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	<title>Teia Neuronial &#187; Resenhas</title>
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	<description>Antropologia, Ficção Científica, cultura e sociedade</description>
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		<title>&#8220;Passeio Noturno&#8221; &#8211; parte 1</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Feb 2012 11:00:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inês Mota</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
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		<description><![CDATA[Análise do conto de Rubem Fonseca - introdução, história e personagens]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O presente trabalho tem por objetivo analisar o conto “Passeio Noturno” de Rubem Fonseca, que, embora escrito em 1975, trata de questões bastante atuais como a violência e a criminalidade nos grandes centros urbanos. A obra aborda o drama pelo qual passa o homem contemporâneo, consumista e individualista, fruto da crise pós-moderna, do capitalismo. Tal homem perdeu seu referencial e, com este, a noção do que é certo e do que é errado. Sem perspectivas, movido pelo sentimento de que tudo é permitido, vive segundo a lei do mais forte.</p>
<p>O Conto narra a história de um personagem que por pura diversão, diariamente atropela e mata transeunte nas ruas. A obra está contextualizada em uma época em que se vivia sob a opressão da ditadura militar, e este fato histórico veio a influenciar sobremaneira, a produção literária no país, que então busca acima de tudo, a liberdade de expressão e traz à tona temas como a violência nas cidades grandes.</p>
<p><span id="more-6108"></span>José Rubem Fonseca nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 11 de maio de 1925, é formado em Direito pela antiga Faculdade de Direito da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, cidade onde mora desde os oito anos de idade.</p>
<p>Sua obra deu inicio a uma nova corrente na literatura contemporânea, que em 1975 ficou conhecida como brutalista. Seus contos e romances apresentam, na maioria das vezes, personagens que são ao mesmo tempo narradores. A estrutura que marca várias de suas histórias é a da narrativa policial com a presença de fortes marcas de oralidade.</p>
<p>Além dos romances de ficção policial, que geralmente se relacionam a um crime ou a um mistério a ser solucionado, sua obra tende a parodiar o gênero policial tradicional, haja vista que os delitos e os crimes figuram como mera dissimulação às severas críticas a uma sociedade que aniquila os direitos primordiais do indivíduo. Nas suas histórias de cunho policial, o que choca não é a morte e tampouco o assassino em si, mas a frieza e os requintes de brutalidades dessas ações, para as quais não existe uma explicação plausível.</p>
<p>“Passeio Noturno” faz parte do livro “Feliz Ano Novo” e teve sua primeira publicação, em 1975, censurada e proibida em todo território nacional.</p>
<h3>A História</h3>
<p>A história de “Passeio Noturno” revela o universo de uma família abastada e consumista e que não cultiva laços afetivos. O narrador homodiegético é um alto executivo que sempre retorna para casa no final do dia e, depois de jantar com a família, sai no seu carro para cumprir um ritual diário – atropelar pessoas nas ruas. Novamente em casa, se prepara para dormir e encarar o próximo dia de trabalho.</p>
<p>As ações na narrativa são pouco numerosas e de natureza externa, voltadas para o espaço físico da rua, não se configurando assim numa narrativa psicológica. São poucas as ações que ocorrem em casa, mas são importantes para a caracterização do personagem. O narrador não se detém sobre os demais membros da família, apenas menciona suas atividades, que não interferem no desenvolvimento do enredo: <em>Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa de cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, (&#8230;). Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho.</em></p>
<p>Essas ações são nitidamente identificadas, dado o seu caráter explícito, e são desenvolvidas pelo narrador numa sequência lógica: ele chega em casa depois de um dia de trabalho e se dirige à biblioteca onde fica esperando ansiosamente o tempo passar. Em seguida janta, desbloqueia a garagem obstruída pelos carros dos filhos. Esse trecho do conto permite ao leitor perceber que o carro é importante, indicando que o veículo proporciona ao personagem um prazer tão intenso que justifica a superação dos obstáculos para acessá-lo e sair para a rua. Logo a seguir, o leitor percebe o significado dessa ação. É um veículo poderoso, com equipamentos reforçados, que geram força silenciosamente, uma máquina equipada para matar pessoas na rua. É na rua, portanto, onde ocorrem as ações de maior intensidade, mais precisamente no carro do personagem.</p>
<p>A narrativa apresenta um caráter de circularidade. Para viver harmoniosamente sua vida monótona e entediante e sua estressante rotina como importante homem de negócios, o personagem está irremediavelmente fadado a praticar essas ações e cometer esses crimes todas as noites. O círculo nunca se fecha; ele volta a matar e assim, sucessivamente, seu ritual macabro se perpetua. O alto executivo só existe por causa do assassino e vice-versa.</p>
<p>A proposta do conto é que a lógica do enredo provoque um rompimento com a ficção, criando um efeito de real. Os fatos narrados na história não necessitam ser verdadeiros nem corresponder com exatidão ao que se passa na realidade exterior ao texto. Entretanto, eles são verossímeis porque possibilitam ao leitor acreditar naquilo que está lendo. A forma como os fatos são organizados no conto nos levam a acreditar que a vida estressada e o cotidiano entediante do personagem narrador vêm a desencadear outras ações, no caso o ato de matar pessoas na rua.</p>
<p>O modelo do esquema narrativo de “Passeio Noturno” é bem demarcado e é possível observar nele várias fases:</p>
<p>O <em>estado inicial,</em> quando o narrador personagem expõe sua rotina ao chegar em casa depois do trabalho e em seguida apresenta os demais personagens: <em>Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis (&#8230;), propostas, contratos. Minha mulher (&#8230;) disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela (…), a música quadrifônica do quarto do meu filho;</em> a rotina e a indiferença familiar, o jantar;</p>
<p>A <em>complicação</em> surge a partir da espera ansiosa na biblioteca; os carros na garagem bloqueando sua passagem; a cidade densamente povoada <em>(saí, como sempre sem saber para onde ir, tinha que ser uma rua deserta, nesta cidade que tem mais gente do que moscas);</em> as árvores na calçada, que precisavam ser contornadas com perícia; a falta do alvo predileto – do sexo masculino <em>(&#8230;mas não aparecia ninguém em condições, comecei a ficar tenso, isso sempre acontecia, eu até gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia ser ela, ainda que mulher fosse menos emocionante, por ser mais fácil);</em></p>
<p>A <em>dinâmica:</em> a saída de casa; a retirada dos outros carros da garagem; a entrada no próprio carro; a chave na ignição; a busca sem rumo por um lugar de pouca movimentação no subúrbio; a tensão; a emoção de encontrar a vítima; o apagar de faróis; o acelerar;</p>
<p>A <em>resolução:</em> o atropelamento, o som dos ossos quebrados e o retorno para casa;</p>
<p>O <em>estado final,</em> a transformação; Já em casa, o personagem examina do carro na garagem <em>(…Corri orgulhosamente a mão de leve pelos pára-lamas, os pára-choques sem marca. (&#8230;) Vou dormir, boa noite para todos, respondi, amanhã vou ter um dia terrível na companhia.).</em> É o fim da tensão, que resulta na catarse do personagem, que agora, aliviado, orgulhoso e poderoso, está pronto para enfrentar mais um dia duro no trabalho.</p>
<h3>Os Personagens</h3>
<p>De número reduzido, os personagens do conto se compõem de um narrador homodiegético, que narra as suas próprias experiências e conduz o relato em primeira pessoa, sua esposa, um casal de filhos, a vítima das atrocidades do personagem – uma mulher que caminha pela rua.</p>
<p>Sabe-se por inferência que o personagem narrador é um homem aparentemente acima de qualquer suspeita, alto funcionário de uma companhia, cujo setor de atuação e cargo não são revelados. É um executivo com um padrão de vida elevado – há referências a uísque, carros, jantar servido à francesa por uma copeira, dinheiro farto e carros para os filhos, conta conjunta com a mulher, carro importado para ele. É gordo e pela natureza do seu trabalho é estressado e tem aparência cansada, como observou sua esposa: <em>tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa relaxar.</em> Em casa, gosta de se isolar na biblioteca. Há uma ausência quase total de diálogo e a perda de contato entre os membros da família, constituída por pessoas envolvidas com suas próprias atividades.</p>
<p>A narrativa funciona basicamente em torno do personagem narrador, a partir de sua visão, contando o cotidiano de sua vida familiar de forma superficial, desde o momento de sua chegada em casa depois de um dia de trabalho, passando por ações que ele realiza até o momento de dormir. A qualificação dos demais personagens é superficial. A esposa, igualmente gorda, se limita a beber, se divertir com jogos, ver novelas na televisão (uma provável alusão à sua personalidade alienada) e a gastar o dinheiro dele.</p>
<p>Da prole, sabe-se apenas que a filha treina impostação de voz e que o filho gosta de ouvir música quadrifônica. São, portanto, pessoas que buscam amenizar, através do consumismo, os seus conflitos existenciais e dissimular a patente falta de comunicação e a consequente degradação dos laços familiares. Observa-se, portanto, que esses personagens não possuem papel essencial na organização da história e têm como única funcionalidade no conto a caracterização do narrador e de como é sua vida familiar, relatada sucintamente no decorrer da narração. Isso é comprovado pela ausência de descrições mais detalhadas dos membros da família, pois nenhum personagem é nomeado e tampouco se conhece suas idades.</p>
<p>Por outro lado, a funcionalidade da vítima do atropelamento na narrativa se reveste de maior importância em comparação com os membros da família. Ela, anônima, desconhecida e vagamente descrita, desempenha na trama, um papel de adjuvante, possibilitando a realização dos objetivos do personagem narrador. O clímax da narrativa, o momento que pega o leitor de surpresa, se dá exatamente no atropelamento. É o ato de matar friamente e sem razão que choca o leitor e o que torna mais impactante o conto.</p>
<p>Os personagens, à exceção do narrador, são marcados e planos, pois do princípio ao fim conservam as mesmas personalidades, as mesmas atitudes, sem qualquer evolução na narrativa. Por outro lado, o narrador é um personagem redondo, uma vez que possui uma personalidade mais complexa e imprevisível, que vai se revelando ao longo da narrativa. É um homem de negócios, bem-sucedido, possuidor de bens, que, a despeito da relação familiar desajustada, choca o leitor, que é pego de surpresa ao se deparar com um criminoso. O homem, do seu ambiente familiar, altera o comportamento e evolui no decorrer da trama para um assassino de caráter frio que usa a violência como divertimento para relaxar as tensões de um dia árduo de trabalho e afirmar-se como poderoso. Tais ações não o atormentam nem geram quaisquer sentimentos de remorso.</p>
<p>[Continua na próxima semana.]</p>
<h3>Nota</h3>
<p>Este texto foi apresentado como segunda avaliação da disciplina Teoria da Literatura 2 do curso Letras &#8211; Espanhol da UFRN.</p>
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		<title>Anticristo</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Dec 2011 11:00:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Misoginia e uma crítica ao Cristianismo]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong><span style="font-style: normal;"><span style="font-weight: normal;">De </span></span>Anticristo</strong> (Antichrist,</em> 2009), de Lars von Trier, se diz que é um filme de terror. Não gosto de classificar os filmes em gêneros, &#8220;comédia&#8221;, &#8220;ação&#8221;, &#8220;ficção científica&#8221;. Isso sempre empobrece a apreciação da originalidade de uma obra. Felizmente, <em>Anticristo</em> é tão sui generis que se torna um bom exemplo da impossibilidade de se reduzir uma obra original a um rótulo.</p>
<p>A história é no geral um drama, com elementos de tragédia e, certamente, de terror. O tema principal é a face maléfica do feminino e a misoginia. Mas, se há mérito pela originalidade artística e pela abordagem ao tema, também se pode dizer que a obra como um todo é um exagero de grotesquidão, e a impressão que fica no final é: &#8220;o que <strong>diabos</strong> esse filme diz?&#8221;</p>
<p><span id="more-2014"></span><img class="aligncenter size-full wp-image-1727" title="Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura." src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Spoilers.png" alt="Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura." width="600" height="50" /></p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-5887" title="Anticristo" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/anticristoposter.jpg" alt="Anticristo" width="200" height="296" /></p>
<p><strong>Título:</strong> <em>Anticristo (Antichrist)</em></p>
<p><strong>Diretor:</strong> Lars von Trier</p>
<p><strong>País:</strong> Dinamarca, Alemanha, França, Suécia, Itália e Polônia</p>
<p><strong>Ano:</strong> 2009</p>
<h3>Olhando para o filme com um microscópio</h3>
<p>(Willem Dafoe interpreta &#8220;ele&#8221; e Charlotte Gainsbourg interpreta &#8220;ela&#8221;. Embora os nomes dos personagens permaneçam desconhecidos, vou chamá-los de Adão e Eva (esta também será chamada, em algumas situações, de Lilith), inclusive porque essa referência bíblica dá mais significado a algumas cenas e circunstâncias da trama.)</p>
<p>Durante um ato sexual, o filho pequeno do casal protagonista, Nic, cai de uma janela alta e morre no momento em que Eva tem um orgasmo. Tomada de grande e prolongada culpa e luto, ela se submete a um tratamento que não parece surtir efeito nem diminuir seu sofrimento.</p>
<p>O ato sexual como primeira cena indica que o filme está contando a história de uma gênese. É, na verdade, a versão de Lars von Trier para o <em>Gênese</em> bíblico. O ato sexual representa o surgimento da vida, e veremos adiante que a história como um todo é uma paráfrase ou paródia da cosmogonia judaico-cristã. Dessa forma, também entendemos que o título do filme, <em>Anticristo,</em> remete em primeiro lugar ao caráter ateísta da criação sob a visão de Lars von Trier, pois aí o Universo não está sendo criado por uma força imaterial superior, mas pelo simples e carnal coito animal.</p>
<p>É importante ter mente que a imagem idealizada da mãe ocidental cristã é uma mulher dessexualizada. A mãe ideal se dá totalmente ao cuidado do filho, sem nenhum aspecto sexual evidente; sua sexualidade é reservada para o pai, e mesmo assim de maneira obscura, enclausurada, sem o conhecimento do filho. Para nossa cultura, seria uma enorme confusão misturar a mãe e a amante. Se uma mãe está fazendo sexo no momento em que seu filho morre, ela poderá pensar que foi irresponsável e que foi o sexo que provocou a morte de seu filho.</p>
