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	<title>Teia Neuronial &#187; Livros</title>
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	<description>Antropologia, Ficção Científica, cultura e sociedade</description>
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		<title>Eram os Deuses Astronautas?</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Apr 2012 11:00:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Humanos subestimados e extraterrestres divinizados]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Provavelmente não. Mas é fácil pensar que sim. O olhar contemporâneo antropocêntrico, eurocêntrico, enfim, etnocêntrico, interpreta as manifestações de outras culturas e épocas segundo seus próprios parâmetros e experiências. Por isso, quando Erich von Däniken pergunta &#8220;eram os deuses astronautas?&#8221;, é preciso abordar a questão de forma crítica e despojada das pré-noções de quem se atreve a investigar esse tema.</p>
<p>A primeira vez que me deparei com <em>Eram os Deuses Astronautas?</em> foi com uma velha edição de capa verde do meu pai, e este me causou a impressão de que era uma obra impressionante, que revelava uma realidade perturbadora sobre nossos passado e origem. Não cheguei a ler o livro na época. Mas há poucos anos adquiri uma edição nova e, mais interessado do que nunca sobre qualquer tema relacionado a extraterrestres, li o livro rapidamente, sem sentir o impacto que normalmente os leitores dizem sentir.</p>
<p><span id="more-6250"></span><img class="alignright size-full wp-image-6378" title="Eram os Deuses Astronautas?" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/eram_os_deuses_astronautas.jpg" alt="Eram os Deuses Astronautas?" width="167" height="250" />Erich von Däniken escreveu muitos livros sobre as supostas evidências da presença de extraterrestres na Terra, que teriam vindo no passado e deixado sua impressão nos seres humanos. Seu livro mais célebre, aqui comentado, é repleto de relatos sobre imagens, mitos e construções da Antiguidade que, se interpretados de uma certa maneira, mostram que extraterrestres tecnologicamente muito avançados tiveram contato com seres humanos e os ajudaram a se desenvolver em várias áreas do conhecimento, especialmente na Arquitetura.</p>
<p>Essa ideia de que a complexidade da arquitetura antiga só poderia ser explicada por uma força maior do que a humana é hoje em dia muito difundida, em parte, graças à obra de Däniken. Mesmo com diversas explicações histórico-arqueológicas bem fundamentadas sobre a tecnologia dos egípcios, dos maias, dos astecas, dos babilônicos e de tantos outros povos, plausivelmente desenvolvida pelo próprio ser humano, ainda é mais fácil olhar para uma obra faraônica do passado e acreditar que humanos &#8220;primitivos&#8221; não conseguiriam erguer obras tão colossais e complexas.</p>
<p>Logo no início do livro, tanto na &#8220;Introdução&#8221; de Däniken quanto na &#8220;Apresentação&#8221; de João Ribas da Costa e Flávio A. Pereira, alguns pressupostos e noções a priori já determinam o caráter enviesado do livro, que se baseia em algumas falácias como: os &#8220;humanos primitivos&#8221; eram incapazes de criar obras &#8220;inacreditáveis&#8221;; &#8220;todas [as religiões] prometem ajuda e salvação à humanidade&#8221;; os deuses da mitologias antigas eram seres extraterrestres reais; a Ciência chegará ao fim quando a &#8220;verdade&#8221; for descoberta; os indícios de radiatividade em vestígios arqueológicos não pode ser explicada senão recorrendo-se a algum tipo de tecnologia.</p>
<p>O autor propõe uma postura interessante e importante para qualquer tipo de investigação científica, que é se despojar das formas tradicionais de pensar e das pré-noções para admitir outras possibilidades nunca imaginadas. Porém, ele incorre no erro que quer evitar, ao basear suas teorias em vários preconceitos advindos da visão de mundo típica de um ocidental contemporâneo.</p>
<p>As generalizações levam o autor a uma inevitável conclusão. Na verdade, o próprio título da obra já determina a conclusão do livro (&#8220;os deuses eram astronautas&#8221;), e o trabalho de Däniken é escolher os dados que a corroborem, descartando qualquer evidência que não suporte suas hipóteses.</p>
<p>O texto traz alguns questionamentos interessantes e ideias relevantes para se pensar a natureza da vida extraterrestre, como esta:</p>
<blockquote><p>[...] será essencial que os planetas devam ter condições semelhantes às da Terra para que neles exista vida?</p></blockquote>
<p>Mas no geral o autor se vale de teorias pseudocientíficas, como aquela que explica o surgimento da vida na Terra a partir de micro-organismos vindos do espaço. Esse aspecto da obra está ligado a um tom sensacionalista que faz Däniken parecer um jornalista de tabloide, constantemente utilizando exclamações e chamando a atenção do leitor para as &#8220;surpreendentes&#8221; descobertas científicas e para os mistérios ainda por ser revelados num futuro próximo.</p>
<p>É bom destacar que uma de suas principais teorias, ou seja, a ideia de que os deuses das mitologias antigas são extraterrestres que visitaram a humanidade num passado distante, possui contradições que revelam a falácia de sua argumentação. Ele afirma em alguns momentos, por exemplo, que, ao receberem a visita de alienígenas tecnologicamente mais avançados, os humanos consideraram que se tratavam de deuses, ou seja, eles já tinham uma crença teísta. Mas ao mesmo tempo subestima a capacidade humana de criar mitos, ao sugerir que foram os próprios extraterrestres que serviram de inspiração para a crença nos deuses.</p>
