Animais, inteligência e teimosia

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Certa vez li que os burros são animais inteligentes mas muito teimosos. Daí teria surgido o sentido pejorativo da palavra “burro”, inicialmente se referindo a pessoas teimosas e posteriormente variando de significado para caracterizar pessoas de baixa capacidade intelectual. Ou seja, acabou que o sentido figurado atualmente empregado à palavra contradiz a natureza dos animais citados, mais inteligentes do que vários outros tipos de bichos domésticos.

Mas essas noções de inteligência e teimosia são complicadas de se lidar (é preciso certo nível de inteligência para isso e os conceitos apresentam certa teimosia diante de quem tenta refletir sobre eles). Afinal, o que realmente significa inteligência? O que ela mede exatamente? Não vou nem tentar me debruçar sobre essa definição, mas vou simplificar as coisas da seguinte maneira: Inteligência é a capacidade de um organismo de resolver problemas.

Pensemos em dois dos mais comuns animais domésticos criados pelo ser humano, o gato e o cachorro. Existe certo consenso a respeito da suposta inteligência superior dos cachorros. Concorda-se em geral que eles têm mais facilidade de aprender truques e de se comunicar com os donos. Os gatos, por outro lado, são mais arredios e independentes; são, de certo modo, teimosos.

Voltamos assim à dicotomia inteligência/teimosia. Daí podemos afirmar que há como que uma noção que opõe os dois termos e que se traduz na seguinte afirmação: inteligência implica a capacidade de obedecer. Dessa forma, quando se fala na capacidade de um cachorro realizar truques ensinados por humanos, chamando isso de inteligência, também chegamos a uma afirmação oposta: não obedecer é sinal de baixa inteligência.

Não há como não pensar naquele velho adágio: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. A partir disso podemos notar sinais de uma ideologia insidiosa vindo à tona. Percebemos que aquela inocente classificação dos animais em mais ou menos inteligentes está atrelada a uma mentalidade autoritária que preza pela manutenção de uma ordem e de uma hierarquia social. Animal inteligente seria aquele que, obedecendo ao dono, evita ser punido por este. Aí está o orgaismo resolvendo o problema de afastar de si a dor causada por um opressor.

Se pensarmos sob um outro ângulo, seguindo um outro conjunto de valores, poderíamos muito bem pensar que a inteligência está na capacidade de resolver problemas sem a interferência de um agente externo. Se os gatos são desobedientes, eles podem ser considerados, nessa perspectiva, como mais inteligentes que os cachorros, já que conseguem as mesmas regalias dos donos sem agir como bajuladores que colocam a língua para fora e abanam o rabo (ou então encontram fora de casa as fontes para saciar suas necessidades). Gatos seriam mais inteligentes, pois resolvem seus problemas sem se sujeitar a seus “donos” e com criatividade.

A pedagogia tradicional no Ocidente costumava se fazer, e em alguns contextos ainda se faz, pela imposição do conhecimento aos estudantes. A inteligência de um aluno é medida por sua capacidade de reproduzir os saberes repassados pelo professor. Os alunos teimosos, que não seguem as normas de conduta em sala de aula, geralmente coincidem com os alunos “burros”, que não apreendem o conteúdo, administrado pelo docente e sem possibilidade de questionamentos.

Ficando ainda indefinido o conceito de inteligência para nós, considerando inclusive que existem vários tipos de inteligência (burros, cachorros e gatos têm cada um a preponderância de um desses tipos – e cada indivíduo de cada espécie varia em sua própria individualidade), o que podemos perceber com menos incerteza, até onde nossa capacidade de entendimento alcança, é que a ideologia da inteligência preconiza o valor conservador da obediência incondicional. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo” é um dito que implica que não é preciso ser inteligente (ter juízo) para mandar.

Nas sociedades com Estado e com valores tradicionais arraigados, como a nossa, “burro” é quem não abaixa a cabeça diante da Polícia, é quem não disfarça sua sexualidade desviante ou sua identidade de gênero não-convencional, é a mulher que não se sujeita ao marido, é o negro pobre que reclama do baixo salário, é a criança autodidata que procura aprender através de meios não-instituídos. Na revolução dos bichos, são os teimosos que podem acabar com a ditadura dos porcos.

Os Mortos-Vivos – The Walking Dead e a cultura contra a natureza

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the-walking-dead-os-mortos-vivos-hqm-editora-novo_MLB-F-4282197153_052013Depois que comecei a ler há algum tempo a série de quadrinhos Os Mortos-Vivos (The Walking Dead), roteirizada por Robert Kirkman e com desenhos de Tony Moore (edições 1 a 6) e Charlie Adlard (edições seguintes), não consegui resistir a seguir continuamente capítulo por capítulo dos 10 encardernados que já haviam saído no Brasil. Publicada no Brasil pela HQM, atualmente a série tem 11 encadernados publicados, reunindo 6 edições cada um, perfazendo 66 números de um total de mais de 100 da publicação original pela Image Comics. Esta teve início em 2003 e continua sendo publicada até hoje, e deve continuar sendo paulatinamente traduzida e lançada no Brasil.

Essa obra gráfica, que deu origem a uma famosa série de TV, possui qualidades narrativas e estéticas excepcionais. Longe de ser uma mera fábula de terror sobre zumbis, Os Mortos-Vivos é uma história sobre seres humanos vivos. Ela dá medo em alguns momentos, nunca por causa das criaturas que lhe dão título, mas porque nos pegamos torcendo para que tudo dê certo num mundo incerto em que o caos ameaça a todo momento. Mas ainda mais do que isso, a obra nos faz pensar sobre as profundas implicações da relação entre o ser humano e a natureza.

Sinopse

A história de Rick Grimes, policial que acorda de um coma para encontrar tudo ao seu redor deserto e infestado por zumbis, é repleta de perdas, reencontros, encontros e novas perdas, mudanças, amadurecimento, adaptação e desmoronamentos psicológicos. Ao acompanhar sua trajetória, deparamo-nos com pessoas muito diferentes entre si e que, numa situação normal, jamais andariam juntas. Mas, na presente circunstância apocalíptica, o fazem para aumentar suas chances de sobrevivência.

Rick cria novas amizades, se apega a algumas pessoas, aprende a tolerar outras, mas também desenvolve desafetos, sempre se colocando à frente do instável grupo que o acolhe como líder. Seu constante aprendizado o põe em situações-limite; qualquer decisão terá fortes consequências para o pequeno grupo de sobreviventes, afinal, qualquer coisa que signifique o risco de um companheiro morrer é a possibilidade de uma perda inestimável. Às vezes, no entanto, a presença de certos indivíduos pode ser mais prejudicial do que benéfica, e nosso protagonista pouco hesita em fazer sacrifícios. Porém, a longo prazo, as coisas ficam cada vez mais difíceis e o sentimento de culpa e fracasso como líder atormenta Rick constantemente.

Estado de natureza e contrato social

Toda essa trama familiar e esse drama psicológico se apresentam como especulações sobre uma pergunta: “O que a humanidade realmente faria se se visse novamente em estado de natureza?” O que leva a outra pergunta: “O que uma situação distópica como um apocalipse zumbi poderia nos ensinar sobre os esforços humanos para sair do estado de natureza até o estado de cultura e civilização?”

