tive que ler duas vezes o conto de Dana Martins para entender a trama. É como se tivesse sido escrito num jargão futurista, com abreviações de palavras (especialmente dos nomes próprios, alguns dos quais remetem à mitologia hindu) e de frases, e exigiu de mim muita atenção para compreender o que não estava dito explicitamente. O ritmo frenético de história de ação também demandou paciência, pois não estou acostumado com esse tipo de literatura. Mas depois da segunda leitura entendi melhor a proposta e achei bastante interessante.

Num mundo controlado por grandes corporações, uma epidemia fora de controle se torna fonte de enriquecimento para uma indústria, que comercializa a cura apenas para quem pode pagar por seu caro preço. Um grupo de rebeldes está tentando roubar o remédio para distribuí-lo entre a população excluída. Ou seja, a história é de forma geral uma crítica sócio-econômica.

Sua inserção na coletânea de contos feministas se justifica, em primeiro lugar, pelo fato de Maya, a protagonista e narradora, ser feminina. Além disso, ela não é humana, mas um ser artificial, parecido com os replicantes de Blade Runner. Sua condição de coisa, num mundo que relega os UROs ao papel de escravos, é motivo de constantes queixas por parte dela. Seus sentimentos são, metaforicamente (às vezes literalmente), um reflexo da opressão sofrida pelas mulheres num mundo androcêntrico.

Embora Maya participe ativamente do planejamento e execução das operações de espionagem e guerrilha, ao lado de seu companheiro humano Dev, ela é encarada por muitos como uma ferramenta e um objeto de disputa por parte das diversas forças que se opõem na história. Sua perspectiva reflete a angústia das mulheres reais, que aprendem, da cultura em que estão inseridas, a cultivar anseios e desejos, mas são tratadas como coisas sem autonomia.

Eu me concentro em respirar enquanto eles continuam a falar de mim. As palavras vindo de longe. Os dois continuam combinando o meu futuro.

Vale também mencionar o destaque para a ambivalência do personagem masculino que acompanha Maya. Dev é apresentado como uma espécie de super-herói, muito autoconfiante, destemido, ágil e forte. Mas essa aparente imagem de modelo masculino ideal é contrastada com momentos de dúvida, insegurança e ansiedade, quebrando o estereótipo do machão inquebrável das histórias de ação, mostrando um ser humano com virtudes e fraquezas.

“Meu nome é Karina”

Nesta história de Ben Hazrael, um empreendimento científico que envolve a comunicação com uma realidade alternativa coopta a personagem-título para ser uma “sonda” na outra realidade, assumindo a identidade de sua contraparte para iniciar o processo de transferência das consciências de todo o mundo para seus alter-egos naquela realidade, onde a história seguiu um caminho um pouco diferente da nossa. Porém, a motivação de Karina para ir à outra realidade não coincide com os planos dos cientistas envolvidos no “Projeto Sonda”. Ela anseia por viver uma vida em que é aceita como é, especialmente por seu pai.

Presa desde o nascimento num corpo que não reconhece como seu, Karina não aceita a identidade imposta pela sociedade e por seu pai, com quem sempre teve um profundo conflito. Nesta fábula, a figura paterna aparece como um símbolo que condensa o patriarcado, a ordem androcêntrica controlada pelos homens, o sexismo da rígida divisão sexual do trabalho, a heteronormatividade que mata os “desvios” e a cisnormatividade que castra a autenticidade individual. O pai é ainda um cientista, representando o fato de que o pensamento científico, pensado como libertador, não implica necessariamente em melhor aceitação das diferenças.

Somos capazes, hoje em dia, de enviar astronautas para Marte para construir colônias, mas somos incapazes de apagar preconceitos.

A frase acima é muito significativa pelo fato de não ser apenas uma constatação da personagem-narradora a respeito de seu universo, nem somente uma mensagem do autor sobre o que vivemos na nossa própria realidade. A sentença condensa toda a ideia de Universo Desconstruído, de que por mais imaginativa que seja a ficção científica, em geral ela ainda se mantém presa a valores tradicionais com que só a um grande custo consegue romper.

E esse conto rompe com a tradição, explorando o drama psicológico de uma transexual, uma viagem intimista por seus pesadelos, suas fantasias, os questionamentos sobre seu nascimento num “corpo errado” e seu ingresso resoluto num arriscado projeto científico pelo qual ela tem a possibilidade de ser quem é. Karina, na verdade, coloca a perder o referido “Projeto Sonda” ao dormir – nos braços do pai – na outra realidade, contrariando as recomendações da Dra. Mariza. Assim, ressoando O Homem-Elefante e A.I.: Inteligência Artificial, a protagonista morre se sentindo plena, em paz, tendo finalmente conquistado sua identidade e a aceitação, tão negadas em nossa cultura cisnormativa.

“Eu, incubadora”

Aline Valek nos traz uma história de tribunal e suspense em que duas personagens femininas se encontram no papel de rés. Num cenário pós-apocalíptico e distópico, após sobreviver a um imenso desastre que dizimou grande parte da população,  a humanidade instituiu que os embriões e fetos humanos são pessoas com direitos iguais aos de indivíduos adultos. Isso implica na completa criminalização do aborto, considerado equivalente ao assassinato.

Esse futuro socialmente catastrófico é uma extrapolação prognóstica da atual influência do perigoso discurso “pró-vida” e antiaborto, fomentado por igrejas cristãs e bancadas políticas evangélicas hodiernas. Esse discurso, profundamente atrelado à ideologia da submissão das mulheres e da domesticação de seus corpos, se torna, na ficção de Valek, uma realidade extremamente opressora para as pessoas do sexo feminino e especialmente para todas as mulheres grávidas.

Nessa sociedade, uma rígida hierarquia entre androides (ou Coisas) e seres humanos coloca estes como deuses aos olhos daqueles. As Coisas estão no grau mais baixo da hierarquia social, e veneram a capacidade de gerar vida dos seus deuses. Porém, a vida embrionária é considerada a tal ponto sagrada nessa sociedade que chega a ser mais importante do que a vida da mulher que a carrega no ventre.

Essa realidade constitui um paradoxo existente em nossa própria sociedade patriarcal e misógina: as mulheres se sentem privilegiadas quando estão grávidas e se dedicam à maternidade como a uma carreira que, em princípio, deveria significar a máxima realização individual. As mulheres são supervalorizadas e são bem tratadas nessa condição. Porém, não podem escolher quando engravidar, não se lhes permite abdicar de ser mães e elas têm que assumir todo o trabalho de cuidar dos filhos. Em suma, as mulheres são valorizadas enquanto forem submissas ao restringidor papel imposto a elas socialmente.

