Sapos e princesas no Beleléu: livros da infância

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Ando muito defasado em relação à Teia, ao mesmo tempo com muita vontade de escrever e com dificuldades para me sentar diante de caderno e caneta ou na frente de um computador para atualizar o blog. Vários textos inacabados, algumas ideias concebidas e não-realizadas… então decidi aderir a uma blogagem coletiva sugerida pela Sybylla em seu blog Momentum Saga e listar, comentando, alguns livros que foram importantes para minha idade pueril e dos quais até hoje lembro com carinho.

Não vou me delongar demais, até porque faz tanto tempo que li esses livros que não tenho condições de lembrar deles suficientemente bem para tecer resenhas elaboradas. Aliás, vou abordá-los segundo o que a memória me traz deles e de acordo com o impacto que eu penso que tiveram em minha vida até hoje.

A maioria dos livros que listo abaixo têm em suas edições atuais capas diferentes das edições que li, mas procurei no Google as ilustrações originais, pois a capa faz parte da identidade afetiva das obras que lemos em qualquer idade. Além disso, pesquisei os nomes dos autores, dos quais eu não lembrava, e dei uma espiada nas sinopses só para garantir que estava lembrado dos livros certos. Os livros estão na ordem cronológica que li (eu acho).

Falando pelos Cotovelos – Lúcia Pimentel Góes

Este livro, escrito por Lúcia Pimentel Góes, foi comprado por meus pais como parte do material escolar que as escolas exigiam (não sei se ainda exigem hoje em dia). Se bem lembro, eu podia escolher qualquer livro infantil na papelaria e foi esse que peguei, talvez por ter achado o título e a capa engraçados. Depois eu descobriria que o livro faria parte da minibiblioteca da sala de aula, junto com os livros que os outros alunos tivessem escolhido e levao, mas eu não esperei as aulas começarem e li meu exemplar antes.

Nessa história, o protagonista é um garoto que interpreta literalmente todas as expressões idiomáticas que escuta. Quando a irmã mais velha fala que seu namorado é um “bundão”, por exemplo, o garoto imagina um cara com enormes nádegas. Ele fica o tempo todo intrigado com essas expressões, tentando entender como elas se aplicam na realidade.

A ideia do livro é ótima para apresentar às crianças as peculiaridades da língua portuguesa em suas figuras de linguagem e como elas enriquecem nossa experiência comunicativa. Não sei exatamente qual foi o impacto desse livro em minha vida, mas desconfio que minha tendência a interpretar literalmente (de propósito) certas expressões nas conversas com amigos (transformando-as em papos surreais) tenha alguma coisa a ver com o fato de eu ter gostado desse livro.

Sapomorfose ou O Príncipe que Coaxava – Cora Rónai

Este conto de Cora Rónai ilustrado por Millôr Fernandes foi uma leitura de sala de aula quando eu morava em Carajás (Pará) e estudava a 4ª série no Colégio Pitágoras. Mas se a memória não me falha eu cheguei a pegar o livro na biblioteca de novo, pois era uma história muito interessante.

Eis a premissa da história: um sapo é transformado num príncipe por uma bruxa e só poderá se tornar um sapo novamente se receber um beijo de amor (acho que era isso). O sapo então precisa se acostumar com sua nova forma humana, tenta caminhar com suas pernas desajeitadas e se esforça para não ceder ao impulso de saltar (quando o faz, as pernas humanas pouco flexíveis o levam a se esbofetear no chão). Ele passa a viver numa corte, e é cortejado por princesas, mas elas não o agradam e a única coisa que ele realmente anseia é voltar para o pântano onde morava, coaxar e comer insetos.

Embora tenha sido um dos meus livros preferidos na infância, não lembro de quase nada dos detalhes da história, mas lembro bem de algumas das ilustrações de Millôr Fernandes. Acho que esse livro teve um impacto positivo em mim ao me fazer pensar em formas alterativas de contar histórias, inverter papéis e questionar as tradições veiculadas pelo folclore.

No Reino Perdido do Beleléu – Maria Heloísa Penteado

Esse eu encontrei perdido na biblioteca da escola. A sabedoria popular diz que, quando uma coisa se perdeu, ela “foi pro Beleléu”. A partir desta premissa, Maria Heloísa Penteado concebeu um mundo mágico, um universo paralelo, para onde as coisas perdidas vão: o Reino do Beleléu.

