O sexo do cérebro
ou Homossexuais ainda na mira da Inquisição – parte 3
Ontem o texto Resposta a um Comentário foi comentado por alguém que se identificou como Lisandro Hubris. Ele deve ter errado ao digitar o endereço de seu site, mas aparentemente quis deixar registrado http://ateus.net (Ateus.net). Numa busca, constatei que ele é um usuário do fórum do referido site e está escrevendo um livro ateísta.
Resolvi não responder diretamente na seção de comentários por dois motivos: porque ele fugiu do assunto e porque minha resposta ganharia as proporções de um post. Dessa forma, venho escrever uma réplica, tendo em vista que a questão sobre a origem do comportamento sexual é um emaranhado de dúvidas e controvérsias.

Em suma, o comentário de Lisandro é apenas uma afirmação de que a homossexualidade é um comportamento determinado pela biologia, ou seja, é inato. É um comentário que não cabe na discussão iniciada por mim em Homossexuais ainda na mira da Inquisição, onde discorri sobre o casamento homossexual, mas trouxe de volta alguns questionamentos que eu apresentei num dos primeiros posts deste blog: De neurônios, sexo e sexualidade.
Já se nasce homossexual!
Já está provado que, a origem da homossexualidade é biológica…
Pois em 1991, uma pesquisa sobre homossexualidade e neurociência feita por Simon Le Vay, do Instituto Salk da Califórnia, EUA.
O mesmo onde Torsten Wiesel e David Hibel verificaram que a região do cérebro envolvida na regulagem do comportamento sexual é comandada por um substrato biológico da orientação sexual.
E que determinados impulsos sexuais, dos homossexuais são anatomicamente diferentes dos impulsos dos heterossexuais.
Deixou claro que, já se nasce homossexual.
Lê Vay comprovou que o NIHA-3 é grande em homens hetero e em mulheres homo, (ou seja, nos indivíduos que têm uma predisposição sexual para ter relações com mulheres) e pequeno nas mulheres heteros e homens homos (nos indivíduos com alguma orientação sexual para ter relações com homens).
A primeira coisa que Lisandro faz é afirmar que “já se nasce homossexual”. Logo em seguida, faz referência a uma pesquisa de 1991 que mostrou que determinada área do cérebro é semelhante entre pessoas que têm preferência sexual por homens (sejam essas pessoas homens ou mulheres) e entre pessoas com preferência sexual por mulheres (idem). A conclusão precipitada, como em muitas pesquisas desse tipo, é a de que uma característica biológica determinou um comportamento.
A origem do comportamento homossexual é um assunto controverso e há estudos nas mais diversas áreas da Ciência apresentando as teorias mais díspares. A Psicanálise, por exemplo, diz que o indivíduo nasce sem orientação sexual definida, e pode desenvolver qualquer gosto, de acordo com sua história pessoal e com a influência do meio.
O complicado na afirmação de que “a observação do cérebro prova que a homossexualidade é biológica” é assumir de antemão que as pessoas pesquisadas já nasceram com o cérebro assim. Quando o Homo sapiens interage com o ambiente, seu cérebro sofre estímulos e se modifica. Poderíamos supor, por exemplo, que um garoto que desenvolveu atração por outros garotos, devido a alguma particularidade dos episódios de sua infância, desenvolveu um cérebro cujo NIHA-3 é parecido com o das mulheres que gostam de homens. O delas também teria ficado assim pelo mesmo motivo.
De modo que a afirmação de que “orientação sexual dos homossexuais depende da biologia do individuo” poderia ser invertida: a biologia do indivíduo depende da sua orientação sexual.
Os ateus, em geral, são loucos por Ciência. Para mim, é salutar buscar na Ciência uma compreensão mais aproximada da realidade, e é muito superior nesse sentido do que a Religião. Mas uma cienciomania pode levar a uma um entusiasmo cego.
NIHA-3 significa, Núcleo Intersticial do Hipotálamo Anterior.
