Perda de identidade (ou: A segunda via)

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O escritor norteamericano Philip K. Dick, conhecido por ser autor de livros e contos de ficção científica adaptados com sucesso para o cinema (estão entre os filmes mais conhecidos: Blade Runner, Minority Report e O Vingador do Futuro), escreveu em um estilo que prenunciava o cenário Cyberpunk (cujo maior expoente é o famoso livro de William Gibson Neuromancer), num futuro em certa medida decadente e distópico, onde a tecnologia se funde com a vida humana como nunca. No entanto, ao contrário do que acontece à maioria dos escritores do gênero, não é a tecnologia, nem mesmo a ciência, o foco principal de suas histórias (embora se constituam parte indispensável do cenário), mas a “experiência” pela qual passam os personagens frente aos embaraços causados por essas mesmas tecnologias, ciências e condições desse mundo futuro.

O conto

No conto “Impostor”, escrito em 1953, e também adaptado para o cinema em 2002 (filme, por sinal, bem ruinzinho), a experiência é o dilema já muito explorado (mas não esgotado) por diversos autores em filmes e livros: o da crise (ou mesmo perda) de identidade do personagem. Nesse conto, a Terra encontra-se envolvida numa guerra contra Alpha Centauro em posição de desvantagem. Em determinado momento, os terráqueos conseguiram criar um campo de força ao redor do planeta, impedindo a vitória dos invasores. A história começa com os humanos trabalhando aceleradamente num grande projeto para construir uma arma que defina a sua vitória. O cientista Spence Olham, que trabalha nesse projeto, justo no momento em que se propõe a tirar suas férias, é acusado de ser um robô espião alienígena, que teria sido enviado para tomar o lugar do verdadeiro Olham e frustrar as pesquisas bélicas do planeta Terra. É acusado pelo agente Peters de ser uma espécie de robô orgânico com uma bomba em seu interior, para que explodisse o laboratório onde trabalhava.

O cientista então faz de tudo para provar que não é espião, e sim o “original”, por assim dizer. Foge da polícia, do serviço de investigação, e enfim encontra a nave alienígena, destruída, numa floresta próxima à cidade. Lá, ele mostra aos investigadores o que sobrou do robô, cuja aparência é idêntica à sua. Porém, uma segunda análise revela que aquele ali deitado é na verdade um homem morto. Cuja aparência é “idêntica à sua”.

Identidade

Pela leitura, o ponto maior da história não é o fato de a Terra estar em guerra com uma raça alienígena, nem a pressa na construção de uma tecnologia bélica para derrotar o inimigo invasor. Na verdade, o conto começa com a vontade do cientista em tirar férias, cansado de toda essa história de guerra e pesquisas. O ponto maior é justamente a experiência desse cientista frente à situação em que se encontra diante de todos esses fatos: “serei eu um robô?”.

Uma das primeiras informações que Spence recebe do agente de investigação é de que, por mais que ele tenha dentro de si a certeza de sua identidade, tal certeza nada mais é do que o fruto de memórias implantadas. Enquanto cópia perfeita do verdadeiro cientista, o protagonista tem as certezas, lembranças e sentimentos perfeitamente clonados do verdadeiro Spence Olham. Na prática, a única diferença entre ele e o “original” é uma bomba dentro de seu corpo.

A experiência é interpretada, nesse caso, como uma coisa estranha. No íntimo, a confiança de uma pessoa em sua própria memória é tão inviolável que ela a usa para criar sua própria identidade e história pessoal. Spence a usa com toda a força que tem para inocentá-lo da acusação de ser um espião (afinal, ele possui essa certeza de não ser o que o acusam ser). Ancoramo-nos nela, na memória, para entender quem somos, afinal, onde mais buscar qualquer informação sobre si além de si? Colocá-la em dúvida, além de traumático, criaria uma crise que colocaria a pessoa em parafuso.

Embora nem o conto nem a adaptação para o cinema aprofundem bem o tema, muitas outras histórias de Philip Dick flertam com questionamentos de identidade. Esse tema está presente também num filme protagonizado por Arnold Schwarzenegger, O Sexto Dia (lançado no ano 2000), em que um clone do protagonista entra em crise ao descobrir que não é o “indivíduo original”.

Para além das tecnologias futurísticas e das civilizações interplanetárias, a ficção de Philip Dick se interessa muito mais pelo universo interior dos personagens, pelo nosso universo interior, humano, e nos põe contra a parede: aonde chegaremos frente a um mundo em constante transformação, rumo a uma situação completamente inesperada?

Evidente que, no fim do conto, ele explode.

