Star Wars, cinema, representatividade e inclusão

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As palavras que compõem o título deste texto estão, em teoria, mais ligadas entre si do que pode aparentar à primeira vista, mas na prática elas estão desanimadoramente dissociadas.

Star Wars é uma grande franquia cinematográfica hollywoodiana que trouxe à tona uma tipo de história que estava de certa forma desacreditado: as grandes narrativas épicas e fantásticas. Esse tipo de aventura tem como característica, mais do que as maravilhosas cenas de ação e viagens fabulosas, o fato de se centrar em um herói improvável, uma figura que acaba mostrando ser muito mais do que aparenta ser. Luke Skywalker é exatamente o mesmo arquétipo de Páris de Troia, Jesus Cristo de Nazaré, Bilbo Bolseiro de Bolsão. Um “ninguém” que não acredita em si mesmo mas se torna um herói.

Durante muito tempo, a saga Star Wars foi protagonizada por personagens que representam os tipos humanos privilegiados nas sociedades ocidentais. Luke Skywalker era pobre e vivia à margem da sociedade galáctica, mas era um homem branco, cisgênero e heterossexual (embora este último aspecto só fique implícito num beijo incestuoso…), com o qual era mais fácil de se identificarem os jovens espectadores do sexo masculino, cisgêneros e heterossexuais. Dos outros dois personagens principais, Han Solo caía no mesmo estereótipo de Luke, e só Leia Organa se diferenciava por ser mulher, mais nada.

Representatividade

Felizmente, J. J. Abrams (que, ironicamente, ao assumir Star Trek, uma franquia com forte potencial para representar a diversidade, a fez regredir neste quesito) está radicalizando esse aspecto de Star Wars, colocando nos papéis de maior destaque do Episódio VII: O Despertar da Força, uma mulher e um homem negro. Essa escolha repercute positivamente nas mentes dos espectadores (mesmo que essa repercussão se dê através de um desagradável incômodo para machistas e racistas), pois se tratam de duas minorias em nossa realidade, o que enriquece o sentido da jornada do herói como a empreitada maravilhosa de um ou mais indivíduos menosprezados socialmente (seja, num caso, pelo machismo, seja pelo racismo, no outro).

Nisso o filme promete ser um belo exemplo de representatividade na indústria do entretenimento, ao ampliar o escopo do público que pode se identificar mais facilmente com heróis notáveis em histórias fantásticas. Os meios de comunicação de massa têm grande impacto sobre o grande público e a sociedade ocidentais, e a representatividade tem enorme peso sobre a auto-estima das pessoas e suas perspectivas de futuro.

Acessibilidade

Na verdade, a representatividade de O Despertar da Força está sendo amplamente discutida e o que eu estou trazendo aqui não é nenhuma novidade. Porém, o ponto a que quero chegar é outro. Representatividade está relacionada, direta ou indiretamente, a acessibilidade. Ora, houve um tempo nos EUA em que, além de estarem excluídos do protagonismo em peças de teatro e obras cinematográficas, os negros estavam segregados dos brancos em diversos espaços, públicos ou privados, e geralmente os espaços reservados às “colored people” eram de pior qualidade do que aqueles voltados às pessoas brancas. Essa segregação, embora tenha sido proibida por lei, deixou marcas até hoje. (No Brasil, o racismo se manifestou de outras formas, mas seus efeitos são muito semelhantes.)

As transformações sociais que afetam a balança da igualdade dos gêneros também encontram correspondências entre a crescente representatividade das mulheres nas mídias e as conquistas de direitos igualitários pelo Feminismo. Hoje em dia, as mulheres têm acesso ao voto democrático e a cargos de chefia, embora ainda haja muito pelo que lutar para que as elas sejam tratadas como seres humanos plenos.

Pessoas com dificuldades de locomoção, com deficiências físicas e sensoriais e outras inadequações a uma sociedade feita para indivíduos “saudáveis” (que têm um certo tipo idealizado de corpo), ao mesmo tempo em que não conseguem se adequar bem a certos espaços e tecnologias, também são sub-representadas nas mídias. Nisso elas passam por uma situação análoga à dos negros vítimas da segregação racial, pois sofrem por causa do capacitismo (estando assim – talvez não-intencionalmente – segregados) e pela pouca representatividade de pessoas com deficiência na ficção (literatura, quadrinhos, cinema, séries de TV etc.).

Não bastassem as dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência numa sociedade que a muito custo se adapta à diversidade de corpos, surge um problema maior para quem tem deficiência visual (miopia, estrabismo, cegueira parcial, visão monocular, vista cansada e outras). O crescente abuso do “3D” nos filmes hollywoodianos, com muitas estreias sendo feitas apenas com cópias que só podem ser assistidas com o uso de óculos especiais, exclui boa parte do público dos cinemas e provoca grande incômodo para outra parte.

“3D” e exclusão

Eu comecei essa reflexão a partir de mim. Tenho visão monocular, i.e. só enxergo pelo olho esquerdo (e mal). Não consigo ver a “tridimensionalidade” dos filmes “3D” (aliás, tenho até dificuldade de perceber a dimensão da profundidade no mundo físico real). Já fui a algumas sessões de filme em “3D” e consigo assistir em “2D” quando coloco os óculos (como um dos olhos não enxerga uma das imagens superpostas, fico apenas com uma delas), com o agravante de ver tudo escuro, devido à obscuridade da lente. Nas primeiras vezes em que fiz isso, eu escolhi as sessões em “3D” por conveniência social, por estar em companhia de outras pessoas que queriam ver os filmes com esse recurso.

Mas me cansei de pagar mais caro por um serviço de que não posso usufruir. Tudo bem, cada um escolheria a sessão que gostaria de ver, os filmes eram oferecidos em duas versões, e cada um pagaria o preço “justo” pela presença ou ausência desse recurso da moda, por quaisquer razões que fossem (impossibilidade de ver em três dimensões ou desagrado com tal recurso). Mas não por muito tempo.

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Quando a indústria cinematográfica descobriu que poderia lucrar muito mais se oferecesse apenas sessões em “3D” nas estreias das superproduções, pessoas como eu passaram a ser excluídas da experiência de ver um filme novo nos cinemas. Apesar disso, em muitos casos os cinemas ofereceriam uma sessão “2D” dublada, excluindo o espectador que prefere ouvir no idioma original (o que rende outra discussão).  Na melhor das hipóteses, teríamos que esperar algumas semanas para que os cinemas oferecessem sessões em “2D” e legendadas. Muitas vezes, teríamos que recorrer à pirataria virtual sem nenhum remorso ou esperar anos para ver o filme na TV ou em sistemas de streaming como o Netflix.

Com o tempo, conversando com amigos na internet e pesquisando sobre o assunto, descobri que não são apenas pessoas com visão monocular que se prejudicam com o monopólio do “3D” nas estreias. Pessoas com estrabismo e pessoas com miopia em um dos olhos e outro não também não enxergam as três dimensões ilusórias desses filmes. Além disso, muitas pessoas reclamam de sentir a vista cansada, dor de cabeça e/ou enxaqueca depois de uma sessão de filme “3D”, e prefeririam assistir a sessões em “2D” dos filmes que querem tanto ver.

Esse é um contingente significativo dos cinéfilos, excluído de seu hobby, sua paixão, sua mania ou até de seu trabalho por causa da preocupação maior da indústria do cinema com o lucro do que com o público. O que não é surpreendente, tendo em vista aquilo que move o capitalismo do qual essa indústria é uma significativa engrenagem.