<p>Neste momento inicial do filme, estamos testemunhando o regozijo do Homem e da Mulher no Éden e sua perdição. Nic é abreviatura de Nicholas, mas também é um dos apelidos do Diabo (em inglês, the Old Nick). O menino (em nossa cultura chamamos aqueles que morrem na infância de &#8220;anjos&#8221;) é o arcanjo caído, e sua morte representa o surgimento do mal no universo criado por Lars von Trier. Além disso, o menino/Diabo pode remeter à serpente que tentou Eva a comer do fruto proibido.</p>
<p>O surgimento do mal, no Gênese, também ocorre no momento do pecado original, ou seja, na degustação do fruto proibido, que leva Adão e Eva a sentir culpa. Porém, a misoginia da estória bíblica faz recair a maior culpa sobre Eva, o que se reflete na mortificação exclusiva dela. Afinal, além disso, Deus prometeu multiplicar as dores da mulher. Adão não sofreu tanto assim, superando facilmente e se dispondo até a ajudar sua esposa.</p>
<p>Adão, terapeuta amador, assume o tratamento de Eva, procurando relacionar os maiores medos da esposa e levando-a a enfrentá-los. No topo da lista está o Éden, uma casa no campo onde ela costumava ficar com Nic e da qual desenvolveu um intenso pavor após uma experiência traumática (ela escutava um lamurioso choro de criança, pensando que era seu filho e procurando-o desesperadamente; mas, ao encontrá-lo, continuava ouvindo o choro em outro lugar).</p>
<p>Adão tem a ideia de  irem passar um tempo no Éden para que Eva enfrente e supere seu medo. No entanto, esse movimento de reconquista do Paraíso, sendo de certa forma uma repetição, uma recriação ou uma nova tentativa de começar o Universo, esbarra em dificuldades. Adão corre o risco de cometer um erro e ter Eva regredida à primeiríssima mulher, Lilith, feita do barro como ele.</p>
<p>O papel original do Adão bíblico era dar nomes aos seres viventes. O homem era o senhor do Éden, e Deus era o Senhor do homem. Mas a tentativa de reconquistar o Éden começa a se mostrar complicada. O Adão de Trier já provou do fruto do conhecimento e não consegue encarar mais com naturalidade o mundo natural. Este vai aparecer para ele como um lugar terrível.</p>
<p>A primeira visão aterradora é a de uma gazela com um feto natimorto pendurado de sua vagina. Há dois sentidos nessa cena: 1) mostrar que Adão não mais se sente à vontade com a natureza selvagem e 2) fazer uma referência ao aborto de seu próprio filho Nic. A gazela deixa claro para ele o que ocorreu com Eva: seu filho morreu, mas ela ainda carrega seu peso consigo.</p>
<p>Outro terror enfrentado por Adão são as sementes de carvalho que caem ribombando no telhado à noite e que pela manhã estão grudadas no seu braço, que ficou do lado de fora da janela. As sementes simbolizam a fertilidade natural e a luta pela sobrevivência. Se Adão não zelar por sua vida, ele pode acabar como adubo e alimento para novos pés de carvalho.</p>
<p>O terceiro encontro é com uma raposa ferida que fala: &#8220;o caos reina&#8221;. A raposa é o símbolo da astúcia. Se uma raposa está ferida, isso significa que há uma força maior, provavelmente o Caos, que não poderá ser contornada com a esperteza. Neste caso, a inteligência de Adão não será suficiente para que ele escape dos perigos que estão por vir. &#8220;Chaos reigns&#8221; (&#8220;o caos reina&#8221;) também soa como &#8220;chaos rains&#8221; (&#8220;chove caos&#8221;), o que pode aludir às sementes de carvalho que caíram como um prenúncio do que está por vir.</p>
<p>A pesquisa dela sobre ginocídio, especialmente sobre a perseguição às bruxas na Idade Média, a faz despertar uma estranha personalidade conectada à natureza. Ela assume a ideia misógina de que a mulher é naturalmente má, fazendo uma referência às bruxas perseguidas pela Igreja medieval (em latim, &#8220;bruxa&#8221; se traduz malefica) e dizendo ao marido que &#8220;a natureza é a igreja de Satã&#8221;.</p>
<p>Ele então assume que Satã é o maior medo dela, mas descobre que ela está incorporando o estereótipo da bruxa serva do Diabo, transformando-se de Eva em Lilith, e é violentado e nocauteado por ela, que esmaga seus testículos, masturba-o para que ele ejacule sangue e enfim perfura sua perna esquerda para prender uma pesada roda de metal e impedi-lo de andar. Ele foge e se esconde numa vala, onde encontra o terceiro animal, um corvo enterrado vivo que, crocitando, delata a Lilith o esconderijo de Adão.</p>
<p>O corvo tem uma relação metafórica com Adão, pois ambos estão imobilizados, impedidos de andar e voar. Importa lembrar que essa ave é, no ocidente, um símbolo da morte. Podemos inferir que foi Lilith quem o enterrou, como uma armadilha para pegar Adão, o que implica num grande poder assumido pela mulher, capaz até mesmo de controlar as forças da vida e da morte.</p>
<p>Lilith volta a ser Eva e ajuda Adão a retornar à cabana. Sentindo imensa culpa por tudo, Eva corta seu clitóris com uma tesoura de jardim. Eles recebem a visita dos três animais, a gazela, a raposa e o corvo (esse capítulo é intitulado &#8220;Os três mendigos&#8221;). Estes podem ser uma referência aos três reis magos, que visitam Maria e José ao pé do berço de Jesus, como conta o Evangelho. No entanto, ao contrário dos visitantes de Jesus Cristo, que foram em busca de boas novas, da celebração de uma nova vida e da glorificação da mulher, os três mendigos vêm presenciar um mau augúrio, a morte e a demonização da figura feminina (o que retifica o caráter anticristão da história).</p>
<p>Tudo finaliza com uma luta entre homem e mulher, na qual esta é morta e queimada como uma bruxa. Recapitulando, a mulher provocou toda a situação que levou a justificar a necessidade de sua morte pelo homem. A mensagem é a de que o feminino e a mulher são vistos como forças perigosas demais para ser deixadas soltas, e caberia ao homem controlar essas forças ou destruí-las, se necessário.</p>
<p>O título da música principal do filme, &#8220;Lascia ch&#8217;io Pianga&#8221;, da ópera <em>Rinaldo,</em> de Handel, se traduz como &#8220;Deixe-me chorar&#8221;. Ela pode ser uma pista do que levou tudo a dar errado no filme. Adão não queria que Eva se lamentasse mais, queria que ela superasse seu trauma de uma vez por todas. Ao invés de compreender a necessidade de ela expurgar seu sentimento através da tristeza, ele acabou por provocar nela uma culpa ainda maior, levando-a a assumir o papel de Lilith (a bruxa assassina), quando deveria ter superado tudo através do papel da mãe cuidadosa.</p>
<h3>Olhando para o filme com um telescópio</h3>
<p>Há pelo menos quatro formas de se apreciar esse filme: como um pequeno tratado artístico da misoginia; como um filme de terror; como uma obra surrealista e intimista; como uma ateística e ferrenha crítica ao cristianismo.</p>
<p>A muitos repugnou a suposta misoginia do filme, como se isso o desqualificasse como obra artística. Ao meu ver, o filme não é misógino. As razões que existem para levar a crer que o filme é misógino são óbvias demais para não serem, na verdade, irônicas. Eu vi o filme como um manifesto antimisógino. E mesmo que a intenção de Trier fosse realmente expressar sua misoginia, a obra tem muito mais elementos que servem para criticar a misoginia do que para o contrário.</p>
<p>No entanto, esse suposto intento antimisógino não fica claro, e o filme pode facilmente provocar uma confusão e ambiguidade de sentimentos, pois traz à tona, de forma muito forte, as representações que consideram a mulher como um animal que precisa ser domado e reprimido. Sem preparar o olhar antes, o filme pode servir para reforçar a misoginia ou para inflamar o espectador com indignação contra o cineasta supostamente misógino. Neste sentido, se considerarmos que Trier quis fazer um filme sobre a misoginia e não um filme misógino, pode ser que ele tenha falhado.</p>
<p>Se eu recomendo o filme? É difícil responder a esta pergunta&#8230; o filme é uma excelente fonte de informações para uma pesquisa sobre qualquer tema relacionado à misoginia e também é um bom título para os apreciadores do gênero terror. Mas se você não se identifica com nenhum desses dois públicos, não perca tempo com esse filme (eu não teria perdido se antevisse do que se tratava &#8211; aliás, até sinto que perdi tempo escrevendo esta resenha). Procure as outras criações de Lars von Trier <em>(Os Idiotas, Dançando no Escuro, Dogville),</em> que é um grande cineasta. Ou procure filmes mais &#8220;leves&#8221; dentro desse tema, como <em>As Bruxas de Salem.</em></p>
<p>Acima de tudo, entendo que, se o filme tem um mérito que o faça valer a pena ser conhecido, é o de representar uma visão crítica do Cristianismo, evidenciando os elementos mais irracionais de sua doutrina, como o culto à morte, na figura do Cristo martirizado (ao invés do declarado culto à vida), a misoginia que aparece nas figuras de Eva e de Maria (ao invés do declarado respeito à mulher) e o cultivo do desespero (que subjuga o declarado cultivo da esperança). Se você estiver disposto a ver o filme com esse viés, relevando seus elementos grotescos, faça-o. Mas eu recomendaria, em lugar disso, a leitura de dois livros de José Saramago: <em>O Evangelho segundo jesus Cristo</em> e <em>Caim.</em></p>
<p>Mas você pode ver a obra como um delírio surrealista, um nonsense que serve apenas para chocar (uma espécie de <em>O Cão Andaluz</em> mais contemporâneo, guardadas as devidas proporções) e que pode ser interpretado por um viés psicanalista. Se pretender vê-lo assim, faça-o à luz do dia e com a presença de amigos (a reação dos ouros espectadores talvez seja mais proveitosa para uma análise crítica do filme do que o filme em si).</p>
<h3>Links</h3>
<ul>
<li><em><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Antichrist_(film)" target="_blank">Antichrist (film)</a></em> &#8211; Wikipedia</li>
</ul>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-20150"></div></div>]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Planeta dos Macacos (2001)</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Sep 2011 11:00:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção científica]]></category>
		<category><![CDATA[Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Charlton Heston]]></category>
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		<category><![CDATA[Rise of the Planet of the Apes]]></category>
		<category><![CDATA[Tim Burton]]></category>

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		<description><![CDATA[Paráfrase símia]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Antes da homenagem e prequência prestada por Rupert Wyatt <em>(<a href="http://teianeuronial.com/planeta-dos-macacos-a-origem/">Planeta dos Macacos: A Origem</a>),</em> Tim Burton lançara em 2001 sua versão heterogênea de <em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Planet_of_the_Apes_%28filme_de_2001%29" target="_blank"><strong>Planeta dos Macacos</strong></a> (Planet of the Apes,</em> 2001), ignorando quase totalmente a cronologia dos filmes originais iniciados por Franklin Schaffner em 1968 <em>(O Planeta dos Macacos),</em> mas amarrando (um tanto frouxamente) certos pontos para deixar a história parecida com a do antigo filme homônimo.</p>
<p>O filme de Burton não merece uma resenha prolongada. Ele é muito mais uma simples homenagem do que um bom filme (aliás, não é um filme muito bom). Assim, para quem conhece a quintilogia, as referências vão fazer soar o lado nerd dos fãs, mas nada que torne a homenagem digna de uma nota alta. Porém, ele vale a pena ser visto por outros motivos, como se verá a seguir.</p>
<p><span id="more-5531"></span><img class="aligncenter size-full wp-image-1727" title="Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura." src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Spoilers.png" alt="Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura." width="600" height="50" /></p>
<p><img class="size-full wp-image-5494 alignright" title="Planeta dos Macacos (2001)" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/planetapesburton.jpg" alt="Planeta dos Macacos (2001)" width="200" height="300" /><strong>Título:</strong> <em>Planeta dos Macacos (Planet of the Apes)</em></p>
<p><strong>Diretor:</strong> Tim Burton</p>
<p><strong>País:</strong> EUA</p>
<p><strong>Ano:</strong> 2001</p>
<p>Para este que vos resenha, o maior mérito do <em>Planeta dos Macacos </em>de Burton, em termos do que ele representa para si mesmo, é a maquiagem do filme. Os atores que interpretam chimpanzés, gorilas e orangotangos o fazem muito bem e suas máscaras são bem convincentes (exceto no caso de algumas fêmeas que muito parecem humanas).</p>
<p>Nesse quesito, penso que Burton supera muito Schaffner e os produtores dos filmes originais (considerando, claro, que a maquiagem dos filmes originais era muito bem feita e representava o melhor que se podia fazer à época). Especialmente, Burton fez uma maquiagem melhor no que se refere à semelhança dos macacos fictícios com os macacos reais. Os orangotangos de Schaffner e cia. por exemplo, mais parecem chimpanzés loiros, enquanto o filme de 2001 mostra as três espécies muito bem caracterizadas e distintas.</p>
<p>Em termos gerais, a história de Burton coincide em alguns momentos com a de Schaffner. Há um astronauta que se perde no futuro e encontra um planeta onde macacos dominam humanos. Estes são caçados por gorilas montados em cavalos e enjaulados em carroças. Há uma sociedade símia complexa que considera que os humanos são animais inferiores sem alma. Além disso, a espécie humana é considerada extremamente perigosa, que precisa ter seus impulsos destrutivos domados e refreados. Existe um segredo cuja revelação pode desconstruir toda a crença na superioridade dos macacos, e toda evidência desse segredo é ocultada pelo antagonista (num caso, um orangotango que é ministro da Ciência; no outro, um chimpanzé que é um líder militar). Há uma chimpanzé que desafia a autoridade omissora e se alia ao protagonista humano, que consegue escapar do cativeiro e fugir do mundo dos macacos. No final, ele se depara com um símbolo da sociedade norte-americana violado pelas circunstâncias da trama.</p>
<p>O principal, no entanto, são os easter eggs, como certas frases subvertidas em seus contextos. Enquanto Taylor, personagem de Charlton Heston, brada para um gorila que o captura:</p>
<blockquote><p>Take your stinking paws off me, you damn dirty ape!</p>
<p>[Tire suas patas fedidas de mim, seu maldito macaco sujo!]</p></blockquote>
<p>Um gorila grunhe estas palavras para Leo Davidson (interprerado por Mark Wahlberg):</p>
<blockquote><p>Take your stinking hands off me, you damn dirty human!</p>
<p>[Tire suas mãos fedidas de mim, seu maldito humano sujo!]</p></blockquote>
<p>A cena antológica final da obra de 1968 traz a frase que ecoa até hoje:</p>
<blockquote><p>Damn you! God damn you all to Hell!</p>
<p>[Malditos sejam! Malditos sejam todos vocês!]</p></blockquote>
<p>Charlton Heston aparece no filme de Burton como um velho chimpanzé moribundo, e repete quase as mesmas palavras, referindo-se aos humanos:</p>
<blockquote><p>Damn them all to Hell!</p>
<p>[Malditos sejam todos eles!]</p></blockquote>
<p>Finalmente, entre outras coisas (para não me prolongar desnecessariamente), há a cena do beijo inter-racial entre Taylor e Dra. Zira (que não gosta muito da ideia), parodiado na cena de Davidson e Ari (que parece ter esperado, junto à expectativa dos espectadores, durante todo o filme por isso).</p>
