Mulher Maravilha e o alcance da representatividade

Padrão

Não devemos ignorar a importância de certos padrões, quando um fenômeno se repete à exaustão, mesmo que essa repetição não seja óbvia. Tampouco devemos ficar quietos a respeito da quebra desses padrões, por mínima que seja, pois às vezes é essa mesma quebra que evidencia uma repetição que andava ocorrendo sem que muitos de nós se dessem conta disso, e sem que a maioria percebesse que um padrão, especialmente um padrão nas representações sociais, pode implicar em sentimentos de exclusão por parte de uma parcela das pessoas.

Christopher Reeve como Super-Homem

Christopher Reeve como Super-Homem

A minha geração assistiu na infância aos filmes do Super-Homem estrelados por Christopher Reeves, e tivemos amplamente divulgado um icônico personagem dos quadrinhos que representa um arquétipo de herói masculino. Anos depois, o Batman ganhou várias produções cinematográficas, estreladas por diversos atores e dirigidas por diferentes cineastas. A presença dos super-heróis dos quadrinhos no cinema foi alicerçada por esses dois marcantes personagens, que estão entre os mais populares da DC Comics.

O começo do século XXI foi marcado pelo início das grandes produções da Marvel no cinema, com o Homem-Aranha, os X-Men e os componentes dos Vingadores se transportando das páginas desenhadas para a projeção nas telonas. Tirando X-Men e suas continuações, que em geral giravam em torno de um grupo mais ou menos diverso de personagens, os títulos solo apresentavam heróis com certos traços em comum. Homem-Aranha, Wolverine, Homem de Ferro, Capitão América e Thor são todos homens brancos. Também o são os dois personagens da DC supracitados.

O fato é que a maioria dos heróis mais populares se enquadram em um estereótipo androcêntrico, além de eurocêntrico, heterossexista, cissexista e capacitista. Em nossa cultura, o ser humano padrão é pensado segundo esses moldes, e por isso é tão mais fácil conceber histórias com personagens do sexo masculino, brancos, heterossexuais, cissexuais e sem deficiência. Um dos efeitos colaterais desse padrão é a criação de um público (seja da Literatura, do Cinema, dos Quadrinhos etc.) padronizado, que coincide com a parte da população a quem mais se concede voz e vez.

Os Vingadores no cinema

Os Vingadores no cinema

Porém, outro efeito colateral é que, na falta de representatividade, pessoas do sexo feminino, negras, homossexuais, transexuais e com deficiência se identificam com esses personagens padronizados, seja pelos valores pelos quais lutam, seja pelos poderes de que são dotados, seja por suas roupas estilosas. Essas pessoas ou simplesmente acatam essa falta de diversidade ou reimaginam seus personagens favoritos como pertencentes a outro gênero, a outra etnia, a outra sexualidade. Estão aí tantos cosplayers que se vestem de seus personagens favoritos mesmo quando estes pertencem a outro gênero, a outro grupo étnico-racial ou a outra orientação sexual.

O fato é que, se levarmos às últimas consequências a questão da identificação do público com os personagens, teremos que lembrar a óbvia sabedoria popular que diz: ninguém é igual a ninguém. O fã padronizado que acha feio quando uma mulher se fantasia de Super-Homem, quando uma pessoa negra se fantasia de Wolverine ou uma pessoa gorda se veste como o Homem-Aranha pode não perceber que, mesmo ele sendo branco, homem, hétero, cis e sem deficiência, ele não é igual ao Bruce Wayne, pode ter os olhos de cor diferente, os cabelos de outra textura, o físico bastante diverso daquele de seu personagem favorito, falar uma língua que o personagem não fala, mas na sua cabeça o gênero e a cor do indivíduo fictício falam muito mais alto sobre sua identidade do que qualquer outra característica que o defina.

Alguém pode argumentar que, já que ninguém deveria se preocupar com o fato de que qualquer pessoa é diferente dos personagens com que se identifica, aquelas que se enquadram nas minorias oprimidas não precisariam exigir personagens diferentes daqueles que já estão estabelecidos, dos padronizados de sempre. Infelizmente, o problema não se resolve de maneira tão simples.

Quando a maioria dos personagens repete um padrão, isso reforça a ideia de um ser humano modelo, e todos aqueles que forem variações, ou seja, que pertençam ao sexo feminino, que não sejam brancos, nem heterossexuais, nem transexuais e tampouco tenham alguma deficiência, normalmente ocuparão um lugar estereotipado. Basta ver como é comum:

  • ver mulheres no papel de interesse amoroso, decoração de cenário ou interpretando a donzela em apuros;
  • o repetitivo tropo “o cara negro é o primeiro a morrer”, pelo qual o personagem negro de um grupo é tratado como descartável;
  • que, nas raras ocasiões em que há algum personagem homossexual ou transexual numa narrativa de quadrinhos ou cinema, ele serve como alívio cômico;
  • a inadequação compulsória de personagens com deficiência, muitas vezes ocupando o papel de vilão ou de uma pessoa completamente indefesa e incapaz.

