Éowyn e os Homens

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J. R. R. Tolkien pode ser considerado um autor extremamente imaginativo e criador de histórias instigantes, além de ser reconhecido como uma das maiores influências do gênero “alta fantasia” (high-fantasy). Eu admiro sua obra, em suas virtudes e com seus defeitos. O que é dizer que há elementos em seus escritos que podem perfeitamente ser criticados sob uma luz contemporânea.

Um desses elementos é o racismo sub-reptício em sua caracterização dos povos humanos da Terra-Média, especialmente visível em O Silmarillion, onde há humanos de natureza mais nobre, mais parecidos com europeus, e humanos de caráter mais vil e servil, cuja aparência remete aos médio-orientais e/ou aos africanos.

Também é notório o androcentrismo da obra, elemento estrutural de suas narrativas que não está lá à toa, tendo em vista o autor pertencer a uma época e a uma cultura que tinha (e a ainda tem) no homem (do sexo masculino) o modelo arquetípico de ser humano. Não é irrelevante notar que Tolkien era um cristão devoto e que o Cristianismo é tradicionalmente machista: Adão foi criado à semelhança de Deus; Eva foi criada para servir Adão.

Não é que sua obra, sendo de natureza literária, não possua pistas e chaves para a desconstrução de valores tradicionais como os papéis de gênero e as identidades de gênero. É possível perceber na leitura de O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, entre outros escritos de Tolkien, detalhes importantes e pertinentes para ver nesses livros o caráter transgressor da Literatura, este apontado por Roland Barthes em sua Aula, mesmo que no caso do escritor britânico essa subversão seja tímida.

Melanie Rost, por exemplo, em seu ensaio Masculinity in Tolkien, mostra que diversas figuras masculinas da obra do escritor subvertem o ideal de masculinidade presente na tradição literária fantástica europeia. Aragorn, por exemplo, é diferente dos reis tradicionais de histórias como as de Arthur, pois conquista seus súditos com amor e não com glória bélica. Bilbo é diferente dos heróis convencionais, pois conquista seu heroímo através do uso da conciliação e não de seu valor em batalha, a qual evita a todo o custo.

Homens, Anões, Hobbits e Elfos

“Homens”, Anões, Hobbits e Elfos

Homens

Uma das coisas que me chamaram muita atenção desde a primeira vez em que li O Senhor dos Anéis foi a forma como Tolkien se refere à raça humana: Homens ou, em inglês, Men, sempre com inicial maiúscula (outras raças também era nomeadas com maiúsculas: Elfos, Anões, Hobbits etc.). Esse modo de designar a espécie humana com uma palavra que também denota o indivíduo de gênero masculino desta espécie não é nada muito diferente do tradicional, na realidade, pois é comum até hoje as pessoas se referirem aos seres humanos de ambos os gêneros como “homens” (“men”), e ao ser humano em geral como “o Homem” (“Man”), este às vezes com inicial maiúscula, para diferenciar da referência a um indivíduo específico. Ora, vejamos as definições tradicionais de man e de homem, retiradas, respectivamente, dos sites-dicionários Oxford Dictionaries (inglês) e Priberam (português) (os exemplos e significados derivados foram suprimidos, mas podem ser conferidos nos respectivos sites originais):

Definition of man in English:
noun (plural men /mɛn/)

1. An adult human male:
(…)
2. A human being of either sex; a person:
(…)
2.1 (also Man) [in singular] Human beings in general; the human race:
(…)

ho·mem
(latim homo,inis)
substantivo masculino

1. [Zoologia]  Mamífero primata, bípede, com capacidade de fala, e que constitui o .gênero humano.
2. Indivíduo masculino do .gênero humano (depois da adolescência).
3. [Figurado]  Humanidade, .gênero humano.
4. Cônjuge ou pessoa do sexo masculino com quem se mantém uma relação sentimental e/ou sexual.
5. Pessoa do sexo masculino que demonstra força, coragem ou vigor.

O sentido dúbio da palavra homem está instrinsecamente relacionado à representação androcêntrica do ser humano como um ser modelarmente masculino, uma representação que enxerga sub-repticiamente (às vezes explicitamente) as mulheres como uma variação do ser humano “normal”, uma criatura secundária, até mesmo incompleta comparada ao modelo ideal masculino (esta visão da mulher como um “homem defeituoso” era explicitamente defendida na Grécia Antiga, cuja cultura exerce influência milenar sobre nós). (No artigo A Evolução do Homem Branco eu explorei um pouco esse tema, inclusive a representação do ser humano idealizado como branco-europeu.)

Em Tolkien, como já afirmei acima, não se foge dessa nomenclatura tradicional e antiga. Porém, é interessante notar o uso específico pelo escritor britânico das formas Man, Men, man e men. Quando usa a palavra com inicial maiúscula (tanto no singular quanto no plural), Man/Men se referem à raça mortal à qual, por exemplo, pertencem Boromir de Gondor e Éowyn de Rohan. Quando escrito com minúscula, man/men designa indivíduos específicos do sexo masculino, em alguns casos até mesmo de raças não humanas (essa dicotomia, traduzida para o português, não traz diferença significativa em relação ao original inglês). Assim, Boromir e Éowyn são Homens (maiúsc.), pertencem à raça Homem (maiúsc.), enquanto Galadriel e Meriadoc Brandebuque, sendo respectivamente uma Elfa e um Hobbit, não podem ser chamados de Homens (maiúsc.); por outro lado, se Boromir é um homem (minúsc.), Éowyn não o é, pois pertence ao gênero feminino, é mulher; Galadriel também pode ser referida, nos termos de Tolkien, como uma mulher Elfa, enquanto Meriadoc pode ser chamado de homem (minúsc.) Hobbit.

Éowyn

Entretanto, uma das cenas mais impactantes de O Senhor dos Anéis coincide com um momento em que Tolkien flerta com uma subversão dessa regra: o embate entre a guerreira Éowyn e o Senhor dos Nazgûl, no capítulo “A Batalha dos Campos de Pelennor”. Esse momento fatídico é a culminação de um ato de rebeldia da sobrinha do rei Théoden, proibida por este de participar da batalha nos campos de Pelennor. Disfarçada com um elmo, Éowyn, usando o pseudônimo Dernhelm, não só adentra as fileiras de seus conterrâneos Rohirrim como leva seu amigo Meriadoc, mais conhecido como Merry, o Hobbit que também fora instado pelo rei a ficar com as mulheres e crianças durante o conflito.

Depois que o Rei-Bruxo derruba Théoden de seu cavalo e entrega a montaria do monarca como presa à sua própria montaria alada, Éowyn se interpõe temerariamente diante do inimigo, ao que este responde com uma zombaria (a tradução em português é da edição da Martins Fontes):

Thou fool. No living man may hinder me.

[Tu és tolo. Nenhum homem mortal pode me impedir!]

A guerreira remata:

But no living man am I! You look upon a woman. Éowyn I am, Éomund’s daughter. You stand between me and my lord and kin. Begone, if you be not deathless! For living or dark undead, I will smite you, if you touch him.

[Mas não sou um homem mortal! Você está olhando para uma mulher. Sou Éowyn, filha de Éomund. Você está se interpondo entre mim e meu senhor, que também é meu parente. Suma daqui, se não for imortal! Pois seja vivo ou morto-vivo obscuro, vou golpeá-lo se tocar nele.]

Resumindo o restante da cena, o Nazgûl hesita, Éowyn decapita o monstro alado, o inimigo ameaça atacá-la com sua maça, Merry atravessa o joelho do dele por trás com uma adaga, ela golpeia com sua lâmina a cabeça do vilão e este se deteriora em pleno ar.

O que esta sucessão de acontecimentos e, especialmente, essa troca de palavras entre a heroína e seu oponente me leva a pensar em termos de significado e ressignificação é a desconstrução que o texto de Tolkien faz de sua própria forma androcêntrica de conceber a humanidade. A narrativa neste trecho é extremamente densa, e o trocadilho que envolve a palavra “man” (“homem”) serve, explicitamente, para criar um efeito dramático que provoca um arrepio na espinha do leitor, pois a profecia do Nazgûl é posta em cheque pela quebra da expectativa de estar diante de um indivíduo do sexo masculino, contrariando ao mesmo tempo o preconceito de que num campo de batalha qualquer Homem (maiúsc.) deveria ser um homem (minúsc.).

Porém, mais do que perceber com os sentidos que se trata de uma pessoa do sexo feminino, podemos pensar que é o discurso de Éowyn que realmente provoca impacto sobre a postura desafiadora do Nazgûl: ele poderia continuar pensando, mesmo depois de ver a mulher, que ela continuava sendo um Homem (maiúsc.), ou seja, um ser humano, já que, embora o texto mostre a palavra com minúscula, na fala essa diferença de escrita é despercebida. Assim, quem acerta o primeiro golpe no duelo é Éowyn, com suas palavras, e estas já provocam o efeito que seu inimigo pensou que evitaria: ele hesita, ou seja, ele se detém (hinder), o que de certa forma já dá início a sua derrota.

O trecho pode ser lido, repito, como um momento de autodesconstrução do próprio texto. A fala de Éowyn desafia a designação tradicional do ser humano como “Homem”, tendo em vista o valor machista veiculado (intencionalmente ou não) por meio desta palavra. Se o Nazgûl, em princípio, deixa implícito que “living man” pode se referir a qualquer ser humano, o feroz contragolpe, neste duelo de palavras, chega mesmo a desconcertar o decoroso Lorde, ressoando talvez o desconcerto do leitor do livro ao descobrir que aquele jovem cavaleiro chamado Dernhelm é na verdade a sobrinha do rei, e as circunstâncias da luta concretizam o que estava previsto: o Nazgûl é detido e morto pelo golpe de uma mulher, não de um homem.

Ainda mais interessante é a profundidade que esta desconstrução e jogo de palavras alcançam se notarmos que Merry teve participação na derrota do vilão. Ele, Merry, não é um Homem (maiúsc.), embora seja, nos termos tolkenianos, um homem (minúsc.). Um Hobbit, não um Homem, também conseguiu deter (hinder) o Nazgûl com um golpe em seu joelho. Esse elemento adiciona mais sentido a essa desconstrução ao evidenciar a possibilidade de confusão entre os termos com maiúscula e com minúscula, confusão “proposital” que faz parte da própria ideologia da desigualdade de sexo/gênero, responsável por manter a ideia de que o homem do sexo masculino é o modelo padrão de ser humano; ao escutar em voz alta o texto dessa passagem do livro, não temos como identificar a marcação da diferença na letra minúscula: nem Éowyn nem Merry são (h/H)omens.

Podemos deixar essa equivalência fonética e semântica mais clara, vendo o trecho do filme O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, que corresponde ao capítulo “A Batalha dos Campos de Pelennor”, onde o diálogo foi reelaborado, mas o trocadilho se manteve e o efeito dramático mudou com o uso dos efeitos visuais.

Esclarecimentos

A ideia da desconstrução do androcentrismo estrutural reproduzido pela língua tem sido debatida entre feministas, desde pelo menos a primeira metade do século XX, com Simone de Beauvoir, e por linguistas de diversas vertentes, especialmente na área da Análise do Discurso, como a Linguística Sistêmica Funcional (Michael Halliday etc.) e a Análise Crítica do Discurso (Norman Fairclough etc.). Digo isso principalmente para que os desavisados não pensem que estou inventando moda, ou que só eu e alguns felinos gotejados estamos enxergando folículos capilares em óvulos não-fecundados de aves galináceas.

Também adianto, antes de mais nada, que gosto muito dos livros de Tolkien e que qualquer obra realizada por seres humanos portadores de individualidade única está sujeita a altos e baixos sob o olhar de quem a admira, como disse no início do texto, em suas virtudes e com seus defeitos que a tornam um objeto singular, para apreciação e para crítica. Ambas podem enriquecer a obra ainda mais.

