Filmes para crianças – parte 3

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As histórias sobre robôs, androides, replicantes e outros seres artificiais podem servir como pano de fundo para reflexões sobre o próprio ser humano. Os robôs que agem como pinóquio, tentando se tornar seres humanos, e aqueles que extrapolam a programação inicial dada por seus criadores são metáforas do indivíduo que se desenvolve a partir de uma tabula rasa, da pessoa que procura se autoaprimorar para alcançar um ideal de valor e humanidade, tentando superar suas falhas e adquirir virtudes.

Os três filmes listados abaixo têm como protagonistas seres artificiais, robôs que aprenderam a ser mais do que máquinas. São ótimas opções para discutir com as crianças sobre humanidade, Ética e autoevolução. Recomendo que o adulto interessado veja os filmes antes de ler este artigo e antes de passar para seus filhos/sobrinhos/netos/amigos etc. As descrições dos filmes contêm spoilers. Divirtam-se.

Veja também:

Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

O Gigante de Ferro (The Iron Giant)

Direção: Brad Bird

País: EUA

Ano: 1999

No ano de 1957, no estado norte-americano de Maine, em plena Guerra Fria, Hogarth, um garoto órfão de pai, encontra uma criatura inusitada: um robô gigante vindo do espaço. Esse Gigante de Ferro, muito amigável e pacífico, tem provocado algum transtorno no local, pois se alimenta de metal, ou seja, carros, cabos de aço e trilhos de trem. Ele vem sendo perseguido pelas forças armadas, pois alguns, especialmente o agente Kent Mansley, acreditam que se trata de uma máquina de guerra e uma ameaça à humanidade.

A verdade é que o Gigante possui em sua estrutura interna um conjunto de armas letais ultra-avançadas, e ele é realmente programado para ser uma arma. Devido à amizade de Hogarth, sua programação é reprimida e ele desenvolve uma personalidade altruísta e antibelicista. Entre assumir a identidade de um robô maligno e a de um herói bondoso como o Super-homem (vistos nos quadrinhos de Hogarth), ele prefere seguir o ideal deste último. Porém, quando detecta uma arma, seus sistemas destrutivos são acionados e representam um perigo para todos ao redor. Ele aprende que cada um de nós pode seguir um ideal maior, não necessariamente se mantendo fiel a sua “natureza”.

Por causa de um incidente provocado por Mansley, que levou à interceptação de Hogarth e do Gigante, este, na ânsia de proteger seu pequeno amigo, tem sua “natureza” ativada, e começa a destruir as máquinas das forças armadas que cercaram a cidade. Quase provocando um desastre. Hogarth consegue fazê-lo parar, mas, devido à mprudência de Mansley, um míssil nuclear está voando a caminho do robô, ameaçando destruir a cidade e matar todos os seus habitantes.

Sem outra solução à vista, o Gigante de Ferro se despede de seu amigo e se sacrifica, voando em direção ao míssil e se chocando com este para destruí-lo. Instantes antes de morrer, o Gigante pensa para si mesmo: “Sou o Super-homem”.

O Gigante de Ferro representa bem o indivíduo que busca cultivar em si ideais éticos maiores, ao mesmo tempo abrindo mão de seus vícios e defeitos (as armas que representam um perigo para os outros ao seu redor) e assumindo posturas altruístas e atos visando ao bem comum, trilhando um caminho que extrapola sua programação original, ou seja, promovendo aprendizado, autossuperação e autoaprimoramento.

A obra aborda

  • amizade,
  • autossuperação,
  • Ética,
  • altruísmo,
  • belicismo,
  • pacifismo e
  • reconciliação.

Inteligência Artificial (A.I. Artificial Intelligence)

Direção: Steven Spielberg

País: EUA

Ano: 2001

David é um robô-menino programado para ser o “filho perfeito”, fabricado espceialmente para mulheres que desejam ser mães. Ele é oferecido por seu criador, Prof. Hobby, a Monica Swinton, cujo filho biológico, Martin, está em coma. Ela não suporta a ausência de uma criança para chamá-la de “mamãe”.

Quando Martin desperta do coma, instala-se a rivalidade entre os “irmãos”, mas quem sofre com isso é a própria Monica, que decide, não sem hesitar e não sem grande pesar, abandonar David na floresta. A partir daí, inicia-se uma aventura em que David procura realizar o desejo de se tonar um menino de verdade.

Ele acaba encontrando outros robôs rejeitados e descobre que existe um grupo de humanos que os persegue e os destrói. O garoto faz amizade com Gigolo Joe, um robô programado para dar prazer às mulheres. Ele ajuda David em sua busca, e ambos passam por muitos incidentes, até encontrar o Prof. Hobby, e este afirma que David é um menino de verdade, tendo em vista tudo o que ele experienciou e sentiu.