Star Wars

A franquia Star Wars está melhorando significativamente quanto à representatividade da diversidade humana. Mas a preocupação com a maior visibilidade de mulheres e negros em papéis de destaque, tornando mais premente a acessibilidade dessas minorias aos espaços públicos e privados de uma sociedade mais igualitária, ainda não consegue perceber que a mania do “3D” está indo na contramão desse movimento. É irônico pensar que uma das figuras mais icônicas da saga era uma pessoa com deficiência física (Darth Vader teve as duas pernas e os dois braços amputados, e ainda sofreu queimaduras seriíssimas que o obrigaram a usar para o resto da vida uma armadura cibernética com membros mecânicos e suporte vital).

Fui comprar meu ingresso para Star Wars VII: O Despertar da Força na pré-venda, e todas as salas na semana de estreia no Cinépolis serão em “3D”. Paciência… Fui então ao Cinemark, e a situação é a mesma. Procurei no site do Moviecom, o cinema que menos prefiro aqui em Natal, e vi que haverá uma sala com cópia em “2D” – mas será dublada, e para mim a experiência de escutar as falas no idioma original é muito melhor (…como disse acima, um outro problema, para outra discussão).

A indústria cinematográfica está tornando menos acessível o entretenimento daqueles que há muito tempo são fãs da franquia e que, mesmo considerando essas críticas, certamente contribuiriam com resenhas logo na semana da estreia, se tivessem ao menos uma sessão “2D” para não perder a grande festa nerd que será essa bem-vinda renovação do universo dos jedis, de alienígenas pitorescos e de tecnologias nostálgico-futuristas de há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante. Um mundo que não precisa ser projetado com mais de duas dimensões na telona, pois sua profundidade está na maravilhosa fábula que se dispõe a contar.

Macacos

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Num jogo de futebol recente, algum torcedor idiota lançou uma banana ao campo, direcionada ao jogador negro Daniel Alves. Como já é costume, a atitude de mau gosto do torcedor foi aludir à velha piada racista que desumaniza os negros ao insinuar que eles se parecem com macacos (estes, segundo o senso comum, têm uma predileção natural por bananas). A contundente reação do jogador foi pegar a banana, descascá-la, comê-la e continuar jogando.

A atitude de Daniel tem grande força simbólica porque é uma forma de ele mostrar que não tem medo do racismo, uma maneira de dizer, “seu racismo não me afeta”. E isso serve de exemplo para a sociedade que costuma assistir aos negros baixarem a cabeça ou se entristecerem com esse tipo de ofensa. Embora seja muito difícil contornar a violência simbólica do racismo, a mensagem é clara: as coisas estão mudando e não vão ser assim para sempre.

Porém, Neymar, colega de Daniel, levou adiante o gesto deste ao lançar a campanha “Somos Todos Macacos”, convidando os internautas a postar fotos suas comendo uma banana e repetindo a hashtag correspondente (#somostodosmacacos). Em pouco tempo o Facebook e outras redes sociais se encheram com fotos e textos louvando a campanha e rapidamente pessoas começaram a ganhar dinheiro com isso.

Mas o que realmente significa dizer que “somos todos macacos” e quais as consequências de promover essa frase da forma como está sendo divulgada?

Importa salientar que Neymar é conhecido por não se autorreconhecer como negro, embora para o mundo ele seja negro e seja alvo também de racismo. Dessa forma, fica a dúvida se, ao dizer que é macaco, ele está se autorreconhecendo como negro e como pertencente a uma identidade suscetível ao tipo de ofensa sofrida por Daniel ou se está reproduzindo um tipo de campanha comum hoje em dia que é se identificar com uma minoria oprimida apenas a título de solidariedade. Ou Neymar está dizendo

  • ok, eu sou negro e, como Daniel, não me ofendo com o racismo do qual sou alvo; ou
  • embora não seja negro, me solidarizo com Daniel e com todos os negros chamados de macacos pelos racistas; ou ainda,
  • somos todos seres humanos e, como tais, somos uma espécie de macaco.

Infelizmente, como estamos vendo, as coisas são muito mais complicadas do que parecem à primeira vista. Para mim, a única forma que a frase “somos todos macacos” poderia ter algum sentido positivo seria entendê-la com um significado zoológico: “Como Homo sapiens, somos todos pertencentes a uma espécie de primatas e, portanto, somos macacos, tanto os negros quanto os brancos quanto os de qualquer outra cor de nossa raça humana”. Se a frase fosse unanimemente entendida assim, poderia ter, quem sabe, uma força libertária enorme e nos colocaria todos no mesmo lugar, ou seja, desconstruiria qualquer sentido negativo relacionado à palavra “macaco”.

Mas não é bem assim que ocorre na prática. Não podemos ignorar o peso simbólico e político impregnado nas palavras e nos gestos em nossa cultura. Para grande parte das pessoas, o ser humano não é um macaco, e esta palavra se reveste de um significado que a opõe a vocábulos como ser humano, pessoa, homem, mulher etc. Vide um pronunciamento de 2012, viralizado recentemente, em que Ariano Suassuna deixa bem claro a noção de senso comum (e de grande parte das pessoas religiosas) que vê o ser humano como uma criação diferente de qualquer outro animal. Assim, são muito poucos os que apreendem o suposto sentido zoológico presente na expressão “somos todos macacos”.

Infelizmente, o que se apreende dessa frase, em geral, é semelhante ao que estava implícito na frase “somos todos Guarani-Kaiowá”, em campanha a favor dos grupos indígenas citados, e em que pessoas que não eram indígenas se identificaram com eles de maneira fortuita, num gesto político de solidariedade. Quando uma grande parcela de pessoas brancas se identifica como “macacos”, infelizmente o sentido racista ressoa na expressão, e é como se essas pessoas estivessem dizendo que, num gesto de solidariedade, estão se identificando como negros (e não genericamente como seres humanos). Ou seja, por mais bem-intencionada que seja, a pessoa que diz “sou macaco”, nesse contexto em que se discute o racismo, está sem querer dizendo que negro e macaco se equivalem e que macaco não abrange semanticamente o branco.

"Não sou macaca!" (Fang)

“Não sou macaca!” (Fang)

Grande parte das pessoas, além de acreditarem nessa noção de senso comum que vê o ser humano como uma criatura especial, misturam-na com um saber científico difuso sobre a evolução que, contaminado pelo racismo científico do século XIX, não só vê o Homo sapiens como uma evolução do macaco (que supostamente deixou de ser macaco) como também vê nos diversos grupos humanos estágios diferentes dessa evolução. Sabemos bem aonde esse raciocínio leva: grande parte das pessoas, conscientes disso ou não, considera os negros como mais próximos evolutivamente dos macacos do que os brancos, ou seja, como menos evoluídos do que estes e, portanto, menos humanos do que estes.

E é aí que está a força racista do termo macaco, usado ostensivamente em nosso cotidiano como uma palavra “naturalmente” ofensiva. Não é à toa que parte significativa dos representantes dos movimento negros estão rechaçando sumariamente a campanha (difundindo, ao invés disso, a frase “Não Somos Macacos”), pois consideram que ela não desconstrói o racismo subjacente à palavra em questão e pode até reforçar esse racismo. A maioria das pessoas que se deparar com a campanha do “Somos Todos Macacos” não conseguirá dissociar o termo macaco de um sentido negativo profundamente difundido na cultura ocidental.