E no caso em tela, o mesmo é denominado de “03”, porque também existe o NIHA 01,02 e 04. Que são as estruturas do hipotálamo que regulam a fome, a sede, as funções sexuais, a temperatura e certos hormônios.
Lisandro mostra com entusiasmo seus conhecimentos triviais a respeito do cérebro, e acaba caindo em alguns erros muito comuns entre os cienciomaníacos:
- Considerar como ciências somente as exatas e/ou naturais, ignorando muitas vezes o que as ciências humanas dizem a respeito desses assuntos;
- Fiar-se na Ciência como uma verdade absoluta, o que a Ciência essencialmente não é (em oposição aos dogmas religiosos). Daí decorre uma postura comum na cienciomania, que é expressa em frases do tipo “já está provado que…” ou “a Ciência já provou”.
Esquece-se ou se ignora a epistemologia mais contemporânea, para a qual a Ciência é uma aproximação da realidade e não uma descrição exata, além do que todas a teorias são passíveis de refutação.
Essas pesquisas normalmente deixam uma lacuna: como explicar os bissexuais? Como é o cérebro deles? Como é o cérebro de um pansexual? Como se dá isso em sociedades nas quais o comportamento bissexual é instituído socialmente, como era o caso da Roma antiga? Os romanos já nasciam bissexuais?
Embora Lisandro não tenha deixado claro o que pensa moralmente sobre a homossexualidade, deixou escapar um preconceito:
Lê Vay pesquisou o tecido cerebral de 41 indivíduos.
entre eles haviam 19 homens comprovadamente gays; 16 homens heterossexuais e 06 mulheres normais. [grifo meu]
Não ficou bem entendido, num comentário que buscou ser isento, o que significa uma “mulher normal”.
A conclusão do Dr. Le Vay foi que “O NIHA-03 exibiu dimorfismo”.
Ou seja, o aparecimento de duas formas diferentes, dentro de um mesmo grupo.
Pois o NIHA-03 dos homossexuais era duas vezes mais volumoso do que o dos heteros.
A descoberta de que entre os heterossexuais e os homossexuais, um núcleo difere em tamanho.
E aparece de duas formas características.
Indica que a orientação sexual dos homossexuais depende da biologia do individuo.
Sendo bem racional, a única coisa certa que se pode tirar da pesquisa e Le Vay é que, aparentemente, certo dimorfismo do cérebro coincide com uma variação e comportamento. Mas a conclusão peremptória de que , obviamente, a biologia (o cérebro) determinou um comportamento é uma postura pseudocientífica.
Além dos genes de gêmeos idênticos, apresentarem uma possibilidade acima da média dos mesmos compartilhar a mesma orientação sexual.
O homossexualismo independe da raça e da origem do individuo.
Pois cerca de 5% da população é homossexual.
A orientação sexual dos recém – nascidos adotados tem pouca relação com a dos seus pais adotivos.
E mais de 90% dos recém-nascidos adotadas por casais gays são heterossexuais.
Como nos gêmeos idênticos, a probabilidade deles compartilharem à mesma orientação homossexual é superior a 50%.
Enquanto, nos pares aleatórios de indivíduos a média está abaixo de 8%.
Algo que fica pouco claro é se essa teoria neurológica considera que o aspecto do cérebro determina ou influencia. Se for considerada a estatística de que os gêmeos tem grande probabilidade de ter a mesma orientação, então não há determinismo, o que nos faz perguntar: o que faz com que dois irmãos gêmeos não compartilhem a mesma orientação sexual?
Pode ser a história pessoal de cada um deles. Mas podemos também considerar outra hipótese: não é a genética idêntica que influencia nessa probabilidade, mas as condições mesológicas parecidas e a nossa tendência a considerar os gêmeos como se fossem a cópia um do outro, o que pode gerar uma confusão identitária em ambos. E aí cabe uma pergunta muito pertinente: como são os cérebros de dois irmãos gêmeos que têm orientação sexual diferente entre si?
