A loteria do mérito

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Ao ler Jogos Vorazes (Hunger Games), de Suzanne Collins, refleti bastante sobre os mecanismos pelos quais as relações de poder são mantidas e justificadas em nossa sociedade. Especialmente marcante é a própria instituição dos jogos vorazes sobre os quais se centra a história do livro, uma espécie de circus maximus romano adaptado a um cenário futurista.

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Star Wars, cinema, representatividade e inclusão

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As palavras que compõem o título deste texto estão, em teoria, mais ligadas entre si do que pode aparentar à primeira vista, mas na prática elas estão desanimadoramente dissociadas.

Star Wars é uma grande franquia cinematográfica hollywoodiana que trouxe à tona uma tipo de história que estava de certa forma desacreditado: as grandes narrativas épicas e fantásticas. Esse tipo de aventura tem como característica, mais do que as maravilhosas cenas de ação e viagens fabulosas, o fato de se centrar em um herói improvável, uma figura que acaba mostrando ser muito mais do que aparenta ser. Luke Skywalker é exatamente o mesmo arquétipo de Páris de Troia, Jesus Cristo de Nazaré, Bilbo Bolseiro de Bolsão. Um “ninguém” que não acredita em si mesmo mas se torna um herói.

Durante muito tempo, a saga Star Wars foi protagonizada por personagens que representam os tipos humanos privilegiados nas sociedades ocidentais. Luke Skywalker era pobre e vivia à margem da sociedade galáctica, mas era um homem branco, cisgênero e heterossexual (embora este último aspecto só fique implícito num beijo incestuoso…), com o qual era mais fácil de se identificarem os jovens espectadores do sexo masculino, cisgêneros e heterossexuais. Dos outros dois personagens principais, Han Solo caía no mesmo estereótipo de Luke, e só Leia Organa se diferenciava por ser mulher, mais nada.

Representatividade

Felizmente, J. J. Abrams (que, ironicamente, ao assumir Star Trek, uma franquia com forte potencial para representar a diversidade, a fez regredir neste quesito) está radicalizando esse aspecto de Star Wars, colocando nos papéis de maior destaque do Episódio VII: O Despertar da Força, uma mulher e um homem negro. Essa escolha repercute positivamente nas mentes dos espectadores (mesmo que essa repercussão se dê através de um desagradável incômodo para machistas e racistas), pois se tratam de duas minorias em nossa realidade, o que enriquece o sentido da jornada do herói como a empreitada maravilhosa de um ou mais indivíduos menosprezados socialmente (seja, num caso, pelo machismo, seja pelo racismo, no outro).

Nisso o filme promete ser um belo exemplo de representatividade na indústria do entretenimento, ao ampliar o escopo do público que pode se identificar mais facilmente com heróis notáveis em histórias fantásticas. Os meios de comunicação de massa têm grande impacto sobre o grande público e a sociedade ocidentais, e a representatividade tem enorme peso sobre a auto-estima das pessoas e suas perspectivas de futuro.

Acessibilidade

Na verdade, a representatividade de O Despertar da Força está sendo amplamente discutida e o que eu estou trazendo aqui não é nenhuma novidade. Porém, o ponto a que quero chegar é outro. Representatividade está relacionada, direta ou indiretamente, a acessibilidade. Ora, houve um tempo nos EUA em que, além de estarem excluídos do protagonismo em peças de teatro e obras cinematográficas, os negros estavam segregados dos brancos em diversos espaços, públicos ou privados, e geralmente os espaços reservados às “colored people” eram de pior qualidade do que aqueles voltados às pessoas brancas. Essa segregação, embora tenha sido proibida por lei, deixou marcas até hoje. (No Brasil, o racismo se manifestou de outras formas, mas seus efeitos são muito semelhantes.)

As transformações sociais que afetam a balança da igualdade dos gêneros também encontram correspondências entre a crescente representatividade das mulheres nas mídias e as conquistas de direitos igualitários pelo Feminismo. Hoje em dia, as mulheres têm acesso ao voto democrático e a cargos de chefia, embora ainda haja muito pelo que lutar para que as elas sejam tratadas como seres humanos plenos.

Pessoas com dificuldades de locomoção, com deficiências físicas e sensoriais e outras inadequações a uma sociedade feita para indivíduos “saudáveis” (que têm um certo tipo idealizado de corpo), ao mesmo tempo em que não conseguem se adequar bem a certos espaços e tecnologias, também são sub-representadas nas mídias. Nisso elas passam por uma situação análoga à dos negros vítimas da segregação racial, pois sofrem por causa do capacitismo (estando assim – talvez não-intencionalmente – segregados) e pela pouca representatividade de pessoas com deficiência na ficção (literatura, quadrinhos, cinema, séries de TV etc.).

Não bastassem as dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência numa sociedade que a muito custo se adapta à diversidade de corpos, surge um problema maior para quem tem deficiência visual (miopia, estrabismo, cegueira parcial, visão monocular, vista cansada e outras). O crescente abuso do “3D” nos filmes hollywoodianos, com muitas estreias sendo feitas apenas com cópias que só podem ser assistidas com o uso de óculos especiais, exclui boa parte do público dos cinemas e provoca grande incômodo para outra parte.

“3D” e exclusão

Eu comecei essa reflexão a partir de mim. Tenho visão monocular, i.e. só enxergo pelo olho esquerdo (e mal). Não consigo ver a “tridimensionalidade” dos filmes “3D” (aliás, tenho até dificuldade de perceber a dimensão da profundidade no mundo físico real). Já fui a algumas sessões de filme em “3D” e consigo assistir em “2D” quando coloco os óculos (como um dos olhos não enxerga uma das imagens superpostas, fico apenas com uma delas), com o agravante de ver tudo escuro, devido à obscuridade da lente. Nas primeiras vezes em que fiz isso, eu escolhi as sessões em “3D” por conveniência social, por estar em companhia de outras pessoas que queriam ver os filmes com esse recurso.

Mas me cansei de pagar mais caro por um serviço de que não posso usufruir. Tudo bem, cada um escolheria a sessão que gostaria de ver, os filmes eram oferecidos em duas versões, e cada um pagaria o preço “justo” pela presença ou ausência desse recurso da moda, por quaisquer razões que fossem (impossibilidade de ver em três dimensões ou desagrado com tal recurso). Mas não por muito tempo.

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Quando a indústria cinematográfica descobriu que poderia lucrar muito mais se oferecesse apenas sessões em “3D” nas estreias das superproduções, pessoas como eu passaram a ser excluídas da experiência de ver um filme novo nos cinemas. Apesar disso, em muitos casos os cinemas ofereceriam uma sessão “2D” dublada, excluindo o espectador que prefere ouvir no idioma original (o que rende outra discussão).  Na melhor das hipóteses, teríamos que esperar algumas semanas para que os cinemas oferecessem sessões em “2D” e legendadas. Muitas vezes, teríamos que recorrer à pirataria virtual sem nenhum remorso ou esperar anos para ver o filme na TV ou em sistemas de streaming como o Netflix.

Com o tempo, conversando com amigos na internet e pesquisando sobre o assunto, descobri que não são apenas pessoas com visão monocular que se prejudicam com o monopólio do “3D” nas estreias. Pessoas com estrabismo e pessoas com miopia em um dos olhos e outro não também não enxergam as três dimensões ilusórias desses filmes. Além disso, muitas pessoas reclamam de sentir a vista cansada, dor de cabeça e/ou enxaqueca depois de uma sessão de filme “3D”, e prefeririam assistir a sessões em “2D” dos filmes que querem tanto ver.

Esse é um contingente significativo dos cinéfilos, excluído de seu hobby, sua paixão, sua mania ou até de seu trabalho por causa da preocupação maior da indústria do cinema com o lucro do que com o público. O que não é surpreendente, tendo em vista aquilo que move o capitalismo do qual essa indústria é uma significativa engrenagem.

Star Wars

A franquia Star Wars está melhorando significativamente quanto à representatividade da diversidade humana. Mas a preocupação com a maior visibilidade de mulheres e negros em papéis de destaque, tornando mais premente a acessibilidade dessas minorias aos espaços públicos e privados de uma sociedade mais igualitária, ainda não consegue perceber que a mania do “3D” está indo na contramão desse movimento. É irônico pensar que uma das figuras mais icônicas da saga era uma pessoa com deficiência física (Darth Vader teve as duas pernas e os dois braços amputados, e ainda sofreu queimaduras seriíssimas que o obrigaram a usar para o resto da vida uma armadura cibernética com membros mecânicos e suporte vital).

