Xógum: A Gloriosa Saga do Japão

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Xógum: A Gloriosa Saga do Japão (Shōgun), escrito em 1975 pelo autor inglês James Clavell, é uma semificção que conta a história do daimio Toranaga em sua escalada ao xogunato, na transição entre os séculos XVI e XVII. Este personagem é na verdade uma ficcionalização de uma figura história do Japão, Tokugawa Ieyasu. Ao mesmo tempo, a história acompanha a trajetória do navegador  Blackthorne (uma referência ao explorador inglês William Adams) em sua viagem às terras nipônicas.

Sinopse

John Blackthorne, piloto de uma embarcação chamada Erasmus, desembarca (depois de quase naufragar) numa vila costeira ao sul do Japão. Junto com uma tripulação de holandeses, ele é feito cativo pelo líder da aldeia e tem o navio confiscado, com tudo o que há dentro dele. O senhor daquela província, Kasigi Yabu, pretende utilizar o navio e as armas de fogo dos navegantes numa guerra para dominar o Japão e se tornar xógum, ou seja, um regente secular subjugado apenas ao imperador (este, considerado descendente dos deuses, tem apenas poder simbólico).

Blackthorne é usado por Yabu para ajudá-lo a utilizar os instrumentos de guerra ocidentais que agora tem à disposição, mas seus planos são frustrados pela intervenção de seu suserano, o daimio (espécie de senhor feudal no Japão medieval) Yoshi Toranaga, que toma para si a embarcação e todo o armamento dos holandeses, assumindo ele mesmo os planos de guerrear contra o Conselho de Regentes, com o fim de se tornar xógum e garantir a segurança do herdeiro do trono, que ainda é uma criança.

Na trajetória dessa trama repleta de intrigas, traições e manipulações, Blackthorne acaba se tornando conselheiro de guerra de Toranaga, adquirindo o título de hatamoto (e, por definição, também samurai). O inglês aproveita essa chance para ganhar os favores do daimio e conseguir uma tripulação japonesa para atacar o Navio Negro português daquele ano (uma espécie de navio comercial de carga), frustrar os planos mercantis dos lusitanos e espanhóis e ao mesmo tempo diminuir a influência dos ibéricos sobre o comércio japonês. Este é apenas um detalhe de um tenso conflito entre, por um lado, ingleses e holandeses (protestantes) e, por outro, portugueses e espanhóis (católicos), que permeia a narrativa.

Mas nesse caminho Blackthorne se apaixona por sua intérprete, a samurai Toda Mariko, que fala idiomas ocidentais e é uma convertida ao Catolicismo. A relação entre os dois se intensifica com as lições de língua japonesa e sobre a cultura japonesa, e Blackthorne cada vez mais se acultura, acostumando-se com banhos frequentes, quimonos, chás e a comida frugal dos nativos. Ele e Mariko acabam tendo um envolvimento romântico intenso, e é a partir dessa relação íntima que várias reviravoltas ocorrerão na trama, tanto para Toranaga e seus vassalos quanto para o navegador inglês.

Aspectos literários

William Adams, fonte de inspiração para John Blackthorne

William Adams, fonte de inspiração para John Blackthorne

Este romance possui uma narrativa envolvente. Um dos motivos para isso é a complexidade com que Clavell constrói seus personagens. Ele é genial quando se trata de apresentar cada uma das figuras que compõem o palco dessa história, e é sempre possível antever como aquele personagem vai se encaixar e se comportar na história. Um exemplo é a apresentação de Toranaga. Em sua primeira aparição, ele está cuidando de um machucado na pata de um de seus falcões de caça, com extremo zelo e atenção, enquanto seu falcoeiro, em cuja mão enluvada repousa a ave, a segura. Com o tempo, descobrimos que o papel de Toranaga na trama é de um exímio falcoeiro de pessoas, manipulando cada uma das peças do seu lado do tabuleiro de xadrez.

Isso torna os personagens extremamente coerentes e verossímeis. Além disso, o narrador sempre apresenta ao mesmo tempo seus comportamentos e seus pensamentos, bem como a atitude mental de cada um deles ao escrutinar seus interlocutores. Esse escrutínio mútuo e constante caracteriza o denso clima de intriga da obra, em que muitas vezes, mesmo tendo uma relativa onisciência sobre a intimidade dos personagens, ocorrem reviravoltas, decisões inesperadas e resultados surpreendentes.