Dessa forma, existe um fortíssimo impacto positivo quando a indústria do entretenimento dá grande destaque a uma personagem despadronizada no papel de protagonista, de heroína ou super-heroína de uma história. As meninas, as crianças negras, as que se sentem diferentes da maioria com relação a sua sexualidade, as que não se identificam com o sexo/gênero designado a elas pela sociedade e as que possuem deficiência física sentirão, ao verem nos quadrinhos ou no cinema personagens com essas características, que elas podem ser tão protagonistas de suas próprias vidas reais quanto suas heroínas e heróis fictícios. E as que se encaixam na maioria dos padrões terão uma chance de aprender a importância de conviver com a diversidade sem se colocar numa posição privilegiada baseada numa certa identidade.

Patty e Diana

Patty Jenkins e Gal Gadot no set de filmagens de Mulher Maravilha

Patty Jenkins e Gal Gadot no set de filmagens de Mulher Maravilha

Por isso tudo penso que devemos celebrar o filme Mulher Maravilha (Wonder Woman, 2017), por ser uma obra tão bem feita e divulgar tão digna e amplamente uma das mais importantes personagens da DC Comics, por toda a mensagem feminista que carrega em sua concepção.

Provavelmente as meninas dos dias atuais terão em Mulher Maravilha o mesmo tipo de maravilhamento, o mesmo sonho de se tornar uma pessoa extremamente poderosa e virtuosa que uma geração anterior de meninos teve com Super-Homem e Batman, e não precisarão mais se contentar em se identificar com a donzela em perigo Lois Lane ou se sentir inadequadas ao se vestir como o Homem de Aço. Ao mesmo tempo, meninos poderão se identificar com uma personagem tão notável, virtuosa e forte quanto Diana de Temíscira, sem que isso implique em qualquer suposto desajuste de sua identidade de gênero.

E eu digo tudo isso pensando não apenas na grande importância do simples fato de ser um filme sobre uma mulher e, não menos pertinente, dirigido por uma mulher. Isto por si só é extremamente interessante para a indústria e para o público, pois dá visibilidade ao trabalho das mulheres, que num meio como o do cinema é sistematicamente invisibilizado, bem como permite suspender por um momento um sempiterno olhar masculino sobre as personagens femininas.

Penso também que esse é um filme muito bem feito, e meu diagnóstico se baseia no fato de que eu passei mais de duas horas na frente da telona sem me cansar, sem achar enfadonho, sem sentir que o ritmo da narrativa se perdeu em algum momento. Pelo contrário, a história me prendeu, me fez querer ver os desdobramentos seguintes cada vez que um elemento novo aparecia em cena, e testemunhar o desfecho da trajetória que levou uma pequena e sonhadora menina a se tornar uma formidável guerreira.

Outro elemento que torna a história complexa e interessante é a tridimensionalidade dos personagens. Chama especial atenção o Deus Ares, o antagonista da história, que não é simplesmente um vilão no sentido mais convencional e maniqueísta do termo. Por trás de seu empreendimento de fomentar a guerra, há motivos verossímeis e lógicos, até mesmo altruístas de um certo ponto de vista. De modo geral, os personagens são multifacetados e dificilmente podem ser considerados rasos ou simplistas.

Nesse caminho, os coadjuvantes, principalmente o grupo de combatentes que o sidekick de Diana consegue arregimentar para a missão, estão ali não apenas para servir como aliados da heroína, mas para problematizar questões pertinentes sobre protagonismo de identidades étnicas minoritárias, trazendo diálogos e situações que conversam com a própria condição de Diana num contexto androcêntrico, fazendo por meio da arte cinematográfica um ensaio de interseccionalidade.

A adequação da protagonista feminina ao papel tradicionalmente ocupado por homens no esquema narrativo da jornada do herói pode suscitar questionamentos pertinentes. É interessante, por um lado, ver como uma mulher pode assumir um lugar central na estrutura da jornada sem que isso pareça estranho ou inadequado. Por outro lado, vemos ainda a necessidade de utilizar uma estrutura narrativa batida e viciada por ideais masculinos. Análises e diálogos profundos podem vir a ajudar a deixar mais nítido até que ponto Patty Jenkins conseguiu ou não desvincular esse olhar androcêntrico da figura heroica feminina.

Uma coisa é certa, a cineasta mostrou que uma mulher é capaz de criar um ótimo filme de ação e aventura (além de ser um filme altamente rentável) sobre uma personagem feminina poderosa e cativante, e isso representa muito.

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