Fui comprar meu ingresso para Star Wars VII: O Despertar da Força na pré-venda, e todas as salas na semana de estreia no Cinépolis serão em “3D”. Paciência… Fui então ao Cinemark, e a situação é a mesma. Procurei no site do Moviecom, o cinema que menos prefiro aqui em Natal, e vi que haverá uma sala com cópia em “2D” – mas será dublada, e para mim a experiência de escutar as falas no idioma original é muito melhor (…como disse acima, um outro problema, para outra discussão).

A indústria cinematográfica está tornando menos acessível o entretenimento daqueles que há muito tempo são fãs da franquia e que, mesmo considerando essas críticas, certamente contribuiriam com resenhas logo na semana da estreia, se tivessem ao menos uma sessão “2D” para não perder a grande festa nerd que será essa bem-vinda renovação do universo dos jedis, de alienígenas pitorescos e de tecnologias nostálgico-futuristas de há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante. Um mundo que não precisa ser projetado com mais de duas dimensões na telona, pois sua profundidade está na maravilhosa fábula que se dispõe a contar.

Animais, inteligência e teimosia

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Certa vez li que os burros são animais inteligentes mas muito teimosos. Daí teria surgido o sentido pejorativo da palavra “burro”, inicialmente se referindo a pessoas teimosas e posteriormente variando de significado para caracterizar pessoas de baixa capacidade intelectual. Ou seja, acabou que o sentido figurado atualmente empregado à palavra contradiz a natureza dos animais citados, mais inteligentes do que vários outros tipos de bichos domésticos.

Mas essas noções de inteligência e teimosia são complicadas de se lidar (é preciso certo nível de inteligência para isso e os conceitos apresentam certa teimosia diante de quem tenta refletir sobre eles). Afinal, o que realmente significa inteligência? O que ela mede exatamente? Não vou nem tentar me debruçar sobre essa definição, mas vou simplificar as coisas da seguinte maneira: Inteligência é a capacidade de um organismo de resolver problemas.

Pensemos em dois dos mais comuns animais domésticos criados pelo ser humano, o gato e o cachorro. Existe certo consenso a respeito da suposta inteligência superior dos cachorros. Concorda-se em geral que eles têm mais facilidade de aprender truques e de se comunicar com os donos. Os gatos, por outro lado, são mais arredios e independentes; são, de certo modo, teimosos.

Voltamos assim à dicotomia inteligência/teimosia. Daí podemos afirmar que há como que uma noção que opõe os dois termos e que se traduz na seguinte afirmação: inteligência implica a capacidade de obedecer. Dessa forma, quando se fala na capacidade de um cachorro realizar truques ensinados por humanos, chamando isso de inteligência, também chegamos a uma afirmação oposta: não obedecer é sinal de baixa inteligência.

Não há como não pensar naquele velho adágio: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. A partir disso podemos notar sinais de uma ideologia insidiosa vindo à tona. Percebemos que aquela inocente classificação dos animais em mais ou menos inteligentes está atrelada a uma mentalidade autoritária que preza pela manutenção de uma ordem e de uma hierarquia social. Animal inteligente seria aquele que, obedecendo ao dono, evita ser punido por este. Aí está o orgaismo resolvendo o problema de afastar de si a dor causada por um opressor.

Se pensarmos sob um outro ângulo, seguindo um outro conjunto de valores, poderíamos muito bem pensar que a inteligência está na capacidade de resolver problemas sem a interferência de um agente externo. Se os gatos são desobedientes, eles podem ser considerados, nessa perspectiva, como mais inteligentes que os cachorros, já que conseguem as mesmas regalias dos donos sem agir como bajuladores que colocam a língua para fora e abanam o rabo (ou então encontram fora de casa as fontes para saciar suas necessidades). Gatos seriam mais inteligentes, pois resolvem seus problemas sem se sujeitar a seus “donos” e com criatividade.

A pedagogia tradicional no Ocidente costumava se fazer, e em alguns contextos ainda se faz, pela imposição do conhecimento aos estudantes. A inteligência de um aluno é medida por sua capacidade de reproduzir os saberes repassados pelo professor. Os alunos teimosos, que não seguem as normas de conduta em sala de aula, geralmente coincidem com os alunos “burros”, que não apreendem o conteúdo, administrado pelo docente e sem possibilidade de questionamentos.

Ficando ainda indefinido o conceito de inteligência para nós, considerando inclusive que existem vários tipos de inteligência (burros, cachorros e gatos têm cada um a preponderância de um desses tipos – e cada indivíduo de cada espécie varia em sua própria individualidade), o que podemos perceber com menos incerteza, até onde nossa capacidade de entendimento alcança, é que a ideologia da inteligência preconiza o valor conservador da obediência incondicional. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo” é um dito que implica que não é preciso ser inteligente (ter juízo) para mandar.

Nas sociedades com Estado e com valores tradicionais arraigados, como a nossa, “burro” é quem não abaixa a cabeça diante da Polícia, é quem não disfarça sua sexualidade desviante ou sua identidade de gênero não-convencional, é a mulher que não se sujeita ao marido, é o negro pobre que reclama do baixo salário, é a criança autodidata que procura aprender através de meios não-instituídos. Na revolução dos bichos, são os teimosos que podem acabar com a ditadura dos porcos.

Macacos

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Num jogo de futebol recente, algum torcedor idiota lançou uma banana ao campo, direcionada ao jogador negro Daniel Alves. Como já é costume, a atitude de mau gosto do torcedor foi aludir à velha piada racista que desumaniza os negros ao insinuar que eles se parecem com macacos (estes, segundo o senso comum, têm uma predileção natural por bananas). A contundente reação do jogador foi pegar a banana, descascá-la, comê-la e continuar jogando.

A atitude de Daniel tem grande força simbólica porque é uma forma de ele mostrar que não tem medo do racismo, uma maneira de dizer, “seu racismo não me afeta”. E isso serve de exemplo para a sociedade que costuma assistir aos negros baixarem a cabeça ou se entristecerem com esse tipo de ofensa. Embora seja muito difícil contornar a violência simbólica do racismo, a mensagem é clara: as coisas estão mudando e não vão ser assim para sempre.

Porém, Neymar, colega de Daniel, levou adiante o gesto deste ao lançar a campanha “Somos Todos Macacos”, convidando os internautas a postar fotos suas comendo uma banana e repetindo a hashtag correspondente (#somostodosmacacos). Em pouco tempo o Facebook e outras redes sociais se encheram com fotos e textos louvando a campanha e rapidamente pessoas começaram a ganhar dinheiro com isso.

Mas o que realmente significa dizer que “somos todos macacos” e quais as consequências de promover essa frase da forma como está sendo divulgada?

Importa salientar que Neymar é conhecido por não se autorreconhecer como negro, embora para o mundo ele seja negro e seja alvo também de racismo. Dessa forma, fica a dúvida se, ao dizer que é macaco, ele está se autorreconhecendo como negro e como pertencente a uma identidade suscetível ao tipo de ofensa sofrida por Daniel ou se está reproduzindo um tipo de campanha comum hoje em dia que é se identificar com uma minoria oprimida apenas a título de solidariedade. Ou Neymar está dizendo

  • ok, eu sou negro e, como Daniel, não me ofendo com o racismo do qual sou alvo; ou
  • embora não seja negro, me solidarizo com Daniel e com todos os negros chamados de macacos pelos racistas; ou ainda,
  • somos todos seres humanos e, como tais, somos uma espécie de macaco.

Infelizmente, como estamos vendo, as coisas são muito mais complicadas do que parecem à primeira vista. Para mim, a única forma que a frase “somos todos macacos” poderia ter algum sentido positivo seria entendê-la com um significado zoológico: “Como Homo sapiens, somos todos pertencentes a uma espécie de primatas e, portanto, somos macacos, tanto os negros quanto os brancos quanto os de qualquer outra cor de nossa raça humana”. Se a frase fosse unanimemente entendida assim, poderia ter, quem sabe, uma força libertária enorme e nos colocaria todos no mesmo lugar, ou seja, desconstruiria qualquer sentido negativo relacionado à palavra “macaco”.

Mas não é bem assim que ocorre na prática. Não podemos ignorar o peso simbólico e político impregnado nas palavras e nos gestos em nossa cultura. Para grande parte das pessoas, o ser humano não é um macaco, e esta palavra se reveste de um significado que a opõe a vocábulos como ser humano, pessoa, homem, mulher etc. Vide um pronunciamento de 2012, viralizado recentemente, em que Ariano Suassuna deixa bem claro a noção de senso comum (e de grande parte das pessoas religiosas) que vê o ser humano como uma criação diferente de qualquer outro animal. Assim, são muito poucos os que apreendem o suposto sentido zoológico presente na expressão “somos todos macacos”.