Finalmente, chegamos ao trecho que tem alguma pertinência na discussão sobre o casamento homossexual: a orientação sexual dos filhos de um casal homossexual. Talvez seja esse o ponto a que Lisandro quis chegar ao introduzir o tema da origem biológica da sexualidade.
E acho que toda essa argumentação biologista é sofisma. Primeiro, porque as estatísticas mostram que a orientação sexual de um indivíduo independe daquela dos adultos que o criaram; se isso se dá por fatores genéticos ou sociais ou psíquicos ou físicos pouco importa, e é uma resposta que ainda não foi respondida.
Em segundo lugar, dar tanta importância a esses dados é admitir que a homossexualidade e as famílias diferentes da tradicionais são problemáticas, ou seja, é se manter ainda numa mentalidade conservadora que não se alinha com uma postura libertária, que, penso eu, a Ciência e o ateísmo buscam.
As evidencias indicam que a orientação sexual tem uma base genética.
E demonstram que o caráter e as características individualizadas de uma pessoa não são enraizados pelo meio ambientes em que a mesma vive.
Ademais, é preciso separar ainda algumas coisas dentro da própria Biologia: não é tão forçosa assim a relação entre cérebro (órgão biológico) e genes. Afinal, no âmbito biológico, não é só a genética que influencia nas características físicas de um indivíduo. Os hábitos da mãe durante a gravidez precisam ser considerados, o clima no qual se vive e as reações do organismo àquele. Há inúmeros aspectos fisiológicos que são adquiridos durante a gestação do novo ser vivo e não são determinados pelas cadeias de DNA.
Não quero levantar a bandeira do sociologismo e afirmar que tudo é social, contra o biologismo que afirma que tudo é biológico. Deve haver influências de vários tipos no comportamento das pessoas. A própria dificuldade de as ciências dialogarem abertamente entre si impede que tenhamos claro o que realmente está em jogo na constituição de cada indivíduo. Porém, é importante levantar questionamentos acerca de cada argumento apresentado, propondo outras interpretações dos mesmos fatos.
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E o que dizer dos trabalhos:
http://www.eurekalert.org/pub_releases/2008-06/qmuo-hbd062608.php
http://www.pnas.org/content/105/27/9403.abstract?sid=bf6e65de-7e21-4ec5-9f22-174d9383698b
Ambos de junho de 2008. Recentíssimos portanto.
Pelo que entendi ambos evidenciam o fato de que a homossexualidade é biológica. Realmente o homossexual nasce homossexual.
Bom, Thiago, eu compartilho do pensamento de que nascemos sem orientação sexual definida, e a partir da interação social, das repreensões que uma criança pode sofrer durante o crescimento, podem compor uma personalidade para um lado ou para o outro………. ou para ambos.
Quando uma criança de dois ou três anos imita a mãe, a forma de falar da mãe ou gestos das irmãs e o pai o repreende, ele pode achar que está errado e passa a se comportar como o pai. Isso é fato.
E outra coisa, senhores… o fato de não nascermos heterossexuais ou homossexuais, de maneira alguma diminui o valor e a importância que as pessoas têm.
Thiago e Marquês
Nascemos heteros ou homos, ou bi, ou até transsexuais. Veja os links que postei na minha intervenção anterior,neste post.
Acho inclusive que é bastante razoável pensar que:
1. A sexualidade individual “congênita” – pode – não corresponder exatamente à configuração da sua genitália.
2. Não existe sexualidade bipartida homem – mulher. Especulo que a sexualidade obedece à uma função(n>2) superior e inferiormente ilimitada, contínua e derivável em todo o seu domínio, que vai desde a atração pelo sexo oposto, até a atração pelo mesmo sexo passando pelo zero do desejo.
Sem dúvida o ambiente influência a sexualidade, mas continuando a especular, essa influência sempre será no sentido de reforçar o que a natureza imprimiu. Quando não, advém as neuroses e as psicopatias.
Volto pra comentar sobre a discussão depois, até lá, preciso dizer: só um “ateu praticante” esgota minha paciência mais que um crente batendo a minha porta.