Neste cenário, Diana decide abdicar de ser mãe, transferindo seu filho não nascido para o ventre de uma Coisa. A partir daí, uma série de questionamentos é suscitada num grande julgamento, trazendo uma crise para as concepções sobre vida, aborto, liberdade individual e hierarquia social e de gênero – o conto é praticamente todo ele uma reflexão filosófica, aberta e irônica sobre estes temas. Os líderes que impõem e executam as leis dessa sociedade são todos homens, evidenciando a manutenção do controle masculino e a pouca empatia da autoridade sobre a condição feminina em situação de maternidade e de aborto. O título se refere diretamente à condição da Coisa grávida, mas também é uma metáfora para a condição de Diana e todas as mulheres reais que sofrem a violência simbólica desumanizadora de se ver como instrumentos para a procriação, meras incubadoras sem domínio de seus próprios corpos.

(De quebra, a história ainda nos apresenta uma abordagem crítica a respeito das crenças religiosas. Diferente de muitos ateus que consideram que as crenças são mero capricho sem motivação aparente, Valek cria uma fábula em que percebemos que uma religião não surge à toa e tem todo motivo para existir, mesmo que as crenças que a fundamentam sejam arbitrárias, ilusórias e possam servir à dominação de certos grupos por outros.)

“Um jogo difícil”

Leandro Leite nos apresenta Maria, ou 002-b, mais conhecida como Zero Dois, uma mulher estivadora, forte, em posição de chefia em seu setor. Ela chama atenção por ser uma heroína “feia”, diferente de grande parte das supermoças das histórias de ação, mais parecidas com romantizadas supermodelos do que com as mulheres da realidade, tão diversas em suas formas físicas.

Eticamente correta com os indigentes que buscam abrigo nos contêineres de seu setor, ela sofre o preconceito de seus colegas por não seguir o procedimento padrão, que é encaminhar esses invasores à execução. Ela é desprezada por ser “coração mole”, acusação que esconde e revela a misoginia no desprezo à empatia e à compaixão, consideradas uma “fraqueza” feminina. Essa misoginia acaba por demovê-la do cargo de chefia.

Porém, Maria descobrirá que foi demovida do cargo por muito mais do que sua “fraqueza” moral. Num mundo controlado por megacorporações, onde cada cidade é praticamente um conglomerado de empresas, intrigas, conspirações e guerras levam a desaparecimentos e mortes misteriosas. Maria se encontra na condição de bode expiatório e precisa fugir para não ser punida (com a morte) por suposto terrorismo.

Neste futuro distópico, a dominação pelo capital criou uma sociedade controlada por empresas interessadas apenas em enriquecer. A educação se esfacelou em favor de uma cultura consumista. A falta de uma estrutura educacional consistente leva à ignorância sobre conhecimentos científicos e filosóficos. Nesse contexto, todo o avanço que havia sido alcançado pelo pensamento e lutas feministas (e provavelmente de outras correntes libertárias) se perde quase totalmente. A narrativa é, portanto, um pretexto para o autor argumentar a favor da educação como meio de se cultivar mudanças sociais significativas.

Nesta sociedade que regrediu a um machismo violento, uma das únicas formas de Maria se defender do assédio dos homens é pelo uso da força bruta. Mas a violência contra as mulheres é aí bem mais séria do que a violência simbólica e física cotidianas. As mulheres são sistematicamente manejadas como coisas. A mensagem presente nos pensamento e falas de Maria reflete todo o sentido da mobilização da causa feminista, a união organizada daquelas que são as maiores vítimas do machismo.

“Memória sintética”

O conto de Camila Mateus traz as figuras de Marla, Gilvana e Kaira numa São Paulo futurista em que é comum, para os moribundos que têm dinheiro para pagar o serviço, transferir a própria mente para robôs e continuar “vivendo” depois que o corpo biológico deixa de funcionar. Esse conto, à primeira vista, não é sobre temas feministas. As protagonistas são mulheres, mas além disso é uma história policial. Porém, as diversas situações trazem à tona o tema da misoginia e revelam a que veio a autora.

Neste cenário, dois tipos de pessoa sofrem discriminação: transfers (os robôs) e as milenarmente menosprezadas mulheres. Gilvana, funcionária da empresa Skymed, contratada para jogar cadáveres num incinerador, mulher gorda, sabe bem o que é ser alvo de deboches machistas de seus colegas homens.

E não há nada mais cansativo do que essa eterna insatisfação, essa necessidade de agradar aos outros e a si mesma. Escolher entre costurar o ombro de um baleado ou usar o tempo fazendo academia. Ir a pé para o trabalho com o único tênis decente do armário, pra economizar e ajudar os pais ou gastar tudo numa cirurgia a laser para retirar as varizes e secar a barriga.

Também sabe o que sofre uma mulher pobre com poucas chances de realizar seus anseios pessoais, por ser mulher e por ser pobre.

[…] Gilvana Mara já foi mais ambiciosa, queria ser astronauta. Subir lá pros planetas pra procurar algum alien pacífico que queira trocar ideias e não aniquilar a humanidade.

Marla, por outro lado, era engenheira chefe de produção robótica da Skymed. morreu em circunstâncias misteriosas e seu transfer, ainda em processo de recomposição das memórias de sua dona, fugiu adotando o nome Kaira. Sob o ponto de vista de um transfer, Kaira vai passar por situações de preconceito e exclusão que remontam às discriminações sofridas pelas minorias humanas, tendo inclusive sua natureza senciente questionada, ou seja, sendo desumanizada. Esse é um tema crucial no conto, o questionamento sobre a natureza da consciência, a pergunta sobre se um clone com as mesmíssimas memórias que o indivíduo original pode ser considerado uma cópia de sua individualidade.

O conto nos descree um cenário em processo de mudança, tendo em vista que aos poucos os transfers vão mudando seu comportamento, exigindo autonomia e independência em relação aos donos de quem são clones. Essa gradual mudança pode ser entendida como uma metáfora do empoderamento das mulheres, que se esforçam para terem sua individualidade reconhecida e desatrelada da autoridade de um homem que a possua.

“Réquiem para a humanidade”

Este é meu conto preferido de toda a coletânea. Thabata Borine nos apresenta um pequeno drama épico, com referências (propositais ou não) a Star Trek (lembrei do episódio O Demônio na Escuridão), ao jogo The Dig, ao filme Independence Day e ao universo de O Guia do Mochileiro das Galáxias. Tudo se encaixa bem na complexa trama, e a miríade de referências não torna cansativa nem confusa a narrativa.

O conto é narrado em primeira pessoa por um personagem misterioso. Não sabemos detalhes sobre sua identidade e ficamos apenas imaginando qual é a cara dessa pessoa, até que uma sutil reviravolta na trama nos faz perceber a razão de vários dos acontecimentos que se passaram ao longo da história. Essa revelação na verdade fica relativamente fácil de adivinhar pelo fato de o conto ser um dos últimos do livro. Penso que a experiência mind-blowing desse conto seria mais eficaz se ele fosse o primeiro ou um dos primeiros da coletânea, pois a leitura dos contos anteriores já prepara o leitor antecipadamente.