Essa facilidade de sabermos o que um personagem pensa se contradiz com a dificuldade de sabermos suas reais intenções, mas há um aspecto da cultura japonesa explorado na obra que explica porque isso ocorre. Aquilo que Mariko chama de “cerca óctupla” é uma disciplina mental, baseada nos ensinamentos budistas, pela qual a pessoa separa seus pensamentos e memórias em compartimentos mentais. As diferentes situações exigem que o indivíduo acesse compartimentos específicos, o que leva, por exemplo, Toranaga a quase acreditar na sua autorrendição forjada, que é na verdade um engodo para executar um plano de ataque e um golpe de estado.

Uma das qualidades mais reconhecidas de Xógum é o nível de detalhamento com que Clavell descreve a cultura material japonesa, bem como os costumes, hábitos e valores da hierarquizada sociedade nipônica medieval. Ele se aprofunda de tal maneira nessa espécie de etnografia literária que consegue brincar com possíveis choques culturais, mal-entendidos e ruídos de comunicação advindos das diferenças entre, por um lado, o inglês e seus tripulantes holandeses e, por outro, os japoneses. No meio de toda essa intriga, também têm papel de relativo destaque os portugueses e espanhóis católicos, cujos interesses são contrários aos dos representantes das nações protestantes.

Uma obra relativista

É justamente nesse encontro de culturas que vemos aquilo que considero o aspecto mais interessante da obra de Clavell: sua capacidade de tratar com relativismo as diferenças culturais dos personagens e povos que encenam as páginas do livro. A noção de barbarismo x civilização, por exemplo, não tem sentido absoluto em Xógum. Ocidentais consideram os japoneses fedorentos assim como estes não suportam o cheiro daqueles. De um ponto de vista ocidental contemporâneo higienista, isso parece estranho, já que os europeus da época em que se passa a história não costumam tomar banho, enquanto os japoneses são extremamente asseados, banhando-se constantemente.

Criam-se situações de constrangimento utilizando as diferenças alimentícias, como o fato de o inglês gostar de carne vermelha preparada com fogo enquanto os japonese praticamente só comem peixe cru. Chega-se ao limite quando um cozinheiro, designado para servir Blackthorne, considera inviável suportar ver uma carcaça de ave apodrecendo, que o inglês esquecera pendurada para cozinhar depois, e não consegue evitar sentir vergonha por ter jogado a carcaça fora e falhar com seu senhor, o que o leva a se suicidar.

Mas talvez não tenha havido constrangimento maior do que o sentido por Blackthorne quando Mariko pediu que ele lhe contasse sobre os hábitos de “travesseiro” dos ocidentais. Para ela e para outras duas mulheres que estavam presentes, não havia nenhum pudor em falar publicamente sobre sexo, mas o puritanismo dele o fez se sentir desconfortável. Sem entender a razão dessa timidez, Mariko disse a ele que, se ele quisesse “travesseirar”, poderia arranjar uma mulher disposta. Diante da recusa, ela o deixa ainda mais transtornado, fazendo-o se enfurecer, ao perguntar se ele preferiria um garoto. E então é ela quem se enraivece (embora sua disciplina lhe permita não demonstrar isso) diante da forma rude com que ele responde.

Mas eventualmente o inglês e sua intérprete têm um caso amoroso, no qual cada um ensina e aprende muito sobre o outro e sobre sua cultura. Mariko aprende a noção de amor romântico (o que não pode ser visto aqui como uma típica história eurocêntrica colonialista em que o ocidental “ensina” a nativa que a relação conjugal não precisa se dar através de um casamento arranjado), mas continua valorizando a importância do casamento como acordo entre famílias, como meio de se estabelecer alianças. Mas, se ela não deixa de se sentir feliz por compartilhar sua paixão com o inglês, de um modo como nunca havia sentido por outro homem, ele também aprende uma lição valiosa com ela, o desapego quanto à vida, permitindo-o aceitar a morte dela como necessária para o bem de todos.

O tema da intimidade revela também muito das diferenças entre as duas culturas sobre as relações entre homens e mulheres. Para Blackthorne, a princípio, parecia que as japonesas tinham sua liberdade extremamente  restringida. Mas Mariko entendia o contrário, que elas tinham tanta liberdade quanto os homens, embora cada gênero tivesse deveres diferentes. O fato é que tanto as situações que Blackthorne presencia ali quanto as lembranças sobre sua própria esposa na Inglaterra revelam as desigualdades sexistas em ambas as sociedades.