<p>Mas uma das mais controversas ideias desse livro, a meu ver, é a insistente subestimação das capacidades humanas de imaginar e criar. Essa ideia começa a ser esboçada nos dois primeiros capítulos, junto a uma visão etnocêntrica que pensa os &#8220;selvagens primitivos&#8221; da América, da África e da Oceania como povos ingênuos que se impressionaram com as maravilhas trazidas pelos brancos &#8220;civilizados&#8221;. Essa forma de pensar, que tem justificado a ação imperialista ao longo da história e reflete a vaidade dos povos civilizados ao se verem como supertutores (ou mesmo deuses) de sociedades &#8220;em desenvolvimento&#8221;, é há muito discutida e criticada pela Antropologia.</p>
<p>Ou seja, a própria ideia imperialista de que os povos &#8220;primitivos&#8221; atuais só podem se desenvolver social, econômica e culturalmente pela intervenção de governos mais &#8220;avançados&#8221; tecnologicamente e mais &#8220;desenvolvidos&#8221; socialmente (e, diz-se hoje em dia, mais &#8220;democráticos&#8221;) se estende à fantasia de um povo alienígena ultradesenvolvido, cuja ação seria a única via para que a humanidade saísse da Idade da Pedra (selvageria, barbárie) e passasse à Idade do Bronze (civilização).</p>
<p>Penso que a principal falha desse argumento é que ele não considera os meios pelos quais esses próprios superextraterrestres chegaram a condição tão avançada. O que se depreende de toda a dissertação é que provavelmente esses seres do espaço também foram agraciados por &#8220;deuses&#8221; ainda mais antigos, e Däniken até sugere que no futuro a humanidade assumirá o papel de &#8220;deuses astronautas&#8221; em outros planetas &#8220;primitivos&#8221;. O ovo ou a galinha?</p>
<p>Esses problemas argumentativos implicam também falhas epistemológicas. O autor partiu de umas poucas observações que fez em viagens para deduzir toda uma complexa teoria baseada apenas na observação enviesada. Mesmo assim, ele faz a mesma acusação aos arqueólogos, como se as teorias destes fossem questionáveis pelo fato de se basearem em suposições e o preenchimento de lacunas. Entretanto, é disso que a Ciência é feita, de aproximações e verdades relativas, não de crenças e imaginação sem raízes na empiria.</p>
<p>E justamente o que Däniken parece fazer é especular, imaginar e assumir como teorias bem-fundadas as hipóteses que levanta. Ele confunde, assim, abertismo (que, junto ao ceticismo, forma a postura ideal da investigação científica) com fantasia. Não se deve negar fanaticamente, por outro lado, que a falta de evidências ou as explicações científicas mais prováveis sejam prova de que não houve visitantes do espaço. Aliás, pessoalmente, tendo a pensar que é possível, e seria bom que tivesse acontecido um contato interplanetário, mas ainda não há uma resposta irrefutável.</p>
<p>A especulação de Däniken é, assim, baseada na simples impressão que ele tem daquilo que observa, como quando ele descreve sua experiência de ver as imagens da planície de Nazca:</p>
<blockquote><p>Vista do ar, a faixa de 60 quilômetros de extensão da planície de Nazca deu, pelo menos a <em>mim,</em> a claríssima impressão de um vasto campo de pouso [grifo no original, mas é justamente esse grifo que interessa neste trecho].</p></blockquote>
<p>A pergunta &#8220;eram os deuses astronautas?&#8221; só pôde ser levantada depois do início da Era Espacial, das pesquisas astronômicas sobre sistemas e planetas distantes, da Xenobiologia e da Ficção Científica. Essa pergunta só tem sentido para os humanos contemporâneos. Toda a interpretação de imagens e obras antigas como sinais da presença de extraterrestres e seus veículos espaciais só é possível pela visão de um ser humano que tem em sua experiência de mundo o conhecimento de tecnologias de viagem espacial (desenvolvida pelo próprio ser humano).</p>
<p>Uma possível contra-argumentação ao parágrafo acima seria: &#8220;foi preciso esperar até os dias de hoje para percebermos do que realmente se tratavam aquelas marcas, construções, imagens e mitos antigos&#8221;. Porém, não podemos ignorar o poder das representações em nossa interpretação dos fenômenos do mundo, e pessoas de outras épocas e lugares certamente levantariam outras hipóteses, baseadas em suas próprias experiências.</p>
<p>Däniken sustenta incansavelmente que a resposta positiva à pergunta no título de sua obra é óbvia, claríssima, está aí para ser vista por qualquer um que use o &#8220;bom senso&#8221;. Mas, se fizéssemos a mesma pergunta a algum europeu medieval, ela não faria o mesmo sentido que para nós (ou talvez nem fizesse sentido algum). Talvez os &#8220;capacetes&#8221; das cabeças de pedra em Tiahuanaco fossem vistos como exóticos elmos de soldados, ou os &#8220;capacetes de traje espacial&#8221; das figuras em Val Camonica fossem interpretados como auréolas de santos.</p>
<p>O erro do etnocentrismo é enxergar o modo de viver de uma sociedade distante, no tempo e no espaço, segundo os critérios de representação do próprio observador. A incompreensão da cultura alheia sempre foi motivo de conflitos. Interpretar a realidade subjetiva do outro de acordo com aquilo que pensamos ser objetivo (mas que é sempre regido pela subjetividade) nos faz pensar, por exemplo, que determinado povo cultua seres maléficos, que não tem leis e vive sob a égide do caos, ou que suas crenças em deuses do céu são relatos de alienígenas do espaço.</p>
<p>É comum, quando se tenta explicar a natureza do ser humano, se valer das coisas que são universais como forma de provar que são biologicamente inerentes ao <em>Homo sapiens.</em> Esse tipo de argumento também é usado quando se pretende defender a hipótese de que todos os povos humanos passaram por eventos semelhantes em algum momento de sua gênese. Däniken faz isso ao afirmar categoricamente que a presença de relatos de seres vindos do céu em praticamente todas as culturas só pode ser interpretada como uma evidência inconteste do real contato de uma ou mais espécies extraterrestres com os povos humanos primitivos.</p>