David não se convence e vai atrás da Fada Azul (que na história de Pinóquio transformou o marionete num menino de verdade). Ele acaba por encontrá-la na forma de uma estátua, num antigo parque de diversões submerso. O garoto passa então o resto de sua existência repetindo a frase: “Por favor, me transforma num menino de verdade”.

Depois de séculos, já desativado pelo tempo, David é encontrado por robôs ultra-avançados, de uma época em que não existem mais humanos. Eles descobrem em David um repositório de tudo o que é preciso para entender a já extinta humanidade.

A busca de David por se tornar um ser menino de verdade, por si só, já o dota de um aspecto tipicamente humano, ou seja, a constante procura por um ideal existencial. A dificuldade de a sociedade humana aceitar os robôs como pessoas, inclusive com sua destruição sistemática pelos seus odiadores, é uma metáfora da discriminação sofrida por grupos minoritários, como as mulheres, os negros e os pobres, que ao longo da história humana precisaram lutar para ter seus direitos de humanidade reconhecidos pelo conjunto da sociedade.

A obra aborda

  • preconceito,
  • discriminação,
  • amor,
  • relação mãe e filho,
  • relação entre irmãos,
  • Ética,
  • amizade e
  • evolução pessoal.

WALL-E (WALL-E)

Direção: Andrew Stanton

País: EUA

Ano: 2008

No ano de 2805, a Terra está desolada, coberta de lixo e quase sem traços de vida orgânica. Apenas duas criaturas vagam pela superfície: WALL-E, um robô programado para empilhar lixo, e Hal, sua barata de estimação. Os seres humanos evacuaram a Terra há 700 anos, devido aos níveis de toxicidade do planeta, e foram todos viver numa estação espacial chamada Axiom.

WALL-E é o único robô de sua linha que permaneceu ativado e funcionando, e acabou desenvolvendo uma personalidade mais complexa do que aquilo para que foi programado, para além de sua “diretriz” básica. Ele agora possui um hobby: colecionar coisas chamativas que encontra no lixo, como cubos mágicos, caixinhas de anéis e lâmpadas incandescentes. Também tem uma predileção por música e musicais, a que assiste num iPod. Esses muscais românticos o fazem ansiar por uma companhia como ele.

Um dia ele recebe uma visita inusitada, uma robô chamada EVA, programada para encontrar vida vegetal e averiguar se a Terra já tem condições de sustentar vida. WALL-E mostra a EVA as maravilhas de seu pequeno museu particular (sua casa, que era originalmente um galpão onde as unidades WALL-E se recolhiam). Porém, ao avistar uma pequena planta que ele guardava num sapato, ela tem um sistema automático ativado, recolhe a planta em uma cápsula no próprio corpo e se desliga.

WALL-E cuida de EVA (como se fosse um marido cuidando da esposa grávida) por dias a fio, até que uma nave vem recolhê-la e ele se vê na missão de resgatar a princesa no castelo do dragão. Chegando à Axiom, WALL-E encontra muitos robôs diferentes trabalhando e muitos humanos quase iguais, vivendo uma vida sedentária. A princípio obcecado apenas em encontrar EVA, por quem está apaixonado, WALL-E aos poucos percebe a importância da planta para o retorno dos humanos e a recomposição da Terra.

Por outro lado, EVA a princípio só tem foco em sua “diretriz”, mas aos poucos vê em WALL-E um grande amigo e um amor para cuidar. Juntos eles desmascaram uma sabotagem e, deparando-se com inimigos e aliados, conseguem recuperar a planta para fazer a nave retornar à Terra, salvando a humanidade.

Os robôs do filme, através de experiências afetivas significativas, ou seja, eventos que os marcaram em seus corpos e mentes, aprendem coisas que não sabiam, que não faziam parte das memórias pré-programadas. Eles vão criando uma memória extra, e o contato com os outros vai potencializando esse aprendizado, fazendo-os exibir traços de humanidade de que nem mesmo os humanos robotizados da Axiom gozavam. A metáfora do ser que se autoaprimora para se tornar um indivíduo moralmente mais completo e, acima de tudo, altruísta, é muito bem explorada em WALL-E.

A obra aborda

  • amizade,
  • amor,
  • meio ambiente,
  • liderança,
  • Ética,
  • altruísmo e
  • missão de vida.