Numa missão a outro planeta, descobrem-se evidências de uma forma de vida inteligente extraterrestre. Com muitas dificuldades, a pessoa responsável por essa pesquisa consegue recursos do governo para prolongar a investigação a outros planetas, onde provavelmente há mais evidências arqueológicas que levarão à descoberta da identidade e da história desse povo misterioso que não deixou mais do que alguns vestígios de sua existência. O motivo do desaparecimento dessa espécie, apelidada de glieseanos, leva a crer que, se a humanidade não mudar certas coisas em sua conduta ética e sua estrutura social, especialmente no que tange à discriminação das minorias sociais, ela terá o mesmo fim.

A mensagem secreta dos glieseanos há muito desaparecidos e do conto de Borine é que, se permanecer a estrutura de dominação baseada em diferenças de gênero, identidade racial, classe econômica e sexualidade, acabaremos por minar nossos esforços evolutivos enquanto espécie em busca de um futuro melhor.

“Cidadela”

Duas personagens femininas protagonizam esse conto escrito por Lyra Libero. Irina trabalha numa cozinha industrial do governo, é pobre e vive numa das cidades satélites ligadas à Cidadela. Luísa é uma rebelde que trabalha fora da lei, uma espécie de espiã e gatuna. Ambas vivem num mundo distópico controlado por uma junção de Estado e Igreja, uma teocracia que se fundou a partir da reconstrução de uma sociedade destruída por uma praga. Nessa reconstrução, o papel das mulheres foi relegado ao de receptáculos de fetos, e elas perderam totalmente o poder sobre seus corpos, sendo a gravidez uma decisão dos homens e todos os filhos são criados pelo Estado para servir à Coletividade, que mais parece uma colmeia de abelhas do que uma sociedade humana.

Neste cenário pós-apocalíptico, constituiu-se um forte patriarcalismo, em que praticamente todos os líderes são homens e no qual as mulheres desempenham papéis subalternos. É notório, por exemplo, que na cozinha onde Irina trabalha só haja funcionárias mulheres. Vem à tona uma crítica à forma como se têm feito as revoluções ao longo da história humana, sempre se desviando de seus ideais originais e mantendo alguma forma de opressão. Neste caso, a opressão às mulheres.

Outra consequência nefasta desse neopatriarcalismo é constituição de uma literal cultura do estupro, em que qualquer violência masculina contra mulheres é friamente tolerada e qualquer gravidez advinda dessa violência é protegida pelo Estado, sendo o aborto proibido. Há uma séria crítica ao modelo democrático vigente na atualidade, quado a autora enfatiza que na Cidadela qualquer tipo de privilégio é proibido por Lei, mas isso não impede que aqueles que já detêm os privilégios os mantenham sem receber quaisquer punições.

A história lembra muito o conto de Valek, “Eu, Incubadora”, dessa mesma coletânea. Mas aqui vemos fortes elementos orwellianos, especialmente em duas figuras vigilantes, dois big brothers, o Ministro e o Pastor (a descrição deste é uma referência ao infame Marco Feliciano). Há uma forte crítica à atual ameaça contra a laicidade do Estado. Neste cenário hipotético, ressurgem inclusive práticas inquisitoriais, tendo como principais vítimas as mulheres, ressoando a medieval caça às bruxas. Tendo em seu cerno o tema do estupro, da gravidez não consentida e do aborto, Libero traz ao leitor uma reflexão sobre os sentimentos de uma vítima:

Como poder amar um fruto de violência, uma lembrança brutal de violação, patrocinada por um governo que dizia que mulheres eram inferiores e incapazes de decidir sobre seus corpos? Quem poderia culpar aquela pobre moça do Satélite 5 por não querer o fruto do seu ventre?

“Projeto Áquila”

Temos aqui um relato de Isabel Andrade, uma mulher duplamente aprisionada. A autora, Gabriela Ventura, fazendo uma referência ao saudoso filme O Feitiço de Áquila (Ladyhawk), conta a história de um casal que, por circunstâncias trágicas, passa a não conseguir se encontrar, pois uma só está desperta quando o outro está dormindo.

Isabel decidiu ser cientista ainda quando era criança, e acabou por se formar em Neurociências e se tornar uma grande referência na área. Em seu trabalho, contratou o colega Ricardo Oeiras, com quem formou uma parceria profissional e posteriormente conjugal. Os dois juntos se empenharam na pesquisa de Isabel, que visava encontrar uma forma de reverter a perda de memória dos pacientes do Mal de Alzheimer, sofrido pela falecida mãe da cientista. Porém, discordâncias entre Isabel e Ricardo, além de um acidente, colocam-na numa prisão, para que ela o ajude em outra pesquisa chamada Projeto Áquila.

Isabel consegue denunciar os atos de Ricardo, mas ela não se resume apenas a delatar seu crime e assegurar sua punição. É importante para ela fazer ouvir sua voz, se visibilizar enquanto indivíduo. Neste sentido, podemos entender sua necessidade como uma metáfora da urgência de as mulheres serem reconhecidas enquanto dotadas de individualidade e independência, e não meras sombras invisibilizadas pelos homens.

Além disso, a situação de Isabel ecoa metafórica e indiretamente dois outros temas importantes dentro das questões de gênero: o reconhecimento da feminilidade (ou seja, dos traços que nossa cultura identifica como femininos mas que podem estar presentes em qualquer indivíduo de qualquer sexo e/ou gênero) nos homens por eles mesmos; e a transexualidade, com o drama daqueles que se sentem descolados, num corpo errado e numa identidade de gênero inadequada.

Fundamentalmente, Ricardo é a figura do homem manipulador que coloca seus próprios interesses acima daqueles de sua companheira, seguindo a lógica androcêntrica tradicional pela qual o casal heterossexual se foca na realização dos planos do marido enquanto a esposa é uma reles coadjuvante. Neste contexto, predomina o sentimento de possessividade do homem sobre a mulher, disfarçado de romantismo, e o cativeiro doméstico da esposa, tido como obrigação conjugal. A mulher que desobedece essas obrigações é demonizada pela misoginia. Assim, os esforços de Isabel para inviabilizar o Projeto Áquila representam os esforços para se acabar com os instrumentos que servem à dominação das mulheres pelo machismo, objetivando o empoderamento e a autonomia feminina.

Aonde nenhuma mulher jamais esteve

Apesar de toda a admiração que pude aqui manifestar, penso ser oportuno mencionar uma pequena crítica de caráter puramente técnico. A versão para Kindle, que foi a que li, poderia ter sido melhor diagramada. Há uma linha em branco entre cada parágrafo, o que me incomodou um pouco, tendo em vista que os parágrafos já estão marcados pelo recuo na primeira linha. Teria ficado mais elegante e agradável em termos de design a exclusão dessas linhas em branco. Ademais, com a exceção de três ou quatro dos dez contos, em geral faltou uma ostensiva revisão do texto. Acho que a obra se valorizaria bastante se se atentasse para esses dois detalhes, embora não sejam nenhum impedimento para a leitora e o leitor apreciarem a coletânea. Fica a sugestão para uma possível reedição e para os próximos volumes da série.