<p>Ele também é um filme que tematiza a compreensão das diferenças e o respeito ao outro, mais explicitamente do que no filme original. Os humanos são vistos pelos macacos como animais, e a cena da menina humana engaiolada chorando diante de sua dona, uma menina chimpanzé contente com seu bichinho de estimação, nos faz pensar o que sente um macaquinho ou um passarinho numa gaiola. Da mesma forma, o orangotango Limbo, comerciante de humanos, experimenta a dor de ser algemado, o que contraria sua afirmação de que as algemas não machucam os humanos.</p>
<p>Para além de um manifesto contra a violência aos animais, essa história é um libelo pelos direitos humanos. Os macacos escravizam homens e mulheres humanas para que os sirvam como empregados, não como cães-de-guarda, o que remete à escravidão praticada entre humanos. Estes não são animais irracionais, pois pensam como os macacos inteligentes, &#8220;têm alma&#8221; (para contrariar a crença do general Thade) e deveriam merecer um lugar igual ao das três espécies dominantes de macacos.</p>
<p>Porém, o que fica aparente ao final é que os próprios humanos são superiores, capazes de se guiar pela razão, contornando crenças e tradições estagnantes, o que os macacos só conseguem fazer com dificuldade. Mas talvez a mensagem seja a de que os oprimidos conseguem vislumbrar mais facilmente uma realidade diferente e melhor para si, enquanto os opressores, confortavelmente instalados no topo, não têm motivos para querer mudar. Nisso humanos e macacos são iguais e, é bom lembrar, não é à toa que humanos são uma espécie de macaco.</p>
<p><object width="600" height="337" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/I1lZ3un-kcg?version=3&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="600" height="337" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/I1lZ3un-kcg?version=3&amp;hl=pt_BR" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-55320"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>Planeta dos Macacos: A Origem</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Sep 2011 17:00:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Caesar]]></category>
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		<category><![CDATA[Franklin J. Shaffner]]></category>
		<category><![CDATA[Franklin Shaffner]]></category>
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		<category><![CDATA[Pierre Boulle]]></category>
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		<category><![CDATA[Rise of the Planet of the Apes]]></category>
		<category><![CDATA[Rupert Wyatt]]></category>
		<category><![CDATA[San Francisco]]></category>
		<category><![CDATA[Tim Burton]]></category>

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		<description><![CDATA[Homenagem símia]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O cinema contemporâneo vem sendo marcado pelo fenômeno das refilmagens, prequências, reboots e similares. A crise de criatividade em Hollywood chega ao ponto de vermos obras semelhantes aparecerem num intervalo de poucos anos. É o caso de <em>Homem-Aranha</em> (2002 e 2012)), <em>Hulk</em> (2003 e 2008) e <strong><em>Planeta dos Macacos</em></strong> (2001 e 2011). Estes últimos têm o agravante de já serem ambos homenagens ao mesmo filme de 1968.</p>
<p>E, acima de tudo, muito mais do que uma grande obra de arte, <strong><em>Planeta dos Macacos: A Origem</em></strong> <em>(Rise of the Planet of the Apes,</em> 2011) é uma grande homenagem ao legado cinematográfico iniciado por Franklin J. Schaffner com seu <em>O Planeta dos Macacos</em> <em>(Planet of the Apes,</em> 1968), este já uma adaptação do livro homônimo de Pierre Boulle <em>(La Planète des Singes,</em> 1963)</p>
<p><span id="more-5472"></span><img class="aligncenter size-full wp-image-1727" title="Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura." src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Spoilers.png" alt="Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura." width="600" height="50" /></p>
<p><strong><img class="alignright size-full wp-image-5481" title="Planeta dos Macacos: A Origem" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/riseplanetapescartaz.jpg" alt="Planeta dos Macacos: A Origem" width="200" height="296" />Título:</strong> <em>Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes)</em></p>
<p><strong>Diretor:</strong> Rupert Wyatt</p>
<p><strong>País:</strong> EUA</p>
<p><strong>Ano:</strong> 2011</p>
<p>A premissa do filme é explicar o processo pelo qual os macacos (especificamente os macacos antropoides, chimpanzés, gorilas e orangotangos) começaram a dominar o planeta Terra e os humanos degeneraram para a condição de animais irracionais. Ou seja, é uma prequência para o filme de 1968. Daí temos estabelecido que &#8220;a origem&#8221; diz respeito ao universo dos filmes e não ao do livro de Boulle, já que neste a história não se passa na Terra.</p>
<p>Antes de tudo mais, lembremos que uma prequência a <em>O Planeta dos Macacos</em> já havia sido feita em 1972 com <strong><em>A Conquista do Planeta dos Macacos,</em></strong> dirigido por J. Lee Thompson, quarto filme da quintilogia iniciada em 1968. De fato, toda a quintilogia original é um ciclo que narra um paradoxo temporal em que os eventos do primeiro filme dão origem a eventos do passado que vão determinar o cenário do primeiro filme.</p>
<p>O filme de 2011 narra uma história alternativa. Enquanto nos filmes originais o iniciador da revolução símia, César, é filho de chimpanzés inteligentes do futuro, a nova sequência de eventos traz um chimpanzé, também chamado César, cuja mãe havia sido tratada com um vírus. Este vírus fazia parte dos resultados provisórios de uma pesquisa para a busca da cura do Mal de Alzheimer, e sobre os chimpanzés ele tinha o efeito de deixar mais inteligentes. César, cuja mãe teve que ser sacrificada, é levado para casa por Will Rodman, cientista responsável pela pesquisa, para que não levasse o mesmo fim da progenitora, e se torna animal de estimação de Charles Rodman, pai do pesquisador, que sofre de Alzheimer.</p>
<p>Mas César não é um animal qualquer. Ele é praticamente uma criança humana num corpo de chimpanzé, e amadurece muito mais do que o chimpanzé médio quando se torna adulto. Seu confinamento doméstico traz problemas, pois ele sente a necessidade de ir para fora de casa brincar, mas os vizinhos consideram que o macaco é um risco se deixado solto. Sua ânsia por ar fresco é aliviada quando Will passa a levá-lo constantemente a um parque florestal de San Francisco, cidade onde residem. Mas César permanece descontente por não ser tratado pelos outros como uma pessoa.</p>
<p>O evento crucial que vai iniciar a reviravolta do filme é quando César ataca um vizinho que está brigando com Charles. Os donos acabam por levar César a um abrigo, onde ele é obrigado a conviver com outros chimpanzés e com a presença de um orangotango e de um gorila enjaulado. Mas César, que no início se torna um proscrito entre os de sua espécie, logo usa sua inteligência superior para dominar o grupo, criando ferramentas para soltá-los de suas jaulas e domando o gorila, que se torna seu guarda-costas. Seu grande feito, no entanto, é trazer para o abrigo o vírus da pesquisa e infectar seus colegas, que passam a desenvolver inteligência como ele.</p>
<p>O que se segue se resume a uma longa luta entre macacos (que se libertam do abrigo) e humanos, encenada quase toda na ponte de San Francisco, que fica no caminho entre a cidade e o parque florestal. Nesse caminho, os macacos provam um pouco de vingança contra os humanos, estabelecem alguns precedentes para a organização social símia, bem como alguns de seus valores morais, e se encaminham da cidade para a floresta, onde se subentende que formarão uma sociedade autônoma composta de chimpanzés, orangotangos e gorilas.</p>
<h3>Temas</h3>
<div id="attachment_5519" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-5519" title="A Conquista do Planeta dos Macacos" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Conquest_of_the_planet_of_the_apes.jpg" alt="A Conquista do Planeta dos Macacos" width="200" height="322" /><p class="wp-caption-text">A Conquista do Planeta dos Macacos (1972)</p></div>
<p>A premissa não é nova. Traz-se para a relação entre humanos e animais a mesma história que encena a revolta dos oprimidos contra os opressores, os fracos que descobrem a própria força para lutar por liberdade. Essa é a história dos escoceses em <em>Coração Valente (Braveheart,</em> 1995), dos rebeldes em <em>Guerra nas Estrelas (Star Wars,</em> 1977), dos bichos da fazenda em <em>A Revolução dos Bichos (Animal Farm,</em> George Orwell) e das máquinas que se voltam contra os humanos em <em>Matrix (The Matrix,</em> 1999) &#8211; que posteriormente são combatidas pelos mesmos humanos oprimidos por elas.</p>
<p>Aliás, não há novidades em <em>Planeta dos Macacos: A Origem,</em> o tema não é explorado além do básico. Temos ali uma situação tensa, um representante dos oprimidos que tem algo especial, sem o qual não poderá liderar seu grupo; há os amigos do lado dos opressores, divididos entre ajudar e arriscar-se a morrer, mas que enfim ajudam. Entrevê-se, enfim, a reviravolta que colocará os ex-oprimidos no lugar dos opressores (como os porcos de <em>A Revolução dos Bichos,</em> que se tornam humanos, e as máquinas de <em>Matrix),</em> da forma como vimos em <em>O Planeta dos Macacos,</em> o que traz outra mensagem: não adianta tomar o poder sem antes reformular a estrutura do poder; os atores mudam, mas a dominação continua a existir.</p>
<p>O filme traz considerações atuais sobre a bioética e os riscos da busca desenfreada pelo lucro advindo do mercado medicinal. Também aparece uma referência ao medo das armas biológicas, com a propagação de uma doença que começa a ameaçar a humanidade e dá início à degeneração do <em>Homo sapiens.</em></p>
<h3>Homenagens</h3>
<div id="attachment_5520" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-5520" title="O Planeta do Macacos (1968)" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/PlanetoftheapesPoster.jpg" alt="O Planeta do Macacos (1968)" width="200" height="308" /><p class="wp-caption-text">O Planeta do Macacos (1968)</p></div>
<p>Como disse acima, <em>Planeta dos Macacos: A Origem</em> é mais uma homenagem do que um bom filme. Vale a pena citar as referências, que fazem com que a obra seja melhor aproveitada por aqueles que se lembram do filme original.</p>
<p>A primeira cena, em que humanos caçam macacos numa selva africana, remete ao primeiro encontro entre humanos e macacos do filme de 1968. No caso presente, chimpanzés são engaiolados e levados à cidade grande para se submeter a experimentos científicos. A mãe de César é apelidada de Bright Eyes (Olhos Brilhantes), o mesmo apelido que Taylor recebe da Dra. Zira no filme original.</p>
<p>Quando adulto, os donos de César o levam para passear com uma coleira e vestindo uma camisa vermelha, da mesma forma que o César de <em>A Conquista do Planeta dos Macacos</em> (neste caso, para se passar por um chimpanzé normal).</p>
<p>Quando está enjaulado, César recebe uma ducha de água fria do seu carcereiro, remetendo à cena em que Taylor, também enjaulado, recebe o mesmo tratamento do gorila que o vigia. No cativeiro, César conhece um orangotango chamado Maurice e um gorila chamado Buck, referências aos atores Maurice Evans (que interpretou o orangotango Dr. Zaius) e Buck Kartalian (que interpretou o gorila Julius, carcereiro de Taylor). Cita-se ainda uma chimpanzé, numa cela próxima à de César, cujo nome é Cornelia, que remonta a Cornelius, um dos principais chimpanzés do filme original.</p>
<p>Uma das frases mais marcantes do filme original é proferida por Taylor quando capturado em sua tentativa de fuga:</p>
<blockquote><p>Take your stinking paws off me, you damn dirty ape!</p></blockquote>
<p>Essa frase é parafraseada ipsis litteris pelo carcereiro de César, quando este está tentando fugir. César responde com um sonoro &#8220;Não!&#8221;, primeira palavra proferida por um macaco no filme. É também uma referência a <em>A Conquista do Planeta dos Macacos,</em> em que a chimpanzé Lisa, companheira de César e primeira símia a falar depois deste, suplica que ele não fuzile os humanos capturados pelos gorilas.</p>
<p>A polícia montada humana também é uma óbvia recordação dos gorilas cavaleiros do filme original. Um dos cavalos é inclusive capturado por César, que o monta em determinado momento da luta. Este não é apenas o precedente para o futuro em que macacos domarão cavalos, mas uma referência ao fato de o César de <em>A Conquista do Planeta dos Macacos</em> ser um chimpanzé de circo que, entre outros &#8220;truques&#8221;, cavalga uma montaria.</p>
<p>Certamente escaparam muitas referências desta lista, seja porque não pretendo me delongar demais, seja porque não lembrei, seja porque não as percebi. Mas estas são suficientes para mostrar que <em>Planeta dos Macacos: A Origem</em> primou pela homenagem à obra cinematográfica original, respeitando diversos elementos que caracterizaram o que <em>O Planeta dos Macacos</em> representa artística, cultural e socialmente.</p>
<h3>Macacos virtuais</h3>
<p>A principal diferença plástica entre esse filme e as versões precedentes é a materialização dos macacos. Aqui eles são criados com tecnologia digital, tendo os movimentos capturados de atores humanos reais. Não chegam a ficar muito diferentes de macacos reais, embora desenvolvam ao longo da história um tamanho quase humano e postura ereta. Porém, não são tão realistas quanto a criatura fantástica Gollum de <em>O Senhor dos Anéis,</em> interpretado pelo mesmo ator que faz César, Andy Serkis.</p>
<p>Os macacos da quintilogia original são muito mais parecidos com humanos em termos de postura, proporção dos membros e tamanho da cabeça. A partir da recriação de Tim Burton (2001), houve a preocupação em caracterizar chimpanzés, orangotangos e gorilas racionais mais parecidos com suas versões reais animalescas.</p>
<p>No entanto, os macacos digitais perdem um pouco de expressividade. Tendo que se comunicar especialmente por expressões faciais, gestos e linguagem de sinais, os atores não conseguiram imprimir o mesmo resultado dos atores maquiados. Wall-E e Eva, por exemplo, conseguem ser mais expressivos do que César e cia. Com exceção de alguns poucos momentos de Andy Serkis, os macacos oscilam entre óbvios bonecos gráficos e animais sem vida. Mas, no geral, não se pode dizer que ficaram mal feitos. Resta esperar pela provável continuação para ver se o filme melhora ao menos nesse quesito.</p>
<p><object width="600" height="337" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/f8D2NIGEJW8?version=3&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="600" height="337" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/f8D2NIGEJW8?version=3&amp;hl=pt_BR" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
<h3>Filmes citados</h3>
<ul>
<li><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Planet_of_the_Apes_(1968)" target="_blank">O Planeta dos Macacos</a> (Planet of the Apes,</em> 1968)</li>
<li><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Conquista_do_Planeta_dos_Macacos" target="_blank">A Conquista do Planeta dos Macacos</a> (Conquest of the Planet of the Apes,</em> 1972)</li>