Gravura ukiyo-e de um guerreiro prestes a cometer seppuku

Gravura ukiyo-e de um guerreiro prestes a cometer seppuku

Particularmente incompreensível ao piloto inglês é a noção de honra que perpassa todas as castas da sociedade nipônica. Para ele é difícil entender a importância que os japoneses dão à ordem hierárquica e ao conjunto social. Qualquer ameaça a essa ordem, mesmo que seja uma pequena insubordinação, deve ser severamente punida, às vezes com a morte, para que o grupo não se  desagregue. E daí advém uma postura profundamente resignada diante da morte, que os japoneses encaram com uma tranquilidade trágica. Se em determinado momento Blackthorne fazia de tudo para evitar a morte, sua, de seus companheiros e de sua amada, em sua transformação em samurai ele passa a aceitar tudo como contingência do carma.

As crenças de todos também são relativizadas, não colocando o autor nenhum dos credos em posição privilegiada em relação aos outros. Se em um momento o Protestantismo, encarnado na figura de Blackthorne, parece se sobrepor ao Catolicismo dos inimigos do piloto inglês, em outro vemos a bela cena de uma missa católica ao ar livre, ministrada por um padre a apenas uma mulher. O xintoísmo e o budismo japoneses também aparecem como formas significativas de interpretar, ver e viver o mundo. A noção de carma, extremamente valorizada pelos japoneses, é absorvida por Blackthorne em sua transformação em nativo, e a expressão “Carma, né?”, repetida exaustivamente por ele, imitando seus anfitriões, quase substitui completamente qualquer menção à vontade do deus cristão do qual é devoto.

O sagrado, na forma como é encarado por cada um dos personagens, é respeitado por Clavell em sua importância subjetiva e transcendente em relação ao mundo profano das maquinações e politicagens. Enquanto toda a trama é permeada por interesses políticos, econômicos e carnais, que atingem todos os personagens sem exceção, a última esperança de harmonia (ua) é depositada no carma budista, na vontade dos deuses xintoístas ou na providência do Deus cristão.

Seja quanto à higiene, aos hábitos alimentares, à sexualidade, à religião, aos valores ou a qualquer outro aspecto cultural, todas as culturas no romance são tratados friamente por Clavell, que deixa os julgamentos etnocêntricos apenas nos pensamentos e bocas dos personagens, o que revela mais ainda de suas respectivas culturas. Cada cultura tem significado completo para seus respectivos membros, e podemos entender os motivos de cada um se comportar segundo a moral de seu próprio povo, sem necessariamente concordar com ela.

No entanto, talvez um dos maiores méritos de Clavell dentro de sua postura relativista seja a quebra de paradigma quanto ao papel do europeu estrangeiro em terras extraeuropeias. Diferente da figura colonizadora que se intromete em assuntos “indígenas” para tutelar os nativos e ajudá-los em suas lutas (nem uma aventura interplanetária como Avatar escapou desse esquema), Blackthorne é quem é usado pelo chefe nativo Toranaga para executar seus planos, e no final a história, “a gloriosa saga do Japão”, inicialmente centrada no navegador europeu, é realizada pelos japoneses e para os japoneses.

Links

  • Xógum (livro) – Wikipédia

Nota pós-texto

Existe uma minissérie homônima de 1980, baseada no livro, Confiram o trailer.

Sandman e as transgressões de Neil Gaiman

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Encadernado do primeiro arco, "Prelúdios e Noturnos", publicado pela Editora Conrad

Encadernado do primeiro arco, “Prelúdios e Noturnos”, publicado pela Editora Conrad

A série de quadrinhos Sandman, publicada entre 1989 e 1996, pelo selo Vertigo da DC Comics (e continuada posteriormente em vários spin-offs), conta a história de uma entidade que personifica o sono e o sonho (e assim ele é conhecido como Sonho, mas também por diversos outros nomes, como Morfeu, Devaneio, Rei do Sonhar e por qualquer outra denominação que as diversas línguas da Terra e do universo tiverem escolhido para designar esse fenômeno supostamente universal). É contada sua desgraça depois de ser capturado por um mago, a reconstrução de seu reino, uma milenar busca existencialista, os conflitos com deuses, lendas, entidades menores, mortais, e especialmente seus 6 irmãos, os Perpétuos.