Mas, em suma, a coletânea representa um novo fôlego para os esforços de se constituir uma ficção científica socialmente mais crítica, trazendo uma perspectiva feminista e libertária ao evidenciar protagonistas mulheres, bastante diversas entre si e bem diferentes dos usuais padrões homogeneizantes que as confinam a papéis decorativos ou que apenas servem de objeto motivador para heróis masculinos heterossexuais. É também uma tentativa de apresentar histórias mais inteligente e menos blockbuster do que a média. Representa ainda o fortalecimento e a valorização da soft sci-fi brasileira, que fomenta muita reflexão sobre nosso universo presente, desconstruindo-o para reconstruir o futuro.

Os negros em Star Trek

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Já é quase um clichê dizer que Jornada nas Estrelas (Star Trek) foi uma franquia revolucionária em vários aspectos. Muita gente sempre se lembra de dizer que a tripulação da nave estelar Enterprise era multiétnica, tendo entre seus principais membros uma africana, um nipo-americano, um russo, um escocês e até um alienígena.

Mas é sempre notória a participação maior de personagens caucasianos nas posições de protagonismo das histórias. Apresentada inicialmente, nos idos dos anos 1960, como uma proposta libertária, era de se esperar que a franquia se desenvolvesse com cada vez mais abertismo em relação a identidades de gênero, de sexualidade e de raça-etnia. Como se deu então, na trajetória das diversas séries de Star Trek, o destaque dos personagens pertencentes à identidade racial mais menosprezada no Ocidente, ou seja, os negros?

Uhura (Nichelle Nichols)

A icônica tenente Uhura, oficial de comunicações da mais clássica das Enterprises, cujo prenome nunca foi conhecido na série clássica e só seria revelado no filme de 2009, foi uma novidade e tanto na televisão norte-americana no ano 1966, quando era extremamente difícil colocar uma atriz/personagem do sexo feminino e/ou negra entre os papéis principais de uma série de TV.

O episódio piloto da série (The Cage) foi recusado pela emissora, entre outras coisas, justamente por ter uma mulher em posição de destaque na trama. Mas Gene Roddenberry conseguiu uma façanha: apresentou uma nova proposta em que uma mulher, Nichelle Nichols, faria parte do elenco principal, se bem que numa posição não tão importante quanto a de um capitão ou de um imediato, mas mesmo assim na ponte de comando. E mais, era uma mulher negra.

O fato de ser uma mulher negra num papel importante (e com um rank de tenente) foi tão impactante que influenciou uma geração de jovens afro-americanos de ambos os sexos. Whoopi Goldberg conta que, quando criança, viu Uhura na televisão e correu para contar para a família:

I just saw a black woman on television; and she ain’t no maid!

[Acabei de ver uma mulher negra na televisão e ela não é uma empregada!]

Uhura encenou com o Capitão Kirk (William Shatner) aquele que foi considerado o primeiro beijo “inter-racial” da televisão norte-americana. Mesmo sendo uma cena em que os personagens foram forçados telepaticamente ao ato, os produtores e o diretor relutaram muito em concretizá-la, e a repercussão posterior foi grande.

O papel de Nichelle Nichols foi tão importante para o público afro-americano que ninguém menos do que Martin Luther King pediu pessoalmente a ela que não saísse do show, pois ela era um exemplo para os jovens negros em plena era de luta por direitos civis. Porém, a equiparação do destaque de personagens negros com brancos (e também de mulheres com homens) ainda estava em estágio embrionário, pois Uhura ainda era mais um elemento exótico da tripulação do que uma figura de peso.

Geordi Laforge (LeVar Burton)

Enquanto Uhura foi concebida como uma especialista em comunicações e xenoliguística, Geordi Laforge, interpretado por LeVar Burton, era um engenheiro altamente capacitado, que possuía o título de tenente e ocupava o cargo de engenheiro-chefe da Enterprise-D, comandada pelo Capitão Jean-Luc Picard.

Essa caracterização de Laforge manteve a tradição de se colocar um personagem negro que não se limita aos estereótipos racistas que menosprezam suas capacidades mentais. Geordi era um prodígio da engenharia que salvava a Enterprise de colapsar em momentos críticos, mais ou menos como o fazia Scotty na série dos anos 60, mas bem menos falastrão do que o carismático escocês.

É interessante observar que a “raça” dos personagens em Star Trek, especialmente a partir da Nova Geração, não era mais motivo de qualquer menção ou relevância no contexto fictício utópico da série. Laforge nunca teve a cor de sua pele ou a textura de seu cabelo trazidos à tona como justificativa para qualquer tipo de conflito, por menor que fosse, caracterizado o contexto do universo ficcional como um ideal antirracista. Os conflitos raciais, em Star Trek, aparecem metaforicamente em situações de relação entre espécies de planetas diferentes.

Assim como Uhura, Geordi Laforge também encenou flertes inter-raciais, com a colega tripulante Christy Henshaw e com a cientista Leah Brahms. São tão poucas as vezes em que o vemos demonstrar esforços para flertar ou namorar que Geordi também acaba escapando do estereótipo que vê os negros como propensos ao galanteio, e ele se aproxima mais do estereótipo do nerd do que do afro-americano folgazão.

Worf (Michael Dorn)

O klingon mais querido de toda a franquia não é exatamente uma pessoa negra no sentido humano do termo, já que ele é alienígena, mas é interpretado por um ator negro, Michael Dorn, que incorporou Worf, um dos mais instigantes exemplos de hibridismo cultural interespécies em Star Trek.

Entre os klingons não há divisões do tipo “racial”, pelo menos não do tipo que humanos ocidentais fazem entre si, já que eles aparentam ter a mesma cor de pele (tanto atores negros quanto brancos já interpretaram klingons, e eles sempre usam uma maquiagem que colore a pele de um tom bronzeado.

Apesar de não ter trazido grandes contribuições para a discussão de relações raciais humanas para o universo da série, a presença de um excelente ator negro na franquia foi enriquecedora, e Michael Dorn conseguiu trazer à tona uma profunda complexidade nas relações interculturais entre humanos e klingons, encarnada no próprio Worf, com seus conflitos internos entre sua cultura natal e a de seus pais adotivos humanos, e entre os valores da Federação (e da Frota Estelar da qual é oficial) e os da sociedade klingon.

Guinan (Whoopi Goldberg)

Guinan apareceu a partir da segunda temporada de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. Interpretada por Whoopi Goldberg, grande fã da franquia e admiradora de Uhura/Nichelle Nichols (como visto acima), a personagem administra o 10-Foward, um bar/restaurante na Enterprise-D.

Uma das figuras mais misteriosas de Star Trek, ninguém sabe exatamente sua origem, mas sabe-se que ela tem pelo menos séculos de idade. Guinan é caracterizada como muito sábia e é capaz de surpreender os tripulantes da Enterprise com habilidades que ninguém imagina que uma estalajadeira possua. Possui alguns poderes cuja natureza não é bem compreendida pelos mortais que a conhecem, e estes tampouco imaginam a verdadeira extensão desses poderes.