<li><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Planeta_dos_Macacos_(2001)" target="_blank">Planeta dos Macacos</a> (Planet of the Apes,</em> 2001)</li>
<li><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Planeta_dos_Macacos:_A_Origem" target="_blank">Planeta dos Macacos: A Origem</a> (Rise of the Planet of the Apes,</em> 2011)</li>
</ul>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-54730"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>Babies &#8211; Resenha</title>
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		<pubDate>Sat, 21 May 2011 13:00:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antropologia]]></category>
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		<category><![CDATA[Opuwo]]></category>
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		<category><![CDATA[Tóquio]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma oportunidade para insights sobre igualdade e diferença]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><em>Babies</em></strong> (2010), filme dirigido por Thomas Balmès, é um documentário que testemunha, sem narração, o 1º ano de vida de quatro pequenos seres humanos, cada um de uma parte distinta da Terra. Ponijao é um menino namibiano, Mari é uma menina japonesa, Bayar é um menino mongólico e Hattie é uma menina norte-americana.</p>
<p>Acompanhamos diversos momentos da vida das pequenas crianças, desde o nascimento, passando pelas primeiras palavras até os primeiros passos. Os quatro bebês comovem o espectador, como é comum com adultos contemplando infantes dessa tamanho e idade. O cineasta escolhe momentos pitorescos e os encaixa com cenas que mostram especificidades culturais, de hábitos e costumes.</p>
<p><span id="more-4903"></span></p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1727" title="Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura." src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Spoilers.png" alt="Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura." width="600" height="50" /></p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-4977" title="Babies" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/babiesposter.jpg" alt="Babies" width="200" height="308" /><strong>Título:</strong> <em>Babies</em></p>
<p><strong>Diretor:</strong> Thomas Balmès</p>
<p><strong>País:</strong> França</p>
<p><strong>Ano:</strong> 2010</p>
<h3>A câmera do europeu adulto</h3>
<p>A presença dos pais e de outros coadjuvantes é sempre notada, mas os ângulos das câmeras privilegiam a ação dos pequeninos em sua aventura de descoberta do mundo. Essa abordagem nos aproxima da experiência dos bebês e da vivência dos cuidados dos pais.</p>
<p>Como o filme é dirigido por um ocidental, percebe-se que o documentário tem um viés voltado para o registro da alteridade. Dessa forma, a pequena Hattie tem pouco destaque, enquanto Ponijao e Bayar parecem brilhar mais. Isso parece ter a ver com o fato de serem os mais &#8220;estranhos&#8221; para a câmera de Balmès, com costumes e ambientes mais exóticos para os olhos de um europeu.</p>
<p>Entretanto, pode ser que essa tenha sido a minha impressão enquanto compartilhando, ou seja, a vida da bebê norte-americana não era muita novidade para mim, acostumado com hábitos um pouco parecidos na sociedade em que vivo e conhecendo um pouco da vida norte-americana através da mídia.</p>
<h3>Diferenças e semelhanças</h3>
<p>As situações díspares a que assistimos durante o filme nos mostram a diversidade de condições em que os seres humanos podem se criar e viver, sem deixar de se constituírem como plenas criaturas da mesma espécie.</p>
<p>Se, por um lado, ao bebê namibiano é permitido engatinhar na terra nua e brincar com ossos de animais, por outro, a menina norte-americana é cercada de cuidadosa obsessão com a higiene esterilizadora. Os ambientes em que vivem, respectivamente, Bayar e Mari são bem diferentes também. O menino mongólico está o tempo todo rodeado de animais domésticos e em constante contato com bois, cabras, gatos e galinhas, enquanto o cenário em que vive a japonesinha é completamente urbano (os únicos animais, além do gato doméstico, com que tem contato estão atrás das janelas de vidro do zoológico).</p>
<p>De modo geral, a obra nos mostra quão semelhantes são os seres humanos, independentemente da cultura e das superficiais características físicas. Vemos todos os bebês rindo, chorando e com medo. Cada um deles busca com curiosidade conhecer o mundo ao seu redor, os objetos e os animais. Cada um, em seu tempo, aprende a balbuciar e imitar a fala dos adultos. Todos eles experimentam os primeiros passos e as primeiras quedas.</p>
<p>Ao mesmo tempo, vemos como são diversas as culturas humanas. As mães e pais têm técnicas e modos diferentes de lidar com os mesmos problemas. A mãe namibiana limpa os olhos de seu bebê com a língua, enquanto a mãe mongólica lava os do seu com o leite do próprio seio. As diferenças entre o ambiente urbano (Japão e EUA) o rural (Mongólia e Namíbia) implica em uma socialização diferente também. Na cidade, o contato familiar quase se restringe ao convívio com os pais (os dois bebês urbanos são filhos únicos) e com adultos que fazem parte do círculo de amizades dos pais ou de grupos dos quais estes participam. Já as crianças do mundo rural têm relação mais próxima com a família extensa, irmãos, primos, tios e avós.</p>
<p>Desde muito cedo em sua vida, o ser humano está rodeado de estímulos, imerso nos hábitos e costumes dos adultos. Isso nos ajuda a perceber o processo pelo qual uma cultura fica tão entranhada no indivíduo, acostumado com os padrões de comportamento que presencia e replicador desse mesmo modo de viver e ver o mundo.</p>
<p>Mas ficamos com o registro de quatro mundos diferentes, sem comunicação entre si. Embora tenha sido uma proposta válida em si mesma, seria muito interessante que Balmès, talvez posteriormente, promovesse um encontro com os quatro pequenos astros e enriquecesse a experiência, mostrando a estranheza que cada um demonstraria diante de seus companheiros de enredo.</p>
<h3>Links</h3>
<ul>
<li><em><a href="http://www.imdb.com/title/tt1020938/" target="_blank">Babies</a></em> &#8211; IMDb</li>
</ul>
<h3>Trailer</h3>
<p><object width="599" height="341"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/N009QUWUy7I?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="599" height="341" src="http://www.youtube.com/v/N009QUWUy7I?fs=1&amp;hl=en_US" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>Matrix</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Mar 2011 20:00:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inês Mota</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção científica]]></category>
		<category><![CDATA[Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Agente Smith]]></category>
		<category><![CDATA[Cypher]]></category>
		<category><![CDATA[Matrix]]></category>
		<category><![CDATA[Morpheus]]></category>
		<category><![CDATA[Neo]]></category>
		<category><![CDATA[Sião]]></category>
		<category><![CDATA[Trinity]]></category>

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		<description><![CDATA[Realidade, ilusão, ciência - Reloaded]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Meu nome é Morpheus. Alguns insistem em fazer analogias associando meu nome à figura do pregador João Batista, mas isso não tem o menor fundamento, acreditem. A nave na qual viajo se chama Nabucodonosor, porque certa vez sonhei com a destruição de Jerusalém, embora até hoje não saiba o que isso quer dizer. O onirismo às vezes nos prega dessas peças.</p>
<p>Venho em missão secreta, do centro quente da terra de Sião, a última cidade dos seres livres. Sou o visionário que lutará para libertar a humanidade do domínio das máquinas. Embora plasmado em imagem masculina, advirto que sou mulher mesmo e só usei a indumentária na película porque estava vindo de uma dessas modernas e ridículas festas temáticas para adultos.</p>
<p><span id="more-4596"></span>Metaforicamente sou o componente yang da psique&#8230; putz, yin, deixa de novela e segura a droga desse microfone!&#8230; Continuando, sinto informar que não surtiu o efeito esperado tapar o sol com a peneira. Vocês esqueceram a velha máxima? Por que os algozes usariam a energia solar se podiam recorrer à fonte dos próprios humanos, mais abundante e barata?</p>
<p>Repudio a ideia de ver vossas mentes conectadas em Realidade Virtual e abomino esses campos de cultivo, em que casulos aprisionam vossos corpos para alimentar as insaciáveis máquinas. Gostaria que soubessem  o quão  lamento vê-los manipulados, customizados no brechó da esquina e deslumbrados com as reprises das novelas globais “O Clone”e “Ti Ti Ti”.</p>
<p>Agora, as máquinas evoluídas pela AI reinam absolutas sob o comando do Agente Smith, especialmente programado para manter a ordem dentro do sistema e pronto a exterminar humanos e programas instáveis na realidade simulada. Elas querem vossas energias, vossos votos para reeleger Dilma daqui a quatro anos, vossos incondicionais apoios à CPMFs<sup>1</sup>, vossas certidões de idade, vossos cartões de crédito, vossas mãos em casamento e muito mais. Por isso, insisto, está na hora de fugir da caverna do senso comum e superar a ignorância rumo à filosofia. As dúvidas de como vencer essa árdua jornada poderão ser encaminhas ao site do Platão, aberto 24 horas por dias, inclusive nos fins de semana.</p>
<p>Entretanto, nem tudo está perdido, pois vislumbro um ser dentre vós, o Escolhido, capaz de controlar e derrotar os mecanismos antivírus da poderosa Matrix. Seria  Anderson, o filho de André, o Hacker filho do homem, o ego psicologicamente representado, o neo Neo com excelentes e comprovados reflexos para apanhar sabonete no banheiro e messianicamente ressuscitado na sala 303 após beijo caloroso de Trinity?</p>
<p>Para verificar a identidade do Escolhido é preciso consultar o Oráculo – uma senhora casada com um carpinteiro de nome José – que sabiamente assertou “A nossa escolha é a repetição das nossas escolhas”. Por vezes ela aparece disfarçada de vendedora de hambúrguer<sup>2</sup> no McDonald’s e pode-se identificá-la facilmente pela canção “I&#8217;m Beginning to See the Light&#8221; (‘Estou Começando a Ver a Luz’), de Duke Ellington, que ela costuma entoar ouvindo o seu radinho de pilha ABC. Mas todo Oráculo que se preza tem a proteção do seu Cérbero de guarda ou espírito superior e assim Neo será testado e enfrentado por Seraph antes de este o conduzir até ela.  E  não se enganem. Pode ser um contrassenso, mas Neo estaria perdido sem esse amparo, ainda que o Oráculo não forneça  respostas, só escolhas. Eu mesmo, Morpheus,  quando Neo decidir  ingerir a pílula vermelha que o deixará na maior lombra à la “Lucy in the Sky with Diamonds”, o alertarei: “ Esse home precisa entender que estou tentando libertar sua mente. Mas eu só posso  mostrar a porta. E esse home é que tem que decidir se quer atravessá-la ou não.” Basta ver que o Kafka já sabia sobre o poder das escolhas, do livre-arbítrio, tanto que a sua porta da justiça permaneceu fechada diante do homem que não ousou enfrentar as adversidades que o adentrar reservava. E sabe-se que a passagem estava ali exclusivamente para ele.</p>
<p>E tem mais. Toda cautela é pouca com Cypher. Ainda que seu nome lembre Lúcifer – ele está mais pra Judas do que para anjo caído. É a encarnação do mal, a traição, o retrocesso total do eu e defende a ilusão como mais interessante do que a realidade ou &#8220;olhos que não veem, coração que não sente&#8221;. Costuma recorrer a citações do Mecanismo de Defesa do Ego (MDE), sem os devidos créditos e sem pagar pelos direitos autorais.</p>
<p>Por outro lado, Trinity, o aspecto yin da psique, pode ajudar muito. A não ser que yang, por sua personalidade possessiva e ciumenta, não o permita. Trinity é o apoio físico e espiritual ao Escolhido, a trindade que se resume em 4: pai, filho, espírito santo e assim seja. Recomendo tratá-la com o maior recato e prudência. Chamá-la inadvertidamente de Madalena seria um erro crasso que a deixaria puta para o resto da vida.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-4610" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/trinity.jpg" alt="Trinity" width="600" height="370" /></p>
<p>Assim, o  Escolhido deverá seguir os coelhos brancos mutantes que aterrorizam rancheiros do Arizona, além de dominar o conhecimento sobre o alfabeto japonês ao contrário, a fim de desvendar os seguintes enigmas:</p>
<ul>
<li>Por que aqueles Cavaleiros continuam dizendo &#8220;Niilismo&#8221;?</li>
<li>Por que Lula deixou de usar o famigerado &#8220;Companheiros&#8221;?</li>
<li>Por que a Capitania Hereditária do Maranhão não foi extinta junto com os dinossauros?</li>
<li>Por que herbívoros como a cabra, o cavalo, a vaca e o elefante, com dietas similares, apresentam excremento sólidos de formato e volume tão distintos?</li>
</ul>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-4611" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/matrix.jpg" alt="A matrix" width="600" height="442" /></p>
<p>A seguir, serão fornecidas algumas pistas elucidativas, pelo reconhecimento aos esforços de centenas e centenas de pessoas que visitarão este blog na tentativa de decifrar o enigmático enigma, e cujos comentários não serão verbalizados aqui devido a problemas técnicos verificados na transmissão de dados da nave-mãe à nave-filha, que se encontrará deslumbrada com as babaquices do Big Brother. Assim, as informações poderão ser repassadas ao Enviado, por mensagens através do Twitter, do Facebook, do Orkut, do Badoo, do MySpace, do Hi5, Windows Live, Netlog e outras tantas redes sociais:</p>
<ol>
<li>Os Cavaleiros do Monty Python permanecerão dizendo Ni e pedindo um shrubbery na Amazônia. Pode parecer absurdamente nonsense esmolar um shrubbery numa floresta tão majestosa, mas da maneira como anda o desmatamento, nem o carrinho que anuncia “vendo arbustos” vai salvar a trupe dos míticos cavaleiros. E, ainda que este planeta se vá pelas mãos do homem ou pelas motoserras nas mãos do homem – os satélites e as ondas magnéticas das TVs a cabo ou não já providenciaram a disseminação eterna dos Nis pelo Cosmos. Os legendários Cavaleiros querendo ou não.</li>
<li>Quanto aos excrementos dos herbívoros ruminantes, é tudo muito óbvio e o quesito figurou aqui apenas para encher linguiça, atendendo às exigências tirânicas do 1º titular deste blog, que não permite posts sucintos. Ora, a aparência e o volume do produto final não estão diretamente atrelados ao tipo de matéria-prima que entra e sim aos meandros internos de circulação e às dimensões do espaço por onde sai. Assim sendo, está clara a razão pela qual um pobre cabrito não poderia defecar qual um cavalo. Por sua vez, o elefante, por motivos idênticos e dado o seu porte magnífico, se evacuasse tal qual um cabrito, seria ridicularizado na selva, e o leão do imposto de renda, um felídeo bastante feroz, impiedoso, e oportunista, o emboscaria e o comeria rapidinho, bem antes de a pequena empresa completar o seu primeiro ano de atividade, embora o rei barbudo da selva esteja pouco se lixando para isso. Certa vez, ao ser indagado por  agentes de terno preto e óculos escuros sobre esta intrigante questão do formato dos sólidos escatológicos dos bichos herbívoros, ele, espantado, não deu explicações convincentes. Aí o bicho pegou. Os nativos correram pra cima dele com paus e pedras, tablets e smartphones. Como é que o rei da selva não sabia nada de absolutamente bosta nenhuma?</li>