Esse épico escrito pelo escritor inglês Neil Gaiman é uma grandiosa narrativa recheada de inusitadas digressões e contos menores que enriquecem o universo de Sandman, colocando em cena personalidades históricas como Shakespeare, deuses de diversas mitologias (judaico-cristã, grega, nórdica, egípcia – e até marciana), personagens do universo DC como Constantine, além de muitos outros seres, humanos, não-humanos, animais e entidades de várias dimensões, cada um com seus sonhos e pesadelos (não importa se reais ou irreais).

Mas um elemento que chama muita atenção do leitor perscrutador é o caráter transgressor de situações e personagens ao longo de toda a série, a começar pela supracitada mistura de mitologias.

Um panteão estendido

Gaiman desenvolveu em suas histórias um mashup mitológico, um pout-pourri teológico em que deuses, demônios, heróis e lendas de diversas mitologias do mundo se encontram, dialogam e entram em conflito. Um dos principais eventos da trajetória de Sonho é quando Lúcifer (da mitologia judaico-cristã) resolve entregar a ele a chave do Inferno. Sonho então preside uma grande e longa reunião com os representantes de todos os panteões da Terra, para decidir quem ficará responsável pelo grande salão das almas condenadas.

Nesse e em outros episódios, vemos uma perspectiva relativista por parte do autor, considerando que diferentes povos e culturas representam o universo de forma diferente, e deixando implícita a possível ideia de que as entidades sobrenaturais só existem por que os humanos as conceberam. Nesse sentido, contra a visão cristã de que todas as outras religiões são falsas, Gaiman apresenta a ideia de que as outras crenças são tão verdadeiras quanto o Cristianismo.

O relativismo das visões de mundo também é bem representado em situações em que Sandman e os outros Perpétuos são vistos por pessoas de culturas ou espécies diferentes. Nesses casos, eles possuem aparência e nomes diversos, como é visto na história do casamento de Orfeu e Eurídice, em que os Perpétuos têm nomes gregos e se vestem à moda helênica. E quando uma gata está sonhando com um mundo em que os felinos brincam com humanos como se estes fossem ratos, ela encontra Sonho na forma de um grande e sombrio gato preto.

Embora com certeza não tenha sido o primeiro a colocar diversas crenças e mitologias lado a lado, Gaiman radicalizou esse conceito, indo além do maniqueísmo, valorizando, indiretamente, a criatividade humana em todas as suas manifestações ao redor do mundo, reconhecendo que são todas dotadas de um significado complexo e um sentido profundo.

Chapeuzinho Vermelho, Lobo Mau, Branca-de-Neve, Pinóquio e outros numa capa da série Fábulas

Chapeuzinho Vermelho, Lobo Mau, Branca-de-Neve, Pinóquio e outros numa capa da série Fábulas, de Bill Willingham

Provavelmente influenciou diversos autores depois dele, o mais notável dos quais talvez seja Bill Williangham, escritor da série de quadrinhos Fábulas, em que os personagens dos folclores e contos de fadas de todo o mundo interagem entre si. Não por acaso Willingham é considerado herdeiro de Gaiman, não só nos temas como no caráter semiépico de suas histórias.

Gênero e sexualidade

A diversidade sexual é tratada por Gaiman com relativa naturalidade. Há personagens de destaque ao longo da narrativa que são homossexuais, e isso não aparece problematizado desnecessariamente, os casais gays e lésbicos, os travestis e os andróginos  simplesmente estão lá, com personalidades complexas e humanas, sem precisar prestar contas ao leitor quanto a suas preferências afetivo-sexuais nem qualquer adequação a identidades de gênero preconcebidas. Isso é o que se pode chamar de conteúdo adulto, não por se tratar de tema tabu, mas por este ser apresentado de maneira madura.

Também há personagens entre os irmãos de Sonho que transgridem a ordem do sex0-gênero, especialmente Desejo e Desespero. Quase todos os Perpétuos possuem um gênero. Destino, Sonho e Destruição são “homens”, Morte, Desespero e Delírio são “mulheres”. Mas Desejo não tem uma identidade de gênero definida, normalmente se apresentando como hermafrodita. Porém, a depender do episódio, Desejo pode se apresentar (ou ser identificado) como homem (chegando até a engravidar uma mulher mortal), outras vezes como mulher. Um personagem de destaque sem gênero definido é no mínimo desconcertante, tendo em vista a tendência nos quadrinhos em geral de apresentar os personagens com seu sexo/gênero bem definido, principalmente nas formas dos corpos, com mulheres extrema e idealmente curvilíneas e homens exageradamente musculosos.