A reflexão conduzida por Kirkman nas páginas de Os Mortos-Vivos parte do pressuposto de que os seres humanos adotariam comportamentos extremos quando colocados em situações-limite. A necessidade de lutar para sobreviver se reflete em rivalidades, brigas e até mortes quando dois ou mais indivíduos discordam quanto ao melhor curso de ação para o grupo. As emoções vêm à tona com intensidade e as neuroses pessoais se agravam. As pessoas endurecem, se brutalizam e começam a temer a perda de sua humanidade e seu caráter humano racional. As regras morais e os valores éticos precisam ser recriados do zero e só se ajustam com a experiência, com erros e sacrifícios.

A premissa, portanto, é a de que os sobreviventes do desastre retornaram a um estágio anterior ao da cultura e precisam reinventar o contrato social. Dessa forma, outra pergunta que a história tenta responder é: “Quem estava certo, Hobbes ou Rousseau? O homem é o lobo do homem ou somos naturalmente bons selvagens?” A resposta é circunstancial, e podemos ver duas respostas opostas no confronto entre o grupo que vive na prisão e a cidade de Woodbury, liderada pelo Governador.

Na prisão quase abandonada é onde as coisas começam a ficar realmente melhores para Rick, sua família e seus novos amigos. Ali, vemos cada indivíduo assumindo um papel segundo suas capacidades e talentos; um cultiva uma horta, outra costura roupas, outros se encarregam da segurança e há quem se detenha cuidando das crianças. Com o tempo, a liderança de Rick e seu braço direito, Tyresse, é substituída por uma espécie de conselho, e as decisões do grupo são tomadas em assembleias. Esboça-se, assim, uma sociedade participativa e protodemocrática, em que todos têm voz e cuidam uns dos outros.

Por outro lado, o Governador de Woodbury se assemelha à imagem do Leviatã hobbesiano, ou seja, do déspota sem cuja condução e proteção uma sociedade se desagregaria. Todos os habitantes de Woodbury se sentem seguros sob sua liderança, mas todas as decisões que afetam o coletivo são centralizadas no Governador. Supostamente, o medo gerado pelo ambiente distópico torna a todos vulneráveis, e a massa procura uma figura forte que se atenha a cuidar do bem comum.

Curiosamente, as duas sociedades se desfazem completamente ao entrarem em conflito. O grupo da prisão se desagrega e perde toda a infraestrutura que os protegia, enquanto um membro da sociedade de Woodbury, ao se dar conta da insanidade do Governador, o mata sem hesitar. Fica clara a mensagem do autor de que este não é o momento para definir o melhor rumo para uma humanidade em estado de reconstrução e de que provavelmente não existe só um melhor caminho.

Mas eu proponho uma pergunta que considero mais pertinente e profunda: “Um desastre como esses realmente colocaria os seres humanos em situação de plena natureza?” E é claro que a resposta é negativa, pois os sobreviventes não são seres desprovidos de cultura e trazem em si uma história complexa que se reflete em seu comportamento e na relação com os outros membros do grupo. Tudo o que tentam fazer pode até se parecer com algum modelo ideal de protossociedade humana, mas eles não partem do zero, estão todos viciados com a cultura e com diferentes trajetórias de vida que refletem os conflitos étnico-raciais, de gênero, de classe e de geração que se mantêm vivos apesar de tudo, mas que são mais ou menos relativizados por causa da situação-limite em que todos se encontram.

Mortos-vivos: uma força da natureza

Porém, os mortos-vivos representam um elemento importante na trama por fazerem os seres humanos perceberem que, por trás de todo o mundo que construíram à sua volta, existe uma gigantesca força impessoal que persiste e que resistirá ao poder domesticadoe e destruidor do Homo sapiens.

Em geral, as histórias sobre zumbis lidam com um terror subjacente à cultura ocidental: o de perder sua humanidade e se ver despojado de sua própria identidade. A possibilidade de morrer e ter nossos corpos ressucitados sem consciência por alguma força estranha pode ser aterradora para alguns de nós. É uma fantasia análoga à de se tornar um lobisomem, um animal irracional que não se dá conta das próprias ações.

Esse terror é explorado em Os Mortos-Vivos, mas de forma bem mais profunda do que na maioria das histórias de zumbis. Na situação-limite representada nessa fantasia escatológica, morrer significa se tornar um zumbi, passar a fazer parte de um organismo impessoal, de uma força implacável e infinita, e assim todos os vivos são mortos-vivos em potencial, ou seja, possíveis inimigos.

Essa força da natureza, representando metaforicamente a própria natureza com que o ser humano e sua cultura se defrontam na vida real, pode ser, no máximo, domesticada. Essa imagem da domesticação é representada, por exemplo, pelos zumbis desmembrados e sem mandíbulas, trazidos por Michonne em coleiras, e pela filha morta-viva do Governador, criada como um animal de estimação. Mas também pela imagem da cerca rodeada por zumbis que não param nunca de se aproximar e se aglomerar como um enxame. Tais quais um jardim que cresce e ameaça espalhar ramos pela casa, os zumbis têm que ser constantemente podados.

Desacato aos detentores do poder

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foto11Desacato à autoridade é um conceito a ser revisto.

Infelizmente, o desacato à autoridade, na prática, se refere a uma ação contra o agente do poder (intermediário) e não contra o representante do poder (na outra ponta), que é o verdadeiro problema dos cidadãos. Dessa forma, enquanto os representantes lidam de forma relativamente pacífica com artigos ou charges que os criticam e ridicularizam, eles estão protegidos fisicamente pelos agentes do poder, autorizados a se utilizar legitimamente de violência e armas se forem agredidos com palavras feias e gestos obscenos.

É a mesma relação entre o empregado, o capataz e o patrão. O agente intermediário é uma figura ambígua. Ao mesmo tempo em que se encontra mais próximo do empregado, é cercado de uma aura de desconfiança, pois age de maneira dura, inspecionando e delatando, às vezes punindo. O patrão, a verdadeira figura dominante, não se envolve diretamente e, quando intercede como mediador, pode aparecer até como um pai condescendente, que quer o melhor para todos. É mais fácil odiar o chefe imediato do que o empregador, mesmo sendo este quem autoriza aquele a agir com violência.

Nosso direito de desacatar o representante do poder está garantido pela liberdade de expressão. Mas a mesma lei que nos autoriza a fazê-lo impede-nos de questionar a autoridade do agente do poder, que se constitui numa barreira de gás e plástico. O conflito mais acirrado se concentra no embate dos cidadãos com a muralha policial, e o efeito perverso disso é que tendemos a supervalorizar esse conflito e esquecer que o problema está nos representantes do poder e não em seus agentes.

Os cidadãos deveriam ter o direito de discordar de e manifestar sua indignação à autoridade que supostamente os serve, que está mais próxima deles. Os agentes deveriam ser intermediadores, levando o recado para seus patrões. Eles estão ali, protegidos com armaduras e escudos, para se proteger e não para proteger quem neles manda (nem para contra-atacar). No entanto, as manifestações de desacato a sua autoridade não são ofensas pessoais, como as atitudes vingativas que se veem por parte de alguns deles parece sugerir, mas são no fundo uma indignação contra quem os colocou ali.

O verdadeiro desacato é contra a autoridade do conjunto do povo. Pois, é bom lembrar, se este não é representante nem agente, é o detentor do poder.

