“Passeio Noturno” – parte 2
Análise do conto de Rubem Fonseca – espaço, tempo e narrador
O presente texto analisa o conto “Passeio Noturno” de Rubem Fonseca, escrito em 1975 e tratando de questões bastante atuais: a violência e a criminalidade nos grandes centros urbanos. A obra aborda o drama do homem contemporâneo, consumista e individualista, fruto da crise pós-moderna, do capitalismo, que perdeu seu referencial e a noção de certo e errado, vivendo pela lei do mais forte. O conto narra a história de um personagem que, por pura diversão, diariamente atropela e mata transeuntes nas ruas.
A obra está contextualizada em uma época em que se vivia sob a opressão da ditadura militar, e este fato histórico veio a influenciar, sobremaneira, a produção literária no país, que então busca, acima de tudo, a liberdade de expressão. Na primeira parte, foram analisados a história e os personagens. Nesta segunda e última parte, são feitas considerações sobre o espaço, o tempo e o narrador.
O Espaço
Quanto às categorias de lugares, o espaço onde se passa a história é o de um mundo real e urbano das grandes cidades. Os espaços onde os personagens se movimentam não são diversificados, porém explícitos e identificáveis. Esse espaço é direcionado para o aspecto social e marca as diferenças entre ricos e pobres. Há dois momentos distintos na narrativa: o espaço fechado, do narrador em casa, e na rua (ambiente aberto). O espaço da casa é bastante amplo, com ambientes reservados para cada um dos membros e garagem espaçosa para no mínimo três carros. Esse é o espaço onde convive a família, cada um isolado nos seus microespaços – os quartos, a biblioteca, os carros. A biblioteca é o ambiente particular da casa que proporciona ao personagem o maior isolamento. É o espaço interior, da ansiedade, da espera, onde ele nada faz, apenas se prepara para suas ações. O carro, por sua vez, é o espaço que o encerra, o encapsula, o individualiza e o separa mais radicalmente do fútil mundo familiar – onde o personagem não representa nada além do poder financeiro. O carro o conduz à rua, ao mundo da liberdade, da satisfação, do alívio. É um automóvel potente e único na cidade e funciona como o complemento desse homem urbano, conferindo-lhe força, orgulho e poder. Os pára-choques salientes com reforço de aço cromado separam, aproximam e proporcionam o contato dos fortes com os fracos; é a metáfora da luva que evita a “contaminação”, que não deixa marcas e elimina os indícios do crime.
Por sua vez, o ambiente exterior, a rua, cenário da ação, é determinante no desenrolar da história. Ele se antropomorfiza, ganha corpo e movimento, se projeta sobre o personagem e passa a ocupar a condição de protagonista da narrativa. É, pois, esse espaço o elemento primordial na organização dos fatos no enredo do conto, pois nesse ambiente o personagem vivencia todas as suas emoções, desde a seleção do lugar mais adequado, a escolha das vítimas, as manobras perfeitas de grande perícia, até o atropelamento e a morte. Nesse ambiente se evidencia a diferença entre as classes sociais. Do seu carro que custou uma fortuna, esse personagem contrasta com a vítima que caminha com o seu embrulho de papel ordinário, coisas de padaria ou de quitanda; com o muro baixinho de casa de subúrbio; com a rua mal iluminada e sem asfalto (um elemento modernizador do qual o pobre é privado). Esse contraste confere um caráter maniqueísta ao conto, um dualismo que separa dois mundos distintos e desiguais.
Quanto às funções, os elementos que compõem o espaço no conto definem o caráter realista da história, ou seja, o espaço é parte da experiência real da maioria dos leitores. O texto – e não o mero fato de poder tratar-se de um lugar real – é o que provoca o efeito de realidade dos lugares. Os elementos que são descritos nos remetem a uma realidade conhecida (uma casa de ricos, uma avenida nomeada, cheia de gente, ruas mal iluminadas do subúrbio). Estes elementos não nos remetem, por exemplo, a um espaço de uma história fantástica ou puramente simbólico. A rua do subúrbio por onde perambula o personagem, ainda que remeta a um ambiente que evoca medo – o escuro – e antecipe a iminência de um acontecimento, é um lugar construído no nosso universo e não se configura assim numa ambiente fantástico.
O espaço, neste conto, também assume funções narrativas múltiplas, pois indica o estilo de vida do personagem, aquilo que ele é, sua classe social. Sabe-se que o personagem do conto e seus familiares, pelo lugar onde vivem, a casa, longe da periferia, os bens materiais que possuem e demais referências, se tratam de uma família rica e se diferenciam da personagem do subúrbio.