Essa tendência a apresentar mulheres importantes com corpos de beleza idealizada é subvertida por Gaiman em suas personagens femininas. Morte, por exemplo, tem a aparência de uma mulher jovem um tanto diferente das super-heroínas peitudas. Ela aparece como uma mulher sensual, mas quase sem seios. Delírio tem o aspecto de uma adolescente desgrenhada, esfarrapada e aparentemente desarticulada. Porém, muito mais do que Morte e Delírio, é Desespero quem representa o ápice dessa subversão, e penso que ela mereceria ter recebido mais atenção de Gaiman nas histórias do universo de Sandman, pois é muito complexa e extremamente cativante. Desespero sempre aparece como uma mulher baixinha, obesa e “feia”, com presas de javali e ostentando cicatrizes pelo corpo nu. Como os Perpétuos são seres atemporais e transcendentes, esses aspectos estéticos não têm a menor importância para eles, o que acaba contagiando o leitor.

A partir da extrema esquerda, em sentido anti-horário, as mulheres Morte, Desespero e Delírio, @ andrógin@ Desejo e os homens Destruição, Sonho e Destino

A partir da extrema esquerda, em sentido anti-horário, as mulheres Morte, Desespero e Delírio, @ andrógin@ Desejo e os homens Destruição, Sonho e Destino

Paradoxos, nonsense e surrealismo

Sandman é uma história sobre coisas descomunais, ao mesmo tempo em que foca em coisas pequenas. Enquanto descreve a existência de seres onipotentes e a ampla repercussão de seus atos, também coloca em destaque a vida de seres comuns e como pequenas ações ou pensamentos podem reverberar Universo afora. Essas coisas todas, grandiosas e ínfimas, se encaixam de uma forma às vezes inusitada, com muitas pontas que dão nó inesperadamente na trama (e às vezes dando nó em nossas tramas neuroniais). Especialmente em seu caráter paradoxal, numa visão repleta de quebra-cabeças que subvertem a forma como costumamos encarar a realidade.

A perplexidade pode ser experimentada no fato de que os Perpétuos, ou seja, Sandman e seus irmãos, são onipresentes e ao mesmo tempo se apresentam em formas visíveis e interativas. Quando Sonho assume a forma de um homem vestido em roupas elizabetanas e conversa com Shakespeare, ele está ao mesmo tempo presidindo todos os sonhos de todos os seres do Universo. Sua irmã Morte acompanha cada criatura existente em seu momento de despedida da vida, e se encontra em milhões de lugares ao mesmo tempo. E assim com cada um dos outros. Gaiman nos convida a imaginar como seria ter uma individualidade e ao mesmo tempo estar imerso e atuante no Cosmos.

Os Perpétuos também são entendidos como eternos e imortais, existindo atemporalmente, mas também há referências a um momento em que eles começaram a existir. No entanto, existe um tipo de evento ainda mais paradoxal e, digamos, até nonsense. Os Perpétuos, enquanto personalidades (além de serem aspectos da realidade), podem deixar de existir e ser substituídos por outra consciência, como acontece com Sonho. Essa consciência assume totalmente o papel do Perpétuo expirado, inclusive com suas memórias. Porém, embora passe a existir naquele momento com outra personalidade, considera-se que ele sempre foi um Perpétuo e compartilha toda a história do Universo com seus irmãos.

Há um personagem importante em um dos arcos da saga chamado Fiddler’s Green, que em sua essência não é uma pessoa ou uma entidade pessoal, mas um lugar (Fiddler’s Green é o nome de um local mítico para o qual os marinheiros vão depois da morte, uma espécie de paraíso para navegantes e piratas). Esse também representa um aspecto surreal das  histórias de Sandman. Há várias “pessoas” que aparecem interagindo umas com as outras que são não apenas personificações de aspectos da realidade (como os próprios Perpétuos), mas são coisas do universo, como estrelas e planetas. Isso pode ser bem visto na história Sonho: O Coração de uma Estrela, encontrada no livro Noites sem Fim, em que várias entidades do universo se encontram numa reunião.

