A orgia humana – parte 1

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Diante das mudanças na aceitação das uniões homoafetivas e das demandas cada vez mais fortes por direitos e combate ao preconceito, o discurso reacionário reage como pode. “Dois homens morando juntos não são um casal. Dupla pode ser, mas casal é só homem e mulher. Eu até respeito a opção de dois homens conquistarem a união civil, mas é um crime eles adotarem uma criança”.

Muitas vezes esse discurso se acompanha de frases do tipo: “Isso é uma afronta contra Deus”. De certo modo, equivale a dizer que a homossexualidade é antinatural, ou seja, vai de encontro aos ditames da natureza. Dentro dessa perspectiva, parte-se do pressuposto de que a pessoa que se relaciona com um parceiro do mesmo sexo escolhe sua orientação sexual, escolhe “pecar”, e poderia facilmente seguir o caminho “natural”, se quisesse.

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A verdade que a mentira conta

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O filme Mentiras Sinceras (Separate Lies, 2005), dirigido por Julian Fellowes, conta a história de um trio amoroso às voltas com a verdade e a mentira, a honestidade e a traição. Mas não de forma óbvia e previsível, como é o clássico caso de Arthur-Guinevere-Lancelot.

O casal inglês James e Anne Manning vive uma relação estável e morna, quase britanicamente fria. Depois que Anne conhece Bill Bule1, dois acontecimentos começam a esquentar a situação, mas não de forma positiva nem agradável, especialmente para James.

O primeiro é a traição de Anne2, que conhece em Bill uma companhia menos exigente e mais confortável. A reação de James é, essa sim, previsível. Primeiro, ele se revolta (fleumaticamente, é claro, como bom inglês), como quase qualquer homem faria. Depois, como já conhecemos seu temperamento pacato e ordeiro, já antecipamos que ele vai fazer de tudo para que as coisas voltem ao normal, pois ele não suportaria uma separação.

O segundo acontecimento atinge mais diretamente o casal de amantes. Estes atropelam o marido da empregada dos Manning. É então que tem início o amarramento de um nó que aproxima os três e, inclusive, obriga os dois homens rivais a compartilhar de uma intimidade que aborrece muito James.

Se o crime fosse delatado, James poderia até se vingar do homem que seduziu sua esposa, mas se arriscaria a perdê-la para a Lei. Anne se sente duplamente culpada: seu adultério teve como preço manchas de sangue em suas mãos. Porém, ela não consegue abrir mão da felicidade que sente ao lado de Bill, e não sabe viver sem James por perto. (Notemos que William Bule é tratado pelo apelido, Bill, enquanto James não é chamado de Jim, o que denota a personalidade de cada um, o primeiro mais informal, mais irreverente, e o segundo mais formal e sério.)

Pequeno ensaio fleumático sobre corrupção

Na mente de James, ocorre uma confusão de valores. Ele exige que Bill se entregue à polícia, pois considera que é a coisa certa a fazer. Mas quando descobre que sua esposa está envolvida no acidente que matou um homem, suplica a ela que não se entregue.

Os três então selam um pacto de silêncio, um acordo que protege os três das consequências da verdade. E aí nos deparamos com o tema da corrupção e entedemos que, pelo menos na maioria dos casos, o corrupto não tem má intenção, apenas é egoísta o suficiente para não abrir mão do abrigo que a mentira oferece quando cometemos um erro que nos pode ser prejudicial.

A situação se torna insuportável para James, não tanto pela raiva de Bill enquanto seu rival, mas porque este é um sujeito desagradável, talvez por ser sincero demais. Para Anne, o que ela não aguenta carregar é a culpa de um crime contra a vida. Bill é o que melhor suporta tudo, e talvez não se abalasse nem um pouco se a verdade viesse à tona e todos tivessem que assumir suas responsabilidades.

Mas o que torna a situação ainda mais maçante para todos é a descoberta de que o conluio na mentira os faz conhecer melhor a parte podre de cada um, de si mesmo e dos outros. Enquanto mentem para o resto do mundo, são obrigados, para se protegerem, a ser sinceros uns com os outros. Enquanto a mentira os guarda do perigo externo, a verdade os machuca por dentro.

Assim, o filme (que não é uma obra-prima mas pode ser considerada uma obra de arte, especialmente pela fotografia e o belíssimo cenário, com a arquitetura inglesa e flora nativa da Europa insular) nos mostra, através da encenação da corrupção em sua forma mais elementar, que há coisas que, por mais que evitemos conhecer, serão empurradas para fora do porão onde as prendemos.

Mostra também que às vezes é preciso mentir para sermos honestos com nossos próprios desejos, mas é aí que nos deparamos com a liberdade dos outros. Por outro lado, trair nossos impulsos individuais é também uma necessidade quando estamos diante da fidelidade para com outras pessoas.

Avaliação

Trama 3
Atuação 3
Diálogo 3
Visual 3
Trilha sonora 3
Reflexão 3

Notas extemporâneas

  1. O ator que interpreta Bill Bule é Rubert Everett. Nunca havia visto Everett, mas já havia lido sobre ele num gibi da série Dylan Dog. O personagem principal desse gibi é desenhado segundo a aparência física do referido ator, e foi legal poder finalmente ver como seria Dylan Dog em carne e osso.
  2. Há um tema secundário nessa obra, que é o suposto perigo do adultério feminino. Assim como na história do rei Arthur, traído pela esposa Guinevere e pelo seu melhor cavaleiro e amigo Lancelot, e o filme Infidelidade (Unfaithful, 2002), a traição de Anne é como que o prenúncio de toda a tragédia e drama que se seguem. O adultério masculino é normalmente tratado com mais condescendência em obras de ficção, como um acontecimento que afeta só a mulher traída, e mesmo assim como algo que não a fere verdadeiramente.