Onde encontrar

Da amizade – parte 2

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Na primeira vez que li o ensaio Da Amizade, de Michel de Montaigne, na universidade, aos 20 e poucos anos de idade, não me surpreendi muito com sua descrição tão espetacular de uma relação de proximidade, intimidade, apoio, lealdade e compreensão mútua. Eu já tinha vivenciado e vivenciava uma relação desse tipo desde os 16 ou 17 anos, com um amigo que, acho, foi a primeira pessoa que, sem ser meu parente, não hesitei em chamar de irmão.

Hoje ele completa mais uma translação ao redor da estrela Sol, desde que chegou a esta dimensão pela última vez. Aproveitando este fato, combinado com minha vontade de continuar a série Da Amizade com uma resenha do referido ensaio de Montaigne, faço jus, espero, ao que a amizade de Rúbio representa para mim – e talvez para ele.

Segundo Montaigne:

Para construí-la [à amizade] são necessárias tantas circunstâncias que é muito se a fortuna o conseguir uma vez cada três séculos.

Não posso me enganar quanto a essa afirmação. Foi pouco tempo depois de conhecer o ora homenageado que ambos percebemos uma afinidade. Ela foi aflorando aos poucos, com o passar dos encontros no segundo grau do colégio. Mas ela não apareceu de imediato. Ao mesmo tempo, foi mais rápido do que eu poderia imaginar, e quando nos demos conta já éramos amigos milenares. E ambos não duvidamos que esse relacionamento realmente é milenar, vindo de algumas vidas passadas.

Afinal, não é o tipo de coisa que se construa, por exemplo, com a simples e intensa convivência familiar, que pode proporcionar laços firmes, mas não necessariamente uma amizade do tipo que aqui se discute, pois,

em geral, todas as [relações] que a volúpia ou o proveito, a necessidade pública ou privada engendram e alimentam são menos belas e nobres e menos amizades na medida em que misturam à amizade outra causa e objetivo e fruto que não ela mesma.

As relações sociais humanas se constroem a partir de instituições culturais, e nossa natureza gregária nos força a criar uma série de regras e preceitos morais e éticos para a vida em comum. No entanto, todas as conveniências de parentesco, de casamento e de coleguismo não chegam necessariamente ao ponto de constituir o sentimento e o relacionamento sublime (e também sublimado) que Montaigne chama de amizade.

Mesmo que aquelas coisas que fazemos juntos contribuam muito para a manutenção de um laço de amizade, quando esta está relativamente consolidada já é possível usufruir com grande prazer da mera companhia do outro. Aliás, não é uma mera companhia ou presença, mas um exercício de telepatia em que a conversa não para por causa do silêncio. E, por outro lado, quando a conversa é intensa, seja num debate, seja nos desabafos, ela ocorre como um monólogo, como se fosse apenas uma pessoa falando consigo mesma.

Segundo Montaigne, nenhum laço de parentesco é suficiente para construir esse tipo de amizade nobre e sublime. Não posso negar que há uma afeição especial por cada um de meus progenitores e por cada um de meus irmãos, e que posso contar com eles incondicionalmente em situações de necessidade, assim como eles podem contar comigo. Mas não chega a ser forçosamente a mesma coisa, pois sempre falta algo, os parentes raramente têm as convergências de personalidade e a vivência específica, necessárias para promover a amizade.

Montaigne também diferencia o amor, entendido como a relação afetivo-sexual, da amizade. Para ele, o amor é unilateral, acontece como uma relação entre caçador e presa, e não representa o compartilhamento dos mesmos sentimentos da amizade. Esta é uma troca bilateral, mais ligada à alma do que ao corpo.

(Mas temos que relativizar essa afirmação, considerando que Montaigne se referia aí ao relacionamento entre homem e mulher e que a ideologia de sua época era muito mais androcêntrica e machista do que atualmente em nossa sociedade, e que para o homem era inconcebível uma relação de amizade com uma mulher e entre estes poderia haver apenas uma relação sexual ou, no casamento, uma relação entre possuidor e posse. É possível, hoje em dia, com a crescente superação das rígidas regras de divisão sexual do trabalho, que um casal heterossexual forme um laço de amizade.)

De resto, o que costumamos chamar de amigos e amizades são apenas contactos e convivências entabulados devido a alguma circunstância ou conveniência por meio da qual nossas almas se mantêm juntas. Na amizade de que falo, elas se mesclam e se confundem uma na outra, numa fusão tão total que apagam e não mais encontram a costura que as uniu. Se me pressionarem para dizer porque o amava, sinto que isso só pode ser expresso respondendo: “Porque era ele; porque era eu.”