Embora tenha caído num papel até certo ponto típico para personagens negros e tenha um forte exotismo normalmente associado à identidade negra, ela não deixa de ser extremamente humana em sua relação com outras pessoas, dotada de uma empatia que a aproxima muito de pessoas comuns e lhe permite atuar quando os esforços da conselheira Deanna Troi falham. Guinan mistura a estranheza de sua condição alienígena e semidivina com uma figura que se confunde com qualquer mortal humano. Além disso, possui um visual muito marcante que remonta ao afrofuturismo, valorizando elementos da identidade negra num contexto dominado pela estética branca.

Benjamin Sisko (Avery Brooks)

Comandante Sisko talvez tenha sido o marco mais importante na inserção dos negros no elenco da franquia, depois de Uhura. Até então, o modelo do líder em Star Trek estava representado por dois homens brancos, um norte-americano (Kirk) e um europeu (Picard), e a maioria dos capitães das naves da Frota Estelar seguem esse modelo. É também ao redor de Sisko que pela primeira vez vemos uma família negra em destaque em Star Trek: Ele tem um filho, Jake, e se encontra com o pai, Joseph, em momentos cruciais de sua trajetória.

A princípio dotado do título de comandante e designado para administrar a estação espacial Deep Space Nine, que deu título à série da qual é protagonista, Benjamin Sisko é promovido a capitão no decorrer da história e assume um papel central de liderança no combate a uma ameaça gigantesca contra a Federação e todo o Quadrante Alfa.

Novamente, as questões raciais humanas não são tema em Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine, ao menos em sua história principal. No entanto, Sisko possui um alter-ego da década de 1950, chamado Benny Russell, um escritor de ficção científica negro que sofre preconceito e tem dificuldade de publicar suas histórias, a não ser ocultando sua identidade racial. Quando ele concebe escrever uma história sobre um capitão negro que comanda uma estação espacial no futuro distante (ou seja, o próprio Benjamin Sisko), o editor reluta muito, pois considera que um personagem negro em posição de destaque será mal recebido pelo público.

Apesar de tudo, um ponto até certo ponto negativo na inserção de Sisko na história de Deep Space Nine é o fato de ele representar, mais do que todos os outros protagonistas da franquia, a ambiguidade ética da Federação. Por vezes extremamente correto em suas decisões, há momentos importantes na luta contra o Dominion em que o capitão se utiliza de meios escusos para garantir os fins almejados. Em alguns aspectos, ele pode se encaixar no modelo do príncipe maquiavélico, o que ao mesmo tempo pode significar que ele é tão humano quanto qualquer oficial branco, mas também que ele está mais sujeito às falhas humanas do que, por exemplo, o impecável Capitão Picard.

Tuvok (Tim Russ)

Assim como Worf, Tuvok não é um negro humano. Sendo vulcano, ele chama atenção pelo fato de todos os vulcanos que apareceram antes nas séries e nos filmes terem pele clara. Antes de Tuvok, os vulcanos em geral pareciam um estereótipo genérico dos orientais (Spock era interpretado por um judeu, e alguns outros de sua espécie foram interpretados por atores de ascendência asiática ou aparência que remonta a alguns estereótipos orientais – mas no cômputo geral a maioria dos atores que encarnaram vulcanos é branca).

O surgimento de Tuvok, interpretado por Tim Russ, apresentou aos espectadores uma realidade vulcana plurifenotípica, ou seja, deu a entender que a variação fenotípica vulcana é semelhante à humana. Aliás, Tuvok não tem apenas a pele escura, mas cabelos crespos e feições “africanas”.

Além dele, só me lembro de ter visto outros dois vulcanos negros: a esposa de Tuvok, que só apareceu uma vez, e um figurante de um episódio de Deep Space Nine. Isso demonstra a impregnação de uma implícita visão antropocêntrica-eurocêntrica de que o fenótipo branco é a manifestação comum da espécie, sendo os negros uma minoria, como que uma variação exótica. Apesar disso, como acontecia com Geordi Laforge, o fenótipo “negro” desse vulcano nunca foi mencionado, implicando a superação utópica do racismo nessa realidade futurista.

Travis Mayweather (Anthony Montgomery)

Jornada nas Estrelas: Enterprise é a mais medíocre das séries da franquia, e regrediu em muitos aspectos quando comparada com as séries anteriores. Os ideais veiculados se tornaram muito mais americanocêntricos, belicistas, antropocêntricos e em grande parte conservadores. Embora se veja aqui e ali ideias libertárias que lembram a proposta inicial de Gene Roddenberry, de forma geral Enterprise foi uma decepção.

E isso se reflete no personagem interpretado pelo ator mediano Anthony Montgomery. Travis Mayweather é muito apagado no meio do elenco predominantemente branco. Além de não ter força presencial (talvez pela combinação da mediocridade do ator com o menosprezo velado da produção), ele não atua de forma significativa nos eventos importantes da série e sua história é muito pouco explorada.

Infelizmente, depois do Capitão Sisko a importância dos negros em Star Trek só diminuiu e decaiu totalmente com a insignificância do alferes Mayweather, que parecia estar na ponte de comando para, junto da oficial de comunicações japonesa Hoshi Sato, compor a “cota étnica” do elenco, sem dar volume e profundidade ao personagem. Enfim, é lamentável que um personagem com um conceito tão interessante (ele nasceu num cargueiro espacial e aprendeu desde cedo a pilotar naves, sendo um exímio timoneiro) tenha sido desperdiçado dessa forma.

Race, the final frontier

Sempre senti falta de ver um personagem negro em Star Trek num papel importante que usasse o uniforme azul da divisão de ciências. Embora haja vários exemplos de indivíduos geniais em suas respectivas áreas, é como se, sub-repticiamente, se considerasse mais adequado a um negro ocupar uma posição “não-intelectual”, como oficial de comunicações, engenheiro, chefe de segurança, timoneiro e até a liderança, desde que esta se baseie mais em habilidades políticas do que naquilo que se convenciona chamar de “atividades intelectuais”.

Mas seria possível utilizar esses mesmos exemplos supracitados para se colocar uma questão muito pertinente a respeito do que é a inteligência. Esta assume várias formas diversas, e alguém que domine magistralmente uma área da engenharia (como Geordi) não é menos genial do que um erudito das ciências humanas (como Picard). São áreas diferentes do saber humano, para cujo domínio se exige esforço mental semelhante. Numa perspectiva de maior abertismo, Geordi, o nerd, é tão intelectual quanto Picard, o capitão filósofo. E é difícil imaginar que dos tripulantes da nave estelar Voyager haja alguém mais inteligente do que Tuvok, o chefe de segurança (ao menos numa perspectiva ortodoxa sobre o que é inteligência, que estou criticando aqui). Mesmo assim, seria importante ver os negros ocuparem uma variedade maior de profissões, para que no final não fique a impressão de que eles são “naturalmente” limitados em certas áreas.

Outra limitação na representação dos negros diz respeito ao caráter exótico de grande parte deles, como se eles fossem personagens fantásticos, dotados de uma certa magia e sobrenaturalidade. Geordi com seu visor é um ciborgue com ar misterioso. Guinan é praticamente uma bruxa ou cigana cheia de segredos encantados. Sisko é de certa forma um semideus, filho de um humano com uma “profeta” (ser alienígena que vive fora da temporalidade linear humana).