Professor

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Como seres humanos, dependemos por natureza da presença de outros de nossa espécie para realizarmos nosso potencial mínimo, básico. Sem a presença de adultos, as crianças não aprendem a falar e dificilmente conseguirão andar. Sem a intervenção da cultura, personificada nesses adultos, o indivíduo não aprende noções e regras básicas para o convívio social. Sem esse aprendizado, o Homo não se torna sapiens.

Assim, a função de professores e educadores (e da Pedagogia) é fundamental para o desenvolvimento de indivíduos e de uma sociedade ética e democrática. Somente com um sistema (formal ou não) educacional de qualidade e igualitário é que podemos ter a difusão do conhecimento.

Cada um de nós foi acolhido no seio da humanidade ao nascer, foi alimentado com leite, afeto e palavras . Cada um de nós tem o potencial para se tornar um professor, um difusor daquilo que recebemos, dando alguma orientação às gerações seguintes.

A função daqueles que se dedicam profissionalmente à Educação não é apenas ensinar e orientar, mas desenvolver a ciência Pedagogia e explicitar sua importância, servindo de exemplo não só para educandos, mas para aqueles que já o foram e que podem atuar cotidianamente como professores e educadores em situações pontuais. Afinal, conhecimento todos nós temos, mas a arte da Didática é dominada por poucos.

Ética e Estado

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Adolfo Sánchez Vázquez define a ética como “a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade“, reduzindo-a a uma forma específica do comportamento humano. Há, porém, alguns problemas nessa concepção.

Primeiro, nem toda Ética é uma teoria (há Éticas propositivas). Segundo, nem toda Ética refere-se ao comportamento do Homo sapiens (César, de O Planeta dos Macacos, era bastante ético). Terceiro, nem toda Ética reduz-se ao viver social do homem (também se aplica individualmente). Por quê? Primeiro, porque existem éticas descritivas e propositivas. As descritivas encarregam-se em estudar os princípios comportamentais, ou seja, os fundamentos lógicos, epistemológicos, semânticos, metafísicos e práticos do comportamento. As propositivas buscam uma aplicação ipsis litteris do que se compreendeu de toda essa análise multifacetada do comportamento. Segundo, prefiro encarar a Ética como algo universal, uma vez que os princípios encontrados no comportamento humano são mais válidos na medida em que promovam o benefício à maior quantidade de pessoas possível.

Enquanto disciplina, a Ética é uma das áreas da filosofia que estuda os princípios comportamentais de seres dotados de sesciência (ou, como preferem os filósofos antropocêntricos, seres dotados de humanidade). Diferente da moral (conjunto de ideias pré-concebidas de certo e errado), da lei (conjunto de normas de comportamento social), dos preceitos (conjuntos de conselhos de como se comportar em determinadas situações, como a etiqueta e o politicamente correto) e do método (conjunto de ações necessárias para partir de um ponto a outro), a Ética não é presa nem fundamentada em comportamentos locais, grupais, políticos, ideológicos ou normativos. Assim, a existem moralidades éticas e antiéticas, e imoralidades éticas e antiéticas. Existem leis éticas e antiéticas, assim como crimes éticos e antiéticos. Alguns preceitos são éticos, outros são antiéticos, e suas quebras passam pela mesma categorização. Alguns métodos são igualmente classificados. E isso porque a Ética, quando universal, é um tipo de visão do comportamento que prevê duas coisas básicas: a Autonomia e a Felicidade Objetiva.

Posso estar parecendo ingenuamente estoico-humiano, mas a Autonomia e a Felicidade Objetiva são sim as principais fontes de energia da Ética. A autonomia de todos os seres sescientes sem prejuízo ao bem de nenhum outro ser senciente garante que todos os princípios éticos sejam filtrados. Significa que posso afirmar se a moral de um grupo (como os discursos de Silas Malafaia) ferem ou não princípios éticos, pois seus discursos ferem diretamente o binômio Autonomia e Felicidade Objetiva. Um pedófilo que se limite a tirar fotos de crianças nos parques para uso próprio também não fere nenhum princípio ético, pois a Autonomia e a Felicidade Objetiva de nenhuma criança foi afetada.

Por Felicidade Objetiva compreende-se qualquer coisa que se relacione diretamente e de forma positiva à integridade existencial, material, intelectual, física e linguística de uma pessoa. Logo, Silas Malafaia, em suas ações, e promovendo passeatas contra a votação de leis, incide diretamente sobre a integridade material de terceiros (um direito legal é um bem material, além, é claro, de ser um direito à autonomia).

Justamente esse tipo de visão da Ética é que pode esclarecer as diferenças entre um Estado Moral, um Estado Constitucional, um Estado Preceptor (Politicamente Correto), um Estado Metodológico e um Estado Ético. A distinção está em como ele promove a Autonomia de todos os seus cidadãos sem, com isso, prejudicar a Felicidade Objetiva de nenhum outro cidadão. E isso nos leva a perguntas como:

É ético promover a propriedade privada enquanto milhões de cidadãos são privados de um teto onde abrigar-se da chuva? É ético permitir a livre cultura dos índios enquanto milhares de crianças são enterradas vivas? É ético privar bilhões de seres humanos de acesso livre ao conhecimento por causa de leis contra a pirataria? Essas questões, então, resolvem-se no âmbito da Ética de forma mais precisa que no âmbito da moral, das leis, dos preceitos e dos métodos.

A moral de uma tribo indígena pode achar que o nascimento de uma criança deformada trará um mal à sua tribo, e se isso for algo com o qual nem o cacique nem a tribo possam conviver, então o cacique procure a FUNAI e entregue a criança para ser adotada. Entregar à adoção não afeta a Felicidade Subjetiva da tribo e não afeta a Felicidade Objetiva da criança. A partir do momento em que, para manter sua Felicidade Subjetiva e sua integridade, o chefe de uma tribo causa um prejuízo à Felicidade Objetiva de uma criança, então ele está sendo antiético. E isso por uma razão bem simples: NÃO EXISTE ÉTICA DE ÍNDIO E ÉTICA DE BRANCO, o que existe é tão somente Ética.

Autonomia e o Felicidade Objetiva

Critérios palpáveis

Existem dois tipos de Felicidade: a Objetiva e a Subjetiva. A Felicidade Objetiva centra-se em elementos palpáveis, e, portanto, objetivos e verificáveis. A Felicidade Subjetiva abrange elementos impalpáveis e, portanto, subjetivos e inverificáveis. A grande diferença entre ambos está justamente no fato de a primeira poder ser observada por terceiros, e a segunda não poder ser observada. Por isso, se um Estado é ético, ele deve centrar-se apenas naquilo que é palpável, ou seja, na Felicidade Objetiva. A Felicidade Subjetiva não é assunto de Estado, até porque é impossível de ser mensurada.

Os elementos palpáveis são a Existência, a Materialidade, a Intelectualidade, o Físico e a Linguagem.

A Existência pode ser mensurada pelo Estado por meio de uma lógica booleana simples: vivo ou morto. Então é assunto de Estado zelar pela existência de todos os seres sescientes sob sua jurisdição, sejam esses seres um feto ou um idoso, um macaco falante ou um indígena. Garantir a segurança pública, o porte de armas (para lutar por sua própria vida), promover políticas éticas sobre o aborto e a pena de morte e promover educação para o trânsito são exemplos de ações de um Estado Ético e voltado para a Felicidade Existencial. O indivíduo pode querer se matar, e isso deve ser respeitado, pois a vida é um direito garantido pelo Estado, e não uma obrigação legal.