Outro elemento bem maduro e relativamente transgressor da abordagem de Gaiman é seu afastamento do maniqueísmo típico das histórias de Fantasia. Os próprios Perpétuos são exemplo disso, ao se mostrarem representantes não só daquilo que seus nomes revelam, mas do elemento oposto. É Destruição quem o afirma em determinado momento: Sonho também se define em complemento à Realidade, Morte à Vida, Destino à Liberdade, Delírio à Sanidade, Desespero à Esperança, Destruição à Criatividade e Desejo ao Ascetismo. Nenhum dos elementos dessas díades é entendido como mau ou bom, e todos os outros personagens da narrativa também são mais complexos do que numa visão em preto e branco.

  • [A imagem em destaque é uma ilustração de John Watkiss para Estação das Brumas, um dos episódios mais icônicos da saga de Sandman.]

Marco Feliciano não nos representa?

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(Aviso: este texto não é nenhum pouco uma defesa de Marco Feliciano.)

A eleição pelo PSC do pastor-deputado Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias tem causado grande repercussão por todos os extratos da sociedade brasileira. Raramente se viu algo assim na História recente do Brasil, uma manifestação tão grande nas redes sociais, na mídia e nas conversas, os brasileiros demonstrando seu repúdio a uma figura frontalmente contra os princípios que deveria defender no cargo que ocupa.

O meme mais difundido agora são fotos de internautas segurando um cartaz dizendo: “Marco Feliciano NÃO me representa”, frase geralmente precedida da identificação do fotografado (“Sou gay, sou negro, sou mulher…”). A sociedade está revelando abertamente que não quer um declarado homofóbico, racista, machista e simpatizante da teocracia representando seus direitos.

Mas a verdade é que Marco Feliciano não é um corpo totalmente estranho na sociedade brasileira, que se vê idealmente como inclusiva, multiétnica, antirracista, antissexista, anti-homofóbica etc. Embora estejamos testemunhando uma positiva manifestação contrária à ideologia discriminatória personificada em Feliciano, incluindo até muitos adeptos da religião do referido pastor, o fato é que a maioria de nós ainda não resolveu plenamente seus preconceitos de raça, sexo e gênero.

Nesse sentido, se por um lado Marco Feliciano é o contrário do que queremos para representar a luta pelos direitos humanos e pela igualdade das minorias, ele nos representa sim quanto aos preconceitos e valores que estão sendo tão combatidos por todos nós.

O problema não é ele ser homofóbico, racista e machista. Eu sou homofóbico, racista e machista, a maioria de nós é. O problema real é Feliciano se manifestar publicamente como defensor de uma tradição homofóbica, racista e machista. Ao dizer que a condição de miséria dos negros é resultado de uma maldição milenar, Feliciano deixa implícito que uma política a favor da população negra é dispensável, pois só quem poderia mudar isso é uma força divina. Ao se declarar contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e ser frontalmente contra o PL 122, ele entra em contradição com o ideal materializado na Comissão em questão. Ao atribuir publicamente as “mazelas” contemporâneas à emancipação das mulheres, parece querer reverter conquistas sociais que não deveriam mais ser questionadas.

Entretanto, na verdade Feliciano é a figura de um monstro que ainda existe entre nós e dentro de nós, um reflexo ampliado de algo que ainda não conseguimos extirpar de nossa sociedade nem de nossos âmagos. Mas, enquanto a sociedade em geral está se esforçando para destruir a homofobia, o racismo e o machismo, pessoas como Feliciano estão defendendo ideias homofóbicas, racistas e machistas, trabalhando para difundi-las e tentando evitar que os direitos humanos alcancem sua plenitude.

E não são poucas as pessoas que o apoiam, como revelou uma recente enquete do UOL. Marco Feliciano representa os interesses de uma grande parcela da população brasileira, preocupada em garantir a manutenção de valores conservadores e colocar as crenças bíblicas (próprias de apenas uma parte dos cidadãos brasileiros) acima dos preceitos democráticos constitucionais laicos.

Por esses motivos, faço coro com a sociedade manifestamente contrária à escolha de Feliciano para o papel político que está (ou não) exercendo. Ele é a pessoa errada para presidir a Comissão. Mas ele o é não porque seja preconceituoso, e sim porque é um defensor desses preconceitos. Precisamos de alguém que esteja lutando para superar esses preconceitos (mesmo que essa pessoa os tenha, mas, como eu disse acima, poucos de nós não os têm) e para ajudar a sociedade brasileira a se reeducar, a desconstruir o pior que temos em nós.