<p>Porém, os universais humanos não são necessariamente evidências de qualquer &#8220;natureza&#8221; humana inata nem de uma experiência pré-histórica compartilhada. Eles são indícios de que as experiências básicas dos indivíduos e sociedades humanos se repetem ao longo de suas histórias individuais e coletivas. E se nos atermos apenas aos mitos dos diversos povos, entenderemos, com a ajuda de James Frazer, Sigmund Freud, Émile Durkheim, Carl Jung, Claude Lévi-Strauss, Gilbert Durand, Joseph Campbell e tantos outros estudiosos da mitologia, que existem estruturas semelhantes e arquétipos em todas as cosmologias míticas.</p>
<p>No entanto, mesmo buscando elementos universais para corroborar sua teoria, Däniken em alguns momentos recorre ao argumento inverso, tomando, por exemplo, casos isolados de possíveis deformações, mutações ou exotismos fenotípicos (provindos de relatos  do passado) para generalizar a ideia de que houve uma extensiva miscigenação entre humanos e extraterrestres.</p>
<p>Ao longo de toda a obra fica patente a postura extremista de abraçar a primeira e mais complexa explicação fantástica quando não se tem explicações científicas para um dado fenômeno. Essa postura, aliada a uma visão comum que menospreza a capacidade do ser humano de compreender o Universo e de criar tecnologia, traz a crença teísta para o campo das especulações astrofísicas, enquadrando os seres extraterrestres no mesmo papel de poder e dominação dos deuses, onipotentes perante a frágil e incapaz humanidade.</p>
<h3>Links</h3>
<ul>
<li><em><a href="http://www.momentumsaga.com/2011/06/astronautas-no-passado.html#.T49El6tYtR0" target="_blank">Astronautas no Passado</a></em> &#8211; Momentum Saga</li>
<li><em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=LOmZy24OmuQ&amp;feature=relmfu" target="_blank">Eram os Deuses Asstronautas?</a></em> - Youtube</li>
<li><em><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Erich_von_D%C3%A4niken" target="_blank">Erich von Däniken</a></em> &#8211; Wikipedia</li>
<li><em><a href="http://http://www.momentumsaga.com/2012/03/o-astronauta-no-passado-nao-convence.html" target="_blank">O astronauta no passado não convence</a></em> &#8211; Momentum Saga</li>
</ul>
<h3>Foto em destaque</h3>
<ul>
<li><a href="http://www.flickr.com/photos/kliniko/4814569325/" target="_blank">Val Camonica</a> &#8211; Flickr</li>
</ul>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-62510"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>Contato (romance) [Resenha]</title>
		<link>http://teianeuronial.com/contato-romance-resenha/</link>
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		<pubDate>Mon, 29 Nov 2010 09:00:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção científica]]></category>
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		<category><![CDATA[divulgação científica]]></category>
		<category><![CDATA[Série Contatos Imediatos]]></category>
		<category><![CDATA[SETI]]></category>

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		<description><![CDATA[ou Contatos imediatos - parte 4]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Carl Sagan é um dos mais conhecidos cientistas norte-americanos da contemporaneidade, e seu renome se dá especialmente pelo fato de ter se dedicado com afinco à divulgação científica, com destaque para a Astronomia, sua área de pesquisa, com o famoso programa de TV <em>Cosmos.</em> Além disso, se notabilizou por vários livros em que apresenta o que é o pensar científico e diversos tópicos do conhecimento de várias áreas da Ciência. São exemplos <em>O Mundo Assombrado pelos Demônios</em> e <em>Bilhões e Bilhões.</em></p>
<p>O espírito de divulgador científico não ficou de fora de seus textos quando se enveredou na Literatura. Na obra de ficção científica <strong><em>Contato,</em></strong> Sagan explora as possibilidades de uma verossímil mensagem extraterrestre, enquanto explica aos leitores vários conceitos da Ciência de sua época (o livro foi publicado originalmente em 1985), essenciais para se compreender a história, mas nada irrelevantes como saberes que enriquecem a mente.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-3575" title="Contato - Carl Sagan" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/contatocarlsagan.jpg" alt="Contato - Carl Sagan" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-3572"></span><br />
<img class="aligncenter size-full wp-image-1727" title="Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura." src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/Spoilers.png" alt="" width="600" height="50" /></p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-3584" title="Contato" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/contato.jpg" alt="Contato" width="200" height="290" /></p>
<p><strong>Título:</strong> <em>Contato (Contact)</em></p>
<p><strong>Autor:</strong> Carl Sagan</p>
<p><strong>Editora:</strong> Companhia das Letras</p>
<p><strong>Ano:</strong> 2008 (1985)</p>
<h3>Sinopse comentada</h3>
<p>Eleanor Arroway, mais conhecida pelo seu apelido Ellie, teve desde pequena o incentivo de seu pai para explorar o interessante mundo do rádio-amadorismo, o que a levou a um grande interesse por se aprofundar nos estudos e pesquisar Ciência. Seu rápido amadurecimento intelectual a levou a menosprezar as possibilidades de relacionamento afetivo com os garotos imaturos da escola. Sua mente questionadora a fez perceber incoerências nas histórias bíblicas e a discordar dos professores das aulas de Religião. Seu ímpeto para se aprofundar na busca pelo conhecimento e sua genialidade a levaram a Harvard.</p>
<p>Na universidade, especialmente na área das Ciências Exatas, onde se embrenhou, encontrou o preconceito que menospreza as mulheres, mas nada a impediu de seguir em frente em sua carreira e trabalhar no projeto SETI (Search for Extra-Terrestrial Intelligence, &#8220;Busca por Inteligência Extraterrestre&#8221;). Especificamente, foi para o Novo México, onde aguardou pacientemente a aparição de uma mensagem extraterrestre a ser captada por rádio-telescópios.</p>
