Coleção de sinapses 4

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Esta semana uma jornalista negra sofreu uma ofensa racista por um mestre de cerimônias, o que nos remete a uma análise interessante sobre a permanência do racismo no Brasil. A acusação de que os antropólogos brasileiros são parciais em seu trabalho é relativamente desmentida num relatório da Associação Brasileira de Antropologia sobre os índios maxakali.

Dito isso, aprendemos com os portadores da Síndrome de Williams que as pessoas não devem ser julgadas pela “raça”. E vimos numa entrevista não muito recente com Peter Fry que, além da raça, a religião, a sexualidade e a política também não devem ser motivo de preconceito, até porque tudo está misturado. E não é preciso nenhum salto de fé para aceitar alguns preceitos éticos que envolvem todos esses temas…

Jornalista do Hôtelier News é vítima de racismo na Fistur – Hôtelier News

É interessante notarmos como é fácil uma coisa dessas acontecer. E, paradoxalmente, como é fácil ficarmos indignados. Os brasileiros vivem uma tensão entre o racismo latente e a ideologia antirracista. Talvez por haver essas duas forças contrárias atuando sempre é que seja tão complicada a discussão em torno das ações afirmativas no Brasil.

Também é interessante ver, como o fez um amigo meu, que, embora seja perfeitamente legítima a defesa da jornalista contra o preconceito que sofreu, ela mesma não está livre de preconceitos, ao sugerir que uma pessoa ateia ou agnóstica não pode ser moralmente íntegra. Mas aí é outra longa história…

Quem tem medo de raça? A paranóia branca e as ações afirmativas no Brasil – Adital

É fácil confundir o ideal antirracista com a negação do racismo. Essa confusão é feita tanto por quem se opõe à institucionalização das raças quanto por quem a defende. Podemos pensar que há realmente um status quo que uma certa mentalidade elitista e conservadora quer manter, e que passa pela manutenção das desigualdades raciais. Mas nem todos os argumentos que se opõem às ações afirmativas (tais quais as cotas raciais) se baseiam nesse conservadorismo eurocêntrico. Em suma, o texto é interessante e pertinente, mas incorre também em generalizações.

Laudos e Ética – Estadão

Há uma constante acusação aos antropólogos de que seus trabalhos periciais são sempre pautados por um posicionamento unilateral e favorável aos povos estudados por eles, como na confecção de relatórios de identificação e delimitação de seus territórios, para a regularização fundiária. Mas muitas vezes falta quem represente os interesses dos índios e quilombolas, por exemplo, na interlocução com o Estado, e até agora a Antropologia tem sido um dos poucos recursos disponíveis…

Considerações a respeito da situação Maxakali – Associação Brasileira de Antropologia

Nesta nota da ABA, os antropólogos que fazem os relatórios citados no link acima mencionam uma situação em que mostram como se dá a relação entre Antropologia e os povos que são seu objeto de estudo. E entendemos que nem sempre os índios têm razão.

Williams syndrome children show no racial stereotypes or social fear – Discover Magazine – Blog: Not Exaclty Rocket Science

Essa síndrome é interessante. Seus portadores não têm medo de se relacionar com nenhuma pessoa, independentemente do grau de intimidade. A pesquisa sugere que eles não fazem discriminação racial ao julgar as outras pessoas. Porém, serão precisos mais dados para confirmar se isso é uma tendência ou um dado absoluto.

Comment of the Week: The America Christians Want to Return To – Austin’s Atheism Blog

Nesse comentário a um post de Austin Cline em seu blog, vemos que a maioria dos ideais tradicionalistas que os religiosos fundamentalistas querem “de volta” implicariam um retrocesso. Inclusive, os próprios avanços democráticos da contemporaneidade permitem que eles expressem essas ideias sem serem punidos. Mas no mundo que eles querem, alguém que discordasse deles iria para a fogueira.

De Cazemiro@edu para Demóstenes.Torres@gov – Portal ClippingMP

De Washington@edu para Gaspari@jor – Andifes

Esse diálogo em forma de cartas “psicografadas” é pitoresco. Élio Gaspari e Demóstenes Torres estão discutindo ações afirmativas, em especial a proposta de cotas raciais nas universidades. O primeiro é pró-cotas, o segundo é anticotas. Mas o mais interessante é que a incorporação dos personagens serviu para suavizar o debate e deixá-lo um pouco mais civilizado. No entanto, ainda vemos aí a manutenção das posições firmes e maniqueístas no debates sobre cotas raciais, sobre os quais já discuti em Cotas raciais – parte 1.