Infelizmente, o que se apreende dessa frase, em geral, é semelhante ao que estava implícito na frase “somos todos Guarani-Kaiowá”, em campanha a favor dos grupos indígenas citados, e em que pessoas que não eram indígenas se identificaram com eles de maneira fortuita, num gesto político de solidariedade. Quando uma grande parcela de pessoas brancas se identifica como “macacos”, infelizmente o sentido racista ressoa na expressão, e é como se essas pessoas estivessem dizendo que, num gesto de solidariedade, estão se identificando como negros (e não genericamente como seres humanos). Ou seja, por mais bem-intencionada que seja, a pessoa que diz “sou macaco”, nesse contexto em que se discute o racismo, está sem querer dizendo que negro e macaco se equivalem e que macaco não abrange semanticamente o branco.

"Não sou macaca!" (Fang)

“Não sou macaca!” (Fang)

Grande parte das pessoas, além de acreditarem nessa noção de senso comum que vê o ser humano como uma criatura especial, misturam-na com um saber científico difuso sobre a evolução que, contaminado pelo racismo científico do século XIX, não só vê o Homo sapiens como uma evolução do macaco (que supostamente deixou de ser macaco) como também vê nos diversos grupos humanos estágios diferentes dessa evolução. Sabemos bem aonde esse raciocínio leva: grande parte das pessoas, conscientes disso ou não, considera os negros como mais próximos evolutivamente dos macacos do que os brancos, ou seja, como menos evoluídos do que estes e, portanto, menos humanos do que estes.

E é aí que está a força racista do termo macaco, usado ostensivamente em nosso cotidiano como uma palavra “naturalmente” ofensiva. Não é à toa que parte significativa dos representantes dos movimento negros estão rechaçando sumariamente a campanha (difundindo, ao invés disso, a frase “Não Somos Macacos”), pois consideram que ela não desconstrói o racismo subjacente à palavra em questão e pode até reforçar esse racismo. A maioria das pessoas que se deparar com a campanha do “Somos Todos Macacos” não conseguirá dissociar o termo macaco de um sentido negativo profundamente difundido na cultura ocidental.

Há uma grande diferença entre abordar a “macaquice” humana do ponto de vista zoológico e do ponto de vista sócio-antropológico. Embora a Biologia nos permita afirmar a igualdade dos indivíduos da espécie, nos colocando evolutivamente como “macacos”, a cultura, através da representação, nos divide em grupos, nos faz diversos, diferentes, e até desiguais e antagônicos. E, nessa diversidade, a força da representação da identificação entre negros e macacos (diferenciando-os dos humanos brancos) não pode ser menosprezada.

Como disse um amigo, aludindo ao famigerado vídeo “Dancem, Macacos, Dancem”,

Este debate atual – afinal somos ou não somos macacos – tem relação direta com o grande dilema da nossa espécie que é fundante da antropologia: a contradição de sermos uma espécie una do ponto de vista biológico, ao mesmo tempo em que somos diversos do ponto de vista sociocultural. É por causa desse dilema que nos defrontamos com situações inusitadas como o fato de que raças humanas não existem para a biologia, mas são operantes no espectro sociocultural, sendo definidoras de hierarquia e papéis sociais. Assim sendo, estamos diante do atual dilema em que biologicamente não faz sentido negar nossa animalidade – afinal somos primatas, logo, macacos -, mas sociologicamente podemos ser o que quisermos – ou o que os outros querem que sejamos. Ou seja, ser ou não ser macacos depende, diretamente, do contexto em que se insere essa macaquice. Como disse, mundo contraditório…

A nomeação e/ou classificação de nossa espécie como pertencente ao grupo dos macacos é arbitrária e depende da abordagem e do contexto. O que posso dizer com o mínimo de incerteza é que só faz sentido dizer que “somos todos macacos” se com isso entendermos que negros são tão macacos quanto brancos são macacos (bem como quaisquer outras classificações de grupos humanos). Mas é praticamente impossível hoje em dia não associar o malfadado termo a uma noção racialmente negativa, herdada de nossa história recente de subjugação dos africanos e seus descendentes.

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Cotas raciais – parte 4

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Em 17 de março de 2010, comecei uma série de artigos sobre o tema das cotas raciais nas universidades brasileiras. Uma parte 2 foi publicada no dia 31 do mesmo mês e foi seguida de uma terceira parte no dia 29 de abril de 2010. As duas últimas foram praticamente respostas aos comentários da primeira parte, e na ocasião eu me “posicionava” contra as cotas, tentando, apesar de tudo, não desprezar de antemão todos os argumentos dos “racialistas” nem acatar todas as ideias dos “negacionistas”.

Desde então muita coisa mudou, muitos debates aconteceram, muita polêmica rolou, várias políticas públicas foram propostas, um controverso Estatuto da Igualdade Racial entrou em vigor e várias pesquisas mostraram o impacto da inserção de cotas raciais nas universidades. E minha posição também mudou.

Obstáculos para entrar na Academia

No processo de seleção para o ingresso nas universidades brasileiras, não há racismo direto. Não há discriminação racial no vestibular, apenas se discrimina a capacidade de se fazer uma determinada pontuação numa prova. Dessa forma, qualquer pessoa que não tenha recebido o preparo necessário (o que a escola pública deveria oferecer) ou que não tenha se preparado para fazer a prova do vestibular terá mais dificuldades de entrar na universidade do que aqueles que tiveram dinheiro para pagar uma escola particular ou um cursinho pré-vestibular.

Mas se não há racismo direto no acesso à universidade, há racismo indireto? Há. Uma vez que a maioria dos pobres é negra e que a maioria dos pobres e negros não podem senão frequentar as escolas públicas, que não os qualifica para a seleção do vestibular, apenas uma minoria de negros entra na universidade. Se tivermos em mente, ainda, o sutil mas muito sério preconceito que temos a respeito dos negros ou das pessoas que têm alguns traços de ascendência africana, segundo o qual essas pessoas são menos capazes do que os brancos, crença compartilhada inclusive por grande parte dos negros, há uma dificuldade a mais: elas têm, em geral, menos autoconfiança em sua capacidade de passar numa prova, muito menos no vestibular, que é cercado de uma aura sagrada e causa enorme tensão nos candidatos. Certa vez perguntei a um jovem quilombola que estava terminando o Ensino Médio se ele pretendia fazer vestibular. Sua resposta foi:

Vou fazer, mas a gente aqui não tem muita chance de passar, não.

Esse é apenas um caso ameno entre as tantas dificuldades de os negros cursarem uma universidade. Não podemos ignorar que há uma grande quantidade de pessoas pobres (a maioria das quais negras) que não têm oportunidade de estudar o ensino fundamental, muitas vezes porque as vicissitudes da vida os obrigam a trabalhar em tempo integral desde cedo.

Não devemos menosprezar o impacto que essa exclusão generalizada tem sobre a maneira como nossa cultura tende a representar os negros, como se fossem incapazes de adquirir as formas socialmente prestigiadas de conhecimento ou, numa perspectiva neoliberal, individualista e que endossa uma meritocracia acrítica, fossem preguiçosos e não conseguissem entrar na universidade por falta de interesse e/ou esforço. As pouquíssimas exceções não servem para provar essa perspectiva a não ser que esta seja imbuída de um teor racista.

Sim, somos racistas. E as discussões sobre as cotas raciais devem se voltar para a reflexão sobre os possíveis meios de se atenuar o racismo no Brasil. A proposta de cotas é uma resposta ao problema do racismo. Este não surgiu do nada na cabeça dos favoráveis às cotas. Não só existe racismo no Brasil, como ele está ligado à coincidência entre a distribuição racial e social, ou seja, a maioria dos pobres é negra, “parda”, indígena, a maioria dos ricos é branca. Muitos dos que se opõem às cotas raciais desenham o retrato de um Brasil bem menos racista do que pensam os pró-cotas. Propõem a “solução” das cotas sociais, que em si mesma é válida como política de ação afirmativa, mas não substitui (e não exclui) o valor simbólico de uma política cujo foco é o combate ao racismo.

O vestibular e a vocação acadêmica

Não é possível falar de meritocracia numa sociedade que não dá condições iguais para que todos possam competir igualmente. Não faz nenhum sentido apregoar a ideologia do esforço individual como única forma legítima de competição num país cuja história recente excluiu um gigantesco contingente populacional dos recursos necessários para “ser bem-sucedido”. Embora haja exceções, a maioria esmagadora das pessoas que “se dão bem” já nasceram em famílias com um mínimo de condições financeiras e capital cultural necessários para frequentar uma escola até o fim do 2º grau, prestar vestibular, cursar uma universidade e conseguir um emprego. Uma das formas de se atenuar a desigualdade desse processo seria instaurar de uma vez por todas um sistema educacional público (no mínimo) bom. Mas os efeitos disso se fariam sentir a longo prazo e não alcançariam o fundo do problema urgente que as cotas raciais tentam combater de imediato, que é o racismo.