<p>Seu envolvimento com o SETI, contrariando o menosprezo geral pelo programa e o pouco apoio do governo, a tornou responsável pela descoberta de uma mensagem vinda do espaço. No entanto, a mensagem era tão longa que foi necessário mobilizar radiotelescópios de todo o mundo, pois à medida que as ondas eletromagnéticas chegavam, vindas do sistema da estrela Vega, a Terra continuava sua rotação.</p>
<p>A mensagem é na verdade um conjunto de quatro mensagens. A primeira é uma sequência de pulsos que representam mais de duzentos números primos. Considera-se que não há na natureza nenhuma possibilidade de uma formação espontânea de números primos. A formação perfeitamente regular de pulsos vindos de pulsares é um fenômeno natural, mas os números primos são resultado de elaborações matemáticas artificiais, o que dá a esses números o indício de uma inteligência por trás de sua produção.</p>
<p>A partir daí tem início uma discussão, que continua ao longo da história, sobre as possibilidades da existência e das forma de vida extraterrestre. Especulações, baseadas nos nossos conhecimentos científicos atuais (ou melhor, da época em que foi escrito o livro), dão forma a uma excelente obra de ficção científica, apresentando uma possibilidade muito mais realista de contato com seres de outro planeta do que a maioria dos livros e filmes, que fazem mais uma mistura de fantasia com sci-fi. Além disso, os diálogos de <em>Contato</em> estão repletos de informações triviais sobre diversos campos da Ciência, e o romance é uma ótima fonte sobre o pensamento científico e seu saber, carregando não só um caráter literário.</p>
<p>A segunda mensagem, que aparece na forma de modulação de polarização, ou seja, as ondas eletromagnéticas que formam a mensagem têm as rotações artificialmente produzidas, revelam um vídeo que, quando &#8220;traduzido&#8221;, mostra Adolf Hitler dando as boas-vindas para as Olimpíadas de Berlim em 1936. Como se trata da primeira transmissão televisiva terráquea com força suficiente para escapar da ionosfera, foi também uma forma de os extraterrestres responderem. Ou seja, a mensagem, que se descobre vir da direção da estrela de Vega, foi direcionada para nossa direção e não tem um trajeto aleatório.</p>
<p>A imagem de Hitler tem sentido ao considerarmos que ela foi a primeira transmissão de longo alcance, e não faz nenhum sentido para os extraterrestres, que não podem saber que se trata de um ditador odiado por grande parte dos terráqueos. Mas a maioria dos políticos que tomam conhecimento do vídeo, inclusive a presidente dos EUA, não entendem isso e relutam muito em divulgá-lo, até serem convencidos pelos cientistas de que os extraterrestres certamente não são nazistas.</p>
<p>O conflito entre cientistas/Ciência e políticos/Política se apresenta várias vezes durante a história, mostrando uma diferença entre os interesses por trás dos atos dos governos e o desinteresse da busca por conhecimento, ao mesmo tempo defendida e relativizada pelo Sagan. Essa relativização política também aparece destacada nos diálogos entre Ellie, uma norte-americana defensora do Capitalismo, e seu amigo russo Vaygay, defensor do Comunismo. Suas conversas os fazem repensar as vantagens e desvantagens de seus respectivos sistemas de governo.</p>
<p>Após essa polêmica, a pesquisa sobre a transmissão continua, com o descobrimento de uma terceira mensagem, que mostra milhares de páginas com diagramas, percebidas como instruções para a construção de uma máquina. No mundo todo, as pessoas têm acesso a impressões dessa mensagem em grossos volumes, e começa uma busca pelo seu deciframento.</p>
<p>Aqui se vê uma mensagem de Sagan para os habitantes da Terra: é necessária a cooperação entre todos os povos humanos para nos desenvolvermos enquanto humanidade. A perspectiva de entrarmos em contato com uma civilização extraterrestre pode vir a ser uma força propulsora para resolvermos nossos problemas de etnocentrismo, preconceitos e qualquer divisão arbitrária entre seres humanos. Como disse Isaac Asimov, em <em>Civilizações Extraterrenas,</em></p>
<blockquote><p>O simples pensamento de outras civilizações mais avançadas que a nossa, de uma Galáxia cheia dessas civilizações, só pode colocar em relevo a mesquinhez de nossas disputas e nos envergonhar, incentivando-nos a fazer tentativas mais sérias no sentido da cooperação.</p></blockquote>
<p>Todavia, nem todo o mundo está otimista com esse projeto mundial. Aliás, muita gente considera que é um plano perigoso juntar esforços internacionais, como alguns americanos que não confiam na necessidade de trabalharem com os russos, e vice versa. Sobretudo, a maior polêmica é a bandeira levantada por muitos religiosos, que consideram arriscado seguir uma mensagem que ninguém sabe se provém de Deus ou do Diabo. E há ainda aqueles que temem a possibilidade de a máquina servir, na realidade, para a dominação dos humanos pelos &#8220;veganos&#8221;.</p>
<p>Num diálogo muito interessante entre, por um lado, Ellie e Ken Der Heer e, por outro, os pastores evangélicos Billy Jo Rankin e Palmer Joss, Sagan critica a posição de alguns cientistas que arrogam a Ciência de maneira fundamentalista, ao mesmo tempo em que mostra que há religiosos ponderadamente favoráveis à Ciência. Sagan relativiza sua própria posição de cientista dentro dos debates entre Ciência e Religião.</p>
<p>(Percebemos que vários episódios da história podem ter tido como base a experiência de Sagan como cientista. A partir da leitura desse livro, compreendemos melhor a relação entre cientistas, políticos, religiosos e empresários, e como é difícil evoluir como sociedade se mantivermos uma postura fechada ao diálogo e à mudança. É claro que o desejo de mudança é a tônica da obra de Sagan, e não são todos os interlocutores que a querem.)</p>