Há pessoas que banalizam de tal forma a palavra amizade que não se evadem de chamar de amigos quaisquer pessoas com quem convivam com um mínimo de civilidade. Não que o uso das palavras não mude com o passar do tempo, mas, desta forma, é difícil nomear, para diferenciar da Amizade (com A maiúsculo) a amizade banal que a maioria vive no dia-a-dia.

Percebo que há pessoas que, por causa da troca de um favor ou por causa de uma simples conversa em que compartilhou com alguém algo pessoal, já considera este seu amigo. Pior, há pessoas que colecionam “amigos”, seduzindo quem encontram no caminho, garantindo assim várias opções de refúgio quando estiverem em apuros. Geralmente são indivíduos que não conseguem estabelecer uma vida segura, vivendo também uma insegurança pessoal e íntima (o que não quer dizer, é claro, que eu trate mal os “amigos” ou sinta por eles o oposto do que sinto pelos Amigos; é preciso procurar conviver bem e, quanto possível, ter uma postura amigável e assistencial para com qualquer pessoa).

Com meus verdadeiros amigos não acontece assim. Seja em situação favorável ou em penúria (o que realmente nunca aconteceu drasticamente), cada uma de nossas casas sempre esteve aberta para o outro. Compartilhar e dividir nunca foram obrigação, mas sempre nos sentimos impelidos a fazê-lo, por livre arbítrio, por satisfação pessoal e mútua.

A fusão de que fala Montaigne causava episódios pitorescos. Era muito surpreendente (hoje em dia nem tanto) que as pessoas ao nosso redor nos confundissem um com o outro, chamando-me de Rúbio e chamando-o de Thiago, dizendo a ele que falasse com Rúbio ou me dizendo que desse um recado a Thiago. Fisicamente, nem somos tão parecidos, mas a amizade nos moldou a ambos.

Não está no poder de todos os argumentos do mundo afastar-me da certeza que tenho sobre as intenções e julgamentos de meu amigo. Nenhuma de suas ações me poderia ser apresentada, sob qualquer aparência, sem que eu descobrisse incontinenti seu motivo.

Não concordo totalmente com essa afirmação de Montaigne. Eu não poderia condescender com um ato que considero ilícito e/ou antiético, premeditado ou cometido por meu amigo. Não sem ameaçar nossa amizade. Se realmente me considero seu amigo, não posso aceitar que ele prejudique a si mesmo nem a outras pessoas. É claro que considerar algo certo ou errado é relativo, mas há algo que precisa ser dito sobre a relação entre amizade e Ética.

Retomando Montaigne, e desta vez concordando com ele, a amizade que ele propõe só se sustenta com um elevado senso de ética. Não quero dizer exatamente que isso implica numa compreensão do que é melhor ou pior por parte de cada um dos amigos, mas sim que eles têm, no mínimo, algumas noções e a predisposição para sempre acertar mais e sempre desenvolver sua ética infinitamente, da mesma forma que a Ciência busca eternamente compreender a realidade.

Duas pessoas que se relacionam numa amizade mas não têm esse senso ético não podem ser considerados verdadeiros amigos, pois a falta de noções éticas dificultará a confiança mútua, e eles tenderão a trair um ao outro, por desconfiança e medo, e poderão até abandonar o amigo quando estiver em situação melhor do que ele. Porém, uma amizade baseada na Ética fará com que ambos ajudem um ao outro a evoluir, trocando ideias e experiências que beneficiam aos dois (ou mais).

Assim, conhecendo-nos a fundo, eu e meu amigo compreenderemos porque o outro escolheu pensar e/ou agir (pensar é uma ação, agir é pensar com o corpo) de determinada forma, e deverá repreendê-lo se discordar. A discordância, no entanto, jamais será motivo de desavença, pois o que discorda sabe que tem, ele mesmo, aspectos que merecem reprovação do amigo, e sempre espero que ele esteja disposto a apontar se estou no caminho certo. O binômio admiração-discordância deve prevalecer em qualquer relação sadia de amizade, sempre na busca mútua pelo o desenvolvimento intelectual e emocional.

Essa amizade, enfim, é o que baseia qualquer tipo de relação, seja a dois, seja grupal ou mesmo universal. Se cada vez mais pessoas experimentarem esse ideal (estou falando, é claro, de um modelo idealizado, muito difícil de concretizar plenamente, mas possível de ser vislumbrado), mais e mais indivíduos vão se sentir impelidos a tratar qualquer pessoa como se fosse seu amigo, e talvez o mundo venha a ser um lugar melhor.

Referência

  • Montaigne, Michel de. “Da amizade”. In: Os ensaios: volume 1. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Crédito da foto

  • Maria Betânia Monteiro, minha amiga, namorada do meu amigo.