Fontes bibliográficas

  • TOLKIEN, J. R. R. The lord of the rings – 50th anniversary edition. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 2004.
  • _______. O senhor dos anéis: o retorno do rei. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Links

Imagens

  • Destaque: Éowyn du Rohan, por Donato Giancola
  • JRR Tolkien, por Audrey Benjaminsen – DeviantArt
  • Elrond Recalls the Hosts of Gil-Galad, por Michael Kaluta
  • Trecho de Éowyn Before the Doors of Meduseld, por Michael Kaluta
  • Éowyn and the Nazgûl, por John Howe
  • Éowyn & Nazgûl, por Donato Giancola

Star Wars IV: Uma Nova Esperança

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Título original: Star Wars – Episode IV: A New Hope

Direção: George Lucas

Ano: 1979

País: EUA

Em 1979, um cineasta norte-americano iniciante chamado George Lucas traria a público uma obra revolucionária às telonas. Inspirado nos clássicos da space opera do cinema e da televisão, Star Wars (Guerra nas Estrelas) apresentou uma épica aventura espacial, com uma aura de grandiosidade nunca vista antes e com efeitos especiais inéditos. Era um filme completo, mas Lucas aproveitou a enorme repercussão para trazer à tona o projeto inteiro, que incluía mais dois filmes, e rebatizou Star Wars como Star Wars – Episode IV: A New Hope (Guerra nas Estrelas – Episódio IV: Uma Nova Esperança), localizando a história in media res, num contexto mais amplo de uma cronologia ainda mais grandiosa.

Há vários fatores que fizeram desse filme um sucesso. Entre eles podemos destacar o impacto áudio-visual, com uma trilha sonora espetacular e efeitos especiais extraordinários para a época, e o fato de transformar um gênero pouco apreciado pelas massas (ficção científica/fantasia) num blockbuster. Mas há ainda o fato de ser uma fábula repleta de simbolismo mitológico que renovou a apreciação pela aventura fantástica, colocando num cenário de ficção científica uma narrativa digna dos grandes épicos mágicos. Star Wars é tão emblemática entre as mitologias modernas que serve de exemplo para o notório esquema conhecido como jornada do herói, proposto por Joseph Campbell.

Como já disse alhures, não considero Star Wars como uma história de ficção científica. Vejo-a mais como uma aventura épica e fantástica com elementos de ficção científica. Assim, não penso ser pertinente abordar esse filme tendo em mente o que a Ciência e a Tecnologia implicam para os ser humano. Essa abordagem serve mais para Star Trek. Neste primeiro episódio da saga espacial de George Lucas, vale mais discorrer sobre a relação entre personagens, arquétipos, simbolismos e moral. Não que não se possa explorar o aspecto sci-fi de Star Wars (como fiz, por exemplo, no artigo Alienígenas em Star Wars), mas são discussões que extrapolam a fábula básica do filme.

Introdução

Tudo começa “há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante”. Essa fantástica introdução nos apresenta uma aventura com teor mitológico, lendário, com um quê de conto de fadas. Colocando o espectador diante de uma fábula atemporal e sem referências espaciais reais, vemo-nos adentrando um outro mundo, um outro universo em que tudo é possível.

Ao mesmo tempo, podemos nos deixar imaginar se a relevância de contar e apreciar essa história tem alguma coisa a ver com entender nosso próprio passado. Será que os humanos vieram para a Terra dessa outra galáxia? O que as aventuras de seres alienígenas num tempo e espaço tão distantes podem nos ensinar sobre nossa realidade na Via Láctea, na Terra?

Sinopse

Um destróier imperial intercepta uma nave diplomática que carrega uma espiã da Aliança Rebelde e planos contra o Império Galáctico. A cena resume bem a relação desigual entre as duas facções. O Império tem poderio tecnológico e bélico muitíssimo superior ao da Aliança, e é extremamente confiante em sua capacidade de desbaratar os humildes esforços dos rebeldes, que tentam minar a política opressiva de seus adversários. O cotejo das figuras de Darth Vader, alto e imponente em armadura negra, perante a Princesa Leia Organa, aparentemente frágil com seu vestido branco, mostra um resumo da relação entre as forças imperiais e os rebeldes. Estes não têm medo de enfrentar um poder muito maior do que o deles, e aqueles se utilizam de quaisquer meios persuasivos que estiverem à mão para suprimir a rebelião.

Enquanto isso, Luke Skywalker vive uma vida tranquila com tio Owen e tia Beru, num recanto desértico do planeta Tatooine. Luke não sabe quase nada sobre seu pai, apenas sabe que os tios não gostam de tocar no assunto. Logo de início, vemos esse jovem simples e ansioso para descobrir seu passado, tornar-se um piloto e realizar seu sonho de desbravar as estrelas.

Dois robôs atrapalhados lhe trarão uma mensagem, como um sinal do destino, um chamado para a aventura que o levará a conhecer Obi-wan Kenobi e a descobrir que seu pai foi um grande guerreiro jedi assassinado pelo maléfico Darth Vader, este também um jedi que sucumbiu ao lado sombrio da Força e se tornou um dos bastiões do Império que hoje domina a galáxia. Embora Luke tenha uma profunda ânsia de viajar para além da atmosfera de Tatooine e entenda a importância de se tornar um jedi como seu pai, brandindo o sabre-de-luz deste, que o mestre Obi-wan lhe entrega como legado, o rapaz ainda está preso a sua vida comum.

Porém, o Império Galáctico está em busca dos dois robôs e destrói a casa de Luke, carbonizando seus tios. Sem mais nenhum laço que o prenda a Tatooine, o jovem aprendiz de jedi, com R2D2 e C3P0, se une ao seu novo velho mestre e a aos contrabandistas Han Solo e Chewbacca, todos aliados para resgatar a Princesa Leia, uma das lideranças da Aliança Rebelde que luta contra o Império.

Por sua vez, Leia passa por uma situação semelhante de perda. Tendo sido capturada por Darth Vader e Moff Tarkin, dois altos oficiais do Império, a princesa, para revelar os planos da Aliança, é obrigada a assistir à aniquilação de seu planeta-natal Alderaan, através do uso da gigantesca arma de destruição de planetas chamada Estrela da Morte. Tendo agora pouco a perder de sua vida pessoal, Leia estará mais livre para se tornar uma das principais guerreiras entre os rebeldes.

Junta-se então um grupo de heróis improváveis: um jovem ingênuo e simples, um ancião, dois robôs atrapalhados, dois contrabandistas fora-da-lei e uma princesa juntam-se contra a grande potência imperial. Nesse conflito, Obi-wan, o ancião guerreiro, é morto num duelo contra Darth Vader, o que simboliza mais uma perda para Luke e a passagem de bastão (ou de sabre-de-luz) para o novo guerreiro jedi em formação. Apesar dessa perda, o grupo cumpre sua missão: descobrir uma forma de sabotar e destruir a Estrela da Morte.

O clímax da história se dá quando uma pequena frota de caças rebeldes se põe a assaltar a gigantesca Estrela da Morte, como se um grupo de cavaleiros estivessem atacando uma imensa fortaleza impenetrável. A parca tecnologia disponível à Aliança se opõe à majestosa e avançada máquina de guerra imperial. Porém, o papel de Luke Skywalker é decisivo para a conclusão da tarefa, pois somente quando ele abre mão dos sensores da nave e passa a confiar na Força é que consegue atingir o ponto fraco da estação imperial, destruindo-a e a todos os oficiais do Império que estão lá dentro.

A humildade da Força contra a arrogância tecnológica do Império

É preciso entender o que são os jedi neste universo para compreender o curso dos eventos dessa história. Também chamados de cavaleiros jedi, esses soldados especiais costumavam ser os guardiões da República Galáctica, antes de esta ser derrubada pelo imperador. Eles utilizam a Força para realizar proezas sobrenaturais, como mover objetos com a vontade, controlar indivíduos de mente fraca, perceber o ambiente com sentidos não-físicos e prever o futuro. Obi-wan é um jedi, assim como Darth Vader é uma espécie de jedi do lado sombrio (na trilogia dos episódios I, II e III, revela-se que esses jedi do lado sombrio são chamados de sith), o pai de Luke era um jedi e este está aprendendo a ser um sob a tutela de Obi-wan.

Os jedi e sith tendem a confiar muito mais na Força do que na tecnologia avançada, sujeita a falhas. É interessante perceber, por exemplo, a fé de Darth Vader na Força e seu desprezo pela superconfiança dos oficiais do Império na tecnologia bélica da Estrela da Morte. Perante um oficial que zomba dos poderes dos jedi, Vader ameaça:

I find your lack of faith disturbing. [Sua falta de fé me perturba.]

Em outro momento, ele ressalta, diante da arrogância de Moff Tarkin e sua confiança exagerada na Estrela da Morte:

The ability to destroy a planet is insignificant next to the power of the Force. [A habilidade de destruir um planeta é insignificante comparada ao poder da Força.]

Sua assertiva é profética. De fato, os pilotos rebeldes que tentaram acertar um tiro no diminuto ponto fraco da Estrela da Morte erraram, mesmo utilizando um sistema de mira automática de seus caças. Luke, no momento crucial, abandona a mira automática e passa a usar sua recém-aprendida habilidade com a Força para sentir o momento e o local certo do disparo. Ou seja, ele teve de abandonar sua confiança na alta tecnologia. Sua humildade se contrapôs à arrogância de Moff Tarkin, que até o fim não arredou pé de sua estação bélica e morreu com ela.

Abrir mão do apego (à tecnologia, no caso de Luke) por uma causa maior do que si mesmo é também o que faz Han Solo. O contrabandista ficara satisfeito com a recompensa recebida por seus serviços e deixara a luta dos rebeldes. Mas no final do conflito ele decide retornar e salva Luke de um ataque direto de Darth Vader, que perseguia Luke em seu próprio caça imperial. É bastante relevante notar, por outro lado, que Vader fez a mesma coisa que Luke e Han, pois decidiu ir pessoalmente enfrentar os pilotos rebeldes ao invés de confiar no mero poder tecnológico da Estrela da Morte, o que inclusive o salvou de ser destruído junto com a estação e Moff Tarkin.

O uso da Força contra o poderio tecnológico pode ser entendido simplesmente como o reconhecimento do poder do ser humano perante a imponência fria e opressiva dos artifícios eletromecânicos. A figura de Darth Vader, desde então, pode ser entendida como um amálgama dos dois lados dessa dicotomia, e esse conflito interno seria explorado de forma muito interessante em seu embate com Luke Skywalker nos capítulos seguintes da saga.

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Por uma literatura (re)criativa

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O leitor ou ouvinte não é um simples receptor de mensagens. Ao se identificar com o texto escrito ou verbalizado, o ser social mistura-se ao texto, reproduzindo sentidos, mas não a um texto qualquer. Estariam excluídas as narrativas inautênticas e de parcos recursos artísticos. Será? O presente ensaio elabora argumentos em defesa do potencial libertador dos contos de fadas, literatura considerada trivial ou de entretenimento.

Chapeuzinho Vermelho por Gustave Doré

Chapeuzinho Vermelho por Gustave Doré

Os contos de fadas, quando recontados em livros destinados ao leitor criança, são considerados literatura trivial, de entretenimento ou mitológica. Os autores Jerusa Pires Ferreira e Flávio Kothe (1), citados por Borelle (1996), definem literatura trivial como sendo aquela que valoriza sentenças de frases feitas, carregadas de clichês e constante descritividade.

José Paulo Paes (2), também citado por Borelle (ibid), entende que literatura de entretenimento faz parte da cultura de massa, onde a originalidade de representação tem existência quase nula. O autor coloca no balaio da literatura de entretenimento o romance policial e de aventuras, a ficção científica e a ficção infanto-juvenil (como os contos de fadas).

Em oposição à literatura trivial ou de entretenimento está a de proposição, termo apropriado por Antônio Fernandes de Medeiros Júnior (3) (2011) para descrever o tipo de literatura que, ao ser autorizada pelo leitor, realoca seu lugar (do leitor) no mundo.