</ol>
<p>Mas águas passadas não movem moinhos, já diz o adágio. Portanto, não esqueçam de agir sem trapalhada, porque apelos ao estilo Tooter Turtle, “Mr. Wizard, me tire daqui”, não mais serão atendidos, porque já não haverá varinha de condão, o lagarto não possui mais poderes de teletransporte e nem poderá devolver o velho eu para quem se arrependa e queira ser feliz com o que era.</p>
<p>E nada de egoísmo. O que vale é a negação do indivíduo e a segurança da massa. Pelo fim da gripe suína que ninguém mais se lembra, pela melhoria do transporte público e pelo fim dos buracos nas ruas de Natal. Abaixo a prostituição infantil recém-descoberta pelo Fantástico, nas esquinas Wells Lake de Ponta Negra. Abaixo o modismo, o axé music e o forró de Fortaleza, o apego meterial, as ilusões e os vícios da vida. Abaixo o verde, viva o azul. Pelo fim do domínio das máquinas, pela sobrevivência da espécie humana!</p>
<h3>Notas</h3>
<ol>
<li>CPMF – A morta-viva. Seu fantasma ainda atormenta os cidadãos, ricos e pobres, desse Brasil brasileiro. Sua ressurreição pode ser iminente.</li>
<li>Hambúrguer – Um alimento para suínos e canídeos, composto por 43.569 ingredientes, dentre eles as partes asquerosas – estômago e afins – de animais domésticos.</li>
</ol>
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		<title>Filmes para crianças – parte 2</title>
		<link>http://teianeuronial.com/filmes-para-criancas-%e2%80%93-parte-2/</link>
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		<pubDate>Wed, 09 Feb 2011 09:00:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção científica]]></category>
		<category><![CDATA[Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque ETs]]></category>
		<category><![CDATA[E.T. o Extraterrestre]]></category>
		<category><![CDATA[E.T.: the Extra-terrestrial]]></category>
		<category><![CDATA[Enemy Mine]]></category>
		<category><![CDATA[Explorers]]></category>
		<category><![CDATA[Filmes para Crianças]]></category>
		<category><![CDATA[Inimigo Meu]]></category>
		<category><![CDATA[Joe Dante]]></category>
		<category><![CDATA[Steven Spielberg]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem ao Mundo dos Sonhos]]></category>
		<category><![CDATA[Wolfgang Petersen]]></category>

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		<description><![CDATA[Contatos imediatos no ensino do 1º grau]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As histórias sobre extraterrestres são ótimas oportunidades para se refletir sobre diferença e igualdade. Nelas vemos metáforas das próprias diferenças entre os indivíduos e povos humanos e o desafio do convívio pacífico entre eles, além do aprendizado mútuo. Essas histórias são, assim, um meio de ampliar as perspectivas sobre o mundo e o universo, fazendo-nos refletir sobre o respeito à diferença e à possibilidade de nos considerarmos todos parte de um mesmo mundo.</p>
<p>Nesta segunda parte da série <em>Filmes para crianças,</em> abordarei três obras de ficção científica que tratam do contato entre seres alienígenas entre si, e de como esse contato é importante para mudar a maneira como vemos o outro. Para mim e para as pessoas que me ajudaram a escolher os itens desta lista, assistir a eles na infância foi um marco importante em nosso desenvolvimento como seres humanos e como consciências universalistas.</p>
<p><span id="more-3115"></span></p>
<h3>Dedicatória e agradecimentos</h3>
<p>A Inês Mota, a Diego Leite, a Alan Hiramoto, a Paulinho Mota, a Rúbio Medeiros, a Betânia Monteiro, a Werner Soares, a Amanda Cavalcante e a Hermann Cavalcante (não são parentes).</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1727" title="Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura." src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Spoilers.png" alt="Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura." width="600" height="50" /></p>
<h3><em>E.T.: O Extraterrestre (E.T.: The Extra-Terrestrial)</em></h3>
<p><strong><img class="alignright size-full wp-image-3316" title="E.T.: O Extraterrestre" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/et.jpg" alt="E.T.: O Extraterrestre" width="200" height="295" />Direção:</strong> Steven Spielberg</p>
<p><strong>País:</strong> Estados Unidos</p>
<p><strong>Ano:</strong> 1982</p>
<p>Certa noite, um pequeno extraterrestre se perde da nave espacial que o trouxe à Terra, enquanto agentes policiais o buscam após perceberem um certo tumulto nos arredores despovoados da cidade. O pequeno alienígena se esconde num depósito de uma casa próxima, onde vive um garoto humano chamado Elliott.</p>
<p>Naquela mesma noite, o menino humano percebe a presença de algo estranho e tenta avisar a mãe e o irmão mais velho, mas todos acham que se trata ou da imaginação do garoto ou de algum animal selvagem que entrou no depósito. Mas Elliott não desiste e no dia seguinte tenta atrair o ser misterioso com doces, até que finalmente, sob a luz da lua crescente, eles se deparam um com o outro e ambos se assustam. Mas Elliott leva seu novo amigo para casa e o esconde em seu quarto.</p>
<p>Elliott revela a presença do alienígena ao seu irmão mais velho, exigindo ser tratado com mais respeito, e acidentalmente sua irmã mais nova o descobre também. Os três empreendem esforços para não permitir que a mãe descubra o extraterrestre, e passam grande parte do tempo no quarto de Elliott brincando com E.T., como passam a chamá-lo, e descobrindo algumas habilidades incríveis do pequeno visitante do espaço. Ele consegue mover objetos com a força da mente e curar pequenas feridas com a ponta do dedo.</p>
<p>Mas o poder mais interessante de E.T. é a conexão empática e telepática que ele estabelece com Elliott, fazendo com que cada um deles sinta o que o outro sente e até pense o que o outro pensa. Dessa forma, eles compartilham uma amizade visceral em que um se confunde com o outro, quase como a ideia de amizade defendida por Michel de Montaigne em seu famoso ensaio.</p>
<p>E.T. consegue elaborar um plano para enviar uma mensagem ao seu povo solicitando um resgate, e constrói uma máquina, usando vário objetos como um computador de brinquedo e um guarda-chuva. Durante a tarde de Halloween, Ele e Elliott vão à floresta, lenando a máquina para ativá-la a céu aberto e enviar a mensagem. Ambos dormem ao relento e, pela manhã, Elliott percebe que E.T. não está por perto. O menino volta para casa com um terrível resfriado e seu irmão encontra E.T. à beira de um riacho, muito pálido e fraco.</p>
<p>Enquanto todos retornam à casa, uma larga equipe do governo, comporta de policiais e cientistas, começa uma operação de isolamento do local, para estudar o extraterrestre, mas este está tão doente que não resiste. a conexão com Elliott se rompe e este volta a ficar bem, mas se mostra intensamente triste com a morte de seu amigo. No entanto, E.T. retorna à vida e, com a ajuda do irmão e dos amigos deste, leva o pequeno ser do espaço ao campo, onde uma nave espacial aparece. Após uma tocante cena de despedida, E.T. parte em sua nave.</p>
<p>Os eventos da história não foram importantes só para Elliott, que passa a conhecer uma amizade que nunca vivera antes. A aparição de E.T. também provoca mudanças em Michael, o irmão mais velho, que passa a ser menos arrogante, e em Gertie, a irmã mais nova, que no início tinha alguma repulsa por E.T., mas passa a vê-lo com outros olhos.</p>
<p>A amizade de Elliott e E.T. simboliza uma relação desprovida de preconceitos e baseada numa total confiança mútua. Eles ficam tão ligados um ao outro que têm dificuldade de se despedir ao final. E.T. diz &#8220;Venha&#8221;, e Elliott responde &#8220;Fique&#8221;. O alienígena então lhe fala, apontando para a testa de seu amigo, &#8220;Estarei bem aqui&#8221;. Ambos aprendem a se desapegar diante da necessidade de cada um ir para onde pertence, mas, depois da experiência que tiveram juntos, a lembrança e o sentimento de amizade permanecerão em ambos.</p>
<p><strong>A obra aborda</strong></p>
<ul>
<li>amizade,</li>
<li>diferença,</li>
<li>respeito,</li>
<li>aprendizado,</li>
<li>humildade e</li>
<li>desapego.</li>
</ul>
<h3><em>Viagem ao Mundo dos Sonhos (Explorers)</em></h3>
<p><strong><img class="alignright size-full wp-image-3344" title="Viagem ao Mundo dos Sonhos" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/explorers_01.jpg" alt="Viagem ao Mundo dos Sonhos" width="200" height="282" />Direção:</strong> Joe Dante</p>
<p><strong>País:</strong> Estados Unidos</p>
<p><strong>Ano:</strong> 1985</p>
<p>Ben certa vez sonhou que sobrevoava um imenso circuito. Assim que despertou, desenhou o que conseguiu lembrar do circuito e ligou para seu amigo Wolfgang para contar. Como Ben era um garoto sonhador e fascinado por ficção científica, não foi difícil para seu amigo imaginar que se tratava de um típico sonho de sua cabeça avoada. Mas quando Wolfgang, um cientista-mirim filho de cientistas, vê o desenho do circuito, percebe que se trata mesmo de algo que pode ser construído e funcionar de alguma forma.</p>
<p>Então Ben, o sonhador, junto com Darren, o realista, e Wolfgang, o intelectual, se juntam para experimentar a descoberta, e através de um computador Wolfgang consegue criar uma esfera azul indestrutível que flutua no ar e atravessa qualquer coisa. Mais tarde, eles conseguem criar uma esfera maior e descobrem que ela é oca e pode carregar objetos dentro de si. Os três amigos decidem criar uma cápsula para voar pelo céu de sua cidade.</p>
<p>Depois de uma tentativa frustrada de subir ao espaço, os três amigos têm o mesmo sonho e ambos veem o circuito, o que lhes possibilita completá-lo e tentar de novo. Ao voarem outra vez naquela noite, são fisgados por um raio trator e levados a uma gigantesca nave espacial.</p>
<p>Eles imaginam estar presos numa típica nave alienígena do mal que aparece em tantos filmes de ficção científica. Mas logo descobrem que os tripulantes são um casal de irmãos extraterrestres gentis, Wak e Neek, que captam todas as ondas eletromagnéticas da Terra, incluindo as trasmissões de rádio e TV. Eles são fascinados por tudo o que ouvem e veem da Terra, e se divertem numa pequena festa com os jovens terráqueos.</p>
<p>Então Ben os convida para irem à Terra, mas Wak se recusa veementemente, tendo em vista tantas imagens do cinema da Terra que representam a forma violenta como os alienígenas são recebidos pelos humanos. Wak explica que só trouxe os três porque eles são diferentes do resto da humanidade. Ben fica desolado com o reconhecimento de que provavelmente seria perigoso para qualquer estrangeiro do espaço visitar um planeta beligerante como a Terra.</p>
<p>Finalmente, os três garotos descobrem que a nave em que estão foi surrupiada do pai dos dois alienígenas, que são jovens como seus hóspedes. O pai alienígena irrompe no salão em que estão e dá um sermão em Wak e Neek, acabando com a festa. Os novos amigos se despedem e o trio terráqueo fica marcado para sempre com a imressão de um mundo muito mais vasto do que jamais imaginaram.</p>
<p>É importante perceber como três crianças tão diferentes, um muito sonhador (sentimento), outro muito realista (corpo) e o terceiro muito intelectual (pensamento), superam essas mesmas diferenças e juntam suas qualidades para entrar numa aventura que mudará suas vidas para sempre.</p>
<p>A irrelevância das diferenças também é encarada no contato com uma espécie alienígena, que, apesar da aparência exótica, têm sentimentos e anseios parecidos com os dos humanos. A aparência é tão relevada que Wolfgang e Neek ensaiam um romance.</p>
<p>Finalmente, os garotos visionários têm que reconhecer que sua facilidade para ver através das diferenças não é compartilhada por toda a humanidade, que ainda percorrerá um longo caminho antes de superar suas diferenças internas e, a longo prazo, as diferenças mais marcantes entre humanos e extraterrestres.</p>
<p><strong>A obra aborda</strong></p>
<ul>
<li>a busca pela realização dos sonhos,</li>
<li>amizade,</li>
<li>aprendizado mútuo,</li>
<li>amadurecimento,</li>
<li>tolerância e</li>
<li>pacifismo.</li>
</ul>
<h3><em>Inimigo Meu (Enemy Mine)</em></h3>
<p><strong><img class="alignright size-full wp-image-3673" title="Inimigo Meu" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/s_48637_0089092_d4439697.jpg" alt="Inimigo Meu" width="200" height="282" />Direção:</strong> Wolfgang Petersen</p>
<p><strong>País:</strong> Alemanha e Estados Unidos</p>
<p><strong>Ano:</strong> 1985</p>
<p>Willis Davidge é um piloto de caça espacial terráqueo que luta contra os dracs, uma espécie alienígena em guerra contra a Terra, pela reivindicação de uma região da galáxia.</p>
<p>Durante uma batalha, Davidge se perde num planeta inóspito. Perto de onde sua nave caiu, também naufragou um piloto drac, chamado Jeriba Shigan. Após a tentativa mútua de assassinato, ambos percebem que precisarão um do outro para sobreviver nesse planeta selvagem, e &#8220;Jerry&#8221;, apelido que Davidge dá ao drac, aprisiona o humano para evitar que este o mate.</p>
<p>Numa busca pelo ambiente que os rodeia, os dois vão aos poucos encontrando alimento e formas de se proteger das intempéries da natureza local, mas, apesar de cooperarem, eles ainda se veem como rivais e inimigos de guerra.</p>
<p>Certa vez, quando buscava alimento, Davidge foi capturado por um predador, uma criatura que se escondia embaixo da terra e que agarrava suas presas com um tentáculo. Ela segurou Davidge pela perna e o puxou para baixo. Ele só se salvou graças a &#8220;Jerry&#8221;, que matou o animal (numa cena que lembra Han Solo salvando Lando Calrissian do Sarlacc).</p>
<p>A partir daí Davidge passa a cooperar mais com &#8220;Jerry&#8221;, e eles passam a se aproximar mais. Constroem juntos um abrigo contra as tempestades de pedra e fogo e começam a se conhecer melhor.</p>
<p>Com o tempo, eles aprendem o idioma um do outro e compartilham suas respectivas culturas. Seu relacionamento se aprofunda até o ponto de se tornarem amigos. O drac, através da leitura de um livro considerado sagrado por seu povo, entende que o conflito entre eles deve cessar. Ao iniciar Davidge nos ensinamentos de sua cultura, &#8220;Jerry&#8221; consegue fazer seu amigo entender melhor os dracs, enquanto ele passa a compreender melhor os humanos.</p>
<p>&#8220;Jerry&#8221; fica grávido (pois os dracs são hermafroditas e concebem seus filhos sem relações sexuais) e passa a se comportar como uma mulher. Davidge encara o desafio de cuidar de seu amigo e de criar seu filho, pois &#8220;Jerry&#8221; morre no parto.</p>
<p>Zammis, filho de Jeriba, é criado por Davidge, e cresce bem mais rápido do que um humano. O garoto começa a perceber as diferenças entre ele e seu &#8220;tio&#8221;, estranhando que sua ascendência (com um só progenitor) seja diversa da de Davidge (que teve um pai e uma mãe).</p>
<p>O jovem drac é raptado por mineradores humanos, que escravizam os de sua espécie para o trabalho braçal. Ao tentar salvá-lo, Davidge é resgatado por uma nave militar humana, que o leva para uma estação. Desmaiado, ele balbucia frases na língua dos dracs, o que os médicos e os soldados da estação estranham. Depois de acordar, Davidge encontra um meio de escapar e resgatar Zammis.</p>
