Empatia e estupro

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Para muitas pessoas, o processo de cultivar a empatia é um exercício de abstração. Para homens vivendo numa sociedade machista, por exemplo, é quase impossível entender o que sentem as mulheres quanto a assuntos como estupro. Por isso é que há diversos homens se divertindo com a notícia de uma adolescente estuprada por 30 indivíduos do sexo masculino, fato ocorrido no Rio de Janeiro no último dia 20 e divulgado pelos próprios agressores no dia 25; por isso é que os estupradores em questão não conseguem pensar na vítima como uma pessoa com sentimentos, com inteligência, com alma; por isso é que mesmo entre aqueles que se indignaram há os que relativizam a violência e amenizam o papel dos agressores, atribuindo parte da culpa à vítima; por isso é que vemos poucos homens comentando com racionalidade sobre o assunto enquanto muitas mulheres expressam sua revolta.

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O Rei Leão e o Patriarcado

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lion_king_ver1É bem conhecido o viés sexista da maioria das animações dos Estúdios Disney. Via de regra, os protagonistas dos contos de fadas transformados em longas metragens pela empresa se encontram na camisa-de-força dos papéis de gênero. Homens são guerreiros, heróis, príncipes; mulheres são donzelas, damas, princesas. Com louváveis exceções trazidas pela Pixar e por obras mais recentes da Disney, o androcentrismo, a subjugação da mulher, o patriarcalismo e até mesmo a homofobia (personagens homens afeminados ou mulheres masculinizadas em geral são vilões ou, no mínimo, coadjuvantes que servem como alívio cômico) estão marcantemente presentes em filmes como Branca-de-Neve e os Sete Anões, A Bela e a Fera e Aladdin, para citar só alguns.

No entanto, essa ideologia sexista pode passar despercebida para a maioria dos expectadores e pode até ser posta em dúvida, quando se traz à tona a exceção do exemplo de Mulan como uma possível transgressão. Porém, a heroína chinesa empreende sua luta contra os invasores hunos para que no final tudo volte ao status quo em que mulheres são fêmeas e homens são machos.

A alegoria zoomórfica de O Rei Leão torna mais difícil perceber sua mensagem androcentrista, já que se tratam de animais vivendo, teoricamente, só pelo instinto, sem as regras sociais artificiais da cultura humana. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, quando a olhamos como metáfora das relações humanas, a história deixa bem evidente, por baixo da bela fábula de reconciliação e assunção da responsabilidade, uma mensagem mais sinistra: uma defesa do Patriarcado.

A dinastia patrilinear

MufasaSarabiSimba

O rei, o herdeiro varão e a consorte tornada rainha.

A linda cena inicial do conto, ao som de uma bela música africana, cheia de cores da savana africana com sua fauna despertando ao nascer do sol para ver o recém-nascido herdeiro do trono como símbolo do próximo passo no ciclo da vida, é uma metáfora de uma monarquia humana em que o imponente rei celebra junto a seus súditos o nascimento de seu primeiro filho varão.

Por enquanto, a ideia de que o herdeiro tem que ser necessariamente um macho não fica tão explícita, pois Simba é a primeira cria de Mufasa com sua companheira Sarabi, presumidamente a rainha da savana, e podemos imaginar a possibilidade de que qualquer que fosse o sexo da criança ela seria considerada herdeira do reino. Mas a figura materna e feminina de Sarabi é secundária nessa cena, pois quem se destaca aqui são o pai masculino e o filho. A mãe mal aparece, como se seu papel se resumisse a dar à luz o pequeno leão.

Um dos cuidados que os Estúdios Disney costumam ter ao representar animais é a relativa fidedignidade e verossimilhança dos personagens zoomórficos com as respectivas espécies a que fazem referência no mundo real. Os leões, na natureza, vivem em grupos dominados por um macho e compostos na maior parte por fêmeas e filhotes. Estes são crias do macho dominantes com todas as outras fêmeas.