A protagonista da história é uma menina muito organizada, que sempre deixa suas coisas nos devidos lugares e dessa forma nunca perde nada. Em contraste, seu irmão é muito bagunceiro e já fez sumirem tantas coisas em seu próprio quarto que ele tem algumas meias e sapatos sem par. O menino é tão desorganizado que certo dia perdeu a si mesmo e desapareceu. Sua irmã acaba descobrindo uma forma de chegar ao Beleléu através da vendedora de doces da escola, que é na verdade a rainha daquele reino perdido. Em sua jornada, ela encontra um orangotango gigante que é lacaio da rainha e descobre como funciona a logística das coisas perdidas.

Este foi um livro especial. Lembro principalmente de ele ter a ilustração de uma paisagem do Reino do Beleléu, por onde a heroína caminhava. Nessa imagem, havia diversos objetos escondidos e a autora oferecia ao leitor o desafio de encontrá-los. Isso simbolizava a própria natureza do Reino do Beleléu, um lugar onde as coisas (e pessoas) se perdem, mas não deixam de existir e podem ser reencontradas. Para mim esse elemento narrativo-lúdico representou uma mudança na forma de ver um livro de estórias, como algo para além do texto, uma mistura multimídia em que palavras escritas e elementos gráficos se juntam para formar uma obra envolvente. Talvez por isso eu goste tanto de quadrinhos hoje em dia.

O Fantástico Mistério de Feiurinha – Pedro Bandeira

o-fantastico-misterio-de-feiurinha-pedro-bandeira-86-MLB4645155375_072013-OTambém da vertente da releitura dos contos de fadas, a história de Feiurinha, escrita por Pedro Bandeira, unifica os contos das conhecidas princesas Bela Adormecida, Cinderela, Rapunzel, Branca de Neve e outras.

Todas essas princesas são amigas e costumam se encontram para conversar. É pitoresca a forma como cada uma delas é retratada, com personalidades que remontam a suas histórias: Bela Adormecida é dorminhoca, Chapeuzinho Vermelho é comilona, Rapunzel não corta os cabelos… o que todas têm em comum é que cada uma delas se casou com um Príncipe Encantado (todos eles com esse mesmo nome).

Durante um desses encontros, elas se dão conta de que falta uma princesa encantada sobre a qual ninguém nunca mais falou: Feiurinha. Para redescobrir sua história e descobrir onde ela está, as princesas recorrem a um escritor (o próprio autor do livro), para que ele se inspire e reescreva o conto de Feiurinha. Ele consegue, claro, e a parte principal do livro é a própria história de Feiurinha, uma menina bonita que foi criada por três bruxas feias que a fizeram pensar que feia era ela.

Apesar de hoje, em retrospecto, eu achar que a ideia da dicotomia absoluta beleza/feirúra (ligada ao dualismo bem/mal) seja bem retrógrada e obsoleta (a propósito, eu aprendi a palavra “obsoleta” nesse livro), toda essa recriação do universo dos contos de fadas, que ressoam Sapomorfose, ainda me fascina.  Esse tipo de brincadeira com o universo dos contos de fadas me levaria, bem mais tarde, a gostar de coisas como a série de filmes do Shrek e em especial a série de quadrinhos Fábulas.

Muitos anos depois apareceu uma adaptação cinematográfica com a Xuxa, mas eu achei que a probabilidade de terem feito besteira nessa transposição era tão grande (xega de Xuxa!) que preferi ficar só com a lembrança daquela pequena obra literária.

Arqueologia da bibliofilia reconstruída

Ainda há outros livros de que me lembro com carinho. Um dos mais instigantes era uma espécie de apologia ao Lobo Mau, recontando Chapeuzinho Vermelho sob o ponto de vista do lobo, mostrando que ele não tinha culpa pela morte da Vovó, que na verdade tinha sido morta por um homem que, para se safar, usou o lobo como bode expiatório (ou seja, mais uma reimaginação dos contos de fadas). Infelizmente, não me lembro do nome do livro e não consegui encontrar nenhuma referência na internet.

Eu não coloquei Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, porque, pelo que me lembro, não consegui terminar de ler minha edição da Ediouro (comprada por meu pai através do boleto postal) na infância, e só o leria completo na época da faculdade. Mas o pouco que eu tinha lido era muito interessante. Outro cuja maior parte se perdeu no Beleléu da memória foi O Pequeno Fantasma, de Otfried Preussler (também comprado pelo boleto postal da Ediouro), que era interessante, contando a rotina do noite-a-noite de um fantasminha, mas por algum motivo não concluí.