O espaço, no conto, indica ainda ao leitor, quando o personagem percorre várias avenidas e envereda por uma rua escura do subúrbio, que um acontecimento sombrio está prestes a ocorrer, anunciando de certa forma a sequência dos eventos. Por outro lado, o ambiente da Avenida Brasil, clara e cheia de gente, as árvores dispostas em espaços regulares, vem a dificultar as ações do personagem, enquanto que a rua escura e pouco movimentada favorece e auxilia a realização dessas ações.
O Tempo
A história transcorre em um curto intervalo de tempo. Tudo acontece entre o fim de tarde e a noite, e a duração não é explicitada, apenas medida pela sucessão das horas. Trata-se de um tempo cronológico de modo linear em que os fatos se dão numa ordem natural, do início para o final. Primeiro o narrador chega em casa, janta com a família, em seguida pega o carro, sai, atropela uma transeunte e volta para casa.
O tempo exerce função qualificativa dos personagens da narrativa. No fragmento: meus filhos tinham crescido, eu e a minha mulher estávamos gordos, o narrador focaliza a passagem do tempo como elemento transformador das pessoas. O tempo fez com que seus filhos crescessem e mudou a aparência física de todos os membros da família.
Na biblioteca, o tempo que transcorre é um tempo interior, o personagem parece aflito, ansioso: Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisas sobre a mesa, não via as letras e números, eu esperava apenas. Esse tempo, de certa forma, dificulta a ação do personagem, que precisa esperar. Outro exemplo em que o tempo funciona como obstáculo observa-se nesta passagem: Os carros dos meninos bloqueavam a porta da garagem, impedindo que eu tirasse o meu. Tirei os carros dos dois, botei na rua, tirei o meu, botei na rua, coloquei os dois carros novamente na garagem, fechei a porta, essas manobras todas me deixaram levemente irritado. No carro, o tempo da procura pelo lugar ideal para agir, descartando certos lugaras como a Avenida Brasil, até encontrar as ruas mal iluminadas do subúrbio e contornar os obstáculos, provoca uma certa tensão no personagem. O tempo funciona como elemento complicador à consecução dos seus objetivos.
Entretanto, a funcionalidade do tempo na narrativa não é relevante para o desenvolvimento das ações, servindo basicamente para emoldurar os acontecimentos que se dão em ordem temporal bastante clara e marcada em princípio, meio e fim. A ordem em que os eventos ocorrem na história é a mesma no discurso. Não há volta no tempo, flashbacks nem descompasso temporal.
O Narrador
O início do conto “Passeio Noturno” é narrado com a intenção de contar ao leitor como se desenvolve o enredo. Nesta parte da narrativa tem-se um narrador aparente que utiliza o discurso direto, como no trecho: Não sei que graça você acha em passear de carro todas as noites, também aquele carro custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é que cada vez me apego menos aos bens materiais, minha mulher respondeu. Há registro de falas narrativizadas, como nesta parte da narração: Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala?, perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar.
Na passagem Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada, percebem-se os recursos linguísticos que marcam uma narrativa contada. Mais à frente, em outro momento da narração, surge o narrador desenvolvendo o mostrar narrativo, realizado de maneira mais descritiva e detalhada, de modo a levar o leitor a ter a impressão de que a história está ocorrendo no momento da leitura, desenvolvendo-se diante dos seus olhos, como neste trecho: Apaguei as luzes do carro e acelerei. Ela só percebeu que eu ia para cima dela quando ouviu o som da borracha dos pneus batendo no meio-fio. Peguei a mulher acima dos joelhos, bem no meio das duas pernas, um pouco mais sobre a esquerda, um golpe perfeito. Ouvi o barulho do impacto partindo os dois ossões, dei uma guinada rápida para a esquerda, passei como um foguete rente a uma das árvores e deslizei com os pneus cantando, de volta para o asfalto.
Com esta distinção entre contar e mostrar existente na história é possível distinguir o tipo de perspectiva que o autor do conto leva ao leitor. Na primeira parte tem-se um narrador homodiegético e perspectiva passando pelo narrador, pois é quando surge o personagem contando a sua história cotidiana, fazendo uma retrospectiva de sua vida. O personagem conta sua própria história sem vivenciá-la, a narração é feita com o tempo verbal no pretérito. Os fatos são contados na primeira pessoa, portanto, a partir da ótica desse personagem que narra, o que implica condicionar a narrativa às suas próprias percepções. Ele tem conhecimento sobre si próprio, mas não se pode saber com exatidão o que se passa no íntimo dos demais personagens à sua volta (mulher, filhos, vítima) e limita os demais aspectos da narrativa ao seu ponto de vista. Nesse momento, há uma relação de cumplicidade entre o narrador e o leitor, que compartilha com aquele da relação familiar e se identifica com sua situação de isolamento, da tensão e de tudo que é por ele vivenciado até certo ponto da narrativa.