Culpa, responsabilidade e ética

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Os episódios da infância de um indivíduo podem nos trazer muitos bons insights sobre o desenvolvimento do senso de ética e de convivência social. Vemos nesses episódios, por exemplo, como as atividades sociais e a reação de outras pessoas vão moldando os valores e códigos de conduta desde muito cedo na vida, o que certamente terá implicações na vida adulta.

Reproduzo abaixo uma crônica escrita por minha esposa, Inês Mota, intitulada Mea Culpa e publicado em seu blog ObjetOObscuro. Ela trata de um evento recente encenado por seu neto, Paulinho, em que se discutiram noções de culpa e responsabilidade, e que servirá para que, em seguida, eu teça alguns comentários sobre amadurecimento e ética, esta muitas vezes entendida como algo que emana de nossa “natureza humana”, mas que, sob um olhar sócio-antropológico mais detido, se revela construído nas relações sociais.

Paulo Henrique Mota Teixeira

(Foto: Inês Mota)

Paulo* tem quase 5 anos. Ontem, depois de uma incursão com um grupo de amigos pelo Bloco 10, voltou com um galo feio na testa.

A despeito das chacotas que fazemos de que ele é o chorão da praia, não costuma ser mofino diante dos pequenos infortúnios próprios da tenra idade. Tanto que toma vacinas e injeções avisando logo que não vai chorar, pois trata-se apenas de uma picada de formiga e no máximo vai emitir um discreto ai.

O pranto, via-se, não era espontâneo, mas fomentado pela gravidade que os próprios amigos pareciam imprimir ao fato, provavelmente sentiu algo distinto da reação que costumava captar diante das menos graves desditas anteriores. Tanto é que vez ou outra cessava o choro e olhava confuso para cada um dos companheiros, buscando subsídios a veredicto menos preocupante.

Questionado por mim acerca do ocorrido e diante da resposta dos amigos de que ele havia caído, Paulo se apressou em relatar o acontecimento, cuidando de encontrar o verdadeiro responsável e, claro, eximindo-se inteiramente de qualquer culpa.

Primeiro, afirmou categoricamente que a culpa era exclusiva de Leando, o amigo mais chegado. E o argumento era forte: Ora, se estavam jogando bola e o chute de Leandro provocou um desequilíbrio e ocasionou a queda, ele era sem dúvida o réu.

A reação da turma foi imediata e em uníssono tratou de tomar partido por  Leandro: Como jogar bola sem chutá-la?

Diante da defesa inconteste, a saída foi arrumar logo outro culpado. Nesse caso, uma culpada. Claro, como não? A bola! Ela, sim, deveria ter braços e aplicar um soco bem no meio da cara de Leandro.

Todos se voltaram surpresos, arguindo que socar o rosto de alguém em qualquer circunstância e, principalmente, se trantando de um amigo é algo violento e inaceitável.

Foi assim que o nosso pequeno personagem se deu por vencido e humildemente  reconheceu de uma vez por todas que não houve culpados. Afinal de contas, como já reza o adágio, o que vale mesmo é a política da boa vizinhança. Além do que é sempre bom ter um amigo com quem jogar e em quem, ocasionalmente, pôr a culpa, ainda mais se ele for o dono da bola.

*Paulo é meu neto querido.

Paulinho voltou da brincadeira aos prantos, com muito mais gemidos e lágrimas do que costuma exprimir. Segundo Inês, o drama dos amigos serviu como multiplicador do drama pessoal de Paulinho. A forma como reagimos às diferentes situações do dia-a-dia é amplamente moldada pelos valores da sociedade em que vivemos. Se o choro é uma reação natural à dor, sua intensidade será proporcional à importância de cada tipo de dor, de sua causa e das circunstâncias em que ocorre. E tal importância é ditada pela sociedade e aprendida na convivência dentro dela.

Kaspar Hauser

Kaspar Hauser não sabia emitir nem um discreto “ai” diante da dor

Numa cena do filme O Enigma de Kaspar Hauser, por exemplo, Kaspar, que não passou por um processo de socialização, reage ao fogo de uma vela, que queima seus dedos ao tentar pegá-la, apenas com uma lágrima, sem emitir nenhum som nem outro gesto que indique dor. Até quando foi esfaqueado, depois de já ter aprendido a ler e a viver razoavelmente em sociedade, nem sequer gritou nem demonstrou desespero (não da forma que as pessoas ao seu redor considerariam adequada), apenas correu ao seu protetor e, banhado no seu próprio sangue, relatou o fato.