A Materialidade é mensurada pela participação dos seres sob sua jurisdição nos processos econômicos, e pelas mesmas oportunidades de todos os indivíduos dessa sociedade na produção de bens materiais. Isso é o que garante a Felicidade Material, que pode ser conseguida com ações simples, como o abandono de políticas econômicas daninhas, geração de emprego e renda, capacitação profissional em massa, reforma agrária, reforma econômica e menor necessidade de força bancária no país. Um indivíduo pode optar por não querer participar da economia e se isolar do mundo no alto de uma montanha, e é dever do Estado respeitar isso, pois a participação na economia é um direito, e não uma obrigação legal.

A Intelectualidade pode ser mensurada, pois basta que os aprendentes sejam avaliados de forma séria, e que o mesmo ensino tenha um caráter sério deliberadamente capaz de melhorar a si próprio. O Estado pode promover a Felicidade Intelectual por meio de ações simples, como a criação de leis ou sistemas educacionais variados (a distância, homeschooling, presencial, autoinstrucional etc.), de avaliações mais completas (e não apenas as avaliações escritas) e pela priorização dos conteúdos passados. Um indivíduo pode optar por não querer aprimorar sua intelectualidade e arcar com as consequências disso, e é dever do Estado respeitar isso, pois a intelectualidade é um direito, e não uma obrigação legal.

O Físico pode ser mensurado: integridade física, saúde e habilidades motoras. Um Estado Ético promove ações que reduzam problemas de saúde causados pelo sedentarismo, melhora o atendimento nos sistemas de saúde (variando também os tipos de sistemas de saúde) e cria programas escolares para aumentar as habilidades motoras dos cidadãos. Claro que aqui podemos no perguntar: o que é prioritário ao Estado? garantir o gol perfeito do atleta olímpico ou construir um posto de saúde que funcione? Um indivíduo pode optar por seguir uma vida sedentária e arcar com as consequências disso, e é dever do Estado respeitar isso, pois o aprimoramento físico e a saúde são direitos, e não obrigações legais.

A Linguagem pode ser mensurada: existe toda uma ciência dedicada a estudá-la de forma objetiva, que é a Linguística. O Estado pode obrigar o povo a usar em situações oficiais ou estatais uma língua padrão por razões práticas e econômicas, e promover livre acesso a essa linguagem sem, com isso, prejudicar ou procurar eliminar o falar ou a língua natural de cada falante, ou sua capacidade e liberdade de expressão. Assim, qualquer etnia que fale sua própria língua, além de acesso à língua padrão do Estado, tem a linguagem de sua etnia preservada e devidamente protegida, além de poder exprimir o que bem desejar. Um indivíduo pode optar por abandonar sua língua mãe, ou por não usar a língua padrão, ou mesmo por não expressar algumas coisas, e é dever do Estado respeitar isso, pois a linguagem é um direito, e não uma obrigação legal.

Critérios Impalpáveis

Há, porém, uma miríade de elementos impalpáveis que, com frequência, são levados em conta na criação das leis, e que acabam por gerar polêmicas, dissensões, crises políticas e guerras de opinião. Aquilo que não se pode mensurar ou categorizar de forma objetiva justamente por não pertencer ao mundo objetivo são coisas que dizem respeito somente ao sujeito. Estão nesse universo a Moralidade, a Personalidade, a Espiritualidade, a Estética e a Opinião.

A Moralidade não pode ser considerada assunto de Estado, pois é uma concepção de comportamento não universal, presa somente ao mundo de alguns grupos em detrimento de outros. Assim, a constituição da família, o sexo, a alimentação, a religião e as concepções metafísicas de mundo não dizem respeito ao Estado, pois não são critérios construídos sem a presença de um elemento moral (cristão, ateísta, budista, LGBTTT, marxista, capitalista etc.). É dever do Estado, porém, garantir aos indivíduos a liberdade de optar por qualquer comportamento que sua moral permita, desde que não fira a Felicidade Existencial, Física, Material, Intelectual e Linguística do outro. Se esse indivíduo optar por um estilo de vida ou um modelo familiar que vá de encontro aos ensinamentos de um determinado grupo, mas que não fira sua Autonomia ou sua Felicidade Objetiva, então sua opção é perfeitamente válida e deve ser permitida pelo Estado.

A Personalidade não pode ser considerada um assunto de Estado, pois é também uma concepção de comportamento não universal, presa somente ao mundo pessoal em detrimento de terceiros. Assim, se um indivíduo é hiperativo ou calmo, sedentário ou atlético, falante ou calado, emotivo ou racional, não dizem respeito ao Estado, pois são critérios puramente pessoais e, portanto, inalienáveis ao próprio sujeito. É dever do Estado, porém, garantir aos sujeitos a liberdade de agir de acordo com sua natureza, desde que não fira a Autonomia nem a Felicidade Existencial, Física, Material, Intelectual e Linguística do outro. O Estado não pode proibir que uma pessoa mude seu modo de ser, se assim o desejar, seja buscando uma tradição espiritual, seja buscando psicoterapia, seja procurando “curar” a homossexualidade. Ele pode optar por permanecer com seu modo de ser ou por mudá-lo se assim o desejar, desde que não fira a Autonomia nem a Felicidade Objetiva de terceiros.

A Espiritualidade não pode ser considerada assunto de Estado, pois é um parâmetro de comportamento puramente pessoal, sem possibilidade de ser contemplada por terceiros. Assim, se alguém é Budista ou Muçulmano, Ateu ou Católico, Umbandista ou Cientologista, não compete ao Estado mensurar e muito menos proibir ou incentivar. É dever do Estado, porém, garantir aos indivíduos a liberdade de optar por qualquer sistema religioso, filosófico ou ideológico, desde que não fira a Autonomia e a Felicidade Existencial, Física, Material, Intelectual e Linguística do outro. Se esse indivíduo optar por uma ideologia ou uma religião que vá de encontro aos ensinamentos de uma religião ou ideologia “da maioria”, mas que não fira a Autonomia nem a Felicidade Objetiva da mesma maioria, então sua opção é perfeitamente válida e deve ser permitida pelo Estado.

A Estética não pode ser considerada assunto de Estado, pois é um parâmetro de comportamento puramente contextual e fora das concepções éticas. Assim, se alguém opta por um estilo de escrita conhecido como Dangerous Writing, pelo Stand-Up polêmico de Rafinha Bastos ou se gosta de tatuar pênis pelo corpo todo, não compete ao Estado incentivar nem proibir, mas apenas respeitar. Se a população prefere funk carioca em vez de samba, ou cabelo moicano em vez de cabeças raspadas, o Estado não pode nem deve interferir. É dever do Estado, porém, garantir aos indivíduos a liberdade de optar ou preservar seus próprios gostos estéticos, desde que não fira a Autonomia nem a Felicidade Existencial, Física, Material, Intelectual e Linguística do outro. Se esse indivíduo optar por um sistema estético que vá de encontro a uma determinada tradição estética, mas que não fira a Autonomia nem a Felicidade Objetiva de terceiros, então sua opção é perfeitamente válida e deve ser permitida pelo Estado.