O problema é que Marco Feliciano nos representa em nossos valores atávicos e em nossa hipocrisia diária, na negação de nossa herança não-europeia, tanto em nossa biologia (vide a acusação de que Feliciano faz chapinha, não assumindo o crespor de seus cabelos, prática amplamente difundida) quanto principalmente em nossa cultura, nos hábitos alimentares, na língua e, com grande força, na religiosidade. Temos muito de africano em nós, mas boa parte dos cristãos não aceita a presença de terreiros de Candomblé e Umbanda no país.

É justamente porque Feliciano me representa naquilo que eu tenho de pior que eu não o quero na Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Isso não quer dizer que ele me represente em outro sentido mais relevante, pois diferente dele eu estou constantemente tentando vencer meus preconceitos e não sustentá-los. O presidente da Comissão deveria nos representar em nossos anseios democráticos para o futuro, que ainda estamos tentando construir.

Não estou de maneira alguma justificando Feliciano na Comissão. Mas não adianta somente retirá-lo de lá, é preciso também que a sociedade se modifique. E não quero dizer com isso tudo que é bom ter na presidência da Comissão uma pessoa homofóbica, machista e/ou racista. O que não podemos permitir é que esse cargo seja ocupado por um hipócrita estagnado na tradição medieval.

Ignorância ou religião?

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Silas Malafaia defende o que acredita com unhas e dentes. Segundo ele, seu trabalho é apenas condenar o pecado. Pecado esse que ele acredita ter sido definido na Bíblia. Ele refere-se à homossexualidade (não homossexualismo, pois esta nomenclatura deixa subentendido que se trata de uma doença) juntamente com prostituição e adultério. Afirma repetidamente que dois homens ou duas mulheres não têm capacidade para criar um ser humano “normal”, que uma criança necessita de uma figura paterna e outra materna para o seu desenvolvimento. Ao comentar que em sua Igreja existem fiéis que foram homossexuais (não concordo com isso de dizer que a pessoa foi gay, para mim é uma característica dela, algo que ela nunca vai deixar de ser) ele fez uso do termo “reorientado”, como se a homossexualidade fosse um distúrbio, um mau hábito que o indivíduo abandonou.

Onde está a ironia nisso tudo? No fato de ele pregar que Deus ama a todos como realmente são. Então por que Deus não aceitaria o fato de um ser, criado por Ele, ser homossexual? Capaz de amar alguém do mesmo gênero, querer constituir família com essa pessoa?

Eu acredito que a base de todas as religiões é a mesma: praticar o bem. Buscar ser uma pessoa melhor, sem prejudicar ninguém. Tudo bem que Silas e tantas outras pessoas são contra práticas homossexuais porque isso é da religião delas. O problema é o modo como o tema é abordado. Isso acaba influenciando negativamente pessoas que não têm uma boa formação acadêmica, que não possuem a mente aberta. Em outras palavras, isso as enche de preconceito.

O grande mal é a mania que muitas pessoas têm de ligar homossexualidade a safadeza, baixaria. Não é bem assim que a coisa funciona.

E quanto à Bíblia? Ela sim é muito mal interpretada. Não é algo que você lê e deve seguir fielmente, sem buscar a mensagem que Jesus passava através de suas parábolas, por exemplo. Sem falar que ao longo do tempo e das inúmeras traduções pelas quais ela passou, muita coisa se perdeu ou não foi expressa de forma clara.

Basicamente, eu penso o seguinte: o gênero da pessoa com quem você se relaciona não afeta o seu caráter. Não faz você melhor nem pior do que alguém. É algo seu, íntimo, pessoal. Não é preciso que alguém chegue e diga que é errado, ninguém pode julgar. Ninguém sabe o que você passou.

Na entrevista, eles abordam o tema durante o segundo bloco, num bate-boca que demonstra obviamente o quão Silas gosta de impor a sua opinião e crença.

Deus: um agiota severo

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Sempre compreendi a importância e a cobrança do dízimo por parte das igrejas. Sei também que há uma justificativa bíblica para sua existência e obediência. No entanto, o que me chama a atenção é a ferocidade com que as mais variadas religiões e igrejas o cobram.

É o dinheiro arrecadado a partir do recolhimento do dízimo e de outras doações – dinheiro esse livre de impostos, na maioria dos casos – que permite a manutenção e construção de novos templos, a implantação de serviços comunitários, o patrocínio de atividades de catequese e outras coisas mais. Não duvido disso.