Se aceitarmos a construção semântica de Medeiros para o termo literatura de proposição – como sendo aquela que produz sentido para além do texto –, como definir os limites desta ou daquela literatura tendo como referência apenas a estrutura da mensagem? Ora, se as palavras escritas dependem do leitor para que façam sentido, determinar que contos de fadas, ficção científica, ou romance policial (todos) fazem parte de uma literatura de entretenimento não é o mesmo que desconsiderar a reação singular do leitor?

O antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin (4) coloca que a complexidade manifesta-se no plano da ação, naquilo que chama de ecologia da ação. Para Morin, uma ação não depende somente da vontade daquele que a pratica.

Ao fabricar os primeiros aviões, o mineiro Santos Dumont não imaginava que anos mais tarde sua invenção ganharia os céus dos países imersos na Primeira Guerra Mundial. Não imaginava também que, mesmo não sendo atingido por mísseis lançados dos ares, morreria pelos destroços de dirigíveis e aeroplanos em sua cabeça.

A ação, como explica Morin, depende também dos contextos em que ela se insere, das condições sociais, biológicas, culturais, políticas que podem ajudar o sentido daquilo que é a nossa intenção. Dessa forma, as ações podem ser praticadas para se realizar um fim específico, mas podem provocar efeitos contrários aos fins que pretendíamos.

Assim como as de Santos Dumont, as ações de Carlos Drummond de Andrade, Joaquim Maria Machado de Assis, João Guimarães Rosa,  Haia Pinkhasovna Lispector, Cecília Benevides de Carvalho Meireles, Angenor de Oliveira (dentre outros) também são constantemente transformadas por leitores e ouvintes, inscritos em condições sociais, biológicas, culturais e políticas específicas.

Alguns desses receptores são capazes de ampliar o que leem, veem ou ouvem. Outros são capazes de ignorar. Mas há também os que conseguem reduzir. Pensando assim, por que as narrativas lineares, com fórmulas repetidas, representações recorrentes não poderiam receber o status de boa literatura, quando ressignificadas pelo leitor?

Não por obra do acaso, os contos recolhidos pelos Irmãos Grimm, Charles Perrault, La Fontaine e outros arqueólogos de baús de histórias tenham conseguido perpassar gerações tão díspares, preservando uma relação fulgurante, expressiva e ardente com o leitor ou ouvinte.

Quando os primeiros contos foram recolhidos, estava em vigor a tradição oral camponesa. As narrativas não traziam moral da história, muito menos revelavam um final feliz. Ao invés disso, estampavam-se de crueldade (humana e da natureza), manipulavam objetos cênicos de riquíssimo valor simbólico e enveredavam-se nas curtas tramas, cujo objetivo era ajudar os aldeões a atravessar as noites.

Estas histórias cruzaram o tempo-espaço para nos séculos XIX e XX impulsionarem a organização de uma ficção propriamente infantil. Segundo os autores Diana e Mário Corso (5) (2006), as histórias para crianças desse período não parecem ser estruturalmente muito diferentes dos contos de fadas, no que tange à capacidade de fornecer elementos que as ajudem a elaborar suas questões. Para os autores, mudam os temas, mas a operação continua a mesma.

A história de Chapeuzinho Vermelho, contada a seguir, foi recolhida da tradição oral camponesa, por Charles Perrault no século XVII. A história não apresenta um final feliz e claramente não contribui para a elaboração de uma moral da história, cujo objetivo é formatar crianças obedientes. De outro modo, alerta para os perigos de um contato precoce com a sexualidade infantil.

Certo dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e leite para sua avó. Quando caminhava pela floresta, um lobo aproximou-se e perguntou-lhe onde ia.

– Para casa da vovó.

– Por qual caminho, o dos alfinetes ou das agulhas?

– O das agulhas.

O lobo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou primeiro à casa. Matou a avó, despejou seu sangue numa garrafa, cortou a carne em fatias e colocou numa travessa. Depois, vestiu sua roupa de dormir e deitou-se na cama, à espera.

Pa, pam.

– Entre, querida.

– Olá, vovó. Trouxe um pouco de pão e leite.

– Sirva-se também, querida. Há carne e vinho na copa. A menina comeu o que foi oferecido, enquanto um gatinho dizia: “menina perdida!”

“Comer a carne e beber o sangue da avó!”

Então o lobo disse:

– Tire a roupa e deite-se comigo.

– Onde ponho o meu avental?

– Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dele.

Para cada peça de roupa (…) a menina fazia a mesma pergunta, e a cada vez o lobo respondia:

– Jogue no fogo… (etc.).

Quando a menina se deitou na cama, disse:

– Ah, vovó! Como você é peluda!

– É para me manter mais aquecida, querida.

– Ah, vovó! Que ombros largos você tem!

(etc., etc., nos moldes do diálogo conhecido, até o clássico desfecho):

– Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!

– É para comer melhor você, querida.

E ele a devorou.

(CORSO, 2006) (6)

Sem os mesmos elementos e talvez com a representatividade parcialmente mutilada, a história de Chapeuzinho Vermelho (assim como tantas outras) chegou aos dias de hoje, reclamando um espaço na vida das pessoas, contextualizadas na era das imagens artificiais e animadas. Ainda não houve condições biológicas, culturais e políticas que inviabilizassem a interação (re)criativa (posto que o movimento é cíclico) entre leitor ou ouvinte e as histórias. Ainda hoje, quem percebe um conto, acrescenta em si um ponto.

As versões modernas dos contos de fadas, que escondem a carne e o sangue da vovozinha, foram reformuladas no instante mesmo da configuração de famílias nucleares. Nesta nova configuração inventa-se a infância tal qual a conhecemos hoje. “A infantilização das narrativas tradicionais, transformadas nos atuais contos de fadas, é concomitante à criação de um mundo próprio da criança e ao reconhecimento de uma psicologia infantil”. (7)

O conto O Barba Azul, recolhido por Charles Perrault, ganhou uma versão em poema nas mãos de Ruth Rocha. Reconhecida por escrever literatura para criança, Ruth não subestimou o leitor quanto a sua capacidade subversora. Entregou um texto rico esteticamente, sem que para isso fosse necessário furtar a crueldade explicita no conto original. Trata-se de um conto de fadas, com uma proposta para além do estímulo ao consumo.

E quando as jovens partiram,
A moça já não suporta.
Corre pelo corredor,
Pois já nada mais importa.
A chave na fechadura,
Abre finalmente a porta!

Lá dentro, tudo era escuro.
Os olhos, se acostumando,
Começam a ver, aos poucos,
As figuras se formando.
As mulheres, penduradas,
Em ganchos, se balançando!

“Então é esse o segredo?”
Completamente abalada,
A moça corre de volta,
Tropeçando pela escada,
Caindo pelo caminho,
Sobe ao quarto apavorada!

(ROCHA, 2010) (8)

É por mediar o diálogo entre a criança e o universo (o seu e o do outro), que as ficções infanto-juvenis (aqui representadas pelo contos de fadas) não devem frequentar o balaio da literatura recreativa, sem que antes seja verificado o seu potencial transformador. Cabe, neste momento, a defesa por uma literatura para a infância e não apenas acessível às crianças.

Uma história acessível às crianças é uma história capaz de ser decodificada por elas. Uma história para crianças é um pré-texto. São linhas disformes, preenchidas por palavras indecifráveis de uma literatura inconsciente. Os sentidos produzidos serão resgatados em outro momento, quando não for mais possível acreditar em bruxas, princesas imaculadas e fadas.

Histórias não garantem a felicidade nem o sucesso na vida, mas ajudam. Elas são como exemplos, metáforas que ilustram diferentes modos de pensar e ver a realidade e, quanto mais variadas e extraordinárias forem as situações que elas contam, mais se ampliará a gama de abordagem possíveis para os problemas que nos afligem. Um grande acervo de narrativas é como uma boa caixa de ferramentas, na qual sempre temos o instrumento certo para a operação necessária, pois determinados consertos ou instalações só poderão ser realizados se tivermos a broca, o alicate ou a chave de fenda adequados. Além disso, com essas ferramentas podemos também criar, construir e transformar os objetos e os lugares.

(CORSO, 2006) (9)

Pode-se também traçar um paralelo interessante com a poesia através da qual as palavras se tornam ferramentas multiuso. “Freud vai estabelecer uma relação entre criança e o poeta: a criança quando brinca, tal como o poeta quando escreve, situa as coisas do seu mundo em uma nova ordem de sentido. Inventa uma ficção.” (MAGALHÃES, 1998) (10)

Dizer que a ficção infantil, os contos antigos e os de fadas não devem ser considerados como de entretenimento não é o mesmo que colocá-los acima de qualquer suspeita. Existem textos ruins, que reforçam discursos desumanizadores, mas existem os redentores. Que esteja claro, então, que defender a importância do recurso à fantasia não implica supor que as crianças devam crescer em um ambiente de histórias pobres. Além disso, a criança não é tola. Foge de textos-cartilhas, onde a moral é imoral: apresenta-se sem roupas.

Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Precoce

Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Precoce

 

Notas

  1. FERREIRA, Jerusa Pires e KOTHE, Flávio apud BORELLE, Silvia Hlena Simões. Ação, suspense, emoção: literatura e cultura de massa no Brasil. São Paulo: EDUC, 1996.
  2. PAES, José Paulo. apud BORELLE, Silvia Hlena Simões. Op. cit.
  3. CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM LITERATURA BRASILEIRA, UFRN, 2011.
  4. MORIN, Edgar. O Método 6 – ÉTICA. Porto Alegr :Editora Sulina, 2005.
  5. CORSO, Mário e Diana Lichtenstein. Fadas no divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: Artmed, 2006.
  6. Ibid.,p. 17-18
  7. Ibid.,p. 16
  8. ROCHA, Ruth, O Barba Azul. São Paulo: Moderna, 2010.
  9. Ibid.,p.303
  10. MAGALHÃES, Sonia Campos. Dos contos, em cantos. Bahia, Salvador: Ágalma,1998.

Trabalho como parte da avaliação da disciplina Teoria do Texto Poético, oferecida pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN sob orientação do professor, Dr. Antônio Fernandes de Medeiros Júnior. Natal – RN, outubro, 2011.

Star Trek e Star Wars

Padrão

No âmbito dos nerds e geeks aficionados por ficção científica e fantasia, é famigerada a “rivalidade” entre os fãs de Guerra nas Estrelas (Star Wars) e os de Jornada nas Estrelas (Star Trek). Aqueles que se autodenominam trekkers ou trekkies ralham do caráter pouco científico dos elementos fantásticos no universo dos jedi, enquanto os fanáticos pela Força consideram as histórias da Frota Estelar muito chatas e pouco empolgantes.

Essa “rivalidade” se acentua de maneira tragicômica quando atores ícones das duas franquias se pronunciam zombando da série rival, como o fizeram há algum tempo William Shatner (Capitão James T. Kirk) e Carrie Fisher (Princesa Leia Organa). “Jornada nas Estrelas tem histórias melhores”, defende Shatner. “Guerra nas Estrelas tem efeitos especiais”, replica Fisher.

Entretanto, no geral os nerds gostam das duas franquias, podendo haver preferências individuais, mas é importante atentar para que não há comparação entre Star Wars e Star Trek, pois são duas propostas muito diferentes entre si, cada uma desenvolvida de modo bastante díspar, e para quem as conhece soa muito estranho as pessoas confundirem as duas (o que talvez aconteça mais por causa do nome parecido). E é por serem duas propostas diferentes que não há sentido na rivalidade e na concorrência, pois cada uma é apreciável de modo diferente, como bem respondeu George Takei (que interpretou Sulu na série clássica de Star Trek) em resposta aos dois vídeos acima:

Além disso, as duas séries se aproximarão ainda mais agora, tendo em vista que J. J. Abrams, diretor do filme Star Trek, de 2009, e de sua continuação de 2013, estará à frente do próximo filme da franquia Star Wars, indo aonde ninguém jamais esteve na história das rivalidades entre as torcidas nerds.