Religião, política e sexualidade na visão de um antropólogo cosmopolita – Globo Universidade

O cosmopolitismo é muito importante para abstrairmos as ideias com que fomos  criados no restrito ambiente-natal. Peter Fry, antropólogo inglês, mostra que suas viagens pelo mundo não só ajudam a relativizar a visão que temos de nossa própria religião-natal, vida política-natal ou vida sexual-natal, mas também nos faz entender relações imprevistas entre esses vários aspectos da vida humana, tanto numa perspectiva prática quanto epistemológica.

Leap of faith – Wikipedia

Procurei saber sobre a expressão “leap of faith” depois de ver um episódio de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, em que o androide Data diz a Worf que, para considerar a si mesmo uma pessoa, precisou fazer um “salto de fé”, um “leap of faith”. Isso significa deixar em suspenso a falta de provas para algum fato e assumir este fato como verdadeiro, para suprir alguma necessidade existencial. Muitas de nossas assunções são baseadas num “salto de fé”, já que a Ciência e o conhecimento em geral é sempre uma aproximação e não uma descrição exata da realidade. “Se a aparência das coisas coincidisse com sua essência, toda ciência seria supérflua” (Karl Marx).

Do Barba-negra ao McDonald’s

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Ahoy! Os piratas ainda existem e atuam nos sete mares. E embora conheçamos os séculos XVII e XVIII como a Era de Ouro da pirataria marítima, ela existe desde a Antigüidade e até os dias atuais.

Aye! Nesta matéria do site Live Science, o professor Peter Hayes, da Universidade de Sunderland, no Reino Unido, sugere que o capitalismo contemporâneo das multinacionais tem raízes na pirataria:

Piratas do Tietê por Laerte

The way that privateering was operating back in the golden age of buccaneering, is that a group of individuals come together, and agree to kit out a ship to sail the seven seas to see if they can pull in some gold. It was a global gamble for enormous rewards. These predatory voyages are the roots of modern venture capitalism, with these modern multi-national corporations out to get all they can get. That’s the sort privateering that led to the credit crunch […]

É curioso saber que os hodiernos métodos do Capitalismo provêm do vandalismo bucaneiro. Da mesma forma que os piratas aventureiros são muitas vezes romantizados, apesar de sua violência cometida através de roubos e assassinatos, os modenos empreendedores capitalistas, apesar das conseqüências nefastas ao meio ambiente e da contribuição para a intensificação da desigualdade social, são ovacionados pela ideologia individualista que louva a livre iniciativa.

Monty Python e o Sentido da VidaA imagem dos piratas é tão compatível com os empreendimentos capitalistas modernos que em Monty Python e o Sentido da Vida há uma cena em que duas empresas, uma antiga e uma jovem, se digladiam ao modo do duelo entre dois navios, tendo início o combate com uma abordagem piratesca da empresa antiga ao edifício da empresa jovem. No final, o edifício antigo sai se locomovendo pela cidade como se fosse uma nau.

O fascínio pelos piratas é tanto que existe uma espécie de “cultura pirata”, cuja manifestação máxima se dá no dia 19 de setembro, o Talk like a Pirate Day. Misturando várias referências da cultura popular sobre os piratas, como o modo de vestir e se portar mostrado em velhos filmes hollywoodianos e o modo de falar criado por escritores como Robert Louis Stevenson (Ilha do Tesouro) e James Mathew Barrie (Peter Pan), os piratamaníacos chegaram ao ponto de consolidar um jargão pirata, que só funciona praticamente em inglês. Mas já teve as versões alemã, sueca, chinesa e francesa criadas pelos fãs de outros países. Os festeiros do Talk like a Pirate incitam os cidadãos comuns a liberar seu “pirata interior” através desse linguajar bruto e engraçado.

No Brasil, a mais interessante criação sobre este tema são as divertidas tirinhas Piratas do Tietê, de Laerte. Nessa obra, os piratas são usados para satirizar política, economia, cultura, família, quadrinhos, video games, sexualidade, educação et coetera et al.