Um dos argumentos “negacionistas” diz que instituir cotas raciais implica constituir uma divisão racial que não existe na realidade ou que, se existe, é muito sutil e difusa. Para eles, nomear as “raças” dos candidatos ao vestibular significaria reforçar o racismo ou até mesmo criar um tipo de racismo que não existe no Brasil.Porém, os conflitos raciais (quando há) entre cotistas e não-cotistas nas universidades não são uma consequência da criação das cotas. Eles são um reflexo de um conflito pré-existente. O preconceito que sofrem os cotistas negros poderia ser explicado por um suposto oportunismo da parte deles, uma acusação de que eles querem levar vantagem em cima dos outros candidatos que não precisam de (ou que não podem se qualificar a) cotas. Mas os cotistas estão exercendo um direito oferecido pelo Estado e a maioria deles está tentando com isso conseguir condições de cursar uma universidade, para o que o mero esforço individual geralmente não se mostra suficiente.

Se os conflitos raciais se evidenciam quando pessoas negras entram nas universidades através do sistema de cotas, não é que eles estejam sendo engendrados pela “cisão racial” desse sistema. O racismo é ubíquo e, nas situações cotidianas, parece muitas vezes não existir, estando na verdade ostensivamente oculto. A aparente harmonia (“democracia”) racial no Brasil é uma paz relativa que só se mantém enquanto negros, brancos, índios etc. se mantêm “em seus lugares”, ou seja, nas posições de poder tradicionalmente instituídas pela nossa história recente de dominação europeia, extermínio de índios e escravidão de negros. Quando essa “ordem” implícita é ameaçada, o conflito racial se mostra. Quando os privilégios historicamente construídos dos brancos são ameaçados pela presença negra nas universidades, emerge o racismo que estava velado.

Os anticotas também gostam de argumentar que conceder vagas para indivíduos que não tiram boas notas no vestibular é um risco para a qualidade do corpo discente das universidades. Mas a capacidade de se resolver a prova do vestibular não garante que o candidato terá condições ou vocação para seguir a carreira acadêmica. É notório que muitos universitários que passam no vestibular desistem em algum ponto da graduação. E importa salientar que a desistência entre os cotistas é menor do que entre os não-cotistas.

Ademais, tem sido demonstrado que, em média, o desempenho acadêmico de cotistas é equivalente ao dos não-cotistas. O que nos leva a questionar se o vestibular é realmente um meio absolutamente seguro de se averiguar quem tem condições de cursar bem uma faculdade. A vocação para a carreira universitária não se atesta pelo exame do vestibular, e penso que, mesmo se tivéssemos que insistir num sistema meritocrático, o vestibular deveria ser revisto ou substituído por outro meio.

Meritocracia

Da maneira que as coisas estão atualmente, o vestibular é uma espécie de loteria. Aqueles que têm a sorte de ter frequentado uma escola que os prepare para tirar uma boa nota são agraciados com uma vaga na universidade. Lembremos que até os cotistas precisam tirar uma nota mínima para passar, o que implica, inclusive, que todos os que entram na universidade estão num nível equivalente, não havendo diferença tão significativa entre os desempenhos de cotistas e não-cotistas.

O fato é que, uma vez que o vestibular não é um meio seguro para se averiguar a adequação dos candidatos à vida de pesquisas acadêmicas, ele não faz muito sentido enquanto instrumento meritocrático. A meritocracia do vestibular não tem nada a ver com a vocação acadêmica dos candidatos, e tem mais a ver com receber um ingresso para visitar um museu por ter sido bem-sucedido numa competição de xadrez.

As cotas raciais são uma proposta emergencial com o objetivo de atenuar os efeitos do racismo entranhado em nossa cultura. De fato, oportunizar a alguns negros (é bom que se note que, apesar de tudo, os beneficiados das cotas são uma minoria da população) a chance de sair das condições precárias em que viveram seus pais ajuda a tornar visível que a cor da pele não torna uma pessoa inepta. Mas ainda é necessário que essa política seja acompanhada de uma ostensiva reforma do ensino público, da erradicação das desigualdades sociais e trabalho infantil, além da implantação de projetos culturais de valorização da herança africana em nossa cultura material e imaterial e em nossa biologia.

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Xógum: A Gloriosa Saga do Japão

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Xógum: A Gloriosa Saga do Japão (Shōgun), escrito em 1975 pelo autor inglês James Clavell, é uma semificção que conta a história do daimio Toranaga em sua escalada ao xogunato, na transição entre os séculos XVI e XVII. Este personagem é na verdade uma ficcionalização de uma figura história do Japão, Tokugawa Ieyasu. Ao mesmo tempo, a história acompanha a trajetória do navegador  Blackthorne (uma referência ao explorador inglês William Adams) em sua viagem às terras nipônicas.

Sinopse

John Blackthorne, piloto de uma embarcação chamada Erasmus, desembarca (depois de quase naufragar) numa vila costeira ao sul do Japão. Junto com uma tripulação de holandeses, ele é feito cativo pelo líder da aldeia e tem o navio confiscado, com tudo o que há dentro dele. O senhor daquela província, Kasigi Yabu, pretende utilizar o navio e as armas de fogo dos navegantes numa guerra para dominar o Japão e se tornar xógum, ou seja, um regente secular subjugado apenas ao imperador (este, considerado descendente dos deuses, tem apenas poder simbólico).

Blackthorne é usado por Yabu para ajudá-lo a utilizar os instrumentos de guerra ocidentais que agora tem à disposição, mas seus planos são frustrados pela intervenção de seu suserano, o daimio (espécie de senhor feudal no Japão medieval) Yoshi Toranaga, que toma para si a embarcação e todo o armamento dos holandeses, assumindo ele mesmo os planos de guerrear contra o Conselho de Regentes, com o fim de se tornar xógum e garantir a segurança do herdeiro do trono, que ainda é uma criança.

Na trajetória dessa trama repleta de intrigas, traições e manipulações, Blackthorne acaba se tornando conselheiro de guerra de Toranaga, adquirindo o título de hatamoto (e, por definição, também samurai). O inglês aproveita essa chance para ganhar os favores do daimio e conseguir uma tripulação japonesa para atacar o Navio Negro português daquele ano (uma espécie de navio comercial de carga), frustrar os planos mercantis dos lusitanos e espanhóis e ao mesmo tempo diminuir a influência dos ibéricos sobre o comércio japonês. Este é apenas um detalhe de um tenso conflito entre, por um lado, ingleses e holandeses (protestantes) e, por outro, portugueses e espanhóis (católicos), que permeia a narrativa.

Mas nesse caminho Blackthorne se apaixona por sua intérprete, a samurai Toda Mariko, que fala idiomas ocidentais e é uma convertida ao Catolicismo. A relação entre os dois se intensifica com as lições de língua japonesa e sobre a cultura japonesa, e Blackthorne cada vez mais se acultura, acostumando-se com banhos frequentes, quimonos, chás e a comida frugal dos nativos. Ele e Mariko acabam tendo um envolvimento romântico intenso, e é a partir dessa relação íntima que várias reviravoltas ocorrerão na trama, tanto para Toranaga e seus vassalos quanto para o navegador inglês.

Aspectos literários

William Adams, fonte de inspiração para John Blackthorne

William Adams, fonte de inspiração para John Blackthorne

Este romance possui uma narrativa envolvente. Um dos motivos para isso é a complexidade com que Clavell constrói seus personagens. Ele é genial quando se trata de apresentar cada uma das figuras que compõem o palco dessa história, e é sempre possível antever como aquele personagem vai se encaixar e se comportar na história. Um exemplo é a apresentação de Toranaga. Em sua primeira aparição, ele está cuidando de um machucado na pata de um de seus falcões de caça, com extremo zelo e atenção, enquanto seu falcoeiro, em cuja mão enluvada repousa a ave, a segura. Com o tempo, descobrimos que o papel de Toranaga na trama é de um exímio falcoeiro de pessoas, manipulando cada uma das peças do seu lado do tabuleiro de xadrez.

Isso torna os personagens extremamente coerentes e verossímeis. Além disso, o narrador sempre apresenta ao mesmo tempo seus comportamentos e seus pensamentos, bem como a atitude mental de cada um deles ao escrutinar seus interlocutores. Esse escrutínio mútuo e constante caracteriza o denso clima de intriga da obra, em que muitas vezes, mesmo tendo uma relativa onisciência sobre a intimidade dos personagens, ocorrem reviravoltas, decisões inesperadas e resultados surpreendentes.

