Sobre genéricos, filhos e a Europa

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Quando soube pela primeira vez sobre os medicamentos genéricos, que eles têm a mesma fórmula que os remédios “de laboratório” e que são mais baratos, eu me perguntei: por que então agora alguém vai querer comprar mais caro se tem um igual e mais barato? As fábricas não vão falir? Elas serão obrigadas a baixar os preços? Qual é a vantagem de se comprar mais caro se a fórmula é a mesma?

Com o tempo me dei conta de que as pessoas dificilmente confiam em empresas que não sejam “de marca”, com propagandas que “mostrem” a eficácia dos produtos e estejam há muito tempo no mercado, o que lhe confere, supostamente, pela tradição, um certificado de validade maior. A desconfiança nos genéricos é tal que o termo serve como pejorativo, sinônimo de piratas, para se referir, por exemplo, aos filmes pirateados vendidos por camelôs.

É uma situação geral, mas não tão hegemônica. O oferecimento de produtos mais baratos com a mesma qualidade é uma grande vantagem para a população mais pobre, que não pode se dar ao luxo de pensar que o mais caro é melhor. A população mais rica pode se manter com a crença de que a marca é um diferencial, além de poder usar isso, até inconscientemente, para se distinguir socialmente (como com qualquer outro tipo de produto).

Mas não é só isso. A propaganda reproduzida abaixo, da fábrica de remédios genéricos Germed, mostra que, para os brasileiros, há um outro elemento que prejudica a confiança nos medicamentos “sem marca”.

A primeira contestação da freguesa frente à oferta de um genérico é justamente o que eu tenho dito acima. Ela tem dúvidas se pode confiar nesse tipo de produto. A vendedora argumenta que a qualidade dos genéricos é supervisionada pela Anvisa. Mas isso não é suficiente para convencer a cliente, como se também não fosse possível confiar num serviço do governo brasileiro. A cliente, ainda não convencida, pergunta à farmacêutica se esta daria esses remédios aos seus filhos. A resposta é positiva, mas, antecipando que seu argumento pode ainda não convencer, a vendedora enfatiza que os genéricos Germed, além de baratos, são exportados para a Europa. Finalmente, a cliente se mostra completamente convencida e compra o genérico.

No mercado contemporâneo, como sustenta o sociólogo inglês Anthony Giddens, temos que nos arriscar minimamente, confiando na qualidade e na eficácia daquilo que as indústrias nos oferecem. Mas a garantia da farmacêutica, que deveria ser suficiente para a cliente comprar qualquer outro produto, é questionada. Ela deve se perguntar se um produto que não se sabe onde foi produzido é mesmo equivalente ao “de marca” (porém, ela também não sabe onde os produtos “de marca” são produzidos – a não ser que trabalhe nessa indústria -; por que sua certeza é maior com os produtos “de marca”?), ainda mais considerando que as marcas mais caras são muitas vezes internacionais, enquanto os genéricos são normalmente nacionais.

(Essa desconfiança em relação à procedência, pela qual os produtos importados são supostamente melhores do que os nacionais, pode não ser clara nem óbvia até aqui, e pode até ser considerada uma viagem hipotética de minha cabeça. Mas o que vem em seguida vai reforçar essa teoria.)

Quando a cliente apela para os filhos da farmacêutica, ela quer um reforço emocional por parte da argumentação da vendedora. Mas esta não se delonga nesse assunto, e vai direto ao ponto principal, que é o fato de que os produtos que ela está oferecendo são vendidos na Europa. Para a cliente, o fato de os europeus usarem esses genéricos comprova sua reconhecida qualidade. Mas por quê?

Por causa do complexo de vira-lata ainda presente nos brasileiros. Segundo Nelson Rodrigues, que cunhou a expressão,

por “complexo de vira-lata” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo.

o brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima.

Não confiamos no que se produz no Brasil, ao ponto de boicotarmos a economia de nosso próprio país. Enquanto povos de outros países reconhecem a qualidade de nossos produtos agrícolas, recebem profissionais brasileiros que se qualificaram por estas bandas mesmo e até elogiam nossos governantes, tão vilipendiados pela mídia local, nós continuamos cuspindo na própria cara e deixando a bunda exposta na janela para outros passarem a mão.

Talvez o complexo de vira-lata se reforce, hoje em dia, pelo fato de as mercadorias mais valorizadas serem produtos de tecnologia eletrônica avançada, como os computadores e os celulares. O Brasil não tem, por exemplo, uma indústria própria muito forte de telefones celulares, e esta se concentra em países como os EUA (Apple), Finlândia (Nokia) e Japão (Sony). O que nos dá a ilusão de que o Brasil está atrasado em tudo.

Em muitas áreas, o Brasil ainda é uma vergonha: Saúde, Educação, Meio Ambiente, distribuição de riqueza… Mas temos uma democracia que funciona bem, um sistema eleitoral menos sujeito a fraudes, invenções e descobertas científicas importantes para todo o mundo, frutas, verduras e legumes que alimentam pessoas de outros continentes, um mercado de livros bem feitos e com design melhor do que os norte-americanos e europeus (infelizmente, não temos uma cultura de leitura para aproveitar bem esses livros…) e muitas outras coisas. É só prestar atenção para perceber os problemas desta terra. É só prestar atenção para perceber suas virtudes.