Vale lembrar um episódio interessante da Nova Geração, em que a tripulação da Enterprise-D se encontra com os Ligonianos (Código de Honra, 1ª temporada, 4º episódio). Estes são todos interpretados por atores negros que não usam nenhuma maquiagem que os diferencie dos humanos. Esses alienígenas podem ser, por um lado, uma resposta interessante às tantas vezes em que apareceram espécies humanoides cujos membros tinham todos a aparência de humanos brancos. Ao mesmo tempo, podem ser ser vistos como uma reafirmação inconsciente de que basta uma espécie ser toda igual aos negros humanos para caracterizá-los como não-humanos (já que, para a ideologia racista eurocêntrica, o modelo default de ser humano é o branco). De qualquer forma, é um episódio instigante que levanta diversas outras questões que contribuem para o debate sobre o racismo.

Star Trek deu um impulso importante para a valorização das minorias, mas ele conseguiu isso muito mais através do contato com alienígenas como metáforas das relações raciais do que dando destaque e relevância a personagens e atores pertencentes a minorias humanas. O espírito da série é favorável para a valorização de mulheres, negros, homossexuais e outros grupos discriminados, mas infelizmente não conseguiu radicalizar até um ponto satisfatório.

Olhando para a montagem que fiz para ilustrar o topo deste post, eu imagino uma tripulação toda formada por pessoas negras. Ora, temos ali um capitão (Sisko), uma oficial de comunicações (Uhura), um engenheiro-chefe (Geordi), um chefe de segurança (Tuvok) e um timoneiro (Mayweather). Pena que não há nenhum grande exemplo de médico (que usaria, a propósito, o uniforme azul) nas naves da Federação para administrar a enfermaria de nossa imaginária nave estelar afro.

Alienígenas e predadores

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Alien vs. Predator (2004) foi um dos filmes mais esperados pelos fãs do cinema de ficção científica. Depois de terem se encontrado nos quadrinhos, em dezenas de video games e terem sido motivação para muita fan-art e imaginação, os “aliens” (dos filmes Alien: O Oitavo Passageiro, 1979; Aliens: O Resgate, 1986; Alien 3, 1992 e Alien: A Ressurreição, 1997) e os “predadores” (O Predador, 1987; O Predador 2, 1990) finalmente se encontraram (e se enfrentaram) no cinema. E três anos depois a franquia mista seria renovada com Alien vs. Predador 2 (2007).

Mas o que pode explicar tanta expectativa em relação a esse encontro de monstros? Seria a simples resposta a uma especulação de fãs quanto ao que resultaria do encontro entre as duas fictícias espécies alienígenas? Mas o que, no fundo, motivaria essas especulações? Uma motivação política, esperando uma obra artística que retratasse de forma metafórica “a guerra entre o bem e o mal” (ou entre o Ocidente e o Oriente, ou entre o Primeiro Mundo e o Terceiro Mundo, ou entre Estados Unidos da América e o resto do mundo – afinal o filme foi lançado em plena “guerra ao terror” do governo de George “Warrior” Bush)?

Penso que não se trata de mero capricho hollywoodiano. Afinal, os crossovers vinham sendo feitos bem antes da “guerra ao terror” e continuaram fortes depois e até hoje em dia. Além disso, o filme vinha sendo prometido havia muitos anos (este que escreve foi um dos que o esperou ansiosamente), e tudo indica que a ideia do embate entre esses alienígenas tenha surgido entre os fãs de cinema e ficção científica; apareceram assim muitas sugestões em diversos video games (como o famoso arcade Alien vs. Predator, da Capcom, que me divertiu muito nos meus 14 anos de idade) e nos quadrinhos. Além disso, o público que ansiou por esse filme é restrito e específico demais, embora fiel. Tampouco a “motivação política” parece ter sido inspiração para a obra. Quando se trata de retratar conflitos políticos, guerras etc., Hollywood nos presenteia com Rambo (1982), Nova Iorque Sitiada (1998) e coisas semelhantes.

Ao assistir ao filme, veio-me à mente o livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário, de Gilbert Durand. Notei que era possível enquadrar os aliens como personagens no regime noturno da imagem, de acordo com a classificação de Durand, enquanto os predadores se encaixam melhor no regime diurno da imagem. (Não quero aqui entrar no mérito de avaliar o filme em seus aspectos cinematográficos e narrativos; considero-o um filme regular, que não atendeu as expectativas, mas a reflexão sobre aspectos imagéticos é bastante rica.)

O regime diurno da imagem, segundo Durand, é aquele da antítese que separa o dia da noite, o claro do escuro, a luz das trevas. Nesse regime, existe um maniqueísmo que coloca as noções de virtude e força em oposição às de vício e fraqueza. É o regime do conflito e da guerra, do humano domesticando ou caçando o animal, da individualidade do herói que empunha uma espada para destruir em nome da honra e da glória. É, assim, um conjunto de imagens que remete, em grande parte, à noção ocidental do masculino.

Por outro lado, o regime noturno da imagem é o da antífrase e da síntese, da conciliação entre luz e trevas, ligado à valorização do corpo e suas funções digestivas e reprodutivas (que são vistas com desprezo pelo regime diurno). É o regime da transmutação, no qual a morte é vista como parte do processo vital (enquanto para o regime diurno não se podem conciliar vida e morte). É ainda o regime da comunhão física, seja entre mãe e filho ou entre amantes. Forma um conjunto de imagens relacionado à ideia ocidental do feminino.

Uma das coisas que me chamam atenção nas duas franquias tratadas aqui é a escolha da designação de cada uma das espécies nos títulos de seus respectivos filmes. Ambas são alienígenas (alien em inglês), e ambas são predadoras. Mas os aliens são mais animalescos, mais próximos da natureza, numa palavra, são mais orgânicos. Em nossa cultura ocidental androcêntrica, normalmente a mulher (e o feminino) é representada como mais próxima da natureza e, assim, um ser estranho em relação ao homem (e o masculino), que seria mais próximo da cultura, do refinamento civilizatório. A mulher é tratada por nossas representações milenares como o segundo sexo, como um alienígena, uma criatura diferente do homem, sendo este visto como modelo de ser humano. O homem/macho, por sua vez, é o sexo guerreiro, suas motivações são vistas como as de um caçador em busca do sustento da família e também de um predador que luta por troféus (sejam riquezas ou mulheres).