Portanto, vou explorar um pouco as diferenças entre as duas séries, não para acirrar qualquer divergência ou rivalidade, mas para acentuar a diversidade e incentivar diferentes formas de apreciar obras de ficção científica e fantasia.

Em primeiro lugar…

Jornada nas Estrelas – Star Trek

Jornada nas Estrelas/Star Trek teve início como uma série televisiva norte-americana, idealizada por Gene Roddenberry, que estreou em 1966. A série clássica (The Original Series – TOS) Inicialmente pensada para se prolongar por 5 anos, só durou 3, sendo cancelada em 1969. Ela foi ressucitada por um breve período como uma Série Animada (The Animated Series – TAS) em 1973 e 1974. Voltou à vida definitivamente em 1979, com Jornada nas Estrelas: O Filme (Star Trek: The Motion Picture), e a partir daí foram produzidos mais 5 filmes com o elenco/tripulação da série clássica.

Em 1987, teve início a série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração (The Next Generation – TNG), que durou 7 temporadas, até 1994, com outro elenco/tripulação. Deep Space Nine (DS9) foi outra série, também com 7 temporadas, produzida de 1993 a 1999. A série Voyager (VOY) foi ao ar entre 1995 e 2001, com 7 temporadas também. E Enterprise (ENT), que estreou em 2011, foi cancelada prematuramente em 2005.

Entre 1994 e 2002, foram produzidos 4 filmes com o elenco/tripulação da TNG. Em 2009, Star Trek foi revitalizada com um filme apresentado por um novo elenco, interpretando a tripulação da TOS, que vai estrelar uma continuação em 2013, Além da Escuridão (Star Trek: Into Darkness).

Foram também produzidas muitas histórias em quadrinhos, livros e video games, que enriqueceram esse universo, mas o principal são as séries televisivas.

Guerra nas Estrelas – Star Wars

Guerra nas Estrelas/Star Wars foi um filme de 1977 que iniciou uma grande saga épica no imaginário popular do Ocidente, idealizada por George Lucas. Quando sua continuação foi produzida em 1980, o primeiro filme foi rebatizado como Guerra nas Estrelas – Episódio IV: Uma Nova Esperança (Star Wars – Episode IV: A New Hope). A segunda produção, chamada de Episódio V, foi seguida pelo Episódio VI em 1983.

Os Episódios I, II e III, que contam os acontecimentos anteriores à primeira trilogia, vieram a público em 1999, 2002 e 2005, respectivamente. Uma série animada chamada A Guerra dos Clones (The Clone Wars) foi produzida em 2008, contando eventos entre os Episódios II e III. Em 2015, será lançado o Episódio VII, cuja história ainda é um mistério para o público.

Foram também produzidas muitas histórias em quadrinhos, livros e video games, que enriqueceram esse universo, mas o principal são os filmes.

O começo de tudo

Comecemos pelo início, ou seja, pelo prólogo de cada uma. Star Trek, em seus episódios originais, tem a seguinte entrada, repetida durante toda a série clássica (TOS) e, um pouco modificada, na série A Nova Geração (TNG):

Space, the final frontier. These are the voyages of the starship Enterprise. Its 5-year mission: to explore strange new worlds, to seek out new life and new civilizations, to boldly go where no man has gone before.

[O espaço, a fronteira final. Estas são as viagegns da nave estelar Enterprise. Sua missão de 5 anos: explorar estranhos novos mundos, buscar novas formas de vida e novas civilizações, audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve.]

Esta sinopse geral resume bem alguns dos aspectos dessa série televisiva que estreou em 1966. Ela aponta para uma jornada exploratória ao espaço. Infere-se que as histórias ocorrem no futuro mais ou menos próximo, com o advento de novas tecnologias, e que  o espectador se deparará com novas realidades alienígenas e os decorrentes conflitos, sempre com a tentativa de se os resolver de maneira pacífica, embora às vezes isso não seja possível. Essa entrada é perfeita para uma grande obra de Ficção Científica futurista e especulativa.

Star Wars começa simplesmente assim:

A long time ago in a galaxy far, far away…

[Há muito tempo atrás numa galáxia muito, muito distante…]

Aqui não existem parâmetros com base em nossa realidade. Não sabemos em que tempo exatamente ocorre essa história nem em que local do universo, e portanto não há compromisso do autor com a realidade conhecida. O aspecto atemporal (“A long time ago”) indica possibilidades fantásticas e míticas, enquanto a “galaxy far, far away” implica alguma ligação com a Ficção Cienfítica. Tudo é possível e pode-se esperar qualquer coisa em termos de personagens, tecnologia e raças alienígenas.

Assim como as publicações literárias de Ficção Científica, Star Trek se carateriza pela massiva produção de episódios, neste caso televisivos (embora tenha sido produzida mais de uma dezena de filmes). Isso às vezes empobrece a obra, pois uma produção em massa de vez em quando dá alguns frutos mal-acabados, o que não impede de se encontrar, em grande número, peças esplêndidas, narrativas excelentes e cliffhangers e reviravoltas de trama surpreendentes.

No caso de Star Wars, o projeto original é cinematográfico, com uma produção ambiciosa, e isso levou à criação de uma espécie de romance épico, bem pensado em todos os seus elementos (embora o resultado da realização da segunda trilogia – Episódios I, II e III – não tenha sido bem recebida pela maioria dos públicos).

A narrativa

As histórias de Star Trek se caracterizam como episódios isolados dentro de uma narrativa circular. Cada capítulo gira em torno de um evento crítico, um problema a ser resolvido pelos protagonistas. No fim, as coisas voltam ao normal e a nave retoma seu rumo, preparando-se para o próximo episódio em que o mesmo esquema se repete.

O propósito dessa fórmula é estabelecer um grupo de personagens, cada um com suas habilidades especiais, e colocá-los à prova com um desafio diferente em cada capítulo. Ou seja, os roteiristas imaginam situações e pensam: “como a tripulação vai resolver esse problema?” Por isso há uma marcante identificação de cada personagem em cada uma das séries da franquia (isso vai ser desenvolvido abaixo).

Por outro lado, Star Wars é uma narrativa escatológica, com características épicas e heroicas, focadas na trajetória de um ou dois personagens, desde sua gênese até sua apoteose. Cada um dos dois arcos principais (ou seja, as duas trilogias de filmes) é uma grande história completa traçada segundo o esquema da jornada do herói (Joseph Campbell).

O nome Wars (“Guerra”) caracteriza a fábula de Luke e Anakin Sktwalker como um conflito bélico, destacando heróis de guerra como figuras pivotais. Há complôs políticos, traições, golpes de Estado, a instauração de um regime de terror totalitário e sua consequente derrubada por uma força rebelde.

Ficção Científica e Fantasia

A Ficção Científica é um gênero amplo, que se baseia nas possibilidades aventadas pelo conhecimento científico para explorar enredos fictícios. Neste sentido, ela pode trazer especulações sobre o desenvolvimento da tecnologia e da sociedade, no passado ou no futuro, questionar-se quais seriam seus impactos sobre a vida das pessoas, ou imaginar formas biológicas alienígenas inexistentes (ou não), mas verossímeis e prováveis, bem como uma possível diversidade civilizatória dessas formas de vida.

Considerando esse conceito resumido de Ficção Científica, podemos encaixar perfeitamente a maior parte das histórias da franquia Star Trek neste gênero. Normalmente o mote dos episódios gira em torno de alguma das possibilidades citadas acima, com poucas exceções.

Por outro lado, Star Wars é uma ópera espacial que não se baseia especialmente em elementos científicos. Estes estão ali para compor o cenário e não para servir como mote para a trama. Em essência, Star Wars é uma fábula de capa e espada, uma aventura fantástica com elementos épicos que remetem a O Senhor dos Anéis e outras narrativas míticas (inclusive sendo toda inspirada, em seus personagens e sua trama, nos arquétipos e estruturas narrativas mitológicos).

A ficção científica em Star Wars serve de máscara para uma história heroica, remetendo ao teatro clássico, com episódios de tragédia e drama. O mais notável dos quais é a relação edipiana entre Luke Skywalker e Darth Vader. A sedução inevitável de Anakin Skywalker para o lado sombrio da Força também é tragicamente impressionante. O desenrolar desse épico tem início, meio e fim e a história completa um círculo triunfal, na forma de uma escatologia.

É possível reimaginar, por exemplo, toda a trajetória de Anakin e Luke Skywalker num cenário medieval, no Japão feudal, na Antiguidade grega ou nos moldes da cosmologia de povos indígenas, sem perder a essência de sua proposta (veja acima algumas criações do artista plástico Sillof, colocando os personagens em diversos cenários). Entretanto, não dá para reimaginar a maioria das histórias de Star Trek sem se valer dos elementos científicos, pois é a partir destes que se desenvolvem os episódios.

Personagens

Uma das principais diferenças entre os personagens de Star Trek e os de Star Wars é sua profundidade e complexidade. Resumindo, Star Trek apresenta personagens redondos enquanto Star Wars é encenada por personagens majoritariamente planos.

Eis alguns exemplos da complexidade dos personagens de Star Trek em quatro das séries que formam a franquia:

  • Série Clássica (TOS): O Sr. Spock pertence ao povo do planeta Vulcano, mas é filho de um vulcano com uma humana. Como foi criado para reprimir seus sentimentos, possui uma mente prodigiosamente racional e lógica. Porém, ele muitas vezes surpreende seus colegas e aos telespectadores com atitudes que fogem a esse padrão, e isso ocorre por dois motivos: 1) em algumas situações críticas, Spock se vê tomado pelas emoções reprimidas, e nesses momentos age de maneira ilógica; 2) quando está sóbrio, por se pautar na lógica, no discernimento e numa ética complexa, algumas vezes suas ações parecem fugir daquilo que se espera dele como um oficial da Frota Estelar, e o que parece ser insubordinação se revela um meio genial de se alcançar um bem maior.
  • A Nova Geração (TNG): O intrigante Q, criatura onipotente habitante do Continuum Q, aparece inicialmente como um antagonista e um dos mais perigosos vilões da tripulação comanda pelo capitão Picard. No entanto, à medida que vai aparecendo ao longo da série, ele por vezes ajuda os protagonistas (embora sempre à revelia destes). Q já perdeu seus poderes, tornando-se humano, e os recuperou após ter aprendido a sentir compaixão, já se valeu da ajuda dos mocinhos para realizar seus planos pessoais e já se viu como esposo e pai. No entanto, seu caráter sempre permaneceu ambíguo, nem vilão nem herói.
  • Deep Sace Nine (DS9): Os klingons são um povo cuja cultura é marcada pelo louvor à guerra, à conquista e a honra. Eles costumam cantar os feitos de seus heróis e adoram banquetear bebendo “vinho de sangue” (bloodwine). No entanto, tenente Worf, embora sempre carregue em seu olhar a ferocidade dos de sua raça, possui como marca registrada um siso e uma seriedade, mas sempre se mostrando muito zeloso e conservador com relação à cultura klingon, embora, paradoxalmente, tenha sido criado desde criança por pais humanos. Isso o coloca em grande conflito, por um lado, com humanos e a Federação e, por outro lado, com seus irmãos de sangue e o saudosismo do extinto Império Klingon. Em certo momento marcante, sua noiva pergunta porque ele não possui a alegria de viver que a maioria dos klingons tem, e ele revela que quando criança, jogando rúgbi com seus colegas humanos, acidentalmente matou um deles, o que o traumatizou para o resto da vida.
  • Voyager (VOY): Kathryn Janeway é a capitã da nave estelar Voyager. De início, ela encarna o arquétipo da mãe-rainha, encaregada de cuidar e acolher cada membro de sua equipe, sempre fiel às leis que regem a Federação e a Frota Estelar. Mas no decorrer da série ela mostra várias facetas que a tornam um personagem complexo, como a de guerreira destemida, de amante apaixonada e até a de mulher fatal, quando precisa seduzir um maligno holograma. Muitas vezes se vê diante de dilemas que colocam à prova sua lealdade aos princípios da Federação, e em algumas situações é obrigada a burlar esses princípios com vistas ao bem de sua tripulação.