Os GooniesSeja em uma miríade de filmes (dos quais Os Goonies representa e tematiza a própria piratamania), seja nos quadrinhos, seja na literatura e até nos video games (Monkey Island, Puzzle Pirates), os piratas talvez nos causem esse fascínio por vários motivos. Pelo caráter aventureiro, desregrado e fora-da-lei, que nos toca nos desejos reprimidos de fazer coisas proibidas. Pelo contato com a imensidão do mar, que povoa o imaginário humano com sentimentos de imensidão e de retorno às águas primordiais.

Os piratas chegaram até a fazer parte do evangelho de uma religião satírica, a Igreja do Monstro-Espaguete Voador, para a qual o aquecimento global é causado pela diminuição do número dos piratas no mundo. Mas, como noticiado pela matéria citada no começo deste texto, ainda existe pirataria marítica em todo o planeta.

Prefiro mantê-los apenas nas sátiras.

Notas pós-texto

Este texto fora escrito originalmente em 21 de outubro de 2008 e.c., e tinha naufragado no oceano internético. Felizmente consegui resgatá-lo, infelizmente sem os comentários.

História da pirataria

Felizmente, vim a ler mais sobre a pirataria e descobri uma coisa interessante. No livro The Many-Headed Hydra: The Hidden History of the Revolutionary Atlantic (A Hidra de Muitas Cabeças: A História Oculta do Atlântico Revolucionário), de Peter Linebaugh e Marcus Rediker, do qual encontrei algumas resenhas na internet, oferece uma visão da pirataria diferente daquela consagrada pela história clássica.

Os autores contam sobre um movimento revolucionário generalizado durante os séculos XVII e XVIII no Atlântico, quando as navegações exploratórias para o avanço do Capitalismo estavam em alta nesse oceano. Fugindo à lógica das explorações capitalistas e escravocratas, alguns grupos de marinheiros proletários instauraram ou desenvolveram modos de vida subversivos, igualitários e meio que comunistas/anarquistas.

Entre esses grupos, muitos marinheiros se insurgiram contra a rígida disciplina da Marinha, a suas opressoras hierarquias, à escravidão e ao nacionalismo. Dessa forma, os autores de The Many-headed Hydra mostram que a imagem que temos hoje dos piratas como desordeiros criminosos é deturpada. Eles eram em geral desordeiros por que infringiam a ordem vigente e eram criminosos no sentido em que agiam contra a lei dominante nos mares.

Os piratas formavam tripulações mestiças, o que pode ter ajudado a criar uma imagem, até hoje presente, de que eles eram degenerados e selvagens. Desde há muito a mestiçagem é representada como um processo que depurifica a “raça”.

Eles também partilhavam as pilhagens igualitariamente, subvertendo as hierarquias da Marinha. Assim, ganharam a pecha de caóticos e anarquistas, pois a ordem das relações de poder era valorizada pela elite interessada pela manutenção dessa mesma ordem.

Dessa forma, os piratas não eram um grupo tão negativo como o que a história oficial e os estereótipos satíricos nos legaram. Porém, é preciso lembrar, como a resenha de Robin Blackburn sobre o livro bem aponta, que os autores parecem ter sido muito românticos em sua dissertação, exaltando alguns fatos e menosprezando outros. Não nos esqueçamos de que os piratas, como qualquer grupo marginal que se destacou da ordem vigente em qualquer episódio da história humana, para sobreviver, usaram da violência e da morte em suas aventuras.

Autoanálise

De certa forma, ler essas informações históricas redimiu um pouco a imagem dos piratas para mim. Paradoxalmente, piratas são personagens que sempre me fascinaram, desde os desenhos animados de Peter Pan, passando pelos Goonies, Piratas do Caribe, por toda sátira que os envolvia, como os Piratas do Tietê e a popularização dos piratas como uma fantasia divertida. Veja, por exemplo, o Talk like a Pirate Day.

Lembro que, nas aulas de História, contava-se que os corsários franceses faziam amizade com os nativos sul-americanos, pois não vinham com intenção de oprimi-los, como o faziam os colonizadores a mando dos reinos europeus. Isso me intrigava, pois os corsários e piratas, pelo que eu sabia, só queriam saber de matar, saquear, pilhar e enriquecer. Agora eu entendo que quem fazia tudo isso eram os próprios navegantes “oficiais”.

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