<p>Após todos esses acontecimentos, a paz entre os dois povos é finalmente alcançada, e Davidge leva Zammis para o planeta dos dracs. No devido tempo, Zammis dá à luz a uma criança que batizou de Davidge, inserindo em sua descendência um nome humano.</p>
<p>A experiência dos dois antagonistas os levou da inimizade cega, passando pela necessidade de sobreviver juntos, até uma profunda amizade. Se no início eles consideravam um ao outro &#8220;feios&#8221; (cada um deles nunca havia visto um indivíduo da espécie do outro), Davidge aprendeu a achar Zammis uma bela criança. A biologia e a sexualidade das duas espécies (uma assexuada e outra bissexuada) é compreendida apesar do exotismo mútuo. Ambos aprendem a respeitar a cultura um do outro, o que lhes permite aprender um com o outro.</p>
<p>Se no início Davidge estava disposto a matar Jeriba, ao final arriscou a própria vida para salvar Zammis. A irracionalidade da guerra impedia que os antagonistas se conhecessem e alimentava fortes preconceitos e uma espécie de racismo que os opunha de maneira cega. Ao se conhecerem e se tornarem grandes amigos, eles provam que as diferenças superficiais (espécie, planeta de origem, cultura) são irrelevantes quando percebemos que temos em comum algo mais fundamental, e podemos nos relacionar de maneira significativa com qualquer pessoa do Universo. Como me disse um <a href="http://teianeuronial.com/da-amizade-parte-2/" target="_self">amigo</a>, resumindo bem o filme:</p>
<blockquote><p>Como criança, achei a ideia de dois inimigos mortais se conhecerem e se tornarem amigos muito bonita,  superarem diferenças que na verdade nem eles entendiam bem.</p></blockquote>
<p><strong>A obra aborda</strong></p>
<ul>
<li>preconceito,</li>
<li>cooperação,</li>
<li>relativismo cultural,</li>
<li>respeito,</li>
<li>amizade e</li>
<li>pacifismo.</li>
</ul>
<h3>Para adquirir os filmes</h3>
<ul>
<li><em><a href="http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/1568788/e-t-o-extraterrestre-dvd4/?ID=BB3C48E37DA081A0D270B0995" target="_blank">E.T.: O Extraterrestre</a></em></li>
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</ul>
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		<title>Dersu Uzala &#8211; Resenha</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Feb 2011 12:06:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Akira Kurosawa]]></category>
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		<category><![CDATA[O Senhor dos Anéis]]></category>
		<category><![CDATA[ranger]]></category>
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		<category><![CDATA[Vladimir Arseniev]]></category>

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		<description><![CDATA[Ética, amizade e choque cultural]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong>Dersu Uzala</strong></em> (1975) é um filme dirigido por Akira Kurosawa, que se inspirou num livro homônimo, escrito por Vladimir Arseniev. Este narrou em sua obra o encontro real com a figura do caçador Dersu Uzala, habitante solitário da floresta, pertencente à etnia nanai (referida no filme como goldi, que é como os russos os chamavam), que serviu a Arseniev e a seus soldados como guia numa expedição topográfica por uma região da Sibéria.</p>
<p>Dersu surpreende seus companheiros russos com um profundo senso de ética, um fascinante conhecimento da floresta e a habilidade de rastrear qualquer coisa através de sinais. O caçador desenvolve uma significativa amizade com Arseniev, que ele se acostumou a chamar de &#8220;Capitão&#8221;, o que leva a um cuidado especial por parte de cada um deles para com o outro.</p>
<p><span id="more-4068"></span></p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1727" title="Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura." src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Spoilers.png" alt="Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura." width="600" height="50" /></p>
<h3>Dersu e o &#8220;Capitão&#8221;</h3>
<div id="attachment_4157" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-4157" title="O verdadeiro Dersu Uzala" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Dersuuzala1.jpg" alt="O verdadeiro Dersu Uzala" width="200" height="362" /><p class="wp-caption-text">O verdadeiro Dersu Uzala</p></div>
<p>Dersu é um sujeito exótico para os soldados que guia pela floresta. A primeira impressão que temos dele, logo quando aparece pela primeira vez, é a de um homem excêntrico perdido na selva. Mas logo vamos descobrindo que ele é um exímio rastreador, interpretando pegadas e rastros, o que lhe permite saber que em determinada direção e a certa distância se encontra a cabana de um velho chinês, por exemplo.</p>
<p>Essa habilidade impressiona seus companheiros russos, que aos poucos vão deixando de vê-lo como alvo de risos e começam a confiar em suas instruções de como sobreviver melhor em sua missão pela floresta.</p>
<p>A forma de representar o mundo de Dersu também impressiona a expedição. Suas crenças animistas envolvem a representação dos elementos naturais como pessoas que devem ser respeitadas. Essas crenças são uma forma de ele justificar seus hábitos, que lhe permitem viver integrado ao ambiente selvagem, sem desperdiçar nada e compartilhando com quem precisa.</p>
<p>Surpreende, por exemplo, seu gesto de deixar comida na cabana desabitada em que pernoitam, para que outros viajantes não passem fome. Quando os soldados se propõem ao desafio de ver quem consegue atirar numa garrafa pendurada numa corda que se move como um pêndulo, o que nenhum deles consegue, Dersu atira na corda para não desperdiçar a garrafa, em mais um exemplo de seu senso ecológico.</p>
<p>Esse senso natural de ética cativa o líder da expedição, Vladimir Arseniev, que desenvolve uma profunda amizade com Dersu. Ambos têm, à sua maneira, um perfil de líder que os aproxima como iguais. Arseniev é líder do grupo que capitaneia, enquanto Dersu é o guardião da floresta, que cuida do equilíbrio do ambiente em que vive.</p>
<p>Essa amizade e confiança mútua chega ao ponto de, numa ocasião em que os dois se perdem, Arseniev obedecer cegamente às instruções de Dersu para cortar o máximo de capim que puder e amontoá-lo o mais rápido possível. Arseniev adormece no meio da intensa labuta, vêm a noite e o ar gélido e ele acorda numa cabana improvisada feita do capim que ele e Dersu cortaram e que salvou suas vidas. Arseniev se deixa cativar de tal forma por Dersu que o chama para ir morar com ele. Mas o lugar de Dersu é na floresta, e ele recusa.</p>
<p>Numa segunda expedição, em que Arseniev não está na posição de comando dos soldados, o grupo encontra Dersu novamente, que se dispõe outra vez a ajudar Arseniev em sua missão.  De certa forma, a importância de Arseniev nessa segunda demanda acaba se tornando maior, pois é a confiança mútua entre ele e Dersu que assegura seu sucesso.</p>
<p>No terceiro encontro dos dois amigos, Dersu mostra sinais de que está envelhecendo, os sentidos antes muito aguçados começam a embotar. Assombrado por suas crenças nas forças da natureza, ele se desespera depois que atira num tigre, pois tem certeza que a morte do animal significa que a floresta mandará outro tigre para matá-lo. Enfim, ele cede ao pedido de Arseniev para ir morar com ele na cidade.</p>
<p>Dersu não se adapta à vida urbana e, embora venha a cativar o filho de Arseniev com histórias sobre suas andanças, pede a seu anfitrião que o deixe partir, pois não consegue se desfazer de seus antigos hábitos. Arseniev o presenteia com um novo rifle e munição. Porém, mal tenta voltar à sua antiga vida, é assassinado na fronteira entre a cidade e a selva.</p>
<p>O favor que Arseniev tenta conceder a Dersu em troca de tudo o que este fez se mostra insensato, pois o caçador não sabe viver segundo os hábitos da cidade. O russo não compreendeu que, para Dersu, a ajuda às expedições não era um favor, mas fazia parte de seu trabalho de guardião da floresta, ao mesmo tempo auxiliando os soldados e impedindo que estes cometessem algum erro ecológico. Quando Dersu previu sua própria morte, ele estava certo, e sua crença sobre o tigre era uma racionalização de algo que ele já previra. Sua tentativa de retornar à floresta era na verdade um meio de assegurar sua morte, importante para o ciclo natural do ambiente do qual ele era uma parte vital. Mas sua morte também simboliza o trágico confronto entre a urbanização humana e a natureza selvagem.</p>
<h3>O filme e o personagem</h3>
<p>A primeira cena do filme se passa anos após a morte de Dersu e mostra Arseniev procurando o túmulo de seu amigo, cujo corpo havia sido enterrado sob as árvores da floresta. Mas ele encontra o local devastado para a ampliação da cidade, e não consegue mais achar a árvore que marcava a cova.</p>
<p>O filme então recua para a expedição em que Arseniev encontra Dersu pela primeira vez, e ao longo da história e ao final dela entendemos que a urbanização destruiu até a memória material daquele sujeito que incorporava o espírito da natureza.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-4171" title="Dersu Uzala" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Dersu-Uzala.jpg" alt="Dersu Uzala" width="600" height="255" /></p>
<p>Embora o filme se estenda por quase 2 horas e meia, a trama é simples, com cenas longas e monótonas. Porém, não se trata de amadorismo cinematográfico. Muito pelo contrário, Kurosawa cria uma tensão em cenas que representam o estresse dos personagens, além de nos fazer imergir nas belas paisagens siberianas e no sentimento de quem se imiscui na natureza selvagem, como o faz Dersu.</p>
<p>Maxim Munzuk, que interpreta Dersu, consegue criar um personagem profundamente cativante, com sua simplicidade e sua ética, e cada um de seus gestos, palavras e ações chamam atenção do espectador. Dersu quase se torna ao longo da história aquele tipo de personagem que é o nativo servindo ao colonizador para que este explore melhor seu ambiente. Mas Arseniev impede que isso ocorra, deixando Dersu livre para mostrar a importância de manter o equilíbrio com seus costumes que se integram com a selva.</p>
<h3>O caçador e o ranger</h3>
<div id="attachment_4162" class="wp-caption alignright" style="width: 260px"><img class="size-full wp-image-4162 " title="O ranger Faramir, retratado por Anke Eißmann" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/FaramirEissmann.jpg" alt="O ranger Faramir, retratado por Anke Eißmann" width="250" height="245" /><p class="wp-caption-text">O ranger Faramir, retratado por Anke Eißmann</p></div>
<p>Ao final do filme, Arseniev declara, para fins de obituário, que a profissão de Dersu era &#8220;caçador&#8221;. Não sei qual é o sentido do nome usado no original em russo, mas talvez a denominação melhor para o ofício de Dersu seja a palavra inglesa <em>ranger.</em> Esta palavra pode ser traduzida para o português como &#8220;guarda florestal&#8221;, mas ela diz respeito a uma figura quase mítica encontrada em histórias de fantasia.</p>
<p>Em <em>O Senhor dos Anéis,</em> por exemplo, o personagem Faramir é o líder de um grupo de rangers que têm completa percepção do que acontece ao redor de seu refúgio no meio da floresta. Ele e seus companheiros conseguem, por exemplo, espreitar sem ser percebidos. Além disso, os elfos que moram nas florestas da Terra-Média também têm habilidades que lhes permitem se integrar com o ambiente selvagem.</p>
<p>O ranger se tornou, no RPG <em>Dungeons &amp; Dragons,</em> uma subclasse de personagem derivada da classe guerreiro. É um tipo de soldado da natureza que trabalha, em conjunto com a figura do druida, para assegurar o equilíbrio natural. Ele pode interpretar rastros com precisão, andar pela floresta sem deixar rastros e consegue lidar facilmente com animais selvagens e domésticos.</p>
<p>Entretanto, por mais fantástica que seja a figura do ranger, ele é baseado em pessoas reais, que conseguem extrapolar os sentidos humanos. Alguns povos silvícolas da América e da África são exemplos de um sentido ecológico e ético baseado na experiência direta e que deveriam servir de modelo para as atuais tendências ecologistas da modernidade.</p>
<h3>Links</h3>
<ul>
<li><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Dersu_Uzala_(1975_film)" target="_blank"><em>Dersu Uzala</em> (1975 film)</a> &#8211; Wikipedia</li>
<li><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Goldi" target="_blank">Nanai</a> &#8211; Wikipedia</li>
</ul>
<h3>Trailer</h3>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="599" height="362" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/Y-XNoJ8Ub64?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="599" height="362" src="http://www.youtube.com/v/Y-XNoJ8Ub64?fs=1&amp;hl=en_US" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-40690"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>My fair lady (1964) &#8211; Resenha</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Dec 2010 03:01:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antropologia]]></category>
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		<description><![CDATA[ou Parla!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong>My Fair Lady</strong></em> (1964), filme dirigido por George Cukor e estrelado por Audrey Hepburn e Rex Harrison, é uma história baseada na peça <em>Pigmalião (Pygmalion),</em> de George Bernard Shaw, publicada em 1912. Entre a peça e o filme de 1964, há um filme de 1938, que influenciou a obra de Cukor, e um musical, que a inspirou largamente, de modo que ofilme de que aqui se trata tem vários trechos com músicas vindas do musical.</p>
<p>Henry Higgins é um estudioso da Fonética, capaz de identificar a origem de uma pesso através de sua fala, um homem preocupado com o bem falar da língua inglesa, crítico das formas consideradas por ele como degeneradas do inglês autêntico . Ele considera, por exemplo, que a pronúncia cockney da florista Eliza Dootlittle, característica da camada pobre da população de Londres, é uma afronta ao idioma de Shakespeare. Ele é desafiado a ensiná-la a falar como uma dama da nobreza e a se passar por uma duquesa num evento da alta sociedade.</p>
<p><span id="more-3727"></span><br />
<img class="aligncenter size-full wp-image-1727" title="Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura." src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Spoilers.png" alt="Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura." width="600" height="50" /></p>
<p>Higgins comenta com seu colega Hugh Pickering que seria capaz de ensinar Eliza a falar e, portanto, se portar como uma dama da nobreza. Esse comentário ressoa na cabeça de Eliza, que sonha com uma vida de conforto bem diferente da pobreza em que vive. Se soubesse falar como uma dama, ela pensa, poderia ter sua própria floricultura.</p>
<p>Ela decide pagar a Higgins para receber aulas de boa pronúncia, e o professor, após recusar veementemente, é desafiado por Pickering a fazer Eliza se passar por uma duquesa numa recepção a uma rainha estrangeira. Mas ele não só se propõe a ensinar o &#8220;inglês bem falado&#8221;; para transformá-la numa dama, é preciso ensinar-lhe &#8220;boas maneiras&#8221;, dar-lhe vestidos &#8220;adequados&#8221; e fazê-la esquecer totalmente sua antiga forma de viver.</p>