Essa facilidade de sabermos o que um personagem pensa se contradiz com a dificuldade de sabermos suas reais intenções, mas há um aspecto da cultura japonesa explorado na obra que explica porque isso ocorre. Aquilo que Mariko chama de “cerca óctupla” é uma disciplina mental, baseada nos ensinamentos budistas, pela qual a pessoa separa seus pensamentos e memórias em compartimentos mentais. As diferentes situações exigem que o indivíduo acesse compartimentos específicos, o que leva, por exemplo, Toranaga a quase acreditar na sua autorrendição forjada, que é na verdade um engodo para executar um plano de ataque e um golpe de estado.

Uma das qualidades mais reconhecidas de Xógum é o nível de detalhamento com que Clavell descreve a cultura material japonesa, bem como os costumes, hábitos e valores da hierarquizada sociedade nipônica medieval. Ele se aprofunda de tal maneira nessa espécie de etnografia literária que consegue brincar com possíveis choques culturais, mal-entendidos e ruídos de comunicação advindos das diferenças entre, por um lado, o inglês e seus tripulantes holandeses e, por outro, os japoneses. No meio de toda essa intriga, também têm papel de relativo destaque os portugueses e espanhóis católicos, cujos interesses são contrários aos dos representantes das nações protestantes.

Uma obra relativista

É justamente nesse encontro de culturas que vemos aquilo que considero o aspecto mais interessante da obra de Clavell: sua capacidade de tratar com relativismo as diferenças culturais dos personagens e povos que encenam as páginas do livro. A noção de barbarismo x civilização, por exemplo, não tem sentido absoluto em Xógum. Ocidentais consideram os japoneses fedorentos assim como estes não suportam o cheiro daqueles. De um ponto de vista ocidental contemporâneo higienista, isso parece estranho, já que os europeus da época em que se passa a história não costumam tomar banho, enquanto os japoneses são extremamente asseados, banhando-se constantemente.

Criam-se situações de constrangimento utilizando as diferenças alimentícias, como o fato de o inglês gostar de carne vermelha preparada com fogo enquanto os japonese praticamente só comem peixe cru. Chega-se ao limite quando um cozinheiro, designado para servir Blackthorne, considera inviável suportar ver uma carcaça de ave apodrecendo, que o inglês esquecera pendurada para cozinhar depois, e não consegue evitar sentir vergonha por ter jogado a carcaça fora e falhar com seu senhor, o que o leva a se suicidar.

Mas talvez não tenha havido constrangimento maior do que o sentido por Blackthorne quando Mariko pediu que ele lhe contasse sobre os hábitos de “travesseiro” dos ocidentais. Para ela e para outras duas mulheres que estavam presentes, não havia nenhum pudor em falar publicamente sobre sexo, mas o puritanismo dele o fez se sentir desconfortável. Sem entender a razão dessa timidez, Mariko disse a ele que, se ele quisesse “travesseirar”, poderia arranjar uma mulher disposta. Diante da recusa, ela o deixa ainda mais transtornado, fazendo-o se enfurecer, ao perguntar se ele preferiria um garoto. E então é ela quem se enraivece (embora sua disciplina lhe permita não demonstrar isso) diante da forma rude com que ele responde.

Mas eventualmente o inglês e sua intérprete têm um caso amoroso, no qual cada um ensina e aprende muito sobre o outro e sobre sua cultura. Mariko aprende a noção de amor romântico (o que não pode ser visto aqui como uma típica história eurocêntrica colonialista em que o ocidental “ensina” a nativa que a relação conjugal não precisa se dar através de um casamento arranjado), mas continua valorizando a importância do casamento como acordo entre famílias, como meio de se estabelecer alianças. Mas, se ela não deixa de se sentir feliz por compartilhar sua paixão com o inglês, de um modo como nunca havia sentido por outro homem, ele também aprende uma lição valiosa com ela, o desapego quanto à vida, permitindo-o aceitar a morte dela como necessária para o bem de todos.

O tema da intimidade revela também muito das diferenças entre as duas culturas sobre as relações entre homens e mulheres. Para Blackthorne, a princípio, parecia que as japonesas tinham sua liberdade extremamente  restringida. Mas Mariko entendia o contrário, que elas tinham tanta liberdade quanto os homens, embora cada gênero tivesse deveres diferentes. O fato é que tanto as situações que Blackthorne presencia ali quanto as lembranças sobre sua própria esposa na Inglaterra revelam as desigualdades sexistas em ambas as sociedades.

Gravura ukiyo-e de um guerreiro prestes a cometer seppuku

Gravura ukiyo-e de um guerreiro prestes a cometer seppuku

Particularmente incompreensível ao piloto inglês é a noção de honra que perpassa todas as castas da sociedade nipônica. Para ele é difícil entender a importância que os japoneses dão à ordem hierárquica e ao conjunto social. Qualquer ameaça a essa ordem, mesmo que seja uma pequena insubordinação, deve ser severamente punida, às vezes com a morte, para que o grupo não se  desagregue. E daí advém uma postura profundamente resignada diante da morte, que os japoneses encaram com uma tranquilidade trágica. Se em determinado momento Blackthorne fazia de tudo para evitar a morte, sua, de seus companheiros e de sua amada, em sua transformação em samurai ele passa a aceitar tudo como contingência do carma.

As crenças de todos também são relativizadas, não colocando o autor nenhum dos credos em posição privilegiada em relação aos outros. Se em um momento o Protestantismo, encarnado na figura de Blackthorne, parece se sobrepor ao Catolicismo dos inimigos do piloto inglês, em outro vemos a bela cena de uma missa católica ao ar livre, ministrada por um padre a apenas uma mulher. O xintoísmo e o budismo japoneses também aparecem como formas significativas de interpretar, ver e viver o mundo. A noção de carma, extremamente valorizada pelos japoneses, é absorvida por Blackthorne em sua transformação em nativo, e a expressão “Carma, né?”, repetida exaustivamente por ele, imitando seus anfitriões, quase substitui completamente qualquer menção à vontade do deus cristão do qual é devoto.

O sagrado, na forma como é encarado por cada um dos personagens, é respeitado por Clavell em sua importância subjetiva e transcendente em relação ao mundo profano das maquinações e politicagens. Enquanto toda a trama é permeada por interesses políticos, econômicos e carnais, que atingem todos os personagens sem exceção, a última esperança de harmonia (ua) é depositada no carma budista, na vontade dos deuses xintoístas ou na providência do Deus cristão.

Seja quanto à higiene, aos hábitos alimentares, à sexualidade, à religião, aos valores ou a qualquer outro aspecto cultural, todas as culturas no romance são tratados friamente por Clavell, que deixa os julgamentos etnocêntricos apenas nos pensamentos e bocas dos personagens, o que revela mais ainda de suas respectivas culturas. Cada cultura tem significado completo para seus respectivos membros, e podemos entender os motivos de cada um se comportar segundo a moral de seu próprio povo, sem necessariamente concordar com ela.

No entanto, talvez um dos maiores méritos de Clavell dentro de sua postura relativista seja a quebra de paradigma quanto ao papel do europeu estrangeiro em terras extraeuropeias. Diferente da figura colonizadora que se intromete em assuntos “indígenas” para tutelar os nativos e ajudá-los em suas lutas (nem uma aventura interplanetária como Avatar escapou desse esquema), Blackthorne é quem é usado pelo chefe nativo Toranaga para executar seus planos, e no final a história, “a gloriosa saga do Japão”, inicialmente centrada no navegador europeu, é realizada pelos japoneses e para os japoneses.

Links

  • Xógum (livro) – Wikipédia

Nota pós-texto

Existe uma minissérie homônima de 1980, baseada no livro, Confiram o trailer.

Os Mortos-Vivos – The Walking Dead e a cultura contra a natureza

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the-walking-dead-os-mortos-vivos-hqm-editora-novo_MLB-F-4282197153_052013Depois que comecei a ler há algum tempo a série de quadrinhos Os Mortos-Vivos (The Walking Dead), roteirizada por Robert Kirkman e com desenhos de Tony Moore (edições 1 a 6) e Charlie Adlard (edições seguintes), não consegui resistir a seguir continuamente capítulo por capítulo dos 10 encardernados que já haviam saído no Brasil. Publicada no Brasil pela HQM, atualmente a série tem 11 encadernados publicados, reunindo 6 edições cada um, perfazendo 66 números de um total de mais de 100 da publicação original pela Image Comics. Esta teve início em 2003 e continua sendo publicada até hoje, e deve continuar sendo paulatinamente traduzida e lançada no Brasil.