Bem-vindo, @Benjamin Bee.
Bem, pelo que vi, o primeiro link é de um estudo que mostrou, simplesmente, uma diferença entre os cérebros das pessoas segundo sua orientação sexual. Ou seja, é o mesmo tipo de pesquisa que eu critiquei, que não mostra se essa diferença é causa ou efeito, se ocorre por fatores genéticos ou se é resultado da história pessoal do indivíduo.
Já o segundo não diz que a biologia determina o comportamento. Vejamos o parágrafo-síntese:
Ou seja:
Ou seja, conclui que as estatísticas mostram que há influência tanto de fatores biológicos como ambientais. E é interessante que ele não se aventure a dizer com certeza que fatores exatamente estão em jogo, pois não dá para determinar o que influencia o quê.
@Marquês, o fato que você citou é interessante, mas ele é uma possibilidade entre milhões. Há crianças que serão reprimidas ao imitarem o progenitor do sexo oposto, mas isso não a impedirá de gostar de parceiros do mesmo sexo. A identidade sexual pode estar marcada desde muito cedo, e a repressão pode apenas deixar a pessoa mais angustiada por fazê-la sentir que é errado expressar sua individualidade.
Além disso, a transexualidade, que é a identificação com o sexo oposto, não coincide necessariamente com a homossexualidade. Há pessoas que, desde cedo, querem trocar de sexo, mas gostam de parceiros do outro sexo.
Realmente… de vez em quando penso que ficar discutindo essas coisas é uma forma de admitir o preconceito. Afinal, se as peculiaridades individuais são apenas detalhes em nossas personalidades, para quê ficarmos debatendo exaustivamente sobre isso? Acho que, nesses posts sobre homossexualidade, os comentários do Marquês têm sido os mais sensatos…
De qualquer forma, é interessante retomar uma observação de Benjamin: a sexualidade não é uma moeda, não pode ser dividida entre ginofilia e androfilia. Ela é um continuum, e pode se manifestar de infinitas formas. O problema é que em nossa sociedade existe a ideia dualista homossexual/heterossexual, que acaba obrigando a maioria das pessoas a se enquadrar em uma coisa ou outra.
Olá Thiago,
Você está confundindo homossexualidade com comportamento homossexual. São duas coisas diferentes.
Comportamento homossexual qualquer pessoa pode ter, é opcional. Heteros ou bissexuais podem ter comportamento homossexual opcional excepcionalmente (experimentação, condição extremada – ex.: presídios, entre outros).
Homossexualidade é a orientação sexual, o sentir atração pelo mesmo sexo preferencialmente, e há inúmeros artigos relacionando sim, com aspectos biológicos, embora não genéticos. Nem tudo na biologia é genética, há muito mais.
Há ainda uma terceira condição que é a orientação sexual egodistônica, que não é homossexualidade, é não sentir-se em acordo com o sexo biológico e querer mudá-lo – os transexuais.
Os homossexuais gostam de ser do sexo que são (se identificam como homens, ou como mulheres), apenas não sentem atração pelo sexo oposto. Os ferormônios, a química não bate.
Há evidências de causalidade biológica sim, diversos estudos mostram isso. O consenso atual é de causalidade multifatorial.
Psicanálise é um conhecimento criado no século 19 e que não mudou muito desde lá, continua o mesmo. Embora algumas coisas que Freud disse tenham sido corroboradas, outras foram refutadas diversas vezes por várias outras linhas da psicologia e demais ciências.
Mais tarde volto com a citação de alguns artigos que podem lhe ajudar a entender mais este assunto.
Um ponto: existem dogmas científicos sim e preconceitos, até nas ditas “neociências”. Para pensar.
Abraços, Nivea.
De fato, discutir sobre a origem do comportamento sexual tem alguma importância? E se realmente for compreendido, descoberto, o que origina o comportamento homo/hetero? Que importância tem isso? Para quem isso seria útil? Para os que pretendem justificar seu preconceito e defender uma eliminação dos supostos genes? Para os que se sentem perseguidos, querendo com isso legitimar sua sexualidade amparados num direito genético, e não de caráter, humano?