Filmes para crianças – parte 3

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As histórias sobre robôs, androides, replicantes e outros seres artificiais podem servir como pano de fundo para reflexões sobre o próprio ser humano. Os robôs que agem como pinóquio, tentando se tornar seres humanos, e aqueles que extrapolam a programação inicial dada por seus criadores são metáforas do indivíduo que se desenvolve a partir de uma tabula rasa, da pessoa que procura se autoaprimorar para alcançar um ideal de valor e humanidade, tentando superar suas falhas e adquirir virtudes.

Os três filmes listados abaixo têm como protagonistas seres artificiais, robôs que aprenderam a ser mais do que máquinas. São ótimas opções para discutir com as crianças sobre humanidade, Ética e autoevolução. Recomendo que o adulto interessado veja os filmes antes de ler este artigo e antes de passar para seus filhos/sobrinhos/netos/amigos etc. As descrições dos filmes contêm spoilers. Divirtam-se.

Veja também:

Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

O Gigante de Ferro (The Iron Giant)

Direção: Brad Bird

País: EUA

Ano: 1999

No ano de 1957, no estado norte-americano de Maine, em plena Guerra Fria, Hogarth, um garoto órfão de pai, encontra uma criatura inusitada: um robô gigante vindo do espaço. Esse Gigante de Ferro, muito amigável e pacífico, tem provocado algum transtorno no local, pois se alimenta de metal, ou seja, carros, cabos de aço e trilhos de trem. Ele vem sendo perseguido pelas forças armadas, pois alguns, especialmente o agente Kent Mansley, acreditam que se trata de uma máquina de guerra e uma ameaça à humanidade.

A verdade é que o Gigante possui em sua estrutura interna um conjunto de armas letais ultra-avançadas, e ele é realmente programado para ser uma arma. Devido à amizade de Hogarth, sua programação é reprimida e ele desenvolve uma personalidade altruísta e antibelicista. Entre assumir a identidade de um robô maligno e a de um herói bondoso como o Super-homem (vistos nos quadrinhos de Hogarth), ele prefere seguir o ideal deste último. Porém, quando detecta uma arma, seus sistemas destrutivos são acionados e representam um perigo para todos ao redor. Ele aprende que cada um de nós pode seguir um ideal maior, não necessariamente se mantendo fiel a sua “natureza”.

Por causa de um incidente provocado por Mansley, que levou à interceptação de Hogarth e do Gigante, este, na ânsia de proteger seu pequeno amigo, tem sua “natureza” ativada, e começa a destruir as máquinas das forças armadas que cercaram a cidade. Quase provocando um desastre. Hogarth consegue fazê-lo parar, mas, devido à mprudência de Mansley, um míssil nuclear está voando a caminho do robô, ameaçando destruir a cidade e matar todos os seus habitantes.

Sem outra solução à vista, o Gigante de Ferro se despede de seu amigo e se sacrifica, voando em direção ao míssil e se chocando com este para destruí-lo. Instantes antes de morrer, o Gigante pensa para si mesmo: “Sou o Super-homem”.

O Gigante de Ferro representa bem o indivíduo que busca cultivar em si ideais éticos maiores, ao mesmo tempo abrindo mão de seus vícios e defeitos (as armas que representam um perigo para os outros ao seu redor) e assumindo posturas altruístas e atos visando ao bem comum, trilhando um caminho que extrapola sua programação original, ou seja, promovendo aprendizado, autossuperação e autoaprimoramento.

A obra aborda

  • amizade,
  • autossuperação,
  • Ética,
  • altruísmo,
  • belicismo,
  • pacifismo e
  • reconciliação.

Inteligência Artificial (A.I. Artificial Intelligence)

Direção: Steven Spielberg

País: EUA

Ano: 2001

David é um robô-menino programado para ser o “filho perfeito”, fabricado espceialmente para mulheres que desejam ser mães. Ele é oferecido por seu criador, Prof. Hobby, a Monica Swinton, cujo filho biológico, Martin, está em coma. Ela não suporta a ausência de uma criança para chamá-la de “mamãe”.

Quando Martin desperta do coma, instala-se a rivalidade entre os “irmãos”, mas quem sofre com isso é a própria Monica, que decide, não sem hesitar e não sem grande pesar, abandonar David na floresta. A partir daí, inicia-se uma aventura em que David procura realizar o desejo de se tonar um menino de verdade.

Ele acaba encontrando outros robôs rejeitados e descobre que existe um grupo de humanos que os persegue e os destrói. O garoto faz amizade com Gigolo Joe, um robô programado para dar prazer às mulheres. Ele ajuda David em sua busca, e ambos passam por muitos incidentes, até encontrar o Prof. Hobby, e este afirma que David é um menino de verdade, tendo em vista tudo o que ele experienciou e sentiu.