Essa obra gráfica, que deu origem a uma famosa série de TV, possui qualidades narrativas e estéticas excepcionais. Longe de ser uma mera fábula de terror sobre zumbis, Os Mortos-Vivos é uma história sobre seres humanos vivos. Ela dá medo em alguns momentos, nunca por causa das criaturas que lhe dão título, mas porque nos pegamos torcendo para que tudo dê certo num mundo incerto em que o caos ameaça a todo momento. Mas ainda mais do que isso, a obra nos faz pensar sobre as profundas implicações da relação entre o ser humano e a natureza.

Sinopse

A história de Rick Grimes, policial que acorda de um coma para encontrar tudo ao seu redor deserto e infestado por zumbis, é repleta de perdas, reencontros, encontros e novas perdas, mudanças, amadurecimento, adaptação e desmoronamentos psicológicos. Ao acompanhar sua trajetória, deparamo-nos com pessoas muito diferentes entre si e que, numa situação normal, jamais andariam juntas. Mas, na presente circunstância apocalíptica, o fazem para aumentar suas chances de sobrevivência.

Rick cria novas amizades, se apega a algumas pessoas, aprende a tolerar outras, mas também desenvolve desafetos, sempre se colocando à frente do instável grupo que o acolhe como líder. Seu constante aprendizado o põe em situações-limite; qualquer decisão terá fortes consequências para o pequeno grupo de sobreviventes, afinal, qualquer coisa que signifique o risco de um companheiro morrer é a possibilidade de uma perda inestimável. Às vezes, no entanto, a presença de certos indivíduos pode ser mais prejudicial do que benéfica, e nosso protagonista pouco hesita em fazer sacrifícios. Porém, a longo prazo, as coisas ficam cada vez mais difíceis e o sentimento de culpa e fracasso como líder atormenta Rick constantemente.

Estado de natureza e contrato social

Toda essa trama familiar e esse drama psicológico se apresentam como especulações sobre uma pergunta: “O que a humanidade realmente faria se se visse novamente em estado de natureza?” O que leva a outra pergunta: “O que uma situação distópica como um apocalipse zumbi poderia nos ensinar sobre os esforços humanos para sair do estado de natureza até o estado de cultura e civilização?”

A reflexão conduzida por Kirkman nas páginas de Os Mortos-Vivos parte do pressuposto de que os seres humanos adotariam comportamentos extremos quando colocados em situações-limite. A necessidade de lutar para sobreviver se reflete em rivalidades, brigas e até mortes quando dois ou mais indivíduos discordam quanto ao melhor curso de ação para o grupo. As emoções vêm à tona com intensidade e as neuroses pessoais se agravam. As pessoas endurecem, se brutalizam e começam a temer a perda de sua humanidade e seu caráter humano racional. As regras morais e os valores éticos precisam ser recriados do zero e só se ajustam com a experiência, com erros e sacrifícios.

A premissa, portanto, é a de que os sobreviventes do desastre retornaram a um estágio anterior ao da cultura e precisam reinventar o contrato social. Dessa forma, outra pergunta que a história tenta responder é: “Quem estava certo, Hobbes ou Rousseau? O homem é o lobo do homem ou somos naturalmente bons selvagens?” A resposta é circunstancial, e podemos ver duas respostas opostas no confronto entre o grupo que vive na prisão e a cidade de Woodbury, liderada pelo Governador.

Na prisão quase abandonada é onde as coisas começam a ficar realmente melhores para Rick, sua família e seus novos amigos. Ali, vemos cada indivíduo assumindo um papel segundo suas capacidades e talentos; um cultiva uma horta, outra costura roupas, outros se encarregam da segurança e há quem se detenha cuidando das crianças. Com o tempo, a liderança de Rick e seu braço direito, Tyresse, é substituída por uma espécie de conselho, e as decisões do grupo são tomadas em assembleias. Esboça-se, assim, uma sociedade participativa e protodemocrática, em que todos têm voz e cuidam uns dos outros.

Por outro lado, o Governador de Woodbury se assemelha à imagem do Leviatã hobbesiano, ou seja, do déspota sem cuja condução e proteção uma sociedade se desagregaria. Todos os habitantes de Woodbury se sentem seguros sob sua liderança, mas todas as decisões que afetam o coletivo são centralizadas no Governador. Supostamente, o medo gerado pelo ambiente distópico torna a todos vulneráveis, e a massa procura uma figura forte que se atenha a cuidar do bem comum.

Curiosamente, as duas sociedades se desfazem completamente ao entrarem em conflito. O grupo da prisão se desagrega e perde toda a infraestrutura que os protegia, enquanto um membro da sociedade de Woodbury, ao se dar conta da insanidade do Governador, o mata sem hesitar. Fica clara a mensagem do autor de que este não é o momento para definir o melhor rumo para uma humanidade em estado de reconstrução e de que provavelmente não existe só um melhor caminho.

Mas eu proponho uma pergunta que considero mais pertinente e profunda: “Um desastre como esses realmente colocaria os seres humanos em situação de plena natureza?” E é claro que a resposta é negativa, pois os sobreviventes não são seres desprovidos de cultura e trazem em si uma história complexa que se reflete em seu comportamento e na relação com os outros membros do grupo. Tudo o que tentam fazer pode até se parecer com algum modelo ideal de protossociedade humana, mas eles não partem do zero, estão todos viciados com a cultura e com diferentes trajetórias de vida que refletem os conflitos étnico-raciais, de gênero, de classe e de geração que se mantêm vivos apesar de tudo, mas que são mais ou menos relativizados por causa da situação-limite em que todos se encontram.

Mortos-vivos: uma força da natureza

Porém, os mortos-vivos representam um elemento importante na trama por fazerem os seres humanos perceberem que, por trás de todo o mundo que construíram à sua volta, existe uma gigantesca força impessoal que persiste e que resistirá ao poder domesticadoe e destruidor do Homo sapiens.

Em geral, as histórias sobre zumbis lidam com um terror subjacente à cultura ocidental: o de perder sua humanidade e se ver despojado de sua própria identidade. A possibilidade de morrer e ter nossos corpos ressucitados sem consciência por alguma força estranha pode ser aterradora para alguns de nós. É uma fantasia análoga à de se tornar um lobisomem, um animal irracional que não se dá conta das próprias ações.

Esse terror é explorado em Os Mortos-Vivos, mas de forma bem mais profunda do que na maioria das histórias de zumbis. Na situação-limite representada nessa fantasia escatológica, morrer significa se tornar um zumbi, passar a fazer parte de um organismo impessoal, de uma força implacável e infinita, e assim todos os vivos são mortos-vivos em potencial, ou seja, possíveis inimigos.

Essa força da natureza, representando metaforicamente a própria natureza com que o ser humano e sua cultura se defrontam na vida real, pode ser, no máximo, domesticada. Essa imagem da domesticação é representada, por exemplo, pelos zumbis desmembrados e sem mandíbulas, trazidos por Michonne em coleiras, e pela filha morta-viva do Governador, criada como um animal de estimação. Mas também pela imagem da cerca rodeada por zumbis que não param nunca de se aproximar e se aglomerar como um enxame. Tais quais um jardim que cresce e ameaça espalhar ramos pela casa, os zumbis têm que ser constantemente podados.

Desacato aos detentores do poder

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foto11Desacato à autoridade é um conceito a ser revisto.

Infelizmente, o desacato à autoridade, na prática, se refere a uma ação contra o agente do poder (intermediário) e não contra o representante do poder (na outra ponta), que é o verdadeiro problema dos cidadãos. Dessa forma, enquanto os representantes lidam de forma relativamente pacífica com artigos ou charges que os criticam e ridicularizam, eles estão protegidos fisicamente pelos agentes do poder, autorizados a se utilizar legitimamente de violência e armas se forem agredidos com palavras feias e gestos obscenos.

É a mesma relação entre o empregado, o capataz e o patrão. O agente intermediário é uma figura ambígua. Ao mesmo tempo em que se encontra mais próximo do empregado, é cercado de uma aura de desconfiança, pois age de maneira dura, inspecionando e delatando, às vezes punindo. O patrão, a verdadeira figura dominante, não se envolve diretamente e, quando intercede como mediador, pode aparecer até como um pai condescendente, que quer o melhor para todos. É mais fácil odiar o chefe imediato do que o empregador, mesmo sendo este quem autoriza aquele a agir com violência.

Nosso direito de desacatar o representante do poder está garantido pela liberdade de expressão. Mas a mesma lei que nos autoriza a fazê-lo impede-nos de questionar a autoridade do agente do poder, que se constitui numa barreira de gás e plástico. O conflito mais acirrado se concentra no embate dos cidadãos com a muralha policial, e o efeito perverso disso é que tendemos a supervalorizar esse conflito e esquecer que o problema está nos representantes do poder e não em seus agentes.