De qualquer forma, dá para refletir por que alguns livros são mais fáceis de lembrar do que outros e o que isso pode dizer sobre mim mesmo e sobre a forma como eu mesmo me vejo. Às vezes eu me pego relembrando esses livros e com vontade de reencontrá-los e relê-los, para relembrar os detalhes e investigar melhor as marcas que eles deixaram em mim, com certeza muito significativas.

Mas o mais interessante deste exercício autobiográfico é constatar o caráter artificial da memória (re)construída. Essa foi a primeira vez que parei para pensar sobre os livros que li na infância e dispô-los numa categoria histórica. As memórias são dados esparsos e desconexos, e só ao juntá-las é que preenchemos as lacunas e elaboramos um (novo) sentido para elas, criando um fio de lembranças que só existe no presente e diz muito mais a respeito do nosso eu atual do que do eu infante de um passado recente.


Hashtag da blogagem coletiva: #BCLivrosdaInfância

Avatar [Resenha – Parte 3]

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Avatar (2009) é um filme que, se dividiu muita gente na opinião quanto à trama e aos temas tratados na narrativa, encantou a maioria em seus aspectos estéticos. Toda a criação virtual deu um aspecto muito real ao mundo imaginário de Pandora, com fauna e flora críveis e um ecossistema simbiótico envolvente.

Na primeira parte desta resenha, fiz um resumo comentado do filme e discorri sobre os nomes usados na história. Na segunda parte, analisei algumas questões antropológicas. Nesta terceira e última parte, trato dos aspectos estéticos de Avatar, do mundo áudio-visual criado por Cameron, da ficção científica misturada com fantasia mítica (e um pouco mística) e de como tudo isso se relaciona com um dos temas mais contundentes do filme: Ecologia e meio ambiente.

Sinestesia fantástica

(Não pude ver o filme na versão 3D, pois tenho visão monocular (mas, se pudesse, não hesitaria experimentar essa nova tecnologia cinematográfica). Mas alguns comentaristas constam que a obra não foi inicialmente concebida para ser vista em 3D, então penso que este recurso é só um extra interessante. No entanto, mesmo em 2D o visual é espetacular.)

Trama 4
Montagem 5
Atuação 3
Diálogo 3
Visual 5
Trilha sonora 4
Reflexão 4

O clima penumbroso do laboratório é frio e deprimente. Ao fazer a conexão com seu avatar, Jake Sully faz uma viagem neuronial, apresentada em primeira pessoa, que leva o próprio espectador a sentir que saiu de um lugar cinzento para uma sala bem iluminada. A cor do corpo na’vi se destaca, e o amarelo dos olhos compõe, sobre a pele azul, a imagem do amanhecer, dois sóis que se destacam contra o céu.

Mas a luz reconfortante desta antessala é só uma transição para o que está do lado e fora: uma atmosfera diferente, com um brilhante sol a esquentar o chão que há muito Jake Sully não sentia; agora ele corre para aproveitar ao máximo a sensação que perdera com seu paralítico corpo humano. Mas isso não é suficiente para ele, pois em seus melhores sonhos ele voa.

Passamos então para a floresta fechada, onde há plantas um tanto diferentes do que se viu na Terra (se é que esses personagens viram muitas plantas na devastada Terra) e animais exóticos mas nada muito alienígenas. Fauna e flora pandorianas são ao mesmo tempo surpreendentes e familiares, tudo sob uma luz/sombra florestal que nos faz sentir aconchego e apreensão.

A noite traz perigo e mistério. Luzes se acendem no céu, nas plantas e na pele, como velas numa caverna. Os na’vi recebem Jake Sully com receio, mas tanto o forasteiro quanto a tribo nativa dão uma chance um ao outro. Já a manhã traz um cenário aberto com planícies a cavalgar e cânions a sobrevoar. Subimos as Montanhas Aleluia, grandes pedras flutuantes, e estamos quase voando. Mas é só quando as belas aves pterossáuricas são montadas que o destino de Jake Sully começa a se concretizar.