As “picadas de formiga”, por exemplo, que provocam apenas um discreto “ai” sem maiores dramas, é entendida por Paulinho como insignificante, devido às circunstâncias em que tomou suas primeiras vacinas. Os adultos que o acompanharam deixaram bem claro, num clima tranquilo, que aquilo não era nada demais, e o encorajaram a mostrar dignidade diante da dor, talvez até tenham recompensado seu destemor com elogios. Toda vez que ele for tomar uma injeção, manterá a serenidade e a dor será sentida com pouca intensidade.

Outras crianças desenvolverão medo e nervosismo diante da agulha e chorarão ou ficarão tontas, até na idade adulta, sempre que tomarem uma injeção. Pelo que diz Inês Mota, seu próprio filho, tio de Paulinho, é um “medroso” diante de jalecos brancos.

Tudo isso fica muito explícito no momento em que Paulinho busca no olhar dos amigos “subsídios a veredicto menos preocupante”. Ele ainda não compreendeu qual é a forma mais adequada de reagir diante da situação, o modo mais aceito e aprovado pelo meio social em que vive de “sentir dor”, não sabe até que ponto é validado ou não verter lágrimas e soltar gemidos.

Diante da interrogação sobre o que aconteceu, o pequeno se apressa a apontar a culpa de sua dor, deixando para depois o relatório dos acontecimentos. Isso mostra que sua mente está concentrada em entender a razão de sua própria reação e justificá-la. Já que a dor na testa é suportável, o que atestam episódios anteriores de machucados e cortes, era preciso encontrar outra solução para explicar o choro e a dor, incitados mais pelos amigos do que por sua própria psico-fisiologia.

A experiência parece mostrar que tendemos, ao menos em nossa cultura, a ignorar nossos próprios erros. Paulinho não conseguiu ver que sua própria inabilidade em chutar a bola causou o tropeção que levou sua testa ao chão. Numa tendência muito humana a buscar uma causa inteligente externa para qualquer fenômeno, ele viu em Leandro, que havia lançado para ele a bola, o responsável indireto por sua queda.

No entanto, também parece haver uma tendência, quando reconhecemos nossas inadequações às normas vigentes nos meios em que vivemos, a criarmos e instigarmos sentimentos individuais de culpa. Especialmente dentro dos valores religiosos ocidentais cristãos, essa culpa se busca redimir com condutas de mortificação e auto-humilhação, o que em si mesmo reforça o sentimento da própria vileza.

Às vezes a autoculpa se manifesta em quadros clínicos como a depressão e a melancolia, e podemos ver como isso se expressa em obras como a poesia de Augusto dos Anjos e a prosa de Franz Kafka. Este era tão obcecado pela culpa que seu romance O Processo é um suspense todo baseado num crime supostamente cometido pelo protagonista, mas este nunca consegue descobrir qual é.

Franz Kafka

A obra de Franz Kafka mostra uma obsessão pela culpa

Considero, em minha própria perspectiva ética, que a culpabilização do outro e a autoculpa são extremos opostos que devem ser evitados. A mortificação acaba sendo uma forma de prorrogar a resolução do problema, enquanto focar em acusações nos faz perder a visão do conjunto da situação e os detalhes que ajudariam a elucidar a solução do conflito.

Inês enfatizou que Leandro é o amigo mais chegado de Paulinho. Talvez não tenha sido sua intenção, mas, em minha própria leitura, dei importância a esse detalhe pelo fato de considerar a amizade um valor inestimável, o que aprendi em minha própria socialização. Assim, Paulinho recebe a desaprovação de todos ao seu redor ao fazer uma acusação injusta, e, pior ainda, ao seu melhor amigo.

Velho Rooter

“A culpa não é de ninguém”

Mas a ação socializadora impôs com eficácia sua lição. Paulinho se curvou aos argumentos contra a acusação de Leandro e contra a personalização da bola, que foi uma forma de projetar seu próprio impulso violento e o desejo de devolver a dor que recebeu. Porém, ele não chegou a assumir responsabilidade por seu próprio infortúnio, mas ao menos admitiu que ninguém teve culpa, o que satisfez o status quo e representou, também ao meu ver, um avanço em seu aprendizado ético.

A voz de Rooter, personagem misterioso do filme Em Busca do Vale Encantado, ecoou em minha mente quando refleti nestes assuntos:

Não é sua culpa, nem culpa de sua mamãe. Agora, preste atenção ao velho Rooter. A culpa não é de ninguém. O ciclo da vida apenas começou.