A Opinião pode ser ouvida e compreendida, mas também não pode ser mensurada, e por uma razão bem simples: a opinião é contextual, depende de um contexto coletivo e individual, ao mesmo tempo. Não compete ao Estado vigiar o que um jornalista ou um blogueiro pensa a respeito das cotas raciais, nem pertence ao Estado o dever ou o direito de controlar o modo como as opiniões são passadas, e muito menos ficar medindo quem se sentiu ofendido ou quem ofendeu pelo simples manifestar de suas opiniões. É dever do Estado, porém, garantir aos indivíduos a liberdade de opinar sobre qualquer coisa que decidam opinar, desde que não firam a Autonomia e a Felicidade Existencial, Física, Material, Intelectual e Linguística do outro. Se esse indivíduo opinar, elogiar ou criticar algo que a maioria da população ache repulsiva, imoral ou ofensiva, mas que não fira a Autonomia nem a Felicidade Objetiva de nenhum membro da sociedade, então sua opinião é perfeitamente válida e deve ser permitida pelo Estado.

E onde o Estado deixa de ser Ético?

Primeiro, todo Estado torna-se antiético quando, por qualquer motivo fraco que seja, priva seus cidadãos de direito à vida ou autonomia sobre ela, nega a participação de seus cidadãos na economia, os exclui de oportunidades de intelectualização, deixa de fornecer saúde de qualidade e proíbe à população determinados usos linguísticos, e se torna ainda mais antiético quando torna determinadas relações existenciais, econômicas, intelectuais, corporais e linguísticas obrigatórias.

Segundo, o Estado torna-se antiético quando transforma a Moralidade, a Personalidade, a Espiritualidade, a Estética e a Opinião em assuntos de Estado, passíveis de punição ou premiação, de limitações ou liberações, com políticas públicas próprias e fechadas (como financiar artistas em vez de hospitais, por exemplo). Quando, por exemplo, casais homossexuais tornaram-se livres para formar família e formalizar suas uniões, o Estado abriu mão daquilo que não era assunto seu, e partiu para coisas mais prioritárias (ou pelo menos creio assim), pois toda forma de comportamento humano que se torne obrigatório para o outro, ou seja, que incida diretamente sobre o outro em aspectos subjetivos, mesmo com a melhor das intenções (como a pregação religiosa agressiva ou impedir que algumas palavras sejam usadas por uma visão politicamente correta), é, desde já, um tipo de comportamento antiético.

Conclusão

Se pensarmos em um Estado Ético, perceberemos que a Ética pode, e deve, ser universal. Toda e qualquer ação que não interfira na Autonomia ou na Felicidade Objetiva de terceiros é uma ação ética ou neutra, e toda ação que cause prejuízo direto sobre a Autonomia e a Felicidade Objetiva de terceiros é, desde já, antiética. Por isso, não existe Ética de grupo A e Ética de grupo B, existe tão somente a Ética, que pode ou não ir de encontro à moral desses grupos.

[http://www.cartapotiguar.com.br/2012/07/19/etica-e-estado/]

Pela crítica contra a censura

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Da Correção Política à CensuraUma ONG da Itália pretende censurar a Divina Comédia de Dante nas escolas do país, cujo conteúdo é eivado de intolerância religiosa, sexual e racial. Há algum tempo se ouviu uma polêmica sobre um professor norte-americano que “revisou” Mark Twain, retirando de um de seus livros as palavras ofensivas aos negros. Na mesma linha e pouco tempo antes, uma discussão no Conselho Nacional de Educação trouxe a consideração sobre restrições ao uso de uma das obras de Monteiro Lobato no Ensino Fundamental, também por causa de seu conteúdo racista.

Alea jacta est. Cada um se posiciona e constrói um debate sem fim, os defensores da correção política se arriscam a ser taxados de simpatizantes da ditadura e os defensores do patrimônio cultural se arriscam a ser responsabilizados pela manutenção de preconceitos difíceis de erradicar.

Quando escutei pela primeira vez as expressões “politicamente correto” e seu antônimo “politicamente incorreto”, imaginei que este se aplicava ao humor subversivo, no estilo das charges que difamam os políticos corruptos e as brincadeiras que servem para abalar valores conservadores como sexismo e racismo. Afinal, o que seria “correto” numa visão moralista é aquilo que se enquadra nos valores tradicionais a ser defendidos de qualquer movimento revolucionário.

Tanto é assim que a expressão “politicamente correto” é muitas vezes usada para se referir a valores tradicionais. A pornografia, por exemplo, que vai de encontro a uma certa moral cristã assexuada, pode com muito mais probabilidade ser chamada de politicamente incorreta, mesmo nas versões em que a mulher não aparece exclusiva e meramente como objeto do prazer masculino, do que a defesa dos direitos dos homossexuais, condenada pela mesma moral cristã. A pornografia é politicamente incorreta porque é convencionalmente obscena e, certamente, fere os “bons costumes”.

Não é à toa que o critério para a Igreja Católica incluir uma obra no Index Librorum Prohibitorum era justamente a incorreção política. Nesse contexto, tudo aquilo que é transgressor (ou seja, que contraria o poder da Igreja) é politicamente incorreto. Mas, por uma série de fatores, aquilo que outrora poderia ser considerado politicamente correto não o é mais hoje em dia, pois o significado assumido hodiernamente pelo termo se aplica justamente ao que seria mais condizente com os valores democráticos.

O complicado de toda essa história é que não dá para ser maniqueísta sem desconsiderar aspectos problemáticos de ambas as posições extremas do debate, ou seja, da posição dos censuradores (os politicamente corretos) e a dos defensores da tradição (em parte conservadores pouco preocupados com uma visão crítica da sociedade e da cultura).

E é a crítica (junto com a temperança) que deveria nortear esse debate. Ao defender as obras clássicas da correção política, não se pode ignorar o fato de que Caçadas de Pedrinho tem expressões racistas, e é preciso se lembrar que Monteiro Lobato não só reproduzia preconceitos de sua época como era favorável ao segregacionismo e era até simpatizante da Ku Klux Klan.

Ainda vivemos inundados de racismo, sexismo e tantas outras intolerâncias. Uma criança que lê Monteiro Lobato não vai aprender com ele a ser racista. Mas não se pode menosprezar a força e a impressão que uma boa leitura pode causar numa mente em formação. Se há algum valor na obra de Lobato, então mantenhamos seus livros nas grades curriculares. Mas se há algum problema com ela, é imperativo que a abordagem seja atualizada, que os escritos sejam contextualizados, evitando-se demonizar o autor, mas da mesmíssima forma tentando não endeusá-lo.

Seria um retrocesso obscurantista se os livros fossem censurados e reescritos, perder-se-ia a memória histórica e correríamos o risco de cometer novamente erros crassos de nosso passado. Pessoalmente, minha posição é difícil de ser localizada dentro das casas brancas e pretas desse xadrez. Sou fortemente contra a censura, e acho que qualquer medida que busque dificultar o acesso a obras importantes de nossa história cultural é desmedida. Porém, todas essas obras, sem exceção, possuem algum tipo de preconceito, reflexo do contexto em que foram produzidas.

Eu me oporia, por exemplo, à censura da Bíblia, mesmo tendo opiniões anticristãs. Considerando que o livro sagrado do Cristianismo transborda racismo, belicismo, machismo, homofobia e vários outros tipos de intolerância, ele deve ser lido com cuidado pelas gerações contemporâneas.