<p>O deciframento não vai muito bem, com pouco ou quase nenhum avanço, e Ellie começa a ficar frustrada. Num importante contato com o industrialista milionário S. R. Hadden, Ellie tem acesso à quarta mensagem, decifrada por ele. Trata-se, finalmente, da chave que permite a tradução das instruções para a construção da máquina.</p>
<p>A participação de Hadden no projeto provoca uma reação negativa por parte de fundamentalistas. Hadden é dono de um complexo chamado Babilônia, onde se encontram cassinos e bordéis, mal-vistos pelos cristãos puritanos dos EUA, e que já sofreram ataques de vândalos moralistas. Isso torna o projeto da máquina um alvo de críticas ferrenhas por parte de religiosos, que desconfiam que a máquina representa uma ameaça apocalíptica.</p>
<p>A construção finalmente tem início e é empreendida por uma força-tarefa internacional. Várias indústrias são criadas para a fabricação de partes da máquina totalmente inusitadas para a tecnologia humana. Como o modelo da máquina mostra cinco assentos a ser ocupados quando de sua ativação, decisões políticas são feitas e, após alguma polêmica quanto à representatividade na escolha de quem vai entrar na máquina e representar a humanidade no experimento, são escolhidos cinco cientistas: um norte-americano, David Drumlin, professor de Ellie e coordenador do SETI; um nigeriano; uma indiana, um chinês e um russo. A escolha de Drumlin ao invés de Ellie a deixa frustrada, pois ela se sente merecedora, por todo o seu trabalho.</p>
<p>Nesse ponto vemos a cooperação e a escolha de representantes de vários povos como o resultado positivo do projeto que envolveu várias partes da humanidade. Além de representarem povos, também representam várias áreas do conhecimento humano, todas importantes para a humanidade. Todos esses cientistas não professam nenhuma religião, numa perspectiva de que as crenças são supérfluas diante da imensidão do Cosmo, onde habitam seres cujas doutrinas religiosas podem ser tão diferentes das nossas quanto um ser humano é de uma lesma-do-mar.</p>
<p>No entanto, uma sabotagem, provavelmente de algum fundamentalista religioso contrário ao projeto, explode grande parte da máquina antes que sua ativação fosse realizada, e Drumlin morre no acidente. Essa é a chance de Ellie, e ela substitui seu professor. Porém, a reconstrução da máquina levaria meses para ser realizada. Mas eles têm uma surpresa ao receber a informação de que há outra máquina, escondida do público, pronta para ser usada.</p>
<p>Os cinco representantes finalmente entram  na máquina e esta é ativada. Ninguém ao longo do romance sabia o efeito que a ativação da máquina traria, sendo a hipótese mais sustentada a de que se tratava de uma cápsula que viajaria até o planeta de onde proveio.</p>
<p>Para os cientistas que entraram nela, pareceu que eles fizeram uma longa viagem pelo espaço. As paredes da cápsula ficaram invisíveis, e eles puderam ver um percurso que lhes deram a impressão de buracos de minhoca, fazendo diversas paradas em espécies de estações que ligam diversos pontos da galáxia. Enfim parando numa praia com aparência bem terráquea, os tripulantes passaram praticamente um dia conversando e aproveitando o ambiente. Então passaram por uma interessante experiência em que encontraram e conversaram com pessoas importantes de suas vidas, já falecidas, na verdade alienígenas transfigurados, que lhes responderam perguntas sobre aspectos obscuros para a ciência humana.</p>
<p>Para as autoridades, agentes e auxiliares que acompanharam o experimento do lado de fora da máquina, não passaram mais do que alguns segundos entre a entrada e a saída das cobaias da cápsula, o que trouxe a preocupação dos governos dos respectivos países em divulgar ou não os relatos de cada cientista. Por fim, nada foi dito, a não ser que a máquina não funcionou.</p>
<p>Vemos que há certas coisas que ainda são incompreensíveis mesmo para a Ciência humana mais avançada. Alguns continuam a chamar essa parte inescrutável do universo de Deus. Mas para o cientista se trata de uma busca interminável por explicações para os fenômenos da natureza. Essa busca é representada pelo desfecho da obra, quando Ellie, por sugestão de um dos alienígenas que encontrou na viagem, programa um computador para procurar uma mensagem na dízima infinita do número π (pi), em várias escalas, não só a decimal.</p>
<p>Palmer Joss, o pastor com quem Ellie chega a iniciar uma paquera no final da história, e com quem provavelmente vem a ter um caso depois, é quem a incentiva a continuar a busca pela mensagem oculta no π. Ela acaba encontrando um trecho da dízima, em escala undecimal (11), que, quando organizado em várias linhas de um determinado número de algarismos, formam a figura de um círculo.</p>
<p>Este talvez seja o único ponto da história que me desapontou, pois sugere que há um Criador que deixou, em algum lugar na natureza, sua assinatura. Mas também é uma forma interessante de retomar uma discussão levantada por Ellie no diálogo com Joss e Rankin. Ela havia questionado a razão de Deus não ter deixado uma mensagem clara para humanidade sobre sua existência, recorrendo, supostamente, a um livro sagrado que só uma pequena parte do mundo conhece. Ela encontra essa &#8220;prova&#8221; num lugar inusitadíssimo. Mas, embora seja imptovável (por enquanto) descobrir se realmente existe uma mensagem desse tipo, é remotamente possível que, se existir, ela seja aleatória.</p>
<p>De qualquer forma, a relação de Ellie com Joss trouxe mudanças significativas para ambos. Enquanto ele passa a dar mais valor à Ciência e ao conhecimento científico, ela descobre que ainda não tinha tanta segurança em sua postura de cientista, sendo uma carreira buscada mais para satisfazer um problema pessoal familiar. A &#8220;mensagem&#8221; do π, que não é lida por Ellie no final do livro (devido a um momento de tristeza ao descobrir que seu padrasto é na verdade seu pai e que aquele que a criou como pai é seu padrasto), talvez signifique a necessidade de ponderar sentimentos e razão na busca da verdade, seja na Ciência, seja na vida.</p>