É claro que estes não são os únicos exemplos. Há muitos personagens redondos em toda a franquia, mas podemos dizer que cada série tem um grau diferente de complexidade em seus personagens, sendo, em minha opinião, a Série Clássica a menos redonda e Deep Space Nine a mais redonda. Também não se pode deixar de afirmar que há vários personagens planos, mas eles não se destacam como protagonistas.

Star Wars, sendo bastante inspirada nas narrativas fantásticas e heroicas e tendo sua trama conduzida pelo esquema da luta maniqueísta entre o bem e o mal, apresenta personagens bem posicionados em seus papéis, sendo possível encaixá-los em dois ou três “lados”. Ou seja, ou os personagens são bons, lutando pelo bem e o Lado Claro da Força, ou são maus e se alinham ao Lado Sombrio da Força.

Quase não ocorrem traições ou mudanças de lado, por exemplo, os personagens bons (aliados à República ou à Aliança Rebelde) serão sempre bons, e os aliados aos Separatistas e ao Império são sempre maus. Alguns indivíduos podem até estar fora desse conflito político, ficando à margem de qualquer afiliação republicana ou imperialista, mas eles sempre estão num dos extremos do espectro. Um exemplo disso é o planeta Tatooine, planeta não-representado pela República e meio esquecido pelo Império, onde vemos personagens maus (como os bandidos de Mos Eisley e a máfia de Jabba) e bons (como a família Skywalker e seus amigos).

Há três notáveis exceções à regra, que assumem um papel ambíguo e uma personalidade conflituosa durante suas respectivas trajetórias na saga: Anakin Skywalker/Darth Vader, Han Solo e Lando Calrissian. Ambos mudam de lado e cada um passa por um período transitório de conflito. Mas mesmo aí se vê uma necessidade de se alinhar o personagem em uma de duas opções, nunca mantendo a ambiguidade por muito tempo. Talvez não por acaso, Darth Vader e Han Solo são dois dos personagens favoritos dos fãs de Star Wars.

Outra diferença entre os personagens das duas franquias diz respeito a sua verossimilhança e sua identificação maior ou menor com os mitos e personagens imaginários.

No cenário da Star Wars, os poderes de uma casta especial de guerreiros é ponto fundamental da trama, pois é entre os jedi que aparece o Escolhido e seu filho. Eles são predestinados desde o nascimento a se tornar elementos centrais dos vários episódios dessa saga épica. Tornam-se figuras notáveis como os grandes guerreiros invencíveis dos mitos antigos, tais quais Hércules, rei Arthur ou Sansão. A decisão de um desses heróis ou os efeitos de eventos externos sobre eles têm consequências galácticas, ou seja, eles têm, individualmente, poder de mudar a história.

Por outro lado, os protagonistas da Star Trek não são super-humanos. Eles se destacam muito mais por suas peculiaridades individuais e idiossincrasias pitorescas que servem de mote para o desenrolar das tramas dos episódios. Embora haja encontros com espécies alienígenas que possuem poderes sobre-humanos, o mais importante nesses encontros é a resolução das diferenças, as formas de se usar a diplomacia. Dessa forma, o destino de cada episódio não depende somente da decisão de um herói, mas de um conjunto de fatores os mais diversos e que muitas vezes fogem ao controle dos personagens.

Que a Força viva longa e prosperamente

Penso que a diferença mais básica entre Star Trek e Star Wars está no nível psíquico pelo qual cada uma fisga o expectador. Star Wars apela mais para os sentidos, deixando o espectador mais passivo diante do espetáculo, das cores e luzes, das batalhas e duelos e dos confrontos dramáticos entre os personagens. Em Star Trek, são os meandros da trama que interessam, e o espectador não para de pensar nas possibilidades de como será resolvido o roteiro, pois atiça a inteligência da plateia. Essa diferença, penso, pode guiar o apreciador de Ficção Científica e Fantasia a escolher entre uma experiência poético-dramática da guerra entre o bem e o mal ou uma experiência mais intelectual e abstrata na jornada pelas descobertas do Universo.

Links

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

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o-hobbit-jornada-inesperada-poster-13-anoesTítulo original: The Hobbit: An Unexpected Journey

Direção: Peter Jackson

Ano: 2012

País: EUA e Nova Zelândia

Uma jornada muito esperada

Houve uma enorme expectativa, com uma pitada de receio, pois o filme prometia muito e, se não fosse bom, seria altamente decepcionante. Mas não foi.

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey, 2012), nova incursão cinematográfica do diretor Peter Jackson no mundo imaginado por J. R. R. Tolkien, trouxe à vida a primeira terça parte de O Hobbit, a grande aventura de Bilbo Bolseiro para o Leste, ajudando os anões a reaver seu antigo lar. (Leia o artigo O Hobbit para saber mais sobre o livro.)

O filme começa a partir de onde se inicia a narrativa do primeiro filme da trilogia O Senhor dos Anéis, do mesmo Peter Jackson, ou seja, com Bilbo se preparando para seu onzentésimo primeiro aniversário e sua fuga do Condado. É então que ele decide escrever sua história, dando início ao que seria depois chamado O Livro Vermelho, que contém os relatos de sua aventura e da missão de seu sobrinho Frodo (ou seja, todo o texto de O Hobbit e de O Senhor dos Anéis).

Ele conta a Frodo os antecedentes da histótia do anão Thorin Escudo de Carvalho, de como seu avô foi destronado pelo dragão Smaug, que tomou a Montanha Solitária dos anões, e de como estes ficaram desamparados, sem poder contar com os humanos expropriados pelo mesmo monstro e sem receber auxílio dos elfos, que se recusaram a ajudar.

“Numa toca no chão vivia um hobbit”, começa Bilbo (ecoando a frase que apareceu na cabeça de Tolkien e que lhe rendeu uma das mais interessantes aventuras de fantasia do século XX), e conta como o mago Gandalf apareceu numa certa manhã, convidando-o para uma aventura, e a chegada dos 13 anões não convidados a sua casa, vindos para jantar, discutir planos e contratar um ladrão, ou seja,  o próprio relutante Bilbo, cuja participação na missão viria a ser muito mais interessante e significativa do que todos (exceto Gandalf) imaginaram desde o início.

Uma análise do filme através dos personagens

Bilbo, o hobbit

Eu havia dito em minha resenha do livro que provavelmente Bilbo, o hobbit do título da obra, ficaria meio apagado no meio de 13 anões. Mas isso felizmente não aconteceu. Assim como no livro, o protagonista do filme está no centro de tudo e a trama gira em torno de seu desenvolvimento. Um pacato e típico hobbit, Bilbo chega a desmaiar ao saber dos possíveis perigos que enfrentaria em sua jornada. Mas algo dentro dele ansiava por uma aventura, e caberia somente a ele a decisão de seguir os anões.

Neste sentido, há uma diferença significativa em relação ao romance, no qual Bilbo só segue os anões ao ser pressionado por Gandalf. No livro, ficam bem claros os motivos profundos para o hobbit realmente querer viajar, conhecer outras raças e lugares, mas isso não fica tão claro no filme, e seu “salto de fé” para a aventura pareceu um tanto inverossímil. Porém, a cena em que ele enrola os trolls para ganhar tempo (no livro é Gandalf quem engana os monstros) foi importante para mostrar que, desde o início, Bilbo tinha habilidades importantes para o sucesso da missão.

E seu papel se mostra crucial no decorrer dos eventos, ao demonstrar coragem (ajudando Thorin a lutar contra os orcs), compaixão (ao poupar a vida de Gollum, colocando em prática uma importante lição ensinada por Gandalf) e empatia (ao se comprometer a ajudar os anões a retomar aquilo que Bilbo mais preza: o lar). Ele se destaca como o pequeno indivíduo dotado de um grande espírito, em conformidade com a proposta original de Tolkien. Por isso tudo o considero muito mais marcante do que Frodo, pois este, especialmente nos filmes, se mostra muito melancólico, fraco e resignado, sendo um protagonista bem menos interessante do que Bilbo, este sim o hobbit.

Gandalf

O mago errante continua o mesmo de sempre, e sua imagem é agora mais do que nunca associada com o grande ator Ian McKellen. Sábio, bem-humorado, pontual, assertivo e prevenido, ele funciona na história como articulador dos eventos e intermediador dos conflitos que podem atrapalhar a execução da missão. Gandalf é a perfeita figura do guia, orientador e mestre, ajudando os indivíduos a encontrar seu rumo e seu lugar no mundo.

Está sempre um passo à frente e sempre está no lugar certo na hora certa. Não dá para imaginar a história sem ele, e seriam plenamente dispensáveis as aparições de Galadriel e Saruman, nas deliberações sobre o futuro da Terra-Média, embora tenham sido bem mais pertinentes do que Radagast.

Thorin

Thorin Escudo de Carvalho é um grande herói entre os anões. Ele é neto de Thrór, o Rei sob a Montanha destronado por Smaug. Tendo morrido seu avô e seu pai Thráin, Thorin é o herdeiro do trono de Erebor, a Montanha Solitária. Ele busca retomar o antigo lar dos anões e o grande tesouro guardado pelo dragão. Principal representante de todos os anões do filme, ele praticamente ofusca sua comitiva de 12 companheiros, que estão ali como coadjuvantes (excetuando-se Balin, que é o mais importante da comitiva depois de Thorin e serve como mediador em alguns momentos).

Depois de ser exilado de Erebor como todos os anões que lá habitavam, o nobre príncipe Thorin teve que se sujeitar a diversos trabalhos braçais até conseguir recursos suficientes para reunir um grupo com a coragem de tentar retomar a Montanha. Nesse ínterim, também esteve envolvido numa sangrenta batalha contra orcs, cujo líder, Azog, se tornou seu arqui-inimigo.

Thorin é um personagem que ecoa o mesmo papel de Aragorn em O Senhor dos Anéis, ou seja, é o legítimo herdeiro de uma linhagem de nobres governantes, buscando retomar seu lugar de direito. Tanto sua herança quanto seus feitos inspiram seus companheiros e são admirados por Bilbo. No entanto, sua arrogância provoca algum conflito com o hobbit e com Elrond, o elfo sem cuja ajuda ele jamais conseguiria executar sua missão.

Radagast

O mago Radagast,  o Castanho,  merece apenas uma breve consideração. A presença dele no filme só se justifica pela relação com O Senhor dos Anéis, servindo de ponte para explicar o surgimento do vilão daquela trilogia. O ponto positivo dessa presença foi mostrar as diferenças entre os magos (ao lado de Gandalf e Saruman), bem como trazer à tona o fato de que na Terra-Média os animais costumavam se comunicar com as raças humanoides.

Nesse sentido, sua presença foi importante para evidenciar o caráter mágico desse mundo fantástico, que às vezes fica esquecido. Mas suas cenas são meio enfadonhas e fogem demais do ritmo e clima da trama principal, e ele poderia ter sido dispensado. Considero o personagem até interessante, mas pelo menos poderiam ter deixado para lá aquele trenó de coelhos, que ressoa uma fantasia muito à Disney, bem diferente do estilo de Tolkien.

Gollum

Talvez o personagem mais esperado pelos fãs de Tolkien e da trilogia anterior, Gollum fez uma ótima aparição, extremamente real na renovada tecnologia de captação de movimento e ainda mais carismático do que antes. Mais uma vez Andy Serkis faz um excelente trabalho incorporando um personagem virtual, mas muito crível em suas expressões, suas flutuações esquizofrênicas e especialmente no semblante de desamparo e desespero que provocam a compaixão de Bilbo e freiam a espada deste (numa perfeita cena sem palavras).