David não se convence e vai atrás da Fada Azul (que na história de Pinóquio transformou o marionete num menino de verdade). Ele acaba por encontrá-la na forma de uma estátua, num antigo parque de diversões submerso. O garoto passa então o resto de sua existência repetindo a frase: “Por favor, me transforma num menino de verdade”.

Depois de séculos, já desativado pelo tempo, David é encontrado por robôs ultra-avançados, de uma época em que não existem mais humanos. Eles descobrem em David um repositório de tudo o que é preciso para entender a já extinta humanidade.

A busca de David por se tornar um ser menino de verdade, por si só, já o dota de um aspecto tipicamente humano, ou seja, a constante procura por um ideal existencial. A dificuldade de a sociedade humana aceitar os robôs como pessoas, inclusive com sua destruição sistemática pelos seus odiadores, é uma metáfora da discriminação sofrida por grupos minoritários, como as mulheres, os negros e os pobres, que ao longo da história humana precisaram lutar para ter seus direitos de humanidade reconhecidos pelo conjunto da sociedade.

A obra aborda

  • preconceito,
  • discriminação,
  • amor,
  • relação mãe e filho,
  • relação entre irmãos,
  • Ética,
  • amizade e
  • evolução pessoal.

WALL-E (WALL-E)

Direção: Andrew Stanton

País: EUA

Ano: 2008

No ano de 2805, a Terra está desolada, coberta de lixo e quase sem traços de vida orgânica. Apenas duas criaturas vagam pela superfície: WALL-E, um robô programado para empilhar lixo, e Hal, sua barata de estimação. Os seres humanos evacuaram a Terra há 700 anos, devido aos níveis de toxicidade do planeta, e foram todos viver numa estação espacial chamada Axiom.

WALL-E é o único robô de sua linha que permaneceu ativado e funcionando, e acabou desenvolvendo uma personalidade mais complexa do que aquilo para que foi programado, para além de sua “diretriz” básica. Ele agora possui um hobby: colecionar coisas chamativas que encontra no lixo, como cubos mágicos, caixinhas de anéis e lâmpadas incandescentes. Também tem uma predileção por música e musicais, a que assiste num iPod. Esses muscais românticos o fazem ansiar por uma companhia como ele.

Um dia ele recebe uma visita inusitada, uma robô chamada EVA, programada para encontrar vida vegetal e averiguar se a Terra já tem condições de sustentar vida. WALL-E mostra a EVA as maravilhas de seu pequeno museu particular (sua casa, que era originalmente um galpão onde as unidades WALL-E se recolhiam). Porém, ao avistar uma pequena planta que ele guardava num sapato, ela tem um sistema automático ativado, recolhe a planta em uma cápsula no próprio corpo e se desliga.

WALL-E cuida de EVA (como se fosse um marido cuidando da esposa grávida) por dias a fio, até que uma nave vem recolhê-la e ele se vê na missão de resgatar a princesa no castelo do dragão. Chegando à Axiom, WALL-E encontra muitos robôs diferentes trabalhando e muitos humanos quase iguais, vivendo uma vida sedentária. A princípio obcecado apenas em encontrar EVA, por quem está apaixonado, WALL-E aos poucos percebe a importância da planta para o retorno dos humanos e a recomposição da Terra.

Por outro lado, EVA a princípio só tem foco em sua “diretriz”, mas aos poucos vê em WALL-E um grande amigo e um amor para cuidar. Juntos eles desmascaram uma sabotagem e, deparando-se com inimigos e aliados, conseguem recuperar a planta para fazer a nave retornar à Terra, salvando a humanidade.

Os robôs do filme, através de experiências afetivas significativas, ou seja, eventos que os marcaram em seus corpos e mentes, aprendem coisas que não sabiam, que não faziam parte das memórias pré-programadas. Eles vão criando uma memória extra, e o contato com os outros vai potencializando esse aprendizado, fazendo-os exibir traços de humanidade de que nem mesmo os humanos robotizados da Axiom gozavam. A metáfora do ser que se autoaprimora para se tornar um indivíduo moralmente mais completo e, acima de tudo, altruísta, é muito bem explorada em WALL-E.

A obra aborda

  • amizade,
  • amor,
  • meio ambiente,
  • liderança,
  • Ética,
  • altruísmo e
  • missão de vida.