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		<title>O mundo fantástico do Oriente – parte 2</title>
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		<pubDate>Wed, 20 May 2009 16:23:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou Mostrando aos orientais quem eles são]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No texto anterior, escrevi uma resenha sobre <em>Orientalismo,</em> livro de Edward W. Said. Havia tantas coisas para escrever que tive que cortar o texto em duas postagens. Pretendo aqui dar continuidade às considerações que iniciei anteriormente, dando mais ênfase a alguns exemplos que tenho observado e que se aplicam bem, na prática, ao que Said nos apresenta em teoria.</p>
<p>VImos anteriormente que o orientalismo é um corpus de saberes que criam no nosso imaginário uma entidade chamada &#8220;Oriente&#8221;, que generaliza características que acabamos atibuindo a uma variedade enorme de povos, culturas, religiões, modos de produção e meios e modos  de viver. Além disso, costumamos atribuir a esses povos o aspecto de serem atrasados em relação ao &#8220;Ocidente&#8221;, e acabamos justificando uma &#8220;necessidade&#8221; de este colonizar aquele.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-173 aligncenter" title="Erva afrodisíaca" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/withania-somnifera1.jpg" alt="Erva afrodisíaca" width="600" height="150" /></p>
<p><span id="more-169"></span>Esse conjunto de ideias pré-concebidas, que também existem em relação a outros povos do mundo, ainda hoje nos faz ouvir, de pessoas que conhecem pouquíssimo da cultura de um país asiático, uma afirmação do tipo:</p>
<blockquote><p>Nessa novela eles caracterizaram direitinho a cultura indiana.</p></blockquote>
<p>Como se não fosse necessária nenhuma averiguação empírica a respeito da &#8220;cultura indiana&#8221;, bastando apenas que a caracterização se pareça com aquilo que temos em nossas mentes quando pensamos em Índia, e que tem mais a ver com como os indianos têm sido representados na literatura, na pintura, no cinema e na televisão ocidentais do que com a representação que eles fazem de si mesmos ou como eles realmente são.</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-179" title="Encantador de serptentes de Jaipur" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/encserpjaipur.jpg" alt="Encantador de serptentes de Jaipur" width="200" height="267" />A visão do &#8220;Oriente&#8221; como culturalmente arcaico aparece, por exemplo, num episódio do desenho animado <em>Pica-Pau,</em> em que o protagonista, ao visitar um país oriental não-identificado e <em>genérico,</em> se depara com vários vigaristas, como um faquir que se deita em pregos de borracha e um encantador de serpentes fajuto (a serpentedentro de um cesto de vime na verdade era um homem com um fantoche).</p>
<p>Quando surgem personagens &#8220;orientais&#8221; em obras de ficção, demonstrando habilidades incomuns, como encantar serpentes, ficar enterrado em estado de animação suspensa autoinduzido durante dias ou levitar, há duas possibilidades. Ou eles são de fato &#8220;mágicos&#8221; (o que os pode caracterizar como bruxos, que, na mentalidade cristã, estão ligados ao Diabo, ou seja, a uma religião falsa) ou como charlatães e impostores. Raramente há uma explicação racional.</p>
<p>Sabemos que os encantadores de serpentes lidam com animais de verdade, que ludibriam pelo movimento da flauta e não pela música. Basta ver um documentário do Animal Planet para verificar isso. Sabemos que os faquires que se deitam em pregos não são tapeadores, mas apenas se aproveitam de um fenômeno físico segundo o qual um corpo repousado em centenas de pregos próximos uns aos outros distrubui seu peso sem riscos de ser perfurado. Quem assistiu a <em>O Mundo de Beakman</em> sabe disso.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-180" title="Aladdin © Disney" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/aladdin.jpg" alt="Aladdin © Disney" width="200" height="324" />A homogeneização do &#8220;mundo oriental&#8221;, que integra povos muito diferentes entre si, nos faz referir ao &#8220;Oriente&#8221; de forma indistinta, como se qualquer coisa que acontece na China fosse também um aspecto cultural do Sri Lanka. No desenho animado referido acima, por exemplo, que parece se passar na Índia, aparece um vendedor de lâmpadas mágicas falsas, que é uma figura de uma história árabe.</p>
<p style="text-align: center;">
<p>Às vezes fazemos essa generalização em expressões como &#8220;dança oriental&#8221; (quando queremos nos referir à dança do ventre, por exemplo), &#8220;comida oriental&#8221; (normalmente nos referindo à cozinha chinesa ou japonesa) ou &#8220;misticismo oriental&#8221; (notadamente quando se fala de religião indiana).</p>
<p>Mas o &#8220;Oriente&#8221; é amplíssimo. &#8220;Dança oriental&#8221; também poderia ser um estilo coreográfico chinês (ou até mesmo o techno dançado por chineses). &#8220;Comida oriental&#8221; também envolveria comida árabe (ou, quem sabe, pizza feita num restaurante na Arábia Saudita). &#8220;Misticismo oriental&#8221; certamente não exclui o zen-budismo japonês (e por que não o catolicismo em sua versão nipônica?). Mas a vaguidão dessas representações parece ser proposital, e nos inclina a pensar que uma tal &#8220;cultura oriental&#8221; tem traços semelhantes em toda a extensão do &#8220;Oriente&#8221;.</p>