Há uma grande diferença entre abordar a “macaquice” humana do ponto de vista zoológico e do ponto de vista sócio-antropológico. Embora a Biologia nos permita afirmar a igualdade dos indivíduos da espécie, nos colocando evolutivamente como “macacos”, a cultura, através da representação, nos divide em grupos, nos faz diversos, diferentes, e até desiguais e antagônicos. E, nessa diversidade, a força da representação da identificação entre negros e macacos (diferenciando-os dos humanos brancos) não pode ser menosprezada.

Como disse um amigo, aludindo ao famigerado vídeo “Dancem, Macacos, Dancem”,

Este debate atual – afinal somos ou não somos macacos – tem relação direta com o grande dilema da nossa espécie que é fundante da antropologia: a contradição de sermos uma espécie una do ponto de vista biológico, ao mesmo tempo em que somos diversos do ponto de vista sociocultural. É por causa desse dilema que nos defrontamos com situações inusitadas como o fato de que raças humanas não existem para a biologia, mas são operantes no espectro sociocultural, sendo definidoras de hierarquia e papéis sociais. Assim sendo, estamos diante do atual dilema em que biologicamente não faz sentido negar nossa animalidade – afinal somos primatas, logo, macacos -, mas sociologicamente podemos ser o que quisermos – ou o que os outros querem que sejamos. Ou seja, ser ou não ser macacos depende, diretamente, do contexto em que se insere essa macaquice. Como disse, mundo contraditório…

A nomeação e/ou classificação de nossa espécie como pertencente ao grupo dos macacos é arbitrária e depende da abordagem e do contexto. O que posso dizer com o mínimo de incerteza é que só faz sentido dizer que “somos todos macacos” se com isso entendermos que negros são tão macacos quanto brancos são macacos (bem como quaisquer outras classificações de grupos humanos). Mas é praticamente impossível hoje em dia não associar o malfadado termo a uma noção racialmente negativa, herdada de nossa história recente de subjugação dos africanos e seus descendentes.

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Cotas raciais – parte 4

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Em 17 de março de 2010, comecei uma série de artigos sobre o tema das cotas raciais nas universidades brasileiras. Uma parte 2 foi publicada no dia 31 do mesmo mês e foi seguida de uma terceira parte no dia 29 de abril de 2010. As duas últimas foram praticamente respostas aos comentários da primeira parte, e na ocasião eu me “posicionava” contra as cotas, tentando, apesar de tudo, não desprezar de antemão todos os argumentos dos “racialistas” nem acatar todas as ideias dos “negacionistas”.

Desde então muita coisa mudou, muitos debates aconteceram, muita polêmica rolou, várias políticas públicas foram propostas, um controverso Estatuto da Igualdade Racial entrou em vigor e várias pesquisas mostraram o impacto da inserção de cotas raciais nas universidades. E minha posição também mudou.

Obstáculos para entrar na Academia

No processo de seleção para o ingresso nas universidades brasileiras, não há racismo direto. Não há discriminação racial no vestibular, apenas se discrimina a capacidade de se fazer uma determinada pontuação numa prova. Dessa forma, qualquer pessoa que não tenha recebido o preparo necessário (o que a escola pública deveria oferecer) ou que não tenha se preparado para fazer a prova do vestibular terá mais dificuldades de entrar na universidade do que aqueles que tiveram dinheiro para pagar uma escola particular ou um cursinho pré-vestibular.

Mas se não há racismo direto no acesso à universidade, há racismo indireto? Há. Uma vez que a maioria dos pobres é negra e que a maioria dos pobres e negros não podem senão frequentar as escolas públicas, que não os qualifica para a seleção do vestibular, apenas uma minoria de negros entra na universidade. Se tivermos em mente, ainda, o sutil mas muito sério preconceito que temos a respeito dos negros ou das pessoas que têm alguns traços de ascendência africana, segundo o qual essas pessoas são menos capazes do que os brancos, crença compartilhada inclusive por grande parte dos negros, há uma dificuldade a mais: elas têm, em geral, menos autoconfiança em sua capacidade de passar numa prova, muito menos no vestibular, que é cercado de uma aura sagrada e causa enorme tensão nos candidatos. Certa vez perguntei a um jovem quilombola que estava terminando o Ensino Médio se ele pretendia fazer vestibular. Sua resposta foi:

Vou fazer, mas a gente aqui não tem muita chance de passar, não.

Esse é apenas um caso ameno entre as tantas dificuldades de os negros cursarem uma universidade. Não podemos ignorar que há uma grande quantidade de pessoas pobres (a maioria das quais negras) que não têm oportunidade de estudar o ensino fundamental, muitas vezes porque as vicissitudes da vida os obrigam a trabalhar em tempo integral desde cedo.

Não devemos menosprezar o impacto que essa exclusão generalizada tem sobre a maneira como nossa cultura tende a representar os negros, como se fossem incapazes de adquirir as formas socialmente prestigiadas de conhecimento ou, numa perspectiva neoliberal, individualista e que endossa uma meritocracia acrítica, fossem preguiçosos e não conseguissem entrar na universidade por falta de interesse e/ou esforço. As pouquíssimas exceções não servem para provar essa perspectiva a não ser que esta seja imbuída de um teor racista.

Sim, somos racistas. E as discussões sobre as cotas raciais devem se voltar para a reflexão sobre os possíveis meios de se atenuar o racismo no Brasil. A proposta de cotas é uma resposta ao problema do racismo. Este não surgiu do nada na cabeça dos favoráveis às cotas. Não só existe racismo no Brasil, como ele está ligado à coincidência entre a distribuição racial e social, ou seja, a maioria dos pobres é negra, “parda”, indígena, a maioria dos ricos é branca. Muitos dos que se opõem às cotas raciais desenham o retrato de um Brasil bem menos racista do que pensam os pró-cotas. Propõem a “solução” das cotas sociais, que em si mesma é válida como política de ação afirmativa, mas não substitui (e não exclui) o valor simbólico de uma política cujo foco é o combate ao racismo.

O vestibular e a vocação acadêmica

Não é possível falar de meritocracia numa sociedade que não dá condições iguais para que todos possam competir igualmente. Não faz nenhum sentido apregoar a ideologia do esforço individual como única forma legítima de competição num país cuja história recente excluiu um gigantesco contingente populacional dos recursos necessários para “ser bem-sucedido”. Embora haja exceções, a maioria esmagadora das pessoas que “se dão bem” já nasceram em famílias com um mínimo de condições financeiras e capital cultural necessários para frequentar uma escola até o fim do 2º grau, prestar vestibular, cursar uma universidade e conseguir um emprego. Uma das formas de se atenuar a desigualdade desse processo seria instaurar de uma vez por todas um sistema educacional público (no mínimo) bom. Mas os efeitos disso se fariam sentir a longo prazo e não alcançariam o fundo do problema urgente que as cotas raciais tentam combater de imediato, que é o racismo.

Um dos argumentos “negacionistas” diz que instituir cotas raciais implica constituir uma divisão racial que não existe na realidade ou que, se existe, é muito sutil e difusa. Para eles, nomear as “raças” dos candidatos ao vestibular significaria reforçar o racismo ou até mesmo criar um tipo de racismo que não existe no Brasil.Porém, os conflitos raciais (quando há) entre cotistas e não-cotistas nas universidades não são uma consequência da criação das cotas. Eles são um reflexo de um conflito pré-existente. O preconceito que sofrem os cotistas negros poderia ser explicado por um suposto oportunismo da parte deles, uma acusação de que eles querem levar vantagem em cima dos outros candidatos que não precisam de (ou que não podem se qualificar a) cotas. Mas os cotistas estão exercendo um direito oferecido pelo Estado e a maioria deles está tentando com isso conseguir condições de cursar uma universidade, para o que o mero esforço individual geralmente não se mostra suficiente.