Onde encontrar

Prometheus

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Prometheus (2012)Título original: Prometheus

Direção: Ridley Scott

País: EUA

Ano: 2012

Sinopse

O muito esperado Prometheus (2012), de Ridley Scott, prometida “prequência” de Alien: O Oitavo Passageiro (1979) – embora Scott tenha declarado que o filme não deve ser encarado como uma “prequência” -, trouxe a história de uma busca pelas origens da humanidade, tendo como mote as ideias que tornaram célebre o escritor Erich von Däniken.

Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) são dois cientistas em busca dos “Engenheiros” que criaram a vida na Terra e que supostamente deixaram mensagens sobre sua localização, em diversos locais do planeta que à época do filme são sítios arqueológicos. Suas teorias chamam a atenção de Peter Weyland (Guy Pearce), empresário ancião e bilionário, e este financia uma expedição ao local indicado pelos antigos “mapas”, na esperança de descobrir uma tecnologia que o permita prolongar sua vida.

No processo de exploração das ruínas alienígenas, os humanos da nave Prometheus (Prometeu, o deus grego que deu o fogo – e consequentemente o poder –  aos humanos e foi punido por Zeus) se deparam com estranhas formas de vida alienígena e com contágios que quase acabam com a missão. Esta tem fim apenas quando um dos “Engenheiros” é reanimado e, aparentemente, tenta viajar à Terra para destruí-la. De uma tripulação de mais de sete pessoas, só sobrevivem Shaw e o androide David (Michael Fassbender), que partem ainda em busca da origem dos supostos criadores da vida na Terra.

Abrindo a obra

Esse resumo da trama não explicita os elementos interessantes nem os pontos fracos da obra. O filme está impregnadíssimo da carga genética herdada de Alien e suas sequências, por mais que Scott tenha tentado ou negado. Isso implica tanto num apelo aos admiradores da “outra” franquia quanto numa previsibilidade advinda de uma fórmula não-original. Vamos aos detalhes.

Em primeiro lugar, Prometheus é uma história sobre a curiosidade humana, a busca científica pela verdade, a perscrutação filosófica das origens. O caráter mítico e místico de ideias fantásticas como as de Däniken em seu Eram os Deuses Astronautas? seduz o espectador com a promessa de uma descoberta fundamental.

Não é à toa que a nave da expedição se chama Prometeu, um dos símbolos ocidentais do humanismo e da autonomia humana perante o poder opressor dos deuses. Porém, nisso reside ao mesmo tempo a esperança e a danação da tripulação. Ou seja: por um lado, a presunção de “brincar” com a vida traz consequências drásticas; por outro lado, a busca revela (ou insinua) certas verdades inconvenientes sobre os supostos “criadores”, que não são os deuses bondosos que se imaginava.

Há então uma mensagem filosófica ambígua. Aparecem, sub-repticiamente, ideias ateístas, quando se observa que o “Criador” não é necessariamente bom, e talvez não haja um Criador absoluto. Weyland, que trouxe à vida David, é inescrupuloso, mas o androide o obedece cegamente, como os profetas fazem, sem questionar as razões ou os métodos daquele que lhe dá ordens. É assim que cristãos, por exemplo, justificam as atitudes antiéticas de Deus pelo argumento de que há um motivo justo por trás de tudo.

Da mesma forma, o “Engenheiro”, imaginado como um ser virtuoso e moralmente evoluído, não é mais do que um humanoide com seus próprios interesses. E, apesar de tudo, vemos a doutora Shaw, movida pela fé, voar atrás de uma resposta mais reconfortante, mesmo com a probabilidade de se arrepender amargamente. Não fica claro, assim, se Scott pretendia exaltar a fé num ideal ou apontar os riscos de uma ideologia míope.

David

Os melhores momentos do filme são encenados por David, o androide a serviço de Weyland. O personagem lembra todo o drama de outros robôs da ficção, como seu xará de A.I.: Inteligência Artificial, WALL-E e Data de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração.

David aprende variados conhecimentos em sua viagem solitária (enquanto os humanos dormem em hibernação induzida), como Super-homem em sua Fortaleza da Solidão, aprendendo com os pais virtuais. Quando a tripulação acorda à chegada ao destino da missão, o androide precisa o tempo todo suportar o desprezo dos humanos que o consideram uma coisa. Este é sempre o problema, em histórias sobre robôs, de se programar um ser artificial para simular perfeitamente um ser humano, pois ele sempre será percebido como um arremedo de pessoa, mas, por outro lado, também está programado para agir como uma pessoa agiria diante de atitudes discriminatórias e vilipendiosas.