Mas achei seu capítulo um tanto curto, o engajamento e a resolução meio bruscas. Porém, mesmo assim todo o essencial estava ali, revelando apenas o necessário, sem se estender desnecessariamente em seu passado e sua história (que já está toda contada em O Senhor dos Anéis).

Considerações finais

Durante a divulgação do filme e enquanto o assistia, encontrei uma forma interessante de relacionar os livros ao filmes (de ambas as trilogias). Nos filmes, as adaptações, ou seja, as supressões e/ou os acréscimos, podem ser entendidas como disparidades de versões. Os filmes seriam uma suposta aproximação maior do que realmente aconteceu, enquanto os livros apresentam os mesmos eventos recontados pelos seus protagonistas (Bilbo, Frodo e Sam), ou seja, com um olhar enviesado, recriando episódios, retirando eventos considerados não muito importantes e enfeitando outros para parecerem mais coloridos do que realmente foram. Por isso, e tendo em vista as observações acima, penso que, para se apreciar esse universo fantástico ao máximo, vale muito a pena conhecer a literatura tolkieniana.

Pensando bem sobre todas as cenas do filme, não me recordo de ter havido supressões significativas em relação ao livro. É como se tudo o que acontece nos seis primeiros capítulos do livro estivesse ali na tela, e ainda com a inclusão de vários outros elementos que enriquecem (ou, em alguns raros casos, só tomam tempo desnecessário) a trama, dando um significado mais profundo à trajetória de Bilbo, de Thorin e de Gandalf. A inclusão, por exemplo, de um arqui-inimigo de Thorin, o orc Azog, torna as ameaças da viagem mais verossímeis e significativas.

Comparando a extensão deste filme (e consequentemente dos dois próximos filmes) com a da outra trilogia, percebo um aproveitamento maior da história de O Hobbit na tela, tendo em vista que há muito mais supressões na versão cinematográfica de O Senhor dos Anéis, devido à longa extensão do livro. A aventura de Bilbo tem um terço do tamanho da de Frodo e bastaria um filme para apresentá-lo da forma como o foi a outra trilogia. Dessa forma, para os fãs, a escolha pelo formato de uma trilogia mantém quase intacta a riqueza da obra literária original.

Algumas pequenas mudanças e acréscimos em cenas-chave também não foram despropositadas. Um ótimo exemplo é o encontro de Bilbo com Gollum, contado de modo diferente. No filme, ao invés de encontrar o anel antes de Gollum, este aparece primeiro, para mostrar quem ele é, seus hábitos alimentares e o que costuma fazer com orcs fracos que encontra. Logo em seguida, quando Gollum mata o orc, a espada de Bilbo, que sempre se acende à proximidade dessas criaturas, se apaga, indicando que Gollum não é um orc, embora de longe se pareça com um.

Alguns criticaram os elementos cômicos do filme, vendo-os como pontos negativos. Porém, penso que esses elementos fizeram jus a um dos aspectos mais marcantes de O Hobbit, o humor que permeia toda a narrativa. Considere-se também o fato de o livro ter sido destinado originalmente a um público infantil. Jackson conseguiu dosar um caráter mais sério com boas pitadas de comicidade, que no geral não me pareceram exageradas. Vibrei especialmente com a cena dos pratos e a canção debochada dos anões ao arrumar a louça de Bilbo. Afinal, a música e a poesia fazem parte das histórias na Terra-Média, inclusive com peças mais sombrias, como a famigerada “canção do exílio” dos anões, cena que foi divulgada na internet antes da estreia do filme e representou um bom presságio para aqueles que aguardavam essa jornada tão esperada.

O Hobbit

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Muito antes do grande sucesso mundial da trilogia cinematográfica O Senhor dos Anéis (2001, 2002 e 2003), bem antes mesmo da obra literária que inspirou os filmes (publicada entre 1954 e 1955), havia uma toca no chão e lá dentro morava um hobbit.

O Hobbit, de J. R. R. Tolkien, foi publicado originalmente em 1937, como um livro infantil de aventura. Conta a história de uma grande viagem empreendida por um pequeno ser, o hobbit Bilbo Bolseiro (ou Bilbo Baggins no original em inglês). Dizem que os primeiros leitores do livro foram os filhos pequenos de Tolkien.

Bilbo Bolseiro, o hobbit

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Os hobbits são humanoides com cerca de metade do tamanho de um ser humano (por isso, em inglês eles são chamados também de halflings), parecendo crianças humanas, exceto pelas mãos longas e ágeis e os grandes pés peludos. Vivem em “tocas”, ou seja, constroem suas casas escavadas em colinas, nos flancos das quais despontam janelas e belas portinhas redondas. Eles têm uma predileção pela vida pacata, boa comida e cachimbos. Há um quê de inglês em suas personalidades, inclusive no hábito de tomar chá no final da tarde.

Mas Bilbo tem antepassados heroicos e Gandalf, o mago errante, sabe disso, convidando-o para uma grande missão: ajudar o anão Thorin Escudo de Carvalho e seus 12 companheiros a recuperar a Montanha Solitária e o tesouro tomado pelo dragão Smaug. A princípio, tanto os anões quanto o próprio Bilbo duvidam que o hobbit tenha alguma utilidade na aventura. Mas o pequenino acaba salvando seus companheiros mais de uma vez e assumindo um papel crucial para a resolução da história.

Pessoalmente, considero O Hobbit como uma narrativa de aventura exemplar, por três motivos:

  1. Empolga a criança existente no leitor, ávida por uma grandiosa fábula, e pode ser apreciada por diferentes públicos, das mais diversas idades, gêneros, tradições culturais e interesses pessoais.
  2. É pontuada por humor e elementos pitorescos, que a tornam uma leitura agradável e nos transporta para um mundo da mais pura fantasia e romantismo, mas bastante verossímil. Os elementos fantásticos não precisam de explicação e adentramos o universo tolkeniano naturalmente, com um misto de estranheza e familiaridade.
  3. Ela segue a estrutura clássica e básica de qualquer grande narrativa mítico-literária. Um indivíduo comum que vive uma vida comum recebe inesperadamente um chamado para uma grande missão. Ele nega a princípio, mas acaba sendo levado pelas circunstâncias. Encontra aliados, inimigos e passa por dificuldades. Está sempre se lembrando de sua casa confortável, contrastando-a ao mundo perigoso e imprevisível que enfrenta. Em determinado momento crucial, ele quase morre, e é realmente tido como perdido, mas ressurge da escuridão, renovado e mais forte. Descobre e desenvolve habilidades que utiliza no momento crítico da história, tornando-se o herói de um grande evento, muito maior do que ele poderia conceber no início. Retorna ao lar, mudado, já bem diferente do que costumava ser.

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Encontros com a ganância

Ao longo dos capítulos, os personagens vão encontrando diversas criaturas fantásticas, como trolls que viram pedra à luz do sol, orcs que moram dentro das montanhas, bondosas águias gigantes e elfos desconfiados. Mas os encontros mais significativos são com indivíduos únicos, especialmente Gollum e Smaug. Estes, junto com o anão Thorin, incorporam um dos temas principais da obra, que é a ganância e a avareza.

Gollum

mcbrideGollum, como explicado posteriormente em O Senhor dos Anéis, é um hobbit que há centenas de anos encontrou um anel mágico e se isolou do mundo num pequeno lago na raiz das Montanhas Sombrias. Ele chama o anel de “meu precioso” e de “presente de aniversário”, pois o artefato lhe permite ficar invisível, recurso usado por ele para se proteger dos orcs ou matá-los se estiver com muita fome. Mas Bilbo encontra o anel e, depois de um jogo de adivinhas, acaba levando-o consigo e o utilizando em diversas situações da fábula.

No conjunto narrativo que envolve O Hobbit e O Senhor dos Anéis, Gollum pode ser visto como uma imagem prospectiva de Bilbo, aquilo em que este poderia se transformar se se mantivesse tempo demais com a posse do anel, cultivando o sentimento de avareza e possessividade que ele traz consigo.

O anel não é apresentado como um item mau nem bom, mas apenas uma ferramenta, que Bilbo utiliza para o bem de sua aventura e de seus companheiros, dando a ele um fim mais nobre do que aquele dado por Gollum. O próprio “roubo” do anel por Bilbo mostra um caráter moralmente ambíguo nas atitudes do hobbit, pois a picaretagem serviu, no conjunto da história, para um bem maior.

Smaug

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O dragão que no passado expulsou os anões da Montanha Solitária, tomando para si todo o tesouro e transformando os arredores em uma grande Desolação, é o símbolo máximo da avareza. Semelhante à figura do Tio Patinhas em sua caixa-forte repleta de moedas, Smaug desenvolveu um extremo zelo e ciúme pelo enorme tesouro roubado dos anões, não admitindo que seja surrupiada sequer uma ínfima peça, e chegando ao ponto de ter encravadas em seu longo ventre inúmeras joias, transformadas numa (quase) impenetrável couraça.

É uma figura imponente, temível e poderosa, dando a impressão de representar um desafio intransponível para anões e hobbit. Porém, na instigante conversa que Bilbo trava com a besta, ele se utiliza da vaidade e arrogância de Smaug para enganá-lo. O duelo entre os dois é puramente psicológico, e o hobbit o vence indiretamente, descobrindo seu ponto fraco e enviando uma mensagem para um exímio arqueiro, que mata o dragão.

O encontro/conversa de Bilbo com Smaug ressoa seu diálogo com Gollum, pois ambos ocorrem no canto mais recôndito de uma montanha, e tanto o desgraçado hobbit quanto o maldito dragão são figuras solitárias, tornadas assim por seus próprios vícios. Gollum serve, de certa forma, como preparação para o o desafio maior que é enfrentar Smaug.

Thorin

Também é bastante dramático o conflito entre Bilbo e Thorin, o próprio indivíduo que o contratou para a aventura. O herdeiro do trono dos anões é movido pela cobiça, sendo sua raça naturalmente propícia a amar o ouro e os artefatos de grande valor. Quando finalmente recuperam a Montanha Solitária, Thorin é tomado por um surto de ganância, e se recusa a dividir o tesouro com os humanos, vítimas de Smaug e, em parte significativa, responsáveis pela destruição do dragão.

Bilbo intervém de forma genial e virtuosa, não só auxiliando na Batalha dos Cinco Exércitos (anões, elfos e humanos contra orcs e wargs), em que os protagonistas saem vitoriosos, como ajudando Thorin a retomar a lucidez e finalmente dividir de forma justa o imenso tesouro.

Bilbo, Frodo e os anões

O Bilbo de O Hobbit é muito mais forte e interessante do que seu sobrinho Frodo de O Senhor dos Anéis. O tio foi muito mais versátil e bravo em sua aventura, fazendo coisas que nunca imaginaria capaz, tomando a iniciativa quando os anões hesitavam e concebendo ideias que significaram o sucesso da empreitada. Frodo, por outro lado, é no geral apenas o encarregado de destruir o artefato mágico maligno, muitas vezes escapando dos perigos por pura sorte, mas principalmente por causa de seu companheiro Sam, seu guarda-costas e o verdadeiro guerreiro da missão.

A partir do sucesso de O Hobbit, os leitores ansiavam por conhecer mais sobre os hobbits, e O Senhor dos Anéis trouxe isso, tanto com informações sobre a origem e os hábitos desse povo quanto colocando 4 personagens de destaque na trama. Por causa disso, talvez haja um efeito inverso para aqueles que só conhecem os filmes/adaptações de Peter Jackson. A trilogia cinematográfica que conta a aventura de Frodo Bolseiro está repleta de informações sobre os hobbits. Por outro lado, O Senhor dos Anéis pouco trata sobre os anões, trazendo apenas Gimli como representante de destaque. Assim, para quem só viu os filmes, O Hobbit de Peter Jackson trará muito ênfase em anões e pouca em hobbits (especialmente considerando que os anões do filme parecem estar muito mais complexos do que no livro), o que pode diminuir a verdadeira importância do papel de Bilbo aos olhos dos espectadores.