Meu trabalho de conclusão do curso de Ciências Sociais abordou as imagens da mãe e da prostituta na poesia de Augusto dos Anjos. Mesmo sendo admirador da obra do poeta paraibano, não deixei de considerar nesse trabalho que o imaginário do artista está carregado de pré-noções típicas de sua época. Esse tipo de crítica é importante para que os clássicos não sejam tomados como obras puramente racionais de portadores de uma genialidade atemporal.

As obras que entraram no cânone literário ocidental, os ditos “clássicos”, estão ali devido a circunstâncias históricas e escolhas intelectuais que, se fossem um pouco diferentes, as preteririam, e os clássicos seriam outros. É difícil imaginar que um defensor dos clássicos defenderia com a mesma ênfase uma “obra menor”, de um “escritor menor”. Também é difícil supor que um defensor da correção política atacaria um livro pouco conhecido e com pouca repercussão em nossa cultura. A disputa é sempre em torno de objetos de grande valor, pois o importante não é a crítica ponderada sobre as grandes obras, mas a imposição de uma visão de mundo sobre a outra, e nisso os “politicamente incorretos” são tão aguerridos quanto os “politicamente corretos”.

O monopólio do poder da palavra

A correção política é importante para que meçamos os limites das manifestações das diversas intolerâncias, muitas vezes reprodutoras de preconceitos arraigados. Sendo assim, sou a favor de uma postura politicamente correta. Mas ela deve ser educadora e não impositiva. Deve, acima de tudo, atacar as causas e não os efeitos (os signos) da intolerância.

E é de se notar que a correção política tem sido feita por meio da imposição e tem criado um ambiente de paranoia e de melindres, que levam a extremos como a tentativa, por parte do MPF de Minas Gerais, de retirar de circulação o Dicionário Houaiss por causa de seu teor preconceituoso na definição do verbete “cigano”. Uma mente ponderada percebe imediatamente o absurdo que é tentar apagar de nossa memória coletiva os significados pejorativos que as palavras assumem, e qualquer dicionário sério como o Houaiss deixa claro quando um significado é pejorativo, figurado ou chulo (claro, para quem sabe consultar o dicionário).

Porém, não são só os politicamente corretos que jogam sujo. Seus antagonistas, ao defender o Houaiss, terminam por defender o uso tradicional das palavras, revelando seus próprios preconceitos e ignorância.

Por exemplo, André, do blog Ceticismo.net, argumenta contra os ciganos, dizendo que eles não têm cultura e não contribuíram com nada significativo para a humanidade. Ele ignora, em primeiro lugar, o que significa cultura no contexto em questão (talvez por lhe faltar alguma noção de Antropologia), sem saber que toda e qualquer sociedade tem cultura. Em segundo lugar, mostra desconhecimento, por exemplo, da influência dos ciganos no patrimônio cultural da Espanha, que em parte deve o flamenco a esse povo nômade.

Ademais, isso nem deveria ser levado em conta, pois uma visão universalista não trata com tolerância só os povos a quem devemos alguma coisa e que não são parasitas da cultura ocidental. O que está em pauta aqui é o preconceito, é achar que todos os ciganos são ladrões, trapaceiros e vigaristas, só porque todo mundo diz que o são, mesmo sem nunca ter visto um cigano na vida. Com base nisso, pessoas são tratadas como se não fossem seres humanos dignos dos mesmos direitos, negando, por exemplo, um atendimento médico pelo sistema gratuito do governo, como se um indivíduo não merecesse os mesmos cuidados só porque acham que é ladrão.

O que André acaba fazendo, talvez sem querer, é reafirmar esse preconceito, dizendo que cigano é sim sinônimo de ladrão, com isso deixando implícito que todos os ciganos são ladrões e parasitas sociais. Por isso tudo é importante que sejam feitas pesquisas que averiguem até onde os preconceitos se confirmam na realidade, e deixem claro ao público quem realmente são os ciganos. Isso e não a destruição de livros.

Quem são os subversivos?

A reação dos autoproclamados “politicamente incorretos” costuma se pautar pela defesa da liberdade de expressão. Acusa-se os “politicamente corretos” de agirem autoritária e repressivamente, antecipando o prelúdio de uma distopia bradburiana (Fahrenheit 451) ou orwelliana (1984).

Dentro do debate sobre a correção política, têm destaque as questões relativas à linguagem, seja na tentativa de se reformar o vocabulário e os preconceitos nele embutidos, trocar o uso de certas palavras por outras ou admitir as variedades menos privilegiadas das línguas como formas legítimas de manifestação de certo idioma.

Os defensores do uso tradicional da língua são talvez os que mais facilmente encontram apoiadores. Como afirma Marcos Bagno, citando John Milroy, o preconceito linguístico ainda se mantém fora das discussões sobre discriminação, que já aprofundaram o debate sobre racismo, sexismo, etnocentrismo, homofobia etc., mas ainda advogam a favor do “idioma correto” e das regras gramaticais, condenando os usos que fogem a essa norma. Por isso é tão difícil entender a proposta do MEC de não corrigir os “erros” (na realidade, variantes menos prestigiadas socialmente), sem deixar de ensinar a norma culta escrita. Muita gente acha que a proposta é “ensinar errado”.

Não podemos ignorar que certas palavras reproduzem preconceitos. Há vocábulos que carregam em si noções pejorativas. Mas isso não se deve a qualquer valor intrínseco a essas palavras. Se “negro” tem conotação ofensiva quando se refere a pessoas de fenótipo africanoide, não é porque ela possua em si mesma uma carga negativa que transcenda o contexto em que é usada. Isso se dá porque temos uma história que marcou os descendentes de africanos no ocidente com diversos estigmas. Passar a chamar os negros de afrodescendentes não vai mudar os preconceitos que temos a respeito deles. O que vai acontecer é que “afrodescendente” (duvido muito que essa palavra se torne de uso comum) assumirá toda a carga racista e pejorativa com que ainda representamos os não-brancos no Brasil, com qualquer nome que seja.

Um dos equívocos dessa correção política é justamente achar que qualquer referência à alteridade é negativa, e isso acaba revelando seu próprio preconceito, como se simplesmente apontar a diferença fosse um tipo de discriminação. Mas não importa que palavra seja usada, ela sempre vai se imbuir de preconceito. Nos EUA, o termo “black” foi substituído por “negro”, depois por “Afro-American” e “African American”. Todas elas acabaram se investindo do mesmo preconceito do termo anterior.

A reação dos autoproclamados politicamente incorretos acaba confundindo as pessoas. Normalmente, na História, quem reclama da falta de liberdade são aqueles cujas ideias vão de encontro ao status quo. Eram justamente os hereges que ameaçavam o poder (político) da Igreja Católica que incorriam em incorreção política e precisavam ser silenciados.

O que acontece nos dias atuais é que o movimento reacionário à correção política moderna é tão ferrenho que acaba se passando por subversivo (e de fato pode ser entendido assim se considerarmos a forma conservadora que assumiu o discurso que deveria ser libertário). As pessoas tendem a imaginar que a censura vem contra manifestações subversivas, que ferem a ordem instituída e é por isso que são atacadas. Aqueles que têm motivações libertárias (mas nem sempre se utilizam de meios coerentes com os fins) bancam os conservadores, defensores dos “bons costumes”, e é assim que a pecha de politicamente correto inverte seu significado medieval e recai neles.