<p>Gabriel von Doscht, autor do blog <a href="http://www.dequejeito.com.br/" target="_blank">Dequejeito</a>, satirizou essa confusão ocidental num texto chamado <em><a href="http://www.dequejeito.com.br/2009/05/rala-ralando-o-tchan-ae/" target="_blank">Rala ralando o Tchan aê</a>,</em> em que conta sua ida a um restaurante que servia comida árabe, onde ele teria cometido uma gafe ao confundir o &#8220;mundo árabe&#8221; com a Índia.</p>
<p><a href="http://www.bijin-paintings.com/" target="_blank"><img class="size-full wp-image-183 alignright" title="Pintura japonesa" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/gueixaespelho.jpg" alt="Pintura japonesa" width="200" height="498" /></a>Isso tudo me inspirou a ver um episódio de uma telennovela da Globo que está fazendo muito sucesso atualmente. Ontem assisti a um trecho de <em>Caminho das Índias,</em> para averiguar o que eu já desconfiava. Os indianos são representados como pertencentes a uma cultura de valores arcaicos, usam a violência física para admoestar os filhos e praticam o casamento arranjado, contra os anseios dos jovens que não querem se casar se não for por amor.</p>
<p>Não vou dizer que na Índia não se pratiquem esses costumes. Também não defendo a violência física nem o casamento arranjado, e acho que uma educação pelo exemplo e a liberdade na escolha do parceiro amoroso devem ser cultivados. Mas esse tipo de obra mostra esses costumes com o propósito de alertar para o suposto atraso da cultura &#8220;oriental&#8221;, ao invés de se focar na construção de uma trama interessante (que não posso dizer que essa novela não tem, pois não a acompanho). Além disso, carregam-se as tintas no sentido de generalizar os costumes dos indianos, como se fosse muito pouco comum a transgressão de suas regras sociais.</p>
<p>(Conflitos envolvendo o amor podem servir de base para histórias bem contadas. <em>Romeu e Julieta,</em> por exemplo, é bem sucedida pelo mesmo motivo que <em>O Segredo de Brokeback Mountain.</em> Ambas tratam do amor proibido, o que é um tabu que apela para o sentimento de muitas pessoas, que muitas vezes têm dificuldades de realizar seus desejos devido a valores como o heterossexismo, o racismo e o etnocentrismo. Mas a preocupação dessas histórias é mostrar a resolução de um conflito e não uma visão preconceituosa a respeito de um povo.)</p>
<p>Concluo com um poema e um vídeo. O poema é um soneto que escrevi para minha esposa e no qual cometi uma injustiça para com os árabes, ou seja, retratei uma romântica Arábia voluptuosa que só existe na imaginação e não tem nada a ver com o mundo árabe real. Eis um exemplo daquilo que a mentalidade orientalista faria:</p>
<h3>Noite Árabe</h3>
<p>Pulsantes corações de fogo brando<br />
Ardendo chamejantes labaredas,<br />
Reverberando lindas luzes ledas,<br />
No espaço infindo risos ribombando&#8230;</p>
<p>Estrelas nessas tenras trevas tredas<br />
Dos teus olhos brilhantes rutilando,<br />
Abóbadas noturnas salpicando<br />
Luzentes grânulos nas horas quedas&#8230;</p>
<p>Seduz-me, Xerazade, a quieta lábia<br />
Do olhar que me entroniza como rei,<br />
Servo e aprendiz da lei que reina sábia&#8230;</p>
<p>Na alcova de teus olhos penetrei,<br />
Onde anoitece ebâneo céu da Arábia,<br />
Sob cuja égide a volúpia é lei&#8230;</p>
<p>O vídeo, dividido em 4 partes, é um excelente resumo de Edward Said sobre seu livro, acompanhado de comentários do Prof. Sut Jhally, da Universidade de Massachusetts.</p>
<p style="text-align: center;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="data" value="http://www.youtube.com/v/xwCOSkXR_Cw&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/xwCOSkXR_Cw&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/xwCOSkXR_Cw&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" data="http://www.youtube.com/v/xwCOSkXR_Cw&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00"></embed></object></p>
<p style="text-align: center;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="data" value="http://www.youtube.com/v/n0HYX9JVH8o&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/n0HYX9JVH8o&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/n0HYX9JVH8o&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" data="http://www.youtube.com/v/n0HYX9JVH8o&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00"></embed></object></p>
<p style="text-align: center;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="data" value="http://www.youtube.com/v/tlF5ED-gE5Y&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/tlF5ED-gE5Y&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/tlF5ED-gE5Y&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" data="http://www.youtube.com/v/tlF5ED-gE5Y&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00"></embed></object></p>
<p style="text-align: center;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="data" value="http://www.youtube.com/v/tZLA-mwOdSs&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/tZLA-mwOdSs&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/tZLA-mwOdSs&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" data="http://www.youtube.com/v/tZLA-mwOdSs&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;color1=0x234900&amp;color2=0x4e9e00"></embed></object></p>
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		<title>O mundo fantástico do Oriente – parte 1</title>
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		<pubDate>Fri, 08 May 2009 23:46:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ou O Leste ainda não chegou no Oeste]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O livro <em>Orientalismo,</em> de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Edward_Said" target="_blank">Edward W. Said</a>, é uma obra muito importante para a compreensão do engendramento das representações europeias e americanas sobre o que se convencionou, no &#8220;Ocidente&#8221;, chamar de &#8220;Oriente&#8221;. Aí se incluem quase todos os povos da Ásia e o mundo islâmico em geral.</p>
