Da onipotência

As conversas sobre religião cristã ou sobre crenças religiosas do Cristianismo podem revelar muitas das contradições e preconceitos inerentes aos discursos teístas, notadamente quando os envolvidos na conversa são evangélicos. Não porque sejam pessoas mais preconceituosas ou contraditórias, mas, talvez, porque as religiões evangélicas, herdeiras de Lutero, encorajam os crentes a elaborar suas convicções (os católicos se contentam mais com um discurso instituído).

Tomem como exemplo o diálogo abaixo, que parafraseio por não ter podido gravá-lo, mas que reproduz a maior parte das ideias expressas pelos interlocutores. As duas personagens são colegas de trabalho que se encontravam na mesma sala que eu no momento da conversa. Eu apenas ouvi e não participei.

Sabe aquele menino que trabalhou no Setor X, que usava touca, umas roupas coloridas? Você soube que ele morreu?

Soube.

Quando você soube?

Fulana me contou semana passada.

Eu soube hoje, pois Beltrano me falou. Era tão novo, só tinha 16 anos! Mas é assim mesmo. Coisa de Deus.

Pois é, o mistério de Deus.

É uma pena, mas Deus sabe o que faz. Essas coisas acontecem, às vezes é até uma forma de evitar um sofrimento…

É, esse menino era meio alegrinho…

…então, isso poderia trazer um sofrimento para os pais… mas não sei, só Deus sabe.

É por isso, irmã, que a gente tem que orar pelos nossos filhos. Você ora pelos seus filhos, irmã?

Oro!

Todo dia eu oro a Deus pelos meus filhos.

A ideia corrente de Deus em nossa cultura se reveste de centenas de aspectos. É um prisma multifacetado que se vê de maneiras diversas e díspares de acordo com o ângulo, tal como o Diabo no Inferno de Dante, que tem três cabeças.

Não é novidade que o discurso cristão, católico, protestante ou evangélico, é homofóbico. A exortação “crescei e multiplicai-vos” não é somente uma ordem para que as pessoas tenham filhos, mas subjaz também a heterossexualidade como orientação sexual padrão. Há ainda outras passagens da Bíblia que condenam o comportamento e a orientação homossexual como crimes que devem ser punidos.

Mas é interessante averiguar as formas que essa homofobia encontra de justificar o preconceito. Na conversa reproduzida acima, entende-se como melhor a precaução de um possível sofrimento por parte dos pais do que a suposta assunção de uma preconcebida homossexualidade.

“Deus é tão bom que poupou o sofrimento dos pais desse menino… ah, e o dele próprio também, não nos esqueçamos do pobre coitado.” Mas ele não poupou o “sofrimento” de cerca de 10% da população humana e seus pais. Também não poupou o” sofrimento” daqueles que morreram sem ter esse “problema”.

Essa é a crueldade do “mistério de Deus”. Tudo o que ocorre, para esses teístas, é vontade de Deus e parte de um plano elaborado para o bem dos mortais. Não adianta argumentar (se você o fizer, é possível que o Diabo esteja lhe cochichando no ouvido), “Deus sabe”, “Deus não faz nada em vão”, é preciso aceitar, por mais que sua liberdade, felicidade e saúde intelectual estejam em risco.

Quando um crente vê frustradas suas preces, ele pode se justificar achando que não foi digno da graça ou considerando que Deus decidiu não concedê-la. Neste caso, ele entende que houve um motivo justo.

Segundo Maquiavel, para o governante, é melhor ser temido do que amado
Segundo Maquiavel, para o governante, é melhor ser temido do que amado

Porém, em toda essa situação o crente se vê sujeito às vontades onipotentes de Deus, sem se preocupar em entendê-las, sem se dignar a perguntar, a questionar o motivo de as coisas acontecerem. E, principalmente, sem colocar dúvidas sobre a índole do Deus em que acredita. Não importaria, por exemplo, descobrir que Deus é um safado que brinca com as vidas dos mortais; o importante é ser fiel a uma crença consagrada e ao ser que supostamente lhe deu a vida.

Que grande diferença há entre esse Deus e o príncipe maquiavélico que domina pelo medo em detrimento do amor? É muito mais fácil obedecer e ser fiel a uma divindade que ameaça com punição e recompensa com favores do que se sentir livre para procurar discernir entre o que é melhor e o que é pior para todos, fazendo escolhas segundo o bom senso e não de acordo com leis que serviam para apaziguar povos conflituosos e belicosos na Antiguidade.

Que grande diferença há, enfim, entre esse Deus e um chefe da Máfia? Este recompensa aqueles que beijam sua mão e obedecem suas prerrogativas, enquanto pune aqueles que o decepcionam. Não há aí senão a luta para sobreviver, pouco importando, para a maioria dos envolvidos, o caráter ilícito ou antiético das maquinações do Poderoso Chefão.