Muito mais importante é ser uma boa pessoa.
Não sei nada sobre as origens do homossexualismo, e penso que estamos bem longe de descobrir. Também penso que é ridículo ficar estudando esse assunto como se fosse uma patologia.
Mas em relação ao “ateísmo praticante” ou “cienciomania”, tenho opinião feita: também sou atéia convicta, nem por isso saio por aí acreditando em TUDO o que a ciência diz, ou me tornaria uma espécie de crente ao avesso e não demoraria a querer caçar qualquer um que discordasse de mim.
Obrigadíssimo, @Nivea, pelo esclarecimento terminológico. Nada como uma psicóloga para trazer contribuições importantes a este tema.
Realmente, não conhecia essa diferença entre comportamento sexual e orientação sexual. Ela traz novos elementos à discussão.
Quanto à “orientação sexual egodistônica”, embora eu não conhecesse o termo, nunca deixei de ter isso em mente, e sempre procurei usar a expressão “identidade sexual” ou “identidade de gênero” para me referir a isso. Há bastante tempo tenho claro que “gostar de homem” não é a mesma coisa que “querer ser mulher”, nem “gostar de mulher” a mesma coisa de “querer ser homem”.
Gostaria muito que você compartilhasse os estudos a que aludiu. Contribuiriam muito para enriquecer o debate.
@Diego e @Gil, há quem considere a busca pelas causas da homossexualidade uma forma (quase) velada de admitir que esta se trata de um problema a ser resolvido. Já concordei com essa posição. Atualmente, concordo em parte.
Acho que toda busca científica pode trazer benefícios para o conjunto dos conhecimentos humanos, inclusive o entendimento de porque uma pessoa é homossexual… contanto que se estude também porque uma pessoa é heterossexual. Dizer que o heterossexual o é porque a natureza manda deixa diversas lacunas em branco, como por exemplo os bissexuais e as pessoas que mudam de orientação sexual durante a vida, tanto de hétero para homo como o inverso.
Discutir as origens da homossexualidade é de extrema importância porque derruba mitos e preconceitos gerados e mantidos por séculos pelos dogmas religiosos, que por sua vez geram injustiças sociais de direito e atitude, sofrimento, violência e morte cruel de expressiva parcela humanidade.
Acrescente-se a isso que com o avanço da visibilidade homossexual, a homofobia recrudesceu em todas as sociedades com culturas religiosas arraigadas, em especial nas sociedades teocráticas fundamentalistas.
Thiago…
Estudo com gêmeos diz:
“Writing in the scientific journal Archives of Sexual Behavior, researchers from Queen Mary’s School of Biological and Chemical Sciences, and Karolinska Institutet in Stockholm report that genetics and environmental factors (which are specific to an individual, and may include biological processes such as different hormone exposure in the womb), are important determinants of homosexual behaviour.”
Ressonância magnética dos cérebros diz:
“The present study shows sex-atypical cerebral asymmetry and functional connections in homosexual subjects. The results cannot be primarily ascribed to learned effects, and they suggest a linkage to neurobiological entities. ”
O trabalho com ressonância magnética não conclui taxativamente, por conta do pudor científico, mas inverte com segurança a impressão que se tinha até então de que a importância da influência do meio ambiente externo era maior do que a possibilidade da causa ser biológica.
Já, o trabalho com os gêmeos relata como – determinantes – a importância de fatores genéticos e ambientais intra-uterinos. O que vem reiterar a “intuição” dos neurocientistas suecos.
Isso implica que, a partir de junho de 2008, as pesquisas subsequentes não mais se perderão com teorias que não levem em consideração os fatores biológicos que determinam a homossexualidade. E que agora, é só uma questão de tempo, cada vez mais curto para que se declare, sem possibilidade de contestação, que a homossexualidade é inata.