Entretanto, tendo características humanas, David se sente superior pelo que é capaz de fazer além do que um ser humano faz. Além disso, ele se orgulha de empreender a missão de que foi incumbido por seu criador, e essa talvez seja sua pequena vingança pelo desprezo e desconfiança dos tripulantes de carne e osso. Além de ser o único no qual Weyland confia (mais até do que na própria filha), ele tem o privilégio de já conhecer seu deus, enquanto os humanos estão perdidos atrás do seu.

Prometheus e Alien

  • Em toda a quadrilogia Alien, o principal vilão/antagonista é sempre a companhia Weyland. Ou seja, a ganância exploratória cujos intentos passam por cima de qualquer ética.
  • Como em Alien, há um androide representando os interesses desumanos da companhia. Como em Alien e Aliens, o androide é destroçado mas continua funcionado, servindo ainda a algum propósito na narrativa.
  • A heroína é a única sobrevivente humana e a que mais sofre com a tensão e o terror dos monstros a bordo. Ela até tem uma cena seminua que muito lembra Ripley no final de Alien.
  • A visão do salão com os cilindros dentro da nave alienígena remete inevitavelmente à câmara de ovos/casulos de Alien, e é de onde sai o contágio que dá origem ao monstro.
  • Uma equipe de “figuras”, com suas idiossincrasias e diferenças. No entanto, os personagens das trupes de Alien, Aliens, Alien 3 e até Alien: A Ressurreição são bem mais marcantes e redondos do que os de Prometheus.

É claro que nem tudo é clonagem. Há elementos novos, especialmente o tema central do filme, a busca pelos primórdios, pelas origens, pela criação da humanidade, e a presença de uma raça alienígena inteligente como um dos antagonistas (os xenomorfos da série Alien são mais instintivos e animalescos).

Porém, algumas novidades deturparam um pouco a temática suscitada pela espécie alienígena dos filmes anteriores. Minha perspectiva a respeito dos xenomorfos, que estrelou os 4 filmes da franquia Alien e da sequência de 2 Alien vs. Predador, sempre foi a de que se tratava de um ser vivo pertencente a um ecossistema alienígena, muito diferente do nosso. Um predador-parasita (cujo complexo ciclo reprodutivo-vital se justificaria pelo equilíbrio, afinal, os predadores são sempre menos numerosos do que as presas) que, em contato com o Homo sapiens, trouxe um sério problema de incompatibilidade ecológica.

O “alien” da franquia anterior a Prometheus não é um monstro maligno, mas um animal fora de seu habitat (ou seria o próprio humano o alienígena deslocado de seu ambiente natural), como os coelhos levados à Austrália por colonizadores, resultando numa praga e na devastação da vegetação local.

Prometheus destrói toda essa ideia, sugerindo que os xenomorfos são na verdade originários de um espermatozoide humano mutante, resultado de um experimento genético, que extraordinariamente já nasceu com toda a complexidade fisiológica, morfológica e filogenética que vemos nas histórias protagonizadas por Ellen Ripley.

Enfim, ao desconstruir a premissa interessante de Alien, Prometheus traz mais do mesmo estereótipo do alienígena que só pode assumir um de dois papéis opostos: o de deuses astronautas bondosos, inspirados nas mitologias em que seres superiores são um reflexo das virtudes que queríamos ter, ou bárbaros invasores frutos de um imaginário xenofóbico e belicista.

A alma dos robôs – parte 3

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Um computador pode emular uma inteligência humana de modo visivelmente artificial. Não é difícil encontrar na internet programas que simulam um interlocutor com o qual você pode travar um bate-papo mais ou menos coerente. Mas basta aprofundar ou complexificar um pouco a conversa para desmascarar o robô e fazê-lo dizer coisas sem sentido.

A inteligência das máquinas tem uma especificidade particularmente artificial. A utilidade de um computador prescinde de qualquer traço de humanidade. Um computador e um braço mecânico de uma fábrica não precisam ser nenhum pouco parecidos com um ser vivo, e talvez fosse muito perturbador para nós se não fossem explicitamente artificiais. Esse é o tema de uma história de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, em que Data descobre que tem um irmão mais velho, Lore, que fora descartado por seu criador porque era parecido demais com um ser humano.

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A alma dos robôs – parte 2

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Desde as histórias de estátuas que ganham vida, passando por bonecos de madeira e robôs que desenvolvem consciência e sentimentos, a fantasia da passagem do inanimado para o animado está muito presente nos mitos, na literatura e no cinema. Por que os seres humanos são fascinados por personagens robóticos que buscam se tornar humanos? O que há neles com que nos identificamos tanto?