<p>Grandes dificuldades se mostram a Higgins, primeiro ao obrigá-la a tomar um banho e se desfazer de sua roupas, tarefa designada às empregadas de Higgins. Depois, ao tentar ensiná-la a pronúncia culta de sua língua. Ele se esforça herculeamente, com a ajuda de complexos equpamentos, para fazer Eliza pronunciar a letra A (eɪ), que ela só consegue pronunciar aɪ. As dificuldades de Eliza, por outro lado, são tantas que ela nutre sentimentos de raiva, desprezo e ódio para com Higgins, especialmente diante da extrema arrogância do professor.</p>
<p>Depois de muito trabalho e fadiga, certa noite Higgins, por um breve momento, expressa palavras motivadoras e otimistas (bem diferentes de sua habitual arrogância, dispensada indiscriminadamente a todos ao seu redor), e Eliza consegue pronunciar, num &#8220;bom inglês&#8221;, as frases que antes seu sotaque cockney não permitia expressar &#8220;bem&#8221;:</p>
<blockquote><p>The rain in Spain stays mainly in the plain.</p>
<p>In Hertford, Hereford and Hampshire, hurricanes hardly ever happen. [Eliza não conseguia pronunciar o som aspirado da letra H.]</p></blockquote>
<p><object width="600" height="475" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/uVmU3iANbgk?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="600" height="475" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/uVmU3iANbgk?fs=1&amp;hl=pt_BR&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
<p>A partir daí, desenvolve-se um sentimento de profundo afeto de Eliza por Higgins, e ela deixa de vê-lo como um inimigo. Ele decide testar seu progresso levando-a a um hipódromo, onde apenas frequentam pessoas da alta sociedade. Ela quase consegue convencer a todos que é uma dama, mas só até o momento em que solta um grito entusiasmado com a melhor pronúncia cockney herdada do meio onde cresceu.</p>
<p>Mas o treinamento continua até o teste final, uma recepção a uma família nobre estrangeira. Ela impressiona tanto a família real com seus modos e pronúncia, que a rainha manda Zoltan Karpathy, antigo aluno de Higgins, averiguar de onde Eliza realmente é. Karpathy diagnostica que a pronúncia de Eliza é tão perfeita que ela só pode ter sido ensinada, e portanto ela só pode pertencer à família real húngara.</p>
<p>Higgins e Pickering celebram a vitória do primeiro, tratando Eliza como mero objeto de um exerimento. Esta fica imensamente magoada e, após uma violenta discussão com o professor, que não entende o rompante de sua pupila, o deixa.</p>
<p>Higgins tenta trazê-la de volta e só então começa a perceber quão importante ela é para ele. Após alguns incidentes e discussões, envolvendo Pickering, a mãe de Higgins e Freddy (um rapaz apaixonado por Eliza), eles acabam juntos, num desfecho abrupto, desconcertante e pitoresco.</p>
<h3>A transformação do <em>habitus</em></h3>
<p>O professor Higgins se dedica a um empreendimento que muitos consideram impossível: extirpar qualquer traço de origens humildes de uma jovem pobre e transformá-la numa dama.</p>
<p>De acordo com o conceito de <em>habitus</em> do sociólogo Pierre Bourdieu, todo o conjunto de manifestações de qualquer pessoa está profundamente condicionado e ser revela em suas escolhas, nos seus gestos, na sua fala (sotaque, cadência rítmica, vocabulário). A tarefa de Higgins poderia ser descrita como a tentativa de imbuir Eliza de um novo habitus, o que, para a sociologia de Bourdieu, é quase impossível, mesmo que se dispusesse de alguns anos de reeducação.</p>
<p>No entanto, a primeira experiência em campo no hipódromo mostra quão artificial a moça soa ao conversar, pronunciando cada palavra como se fosse um robô e escolhendo tópicos totalmente inadequados para os interlocutores. Seu &#8220;verdadeiro eu&#8221; (seu mais profundo <em>habitus)</em> se revela num momento de excitação, em que ela não consegue manter a máscara.</p>
<p>Uma transformação do tipo almejado por Higgins e Eliza não pode ser realizada completamente. As maneiras de agir e falar podem ser representadas por alguém com boa habilidade para interpretar e imitar. Mas certas disposições e valores são muito mais difíceis de forjar. Eliza se manteve até o fim da história uma honrada moça da classe trabalhadora, sempre honesta quanto aos seus sentimentos e pensamentos. Os novos modos de se expressar com o corpo e a fala lhe servem não para uma nova vida na classe média, com os valores e expectativas específicos desta, mas para reforçar aquilo em que acredita e que foi aprendido na humilde pobreza.</p>
<p>Por outro lado, o fazer constrói o pensar, a vivência transforma o corpo e a mente. Eliza não poderá voltar mais a ser a florista pobre e inarticulada. E Higgins se depara com novos sentimentos, diferentes da frieza científica e dos valores de solteiro, livre de compromissos. Eliza era humana demais para ser tratada como um objeto sem alma, e ele não pôde evitar que a proximidade o encantasse e o fizesse se apaixonar.</p>
<p>O desejo de ascender de sua condição de empregada de uma floricultura pobre para a de dona de uma floricultura elegante se manteve até o fim. A vontade de Higgins de mantê-la sob seus cuidados não podia vencer a força de vontade e a autoestima que ele a ajudou a desenvolver, como a filha que o pai tem que deixar se emancipar quando se torna adulta.</p>
<h4>Distinções linguísticas na língua inglesa</h4>
<p>Um detalhe que chama atenção nesta obra, e que talvez nem tenha sido intencional, é que há uma distinção entre a forma como os pobres e os ricos cantam. As performances musicais dos personagens pobres é marcada por uma forte melodia e ritmo dançante, ao passo que as músicas cantadas por Higgins e Pickering estão mais para poemas recitados, como se houvesse uma diferença na forma como ambos os grupos encaram o mundo, um deles usando a música para se consolar e o outro como meio de demonstrar diletantismo.</p>
<p>Essa diferença leva a outro aspecto do conceito de <em>habitus.</em> Ele também é usado como mecanismo de distinção de grupos, como uma forma, por exemplo, de criar a ilusão de que as diferenças entre pessoas de classes distintas são naturais, intrasponíveis e que há uma hierarquia inevitável entre essas classes.</p>
<p>A língua é um meio de marcar essa distinção, e no inglês existe uma hierarquia que coloca uma certa variação do idioma no topo, como sendo o padrão a partir do qual todas as outras são derivadas. A &#8220;pronúncia reconhecida&#8221; (received pronounciation) também é chamada de inglês da rainha, inglês de Oxford ou inglês da BBC. É preciso entender esse aspecto da sociedade britânica para compreender porque Eliza Doolittle acredita que sua ascensão social depende da adequação de seu falar ao inglês padrão.</p>
<div id="attachment_3765" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-3765" title="Mel Gibson como Hamlet" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/hamlet.jpg" alt="Mel Gibson como Hamlet" width="300" height="202" /><p class="wp-caption-text">Mel Gibson como Hamlet</p></div>
<p>É muito comum que os atores não-ingleses que participam de produções cinematográficas baseadas em obras shakespearianas ou em cenários de fantasia medieval sejam forçados a falar no inglês padrão. É claro que, pelo princípio da verossimilhança, numa história encenada na Inglaterra se espera que os personagens falem inglês britânico. Mas isso se impõe até mesmo nos casos em que as falas dos personagens, todas em inglês, representam como que traduções. É o caso de <em>Hamlet,</em> de Shakespeare, história passada na Dinamarca, onde não se falava inglês. Ao invés de simplesmente deixar os atores falarem como falam, pois estão apenas, teoricamente, &#8220;traduzindo&#8221; do dinamarquês, todos são obrigados a falar um inglês padrão impecável, como se vê num making of de <em>Hamlet,</em> dirigido por Milos Forman, em que Mel Gibson pena para não deixar escapar seu sotaque de origem. É o caso também de <em>O Senhor dos Anéis,</em> adaptado nos cinemas por Peter Jackson. No cenário da história nenhum personagem fala inglês, mas sim idiomas &#8220;antigos&#8221; que não existem mais, como o westron e o élfico, o que também caracterizaria as falas do livro e do filme como &#8220;traduções&#8221;. Mas os atores norte-americanos que interpretaram Frodo, Aragorn e Arwen, por exemplo, tiveram que colocar para fora um inglês britânico que em alguns momentos soa falso.</p>
<p>No entanto, o topo da hierarquia se confunde com o modelo, ou seja, ele é tido como um sotaque &#8220;neutro&#8221;, &#8220;não-regional&#8221;. Cria-se a ilusão de que os falantes do padrão estão falando um inglês sem ligação regional, e os diferentes sotaques das diversas regiões abrangidas pelo idioma em questão são tidas como regionalizadas e pouco recomendadas em comunicações públicas, como por exemplo na mídia.</p>
<p>Na verdade, o inglês padrão é apenas uma variação do idioma, localizado mais ou menos no sul da Grã-Bretanha, nos arredores de Londres. Um curso histórico diferentes poderia ter estabelecido o dialeto escocês como o padrão das Ilhas, se eles tivessem conquistado os ingleses.</p>
<p>A história dos outros idiomas europeus (e provavelmente de qualquer região do mundo) é semelhante. As variações do latim, imposto pelo Império Romano, eram inúmeras, e a consolidação das nações como as conhecemos hoje se acompanhou do reconhecimento de uma língua oficial para cada uma delas, que era sempre aquele falado na sede de cada reino.</p>
<p>No português essa distinção também acontece. A variação reconhecida como padrão no Brasil, por exemplo, se localiza geograficamente na Região Sudeste do país, especialmente São Paulo (atual centro econômico do Brasil), mas abrangendo também o sotaque carioca (tendo em vista o Rio de Janeiro ter sido, durante algum tempo, a sede do Império Português). É comum os potiguares acharem mais normal o sotaque dos jornalistas sudestinos, que apresentam os jornais televisivos &#8220;nacionais&#8221;, do que o de seus conterrâneos que apresentam os jornais &#8220;regionais&#8221;.</p>
<p>Esse privilégio da variação padrão, embora se costume alegar que não há privilégio, se revela no ensino do idioma. Os dicionários ingleses, por exemplo, passam por cima de todas as formas possíveis de se pronunciar a língua britânica, apresentando somente a fonética padrão. Assim também os dicionários brasileiros da língua portuguesa. Algumas gramáticas brasileiras chegam ao ponto de sugerir uma pronúncia correta de certas palavras (na de Evanildo Bechara, por exemplo, <em>recomenda-se</em> que a palavra &#8220;coelho&#8221; seja falada &#8220;qüelho&#8221;, ignorando as regiões que pronunciam o &#8220;co&#8221;, e que o L mudo seja levemente pronunciado, o que vai de encontro à maior parte do Brasil, que o transformou em U).</p>
<p>O exemplo, entre os que conheço, que para mim é o mais gritante, é o ensino do espanhol na América Latina. É notável que a maioria (se não todos) dos países da América do Sul que falam espanhol tenham transformado a pronúncia do C e do Z castelhano (com do TH inglês) em S, mas eles aprendem em suas gramáticas que o som do C e do Z são diferentes do S, embora na prática não haja diferença alguma (exceto na Espanha).</p>
<h3>Pigmalião</h3>
<div id="attachment_3735" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-3735" title="Capa da edição de 1913 da peça Pigmalião, de George Bernard Shaw" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Cover-play1913.jpg" alt="Capa da edição de 1913 da peça Pigmalião, de George Bernard Shaw" width="200" height="227" /><p class="wp-caption-text">Capa da edição de 1913 da peça Pigmalião, de George Bernard Shaw</p></div>
<p><em>My Fair Lady</em> é baseado na peça <em>Pigmalião,</em> de George Bernard Shaw. Infelizmente, (ainda) não tive o prazer de ler essa obra, mas os resumos que se podem encontrar na internet mostram que a história é basicamente a mesma na peça e no filme. A fidelidade pode-se explicar em parte pelo fato de Shaw ter participado da produção da versão cinematográfica de 1938 (também chamada <em>My Fair Lady),</em> e de esta ter influenciado a versão de 1964.</p>
<p>Pigmalião é um personagem da mitologia grega, um escultor que criava obras perfeitas e que se apaixonou por uma de suas estátuas, que representava uma mulher. Ele pediu a Afrodite que desse vida à escultura, e esta se tornou uma mulher de verdade, que foi chamada Galateia.</p>
<p>Henry Higgins é uma referência a Pigmalião, pois ele pretende transformar a &#8220;matéria bruta&#8221; que é Eliza numa dama, ou numa &#8220;mulher de verdade&#8221;, e assim consegue (uma curiosidade é que o nome de Eliza Doolittle foi inspirado na versão de Goethe para a história de Pigmalião e Galateia, em que esta se chama Elise).</p>
<p>A lenda de Pigmalião pode ter surgido a partir de algum escultor que realmente existiu. É comum que certas obras, de tão bem feitas, sejam consideradas quase vivas. Um exemplo interessante é a história segundo a qual Michelangelo, ao terminar a escultura de Moisés, ficou tão admirado com a perfeição de sua obra que exclamou &#8220;Parla!&#8221; (&#8220;Fale!&#8221;), como se só faltasse a voz para considerar a estátua uma criatura viva.</p>
<p>Certa vez conheci um artista, Pedro, pescador da praia de Sibaúma (Tibau do Sul/RN), que demonstrou a mesma autoadmiração estupefata. Ele cria réplicas em madeira perfeitas de animais da fauna potiguar, como caranguejos, siris, tatus e pebas (eu vi pessoalmente um dos caranguejos, muito impressionante). Falando de seu trabalho, ele alega que seu talento é um dom de Deus e usou a palavra &#8220;impressionante&#8221; para descrever seu próprio trabalho, como se este fugisse de seu próprio mérito e se criasse por si mesmo, assim como Galateia e Eliza, e seria interessante que em determinado momento de <em>My Fair Lady</em> Higgins mirasse Eliza, com um semblante e maneiras tão diferentes daquelas da florista pobre, e exclamasse, apropriadamente: &#8220;Speak!&#8221;.</p>
<div id="attachment_3732" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-3732" title="Pigmalião, de Boris Valejo" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/pygmalionvalejo.jpg" alt="Pigmalião, de Boris Valejo" width="586" height="581" /><p class="wp-caption-text">Pigmalião, de Boris Valejo</p></div>
<h3>Referências</h3>
<ul>
<li><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Pygmalion_(mythology)" target="_blank">Pygmalion (mythology)</a> &#8211; Wikipedia</li>
<li><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Pygmalion_(play)" target="_blank"><em>Pygmalion</em> (play)</a> &#8211; Wikipedia</li>
<li><em><a href="http://www.gutenberg.org/files/3825/3825-h/3825-h.htm" target="_blank">Pygmalion</a></em> [texto integral em inglês] &#8211; Projeto Guttenberg</li>
<li><em><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/My_Fair_Lady" target="_blank">My Fair Lady</a></em> [musical] &#8211; Wikipedia</li>
<li><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/My_Fair_Lady_(film)" target="_blank"><em>My Fair Lady</em> (film)</a> &#8211; Wikipedia</li>
<li><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Received_Pronunciation" target="_blank">Received Pronunciation</a> &#8211; Wikipedia</li>
</ul>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-37280"></div></div>]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Contato (romance) [Resenha]</title>
		<link>http://teianeuronial.com/contato-romance-resenha/</link>
		<comments>http://teianeuronial.com/contato-romance-resenha/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 29 Nov 2010 09:00:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção científica]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Carl Sagan]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Contato]]></category>