Legado

BILBO__O_HOBBIT_1298987128PA moderna literatura de fantasia deve muito à aventura de Bilbo Bolseiro, especialmente aquela ligada ao universo dos RPGs que seguem a linha de Dungeons & Dragons. O Hobbit praticamente estabeleceu as principais raças da maioria dos cenários de role-playing games de fantasia medieval: humanos, elfos, anões e hobbits/halflings. Também montou o cenário de eterna rivalidade entre elfos e anões e a aguerrida inimizade destes com os orcs.

Há uma conhecida adaptação de O Hobbit para os quadrinhos, feita por Charles Dixon (roteiro) e David Wenzel (desenhos), muito bonita e caprichada. A visão pessoal de Dixon e Wenzel evidencia o caráter mágico e fantástico da história, com uma arte que remete ao estilo das ilustrações de livros infanto-juvenis. A imagem de Gollum é uma das melhores que já vi entre todos os ilustradores que já desenharam as histórias de Tolkien.

No cinema/televisão, não só houve adaptações diretas da obra como influência em diversos filmes e cineastas (para mais detalhes sobre as adaptações audiovisuais, confira o artigo O Hobbit na televisão e no cinema). Grande parte dos filmes de fantasia medieval tem alguma coisa que remete a O Hobbit, mas basta lembrar de Willow – Na Terra da Magia (1988), produzido por George Lucas e dirigido por Ron Howard, que conta a grande aventura vivida por um nelwyn (raça pequenina que lembra muito os hobbits e vive em sua própria sociedade). Willow é interpretado por Warwick Davis e todos os nelwyns do filme são  vividos por anões (humanos com nanismo, para ficar bem claro).

Muitos músicos também têm nessa obra uma fonte de inspiração, sendo talvez os mais célebres a banda inglesa Led Zeppelin, que tem referências sutis em suas letras, e os alemães da Blind Guardian, autores de várias canções diretamente inspieradas pela obra de Tolkien, inclusive The Bard’s Song (The Hobbit), cuja letra resume a aventura de Bilbo.

Homo_floresiensisNa Ciência, há alguns casos de cientistas homenageando a obra de Tolkien ao batizar espécies de seres vivos.

Há um gênero de tubarões, por exemplo, que vive nas profundezas do oceano e tem grandes olhos. Pela semelhança com a imagem de Gollum (que tinha grandes olhos brilhantes e vivia na escuridão profunda de uma caverna), ele foi batizado pelo pesquisador Leonard Compagno como Gollum. Há duas espécies conhecidas, Gollum attenuatus, que vive em águas ao redor da Nova Zelândia, e Gollum suluensis, habitante do Mar de Sulu, ao sul das Filipinas.

Outra criatura, neste caso extinta, é um hominídeo que viveu na Ilha de Flores, na Indonésia, cujos vestígios foram descobertos em 2003, o Homo florensiensis (ainda se discute se se trata de uma espécie separada do gênero Homo ou se são Homo sapiens com patologias anatômicas). Pelo seu tamanho diminuto, são apelidados como “hobbits” por arqueólogos, e quase foram batizados como Homo hobbitus na época de sua descoberta.

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O próximo grande  legado de O Hobbit é a vindoura trilogia dirigida por Peter Jackson, cuja primeira parte estreia nesta sexta-feira, dia 14. Não é exagero dizer que todos os admiradores da obra de Tolkien esperam ansiosamente.

Links

Imagens

  • Jogo de Adivinhas, por Tim Kirk (Destaque)
  • Uma Visita Matutina Inesperada, por Ted Nasmith
  • Uma Festa Inesperada, por John Howe
  • Gollum, por Angus McBride
  • Smaug, por Justin Gerard
  • Capa de Bilbo – O Hobbit, de Charles Dixon e David Wenzel
  • Crânio de um Homo florensiensis
  • Foto de um tubarão da espécie Gollum attenuatus

O Hobbit na televisão e no cinema

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Hoje, 21 de setembro de 2012, O Hobbit completa 75 anos desde sua primeira edição. Foi o primeiro livro de J. R. R. Tolkien sobre a Terra-Média, cujos acontecimentos antecedem e preparam o cenário para O Senhor dos Anéis, bastante conhecido hoje em dia pelo público em geral devido à primorosa adaptação cinematográfica de Peter Jackson. O Hobbit é muito menos conhecido do que O Senhor dos Anéis, mas vai se tornar muito popular com um novo trabalho de Jackson, que estreia em dezembro deste ano (2012).

No entanto, não é a primeira vez que alguém teve a ideia de adaptar a obra de Tolkien para as telas (seja a televisão, seja o cinema). Houve alguns trabalhos na década de 1970 em cima de O Senhor dos Anéis. Mas mesmo bem antes disso já haviam começado as adaptações do primeiro livro, considerado por muitos uma obra voltada para crianças (Tolkien a escreveu tendo em vista um público infantil), mas ainda hoje aclamado como um belo exemplo de literatura fantástica.

A primeira transposição oficial de O Hobbit para o cinema foi realizada em 1966, pelo animador Gene Deitch, num curta metragem que, para aqueles que conhecem bem a obra de Tolkien, resultou em algo bem estranho, formalmente deturpado e ligeiramente diferente em sua essência. Os gráficos foram feitos num estilo de ilustração de histórias infantis. A animação é pobre, mantendo o filme com a aparência de um livro ilustrado, e há apenas a voz do narrador, como se estivesse lendo o livro. Veja abaixo o filme na íntegra.

O diretor se deu a liberdade de modificar vários elementos importantes da obra de Tolkien. Ele reduziu o grupo de aventureiros, que no livro contava com 13 anões, 1 hobbit e 1 mago, para um general e seu ajudante, uma princesa e o nosso pequeno protagonista. Essa adaptação mostra de forma interessante como O Hobbit pode ser visto, por certos leitores, como uma história mágica e fabulosa, que pode ser recontada de maneira simples e sem a preocupação com detalhes, mas mantendo certos elementos cruciais da narrativa, como o herói, a partida de um lar confortável para uma grande aventura, a presença de aliados, os encontros com inimigos e outros perigos, a transformação do herói, a execução da tarefa e o retorno ao aconchego da toca de hobbit.

No entanto, para muitos apreciadores do livro original, uma adaptação mais fiel e detalhada sempre agrada, pois a história não se resume a uma fábula, está repleta de elementos que extrapolam para um universo mais complexo, com seus personagens pitorescos, situações interessantes e diálogos dramáticos. Onze anos depois do curta de Deitch, Jules Bass e Arthur Rankin Jr. apresentaram um longa metragem animado para a televisão. Não existe trailer oficial desse filme, portanto segue abaixo um trailer feito por um fã:

Nesse filme foi possível explorar melhor quase toda a trama do livro, com a presença de praticamente todos os personagens importantes e a encenação com poucas perdas das cenas mais dramáticas, como os encontros de Bilbo com Gollum e com o dragão Smaug, além da tragédia do rei anão Thorin, que quase deixou a ganância corrompê-lo e quase levou os heróis à derrota.

O estilo de Bass/Rankin, que também produziram o célebre desenho animado O Último Unicórnio, mantém um aspecto de contos de fadas, as caricaturas infantis e exageradas. Além disso, conserva o espírito dos anos 70, notadamente na trilha sonora, bem feita e divertida. Mas ainda pode ser considerada uma excelente adaptação da narrativa de Tolkien, inclusive aproveitando várias das letras das canções do livro nas músicas feitas para o filme.

Este ano (2012), O Hobbit retorna às telas, desta vez com as novidades técnicas do cinema contemporâneo. Peter Jackson retoma o que iniciou (ou concluiu?) com O Senhor dos Anéis , trazendo ao público que nunca leu Tolkien os acontecimentos que antecedem e culminam na aventura de Frodo Bolseiro, sobrinho de Bilbo, apresentados em três filmes (Uma Jornada Inesperada, A Desolação de Smaug e Lá e de Volta Outra Vez). Eis o trailer oficial da primeira parte, que estreia no próximo dezembro:

A expectativa é de que a história seja recontada num tom mais “realista”, mais complexo e profundo, até mesmo mais sombrio, como se a narrativa do livro representasse uma versão atenuada da história, enviesada pelo olhar de seu suposto autor e protagonista (o próprio hobbit Bilbo Bolseiro). A trilogia também explorará eventos paralelos, ausentes de O Hobbit, mas desenvolvidos pelo próprio Tolkien em outros escritos, criando uma conexão maior com O Senhor dos Anéis

Referências

Filmes para crianças – parte 1

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Há algum tempo, recebi uma sugestão da leitora Roseana da Penha Oliveira de apresentar sugestões de filmes para ser usados em sala de aula, para um público infanto-juvenil, crianças e adolescentes, e resolvi pensar numa relação de obras cinematográficas que foram importantes para minha infância, adolescência e mesmo adultidade, que possam servir para instigar a mente de estudantes jovens.

Este post é direcionado especialmente para adultos que estejam buscando filmes para seus filhos, sobrinhos, netos, filhos de amigos etc., e pretendo que seja encarado como um miniguia. As crianças e adolescentes que se sentirem à vontade para ler as resenhas (de preferência depois de ter visto os filmes, para não estragar a surpresa), estão convidados à leitura e a comentar, se quiserem.

Nessa primeira parte, abordarei alguns filmes de fantasia, que levam o espectador a um outro mundo distante e diferente, de modo a seduzi-lo e levá-lo a pensar em situações de sua própria realidade. A alegoria fantástica serve para refletirmos sobre o mundo real.

A título de esclarecimento, não considero que estes filmes sejam exclusivamente para crianças e/ou adolescentes. Eles são uma boa diversão para os adultos despojados do preconceito de que há uma barreira inquebrável entre filmes “maduros” e “infantis”. Aliás, sugiro que os filmes sejam vistos pelas crianças na companhia do adulto responsável. Isso torna a experiência ainda melhor.

Agradeço a colaboração de Rúbio Medeiros e Betânia Monteiro na elaboração deste texto. Seus insights e sugestões sobre os filmes foram imprescindíveis para tornar estas resenhas mais significativas.

Finalmente, dedico a série de posts Filmes para Crianças aos seguintes infantes (em ordem decrescente de idade): Diego Leite, já não tão infante, irmão com quem compartilhei alguns filmes na tenra idade; Naninha Leite, irmã mais nova, a quem acompanhei na apreciação de algumas obras cinematográficas significativas; Arthur Medeiros e Brunna Monteiro, filhos de amigos, cinéfilos que me ajudam a corroborar a qualidade de alguns filmes; e Paulinho Mota, “neto-enteado”, pequenino cuja trajetória na cinefilia tenho observado de perto.

Em Busca do Vale Encantado (The Land Before Time)

Em Busca do Vale EncantadoDireção: Don Bluth

País de origem: Estados Unidos

Ano: 1988

Littlefoot (Pé Pequeno) é um um filhote de dinossauro pescoçudo (apatossauro), nascido durante uma grande escassez de alimento, quando diversas manadas de várias espécies de dinossauros empreendenram uma marcha conjunta em busca de um mítico lugar chamado Vale Encantado.

Ele aprende desde cedo que as espécies não se misturam, e é proibido de brincar com Saura, uma filhote de tricorne (tricerátops). No entanto, a caminhada é tragicamente afetada por um choque de placas tectônicas, que separa vários filhotes de suas famílias.

Littlefoot assiste à morte de sua mãe, ferida numa luta contra um tiranossauro, e se encontra sozinho, desolado e desamparado. No entanto, o encontro com outros filhotes perdidos o reanima a continuar a busca pelo Vale Encantado. Ele se junta a Saura, Patassaura (uma saurolofo), Petrúcio (um pteranodonte) e Espora (um bebê estegossauro) para formar uma pequena manada mista em busca do destino antes almejado por seus pais. Eles contrariam assim a sabedoria aprendida dos dinossauros adultos de que as espécies diferentes não fazem nada juntas.