Além disso, por que essa fantasia do robô tornado humano extrapola para histórias em que as máquinas se tornam uma ameaça à humanidade, subjugando-a e invertendo os papéis do dominante e do dominado? Porque, enfim, sentimos um misto de medo e simpatia pelos robôs revoltosos, que são apenas máquinas inanimadas que deveriam servir aos seus criadores?

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A alma dos robôs – parte 1

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A evolução dos robôs segue seu caminho. Para cientistas, engenheiros e entusiastas da Ciência e da Tecnologia, há, entre outros, um objetivo claro: reproduzir com cada vez mais fidelidade a inteligência humana. Não basta, portanto, criar ferramentas supereficazes em suas tarefas autômatas, mas dar a ilusão de que as máquinas têm uma alma.

Desde a Antiguidade se contam fábulas sobre criaturas artificiais que se tornam seres vivos. Histórias sobre robôs na ficção científica têm abordado o fascínio do ser humano pela possibilidade de surgirem vida e alma das criações tecnológicas. A antropomorfização de seres inanimados não é novidade na história humana, mas quando se tratam de seres que imitam comportamentos e funções humanas, como os robôs, é muito forte a fantasia de que eles podem se tornar completamente humanos.

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Errare humanum est

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Hoje teve início o uso de um equipamento eletrônico para controlar a frequência dos funcionários da instituição em que trabalho. Antes de essa ferramenta ser instalada, costumávamos assinar uma folha, preenchendo o horário de chegada e saída e deixando nossa assinatura.

Com o novo instrumento, basta que o funcionário aplique o dedo sobre uma superfície lisa que reconhece a impressão digital do polegar ou do indicador esquerdos (previamente cadastrados), no momento da chegada e na saída do trabalho, contabilizando automaticamente as horas passadas no serviço.

Quando apliquei o indicador, a máquina mostrou a mensagem “Não confere”. Ao aplicar minha outra opção, o polegar, a mesma mensagem apareceu. Outros colegas tiveram o mesmo problema, embora muitos tivessem tido suas impressões reconhecidas. Ou seja, o aparelho não funcionou.

Quando recebi a notícia de que esse equipameto começaria a funcionar na segunda-feira, dia 11 de maio, já sabia que, sendo uma máquina nova e estando seu funcionamento ainda não dominado pela admnistração do INCRA e tampouco pelos funcionários, certamente haveria algum problema no primeiro dia. A confusão em si já tinha começado havia meses, desde a notícia de que o ponto eletrônico seria implantado na superintendência.

Não sou contra a utilização de um controle eficiente do tempo prestado pelo servidor que está sendo pago para fazer seu serviço e cumprir 40 horas de trabalho semanal. É muito comum os funcionários de órgãos como este se viciarem, aproveitando o fato de terem estabilidade garantida pelo Estado, e se acostumarem a faltar constantemente ou a trabalhar apenas em um turno.

Os mais prejudicados com esse desleixo é o público, que neste caso são principalmente os trabalhadores rurais sem terra, trabalhadores rurais assentados pelo INCRA e quilombolas que demandam a regularização de suas terras. Se os funcionários não cumprem seus horários estabelecidos, como é que uma pessoa que necessita da assistência do Estado garantirá ser atendida?

Porém, esse tipo de controle só tem sentido quando não serve para simplesmente punir aqueles que desrespeitam as normas do órgão em que trabalham, dificultando assim a vida dos que cumprem seu serviço. Quando, por exemplo, o sistema de ponto eletrônico permite que o funcionário acumule horas para se ausentar do serviço numa necessidade médica ou para resolver problemas pessoais que não tem como resolver no fim de semana, ou quando possibilita que o mesmo funcionário atenda suas horas diárias com flexibilidade, chegando mais cedo para sair mais cedo, por exemplo, é uma boa.

Mas quando as regras do ponto eletrônico obrigam os servidores a chegar num determinado horário (neste caso, o intervalo possível de entrada no prédio é entre 7:30 e 8:30 pela manhã e 13:30 e 14:30 pela tarde; a saída pode ser efetuada entre 11:30 e 12:30 no primeiro turno e entre 17:30 e 18:30 no segundo) e dá poucas opções de abono e compensação de horas dispensadas no trabalho, estamos diante de uma situação de subjugação e autoritarismo.

Também é negativo confiar tão cegamente num mecanismo que, embora não seja humano, pode vir a ter falhas. Se esses erros persistirem, como ficará o controle de frequência dos funcionários? Teremos que continuar assinando uma folha de ponto até que a máquina seja reparada?

