Estupro – violência hierárquica e institucionalizada

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A cultura do estupro se constitui a partir de discursos que banalizam e naturalizam a violência contra a mulher. Esta vem sendo perpetuada a partir da reprodução de determinadas práticas sociais, ilustrando, assim, o cenário de ampla misoginia em que vivemos.

Como exemplos dessas práticas, podemos citar: o menino que aprende que pode tocar partes íntimas do corpo da menina, porque é engraçado vê-la irritada; o rapaz que embebeda a moça, para que ela fique mais vulnerável e ele possa abusá-la; uma menor de idade que sofre assédio sexual e que, mesmo sem exercer poder de consentimento, é responsabilizada pelo ato, porque “provocou” e o agressor “não conseguiu se conter”; o dizer popular que insiste que “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”; ou, por fim, a vítima de estupro que reporta o crime às autoridades e é desacreditada e culpabilizada.

Neste último caso, percebemos que a polícia não a escuta, enquanto a sociedade tenta achar algo que legitime a violência. A roupa que a mulher estava usando, os lugares que ela frequentava, o horário em que o abuso aconteceu, a forma como se comportava. Mesmo fragilizada, a vítima carrega, consigo, a responsabilidade pela brutalidade que ela mesma sofreu. É uma cultura tão institucionalizada que até mesmo mulheres, por vezes, não possuem afinidade umas com as outras. Não têm a noção de que poderia ter acontecido com elas também.

Quando estupradores são presos, não é só a lei que os pune. Eles são violentados pelos próprios presidiários, numa clara demonstração de que, ali, são submissos. Isto só confirma que estupro não é sobre sexo, mas sim sobre relações de poder. Portanto, é seguro afirmar que todo homem é um estuprador em potencial, isto é, todo homem tem a capacidade de estuprar alguém. Perder tempo contestando, alegando que “nem todos os homens são assim” ou que “estupradores são doentes” é uma completa falta de empatia para com as mulheres. Estupradores não são doentes, nem monstros. São homens, cientes de seus atos, fazendo uso dos privilégios da supremacia masculina e da hierarquia de gênero.

Nesse contexto, o feminismo surge como oposição ao sistema patriarcal, considerando que o gênero feminino é marcado, historicamente, como alvo de opressão. Ainda hoje, graças à eficácia da disseminação dos discursos machistas (por meio de músicas, cenas de novela, comerciais de cerveja, ou pornografia) a mulher é vista como aquela cujo papel é servir ao homem, seja ele seu marido, seu filho, seu amigo, seu chefe, ou um desconhecido.

Não deveria ser preciso, mas temos que reforçar que quando uma mulher diz “não”, ela não está pedindo para ser convencida. Que todas as mulheres devem ser respeitadas, não só sua mãe, irmã ou esposa. Que absolutamente nada justifica uma violência tão extrema como o estupro. Que nenhum ser humano deve passar pela aflição de ter alguém dentro de seu corpo, agindo sem permissão. Às vezes, o óbvio precisa ser dito.

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