Um destino que se alcança às custas de várias viagens de ida e volta, entre o sonho aborrecido que experimenta entre humanos e a realidade vívida que vive entre os na’vi. Nesta realidade, Jake Sully encontra um amor construído com aprendizado e afeição, e entendemos junto com ele e Neytiri que os seres que habitam o universo têm todos algo em comum.

A Árvore das Almas e a bioluminescência de tudo em volta é uma imagem brilhante e envolvente, e nos faz quase sentir nossos cabelos se arrepiando e se envolvendo na mente dos seres vivos que formam todos uma só consciência. E quando fazem amor, Jake Sully e Neytiri expressam em poucos gestos e palavras uma afeição que não precisa ser mostrada de outra forma.

Mas toda essa benevolente realidade é ameaçada pelo pesadelo de escorpiões voadores e grandes fantoches de metal. Ou será o contrário, o onírico mundo regido por Eywa ameaçado pela terrível realidade destrutiva humana? Se o sonho é ruim ou bom, se a realidade física é negativa ou não, se uma coisa é a outra ou vice versa, depende da experiência de cada um. Para Augusto dos Anjos, a ilusão era doença:

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimento rotatórios…
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Grifo meu.

No filme, seres construídos por computadores lutam contra humanos feitos pela natureza. Porém, são as criaturas virtuais que representam as forças naturais, enquanto os seres de carne e osso se apresentam como ícones da tecnologia empregada para fins inescrupulosos. Toda a imagem é digna de um épico ilustrado em paredes esculpidas por antigas civilizações.

Batalha aérea em Pandora

Jake Sully completa seu destino nas costas de um Toruk, “última sombra”, e voa com os na’vi, uma corte de guerreiros alados. Ele se reconcilia com seu rival Tsu’Tey, atual líder na’vi, assim como um predador gigante renuncia sua ferocidade para que Neytiri monte em suas costas. Toda a natureza toma partido e luta contra a ameaça tecnológica, não para vencer uma guerra, não para matar um inimigo, mas para preservar algo muito maior, às tristes custas da morte de alguns.

Neytiri sente que Jake Sully está morrendo em seu corpo humano, ela o vê à distância. Ao alcançar o frágil corpo humano, ela o acolhe em seus braços, reconhecendo a alma forte que ela enxerga no fundo dos olhos que a enxerga da mesma forma. Numa das cenas de  amor romântico mais belas que já vi, dois indivíduos, de espécies alienígenas um para o outro, se acariciam depois e abraçarem a alma um do outro.

Avatar é um universo mágico, uma aventura de Fantasia que remonta às histórias de viagens a mundos idealizados, como a Terra do Nunca a que Peter Pan leva Wendy e seus irmãos, como o País das Maravilhas a que Alice é conduzida por um coelho branco, ou Oz em que Dorothy se perde. Sempre se viaja para um mundo de maiores possibilidades que a realidade, de libertação, normalmente se vai para mais perto da natureza, em busca de algo perdido e sufocado pela civilização.

Mas não só a Fantasia oferece essas viagens reveladoras. Na Ficção Científica, Neo viaja da Matrix para o mundo real; o Planeta dos Macacos também é destino de uma viagem que ensina muito sobre a natureza humana; o arqueólogo Daniel Jackson faz uma jornada no espaço e na história para descobrir os segredos do Antigo Egito. E Avatar também se envereda a Ficção Científica.

Ficção científica

Avatar não é um filme de ficção científica, pelo menos não uma hard science fiction. É uma história romântica (não só no vulgarizado sentido do romance amoroso, que também está presente, mas especialmente no aspecto que envolve a autodescoberta e a fantasia do retorno à natureza selvagem) que tem elementos de ficção científica.

Mas não é como Guerra nas Estrelas, uma aventura épica cujos elementos de ficção científica são mais fantásticos do que científicos. Avatar tem uma ficção científica verossímil, pertinente e bem encaixada na narrativa.

Qualquer história de ficção se inicia com uma pergunta, que normalmente está implícita, um problema cuja solução se tenta resolver através da narrativa. “E se um fantoche criasse vida?” Resposta: Pinóquio, de Carlo Collodi. “Como seria a história de um homem atormentado pela dúvida se sua mulher o traiu ou não?” Resposta: Dom Casmurro, de Machado de Assis.”E se uma pequena e fleumática criatura se envolvesse numa aventura épica?” Resposta: O Hobbit, de J. R. R. Tolkien.

