Empatia e estupro

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Para muitas pessoas, o processo de cultivar a empatia é um exercício de abstração. Para homens vivendo numa sociedade machista, por exemplo, é quase impossível entender o que sentem as mulheres quanto a assuntos como estupro. Por isso é que há diversos homens se divertindo com a notícia de uma adolescente estuprada por 30 indivíduos do sexo masculino, fato ocorrido no Rio de Janeiro no último dia 20 e divulgado pelos próprios agressores no dia 25; por isso é que os estupradores em questão não conseguem pensar na vítima como uma pessoa com sentimentos, com inteligência, com alma; por isso é que mesmo entre aqueles que se indignaram há os que relativizam a violência e amenizam o papel dos agressores, atribuindo parte da culpa à vítima; por isso é que vemos poucos homens comentando com racionalidade sobre o assunto enquanto muitas mulheres expressam sua revolta.

Este texto não tem a pretensão de elucubrar sobre a cultura do estupro, sobre o recente caso em questão, sobre as implicações de uma estrutura social que não só permite que estupros coletivos aconteçam como que eles sejam minimizados, como se fossem problemas menores. Essa problematização já está sendo feita por várias mulheres na internet (deixarei links no final da postagem). O que proponho aqui é um pequeno exercício de empatia para os homens, pessoas como eu, que têm uma posição privilegiada na sociedade patriarcal, machista e androcêntrica, e que não sabem o que é o horror de se ver o tempo todo em paranoia, com medo de sofrer qualquer violação de sua privacidade, de sua intimidade, da integridade de seu corpo.

E, colocando-me no lugar de homem, deixo claro que é um exercício para mim também. Não me atrevo a dizer que sei do que estou falando, que entendo o que uma mulher pensa e sente diante de uma situação de estupro. Como disse no início do texto, trata-se aqui de um exercício de abstração, de tentar me imaginar no lugar da outra, de usar as capacidades mentais para se obter um vislumbre do lugar de onde falam as mulheres que expressam seus medos, sua indignação, sua revolta, e quem sabe assim poder atuar no mundo de maneira mais construtiva para evitar que a violência estrutural contra as mulheres se perpetue e se naturalize. Um esforço incansável, enfim, de nós homens mudarmos nossa forma de enxergar e tratar as mulheres, retribuindo uma dívida milenar que temos para com elas.

É preciso começar esse exercício pensando no estupro não como um ato sexual, mas como uma violência, no mais forte sentido que tem essa palavra. Lembremo-nos que violência tem o radical do verbo violar, uma palavra que remete à ideia de se quebrar uma barreira previamente estabelecida como proteção de algo valioso. Neste caso, pensemos que a barreira em questão é a delimitação imposta pelo indivíduo contra a ação de terceiros, para proteger sua privacidade pessoal. Se este limite for trespassado sem seu consentimento, constitui-se uma violação, uma violência. Quando isso ocorre numa situação de vulnerabilidade e impossibilidade (física ou psicológica) de a vítima se defender, temos um caso exemplar de estupro.

Ficção científica e homens violentados

Tendo isso em mente, pensemos agora num dos clássicos do terror e da ficção científica do cinema, Alien: O Oitavo Passageiro (Alien, 1979). Kane é um personagem crucial dessa história, que é uma história marcada por uma alegoria do estupro. Esse homem se encontra totalmente indefeso quando uma criatura alienígena e monstruosa se agarra fortemente ao seu rosto, enrosca uma cauda preênsil em seu pescoço, embotando-lhe os sentidos e tornando-o completamente vulnerável à inoculação, através da boca, de uma criatura parasítica que posteriormente o mata. Essa imagem se repete de forma chocante nos outros filmes da franquia, e sempre nos remete a uma relação de poder na qual a vítima está impotente e o agressor tira vantagem dessa impotência para seu próprio benefício. Mantenhamos essa alegoria fermentando na caldeira de nossos neurônios.

Robocop: O Policial do Futuro (Robocop, 1987) tem uma das cenas mais violentas do cinema de ação da década de 1980 e talvez de várias outras décadas do século XX: Alex Murphy, um homem, agente da polícia de Detroit, é alvo de uma emboscada e passa diversos minutos sendo assediado, ferido, mutilado e perfurado pelas balas de um grupo de criminosos. Murphy está totalmente indefeso, não tem para onde fugir, à mercê de uma violência que lhe fere a alma e destrói seu corpo, e tem consciência, durante toda a cena, de que sua integridade e sua vida estão por um fio e dependem somente da vontade de seus violadores. Estes não têm a menor preocupação por estar cometendo um assassinato, pois têm a proteção de empresários poderosos e passam praticamente todo o filme livres e impunes. Deixemos essa narrativa em cultivo no cadinho de nosso cérebro.