E mais, como já se faz sentir ainda que timida e veladamente, os paradigmas religiosos terão que ser obrigatoriamente revistos sob pena de perda da credibilidade. Significa que os paradoxos encontrados nos livros sagrados terão que ser encarados de frente e desmontados, o que levará a humanidade à uma nova percepção de si mesma, mais real e alentadora.
E isso não é importante?
Thiago, entender a homossexualidade também é uma forma de se entender todas as outras versões da sxualidade humana.
Entretanto, o que urge entender é a sexualidade que ignorada gera ódio e mote.
O preconceito, penso eu, diz respeito ao comportamento homossexual, não à origem do comportamento. Entender a origem não derrubaria os preconceitos, só mudaria as justificativas de quem é preconceituoso. O discurso mudaria, o preconceito não mudaria necessariamente.
O fato do preconceito diminuir ou mudar não diz respeito ao entendimento dessas origens. Diz respeito a outros avanços, à crescente tolerância frente a diversidades.
Diego, você tem muita razão no que afirma. Num primeiro momento, o que vc diz é o que deveá acontecer, mas como vc mesmo diz, a diminuição do preconceito dependerá do avanço social. Por sua vez, o avanço social virá com a educação à qual as leis, fundamentadas nas ciências, obrigarão. Não acha?
Acho que leis não mudam o preconceito.
Preconceito já é crime. E nem por isso deixou de existir.
Não depende disso, depende de aprender a conviver com a diversidade. Não se pode obrigar isso por lei. E educação a respeito disso independe de descobrir origem de homossexualidade, depende apenas de reconhecer que todo ser humano é uma particularidade, que todo mundo quer ser feliz, todo mundo quer evitar o sofrimento. Essas idéias já existem a séculos. O que falta?
Não vejo como a ciência seria capaz de mudar isso. Mudar o que uma pessoa pensa. Não se discute mais as diferenças biológicas entre negros e brancos (pelo menos não como antes), mas ainda existem preconceitos. Quero dizer, acho que essas coisas não dependem do avanço científico, dependem de outra coisa. Mas, de fato, o ensino científico ajuda no que eu imagino que seria um avanço social. Só não consigo imaginar como ajudaria na diminuição do preconceito.
A discussão está muito interessante, mas o problema que percebi é que vocês estão centrados apenas e tão somente na sexualidade da espécie humana. É preciso expandir o contexto, porque comportamento homossexual também é recorrente no reino animal, conforme muitos estudos indicam. Dai que nesta nova perspectiva, realmente fica muito difícil de negar o papel que a biologia joga, o que não quer dizer de forma alguma que tudo se resume a ela.Entendo que para avançarmos neste debate, é preciso vencer os preconceitos e derrubar as barreiras artificiais erguidas entre as ciência humanas e biológicas. Somente com o dialogo franco e aberto entre elas será possivel avançar na solução deste quebra cabeças.Abraços a todos,
Benjamin,
Eu já fui pesquisada por esse tipo de pesquisa de homossexualidade pois um amigo começou a trabalhar com isso. Posso, primeiro de tudo, te dizer que as perguntas são bem tautológicas. Eu diria mesmo mui fraquinhas. Isso podemos discutir depois.