Na ficção científica, essa pergunta necessariamente se dá no campo da especulação científica e normalmente envolve uma preocupação social em relação ao desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia. “E se houvesse um planeta habitado por macacos inteligentes e humanos bestiais?” Resposta: O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle. “Se uma espécie alienígena avançada e pacifista olhasse para a Terra da Guera Fria, que partido ela tomaria?” Resposta: O Dia em que a Terra Parou, de Robert Wise.”Quais seriam as implicações da criação artificial de um ser humano?” Resposta: Frankenstein, de Mary Shelley. (É claro que essas perguntas estão muito resumidas. Cada uma dessas histórias tem um conjunto complexo de questões encadeadas.)

“E se a Terra ficar exaurida de recursos naturais? E se o mundo que tem os recursos que queremos explorar é habitado por criaturas inteligentes que vivem em cima do metal precioso que queremos? E se essas criaturas respiram um ar tóxico para nós? E se a lua em que vivem tem gravidade maior do que a da Terra? E se esses nativos têm 3 metros de altura e se locomovem com agilidade num ambiente que para humanos é difícil de ser explorado?” Resposta: Avatar.

Imagine então uma tecnologia que permita a um ser humano assumir a forma de um nativo, respirar o mesmo ar que ele, resistir à forte gravidade, percorrer com desenvoltura, força e agilidade o ambiente local e, da mesma forma que os alienígenas, fazer conexões neuroniais com animais e plantas desse mundo. É uma tecnologia muito complexa, avançada e, portanto, cara. E é empregada como um pesado investimento para a obtenção do valiosíssimo unobtânio.

Jake Sully e seu avatar

A humanidade chegou a um avanço tecnológico gigantesco: viagens intergalácticas, robôs humanoides bélicos que obedecem aos movimentos de seus pilotos, transmissão da mente para outro corpo. Mas não conseguiu avançar sua ética, e repetem com os na’vi os mesmos erros que os colonizadores (humanos) cometeram com povos (humanos) nativos no escopo do planeta Terra.

Dessa forma, Avatar repete e inverte a fórmula clássica de filmes sobre alienígenas que invadem a Terra com ultratecnologia e ultradestrutividade. Mas desta vez os invadidos são os alienígenas, os humanos são os invasores. “Como seria se os humanos detivessem tecnologia suficiente para visitar outro planeta com tecnologia menos avançada?” Resposta de James Cameron: seria o mesmo que se viu em Independence Day, de Roland Emmerich, só que os humanos é que estão nas naves estelares.

O ecossistema de Pandora também parece verossímil ao espectador médio, principalmente pelo realismo das imagens, e menos por causa de alguma verossimilhança sistêmica na relação entre animais e plantas. Mas o detalhismo deste âmbito não é tão importante neste filme. A parte da natureza sai da ficção científica e entra mais no fantástico, sobre que discorri acima.

Assim, James Cameron concebeu Eywa como um sinônimo de mãe-natureza, como uma referência à divindade grega Gaia, que representa a Terra, a biosfera, o ecossistema terráqueo. Eywa é essa mesma divindade, mas representada pelos na’vi no planeta Pandora. Ela tem uma grande importância para a questão ambiental tratada no filme.

Questão ambiental

Este pequeno planeta precisa de cuidados.

Este pequeno planeta precisa de cuidados.

De acordo com a hipótese (ou teoria) de Gaia, a biosfera da Terra constitui um sistema autorregulador, quase como um ser vivo composto pelos  animais, plantas e outras criaturas e pelo meio ambiente ocupado e formado por esses seres. Fugindo da polêmica em torno do real significado metafórico ou não de Gaia (não sou versado em Geologia, Ecologia nem qualquer área pertinente), uma coisa parece ser unânime entre os cientistas: um ser vivo mantém uma relação direta ou indireta com todo o ecossistema terrestre, e qualquer grande mudança de uma de suas partes  acarreta uma reação do todo.

Os seres vivos de Pandora vivem uma conexão extrema. Os na’vi, inteligentes, conectam suas mentes (através de fios de cabelos que transmitem impulsos bioquímicos/sinápticos) às de montarias nativas, cavalos hexápodes, para fazê-los obedecer ordens de movimento, ou a grandes aves para que estas os carreguem voando. Os na’vi também se conectam assim à Árvore das Vozes, para escutar seus ancestrais. A interconexão entre os seres de Pandora é tão interdependente que qualquer interferência séria como a derrubada de uma grande árvore põe em risco todo o biossistema.