Pedir todos os dias a Deus que proteja seus filhos é como implorar para que estes fiquem imunes ao mal que aquele, onipotente, permite que exista. É como participar de uma loteria na qual os que têm mais chance são os que pedem ao dono da Casa Lotérica que dê um jeitinho em troca de um voto nas eleições.

14 comments

  • Lembrando que esse diálogo foi produto de uma interpretação de duas pessoas e não da religião cristã.

    Eu posso imaginar um diálogo completamente diferente desse, que talvez agradasse ao autor :), e que poderia ter sido produzido por dois cristãos.

    Pessoas com diferentes níveis de educação e com a mesma religião, podem usar sua religião para interpretar o mundo de forma completamente diferente.

    A pesar de ser cético, ateu, agnóstico (não sei em que me enquadro mas não acredito em nada espiritual), me incomodo quando as pessoas dizem:

    "Ah! o cristianismo matou muita gente na idade média…"

    Foi a igreja católica apostólica romana da época quem fez isso, não o cristianismo. Da mesma forma que foram duas pessoas quem falaram tais coisas do diálogo, não a religião cristã.

    De toda forma, uma coisa é certa, o cristianismo condena o homossexualismo. Ele não diz que tais pessoas devem sofrer pelas mãos dos homens, apenas diz não ser uma prática que agrada a Deus.
    Porém o Deus cristão aceita e perdoa a todos, inclusive o homossexual.

    "…contradições e preconceitos inerentes aos discursos teístas…"

    Não sei até que ponto apenas os teístas possuem esse defeito, não conheço outras religiões, porém intuitivamente acredito que TODAS de certo modo dizem o que é certo ou errado, o que se deve ou não fazer para conseguir algo, seja a salvação, a plenitude da felicidade ou a paz interior.

    Seria um preconceito dos não-teístas contra os teístas especialmente os evangélicos? hehehe Estou dando um de advogado do diabo aqui. hehehe

    Já imaginou um texto que começa afirmando que tal atitude, negativa, é comumente encontrada em homossexuais? certamente seria um texto taxado como homofóbico 🙂

    No final das contas, todos temos o direito de não gostar e criticar algum outro modo de vida.

  • Veja que interessante: ressaltar a semelhança entre "Deus" e o príncipe de Maquiavel somente reflete o quão humanas são as características dessas figuras, logo, levando a crer que as mesmas, realmente, não passam de um produto da reflexão consciente. Bom, isso pode ser uma racionalização muito simplória da crença de um "governante superior", mas acredito que não deixa de ser válida.

    Inté!

  • Lembrando que esse diálogo foi produto de uma interpretação de duas pessoas e não da religião cristã.

    @AmBAr, eu tive isso em mente quando, depois da transcrição do diálogo, disse que a ideia de Deus é multifacetada. Assim, concordo com você que há cristãos que concebem Deus de uma forma mais interessante para mim.

    No entanto, há algumas ideias que são muito recorrentes. As opiniões expressas nesse diálogo estão longe de serem exceção, e muitos evangélicos concordariam com elas (note que estou enfatizando, neste texto, o discurso evangélico de modo geral, e não o de outras correntes do Cristianismo).

    Sim, o Cristianismo é muito heterogêneo. Se formos a fundo nisso, vamos ver que, além dos católicos, protestantes e evangélicos que conhecemos melhor, há os anglicanos, os ortodoxos, os espíritas, os cristãos árabes, os cristãos japoneses etc. etc. etc… e cada corrente tem aspectos peculiares, e cada indivíduo tem ideias particulares.

    Então, não foi o Cristianismo que matou muita gente. Seria mais aproximado dizer que um certo discurso cristão justificou um conjunto de atos políticos de opressão (Inquisição) e de guerra (Cruzadas) num período da Baixa Idade Média. E lembremo-nos que também houve Inquisição por parte de governos protestantes.

    Sendo assim, eu faço uma ressalva no seguinte trecho:

    De toda forma, uma coisa é certa, o cristianismo condena o homossexualismo.

    Com certeza há pessoas que são cristãs, que são homossexuais e que consideram que não há erro na homossexualidade.

    Mas há um consenso na maioria dos discursos cristãos de que, se Deus criou homem e mulher, é para serem heterossexuais.

    Porém o Deus cristão aceita e perdoa a todos, inclusive o homossexual.

    O problema aí é que "o Deus cristão" também não é homogêneo. Há quem considere que ele vai punir, há quem considere que vai perdoar…

    Quando me referi às contradições e preconceitos dos discursos cristãos, não neguei que outros discursos os tenham também. Já vi textos ateus com argumentos falaciosos. E já vi discursos de homossexuais com falhas de argumentação e cheios de preconceitos (repletos, por exemplo, de heterofobia). Em geral, encontram-se esses problemas nos discursos militantes, sejam religiosos, políticos, sociais e até científicos.