Se os conflitos raciais se evidenciam quando pessoas negras entram nas universidades através do sistema de cotas, não é que eles estejam sendo engendrados pela “cisão racial” desse sistema. O racismo é ubíquo e, nas situações cotidianas, parece muitas vezes não existir, estando na verdade ostensivamente oculto. A aparente harmonia (“democracia”) racial no Brasil é uma paz relativa que só se mantém enquanto negros, brancos, índios etc. se mantêm “em seus lugares”, ou seja, nas posições de poder tradicionalmente instituídas pela nossa história recente de dominação europeia, extermínio de índios e escravidão de negros. Quando essa “ordem” implícita é ameaçada, o conflito racial se mostra. Quando os privilégios historicamente construídos dos brancos são ameaçados pela presença negra nas universidades, emerge o racismo que estava velado.

Os anticotas também gostam de argumentar que conceder vagas para indivíduos que não tiram boas notas no vestibular é um risco para a qualidade do corpo discente das universidades. Mas a capacidade de se resolver a prova do vestibular não garante que o candidato terá condições ou vocação para seguir a carreira acadêmica. É notório que muitos universitários que passam no vestibular desistem em algum ponto da graduação. E importa salientar que a desistência entre os cotistas é menor do que entre os não-cotistas.

Ademais, tem sido demonstrado que, em média, o desempenho acadêmico de cotistas é equivalente ao dos não-cotistas. O que nos leva a questionar se o vestibular é realmente um meio absolutamente seguro de se averiguar quem tem condições de cursar bem uma faculdade. A vocação para a carreira universitária não se atesta pelo exame do vestibular, e penso que, mesmo se tivéssemos que insistir num sistema meritocrático, o vestibular deveria ser revisto ou substituído por outro meio.

Meritocracia

Da maneira que as coisas estão atualmente, o vestibular é uma espécie de loteria. Aqueles que têm a sorte de ter frequentado uma escola que os prepare para tirar uma boa nota são agraciados com uma vaga na universidade. Lembremos que até os cotistas precisam tirar uma nota mínima para passar, o que implica, inclusive, que todos os que entram na universidade estão num nível equivalente, não havendo diferença tão significativa entre os desempenhos de cotistas e não-cotistas.

O fato é que, uma vez que o vestibular não é um meio seguro para se averiguar a adequação dos candidatos à vida de pesquisas acadêmicas, ele não faz muito sentido enquanto instrumento meritocrático. A meritocracia do vestibular não tem nada a ver com a vocação acadêmica dos candidatos, e tem mais a ver com receber um ingresso para visitar um museu por ter sido bem-sucedido numa competição de xadrez.

As cotas raciais são uma proposta emergencial com o objetivo de atenuar os efeitos do racismo entranhado em nossa cultura. De fato, oportunizar a alguns negros (é bom que se note que, apesar de tudo, os beneficiados das cotas são uma minoria da população) a chance de sair das condições precárias em que viveram seus pais ajuda a tornar visível que a cor da pele não torna uma pessoa inepta. Mas ainda é necessário que essa política seja acompanhada de uma ostensiva reforma do ensino público, da erradicação das desigualdades sociais e trabalho infantil, além da implantação de projetos culturais de valorização da herança africana em nossa cultura material e imaterial e em nossa biologia.

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Desacato aos detentores do poder

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foto11Desacato à autoridade é um conceito a ser revisto.

Infelizmente, o desacato à autoridade, na prática, se refere a uma ação contra o agente do poder (intermediário) e não contra o representante do poder (na outra ponta), que é o verdadeiro problema dos cidadãos. Dessa forma, enquanto os representantes lidam de forma relativamente pacífica com artigos ou charges que os criticam e ridicularizam, eles estão protegidos fisicamente pelos agentes do poder, autorizados a se utilizar legitimamente de violência e armas se forem agredidos com palavras feias e gestos obscenos.

É a mesma relação entre o empregado, o capataz e o patrão. O agente intermediário é uma figura ambígua. Ao mesmo tempo em que se encontra mais próximo do empregado, é cercado de uma aura de desconfiança, pois age de maneira dura, inspecionando e delatando, às vezes punindo. O patrão, a verdadeira figura dominante, não se envolve diretamente e, quando intercede como mediador, pode aparecer até como um pai condescendente, que quer o melhor para todos. É mais fácil odiar o chefe imediato do que o empregador, mesmo sendo este quem autoriza aquele a agir com violência.

Nosso direito de desacatar o representante do poder está garantido pela liberdade de expressão. Mas a mesma lei que nos autoriza a fazê-lo impede-nos de questionar a autoridade do agente do poder, que se constitui numa barreira de gás e plástico. O conflito mais acirrado se concentra no embate dos cidadãos com a muralha policial, e o efeito perverso disso é que tendemos a supervalorizar esse conflito e esquecer que o problema está nos representantes do poder e não em seus agentes.

Os cidadãos deveriam ter o direito de discordar de e manifestar sua indignação à autoridade que supostamente os serve, que está mais próxima deles. Os agentes deveriam ser intermediadores, levando o recado para seus patrões. Eles estão ali, protegidos com armaduras e escudos, para se proteger e não para proteger quem neles manda (nem para contra-atacar). No entanto, as manifestações de desacato a sua autoridade não são ofensas pessoais, como as atitudes vingativas que se veem por parte de alguns deles parece sugerir, mas são no fundo uma indignação contra quem os colocou ali.

O verdadeiro desacato é contra a autoridade do conjunto do povo. Pois, é bom lembrar, se este não é representante nem agente, é o detentor do poder.

Quilombo de Acauã conquista acesso à terra

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[Publicado originalmente na Carta Potiguar N.5 – Maio/2013]

Bolo feito pelos quilombolas de Acauã para comemorar o acesso a suas terras

Bolo feito pelos quilombolas de Acauã para comemorar o acesso a suas terras

O dia 23 de abril de 2013 foi de festa para os quilombolas da Comunidade de Acauã (também conhecida como Cunhã). Na ocasião, o INCRA se imitiu na posse das terras que, a partir do processo de titulação que ocorrerá em breve, serão propriedade definitiva da Comunidade, recuperando um território tradicionalmente ocupado e necessário à sobrevivência do grupo.

Desde décadas antes dos anos 1970, a Comunidade Quilombola de Acauã vivia em relativa paz na margem sul do rio Ceará-Mirim, município de Poço Branco, Rio Grande do Norte. Com a construção da Barragem de Poço Branco, os Negros da Cunhã (como também são conhecidos), perderam todas as suas casas e toda a terra que utilizavam para plantar e sobreviver. Num acordo bastante desfavorável para eles e sem qualquer indenização pela perda, os quilombolas passaram a morar ao norte do rio, longe do lugar a que tradicionalmente pertenciam, num pequeno lote de 4 hectares. As 16 famílias que para lá foram na época se multiplicaram e hoje são mais 60.

Em 2004, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA iniciou o processo de regularização do Território Quilombola de Acauã, dentro das ações do Programa Brasil Quilombola. Um relatório antropológico, realizado pelo professor Dr. Carlos Guilherme Octaviano do Valle, da UFRN, mostrou o histórico de ocupação da comunidade no território e apontou que sua origem remonta a ex-escravos, provavelmente fugidos do cativeiro ou retirantes do pós-Abolição.

