Inesquecível…
…abdução
Diziam antigos gregos, a cujos ouvidos sussurrou Clio (fato que também foi contado por esses mesmos gregos), que do Caos, incapaz de se conter e provocando em si mesmo uma mitose, acabou surgindo o Amor, que herdou do pai a inconstância e recebeu o nome de Eros. Mas, diferente da natureza caótica do pai, a natureza erótica era unir e não separar, construir e não destruir.
E por ser afeito à união, à amizade, à paixão, o Amor tinha como instinto natural amar. E é por isso que, por causa da Lei de Tweedledum e o Teorema de Tweedledee, quem ama se transforma em amor. E, uma vez que Eros, ao receber a má influência da materna Afrodite, ganha asas, quem ama também voa.

Encontro na Praça Tukro

Quando Agnes passou por mim, interpostos por uma vitrine embaçada, ela fingiu não me ter notado. Mas nós dois reconhecemos a luz que emanava nas duas direções do vidro, como a luz abafada que sai da escotilha de uma nave espacial. Eu sabia que ela passaria outra vez por ali, e deslizei o dedo na umidade, escrevendo:
Agnes,
Tua luz é solar e desembaça vidros como este. Olha por entre as letras desta mensagem imediata do 3º grau, para eu ver teus olhos, pois se tua silhueta vaga já me incita a sentir teu calor por trás da vidraça, teu olhar me dará o ímpeto de derrubar qualquer barreira invisível.
Prepara-te para ser abduzida e voltar para teu planeta-natal.
Jacob.

Amor-te
Quando Eros se deu conta, seu coração alado subiu até a cabeça, o Capitólio de Psiquê, e, olhando através das janelas oculares, viu que Psiquê estava perdida lá fora. Psiquê não havia amado e não havia sido amada, ou não se o lembrava mais. Estava caindo num precipício no deserto, confundia a fome do Sarlacc com promessas de felicidade, e durante a queda foi raptada por asas invisíveis.
Voaram pela Biblioteca de Alexandria, e as páginas esvoaçaram, soltando letras, palavras e aforismos sobre o poder do olhar e do toque. Passaram num rasante pela Floresta das Amazonas, e as ninfas lhes revelaram os segredos das carícias e dos beijos. E foram se recolher no Capitólio de Psiquê. E mesmo sem ter visto mais do que as asas de Eros, ela cedeu às investidas de seu próprio desejo, que era também o anseio do amado. Mas eles não viram o dia nascer.

Encontro no Rio da Floresta das Amazonas
Agnes,
Minha nave é submarina e eu assumo duas formas, uma símia e outra cetácea. Eu te levo até a margem. Agora dê um passo para dentro do rio e veja que tuas pernas se tornam nadadeiras. Eu te largo e mergulho. Não tens mais como fugir à terra seca. Segue o peixe-boto que te colocou nesta armadilha. Teu planeta-natal te espera numa redoma no fundo do rio, guardada como a nostálgica Kandor na Fortaleza da Solidão.
Avista minha nave, meu Nautilus de 16 tentáculos. E não te preocupes com Nemo, alguém vai procurá-lo.
Jacob.

Hórus e Aurora
Foram algumas as noites em que Psiquê e Eros se amaram sem ver o dia nascer. Eles sentiam o amor mas não o conseguiam divisar. Quando enfim Morfeu os embebedou, eles abriram juntos os olhos e viram Hélio, e este os viu juntos, e Aurora chorou. E sempre que eles redescobrissem o amor nas manhãs em que acordassem juntos, a chuva cairia num choro de felicidade.
Hélio é o olho de Eros e também é o olho de Hórus, e é por isso que o Amor tem asas de falcão e um olho, uma estrela dourada, que vê e protege sua amada da escuridão. O outro olho de Hórus é de caçador, de lobo de quem Ártemis é guia, satélite prateado que reflete o rosto de Dioniso nas noites molhadas de suor.
Aurora são as asas de borboleta de Psiquê, que quando batem provocam tempestades e trovoadas no Olimpo. Ela umedece os céus para que Hélio não cegue nem incendeie o mundo e para que o olho prateado de Hórus se embace de vez em quando nas noites modorrentas.
E é por isso que Amor e Mente são como o Sol e a Chuva.
Encontro no Porto Espacial Verne
Agnes,
Sereia, estamos chegando ao teu planeta-natal. Vê na escuridão oceânica as estrelas-do-amar piscar e a redoma clara luzir, te chamando. Olha pela escotilha do Nautilus o imenso firmamento.
Não, não estamos mais no mar. estamos subindo os céus num balão em forma de concha, e nos aproximamos das estrelas e estamos chegando cada vez mais perto da Lua, a nave-mãe que nos vai acolher para zarparmos na verdadeira viagem. Tu não és mais meio-peixe, é toda lupina sob o encanto lunar.
Fly you to the moon. Vamos, loba, embarquemos.
Jacob.
Inexpressível
Choveu nessa tarde e a Lua crescente refletiu as 7 cores do arco-íris. Agnes Psiquê Aurora se espalhou pelo espaço como uma nebulosa bruxuleante, e as crianças da Terra viram a nuvem cósmica tomar a forma de uma mulher, de um peixe e de uma loba.











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Rapaz, quantas intercalações que me quedo calado, restando velado o amor pelas minhas mulheres (mãe, mulher e filha a caminho) diante destas belas reminiscências desta que é a mais rica das mitologias (pena a pobreza do estado Grego, né?)! Abração, apaixonado amigo!
Bela composição, realmente inspirada e inspiradora, rs.
Mas confesso que algumas referências me são nebulosas, preciso pesquisar um pouco para compreender o texto em sua plenitude. Muito bom!
Abraço!