Os cidadãos deveriam ter o direito de discordar de e manifestar sua indignação à autoridade que supostamente os serve, que está mais próxima deles. Os agentes deveriam ser intermediadores, levando o recado para seus patrões. Eles estão ali, protegidos com armaduras e escudos, para se proteger e não para proteger quem neles manda (nem para contra-atacar). No entanto, as manifestações de desacato a sua autoridade não são ofensas pessoais, como as atitudes vingativas que se veem por parte de alguns deles parece sugerir, mas são no fundo uma indignação contra quem os colocou ali.

O verdadeiro desacato é contra a autoridade do conjunto do povo. Pois, é bom lembrar, se este não é representante nem agente, é o detentor do poder.

Sandman e as transgressões de Neil Gaiman

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Encadernado do primeiro arco, "Prelúdios e Noturnos", publicado pela Editora Conrad

Encadernado do primeiro arco, “Prelúdios e Noturnos”, publicado pela Editora Conrad

A série de quadrinhos Sandman, publicada entre 1989 e 1996, pelo selo Vertigo da DC Comics (e continuada posteriormente em vários spin-offs), conta a história de uma entidade que personifica o sono e o sonho (e assim ele é conhecido como Sonho, mas também por diversos outros nomes, como Morfeu, Devaneio, Rei do Sonhar e por qualquer outra denominação que as diversas línguas da Terra e do universo tiverem escolhido para designar esse fenômeno supostamente universal). É contada sua desgraça depois de ser capturado por um mago, a reconstrução de seu reino, uma milenar busca existencialista, os conflitos com deuses, lendas, entidades menores, mortais, e especialmente seus 6 irmãos, os Perpétuos.

Esse épico escrito pelo escritor inglês Neil Gaiman é uma grandiosa narrativa recheada de inusitadas digressões e contos menores que enriquecem o universo de Sandman, colocando em cena personalidades históricas como Shakespeare, deuses de diversas mitologias (judaico-cristã, grega, nórdica, egípcia – e até marciana), personagens do universo DC como Constantine, além de muitos outros seres, humanos, não-humanos, animais e entidades de várias dimensões, cada um com seus sonhos e pesadelos (não importa se reais ou irreais).

Mas um elemento que chama muita atenção do leitor perscrutador é o caráter transgressor de situações e personagens ao longo de toda a série, a começar pela supracitada mistura de mitologias.

Um panteão estendido

Gaiman desenvolveu em suas histórias um mashup mitológico, um pout-pourri teológico em que deuses, demônios, heróis e lendas de diversas mitologias do mundo se encontram, dialogam e entram em conflito. Um dos principais eventos da trajetória de Sonho é quando Lúcifer (da mitologia judaico-cristã) resolve entregar a ele a chave do Inferno. Sonho então preside uma grande e longa reunião com os representantes de todos os panteões da Terra, para decidir quem ficará responsável pelo grande salão das almas condenadas.

Nesse e em outros episódios, vemos uma perspectiva relativista por parte do autor, considerando que diferentes povos e culturas representam o universo de forma diferente, e deixando implícita a possível ideia de que as entidades sobrenaturais só existem por que os humanos as conceberam. Nesse sentido, contra a visão cristã de que todas as outras religiões são falsas, Gaiman apresenta a ideia de que as outras crenças são tão verdadeiras quanto o Cristianismo.

O relativismo das visões de mundo também é bem representado em situações em que Sandman e os outros Perpétuos são vistos por pessoas de culturas ou espécies diferentes. Nesses casos, eles possuem aparência e nomes diversos, como é visto na história do casamento de Orfeu e Eurídice, em que os Perpétuos têm nomes gregos e se vestem à moda helênica. E quando uma gata está sonhando com um mundo em que os felinos brincam com humanos como se estes fossem ratos, ela encontra Sonho na forma de um grande e sombrio gato preto.

Embora com certeza não tenha sido o primeiro a colocar diversas crenças e mitologias lado a lado, Gaiman radicalizou esse conceito, indo além do maniqueísmo, valorizando, indiretamente, a criatividade humana em todas as suas manifestações ao redor do mundo, reconhecendo que são todas dotadas de um significado complexo e um sentido profundo.

Chapeuzinho Vermelho, Lobo Mau, Branca-de-Neve, Pinóquio e outros numa capa da série Fábulas

Chapeuzinho Vermelho, Lobo Mau, Branca-de-Neve, Pinóquio e outros numa capa da série Fábulas, de Bill Willingham

Provavelmente influenciou diversos autores depois dele, o mais notável dos quais talvez seja Bill Williangham, escritor da série de quadrinhos Fábulas, em que os personagens dos folclores e contos de fadas de todo o mundo interagem entre si. Não por acaso Willingham é considerado herdeiro de Gaiman, não só nos temas como no caráter semiépico de suas histórias.

Gênero e sexualidade

A diversidade sexual é tratada por Gaiman com relativa naturalidade. Há personagens de destaque ao longo da narrativa que são homossexuais, e isso não aparece problematizado desnecessariamente, os casais gays e lésbicos, os travestis e os andróginos  simplesmente estão lá, com personalidades complexas e humanas, sem precisar prestar contas ao leitor quanto a suas preferências afetivo-sexuais nem qualquer adequação a identidades de gênero preconcebidas. Isso é o que se pode chamar de conteúdo adulto, não por se tratar de tema tabu, mas por este ser apresentado de maneira madura.

Também há personagens entre os irmãos de Sonho que transgridem a ordem do sex0-gênero, especialmente Desejo e Desespero. Quase todos os Perpétuos possuem um gênero. Destino, Sonho e Destruição são “homens”, Morte, Desespero e Delírio são “mulheres”. Mas Desejo não tem uma identidade de gênero definida, normalmente se apresentando como hermafrodita. Porém, a depender do episódio, Desejo pode se apresentar (ou ser identificado) como homem (chegando até a engravidar uma mulher mortal), outras vezes como mulher. Um personagem de destaque sem gênero definido é no mínimo desconcertante, tendo em vista a tendência nos quadrinhos em geral de apresentar os personagens com seu sexo/gênero bem definido, principalmente nas formas dos corpos, com mulheres extrema e idealmente curvilíneas e homens exageradamente musculosos.

Essa tendência a apresentar mulheres importantes com corpos de beleza idealizada é subvertida por Gaiman em suas personagens femininas. Morte, por exemplo, tem a aparência de uma mulher jovem um tanto diferente das super-heroínas peitudas. Ela aparece como uma mulher sensual, mas quase sem seios. Delírio tem o aspecto de uma adolescente desgrenhada, esfarrapada e aparentemente desarticulada. Porém, muito mais do que Morte e Delírio, é Desespero quem representa o ápice dessa subversão, e penso que ela mereceria ter recebido mais atenção de Gaiman nas histórias do universo de Sandman, pois é muito complexa e extremamente cativante. Desespero sempre aparece como uma mulher baixinha, obesa e “feia”, com presas de javali e ostentando cicatrizes pelo corpo nu. Como os Perpétuos são seres atemporais e transcendentes, esses aspectos estéticos não têm a menor importância para eles, o que acaba contagiando o leitor.

A partir da extrema esquerda, em sentido anti-horário, as mulheres Morte, Desespero e Delírio, @ andrógin@ Desejo e os homens Destruição, Sonho e Destino

A partir da extrema esquerda, em sentido anti-horário, as mulheres Morte, Desespero e Delírio, @ andrógin@ Desejo e os homens Destruição, Sonho e Destino

Paradoxos, nonsense e surrealismo

Sandman é uma história sobre coisas descomunais, ao mesmo tempo em que foca em coisas pequenas. Enquanto descreve a existência de seres onipotentes e a ampla repercussão de seus atos, também coloca em destaque a vida de seres comuns e como pequenas ações ou pensamentos podem reverberar Universo afora. Essas coisas todas, grandiosas e ínfimas, se encaixam de uma forma às vezes inusitada, com muitas pontas que dão nó inesperadamente na trama (e às vezes dando nó em nossas tramas neuroniais). Especialmente em seu caráter paradoxal, numa visão repleta de quebra-cabeças que subvertem a forma como costumamos encarar a realidade.

A perplexidade pode ser experimentada no fato de que os Perpétuos, ou seja, Sandman e seus irmãos, são onipresentes e ao mesmo tempo se apresentam em formas visíveis e interativas. Quando Sonho assume a forma de um homem vestido em roupas elizabetanas e conversa com Shakespeare, ele está ao mesmo tempo presidindo todos os sonhos de todos os seres do Universo. Sua irmã Morte acompanha cada criatura existente em seu momento de despedida da vida, e se encontra em milhões de lugares ao mesmo tempo. E assim com cada um dos outros. Gaiman nos convida a imaginar como seria ter uma individualidade e ao mesmo tempo estar imerso e atuante no Cosmos.