Esse estudo justificou o reconhecimento de um território que não apenas abrange as terras anteriormente ocupadas pelos Negros da Cunhã, recuperando o que era seu, mas abarca outras terras necessárias a sua sustentabilidade e existência enquanto grupo étnico. Esse Reconhecimento do Território pelo INCRA ocorreu em 2008.

Porém, a história da Comunidade, do passado até o presente, é mais complexa e conflituosa do que pode parecer para quem leu este artigo até aqui e nunca ouvira falar sobre Acauã. Como grande parte das comunidades rurais negras espalhadas pelo Brasil, Acauã sempre foi marcada pela invisibilidade social. Uma dessas marcas se constata na pesquisa cartorial feita pelo INCRA para averiguar o histórico das propriedades particulares que incidem sobre o Território.

Nas certidões retiradas pelo INCRA, não há qualquer menção a uma comunidade negra ou rural no local onde os quilombolas costumavam morar, às margens do rio Ceará-Mirim. A cadeia dominial da Fazenda Maringá descreve os limites do imóvel, numa época anterior à construção da Barragem de Poço Branco, como abrangendo uma grande extensão de terras que ao norte chega até a margem sul do rio, como se não houvesse ninguém morando ali. Mas as fundações das casas dos quilombolas até hoje ainda podem ser vistas quando o rio está baixo, e a história oral contada pelos anciãos da Cunhã mantém viva a memória desses tempos.

O descaso não diminuiu quando a Comunidade perdeu suas terras para a Barragem, pois não receberam indenização e foram forçados a se espremer em um pequeno retângulo, sem terras boas para plantar, sendo obrigados a arrendar terras de fazendeiros vizinhos, numa situação que ecoa o status quo da Escravocracia.

Além disso, Acauã sempre foi ignorada pela administração municipal local. Numa atitude de extremo racismo institucional, a Prefeitura de Poço Branco não recolhe o lixo da Comunidade com regularidade, dificulta o acesso dos quilombolas ao sistema de saúde e desvia os recursos destinados à educação no Quilombo, recebidos do Governo Federal exclusivamente para cumprir o Programa Brasil Quilombola. Não houve sequer um representante da Prefeitura de Poço Branco na cerimônia de imissão de posse do INCRA.

Não bastassem todas as dificuldades, alguns proprietários cujas terras foram incluídas no território reconhecido tomaram atitudes retaliativas contra a Comunidade, principalmente ao impedir os quilombolas de usar seus imóveis para a agricultura. Um dos proprietários conseguiu se utilizar do desconhecimento de algumas instâncias da Justiça sobre a questão quilombola para anular a desapropriação de sua fazenda, onde justamente se encontram as ruínas da Cunhã Velha. Alguns juizes e desembargadores ainda pensam em quilombo como um conjunto de negros fugidos da escravidão, desconsiderando um conceito atual, usado pelos movimentos sociais e na Academia, que abrange diversas situações de resistência à opressão histórica.

Mas a Comunidade conseguiu se manter de pé até agora, e conquistou o direito de acessar seu território tradicional, com a possibilidade de em breve construir novas casas e articular projetos de beneficiamento para se integrar à economia regional e sair da penúria. A regularização do Território Quilombola de Acauã é uma inegável reparação histórica.

Dona Nazaré assina o mandado judicial de imissão de posse do INCRA no ´Território Quilombola, primeiro passo antes da titulação definitiva

Dona Nazaré assina como testemunha o mandado judicial de imissão de posse do INCRA no Território Quilombola, primeiro passo antes da titulação definitiva

Quem esteve presente na cerimônia de imissão de posse pôde testemunhar o contentamento nas músicas e poemas declamados pelos quilombolas, nas lágrimas dos idosos que vislumbram o retorno de uma vida melhor, na alegria de adultos que encaram novas perspectivas e nos sorrisos de crianças que, talvez sem entender bem do que se trata tudo isso, sentem que algo bom se avizinha.

Acauã é uma comunidade quilombola exemplar, pois representa grande parte dos problemas sofridos pelas diversos grupos rurais marginalizados Brasil afora. Mas é exemplar especialmente porque representa a atitude ideal de uma comunidade étnica racialmente discriminada, buscando seus direitos, transformando sua autoestima e planejando um futuro livre dos grilhões do racismo.

[Na imagem em destaque, Sr. Marino Catarino, um dos anciãos de Acauã, assina como testemunha o mandado de imissão de posse do INCRA no Território Quilombola.]

Ignorância ou religião?

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Silas Malafaia defende o que acredita com unhas e dentes. Segundo ele, seu trabalho é apenas condenar o pecado. Pecado esse que ele acredita ter sido definido na Bíblia. Ele refere-se à homossexualidade (não homossexualismo, pois esta nomenclatura deixa subentendido que se trata de uma doença) juntamente com prostituição e adultério. Afirma repetidamente que dois homens ou duas mulheres não têm capacidade para criar um ser humano “normal”, que uma criança necessita de uma figura paterna e outra materna para o seu desenvolvimento. Ao comentar que em sua Igreja existem fiéis que foram homossexuais (não concordo com isso de dizer que a pessoa foi gay, para mim é uma característica dela, algo que ela nunca vai deixar de ser) ele fez uso do termo “reorientado”, como se a homossexualidade fosse um distúrbio, um mau hábito que o indivíduo abandonou.

Onde está a ironia nisso tudo? No fato de ele pregar que Deus ama a todos como realmente são. Então por que Deus não aceitaria o fato de um ser, criado por Ele, ser homossexual? Capaz de amar alguém do mesmo gênero, querer constituir família com essa pessoa?

Eu acredito que a base de todas as religiões é a mesma: praticar o bem. Buscar ser uma pessoa melhor, sem prejudicar ninguém. Tudo bem que Silas e tantas outras pessoas são contra práticas homossexuais porque isso é da religião delas. O problema é o modo como o tema é abordado. Isso acaba influenciando negativamente pessoas que não têm uma boa formação acadêmica, que não possuem a mente aberta. Em outras palavras, isso as enche de preconceito.

O grande mal é a mania que muitas pessoas têm de ligar homossexualidade a safadeza, baixaria. Não é bem assim que a coisa funciona.

E quanto à Bíblia? Ela sim é muito mal interpretada. Não é algo que você lê e deve seguir fielmente, sem buscar a mensagem que Jesus passava através de suas parábolas, por exemplo. Sem falar que ao longo do tempo e das inúmeras traduções pelas quais ela passou, muita coisa se perdeu ou não foi expressa de forma clara.

Basicamente, eu penso o seguinte: o gênero da pessoa com quem você se relaciona não afeta o seu caráter. Não faz você melhor nem pior do que alguém. É algo seu, íntimo, pessoal. Não é preciso que alguém chegue e diga que é errado, ninguém pode julgar. Ninguém sabe o que você passou.

Na entrevista, eles abordam o tema durante o segundo bloco, num bate-boca que demonstra obviamente o quão Silas gosta de impor a sua opinião e crença.

Professor

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Como seres humanos, dependemos por natureza da presença de outros de nossa espécie para realizarmos nosso potencial mínimo, básico. Sem a presença de adultos, as crianças não aprendem a falar e dificilmente conseguirão andar. Sem a intervenção da cultura, personificada nesses adultos, o indivíduo não aprende noções e regras básicas para o convívio social. Sem esse aprendizado, o Homo não se torna sapiens.