    @Joey, o aspecto político de Deus é apenas uma de suas facetas. Se nos embrenharmos na Psicanálise de Freud, por exemplo, veremos uma origem psíquica primitiva das figuras sobrenaturais. Por que se inventou Deus é uma pergunta cuja resposta é demasiado longa…

  • hum…..
    deixa eu ver…

    olha lá… o Sol se pondo… tô indo ver.

    complexo olhar marcianos com olhos terráqueos… mas independente disso, os cristãos (posso dizer dos católicos) estão cada dia mais abertos ao diálogo e ao entendimento de sua própria religião e das religiões de outrem. Mas sabem como é: mudanças culturais são lentas…

  • Eu creio que, essa eterna barganha com Deus, nunca irá acabar. Toda essa "crençã" é puro interesse em ganhar um "pedaço" do céu, um pedaço de saúde, um pedaço de bens materiais, um pedaço de esperança, enfim nãó passa de um "mentigância".
    Se o Senhor Jesus, voltasse à terra, eu garanto, nenhum deles iria acreditar, o sonho é tão profundo, que iriam dizer que Ele é o satanás…
    É preciso acordar desse sonho profundo, se esse deus é conhecedor do passado, presente e futuro, porque iria criar aqueles que já é sabido que o mesmo não conseguiria chegar ao objetivo… ao céu, então, por que criá-los???

  • @Marquês, essas mudanças são mesmo lentas e envolvem toda uma sociedade ou conjunto de sociedades. Não poderia culpar, por exemplo, uma dada religião pelo comportamento irracional de um indivíduo. Provavelmente este indivíduo encontrasse outras correntes de pensamento (políticas, artísticas etc.) para expressar seus preconceitos e conservadorismos.

    Bem-vindo, @Junior!

    Louvo aqueles que oram pela paz mundial, pelo fim dos conflitos, pela vida dos feridos num acidente, e que não pedem nada para si, pois sabem que isto deve ser conseguido por esforço próprio. Mesmo não acreditando em Deus, eu acho que essa atitude é muito mais evoluída do que a de alguns ateus que querem que o mundo se dane.

    Penso que a crença na predestinação contradiz a atitude de pedir através da oração. Além disso, pressupõe implicitamente que não temos liberdade nenhuma (este é um dos argumentos do ateísmo de Mikhail Bakunin).

  • Tema mais que polêmico, meu caro, mas uma coisa realmente é certa: Deus é algo mais que complexo e paira acima de qualquer vínculo a religiosidades herméticas! Difícil, tão difícil como entender, por exemplo, um deus de magnitude e de tanta compaixão deixar ser condenado um filho ao inferno eterno… Creio em Deus, mas admito que minha fé teve e ainda tem muitos altos e baixos devido às muitas interpretações a que se pode levar qualquer conpreensão divina por meio de multifacetadas bíblias! Sigamos, com ou sem fé, a tolerar as diferenças, sem o famoso "é assim que deus quer": tantos crimes e tantas imundícies podem ser realizadas em nome deste lema, não é mesmo…? Abração!

  • Bem-vindo à Teia Neuronial, caro @Dilberto!

    Esse é um tema polêmico mesmo. Mas alguém tem que tocar no assunto, não é?

    Uma coisa eu digo: não é a moral religiosa que vai fazer uma pessoa ser mais ou menos humanista, ética, universalista etc. Adquirir essas características depende muito mais de uma disposição íntima e dos esforços pessoais para evoluir do que de uma corrente de pensamento que ela siga, qualquer que seja.

  • Talvez não tenhas pego o espírito do meu comentário, caro Thiago: concordei com você sobre a visão geral do texto! E a visão que fazem de Deus é muito mais pelo temos do que pelo amor e compreensão! Não consigo entender o homossexualismo, confesso, mas não o condeno às labaredas do inferno – até duvido um tanto deste tal inferno… Essas condenações eternas são tão díspares de um deus de amor… Enfim! Abração! E volte logo aos Morcegos com seus sempre espirituosos comentários (adorei aquele regime escravocrata do Papai Noel em relação a seus duendes, ré ré)!

  • O 'post' do Batman estava em fase de finalização quando comentaste: se puderes voltar lá para ver o "fim"… Por isso a partezinha em Inglês: era para que eu me lembrasse de comentar aquelas ideias encontradas na net sobre o desenho de 92! Inté!

  • Jisuis-maria-josé.
    O.O

    Li o diálogo, terei q voltar depois para ler o restante do post com calma q ele merece.

    até lá, MEDO dessas coisas.
    "esse menino era meio alegrinho…"

    PQP!!!

  • Muito bem comparado o deus com um chefão da máfia. Até porque os "queridos" do chefão o admiram com o mesmo temor que os crentes admiram a deus.

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