O ecossistema fictício de Pandora é assim uma metáfora hiperbólica de uma realidade existente em nosso próprio mundo, o planeta Terra. A extinção de uma espécie terráquea, a derrubada ou queimada de florestas, a poluição de um rio ou de um mar e a infestação do ar com fumaça são exemplos de interferências humanas que têm consequências sérias sobre todo o conjunto.

Avatar é, portanto, bem atual ao tocar num tema que está na pauta contemporânea e que tem preocupado diversos setores das sociedades ocidentais. Na base de todas as controvérsias sobre as causas mais contundentes e do real escopo das mudanças climáticas (especialmente as controvérsias sobre se há ou não um aquecimento global catastrófico provocado pelos seres humanos), é unânime a exortação de que devemos cuidar do meio ambiente.

A mensagem ecológica do filme é sintetizada na frase dita a Jake Sully por Neytiri: “Tudo o que Eywa dá é emprestado e será preciso devolver”. É uma exortação à nossa responsabilidade enquanto parte integrante de um mesmo meio ambiente. E enquanto seres humanos, capazes de transformar esse meio de formas muito impactantes, é preciso lembrar do que Carl Sagan disse no livro Bilhões e Bilhões: Reflexões sobre Vida e Morte na Virada do Milênio:

Não há nenhuma causa mais urgente, nenhuma tarefa mais apropriada do que proteger o futuro de nossa espécie. Quase todos os nossos problemas são provocados pelos humanos e podem ser resolvidos pelos humanos. Nenhuma convenção social, nenhum sistema político, nenhuma hipótese econômica, nenhum dogma religioso é mais importante [p. 85].

Que completa, reiterando:

Se os humanos criam problemas, os humanos podem encontrar soluções [p. 86].

Numa resenha muito pertinente publicada na Folha de S. Paulo, o físico Marcelo Gleiser nota que Avatar pode ser visto como um aviso dos atuais perigos ambientais na Terra. Esta, no filme, está esgotada de recursos naturais, o que obriga os humanos a buscarem energia fora do Sistema Solar. Precisamos cuidar da Terra para que não se repita a farsa histórica na qual os nativos de um paraíso natural são dizimados pela ganância e pelo desespero. Gleiser conclui assim seu artigo:

somos nossos piores inimigos e nossa única esperança. A natureza não vai nos ajudar.

Comentários sobre as notas

Trama 4: a história é bem conhecida, e a falta de originalidade faz com que a trama seja previsível. Mas ela é bem construída e agradável, suas partes se encaixam bem, com início, meio e fim, com harmonia e sem excessos.

Montagem 5: As cenas se encaixam com perfeição. Cada corte diz muita coisa sobre os sentimentos dos personagens e sobre o clima geral da trama. A exemplo o momento em que Jake Sully acorda em seu corpo humano logo após fazer amor com Neytiri. A música silencia, os olhos desolados de Jake se abrem dentro da tubo de conexão e ele se pergunta: “O que diabos você está fazendo, Jake?”, sem saber mais qual é sua missão ali.

Atuação 3: os atores fazem bem o seu trabalho, sem nada excepcional. Alguns personagens são marcantes, como o coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) e a doutora Grace Augustine (Sigourney Weaver), mas no geral as dramatis personae são secundárias diante do espetáculo visual e da sucessão de eventos.

Diálogo 3: as falas são bem simples e não contribuem muito para o show. Mas não se percebe nenhuma pretensão de se criar algo impactante e original nos diálogos, e eles não atrapalham em nada.

Visual 5: o visual é simplesmente perfeito. Toda a beleza selvagem que se pretendeu criar está presente nas imagens e os seres artificiais que aparecem na tela são muito realistas.

Trilha sonora 4: a música é linda e apropriada, fazendo com que os cenários se enriqueçam e sejam facilmente acessíveis ao espectador. No entanto, há momentos em que o som fica discrepante com a cena, mas isso ocorre pouco.

Reflexão 4: os temas são muito instigantes para quem nunca viu Dança com Lobos, O Último Samurai ou Distrito 9. Mas a maioria deles é batida. No entanto, soma-se aí o detalhe de o estrangeiro ser de outra espécie, o que faz com que o protagonista mude de corpo, se tornando realmente um outro, e a questão ambiental tão em voga e ainda pouco (e mal) explorada no cinema.

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