<p>Said era americano de origem palestina, nascido em Jerusalém de pais árabes cristãos. Foi professor de Inglês e Literatura Comparada na Universidade de Columbia, nos EUA, e um dos maiores ativistas na defesa dos direitos dos palestinos. Fundou, em 1999, com o amigo argentino de origem israelita Daniel Barenboim, a <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/West-Eastern_Divan" target="_blank">West-Eastern Divan Orchestra</a>, composta de jovens judeus e árabes.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-46 aligncenter" title="Orientalismo por Edward W. Said" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/orientalismo-said.png" alt="Orientalismo por Edward Said" width="600" height="150" /></p>
<p style="text-align: center;">
<p><span id="more-34"></span>Partindo de uma análise da literatura e trabalhos acadêmicos realizados na Europa do século XIX, Said traça a história dos estudos sobre o &#8220;Oriente&#8221;, um conjunto de escritores, livros e saberes que ele batiza de <em>orientalismo</em> e que tem muito mais a ver com uma representação da relação do &#8220;Ocidente&#8221; (sempre dominador) com o &#8220;Oriente&#8221; (sempre dominado) do que com um conhecimento científico dos povos a leste da Europa.</p>
<p>A trajetória da acumulação desses conhecimentos sobre o Oriente mostra que o orientalismo sempre se construiui sobre ideias pré-concebidas a respeito dos países asiáticos, com pouca influência de observações empíricas. Mesmo quando um explorador europeu vai aos países árabes, ao norte da África e à Índia (como Richard Burton, estudioso inglês que trouxe para a Europa traduções de <em>As Mil e Uma Noites</em> e do <em>Kama Sutra),</em> ele subordina sua experiência pessoal às interpretações que leu a priori sobre os locais que visitou.</p>
<p>Dessa forma, diz Said, os estudos sobre o &#8220;Oriente&#8221; são pouco mais que a reiteração de preconceitos e conceitos etnocêntricos (eurocêntricos e, mais tarde, americocêntricos) e racistas, sempre com o objetivo velado de justificar a colonização do &#8220;Oriente&#8221;, indistinto, bárbaro e atrasado, pelo &#8220;Ocidente&#8221;, autêntico, civilizado e avançado.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-159 aligncenter" title="Salomé por Pierre Bonnaud" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/salome.jpg" alt="Salomé por Pierre Bonnaud" width="600" height="845" /></p>
<p>Através desses estudos analisados por Said, o &#8220;Ocidente&#8221; engendrou uma imagem do &#8220;Oriente&#8221; como um mundo em que imperam os sentidos acima da razão, um universo de sombras, sedução e misticismo, em que só há a preocupação com alimentar os desejos carnais. A imagem de uma odalisca seminua dançando, com uma bandeja repleta de frutas na mão direita e uma adaga na mão esquerda escondida atras das costas, poderia sintetizar essa imagem do &#8220;Oriente&#8221;.</p>
<p>Até mesmo quando vemos representações positivas de cenários orientais, elas são carregadas dessas mesmas pré-noções. O mundo oriental é visto como mágico, fantástico, repleto de aventura e criaturas sobrenaturais e a vida comum das pessoas nunca prescinde de eventos fabulosos. O lado sedutor é enfatizado como algo bom, mas a vida real do &#8220;Oriente&#8221; não é revelada.</p>
<p style="text-align: center;">
<p>Said consegue ser bastante isento em sua análise, mas, algumas vezes no texto, deixa manifestar um pouco de revolta, principalmente no que tange à questão palestina. O que é compreensível, já que se trata de sua origem étnica. Certamente esta origem o motivou a se enveredar pelo estudo desse objeto tão complexo, controverso e polêmico.</p>
<p>Ele procura, nesta obra, focalizar a forma como o Islã, em particular, aparece nas represenações ocidentais. Dessa forma, percebemos que o preconceito e o ódio norte-americano e, em menor medida, europeu dos dias atuais aos muçulmaos vem de muito longe. O orientalismo criou uma imagem do Islã carregada de prejuízos.</p>
<p>O Islamismo e, por extensão inexata, o mundo árabe, sempre foi descrito pelos orientalistas como carregado de beligerância, de emocionalismo, irracionalidade, subserviência cega e inconstância, entre muitas outras coisas. Ainda hoje a população islâmica/árabe mundial é vista com desconfiança devido à ideia de que há uma semente de terrorismo em sua religião.</p>
<p>Ao estudar o Alcorão, alguns &#8220;especialistas&#8221; se arrogam chegar a conclusões sobre a &#8220;mentalidade iskâmica&#8221; e assim pensam que podem controlar as possibilidades de ocorrer um ataque terrorista. Seria como averiguar o modo de pensar dos ocidentais através da leitura da Bíblia. Mas, como em qualquer lugar do mundo, um livro não determina a mentalidade de um povo e muito menos de um indivíduo.</p>
<p>Há hoje em dia muita literatura que busca &#8220;elucidar o Islã&#8221;, como se os ocidentais precisassem compreender a religião dos árabes para evitar conflitos entre o Oriente Médio e o resto do mundo, e &#8220;entender&#8221; o comportamento dos árabes/muçulmanos. Felizmente temos disponível uma obra como a de Said para nos alertar do perigo dos racismos preconceituosos e histórias  como <em>Persépolis,</em> escrita por Marjane Satrpi, uma mulher iraniana que mostra que há muito, muito mais no mundo islâmico do que fanatismo cego e irracionalidade. Recomendo o <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Persepolis_(comics)" target="_blank">romance gráfico</a> e o <a href="http://www.imdb.com/title/tt0808417/" target="_blank">filme</a>.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-164 aligncenter" title="Persépolis © Sony Pictures" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/persepolis.jpg" alt="Persépolis © Sony Pictures" width="600" height="200" /></p>
<div class="rw-left"><div class="rw-ui-container rw-class-blog-post rw-urid-350"></div></div>]]></content:encoded>
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