Mas, para reconhecer a qualidade de seus próprios produtos, os brasileiros, infelizmente, precisam do aval das antigas metrópoles colonialistas. “Se um sueco dá esse remédio aos seus filhos, por que não dar aos meus próprios filhos? Quem sabe eu não consiga deixar minhas crianças tão saudáveis quanto aqueles belos, fortes e inteligentes escandinavos?” (só enquanto escrevia este texto e pesquisava na internet, eu descobri que a Seleção Brasileira venceu a Suécia na final da Copa do Mundo de 1958; talvez seja interessante a gente sempre se lembrar desse evento…).

Porém, até na mestiçagem, que caracteriza a formação bio-sócio-cultural do Brasil e que várias áreas da Ciência já demonstraram ser positiva para a evolução humana, os brasileiros não conseguem ver uma vantagem…

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6 comentários sobre “Sobre genéricos, filhos e a Europa

  1. Jesus! Mas que brasileiro você é se só descobriu agora que o Brasil foi campeão em 58 em cima da Suécia?! Mas se foi a partir daí que o País começou a ser visto lá fora…! Rapaz, que pecado futebolístico… Sociologicamente também, vá…

    Concordo perfeitamente com você e recentemente comentei do ridículo deste comercial com minha esposa: perfeito o teu levantamento e sua associação com o famoso complexo de vira-latas (vencido, pela primeiravez no Brasil, pelo Futebol, viu?! Ré, ré!)! Só discordo quanto à miscigenação: neste aspecto, como está começando a virar moda esse tipo de "world beauty", é "globalizado" e chique orgulhar-nos de nossa mistura de raças e de cores… Mesmo pela contra-mão, o Brasil começa a dar sinais de aceitar (e se orgulhar diante de um sueco, por exemplo, rs) sua miscigenação…

    Abração! E apareça (ou comente, 'pick one'!)!

  2. @Dilberto,

    Ainda hoje faço esforços para me interessar de alguma forma por futebol, mas não descobri ainda uma maneira (ou um aspecto dele que eu ache interessante) para me imbuir de um mínimo de conhecimento trivial sobre a "bola no pé".

    Mas, sobre a world beauty, concordo em parte. Mesmo que os europeus achem bonito e coloquem mulatas em pé de igualdade com escandinavas loiras, a maioria dos brasileiros ainda tem em mente uma hierarquia de beleza que passa por aspectos étnico-fenotípiocs.

    Recentemente, a nora de minha esposa esteve aqui em casa. Jornalista, ela comentou que as repórteres potiguares costumam alisar o cabelo para esconder a ascendência africana, enquanto no Rio de Janeiro elas se assumem como são. Você tem razão, "o Brasil começa a dar sinais", e talvez isso seja um movimento que passará por uma gradual e regional revisão cultural…

  3. Thiago,
    Seu texto me fez lembrar das conversas que ouvia quando criança no sítio da minha avó, especialmente quando tinha visita e as visitas eram pessoas das relações de minha avó, gente mais idosa e que tinha aprendido a ver o Brasil de uma outra forma, menos depreciativa, na verdade quase de exaltação, a não ser pelo povo e pelo governo _ e é preciso dizer que para eles o Brasil se resumia a São Paulo, pois a maioria nem tinha televisão.

    Eram conversas do tipo: "O Brasil é o melhor país do mundo"; "é rico"; "tem fartura de tudo"; "tem um povo bom, honesto e trabalhador. lembro de um tio avô, já falecido, que vivia dizendo que o Brasil era uma terra abençoada entregue a um povo burro. Burro não no sentido de ignorante, mas no de não saber dar o devido valor a terra que habita. Eu não tenho certeza, posso estar bastante enganado, mas desconfio que este modo de pensar foi resultado das campanhas nacionalistas dos anos 30 aos 50, na Era Vargas _ todos os velhos da minha família adoravam Vargas!. Campanhas do tipo "O Petróleo é Nosso", entre outras ligadas, sobretudo, a nacionalização da indústria. Essas campanhas encontravam forte resistência na imprensa da época, financiada pela parte mais conservadora da elite econômica de então _ mais ou menos como hoje em dia _ e em setores da oposição política.
    Essa disputa entre Nacionalismo, representado por Vargas, e o chamado "entreguismo", representado pela imprensa e e pelos políticos de oposição pode ter resultado nesta maneira de ver o Brasil: um país cheio de potencialidades condenado ao servilismo pelas nações estrangeiras por culpa dos governantes que tem.
    Pelo menos na minha família, tudo que fosse nacional, mesmo que não fosse tão bom assim, era comprado com o maior orgulho. Bom isso até vir o Collor e dar o maior golpe que a indústria nacional já recebeu, mas isso é outra história…

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