Paulinho não se mortificou com a culpa e absolveu Leandro e a bola. Ele pôde assim exercitar a mediania aristotélica, procurando a virtude no meio. Mas ainda está por completar 5 anos de idade e aprenderá muito. Talvez ainda tenha que aprender (e aqui falo de meus próprios valores éticos) que não vale a pena procurar culpados, mas esclarecer cada situação e, da parte dele, assumir a responsabilidade naquilo em que teve parte, perdoando os erros dos outros e tentando errar menos.

Fim

Fim

Da amizade – parte 1

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Quando adolescente, inventei uma definição de amizade para valorizá-la e diferenciá-la de outros tipos de relações mais brandas, como as de colequismo e de camaradagem. Amizade, para mim, era definida por uma troca mútua de amor e respeito. Sem respeito mútuo, poder-se-ia ter amor, namoro, relação de parentesco, mas não amizade. Sem amor mútuo, teríamos uma relação formal e respeitosa entre colegas, mas não amizade.

Sem a mutualidade do respeito, haveria uma relação desigual, e sem a mutualidade do amor, só se veria a adoração unilateral. Eu nem sequer conseguia  conceber que alguém pudesse chamar de amor um sentimento que não fosse correspondido. E me deixou desapontado que Susan Ivanova dissesse, diante do cadáver de seu sempiterno admirador Marcus, cujos avanços sempre rejeitou: “Não existe amor correspondido”.

Naquela época, havia pouquíssimas pessoas que eu dignava com a denominação de amigos, e acho que minha seletividade tinha muito a ver com o fato de eu ser bastante impopular, tímido e CDF (algo que nos EUA me daria a alcunha de nerd). Dizer a mim mesmo que a amizade era uma escolha criteriosa e que os amigos eram raros era um mecanismo de defesa do ego, que me permitia me contentar com as poucas relações de afeto que eu tinha.

Mas o tempo e a experiência foram me dando mais amigos e um refinamento maior do conceito de amizade. Existem grandes amigos, bons amigos e amigos, existem amigos por afinidade de interesses, amigos por causa do convívio e amigos de projetos comuns (no entanto, quase sempre há as 3 coisas numa só relação, em diferentes dosagens).

Aqueles que considerava amigos na época descrita nos primeiros parágrafos ainda o são, e são aqueles que eu chamava de irmãos, com toda a conotação positiva, de afeto, amor, respeito e igualdade.

Han Solo e Chewbacca

Han Solo e Chewbacca representam um fraternismo leal e uma confiança tão grandes que os levam a arriscar a vida um pelo outro

Porém, de fato, meu primeiro grande amigo nesta vida foi Diego, meu irmão com quem, desde muito pequenos, projetava brincadeiras e planejava aventuras. É interessante como nossa relação se desenvolveu a partir de uma forçosa convivência, em que brinquedos e quarto de dormir eram compartilhados, passando por uma pré-adolescência (numa época em que acho que isso nem existia ainda) em que tínhamos um ao outro mais do que qualquer colega de escola (em geral, sempre estudamos na mesma escola e no mesmo horário, ele sempre uma série a menos que eu, pela diferença de 1 ano de idade).

Na adolescência, vieram livros, filmes e bandas de rock, que se tornaram objetos de conversas. Jogamos muito RPG juntos e, mesmo que tenhamos construído círculos de amizades um pouco diferentes, sempre permanecemos unidos, e meus amigos consideravam Diego um bom camarada pelo simples fato de ser meu irmão e amigo, e os amigos dele pareciam pensar o mesmo de mim.

O video game tem sido desde muito cedo uma constante em nosso fraternismo amigo, desde o Atari pré-histórico, passando pelo Master System e pelo Mega Drive, até os Playstations 2 e 3 que hoje raramente jogamos juntos. A bibliofilia também se manteve forte até hoje, sendo ainda motivo para mantermos a troca constante de leituras e ideias.

C3P0 e R2D2

Apesar das divergências e das briguinhas, esses dois droides são sempre companheiros de viagem e estão sempre preocupados com a segurança um do outro

Otávio foi meu primeiro amigo de escola, desde a 8ª série. Ele era muito diferente das outras pessoas de nossa idade e havia tais diferenças entre nós que a amizade só pode se explicar pelo conceito que apresentei no início do texto: amor e, principalmente, respeito mútuo.

Enquanto eu era tímido, retraído e calado, ele era popular e descontraído, de modo que se poderia esperar dele conviver só com pessoas “bonitas” e “descerebradas”. Mas ele não era “descerebrado”, era e é muito inteligente e criativo, e foi nisso que nos identificamos, todo o resto se tornando secundário. Até o fato de ele ser católico e eu agnóstico (foi na época em que eu estava deixando de me considerar ligado a qualquer religiosidade e esboçava um certo ateísmo) não importava.