A rainha bota os ovos; o ovo eclode e o "facehugger" se agarra ao rosto do hospedeiro; o parasita inoculado no hospedeiros emerge ("chestburster") como uma espécie de serpente e cresce até sua forma adulta e mortal

A rainha bota os ovos; o ovo eclode e o “facehugger” se agarra ao rosto do hospedeiro; o parasita inoculado no hospedeiro emerge (“chestburster”) como uma espécie de serpente e cresce até sua forma adulta e mortal

Os aliens, também chamados de xenomorfos, têm uma relação estreita com sua mãe-rainha, uma relação orgânica no sentido mais romântico que a semântica dessa palavra pode alcançar. São bem como abelhas ou formigas, o que pode nos autorizar pensar que são todos fêmeas, vivendo num mundo natural, biológico, como em nossa cultura se representa a mãe com os filhos, nos laços afetivos de um mundo feminino. Suas armas são seus próprios corpos, a cauda flexível e perfurante, o sangue ácido, a arcada bucal dupla e a hiper-resistente couraça. A relação que estabelecem com os protagonistas humanos é orgânica também, pois, além de os humanos lhes servirem de alimento, sua procriação depende de um organismo hospedeiro na primeira fase da vida, e os ovos dos quais eclodem as larvas aparecem provocando uma curiosidade sedutora. Essa sedução feminina se evidencia no constante desejo, presente em quase todos os filmes da franquia Alien, da empresa Weyland-Yutani em sacrificar vidas para capturar um espécime.

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Esquematização do ciclo de vida de um xenomorfo/alien

Já os predadores, cuja espécie também é conhecida como yautja, se caracterizam por ser mais individualistas, “livres” num certo sentido, sem um vínculo afetivo materno que lhes tolha a individualidade. Aparentam ser todos machos (possuem um físico masculino, segundo os padrões humanos), numa sociedade cooperativa-competitiva, em que lutam lado a lado mas parecem ter objetivos pessoais (que no entanto e de maneira geral coincidem). Agem como heróis em busca de troféus de suas caçadas, e viajam pelos planetas em busca de satisfação para seu esporte. Suas armas são artificiais, lanças e garras retráteis, discos cortantes que voltam como bumerangues, canhões de plasma em suas ombreiras, redes de aprisionamento, bombas (que podem usar para se matar, numa espécie de seppuku ritual, um gesto de honra masculina tipicamente conhecido entre guerreiros da Terra) e outras, além de uma armadura sem a qual podemos imaginar que seriam bem vulneráveis.

Por um lado, os aliens se mostram como realmente são, agindo instintivamente. Mas os predadores são seres com cultura, cheios de artifícios, e o uso da máscara é simbólico de seu esforço para domar o monstro que têm em si mesmos (como os humanos fazem com a ética e as regras sociais) e cujo rosto ele mostra apenas em situações extremas. Também é interessante notar que a antagonista/alter-ego do alien é exclusivamente uma mulher, especialmente a figura de Ellen Ripley, enquanto o predador sempre tem como nêmesis um homem.

A alien rainha contra sua nêmesis (a fêmea-alfa) e o predador perante seu rival (o macho-alfa)

A alien rainha contra sua nêmesis (a fêmea-alfa) e o predador perante seu rival (o macho-alfa)

Esse contraste, aparente quando observamos os filmes de cada uma das franquias, se evidencia ainda mais em Alien vs. Predador, onde as duas espécies se enfrentam. Nas lutas, os xenomorfos usam exclusivamente seus corpos para atacar e se defender, ou seja, suas garras, presas, caudas em forma de lanças, sangue ácido e couraça ultrarresistente. Por outro lado, os yautja só se valem de sua tecnologia, sem a qual seriam indefesos: suas armas e armaduras e seus sensores. Além disso, xenomorfos são seres mais instintivos do que racionais, enquanto os predadores usam uma inteligência estratégica.

O embate se caracteriza como uma caçada esportiva, em que os predadores buscam satisfazer o desejo de subjugar a natureza, o que remete ao desejo masculino de subjugar e domesticar o feminino, representado em nossa cultura misógina como perigoso, ardiloso, emotivo e irracional. As aliens se defendem como animais, como uma força da natureza, sem rosto (literalmente) e sem identidade. Sua motivação é apenas a sobrevivência enquanto espécie.

Também é interessante observar a belíssima imagem da rainha alien coberta por suas crias, como um gigantesco escorpião-fêmea carregando seus filhotes. É uma imagem plenamente feminina de comunhão carnal, em que não há diferenciação entre os membros do grupo, como se fossem um só organismo e uma só inteligência coletiva. Mas a primeira imagem em que aparecem os três predadores, por outro lado, é emblemática, neste caso, de seu caráter masculino e guerreiro, pois eles aparecem caminhando lado a lado, cada um com sua individualidade e personalidade, evidenciada em armaduras únicas e armas de preferência.

Predadores do filme Predador 2

Predadores do filme Predador 2

Vale lembrar o momento em que a única humana (uma mulher) sobrevivente do conflito se junta ao último predador para enfrentar a rainha. O caçador confecciona para a mulher uma lança e um escudo improvisados, utilizando respectivamente a cauda e a cabeça de um alien, como que misturando os aspectos masculino (do estilo de lutar dos predadores) e feminino (os corpos dos aliens). É como se o predador considerasse mais adequado que uma mulher usasse armas mais ligadas ao feminino, ao alien animalesco. Se não, por que não disponibilizou para ela as armas de seus companheiros mortos?

Resumindo, parece que esse embate entre aliens e predadores simboliza uma querela que perdura entre seres humanos há milênios, e que sempre foi motivo para elaboradas teorias sexistas e piadas preconceituosas sobre mulheres e homens, que parecem não perder a validade entre aqueles (muitos)  que pensam que está na natureza a origem das diferenças de comportamentos entre os machos e as fêmeas humanas, e daí também as desigualdades entre eles. Metaforicamente, a luta entre essas duas espécies alienígenas também pode ser extrapolada para uma alegoria dos esforços humanos (os predadores) para domar a natureza (os aliens), seja esta considerada literalmente ou como metáfora dos instintos que a cultura precisa domesticar para existir.


Uma versão menos elaborada deste texto foi publicada originalmente na Teia Neuronial Beta, em 25 de março de 2005.

Solaris e as dimensões da vida

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

O romanceSolaris, escrito em 1961 pelo escritor polonês Stanislaw Lem, extrapola a um nível incomum dentro da Ficção Científica o complicado tema do contato entre espécies alienígenas.

Solaris é um planeta que gira ao redor de duas estrelas (sistema binário) e se mantém numa órbita regular devido à misteriosa ação de um oceano que cobre a maior parte da superfície do astro. Sem essa ação, as forças físicas fariam com que a órbita não se mantivesse constante, e vários estudos levam pesquisadores e cientistas a considerar que o oceano é um organismo vivo.

O caso Solaris levou, desde a descoberta do planeta pelos humanos, à constituição de uma escola acadêmica cujos membros ficaram conhecidos como solaristas. Ao longo de décadas, muitos pesquisadores de diversas áreas se reuniram numa estação flutuante construída para esse fim, e uma extensa produção científica tentou “desvendar os mistérios” do oceano e, especialmente, encontrar um meio de se comunicar com ele.

A trama do livro tem início já na decadência dos estudos solaristas. A estação de Solaris, outrora fartamente povoada de ávidos pesquisadores, hoje só conta com três melancólicos cientistas (Gibarian, Snow e Sartorius) que aguardam a chegada do psicólogo Kris Kelvin. Este se depara com uma desolação, descobre que seu mestre Gibarian morreu recentemente e os sobreviventes estão atormentados. Após alguma sondagem, Kelvin começa a ser assombrado pela presença de um clone (aparentemente surgido do nada) de sua falecida esposa suicida.