Assim, a função de professores e educadores (e da Pedagogia) é fundamental para o desenvolvimento de indivíduos e de uma sociedade ética e democrática. Somente com um sistema (formal ou não) educacional de qualidade e igualitário é que podemos ter a difusão do conhecimento.

Cada um de nós foi acolhido no seio da humanidade ao nascer, foi alimentado com leite, afeto e palavras . Cada um de nós tem o potencial para se tornar um professor, um difusor daquilo que recebemos, dando alguma orientação às gerações seguintes.

A função daqueles que se dedicam profissionalmente à Educação não é apenas ensinar e orientar, mas desenvolver a ciência Pedagogia e explicitar sua importância, servindo de exemplo não só para educandos, mas para aqueles que já o foram e que podem atuar cotidianamente como professores e educadores em situações pontuais. Afinal, conhecimento todos nós temos, mas a arte da Didática é dominada por poucos.

Acessibilidade em Natal e uma cultura excludente

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Há algum tempo, numa manhã em que saí para caminhar, vi um senhor, cadeirante, dando uma volta na rua. Literalmente na rua. Ele não tinha condições de passear na calçada, caminho dedicado a quem não se locomove de carro, simplesmente porque essa calçada parecia mais uma escada (o trecho era uma ladeira, e parece que os natalenses só concebem as calçadas de suas casas como pedaços separados e individualizados do resto, sem a menor noção de comunidade).

Os pedestres de Natal percebem facilmente os problemas de acessibilidade da cidade. Pessoas com dificuldade de locomoção, sejam deficientes físicos e visuais ou idosos, e em muitos casos até pessoas sem essa dificuldade, não podem andar livremente pelas calçadas, repletas de obstáculos, degraus de meio metro de altura, desníveis de 45º, pisos táteis irregularmente colocados, trechos em terra nua, outros tão estreitos que por onde só anda uma pessoa de cada vez, equilibrando-se para não cair na rua, além de diversos postes que barram o caminho de qualquer cadeirante.

As pesquisas de especialistas apontam para a veracidade do problema, mostrando a precariedade da infraestrutura natalense, objeto de descaso da administração municipal. Complementando a situação calamitosa para os pedestres, motoristas despreocupados e incivilizados ignoram completamente  as consequências de estacionar da maneira que lhes é mais conveniente, como se não houvesse possibilidade de uma pessoa com dificuldades de locomoção querer atravessar o trecho barrado por seu caríssimo veículo, ou como se essa dificuldade não fosse problema seu. Além disso, esses mesmos motoristas há muito adotaram o hábito de estacionar em vagas dedicadas a pessoas com dificuldades, mesmo quando não trazem deficientes físicos nem idosos a bordo.

O mesmo descaso é perpetuado por empresários que constroem as calçadas (quando as têm) de seus estabelecimentos comerciais da forma mais cômoda para eles próprios. Felizmente, muitas iniciativas privadas mais recentes têm se preocupado com a acessibilidade.

Por outro lado, as instâncias governamentais locais, que deveriam empreender a acessibilidade de toda a cidade, não o fazem sequer nos próprios prédios públicos. O acesso ao poder público (em qualquer sentido que tenha esta expressão) é dificultado às pessoas com mobilidade reduzida, configurando-se uma antidemocracia, com acesso garantido apenas a uma parcela dos cidadãos. Aliás, os principais projetos de melhoria da acessibilidade se voltam quase exclusivamente aos pontos turísticos, como sempre, e não atendem às demandas de quem se locomove diariamente pelas ruas de sua cidade.

Entre os diversos problemas que o cidadão de Natal enfrenta, um dos que menos atenção recebe é o da acessibilidade. Essa desatenção não ocorre somente da parte da administração pública como um todo, mas da pacata população resignada. Quando a calamidade atinge grande parte dos contribuintes, usuários de ônibus e motoristas de ruas esburacadas, os protestos aparecem. Mas pouquíssimos estão preocupados com as calçadas. Por quê?

Reporto-me à ideia, defendida por Gustavo Barbosa, de que Natal é uma “terra das aparências”. Faz parte de nossa cultura mostrar para o mundo e principalmente para nós mesmos uma população “bela”, “branca” e “cristã”. Dificilmente se vêm pessoas obesas, anãs ou deficientes mentais e físicos em público. Só recentemente  temos visto com mais frequência pessoas negras e pobres nos espaços da moda, como os shopping centers, talvez pelo aumento do poder aquisitivo (embora a lógica da exclusão mantenha espaços que só a elite “descendente de holandeses” frequenta). E todos aqueles que são “inadequados”, com raras exceções (a exceções são em geral pessoas da elite), ficam confinados em suas casas, inclusive os deficientes físicos.

Assim, são poucos os cadeirantes que se beneficiam dos modernos ônibus do PRAE (Programa de Acessibilidade Especial), pois não só são poucos os veículos dotados desse serviço como são poucos os cadeirantes que se atrevem a enfrentar as pistas de obstáculos que margeiam as ruas e avenidas (desafiadoras até para quem não tem problemas de locomoção).

Se existem polêmicas, confusões e processos judiciais, nunca vão a público. A exclusão na prática se conjuga com a cultura das aparências, com o preconceito geralmente velado, mas algumas vezes visível e audível, que constrange a diversidade. Na opinião de muitos, “o que um velho vai fazer na rua saindo às 6 da manhã?”, “quem mandou esse deficiente sair de casa?”, “tem gente que nem devia sair na rua, para não enfeiar a cidade”.

A cultura natalense alicerça uma cidade especialmente construída para quem tem carro e, secundariamente, para pedestres sem deficiência. A longo prazo, qualquer tipo de crítica e protesto por uma cidade com mais acessibilidade só alcançará maior repercussão aos poucos, e mesmo as mudanças práticas que puderem ocorrer na infraestrutura urbana não serão plenamente usufruídas de imediato, mas somente quando, tornando-se uma sociedade mais preocupada com a saúde e bem-estar de todos e menos com o glamour, abraçar igualmente todos os cidadãos em sua ampla diversidade, aceitando na vida pública os deficientes mentais, os cadeirantes, os idosos, os cegos, os negros, os anões, os obesos.

Referências

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O parto, a mídia, as pessoas e o movimento

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Mídia: a parte de uma visão.

A forma como a grande mídia vem tratando o assunto “parto e nascimento” e a forma como as pessoas vêm interpretando as questões sem o menor discernimento tem me incomodado um pouco. Não só por ser mãe e sensível às lutas pelos direitos da mulher, mas também por ser jornalista e estar dentro da chamada tal mídia. É impressionante como as pessoas aceitam tudo o que é falado sem checarem os assuntos e confrontarem opiniões e evidências. Elas acabam por fazer suas conclusões precipitadas sem o menor respaldo, baseadas, é claro, na visão de outrém.

Para quem (ainda) não sabe, o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro se sentiu no direito de proibir que médicos acompanhem partos domiciliares ou deem retaguarda para aquelas mulheres que precisam de remoção de parto em casa para hospital. As resoluções publicadas dão conta ainda da proibição de acompanhantes profissionais (doulas, obstetrizes e parteiras) em ambientes hospitalares.

Então, vamos lá. Vamos desenhar para quem ainda não entendeu: NÃO EXISTE UMA PROIBIÇÃO AO PARTO EM CASA. Existe a punição para médicos que aceitarem fazer parte dessas equipes de assistência domiciliar ao nascimento.