É comum na ficção científica pensar nas máquinas com inteligência artificial altamente desenvolvida como seres que atingem a perfeição mental e conseguem promover qualquer atividade sem falhas. Isso chega ao ponto de se conceber histórias nas quais as máquinas se dão conta de que os humanos são ineficientes e devem ser expurgados como se fossem uma doença.

A sonda Nomad e capitão KirkNo episódio The Changeling, da série clássica de Jornada nas Estrelas, uma sonda espacial chamada Nomad carrega como objetivo destruir toda imperfeição. Como ela considera somente as máquinas como seres de funcionamento perfeito, vaga pelo universo aniquilando toda forma de vida orgânica. É o mesmíssimo tema de Jornada nas Estrelas: O Filme, no qual a sonda Voyager 6, autorrebatizada de V’Ger, foi transformada pelos habitantes de um planeta habitado por robôs e viaja pelo universo destruindo os seres vivos. Ela considera que a nave estelar Enterprise está infestada por “unidades de carbono” (ou seja, seres vivos).

No filme Eu, Robô, o computador V.I.K.I. mata humanos que ela considera prejudiciais à humanidade, ao mesmo tempo, paradoxalmente, violando e obedecendo às Três Leis da Robótica.

Essas máquinas inteligentes se imaginam mais perfeitas do que os humanos e, num tipo de representação ideal do universo como um mecanismo perfeitamente ordenado, rejeitam qualquer tipo de ser que seja instável (que tenha emoções)  e sujeito ao erro. Mas os autores dessas histórias talvez esqueçam que as máquinas cometem erros. Quem usa Windows sabe disso.

"Um erro ocorreu a criar um aviso de erro"

Não é impossível, por exemplo, que, por um erro interno ao funcionamento de um website, este incorra numa violação do tipo 404. Até uma calculadora pode errar. Por que um robô altamente avançado não erraria? Podemos imaginar, é claro, que um conjunto de processadores ultrarrefinados no cérebro de uma máquina faça milhões de operações e inclua entre estas reparos instantâneos dos erros mais comuns. Da mesma forma que a mente humana é capaz de se corrigir quando pronunciamos uma palavra errado ou quando confundimos uma coisa com outra.

Mas, como sabemos, o paraquedas reserva não tem um sobressalente. Qualquer máquina, por mais avançada que seja, é passível de defeitos. E dificilmente aprenderá com os próprios erros, coisa que o ser humano (às vezes) faz bem.

Outra controvérsia nesse comportamento robótico é que as máquinas são feitas originalmente para servir aos seres humanos, seus criadores. Seu objetivo inicial contradiz completamente essa tendência a “destruir a imperfeição”. Para quem será o mundo livre de seres vivos? A resposta óbvia é: “para as máquinas”.

Portanto, instalar uma máquina eletrônica de controle de ponto que obrigue os funcionários a cumprir uma função mecanicamente tem como consequência fazer o servidor viver para o trabalho. Aqueles que moram longe do trabalho e/ou que tenham que pegar ônibus para se deslocar (como é meu caso) terão pouco tempo livre para viver e até para usar o dinheiro que ganham como retorno ao trabalho prestado.

Não é à toa que muitos pensam que estamos rodeados de prenúncios da Matrix?

O futuro nas mãos de um robozinho

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Confesso que a expectativa gerada pelos inúmeros polegares em riste e comentários sorridentes sobre WALL-E me fizeram esperar demais de um filme que é apenas sublime, mas a sensação que tive ao vê-lo foi a de que é um ótimo filme. Talvez, assistindo a ele de novo, eu possa aproveitar mais da obra genial que indubitavelmente (e olhe que eu tenho mania de duvidar de qualquer coisa) é.

Warning: Spoilers!

Não há mais mundo. Só sobrou a Terra, desabitada. O único ser autoconsciente que restou funcionando não é um ser vivo. Aliás, há sim um mundo, um particular, o de Wall-E (Waste Allocation Load Lifter Earth-Class), e como o compartilha apenas com uma barata, pode-se dizer que a Terra/mundo é toda sua. E há muito tempo, tendo em vista o estado sujo e enferrujado de seu corpo metálico. 700 anos, para ser menos impreciso.

Então o céu lhe envia Eva (Eve no original, Extra-terrestrial Vegetation Evaluator), e ele se apaixona. Ela tem charme, poderes incríveis, voa e, enfim, é alguém com quem pode conversar:

Wall-E: Wall-E!
Eva: Wall-E? Eva!
Wall-E: E-a?
Eva: Eva!
Wall-E: Eva!