Os outros habitantes da estação também são assombrados por fantasmas, recriações físicas do oceano, que de alguma forma sondou as mentes dos cientistas e “trouxe à vida” pessoas ligadas a eles por algum forte laço emocional. A história se desenvolve com as tentativas do grupo para destruir os “fantasmas” (possuidores de incomum invulnerabilidade), o dilema de Kelvin, que gostaria de manter viva sua “esposa” Rheya, tudo permeado pelas leituras que o psicólogo empreende dos livros disponíveis na estação, mostrando ao leitor uma recapitulação da história dos solaristas e suas teorias.

Essa recapitulação começa com as primeiras teorizações sobre a natureza do oceano de Solaris, mostrando uma luta constante dos cientistas para enquadrar a estranha forma de vida nos padrões conhecidos pela Ciência, a frustração desse empreendimento intelectual, as mortes decorrentes da investigação in loco do oceano e a decadência dos estudos solaristas, que passaram a ser simplesmente descritivos.

O que é um ser vivo?

Lem criou uma situação extrema que poderia, grosso modo, ser comparada à relação entre um elefante e um formigueiro. As formigas que caminham sobre o joelho dianteiro de um elefante talvez não percebam que estão em cima de um animal, e dificilmente o paquiderme perceberá tão pequenos insetos sobre sua grossa pele. A diferença nas dimensões e tamanho é um obstáculo, quase um entrave, para a comunicação entre humanos e o oceano planetário, para o qual aqueles são ínfimos, pouco mais que grãos de poeira trazidos pelos ventos cósmicos.

Ao mesmo tempo, há uma diferença descomunal de escala entre elefante/formigas e oceano/humanos. Essa discrepância é tamanha que a história dá a entender que o simples fato de o oceano sondar os pensamentos dos humanos (por meios totalmente inexplicados no livro e plenamente irrelevantes para os propósitos de Lem) o faz gerar certas ressonâncias que são praticamente idênticas às imagens nas mentes dos minúsculos (por que não dizer microscópicos, na visão do oceano) primatas que passeiam em sua superfície.

No período que Kelvin passa na estação de Solaris, ele lê vários livros, enciclopédias, manuscritos e panfletos, apresentando ao leitor o longo e complexo histórico dos estudos e pesquisas sobre o oceano. A trajetória científica dos solaristas é um dos elementos mais importantes do livro e apresenta toda a reflexão de Lem a respeito da problemática do contato entre seres alienígenas.

A princípio, os solaristas não cogitaram a possibilidade de o oceano ter vida. No mundo real, ao buscar sinais de vida extraterrestres, projetos como o SETI (Search for Extra-Terrestrial Inteligence – Busca por Inteligência Extraterrestre) deveria esperar situações inusitadas, como encontrar seres vivos que, para os padrões humanos ou terrestres, não são facilmente reconhecíveis como tais.

Esse é o tema do episódio O Demônio na Escuridão (The Devil in the Dark – série clássica de Star Trek, 1ª temporada, 25º episódio), em que os equipamentos da tripulação da Enterprise, que têm a capacidade de detectar sinais de vida, não conseguem perceber uma criatura suja estrutura molecular é baseada em silício e não em carbono.

Como se comunicar com um alienígena?

A situação extrema de incomunicabilidade pode nos fazer pensar na relação entre o ser humano e outros animais terrestres. Humanos conseguem “enganar” outros animais através de artimanhas dos sentidos, fazendo-os “acreditar” que estão diante de um membro de sua espécie (quando na verdade se trata de um boneco), levando-os à morte numa vela ou lâmpada (insetos “atraídos” à luz por um erro de percepção). O ser humano se aproveita de um conhecimento mais profundo sobre a realidade e do fato de os outros animais  terrestres não possuírem esse conhecimento para domesticá-los, promovendo erros de percepção e induzindo-os a certos comportamentos.

Assim, do mesmo modo que uma mariposa, “achando” que está seguindo os raios paralelos da luz da Lua, dá voltas ao redor de uma vela e acaba se queimando, o oceano de Solaris, ao sondar (conscientemente ou não) o comportamento e pensamentos dos humanos, produz formas e cores que os hipnotizam e os levam a ser engolidos pelo gigantesco mar.

Do mesmo modo que através do cheiro, da textura, da cor e de sons de um boneco se consegue fazer um animal agir como se estivesse diante de um indivíduo de sua espécie, Solaris (conscientemente ou não), ao “pensar” sobre as coisas que sonda nas mentes dos humanos, acaba fazendo brotar no ar cópias de pessoas conhecidas por aqueles homens. Estes, a princípio, ficam em dúvida sobre a natureza das pessoas que vêm assombrá-los, e só não são totalmente enganados porque estão preparados, pela experiência e pala formação científica,  para desconstruir a ideia de que uma pessoa tenha voltado à vida e tenha misteriosamente aparecido num planeta a anos-luz de distância da Terra.

Essa incomunicabilidade é ainda tão extrema ao ponto de se tornar imprevisível o comportamento do oceano, devido à impossibilidade de os humanos saberem as consequências de seus atos, não podendo prever como suas pesquisas afetam o gigantesco ser vivo, que às vezes parece amigável, outras vezes age hostilmente, e muitas vezes parece ignorá-los completamente.

Humanos, humanoides e animais estranhos

A “alienigenidade” é geralmente abordada nas histórias de Ficção Científica apenas no nível da exoticidade. Os ETs são “humanoides” (inspirados nos próprios humanos que os concebem) na maioria dos casos, às vezes indistinguíveis (como Kal-El/Clark Kent/Super-Homem e seus conterrâneos kryptonianos), mas geralmente com pequenas e sutis diferenças (variações de textura/cor da pele, nos pêlos – ausência ou abundância -, altura e/ou musculatura, protuberâncias em locais específicos do corpo, formas e cores dos olhos, presença ou ausência de nariz ou orelhas etc.), mas quase sempre apresentando cabeça, tronco e membros, em tudo imagem e semelhança daquilo que os humanos consideram mais fundamental na identificação de um “ser vivo” “inteligente”.

As histórias costumam ser alegorias da relação entre humanos de diferentes etnias/culturas (a maioria dos episódios de Jornada nas Estrelas), e em casos extremos entre humanos e animais irracionais (como na franquia Alien). Solaris vai muito além dessas perspectivas, trazendo para as especulações sobre vida extraterrestres problemas possíveis e verossímeis que poderemos enfrentar em contatos interplanetários.

Será que o oceano de Solaris é um ser vivo? Ele não existe como uma realidade “biológica” diferente de qualquer coisa que consideraríamos viva no planeta Terra? Existirá um limite para a investigação humana sobre a vida alienígena, tendo em vista desafios do tipo Solaris? Estaremos prontos para assumir o papel de cobaia investigada quando nos encontrarmos diante de uma espécie ou civilização muito mais complexa e avançada do que a nossa?

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