O que muda em ambos os casos é que um se preocupa em eliminar qualquer ameaça ao poder instituído, enquanto o outro tenta reprimir tudo aquilo que ameaça a criação de uma nova ordem menos excludente. Porém, embora simpatize com os fins do segundo, não concordo com os meios a que acaba chegando quando pretende se valer da censura (um dos mecanismos prediletos de qualquer regime conservador).

Felizmente, vivemos numa época em que a liberdade é valorizada e a censura repudiada. Infelizmente, o repúdio à censura é mobilizado por forças conservadoras para defender sua liberdade de expressar quaisquer ideias, até as mais absurdas. O efeito disso é desculpar todo tipo de manifestação, por mais restringidora, preconceituosa e intolerante que seja.

O que poderia nos levar a um mundo com menos violência e intolerância cai na armadilha reacionária e acaba atrasando os avanços libertários. A atitude intolerante e exclusiva daqueles que advogam a tolerância e a inclusão atrapalham os projetos para uma sociedade diferente.

A defesa contra a correção política se fortalece num movimento mais organizado do que os seus antagonistas. Hoje em dia é moda ser politicamente incorreto, é cool se opor à correção política. O público consumidor vai atrás do que ostente em seu rótulo essas palavras, talvez achando que se tratam de autêntica crítica social (muita gente acha que crítica social é falar mal do Brasil, por exemplo).

Ironicamente, à tentativa de se criticar o teor preconceituoso do humor se atribui um caráter moralista, como se a reprodução dos preconceitos, que tem história milenar, não fosse ela mesma profundamente moralista e mantenedora de hierarquias de poder.

Mas o humor pode ser usado no sentido inverso, para colocar em questão essa hierarquia, quando parte daqueles que são oprimidos para aqueles que oprimem, por exemplo. É o caso das charges políticas. Eu tendo a pensar nessas charges de teor mais crítico como verdadeiramente politicamente incorretas, pois mexem com o status quo. Mas elas não são a mesma coisa de uma piada que compara um negro a um macaco.

Por tudo isso é que vejo esse debate como uma briga de poder. Não se trata de revolucionários vs. reacionários ou progressistas vs. conservadores. É uma luta em que cada indivíduo escolhe seu time contingencialmente, da mesma forma que uma pessoa escolhe o time de futebol.

O efeito mais pernicioso dessa luta é fortalecer posturas moralistas por todos os lados, e fica extremamente difícil incluir no debate uma visão crítica sobre a correção política. Essa crítica deve considerar não só os perigos de uma censura bem-intencionada (toda censura o é), mas também os riscos de se manter o status quo em nome da liberdade de expressão e posar histrionicamente como “politicamente incorreto”.

Links

(Este texto foi publicado originalmente na Carta Potiguar, como parte da Série “Da Correção Política à Censura“)

"Da Correção Política à Censura"

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Os termos “politicamente correto” e seu antônimo “politicamente incorreto” são muito usadas hoje em dia para designar posturas relacionadas a preconceitos, discriminação, movimentos sociais e políticas de inclusão, dentro dos mais variados âmbitos, como a linguagem, a literatura, a publicidade, o humor, as produções acadêmicas, a mídia e as instituições governamentais.

Para discutir as questões ligadas à “correção política”, seus dilemas e disputas, o site Carta Potiguar lançou esta semana a série “Da Correção Política à Censura”. Vários dos colunistas da Carta (entre os quais me incluo) apresentamos artigos sobre o tema, explorando os diversos âmbitos do debate e nos posicionando a respeito dos problemas dessa disputa. Os artigos estão sendo publicados ao longo desta semana. Confira clicando no link abaixo.

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Liberdade e livre-arbítrio – parte 2

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A restrição da liberdade é condição sine qua non da própria vida humana em sociedade. Se não fosse o refreamento dos impulsos vitais, por exemplo, os conflitos interpessoais quase sempre terminariam em derramamento de sangue ou morte. Se as pessoas fossem totalmente desimpedidas para expressar o que pensam, qualquer discordância se tornaria uma troca de insultos, xingamentos e ataques verbais preconceituosos, desperdiçando-se a oportunidade do debate de ideias. Se não fosse a cultura, enfim, não seríamos humanos.

Esse refreamento deveria se tornar uma prática consciente, parte de uma autocrítica constante, norteada pela razão e por uma noção realmente libertária da liberdade. Esta só tem sentido como valor social quando se aplica a todos igualmente, e isso necessariamente significa que, paradoxalmente, nem tudo é permitido numa sociedade livre.

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Liberdade e livre-arbítrio – parte 1

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É por parte de cristãos de diversas denominações que mais se ouvem queixas reacionárias perante críticas dirigidas ao Cristianismo, manifestações pelos direitos dos LGBTs e reivindicações pela efetiva laicidade do Estado. Quando uma boa quantidade de pessoas critica o comportamento de evangélicos que transformam uma cabine do metrô numa barulhenta sessão de pregação, com direito a possessões divinas e diabólicas, alguns evangélicos sentem que se trata de uma repressão a sua crença. É difícil que algo assim não provoque calorosas discussões na internet.

Recentemente a direção do Hospital Regional do Agreste, em Caruaru, Pernambuco, proibiu as práticas de pregação e oração por parte de visitantes nas enfermarias. Nada mais é do que um ato de bom senso e compreensão da necessidade de os vários pacientes repousarem e se recuperarem de procedimentos médico-cirúrgicos. Pastores se sentiram oprimidos em sua liberdade de culto, como se a pregação fosse mais importante do que a liberdade e a saúde de outras.

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Da amizade – parte 2

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Na primeira vez que li o ensaio Da Amizade, de Michel de Montaigne, na universidade, aos 20 e poucos anos de idade, não me surpreendi muito com sua descrição tão espetacular de uma relação de proximidade, intimidade, apoio, lealdade e compreensão mútua. Eu já tinha vivenciado e vivenciava uma relação desse tipo desde os 16 ou 17 anos, com um amigo que, acho, foi a primeira pessoa que, sem ser meu parente, não hesitei em chamar de irmão.

Hoje ele completa mais uma translação ao redor da estrela Sol, desde que chegou a esta dimensão pela última vez. Aproveitando este fato, combinado com minha vontade de continuar a série Da Amizade com uma resenha do referido ensaio de Montaigne, faço jus, espero, ao que a amizade de Rúbio representa para mim – e talvez para ele.

Segundo Montaigne:

Para construí-la [à amizade] são necessárias tantas circunstâncias que é muito se a fortuna o conseguir uma vez cada três séculos.

Não posso me enganar quanto a essa afirmação. Foi pouco tempo depois de conhecer o ora homenageado que ambos percebemos uma afinidade. Ela foi aflorando aos poucos, com o passar dos encontros no segundo grau do colégio. Mas ela não apareceu de imediato. Ao mesmo tempo, foi mais rápido do que eu poderia imaginar, e quando nos demos conta já éramos amigos milenares. E ambos não duvidamos que esse relacionamento realmente é milenar, vindo de algumas vidas passadas.

Afinal, não é o tipo de coisa que se construa, por exemplo, com a simples e intensa convivência familiar, que pode proporcionar laços firmes, mas não necessariamente uma amizade do tipo que aqui se discute, pois,

em geral, todas as [relações] que a volúpia ou o proveito, a necessidade pública ou privada engendram e alimentam são menos belas e nobres e menos amizades na medida em que misturam à amizade outra causa e objetivo e fruto que não ela mesma.