Os Perpétuos também são entendidos como eternos e imortais, existindo atemporalmente, mas também há referências a um momento em que eles começaram a existir. No entanto, existe um tipo de evento ainda mais paradoxal e, digamos, até nonsense. Os Perpétuos, enquanto personalidades (além de serem aspectos da realidade), podem deixar de existir e ser substituídos por outra consciência, como acontece com Sonho. Essa consciência assume totalmente o papel do Perpétuo expirado, inclusive com suas memórias. Porém, embora passe a existir naquele momento com outra personalidade, considera-se que ele sempre foi um Perpétuo e compartilha toda a história do Universo com seus irmãos.

Há um personagem importante em um dos arcos da saga chamado Fiddler’s Green, que em sua essência não é uma pessoa ou uma entidade pessoal, mas um lugar (Fiddler’s Green é o nome de um local mítico para o qual os marinheiros vão depois da morte, uma espécie de paraíso para navegantes e piratas). Esse também representa um aspecto surreal das  histórias de Sandman. Há várias “pessoas” que aparecem interagindo umas com as outras que são não apenas personificações de aspectos da realidade (como os próprios Perpétuos), mas são coisas do universo, como estrelas e planetas. Isso pode ser bem visto na história Sonho: O Coração de uma Estrela, encontrada no livro Noites sem Fim, em que várias entidades do universo se encontram numa reunião.

Outro elemento bem maduro e relativamente transgressor da abordagem de Gaiman é seu afastamento do maniqueísmo típico das histórias de Fantasia. Os próprios Perpétuos são exemplo disso, ao se mostrarem representantes não só daquilo que seus nomes revelam, mas do elemento oposto. É Destruição quem o afirma em determinado momento: Sonho também se define em complemento à Realidade, Morte à Vida, Destino à Liberdade, Delírio à Sanidade, Desespero à Esperança, Destruição à Criatividade e Desejo ao Ascetismo. Nenhum dos elementos dessas díades é entendido como mau ou bom, e todos os outros personagens da narrativa também são mais complexos do que numa visão em preto e branco.

  • [A imagem em destaque é uma ilustração de John Watkiss para Estação das Brumas, um dos episódios mais icônicos da saga de Sandman.]

Quilombo de Acauã conquista acesso à terra

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[Publicado originalmente na Carta Potiguar N.5 – Maio/2013]

Bolo feito pelos quilombolas de Acauã para comemorar o acesso a suas terras

Bolo feito pelos quilombolas de Acauã para comemorar o acesso a suas terras

O dia 23 de abril de 2013 foi de festa para os quilombolas da Comunidade de Acauã (também conhecida como Cunhã). Na ocasião, o INCRA se imitiu na posse das terras que, a partir do processo de titulação que ocorrerá em breve, serão propriedade definitiva da Comunidade, recuperando um território tradicionalmente ocupado e necessário à sobrevivência do grupo.

Desde décadas antes dos anos 1970, a Comunidade Quilombola de Acauã vivia em relativa paz na margem sul do rio Ceará-Mirim, município de Poço Branco, Rio Grande do Norte. Com a construção da Barragem de Poço Branco, os Negros da Cunhã (como também são conhecidos), perderam todas as suas casas e toda a terra que utilizavam para plantar e sobreviver. Num acordo bastante desfavorável para eles e sem qualquer indenização pela perda, os quilombolas passaram a morar ao norte do rio, longe do lugar a que tradicionalmente pertenciam, num pequeno lote de 4 hectares. As 16 famílias que para lá foram na época se multiplicaram e hoje são mais 60.

Em 2004, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA iniciou o processo de regularização do Território Quilombola de Acauã, dentro das ações do Programa Brasil Quilombola. Um relatório antropológico, realizado pelo professor Dr. Carlos Guilherme Octaviano do Valle, da UFRN, mostrou o histórico de ocupação da comunidade no território e apontou que sua origem remonta a ex-escravos, provavelmente fugidos do cativeiro ou retirantes do pós-Abolição.

Esse estudo justificou o reconhecimento de um território que não apenas abrange as terras anteriormente ocupadas pelos Negros da Cunhã, recuperando o que era seu, mas abarca outras terras necessárias a sua sustentabilidade e existência enquanto grupo étnico. Esse Reconhecimento do Território pelo INCRA ocorreu em 2008.

Porém, a história da Comunidade, do passado até o presente, é mais complexa e conflituosa do que pode parecer para quem leu este artigo até aqui e nunca ouvira falar sobre Acauã. Como grande parte das comunidades rurais negras espalhadas pelo Brasil, Acauã sempre foi marcada pela invisibilidade social. Uma dessas marcas se constata na pesquisa cartorial feita pelo INCRA para averiguar o histórico das propriedades particulares que incidem sobre o Território.

Nas certidões retiradas pelo INCRA, não há qualquer menção a uma comunidade negra ou rural no local onde os quilombolas costumavam morar, às margens do rio Ceará-Mirim. A cadeia dominial da Fazenda Maringá descreve os limites do imóvel, numa época anterior à construção da Barragem de Poço Branco, como abrangendo uma grande extensão de terras que ao norte chega até a margem sul do rio, como se não houvesse ninguém morando ali. Mas as fundações das casas dos quilombolas até hoje ainda podem ser vistas quando o rio está baixo, e a história oral contada pelos anciãos da Cunhã mantém viva a memória desses tempos.

O descaso não diminuiu quando a Comunidade perdeu suas terras para a Barragem, pois não receberam indenização e foram forçados a se espremer em um pequeno retângulo, sem terras boas para plantar, sendo obrigados a arrendar terras de fazendeiros vizinhos, numa situação que ecoa o status quo da Escravocracia.

Além disso, Acauã sempre foi ignorada pela administração municipal local. Numa atitude de extremo racismo institucional, a Prefeitura de Poço Branco não recolhe o lixo da Comunidade com regularidade, dificulta o acesso dos quilombolas ao sistema de saúde e desvia os recursos destinados à educação no Quilombo, recebidos do Governo Federal exclusivamente para cumprir o Programa Brasil Quilombola. Não houve sequer um representante da Prefeitura de Poço Branco na cerimônia de imissão de posse do INCRA.

Não bastassem todas as dificuldades, alguns proprietários cujas terras foram incluídas no território reconhecido tomaram atitudes retaliativas contra a Comunidade, principalmente ao impedir os quilombolas de usar seus imóveis para a agricultura. Um dos proprietários conseguiu se utilizar do desconhecimento de algumas instâncias da Justiça sobre a questão quilombola para anular a desapropriação de sua fazenda, onde justamente se encontram as ruínas da Cunhã Velha. Alguns juizes e desembargadores ainda pensam em quilombo como um conjunto de negros fugidos da escravidão, desconsiderando um conceito atual, usado pelos movimentos sociais e na Academia, que abrange diversas situações de resistência à opressão histórica.

Mas a Comunidade conseguiu se manter de pé até agora, e conquistou o direito de acessar seu território tradicional, com a possibilidade de em breve construir novas casas e articular projetos de beneficiamento para se integrar à economia regional e sair da penúria. A regularização do Território Quilombola de Acauã é uma inegável reparação histórica.

Dona Nazaré assina o mandado judicial de imissão de posse do INCRA no ´Território Quilombola, primeiro passo antes da titulação definitiva

Dona Nazaré assina como testemunha o mandado judicial de imissão de posse do INCRA no Território Quilombola, primeiro passo antes da titulação definitiva

Quem esteve presente na cerimônia de imissão de posse pôde testemunhar o contentamento nas músicas e poemas declamados pelos quilombolas, nas lágrimas dos idosos que vislumbram o retorno de uma vida melhor, na alegria de adultos que encaram novas perspectivas e nos sorrisos de crianças que, talvez sem entender bem do que se trata tudo isso, sentem que algo bom se avizinha.

Acauã é uma comunidade quilombola exemplar, pois representa grande parte dos problemas sofridos pelas diversos grupos rurais marginalizados Brasil afora. Mas é exemplar especialmente porque representa a atitude ideal de uma comunidade étnica racialmente discriminada, buscando seus direitos, transformando sua autoestima e planejando um futuro livre dos grilhões do racismo.

[Na imagem em destaque, Sr. Marino Catarino, um dos anciãos de Acauã, assina como testemunha o mandado de imissão de posse do INCRA no Território Quilombola.]