Quem quiser ler as resoluções na íntegra, basta acessar aqui:

http://www.cremerj.org.br/legislacao/detalhes.php?id=714&item=1

http://www.cremerj.org.br/legislacao/detalhes.php?id=715&item=1

Acontece que os veículos de comunicação têm noticiado que o parto em casa está proibido e que as mulheres têm protestado contra essa decisão. Não, não é isso. A manifestação das mulheres é contra a decisão do Cremerj, que, em outras palavras, cerceia a liberdade de escolha daquela mulher que quer ter uma acompanhante como uma doula, obstetriz ou parteira EM UM HOSPITAL. E ainda retalia (sim, a palavra aqui é retaliação) aquela que decidir por ter seu parto em casa, punindo o médico que atender a alguma que precisar de remoção para hospital. Isso, para mim, se configura como “negar assistência médica”, ou não? A resolução está clara nesse sentido, embora eles agora estejam se contradizendo ao afirmar que nenhuma mulher deixará de ser atendida em hospital (mas não é bem isso que os próprios estão divulgando..)

E ainda fere o próprio Código de Ética Médica que fala do respeito à autonomia. “Capítulo I, inciso XXI – No processo de tomada de decisões profissionais, de acordo com seus ditames de consciência e as previsões legais, o médico aceitará as escolhas de seus pacientes, relativas aos procedimentos diagnósticos e terapêuticos por eles expressos, desde que adequadas ao caso e cientificamente reconhecidas”.

Ontem (23/07) e hoje (24/07) alguns jornais televisivos, antes de falarem na decisão do Cremerj, mostraram a situação caótica de um hospital de Maceió, em que mulheres esperavam ser atendidas jogadas em corredores em trabalho de parto, parindo ou já com seus bebês.

A demonstração de que hospitais não são exatamente sinônimo de segurança no Brasil.

Achei fantástico por um lado. Eles mostraram que os médicos e o sistema de saúde não têm dado conta da demanda e essas mulheres são maltratadas e violadas em seus direitos humanos, sexuais e reprodutivos das mais variadas formas. Logo depois, vinha matéria do Cremerj “suplicando” que as mulheres não queiram parir em suas casas.

Há duas questões diferentes aqui que quem não está dentro da discussão pode custar a perceber.

A primeira é o fato de que o nosso sistema de saúde é sobrecarregado e que nossos profissionais, em sua maioria, não sabem (e nem podem, às vezes) lidar com essa demanda crescente. Então essa “demanda”, que nada mais é do que seres humanos precisando de assistência e querendo trazer seus filhos ao mundo de uma forma digna, acaba se submetendo a uma série de situações que vão desde piadinhas morais até sequentes e agressivos exames de toque, medicação desnecessária que prejudica a evolução natural do parto e traz ainda mais dor e, muito comumente, fazendo com que as mulheres não dilatem, não contraiam, enfim, não consigam ou “não sejam capazes” de parir seus rebentos. Isso, claro, sem falar na mutilação desnecessária das episiotomias de rotina (aquele cortezinho lá na vagina para aumentar a passagem). Tudo para facilitar o procedimento para quem está atendendo e não para quem está sendo atendido.

Não se iludam: nada ali está levando em consideração o que é melhor para a mulher ou o bebê. E em maternidades privadas não é muito diferente. A diferença em relação aos hospitais privados é que, nesses, geralmente as cesáreas já estão previamente agendadas sob as justificativas mais pífias possíveis, que já foram diversas e comprovadas vezes derrubadas pelos estudos mais recentes na área.

A segunda questão é: os médicos estão exigindo um espaço que eles mesmos não têm dado conta de abarcar. E esse tipo de decisão arbitrária faz cair por terra toda a política de humanização que o próprio sistema de saúde tem, a duras penas, tentado colocar em prática através de políticas públicas como a Rede Cegonha. O próprio Ministério da Saúde reconhece a importância de profissionais como doulas, obstetrizes, enfermeiras obstetras e parteiras nesse processo.

DoulaA participação de obstetrizes (profissionais formadas em curso superior de Obstetrícia) e doulas (acompanhantes profissionais de parto, responsáveis pelo conforto físico e emocional da parturiente durante o pré-parto, nascimento e pós-parto) integra o modelo de assistência obstétrica humanizado e centrado na mulher e tem demonstrado resultados até superiores ao esperado. De acordo com a base de dados em saúde Biblioteca Cochrane, em uma assistência promovida por obstetrizes há maiores chances de partos normais espontâneos e sem anestesia, além de maior sensação de controle durante o nascimento do bebê e mais facilidade para dar início ao aleitamento materno. Em relação às doulas, 21 ensaios clínicos com mais de 15 mil mulheres mostraram que aquelas que receberam esse tipo de suporte relataram maior satisfação com a experiência do parto, tiveram menor duração do trabalho de parto e menor risco de cesariana, entre outras vantagens.

Resumindo: essas profissionais diminuem as intercorrências em um trabalho de parto que possam levar uma mulher a precisar de uma cirurgia. Entenderam onde está o x da questão? O Brasil ocupa a primeira colocação mundial em realização de cesarianas. As taxas desse tipo de cirurgia chegam a 52%, superando os 80% em hospitais privados e em alguns chegando a ultrapassar os 90%, em grande parte, sem indicação clínica – quando o máximo recomendado pela OMS é de 15%.

Parto hospitalar humanizado – A mulher como protagonista.

Passei por quatro ou cinco obstetras quando estive grávida e, quando demonstrava que estava estudando o assunto, eles acabavam assumindo que davam preferência às cesáreas porque eram mal remunerados pelos planos de saúde por cada parto e valia mais à pena fazer 15 cesáreas por dia do que ficar esperando uma mulher parir uma noite ou um dia inteiro (e tem mulher que leva mais tempo que isso). Ou seja: parir não combina com um sistema de saúde mercantilizado e inchado como o nosso. E ainda querem proibir parteiras e enfermeiras obstétricas de atuarem, sendo que elas são, sim, uma mão na roda para o próprio sistema continuar funcionando?

Aí voltamos à questão: as mulheres querem parir em casa? A maioria NÃO. Parir em casa é para todo mundo? Também não. Mas uma coisa todas essas mulheres têm em comum: todas querem respeito. Respeito aos seus corpos, respeito ao seu bebê, respeito ao seu tempo e, sobretudo, respeito ao seu direito de escolha. Até mesmo se essa escolha for por uma cirurgia, contanto que ela esteja sob o poder de avaliar todos os reais riscos conflitando o processo natural com o cirúrgico e, mesmo assim, acredite que essa seja a escolha mais adequada para ela. O que não dá é para ficar passivas, “pacientes”, “mãezinhas”, à mercê da escolha de um Conselho, né? Aliás, como diria minha avó, se Conselho fosse bom… rs

Cesariana – A equipe médica como protagonista.

Nós é que temos que protagonizar a nossa história. A manifestação pela humanização do parto e nascimento é um protesto de mulheres que estão em busca da sua liberdade em todas as instâncias. Liberdade de escolha. A busca por segurança é o que todas essas causas têm em comum. Nós queremos nos sentir seguras, independentemente do local. Queremos ter o PODER e estarmos emPODERadas para fazer nossas escolhas baseadas em evidências científicas e não em ludibriações e terrorismos de cordões assassinos ou corpos defeituosos que não dilatam. Queremos que os profissionais possam nos mostrar todos os caminhos e falar dos reais riscos. Que eles assumam e falem abertamente que há mortalidade e morbidade materna e perinatal em hospitais, e que as estatísticas mostram, inclusive – pasmem – que elas são ligeiramente maior em hospitais, onde estamos cercadas de títulos e aparelhos tecnológicos.