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Ameaça à Psicologia laica

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O Conselho Federal de Psicologia proíbe os psicólogos de emitir opiniões ou tratar a homossexualidade como transtorno. Mas o deputado João Campos (PSDB-GO) apresentou um projeto legislativo que visa a permitir que psicólogos tentem curar a homossexualidade dos pacientes que assim desejarem. O Conselho criticou esse projeto, lembrando que suas normas éticas procuram combater a intolerância.

Essa questão veio à tona motivada pela recente polêmica protagonizada pela “psicóloga cristã” Marisa Lobo, que usava sua profissão para aplicar conceitos religiosos contrários à perspectiva hegemônica na ciência Psicologia, tentando curar homossexuais de sua “doença” e contrariando a ética do Conselho Federal de Psicologia.

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Catequese no Estado laico

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O governo de Ilhéus, Bahia, instaurou uma lei municipal que obriga os alunos das escolas públicas do município a rezar o Pai Nosso antes das aulas. Os 13 vereadores da cidade aprovaram a “Lei do Pai Nosso” por unanimidade e o prefeito a sancionou no dia 12 de dezembro de 2011. A ideia dessa norma no mínimo controversa saiu da cabeça do Vereador Alzimário Belmonte (PP), evangélico da Igreja Batista que, como tantos políticos incompetentes Brasil afora, não compreende o que é Estado laico.

Essa tentativa de cristianizar o Estado brasileiro não é a primeira nem a mais séria. Felizmente, vivemos numa época em que a imposição teocraticista encontra forte resistência da sociedade civil secularista. Neste sentido, a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) ingressou no Ministério Público da Bahia contra a lei, argumentando sua inconstitucionalidade, tendo em vista que viola a liberdade de crença dos estudantes.

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Liberdade e livre-arbítrio – parte 2

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A restrição da liberdade é condição sine qua non da própria vida humana em sociedade. Se não fosse o refreamento dos impulsos vitais, por exemplo, os conflitos interpessoais quase sempre terminariam em derramamento de sangue ou morte. Se as pessoas fossem totalmente desimpedidas para expressar o que pensam, qualquer discordância se tornaria uma troca de insultos, xingamentos e ataques verbais preconceituosos, desperdiçando-se a oportunidade do debate de ideias. Se não fosse a cultura, enfim, não seríamos humanos.

Esse refreamento deveria se tornar uma prática consciente, parte de uma autocrítica constante, norteada pela razão e por uma noção realmente libertária da liberdade. Esta só tem sentido como valor social quando se aplica a todos igualmente, e isso necessariamente significa que, paradoxalmente, nem tudo é permitido numa sociedade livre.

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Liberdade e livre-arbítrio – parte 1

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É por parte de cristãos de diversas denominações que mais se ouvem queixas reacionárias perante críticas dirigidas ao Cristianismo, manifestações pelos direitos dos LGBTs e reivindicações pela efetiva laicidade do Estado. Quando uma boa quantidade de pessoas critica o comportamento de evangélicos que transformam uma cabine do metrô numa barulhenta sessão de pregação, com direito a possessões divinas e diabólicas, alguns evangélicos sentem que se trata de uma repressão a sua crença. É difícil que algo assim não provoque calorosas discussões na internet.

Recentemente a direção do Hospital Regional do Agreste, em Caruaru, Pernambuco, proibiu as práticas de pregação e oração por parte de visitantes nas enfermarias. Nada mais é do que um ato de bom senso e compreensão da necessidade de os vários pacientes repousarem e se recuperarem de procedimentos médico-cirúrgicos. Pastores se sentiram oprimidos em sua liberdade de culto, como se a pregação fosse mais importante do que a liberdade e a saúde de outras.

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As micaretas de Cristo

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Uma coisa as manifestações religiosas perderam com o passar dos anos: a solenidade. Se era preciso mostrar ao mundo ou aos próximos a fé que se sentia, isso costumava ser feito com certa cerimônia e serenidade. As pessoas davam à exposição da fé o tom solene que as promessas de salvação e conduta requeriam. Hoje, o que mais se percebe é uma carnavalização da fé e da religiosidade.

As cidades estão cheias do que se poderia chamar de micaretas de Cristo: são carros de som, trios elétricos, bandas, palanques e fogos anunciando a salvação e a presença de Deus no meio da rua. O que antes era solenidade, hoje é balbúrdia e alarde, como acontece nas outras manifestações carnavalescas.

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