Mas dei uma olhada no link que você indica. Primeiro comentario é que não se trata de trabalho científico, mas de matéria de jornalista sobre o trabalho de um grupo. Quando eu trabalhava nos laboratórios do instituto de biologia da usp como iniciação científica era corrente que os professores tinham medo de dar entrevistas, medo de jornalistas, pois quando viam a matéria… puts, não era nada daquilo. Então vamos à análise do texto:
Ele abre dizendo que a genética e o ambiente – o ambiente – são responsáveis pelo comportamento homossexual. Bom, e bem sabido que dentro dos parâmetros do que a biologia como campo diz ser tudo, completamos os 100%, posto que para a biologia o que quer que não seja genetico é ambiental. Sim, é isso mesmo. Por paradigma nunca se aventa que o que não for genético seja social, pois para eles social ou não existe ou no máximo influenciaria indiretamente o seu ambiente – e ambiente é entendido de modo físico-químico e biológico – temperatura, salinidade da água, predadores, parasitas. Para o paradigma biológico não existe o social a não ser na medida apenas da influência ao ambiente entendido como esse ambiente físico. Ecologicamente a única explicação possível para ambiental seria a pressão populacional: quando há mais população, mais sexo sem filhotes, portanto mais homossexualismo. Da mesma forma que o paradigma genético, isso é uma profecia que se auto-prova (se aumenta a sua amostra é obvio que você vai observar mais de um fenômeno) e que novamente reduz o caso humano a um caso de ratinho em cativeiro (agora, vou perguntar se ratinho lê conto erótico, experimenta uma relação sado-masô, ou se excita pensando em comer uma ratinha freira. a sexualidade humana é tão complexa que não basta ter macho e fêmea – ambos heterossexuais – para que ocorra o coito, pois por milhares de motivos pode não haver tesão – em compensação o ratinho … não sei se você ja teve porquinho da índia… )
Agora, voltamos à pesquisa. Por paradigma para a Biologia o que não é genético é ambiental. O caput diz em outras palavras, que 100% do que existe influencia amplamente a hoomossexualidade. Ridículo e tautológico.
Para além disso: A pesquisa com gêmeos é por definição a preferida dos ramos que não são nada sérios na pesquisa genética. O que seria não sério hoje em genética. Bom, melhor observar o que oos ramos sérios fazem. Eles pesquisam o código genético. O projeto genoma já tem uma biblioteca enorme de genomas com uma amostra que seria estatisticamente de peso. O que esta biblioteca está mostrando é que para o código de cada nova pessoa analizada (seja um brasileiro, um japonês, um aborígene australiano)encontra-se marcadores de genes de pessoas de todas as partes do mundo. O aborígene australiano tem genes que estão no português da vilinha de trás os montes, no indígena americano, no japonês, no suíço e num cara de família africana. Por este tipo de pesquisa foi possível evidenciar que cetas doenças que estão ligadas ao mau-funcionamento de um metabolismo básico são devidas a uma enzima diferente e é possível traçar essa enzima até o gene que a produz. Mas nem todas as doenças são assim – nem todas as doenças dependem de uma só enzima diferente. às vezes depende de duas, e isto é traçável, às vezes de umas 5 e é traçável. Mas quando a coisa não é traçável podemos admitir duas hipóteses: uma é que depende de um número enorme de genes. Ora, se as pesquisas indicam que as variações estão espalhadas em seres humanos pelo mundo todo, quanto maior o número de genes envolvidos maior a probabilidfade de que estes genes estejam espalhados pela população mundial, portanto, se há esse rol enorme de genes homossexuais, a probabilidade indica que todos os temos. Então somos todos homossexuais. A outra hipótese e que isto não depende de fatores genéticos. Note que tanto por uma hipótese como por outra, a hipótese se torna inválida.
Agora eu te pergunto: por que razão o ramo da pesquisa de gêmeos insiste em pesquisar gêmeos (que aliás, em termos amostrais são irrelevantes para a população mundial – a incidência de gêmeos univitelínicos é mínima) quando a ciência dura da genética já mudou há muito tempo de parãmetro? Por que razão um físico insistiria um usar o modelo ptolomaico de universo sendo que temos o modelo einsteiniano? O universo, o movimento dos astros já foi motivo de debate politico-religioso e hoje em dia já não é mais, por isso. Por isso que insistir em usar um modelo ultrapassado vai parecer a todos ridículo e seus pares vão com certeza te indicar para o melhor ganhador de todos os tempos do prêmio ignóbil. O mesmo não ocorre na biologia pois ela está ainda no centro de nossos debates políticos-religiosos. Não fosse assim, todas as pesquisas com gêmios ganhariam um grande prêmio abobrinha de ouro da ciência. Mas eles estão concorrendo, pois a ciência dura há muito não compartilham desses paradigmas. Mas eles continuam recebendo recursos para “pesquisas”. A biologia é hoje um campo de disputas onde há fundamentalismos e nos estados unidos da américa o creacionismo ainda está de corda toda. A pesquisa fundamentalista olha na direção dos gêmeos pois quando ela tenta “provar seu ponto” pelos parâmetros da hard science ela se estrepa.