As relações sociais humanas se constroem a partir de instituições culturais, e nossa natureza gregária nos força a criar uma série de regras e preceitos morais e éticos para a vida em comum. No entanto, todas as conveniências de parentesco, de casamento e de coleguismo não chegam necessariamente ao ponto de constituir o sentimento e o relacionamento sublime (e também sublimado) que Montaigne chama de amizade.

Mesmo que aquelas coisas que fazemos juntos contribuam muito para a manutenção de um laço de amizade, quando esta está relativamente consolidada já é possível usufruir com grande prazer da mera companhia do outro. Aliás, não é uma mera companhia ou presença, mas um exercício de telepatia em que a conversa não para por causa do silêncio. E, por outro lado, quando a conversa é intensa, seja num debate, seja nos desabafos, ela ocorre como um monólogo, como se fosse apenas uma pessoa falando consigo mesma.

Segundo Montaigne, nenhum laço de parentesco é suficiente para construir esse tipo de amizade nobre e sublime. Não posso negar que há uma afeição especial por cada um de meus progenitores e por cada um de meus irmãos, e que posso contar com eles incondicionalmente em situações de necessidade, assim como eles podem contar comigo. Mas não chega a ser forçosamente a mesma coisa, pois sempre falta algo, os parentes raramente têm as convergências de personalidade e a vivência específica, necessárias para promover a amizade.

Montaigne também diferencia o amor, entendido como a relação afetivo-sexual, da amizade. Para ele, o amor é unilateral, acontece como uma relação entre caçador e presa, e não representa o compartilhamento dos mesmos sentimentos da amizade. Esta é uma troca bilateral, mais ligada à alma do que ao corpo.

(Mas temos que relativizar essa afirmação, considerando que Montaigne se referia aí ao relacionamento entre homem e mulher e que a ideologia de sua época era muito mais androcêntrica e machista do que atualmente em nossa sociedade, e que para o homem era inconcebível uma relação de amizade com uma mulher e entre estes poderia haver apenas uma relação sexual ou, no casamento, uma relação entre possuidor e posse. É possível, hoje em dia, com a crescente superação das rígidas regras de divisão sexual do trabalho, que um casal heterossexual forme um laço de amizade.)

De resto, o que costumamos chamar de amigos e amizades são apenas contactos e convivências entabulados devido a alguma circunstância ou conveniência por meio da qual nossas almas se mantêm juntas. Na amizade de que falo, elas se mesclam e se confundem uma na outra, numa fusão tão total que apagam e não mais encontram a costura que as uniu. Se me pressionarem para dizer porque o amava, sinto que isso só pode ser expresso respondendo: “Porque era ele; porque era eu.”

Há pessoas que banalizam de tal forma a palavra amizade que não se evadem de chamar de amigos quaisquer pessoas com quem convivam com um mínimo de civilidade. Não que o uso das palavras não mude com o passar do tempo, mas, desta forma, é difícil nomear, para diferenciar da Amizade (com A maiúsculo) a amizade banal que a maioria vive no dia-a-dia.

Percebo que há pessoas que, por causa da troca de um favor ou por causa de uma simples conversa em que compartilhou com alguém algo pessoal, já considera este seu amigo. Pior, há pessoas que colecionam “amigos”, seduzindo quem encontram no caminho, garantindo assim várias opções de refúgio quando estiverem em apuros. Geralmente são indivíduos que não conseguem estabelecer uma vida segura, vivendo também uma insegurança pessoal e íntima (o que não quer dizer, é claro, que eu trate mal os “amigos” ou sinta por eles o oposto do que sinto pelos Amigos; é preciso procurar conviver bem e, quanto possível, ter uma postura amigável e assistencial para com qualquer pessoa).

Com meus verdadeiros amigos não acontece assim. Seja em situação favorável ou em penúria (o que realmente nunca aconteceu drasticamente), cada uma de nossas casas sempre esteve aberta para o outro. Compartilhar e dividir nunca foram obrigação, mas sempre nos sentimos impelidos a fazê-lo, por livre arbítrio, por satisfação pessoal e mútua.

A fusão de que fala Montaigne causava episódios pitorescos. Era muito surpreendente (hoje em dia nem tanto) que as pessoas ao nosso redor nos confundissem um com o outro, chamando-me de Rúbio e chamando-o de Thiago, dizendo a ele que falasse com Rúbio ou me dizendo que desse um recado a Thiago. Fisicamente, nem somos tão parecidos, mas a amizade nos moldou a ambos.

Não está no poder de todos os argumentos do mundo afastar-me da certeza que tenho sobre as intenções e julgamentos de meu amigo. Nenhuma de suas ações me poderia ser apresentada, sob qualquer aparência, sem que eu descobrisse incontinenti seu motivo.

Não concordo totalmente com essa afirmação de Montaigne. Eu não poderia condescender com um ato que considero ilícito e/ou antiético, premeditado ou cometido por meu amigo. Não sem ameaçar nossa amizade. Se realmente me considero seu amigo, não posso aceitar que ele prejudique a si mesmo nem a outras pessoas. É claro que considerar algo certo ou errado é relativo, mas há algo que precisa ser dito sobre a relação entre amizade e Ética.

Retomando Montaigne, e desta vez concordando com ele, a amizade que ele propõe só se sustenta com um elevado senso de ética. Não quero dizer exatamente que isso implica numa compreensão do que é melhor ou pior por parte de cada um dos amigos, mas sim que eles têm, no mínimo, algumas noções e a predisposição para sempre acertar mais e sempre desenvolver sua ética infinitamente, da mesma forma que a Ciência busca eternamente compreender a realidade.

Duas pessoas que se relacionam numa amizade mas não têm esse senso ético não podem ser considerados verdadeiros amigos, pois a falta de noções éticas dificultará a confiança mútua, e eles tenderão a trair um ao outro, por desconfiança e medo, e poderão até abandonar o amigo quando estiver em situação melhor do que ele. Porém, uma amizade baseada na Ética fará com que ambos ajudem um ao outro a evoluir, trocando ideias e experiências que beneficiam aos dois (ou mais).

Assim, conhecendo-nos a fundo, eu e meu amigo compreenderemos porque o outro escolheu pensar e/ou agir (pensar é uma ação, agir é pensar com o corpo) de determinada forma, e deverá repreendê-lo se discordar. A discordância, no entanto, jamais será motivo de desavença, pois o que discorda sabe que tem, ele mesmo, aspectos que merecem reprovação do amigo, e sempre espero que ele esteja disposto a apontar se estou no caminho certo. O binômio admiração-discordância deve prevalecer em qualquer relação sadia de amizade, sempre na busca mútua pelo o desenvolvimento intelectual e emocional.

Essa amizade, enfim, é o que baseia qualquer tipo de relação, seja a dois, seja grupal ou mesmo universal. Se cada vez mais pessoas experimentarem esse ideal (estou falando, é claro, de um modelo idealizado, muito difícil de concretizar plenamente, mas possível de ser vislumbrado), mais e mais indivíduos vão se sentir impelidos a tratar qualquer pessoa como se fosse seu amigo, e talvez o mundo venha a ser um lugar melhor.

Referência

  • Montaigne, Michel de. “Da amizade”. In: Os ensaios: volume 1. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Crédito da foto

  • Maria Betânia Monteiro, minha amiga, namorada do meu amigo.