(Um grande estudo holandês publicado em 2011 analisando quase 680 mil mulheres que tiveram a chance de escolher entre parto domiciliar ou hospitalar evidenciou taxas semelhantes de mortalidade perinatal entre os dois tipos de parto – 0,15% nos partos feitos em casa e 0,18% nos partos feitos no hospital. A conclusão foi que um parto domiciliar planejado não aumenta os riscos de mortalidade e morbidade perinatal grave entre mulheres de baixo risco, desde que o sistema de saúde facilite essa opção através da disponibilidade de parteiras treinadas e um bom sistema de referência e transporte.)

Para aquelas mulheres que sempre se sentirão mais seguras em hospitais, é fundamental que o sistema de saúde garanta essa humanização, embora a maioria nem entenda o real significado de humanizar. Aliás, convenhamos, é lamentável termos que falar em “humanizar o atendimento a seres humanos”, quando isso deveria ser uma redundância. Mas, infelizmente, é assim que fica claro. É sermos tratadas como gente e não como número. Basta da mercantilização dos nossos corpos.

Queremos a garantia de que aquela senhora lá do interior tenha a opção de estar na casa dela bem assistida ou de estar em um hospital decente na cidade dela. Ou garantir àquela mulher da cidade grande que tenha seu filho em casa se ela assim quiser. Por que não?  Não sejamos simplistas ou limitados, existem opções e essas opções precisam ser perpetuadas e garantidas a todas – pobres, ricas, esclarecidas ou desavisadas. Hospital, domicílio, casa de parto, água, cama, de cócoras, de quatro, deitada. Médicos deveriam estar ali para ajudar e não para impor. Deveriam saber trabalhar em uma equipe multidisciplinar. Deveriam entender, de uma vez por todas, que o parto é nosso e nós o protagonizamos. E agir quando necessário, para o que eles realmente aprenderam a tratar: DOENÇAS. E gravidez não é doença – não para a maioria dos casos.

A saber, nosso movimento quer:

  • Que a Mulher tenha o direito de escolher como, com quem e onde deve parir;
  • O cumprimento da Lei 11.108, de abril de 2005, que garante que a mulher tenha preservado o direito ao acompanhante que ela desejar na sala de Parto;
  • Que a mulher possa ter o direito de acompanhamento de uma Doula em seu trabalho de parto e parto;
  • Que a mulher, sendo gestante de baixo risco, tenha o direito de optar por um parto domiciliar planejado e seguro, com equipe médica em retaguarda caso necessite ou deseje assistência hospitalar durante o Trabalho de Parto;
  • Que a mulher tenha o direito de se movimentar livremente para encontrar as posições mais apropriadas e confortáveis durante seu trabalho de parto e parto;
  • Que a mulher possa ter acesso a metodos naturais de alívio de dor durante o trabalho de parto, que consistem em: massagens, banho quente, compressa, etc;
  • Um basta em relação à Violência Obstétrica e intervenções desnecessárias que consistem em: comentários agressivos, direcionamento de puxos, exames de toque, episiotomia, litotomia, etc;
  • Que haja fiscalização das altas taxas de cesáreas nas maternidades brasileiras e que as ações cabíveis sejam tomadas no sentido de reduzir essas taxas;
  • Que haja Humanização da Assistência aos Recém-Nascidos, contra as intervenções de rotina;
  • Que a mulher possa optar pelo parto domiciliar tenha direito ao acompanhamento pediátrico caso deseje ou seja necessário.

Há décadas atrás, em Londres, as mulheres lutavam por esses direitos. Hoje, na Inglaterra, elas podem escolher por serem acompanhadas por parteiras ou médicos durante pré-natal, nascimento e pós-parto.

Portanto, mãos à obra.

Os cães ladram, mas a caravana não pode parar.

Serviço:

Marcha pela Humanização do Parto

Data: 05/08/2012

Local: Altura do Posto 9, praia de Ipanema (Rio de Janeiro)

Hora: 14 horas

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Proibição da circuncisão e choque cultural

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Fonte: Wikimedia Commons

O fato de a Alemanha ser considerada o “país do Holocausto” (alcunha reducionista, mas que provoca as sensibilidades de muitas pessoas) justifica a polêmica em torno do debate sobre a proibição ou não da circuncisão, tradição milenar da cultura judaica. Se fosse em qualquer outro lugar do mundo, a repercussão seria bem menor.

Provavelmente essa proibição não vai ocorrer, pois a pressão internacional é grande. Felizmente, o relativismo cultural é minimamente compreendido em âmbito mundial, e uma imposição que implique na criminalização de uma prática intrinsecamente ligada à identidade de um povo é uma violência de enorme proporção.

As tradições de um povo fazem parte do substrato cultural (material e imaterial) que mantém coesa sua identidade étnica e sua própria existência enquanto grupo. Proibir um povo de praticar sua tradição é uma violação de seus direitos, ainda mais considerando que a prática em questão não prejudica a outros senão eles próprios (se é que prejudicam).

No entanto, há práticas tradicionais que se chocam com as leis das nações em que se encontram, como é o caso das mortes de crianças com deficiências físicas, praticadas por alguns povos indígenas. A mutilação de crianças, como é o caso da circuncisão, se choca com a pauta dos Direitos Humanos, mas os judeus podem considerar prejudicial,  para a criança, para a família e para seu povo, a impossibilidade de realizar um ato que, para eles, é um sinal de aliança com seu criador.

Em geral, não há um consenso sobre se a circuncisão masculina é benéfica, maléfica ou neutra para o homem circuncidado. Alguns defendem seus benefícios, baseando-se em pesquisa que mostra a menor probabilidade de contrair o vírus HIV, além de proporcionar uma menor tendência à ejaculação precoce. Esta adviria do fato de, sem a proteção do prepúcio, a glande perderia sua sensibilidade com o atrito constante com as roupas íntimas, além do que o próprio prepúcio é erógeno. Este é o motivo pelo qual alguns são contrários à circuncisão, comparando-a aos efeitos da infibulação feminina. (Aviso logo – tendo em vista a grande probabilidade de alguém mencionar isso nos comentários – que não discorrerei neste texto sobre a retirada dos clitóris de meninas, pois acho que daí se desenvolvem outros assuntos – posteriormente, talvez eu complemente a discussão deste texto com outro artigo focado na “circuncisão feminina”.)

Assim, podemos considerar que, sendo elencadas vantagens e desvantagens da circuncisão, ela é neutra, não representa, no balanço de suas consequências médicas, nem um malefício nem um benefício em si mesma. Mas isso tudo não a exime de ser uma mutilação da integridade física do indivíduo. Ela é uma mutilação tanto quanto o é a extirpação do clitóris (embora as consequências fisiológicas desta sejam piores).

Neste sentido, por mais que tenhamos que defender costumes alheios aos nossos, vale também notar que muitos deles servem como uma marca da dominação da cultura sobre o indivíduo. Todo judeu circuncidado tem em si um sinal de sua ligação inexorável com as tradições de um povo, por mais que estas sejam retrógradas e por mais que ele delas discorde. É o mesmo princípio das tatuagens ou escarificações ostentadas por vários povos tribais. É, inclusive, o mesmo princípio do ritual de furar as orelhas da recém-nascida, mutilação que manterá em seu corpo a marca de uma certa identidade feminina e a fará lembrar para sempre que, como mulher, ela é “naturalmente” fútil e vaidosa.

Link

‘Circuncisão proibida no país do Holocausto’ – Carta Capital

Fontes das imagens

Terminartors

Wikimedia Commons