Éramos irmãos. E nunca esqueço de uma profunda conversa que tivemos sobre Deus e o Diabo, ocasião em que nossas diferenças de pensamento reforçaram ainda mais nosso respeito mútuo, num belíssimo exemplo do binômio admiração-discordância. O que me remete, por exemplo, à relação entre Kirk, Spock e McCoy, três amigos cuja lealdade mútua não se abala por causa das profundas divergências de temperamento e caráter.

Idealizamos vários projetos, entre os quais, lembro bem, um jornalzinho chamado Pão e Circo, que tinha como símbolo uma caveira com maquiagem de palhaço e os continentes da Terra gravados na testa. Nunca saiu nem o número zero… Nossa última tentativa de criar algo interessante juntos foi o blog DM 0104, que contaria histórias sobre os povos de alguns planetas de uma constelação distante. Espero conseguir um dia construir com ele algo mais “sólido”. Ao menos, a insistência nos projetos em comum serviram para mantermos viva nossa amizade.

Continua...

Continua…

"Vamos marcar"

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A Vida de BrianJá estive em assembléias para decidir os rumos de uma greve da qual participei. Era comum agendar uma reunião para tomar uma decisão futura e, quando tal reunião chegava, decidia-se marcar outra reunião. Essa situação foi hilariamente parodiada em A Vida de Brian, no qual um grupo revolucionário marca uma reunião para decidir a data de outra reunião, na qual será agendada uma outra etc. Foi engraçado ver uma piada sobre algo que presenciei de tão perto.

Mas isso ocorre de forma tão comum não só na vida corporativa. Quantas vezes não encontramos um velho conhecido e, na ânsia de mostrar algum interesse pelo reencontro, dizemos “vamos marcar qualquer coisa aí”. E esquecemos de marcar, ou esquecemos de marcar a ocasião em que vamos marcar o encontro. O “vamos” serve como um adiador indefinido de uma ocasião que ocorrerá num tempo infinitamente futuro.

Muitas vezes, talvez as pessoas se utilizem desse artifício para evitar o reencontro. É como se se sentissem obrigadas a mostrar alguma cordialidade ou polidez. E eu me pergunto se isso não é coisa de brasileiro, o “povo cordial” de que fala Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, sempre com uma tendência à superficialidade. Será que as pessoas de outros povos costumam fazer isso?

Raízes do BrasilÉ difícil para muita gente assumir com sinceridade que não tem mais interesse em compartilhar atividades com determinada pessoa ou grupo de pessoas. Se não temos interesses em comum, não há sentido em mantermos contato. Tenho um amigo que não se inibe de se afastar de algumas pessoas, por esse motivo mesmo. E acho que ele faz bem.

Isso me leva a pensar nos motivos que levam alguns casais a se afastar depois de terminar o relacionamento amoroso. Muitos casais não se ligam por motivos mais do que físico-emocionais, às vezes só físicos. Não têm uma relação de amizade. Quando o relacionamento termina, não se vêem mais. Penso que, para um relacionamento significar felicidade para duas pessoas, elas têm que ter interesses comuns, projetos em comum, amigos em comum, enfim, têm que ser amigas. Se termina o motivo de estarem juntas como namorados, não termina o motivo de ainda se comunicarem.

Mas às vezes desperdiçamos bons reencontros por causa de uma tendência a querer resolver as coisas às pressas ou no improviso. E, por outro lado, podemos algumas vezes arranjar um encontro que não se torna proveitoso, por nos forçarmos ao ritual da cordialidade. Já tive alguns reencontros agradáveis, “por acaso”, com bons amigos que não via há tempo. Esses são os mais pitorescos.

Hoje mesmo reencontrei, no Orkut e no WIndows Live Messenger, uma querida prima com a qual nunca tive muito contato, mas com quem sempre senti uma grande afinidade. Decidimos que “vamos marcar”, mas concordamos que a data ainda ficará indefinida. No entanto, manteremos contato contínuo até que a situação propícia chegue.

Acho que o ideal é isso, um equilíbrio entre 1) deixar o fluxo do universo promover os reencontros dos fios da teia cósmica e 2) programar. Ao mesmo tempo que esperamos, damos um empurrão no acaso.

Nota

Este texto foi originalmente publicado em 6 de fevereiro de 2009 e.c. e havia se perdido no Grande Naufrágio Neuronial, em abril do mesmo ano. Retomo-o aqui sem retoques. Esta é nota é importante sobremaneira para que os leitores entendam qual foi a data de minha conversa com minha prima.