Há outros “parãmetros” da tal “pesquisa” que são muito discutíveis, apesar que o jornalista os toma como dados. Por exemplo, para determinar se uma pessoa é ou não homossexual não há uma medida. Diferente da diabetes: você faz um teste de sangue e descobre que a pessoa é ou não é, por exemplo. Então como não há parãmetros cada pesquisa nessa “área” inventa um. O jornalista só diz que foi perguntado a cada um dos gêmeos sobre o número de relações sexuais. Isso prova o quê? Que um padre que leve a sério os votos de castidade desde que é garoto cairia na classificação a-sexuado? A “pesquisa” em que o meu amigo me aplicou o teste perguntava se eu já senti atração. Ora, que coisa. Atração é algo muito do insubstancial, parece coisa de confecionario: para o dogma cristão se peca na alma, por pensamento. Bicho, eu até hoje só tive relações com o sexo oposto e não são todos os homens que me chamam a atenção, aliás, são muito poucos. E todos mais pela maneira de ser que pelo fato de esconderem uma tirinha de carne entre as pernas. Sinceramente.
As postagens de Diego me tranquilizaram de certa forma. Não que eu estivesse preocupado com alguma coisa, mas o conteúdo das demais postagens de certa forma são incômodos, não porque ferem algum conhecimento antecipado da minha parte, mas porque “parecem” resumir-se a uma batalha por legitimidade de conhecimento. Certos discursos que se lê por aqui, pela própria forma como são escritos (arremessados, eu diria), parece que lutam por um lugar no mundo como quem quer conquistar o piso mais alto de um pódium. Mas o que fariam com o troféu de ouro? O que os outros discursos, “vencidos” por verdades incontestáveis a curto prazo (como sonha o Benjamim Bee em seu 3° comentário) fariam com seus troféus de prata e bronze? Isso partiria para uma nova disputa: sempre um lado dos discursos querendo alcançar o 1° lugar da corrida. E a partir do que Diego falou, seria uma corrida sem qualquer perspectiva maior, sem qualquer fundamento altruísta, sem qualquer interesse em qualquer bem comum.
Diego, portanto, não por ser amigo meu, acabou deixando essa postagem de Thiago (somada aos comentários) mais leve, mais ideal, mais bela. É disso que os centros acadêmicos (e demais centros de conhecimento, físicos ou virtuais) estão se afastando, de um humanismo desligado, de uma poesia sem começo ou fim.
De fato, @Rodrigo, depois dos comentários de @Diego, resolvi deixar a discussão.
Aqui não se trata, de modo algum, de tentar descobrir a origem, mas de encontrar meios de mostrar a obsolescência e a irracionalidade do preconceito.
Não que eu não ache interessante a busca científica para entender como funcionam as coisas. As questões epistemológicas aqui expostas, por você, por @Flavia, por @Nivea , por @Roberto, são pertinentes, mas não nesta discussão (e enquanto eu não me envolver numa pesquisa sobre a sexualidade humana, não iniciarei um post sobre isso).
Entretanto, a própria Ciência tem que se precaver das pré-noções (como aconselha o sociólogo Pierre Bourdieu). Se é para descobrir a “origem” da homossexualidade, que se pesquise também, com os mesmos métodos e o mesmo afã, a “origem” da heterossexualidade, da bissexualidade e tantas outras formas de sexualidade humana, sem a motivação moralista que pretende arrancar um “mal” pela raiz.
Há algo mais a ser discutido (que provavelmente será motivo de um post): quando começamos a falar de sexualidades “desviantes” (que assume muitíssimas formas), é quase inevitável que a conversa gire em torno da homossexualidade masculina e é extremamente difícil sair daí. Por quê?