É interessante observar uma cena instigante do filme, em que Simba acorda seu pai para sair e brincar. Uma criança talvez não se dê conta disso, mas um adulto mais atento verá que a “corte” dormindo no “palácio” só tem um macho adulto (Mufasa) e várias fêmeas, incluindo Sarabi. Esta é somente uma das consortes do rei. Posteriormente veremos que no mesmo grupo há outros filhotes, dos quais só conhecemos Nala, a amiga de Simba, provavelmente da mesma idade que ele.

Dessas observações podemos presumir o seguinte: Mufasa tem um harém com várias esposas e/ou concubinas, e todas elas provavelmente têm filhotes dele; é provável que Simba tenha sido o primeiro filhote macho de Mufasa, e Sarabi se tornou “rainha” justamente por ter sido a primeira fêmea do grupo a lhe dar um varão; Nala é meio-irmã de Simba e tem a mesma idade que ele, mas sua importância no grupo é muito menor do que a dele, por ela ser fêmea (é até possível que ela seja um pouco mais velha que ele, tendo em vista que ela parece ser mais sábia e mais habilidosa, mas ela é preterida na sucessão do trono, já que não pode ser um rei).

Scar, o macho desviante

Mufasa, o macho reconhecido, e Scar, o macho desviante.

No entanto, há outro elemento que reforça a predominância não apenas do macho, mas sobretudo do masculino, da masculinidade e, ligada a isso, a heteronormatividade nessa sociedade patriarcal. É o que se vê na preterência de Scar, irmão de Mufasa, como herdeiro do reino. Ele não se encontra em segundo lugar apenas por não ser primogênito, mas porque não representa um ideal de masculinidade e sexualidade encontrado no exemplo de seu irmão. Além de aparentemente ser mais fraco fisicamente, Scar tem uma personalidade covarde e maliciosa, o que se opõe à bravura e honradez que se espera de um grande leão macho. A fraqueza, a covardia e a malícia estão ligadas, no imaginário conservador do sexismo ocidental, ao feminino.

Tradicionalmente, no Ocidente, a masculinidade se confunde com heterossexualidade. Um homem “verdadeiro” é capaz de passar sua semente adiante, e isso implica que ele seja heterossexual, que saiba lidar com, ou melhor, tenha poder para dominar as mulheres e impregná-las. Já vimos que Mufasa possui um harém e filhos com mais de uma fêmea. Porém, Scar não parece se interessar nas fêmeas, o que se torna ainda mais evidente na segunda parte do filme, quando ele se torna rei após matar seu irmão. Diferente de Mufasa, o usurpador não se cerca de leoas em seu decadente palácio, apenas as envia para caçar. Sua relação afetiva maior é com as hienas, suas lacaias. A anti-heterossexualidade de Scar (não há como afirmar com certeza que ele é homossexual, embora alegoricamente possa ser considerado assim) é reforçada pelo estereótipo afeminado de seu comportamento. Ele tem trejeitos que podem ser considerados como emasculados, vilipendiados numa sociedade machista e heteronormativa como a nossa.

É preciso enfatizar que o personagem do irmão traidor é concebido explicitamente como um mau caráter, o que em si mesmo pode não estar relacionado diretamente a sua identidade de gênero. Ele realmente se mostra um líder inepto e sua inabilidade para governar traz a penúria e a fome para seus súditos. Mas importa observá-lo como integrante de uma estrutura imagética ligada ao sexismo de nossa cultura. Scar é apenas um exemplo ente outros semelhantes em que coincide uma masculinidade desviante com o mau caráter vilanesco. Jafar, por exemplo, em Aladdin, é muito semelhante a Scar em quase todos os aspectos aqui tratados, bem como Hades em Hércules. Não é mera coincidência que em várias histórias de heróis masculinos da Disney a virtude do protagonista esteja atrelada a uma masculinidade idealizada e o vício do vilão a um desvio dessa masculinidade.

As hienas e o Matriarcado

Hyenas

Banzai, Shenzi e Ed. A fêmea no meio é a líder.

Mas é no antagonismo mais explícito encontrado na figura das hienas que vemos uma evidência ainda mais forte da defesa do Patriarcado. Neste caso, as hienas são um contraexemplo da sociedade dominada pelos machos.