Vamos nos remeter a um filme mais recente, Distrito 9 (District 9, 2009), em que o protagonista, Wikus van de Merwe, um homem, se vê infectado por uma substância que o transforma gradativamente num alienígena. Os cientistas da empresa para a qual trabalha, logo que percebem o que está acontecendo, deixam de tratá-lo como uma pessoa, e apenas se utilizam, sempre à revelia de Wikus, de seu corpo mutante para experimentar armas de origem extraterrestre. Ele se encontra impotente diante dos cientistas, que simplesmente ignoram as súplicas para que contatem sua família e não se importam sobremaneira com sua veemente recusa em colaborar com os testes. Após ter seu corpo explorado e alienado, ele passa a ser considerado descartável e é condenado à morte. Tenhamos em mente, enfim, essa trama perturbadora a maturar no terreno de nossas mentes.

Autorreflexão

Pergunte-se se você gostaria de estar no lugar de Kane, de Murphy ou de Wikus (se temos tanta dificuldade de nos ver no lugar de uma mulher, talvez consigamos nos identificar com esses homens brancos cisgêneros, pertencentes ao modelo de ser humano de uma cultura eurocêntrica, androcêntrica e cisnormativa). Indague-se se seria confortável ter o pescoço asfixiado enquanto um monstro lhe enfia uma parte de seu corpo e, ainda por cima, impregna você com uma criatura indesejada que transforma de maneira drástica seu próprio corpo sem que você tenha a opção de se livrar dela.

Será que você conseguiria lidar bem com um grupo de homens encurralando-o e fazendo de você o que bem querem, divertindo-se às suas custas, cada um deles violando seu corpo e sentindo prazer em dominá-lo? Seria fácil encontrar-se totalmente indefeso, sem ter para quem pedir ajuda, ouvindo seus agressores zombar de você como se você fosse responsável por sua própria desgraça? Como seria ter sua vida destruída para sempre, ao tempo em que os criminosos saem por aí se gabando de seu feito, sem medo de ser punidos e, no máximo, recebendo uma advertência?

Você seria capaz de suportar a objetificação de seu corpo, ver-se forçado a fazer coisas que não quer fazer, impotente diante de sujeitos que são autorizados a dominar você, ignorando completamente seus próprios desejos, deixando-o arrasado psicológica e fisicamente? Quão disposto você estaria a viver sabendo que, depois de ser usado e abusado sem direito de reclamar, as pessoas passariam a tratar você como um objeto sem mais nenhum valor social?

Procure se esforçar agora para imaginar como se sente uma mulher que é estuprada por uma pessoa totalmente desconhecida, além de ser obrigada a aceitar a gravidez resultante desse estupro; o que passa pela cabeça de uma mulher estuprada por um grupo de homens, culpabilizada pelo crime deles, tendo seu próprio testemunho desacreditado e vendo os agressores impunes e propensos a repetir o crime com outras vítimas, um crime que destrói seu corpo e deixa rombos na alma; o que deve sofrer uma mulher que é estuprada por um ou mais homens conhecidos, nos quais ela achava que podia confiar, que a veem como um objeto que serve apenas para satisfazer os desejos deles, sem direito a ter seus próprios anseios respeitados, e que depois de ter seu corpo explorado por esses homens passa a ser considerada uma pessoa indesejada enquanto parceira de um relacionamento afetivo.

Reflita. E se quiser assista ao curta Maioria Oprimida (Majorité Opprimée, 2010), onde um homem vivendo num mundo ginocêntrico é estuprado por um grupo de mulheres.

É bom deixar claro que essas situações fictícias não têm paralelo com a estrutura de representações de papéis de gênero que permite que sejam tão comuns os estupros de mulheres por homens em nossa sociedade. Essas cenas são exceção, enquanto a possibilidade de estupro de mulheres por homens, na vida real, é uma constante.

Alguns textos escritos por mulheres sobre o estupro coletivo no Rio de Janeiro em 20 de maio de 2016

Sobre Alien e estupro

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