		<category><![CDATA[divulgação científica]]></category>
		<category><![CDATA[Série Contatos Imediatos]]></category>
		<category><![CDATA[SETI]]></category>

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		<description><![CDATA[ou Contatos imediatos - parte 4]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Carl Sagan é um dos mais conhecidos cientistas norte-americanos da contemporaneidade, e seu renome se dá especialmente pelo fato de ter se dedicado com afinco à divulgação científica, com destaque para a Astronomia, sua área de pesquisa, com o famoso programa de TV <em>Cosmos.</em> Além disso, se notabilizou por vários livros em que apresenta o que é o pensar científico e diversos tópicos do conhecimento de várias áreas da Ciência. São exemplos <em>O Mundo Assombrado pelos Demônios</em> e <em>Bilhões e Bilhões.</em></p>
<p>O espírito de divulgador científico não ficou de fora de seus textos quando se enveredou na Literatura. Na obra de ficção científica <strong><em>Contato,</em></strong> Sagan explora as possibilidades de uma verossímil mensagem extraterrestre, enquanto explica aos leitores vários conceitos da Ciência de sua época (o livro foi publicado originalmente em 1985), essenciais para se compreender a história, mas nada irrelevantes como saberes que enriquecem a mente.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-3575" title="Contato - Carl Sagan" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/contatocarlsagan.jpg" alt="Contato - Carl Sagan" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-3572"></span><br />
<img class="aligncenter size-full wp-image-1727" title="Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura." src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Spoilers.png" alt="" width="600" height="50" /></p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-3584" title="Contato" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/contato.jpg" alt="Contato" width="200" height="290" /></p>
<p><strong>Título:</strong> <em>Contato (Contact)</em></p>
<p><strong>Autor:</strong> Carl Sagan</p>
<p><strong>Editora:</strong> Companhia das Letras</p>
<p><strong>Ano:</strong> 2008 (1985)</p>
<h3>Sinopse comentada</h3>
<p>Eleanor Arroway, mais conhecida pelo seu apelido Ellie, teve desde pequena o incentivo de seu pai para explorar o interessante mundo do rádio-amadorismo, o que a levou a um grande interesse por se aprofundar nos estudos e pesquisar Ciência. Seu rápido amadurecimento intelectual a levou a menosprezar as possibilidades de relacionamento afetivo com os garotos imaturos da escola. Sua mente questionadora a fez perceber incoerências nas histórias bíblicas e a discordar dos professores das aulas de Religião. Seu ímpeto para se aprofundar na busca pelo conhecimento e sua genialidade a levaram a Harvard.</p>
<p>Na universidade, especialmente na área das Ciências Exatas, onde se embrenhou, encontrou o preconceito que menospreza as mulheres, mas nada a impediu de seguir em frente em sua carreira e trabalhar no projeto SETI (Search for Extra-Terrestrial Intelligence, &#8220;Busca por Inteligência Extraterrestre&#8221;). Especificamente, foi para o Novo México, onde aguardou pacientemente a aparição de uma mensagem extraterrestre a ser captada por rádio-telescópios.</p>
<p>Seu envolvimento com o SETI, contrariando o menosprezo geral pelo programa e o pouco apoio do governo, a tornou responsável pela descoberta de uma mensagem vinda do espaço. No entanto, a mensagem era tão longa que foi necessário mobilizar radiotelescópios de todo o mundo, pois à medida que as ondas eletromagnéticas chegavam, vindas do sistema da estrela Vega, a Terra continuava sua rotação.</p>
<p>A mensagem é na verdade um conjunto de quatro mensagens. A primeira é uma sequência de pulsos que representam mais de duzentos números primos. Considera-se que não há na natureza nenhuma possibilidade de uma formação espontânea de números primos. A formação perfeitamente regular de pulsos vindos de pulsares é um fenômeno natural, mas os números primos são resultado de elaborações matemáticas artificiais, o que dá a esses números o indício de uma inteligência por trás de sua produção.</p>
<p>A partir daí tem início uma discussão, que continua ao longo da história, sobre as possibilidades da existência e das forma de vida extraterrestre. Especulações, baseadas nos nossos conhecimentos científicos atuais (ou melhor, da época em que foi escrito o livro), dão forma a uma excelente obra de ficção científica, apresentando uma possibilidade muito mais realista de contato com seres de outro planeta do que a maioria dos livros e filmes, que fazem mais uma mistura de fantasia com sci-fi. Além disso, os diálogos de <em>Contato</em> estão repletos de informações triviais sobre diversos campos da Ciência, e o romance é uma ótima fonte sobre o pensamento científico e seu saber, carregando não só um caráter literário.</p>
<p>A segunda mensagem, que aparece na forma de modulação de polarização, ou seja, as ondas eletromagnéticas que formam a mensagem têm as rotações artificialmente produzidas, revelam um vídeo que, quando &#8220;traduzido&#8221;, mostra Adolf Hitler dando as boas-vindas para as Olimpíadas de Berlim em 1936. Como se trata da primeira transmissão televisiva terráquea com força suficiente para escapar da ionosfera, foi também uma forma de os extraterrestres responderem. Ou seja, a mensagem, que se descobre vir da direção da estrela de Vega, foi direcionada para nossa direção e não tem um trajeto aleatório.</p>
<p>A imagem de Hitler tem sentido ao considerarmos que ela foi a primeira transmissão de longo alcance, e não faz nenhum sentido para os extraterrestres, que não podem saber que se trata de um ditador odiado por grande parte dos terráqueos. Mas a maioria dos políticos que tomam conhecimento do vídeo, inclusive a presidente dos EUA, não entendem isso e relutam muito em divulgá-lo, até serem convencidos pelos cientistas de que os extraterrestres certamente não são nazistas.</p>
<p>O conflito entre cientistas/Ciência e políticos/Política se apresenta várias vezes durante a história, mostrando uma diferença entre os interesses por trás dos atos dos governos e o desinteresse da busca por conhecimento, ao mesmo tempo defendida e relativizada pelo Sagan. Essa relativização política também aparece destacada nos diálogos entre Ellie, uma norte-americana defensora do Capitalismo, e seu amigo russo Vaygay, defensor do Comunismo. Suas conversas os fazem repensar as vantagens e desvantagens de seus respectivos sistemas de governo.</p>
<p>Após essa polêmica, a pesquisa sobre a transmissão continua, com o descobrimento de uma terceira mensagem, que mostra milhares de páginas com diagramas, percebidas como instruções para a construção de uma máquina. No mundo todo, as pessoas têm acesso a impressões dessa mensagem em grossos volumes, e começa uma busca pelo seu deciframento.</p>
<p>Aqui se vê uma mensagem de Sagan para os habitantes da Terra: é necessária a cooperação entre todos os povos humanos para nos desenvolvermos enquanto humanidade. A perspectiva de entrarmos em contato com uma civilização extraterrestre pode vir a ser uma força propulsora para resolvermos nossos problemas de etnocentrismo, preconceitos e qualquer divisão arbitrária entre seres humanos. Como disse Isaac Asimov, em <em>Civilizações Extraterrenas,</em></p>
<blockquote><p>O simples pensamento de outras civilizações mais avançadas que a nossa, de uma Galáxia cheia dessas civilizações, só pode colocar em relevo a mesquinhez de nossas disputas e nos envergonhar, incentivando-nos a fazer tentativas mais sérias no sentido da cooperação.</p></blockquote>
<p>Todavia, nem todo o mundo está otimista com esse projeto mundial. Aliás, muita gente considera que é um plano perigoso juntar esforços internacionais, como alguns americanos que não confiam na necessidade de trabalharem com os russos, e vice versa. Sobretudo, a maior polêmica é a bandeira levantada por muitos religiosos, que consideram arriscado seguir uma mensagem que ninguém sabe se provém de Deus ou do Diabo. E há ainda aqueles que temem a possibilidade de a máquina servir, na realidade, para a dominação dos humanos pelos &#8220;veganos&#8221;.</p>
<p>Num diálogo muito interessante entre, por um lado, Ellie e Ken Der Heer e, por outro, os pastores evangélicos Billy Jo Rankin e Palmer Joss, Sagan critica a posição de alguns cientistas que arrogam a Ciência de maneira fundamentalista, ao mesmo tempo em que mostra que há religiosos ponderadamente favoráveis à Ciência. Sagan relativiza sua própria posição de cientista dentro dos debates entre Ciência e Religião.</p>
<p>(Percebemos que vários episódios da história podem ter tido como base a experiência de Sagan como cientista. A partir da leitura desse livro, compreendemos melhor a relação entre cientistas, políticos, religiosos e empresários, e como é difícil evoluir como sociedade se mantivermos uma postura fechada ao diálogo e à mudança. É claro que o desejo de mudança é a tônica da obra de Sagan, e não são todos os interlocutores que a querem.)</p>
<p>O deciframento não vai muito bem, com pouco ou quase nenhum avanço, e Ellie começa a ficar frustrada. Num importante contato com o industrialista milionário S. R. Hadden, Ellie tem acesso à quarta mensagem, decifrada por ele. Trata-se, finalmente, da chave que permite a tradução das instruções para a construção da máquina.</p>
<p>A participação de Hadden no projeto provoca uma reação negativa por parte de fundamentalistas. Hadden é dono de um complexo chamado Babilônia, onde se encontram cassinos e bordéis, mal-vistos pelos cristãos puritanos dos EUA, e que já sofreram ataques de vândalos moralistas. Isso torna o projeto da máquina um alvo de críticas ferrenhas por parte de religiosos, que desconfiam que a máquina representa uma ameaça apocalíptica.</p>
<p>A construção finalmente tem início e é empreendida por uma força-tarefa internacional. Várias indústrias são criadas para a fabricação de partes da máquina totalmente inusitadas para a tecnologia humana. Como o modelo da máquina mostra cinco assentos a ser ocupados quando de sua ativação, decisões políticas são feitas e, após alguma polêmica quanto à representatividade na escolha de quem vai entrar na máquina e representar a humanidade no experimento, são escolhidos cinco cientistas: um norte-americano, David Drumlin, professor de Ellie e coordenador do SETI; um nigeriano; uma indiana, um chinês e um russo. A escolha de Drumlin ao invés de Ellie a deixa frustrada, pois ela se sente merecedora, por todo o seu trabalho.</p>
<p>Nesse ponto vemos a cooperação e a escolha de representantes de vários povos como o resultado positivo do projeto que envolveu várias partes da humanidade. Além de representarem povos, também representam várias áreas do conhecimento humano, todas importantes para a humanidade. Todos esses cientistas não professam nenhuma religião, numa perspectiva de que as crenças são supérfluas diante da imensidão do Cosmo, onde habitam seres cujas doutrinas religiosas podem ser tão diferentes das nossas quanto um ser humano é de uma lesma-do-mar.</p>
<p>No entanto, uma sabotagem, provavelmente de algum fundamentalista religioso contrário ao projeto, explode grande parte da máquina antes que sua ativação fosse realizada, e Drumlin morre no acidente. Essa é a chance de Ellie, e ela substitui seu professor. Porém, a reconstrução da máquina levaria meses para ser realizada. Mas eles têm uma surpresa ao receber a informação de que há outra máquina, escondida do público, pronta para ser usada.</p>
<p>Os cinco representantes finalmente entram  na máquina e esta é ativada. Ninguém ao longo do romance sabia o efeito que a ativação da máquina traria, sendo a hipótese mais sustentada a de que se tratava de uma cápsula que viajaria até o planeta de onde proveio.</p>
<p>Para os cientistas que entraram nela, pareceu que eles fizeram uma longa viagem pelo espaço. As paredes da cápsula ficaram invisíveis, e eles puderam ver um percurso que lhes deram a impressão de buracos de minhoca, fazendo diversas paradas em espécies de estações que ligam diversos pontos da galáxia. Enfim parando numa praia com aparência bem terráquea, os tripulantes passaram praticamente um dia conversando e aproveitando o ambiente. Então passaram por uma interessante experiência em que encontraram e conversaram com pessoas importantes de suas vidas, já falecidas, na verdade alienígenas transfigurados, que lhes responderam perguntas sobre aspectos obscuros para a ciência humana.</p>
<p>Para as autoridades, agentes e auxiliares que acompanharam o experimento do lado de fora da máquina, não passaram mais do que alguns segundos entre a entrada e a saída das cobaias da cápsula, o que trouxe a preocupação dos governos dos respectivos países em divulgar ou não os relatos de cada cientista. Por fim, nada foi dito, a não ser que a máquina não funcionou.</p>
<p>Vemos que há certas coisas que ainda são incompreensíveis mesmo para a Ciência humana mais avançada. Alguns continuam a chamar essa parte inescrutável do universo de Deus. Mas para o cientista se trata de uma busca interminável por explicações para os fenômenos da natureza. Essa busca é representada pelo desfecho da obra, quando Ellie, por sugestão de um dos alienígenas que encontrou na viagem, programa um computador para procurar uma mensagem na dízima infinita do número π (pi), em várias escalas, não só a decimal.</p>
<p>Palmer Joss, o pastor com quem Ellie chega a iniciar uma paquera no final da história, e com quem provavelmente vem a ter um caso depois, é quem a incentiva a continuar a busca pela mensagem oculta no π. Ela acaba encontrando um trecho da dízima, em escala undecimal (11), que, quando organizado em várias linhas de um determinado número de algarismos, formam a figura de um círculo.</p>
<p>Este talvez seja o único ponto da história que me desapontou, pois sugere que há um Criador que deixou, em algum lugar na natureza, sua assinatura. Mas também é uma forma interessante de retomar uma discussão levantada por Ellie no diálogo com Joss e Rankin. Ela havia questionado a razão de Deus não ter deixado uma mensagem clara para humanidade sobre sua existência, recorrendo, supostamente, a um livro sagrado que só uma pequena parte do mundo conhece. Ela encontra essa &#8220;prova&#8221; num lugar inusitadíssimo. Mas, embora seja imptovável (por enquanto) descobrir se realmente existe uma mensagem desse tipo, é remotamente possível que, se existir, ela seja aleatória.</p>
<p>De qualquer forma, a relação de Ellie com Joss trouxe mudanças significativas para ambos. Enquanto ele passa a dar mais valor à Ciência e ao conhecimento científico, ela descobre que ainda não tinha tanta segurança em sua postura de cientista, sendo uma carreira buscada mais para satisfazer um problema pessoal familiar. A &#8220;mensagem&#8221; do π, que não é lida por Ellie no final do livro (devido a um momento de tristeza ao descobrir que seu padrasto é na verdade seu pai e que aquele que a criou como pai é seu padrasto), talvez signifique a necessidade de ponderar sentimentos e razão na busca da verdade, seja na Ciência, seja na vida.</p>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-35730"></div></div>]]></content:encoded>
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