Já na segunda parte da história, onde os fatos são mostrados pelo narrador homodiegético, a perspectiva passa pelo personagem e a história é contada de uma forma que permite ao leitor crer que a cena se desenvolve no mesmo momento em que é mostrada e não de modo retrospectivo. O enredo é, portanto, mostrado e não contado, e o personagem narra a história no presente, o que dá a impressão de simultaneidade entre o que se vive e o que se conta. Essa combinação possibilita uma relação muito próxima entre o narrador e o leitor, a ponto de este se perceber dentro do carro, acompanhá-lo em seu passeio noturno, sem rumo, sem saber para onde estão indo. Essa identificação e cumplicidade são rompidas de forma impactante no momento em que o leitor percebe a intenção do personagem: a busca por uma vítima para atropelar.
Outro aspecto da oposição entre contar e mostrar é a existência de sumários e cenas na narrativa “Passeio Noturno”, pois o autor trouxe tanto o aspecto da cena configurada na segunda parte do conto (no mostrar), apresentando um excesso de detalhes que permitem ao leitor a visualização do que esta sendo descrito, quanto o sumário, na primeira parte da narrativa, pelo qual o narrador conta a história da sua vida de forma resumida, aspecto que não permite ao leitor visualizar o que está sendo narrado.
Considerações finais
O conto “Passeio Noturno” choca por abordar de maneira incisiva a violência, os crimes e a marginalização nos grandes centros urbanos, bem como os impasses da crise que atravessa a sociedade, ao vivenciar um rápido processo de massificação e de pobreza dessa população. Traz à tona o cotidiano dos seus habitantes, os problemas e as diferenças de classes sociais, os dramas humanos provocados por ações transgressoras da ordem.
O ambiente de “Passeio Noturno” destaca a violência e a criminalidade, extrapolando todos os limites e fronteiras. Expõe a classe pobre e marginalizada à mercê dos ricos e poderosos. Esse mundo é a representação de um ambiente urbano, num país industrial, que avança sob a influência de culturas estrangeiras e do capitalismo em expansão. O consumismo e a futilidade caracterizam a instituição familiar moderna e egoísta, formada por pessoas que visam à posição social, bens materiais, cujos laços se baseiam em meras relações financeiras. É nesse mundo onde convivem os ricos – como o narrador personagem – e os habitantes das classes mais desvalidas do subúrbio. Assim, a criminalidade nesse macroespaço não se restringe aos pobres. A violência é também praticada por indivíduos da classe social mais elevada. O dinheiro gera, em um polo, o poder dos opressores e, em outro, seres excluídos, cujas vidas não possuem nenhum valor.
Mas, o que mais choca no conto não é o ato de matar e a consequente existência de um assassino, o que realmente abala é o ato extremamente banalizado, a frieza das ações que sequer são movidas por um sentimento de justiça, que não atormentam o personagem, nem geram nele qualquer resquício de remorso.
Embora escrito em 1975, a temática do conto é bastante atual, se levarmos em conta os graves problemas sociais na realidade da periferia das grandes cidades brasileiras, onde os crimes são praticados por todas as classes. Os pobres os cometem, por vezes, movidos pelo desejo de obter o que só os ricos têm. Estes, por sua vez, entediados pela vida de abundância, sem desafios e sem perspectivas, os praticam por mero divertimento e pela mais absoluta certeza da impunidade.
A narrativa chama a atenção para a banalização da violência nesse ambiente caótico dos grandes centros, onde o homem é coisificado, tratado como mercadoria. Mostra a verdade crua da violência com a qual todos convivem diariamente e aparentemente tão normal, com que ninguém se importa. Por isso o conto, além de chocar e agredir, tem, no caráter denunciador, uma forma de conclamar o leitor a pensar, a refletir e a adotar uma postura mais crítica perante o mundo que o rodeia.
“Passeio Noturno” expressa ainda a tendência contemporânea de romper com as formas tradicionais da narrativa, e, mesmo contando uma história linear com princípio, meio e fim, se mostra irreverente e experimental, representando uma criação literária de caráter pós-moderno no Brasil.
Referências Bibliográficas
- REUTER, Y. A análise da narrativa. Rio de Janeiro: Difel, 2007.
- FONSECA, Rubem. “Passeio Noturno”. In: Feliz ano novo. Rio de Janeiro: Artenova, 1975. “Parte 1″, p. 49-50.
- Rubem Fonseca. Visitado em 29/10/2011.
Nota
Este texto foi apresentado como segunda avaliação da disciplina Teoria da Literatura 2 do curso Letras – Espanhol da UFRN.





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