Wall-E caminha sobre lagartas metálicas sujas de terra. Eva voa elegantemente. O corpo dele tem formas angulosas, enquanto o dela é sinuoso e curvilíneo. Ele é frágil e está sempre consertando suas partes velhas e quebradas. Ela é forte e altamente resistente. Mas eles têm muito mais em comum do que à primeira vista parecem ter, a começar pelo fato de se expressarem principalmente pelos olhos.

E ela é tudo o que ele mais queria, tudo de que ele sentia falta ao assistir a filmes românticos de séculos atrás. Wall-E era como Adão, sozinho na Terra para organizar o mundo, sentia falta de uma companhia, de alguém como ele. Mas o robozinho singelo, com sua maravilhosa coleção de tranqueiras, também tinha algo que Eva queria. Em meio às bugigangas de sua caixa de Pandora, há uma esperança verde, uma plantinha, e toda plantinha guarda em si uma semente, e era esta semente que ela queria, e foi esta semente que ela tomou dele e guardou em si. E ficou grávida.

Eva é raptada. Ela já é parte importante do mundo de Wall-E. Mas o céu vem buscá-la de volta, e ele não pode deixar de ir com ela. José Onofre, na última edição da CartaCapital, escreveu um pequeno artigo sobre Alfred Hitchcock:

[…] Hitchcock se coloca a questão imediata: que tipo de história tem esta emoção que o cinema deve oferecer ao seu espectador? E avança: “Uma história de amor. Um homem encontra uma garota, eles se apaixonam, ela desaparece e ele precisa encontrá-la.”

Com esse ponto fixado, ele vai buscar variações.

A situação em que estão os humanos que Wall-E encontra na estação espacial Axiom é lamentável. Todos são obesos e têm pernas atrofiadas, pois desde o nascimento se acostumam a ficar reclinados em poltronas flutuantes que os levam a (quase) qualquer lugar, e que serviam originalmente apenas para os idosos que não podiam mais andar. Estão todos tão absortos em telinhas holográficas perante seus olhos que, quando Wall-E ajuda John a subir à sua poltrona, o rápido contato entre os dois se torna extremamente significante para o homem, que não vai mais esquecer do robozinho. O mesmo para uma mulher que nunca havia visto o cenário à sua volta, ao ter desligada sua telinha holográfica por Wall-E.

Assim, WALL-E é um alerta para uma situação já corrente. O ser humano se deixa dominar pelas máquinas (tema já tão batido em Matrix e Extermindor do Futuro), e adoece seu corpo, sua mente, suas relações com os outros. Ele se robotiza. E tudo está relacionado à doença da Terra, que só depois de 700 anos de ausência humana pôde dar à luz um pouco de clorofila.

Wall-E ainda faz um sacrifício para salvar Axiom do controle de Auto, um robô-timão que deveria obedecer ao capitão da estação, mas que está programado para sabotar o retorno à Terra. Todos, robôs e humanos, se mobilizam, mas Wall-E sacrifica a própria integridade física, e o Paraíso, a Terra, é reconquistado. Eva tem tantos poderes que é até capaz de reconstruir seu amado, mas nenhuma de suas super-habilidades tecnológicas podem trazer de volta a alma de Wall-E. Somente um gesto de amor o fará.

Nesta cena, fiquei com uma sensação parecida com a que tive no desfecho de 10.000 A.C., quando Evolet, a amada de D’leh, desfaleceu. O amor dele por ela foi a desculpa para que ele libertasse vários povos da opressão de um império. Se o filme fosse europeu, provavelmente ela teria morrido. Da mesma forma, Wall-E quase morre. Ele era a chave para que os humanos retornassem à Terra, já havia cumprido seu papel, não era necessário que sobrevivesse. Mas, talvez em parte por influência do mito cristão, ele ressuscitou. Mas agora percebo que o gesto de amor de Eva era uma forma de mostrar que na personalidade de Wall-E estava sua maior força e fortaleza, e ele foi capaz de resistir à morte.

Entre os símbolos consagrados do poder estão a mão, o olho e a voz. E é interessante constatar que os rostos dos protagonistas, Wall-E e Eva, se resumem aos olhos, e estes, junto às suas repetitivas vozes monótonas e suas mãozinhas, bastam para que se comuniquem e para o espectador compreender tudo o que se passa entre eles. Depois de se sacrificar como um mártir e ser reconstruído por Eva, sem seu olhar idiossincrático, sem sua simpática voz e sem emoção nas mãos, Wall-E se torna apenas um Wall-E, apenas um robô como os de sua espécie. É sua hisória particular que o torna único, e ele consegue ser mais autêntico do que os seres humanos robotizados da Axiom.

Adendo

Jogue Space Escape

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