Apenas quando trabalham juntos, os pequenos dinossauros conseguem vencer o tiranossauro e encontrar o Vale Encantado, onde todos se reúnem a suas famílias novamente.

Os pequenos dinossauros são muito bem representados e agem como crianças verossímeis, com sua curiosidade, distração, conflito com a geração dos pais, solidão e necessidade do outro, frustração,  impotência, ressentimentos, culpa e perdão. Fica muito fácil se identificar com qualquer um deles e aprender com sua experiência, mesmo que fictícia.

Esse filme inspira o universalismo ao propor que as barreiras identitárias (de espécie, de raça, de nacionalidade, de gênero) sejam rompidas em prol de um bem maior, que abranja a todos os envolvidos. A amizade é mostrada como um valor que transcende essas pequenas diferenças.

A obra aborda

  • autossuperação,
  • tolerância,
  • perdão,
  • amizade,
  • cooperação e
  • perseverança.

 

A Viagem de Chihiro (千と千尋の神隠し Sen to Chihiro no Kamikakushi)

A Viagem de ChihiroDireção: Hayao Miyazaki

País de origem: Japão

Ano: 2001

Chihiro é uma garota mimada, sempre reclamando das vicissitudes de sua vida. Enquanto viaja com seus pais para um novo domicílio em outra cidade, eles descobrem a entrada de um estranho santuário que mais parece um parque de diversões temático abandonado.

Os pais de Chihiro entram num restaurante aparentemente deserto e se sentam a uma mesa servida com farta comida, refestelando-se à vontade até se transformarem em porcos. À medida que anoitece, Chihiro vê espíritos (kami) aparecer por toda parte e os diversos prédios começarem a funcionar, como se o dia estivesse amanhecendo para os deuses e entidades que ali habitam.

Ela recebe ajuda de alguns dos espíritos da casa de banhos da bruxa Yubaba, entre eles Kamaji, um velho que aquece as caldeiras das banheiras, Lin, uma mulher que trabalha na limpeza da casa, e Haku, um menino-dragão, aprendiz de Yubaba. Com essa ajuda, ela começa a trabalhar na casa de banhos, tendo seu nome aprisionado por Yubaba e passando a se chamar Sen. Muito atrapalhada, ela se envolve em vários problemas que vai tentando resolver no decorrer de sua trajetória.

Seu primeiro grande êxito é limpar um deus-rio, que está tão poluído com lixo que é confundido de início com um espírito do mau cheiro. Ela percebe isso e consegue, com a ajuda dos outros empregados e da própria Yubaba, “arrancar” toda a sujeira, revelando a face límpida do deus, que recompensa a todos com ouro.

O segundo desafio é enfrentar o Sem-Face, um espírito desamparado que, para chamar atenção de Chihiro, começa a oferecer ouro falso a todo mundo, e começa a engolir alguns dos empregados, tornando-se maior e mais poderoso. Ela consegue reverter tudo e levá-lo consigo para a casa de Zeniba, a irmã gêmea bondosa de Yubaba, junto com mais dois amigos, o bebê de Yubaba e uma ave espiã da bruxa.

Quase todos os personagens que vêm a ser seus amigos provocaram medo nela no primeiro contato, mas ela consegue enxergar o ponto de vista de cada um deles, compreendê-los e superar seu medo. A amizade que Chihiro constrói com todos esses personagens, Haku, Kamaji, Lin, Sem-Face, o bebê e a ave, é importante para que ela supere todos os desafios e finalmente consiga se libertar de Yubaba e ter seus pais de volta. Ao final, ela está bem mais madura do que a menina chata do início.

A obra aborda

  • responsabilidade,
  • maturidade,
  • ecologia,
  • amizade e
  • superação do medo.

 

A História sem Fim (The Neverending Story)

A História sem FimDireção: Wolfgang Petersen

País de origem: Estados Unidos e Alemanha

Ano: 1984

Baseado num livro alemão do autor Michael Ende, o filme conta a história de Bastian, um garoto que, para fugir dos colegas encrenqueiros e da angústia de ter perdido a mãe, se refugia na literatura fantástica. Certo dia, ele descobre na mesa de um livreiro um misterioso volume com o título A História sem Fim, e o “pega emprestado” para ler no porão da escola no horário da aula.

A história que Bastian lê passa para o primeiro plano, mostrando o poder da imaginação do menino e convidando o espectador a fazer o mesmo. É a história de um mundo mágico chamado Fantasia, cuja imperatriz, que é uma menina, está doente. Seu estado afeta todo o reino de Fantasia, e sua morte significaria o fim desse mundo. O responsável por essa situação é um monstro chamado Nada, que está aos poucos destruindo Fantasia.

A primeira cena mostra alguns personagens pitorescos, como um gigante de pedra amedrontador que se mostra bondoso e pacato e uma lesma que corre como um cavalo de corrida. Essas surpresas dão início a um tema recorrente na história: ninguém é o que parece à primeira vista.

O herói da história é Atreyu, um menino indígena guerreiro cuja missão é enfrentar o Nada. Ele empreende uma longa viagem em que conhece vários personagens que o ajudam no caminho. Sua pior vicissitude é a perda de seu amado cavalo. No entanto, ele encontra um dragão que passa a ser seu companheiro. Ao final, enfrenta o Nada, mas este termina por devorar toda a Fantasia.

Em alguns momentos da história, Bastian percebe que sua leitura interfere no andamento da narrativa. Quando enfim Fantasia é destruída, ele dá um nome à Imperatriz Menina, única forma de salvá-la a ao seu reino. Ele então se depara com ela e com a recém-restaurada Fantasia.

O Nada representa o crescente abandono da imaginação pela contemporaneidade, a racionalidade extrema que aos poucos a destrói. Ao mesmo tempo, ao se depararem com o fim de seu mundo, os habitantes de Fantasia mostram quão importante é zelar pelas coisas ao nosso redor.

O filme tem uma estrutura em camadas recorrentes. Em outras palavras, a criança que a ele assiste se identifica com Bastian, que por sua vez se identifica com o herói do livro que lê, Atreyu. Assim, o espectador experimenta sutilmente a identificação com diferentes aspectos de sua personalidade, alguns mais profundos do que outros.

Este filme é especialmente indicado para crianças que já começaram a ler, pois mostra a relação entre leitura, imaginação, especulação, reflexão, criação (Bastian é ao mesmo tempo leitor e autor da História sem Fim) e, enfim, o prazer da leitura.

A obra aborda

  • preconceito,
  • bibliofilia,
  • imaginação,
  • destino,
  • missão de vida,
  • superação e
  • coragem.

Para adquirir os filmes

A morte e o texto

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O texto, expressão escrita da língua — literário, ficcional, filosófico ou científico —, tem o caráter simbólico da morte. A inércia do texto o faz ter essa cara de epitáfio, que simboliza o signo do qual só se tem a lembrança, evocada em cada leitura, como o morto evocado na memória inscrita na lápide.

O texto científico é conhecimento cristalizado, como a crisálida, letárgica, numa condição de quase morte, e que ressuscita como um ser feérico, quase etéreo como a ideia. A partir do momento em que publica seu texto, o cientista tem em mãos um fruto morto, obsoleto em relação ao conhecimento que está sempre mudando e se aperfeiçoando.

Roland Barthes, na Aula, diz que todo texto literário é libertário, por subverter a ordem da instituição mais repressora — a língua. Ora, liberdade é morte; é na morte que se desfazem os grilhões da dominadora cultura, inevitável para a vida humana. E, na experiência pseudolibertadora do texto — para o autor e para o leitor — pode-se sonhar; e no sono/sonho se experimenta antecipadamente a morte. Pode-se vivenciar uma realidade que ultrapassa a prisão das instituições humanas. Assim, a morte como transformação também caracteriza o texto artístico, que transforma a língua; o texto filosófico/científico, que transforma a realidade.

O texto acaba sendo a principal forma de transmissão de conhecimento em sociedades que conhecem a escrita. Na transmissão pela fala, os saberes se transformam mais rapidamente, porém mais caoticamente. É possível a gradual mudança do conhecimento sistematizado, racional ou artístico, através dos textos, periódicos ou livros. Mas a lentidão, que se sente na leitura de cada texto, na experiência pessoal, é comparável às sucessivas mortes e renascimentos da vida, tanto da matéria quanto da consciência. A sensação, no leitor, da desilusão, da angústia sadia, da solidão, que o conhecimento traz ao descortinar a realidade, da arte ao transformá-la, é a angústia da mudança brusca, da morte.

Não é à toa que a linguagem é feminina, passiva, instrumento do autor para sua paixão. Feminina porque idealmente inerte (e a inércia/morte é feminina; o feminino é inércia/morte), aparece aos humanos como sujeita a eles. Porém, o citado Barthes já disse que, longe de permitir dizer, a língua obriga a dizer. E os homens ficam sujeitos a essa bruxa, prostituta que se aproveita dos indefesos meninos que estão dentro deles. A meretriz(/bruxa) é um dos grandes arquétipos femininos relacionados à morte: a mulher que nega a maternidade, Medéia que mata seus filhos. Mas, além disso, não vamos negligenciar o caráter de mãe/parteira, que dá à luz imagens, idéias, conhecimento, discernimento.

Notas póstumas

Este texto foi publicado originalmente em 14 de dezembro de 2004, na primeira Teia Neuronial. É um exemplo de texto que eu não escreveria hoje em dia, pelos seguintes motivos:

  1. O encadeamento das ideias é desordenado, seguindo o rumo caótico do pensamento em devaneio. Os parágrafos seguem um rumo parecido com o dos veios de um rio, como se a escolha dos afluentes fosse feita ao acaso. As ideias foram jogadas uma depois da outra e não me preocupei em esgotar as alusões e referências.
  2. Há muitas figuras de linguagem expostas numa tentativa de compor um texto literário-filosófico. Abundam as afirmações e escassam os questionamentos. Não deixei muito espaço para a autocrítica nem heterocrítica, e o texto acabou ficando naquilo que ele mesmo descreve: na morte estática.
  3. O que me leva a outro ponto: não tive, quando escrevi esse texto, a intenção de revisá-lo depois. Qualquer coisa que viesse posteriormente seria acréscimo e nunca cortaria nada. Hoje em dia, todo texto meu é passível de revisão, de desmembramentos que fujam da linha original. Ou seja, procuro fazer meus textos vivos e subverter a ideia de que eles têm necessariamente de se manter imutáveis.
  4. Apesar do caráter quase autocrítico do texto, havia ali a manifestação de uma obsessão pela morte, uma tanatomania adolescente que há pouco tempo abandonei. O texto era uma forma de me manter cultivando ideias mórbidas que me fizeram mal por um período da vida.
  5. Enfim, já não concordo totalmente com as ideias em si do texto.
    1. Em Obra Aberta, Umberto Eco mostra que os textos escritos são passíveis de releitura e de ampliação muito além daquilo que porventura o autor pensou originalmente. Todo texto pode ser resscrito pelo seu autor e revisto pelos leitores.
    2. Dizer que alguma coisa tem caráter feminino é verdade até certo ponto. Se o caráter passivo do texto lembra a representação de que o lado feminino da dualidade (idealizada) de gênero é passivo, isso só se aplica a alguns aspectos (pois o “feminino” tem características ativas, é só ver a própria imagem da bruxa). Além disso, a divisão masculino/feminino da realidade é um ideal que serve mais para justificar certas divisões arbitrárias do que a representação da realidade.

Talvez eu devesse escrever um novo capítulo desta saga: A Vida e o Texto ou O tear como metáfora da ramificação infinita do texto escrito.

No entanto, o tema do fascínio humano pela morte e a relação dele com a escrita pode render elucubrações interessantes. Só o Livro dos Mortos egípcio já serve de mote para um texto.