Assim como os leões de O Rei Leão são apresentados com certa fidedignidade em relação aos Panthera leo reais, as hienas caricaturais são mostradas com características semelhantes às da espécie verdadeira, sendo a mais pertinente sua estrutura social matriarcal. Os membros da espécie Crocuta crocuta se organizam através da dominação de uma fêmea alfa e das outras fêmeas do grupo sobre os machos. Isso está evidente no trio principal de hienas do filme, liderado por Shenzi, a única fêmea do grupo.

Elas são vilãs no filme, e representam covardia, ardil e traição. Dessa forma, é por uma questão de estrutura narrativa que, uma vez que leões e hienas são retratados como antagonistas entre si, seus modos de vida se oponham um ao outro. O Matriarcado das hienas é condenado pelo viés patriarcalista da fábula, e isso se reforça pela forma desprezível por que elas são retratadas. A sociedade leonina, liderada por um leão macho reconhecido (e que domina inclusive outras espécies, tidas como súditos da família real dos leões), é defendida como a organização social legítima e desejável para todos.

Hakuna Matata e a irresponsabilidade

Simba, Timão e Pumbaa vivendo uma eterna infância.

Um dos momentos cruciais da vida de Simba é o período em que ele passa vivendo com a dupla Timão e Pumbaa, um suricato e um javali, respectivamente. Levando a vida segundo a filosofia do Hakuna Matata (expressão suaíle que significa “sem problemas”), os três passam seus dias se divertindo, imersos em total hedonismo. Com Timão e Pumbaa, Simba esquece quase completamente sua origem.

Seu modo de vida guarda analogias com o das hienas, sempre buscando a maneira mais fácil de sobreviver e sem assumir nenhuma responsabilidade ética por seus atos (no caso das hienas, delegando essa responsabilidade a alguém mais forte que elas – Scar -; no caso dos três amigos, anarquicamente desvinculados de qualquer relação de poder).

É interessante resgatar o que a antropóloga francesa Élisabeth Badinter escreve sobre a analogia que muitas culturas humanas fazem entre a infância e a condição feminina. Muitos povos consideram que a mulher é uma criança que não amadureceu, enquanto o homem é visto como uma criança que completou seu desenvolvimento, o que é uma forma de justificar a dominação masculina. O infantilismo de Timão e Pumbaa é um reflexo da sociedade matriarcal (feminina) das hienas, e a mensagem aí é a de que ambas são indesejadas para um domínio masculino ditado pelas regras patriarcais.

Essa fase de exílio é criticada duramente pelo fantasma de Mufasa, que adverte seu filho a assumir seu papel como legítimo herdeiro do reino. Contrapõe-se, assim, a irresponsabilidade do modo de vida infantil de Timão e Pumbaa à necessidade da assunção das responsabilidades de “homem” adulto formado, da adequação a um modelo de masculinidade idealizado.

O ciclo da vida

O Rei Leão é uma de minhas animações preferidas da Disney. Gosto do visual, da música e dos personagens, e admiro a história de reconciliação e amadurecimento do protagonista. Porém, como costumo dizer, apreciar uma obra não impede de enxergar vieses com os quais discordamos. A trajetória de Simba é repleta de símbolos pró-patriarcado, machistas e heteronormativistas, e é importante apontar para isso, especialmente quando levamos esse e outros filmes para as crianças, capazes de reproduzir as ideias e valores culturais sub-reptícias com as quais mantêm contato. Por isso outras obras devem ser vistas pela geração mais nova, especialmente os filmes da Pixar (sendo Valente um dos melhores exemplos) e os do Estúdio Ghibli, para citar dois ótimos exemplos, repletos de desconstrução dos papéis tradicionais de gênero e sexualidade. Assim o cinéfilo em formação pode perceber desde cedo que não existe apenas uma forma de se viver em sociedade e que os diversos meios de as pessoas se associarem afetivamente são válidos para aqueles que livremente optam por adotá-los.

O tamanho de um homem

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Uma pesquisa recente realizada por cientistas australianos procurou responder a uma pergunta que atormenta a cabeça de muitos homens mundo ocidental afora: “o tamanho do pênis  influencia na atração feminina pelos homens?” Em outras palavras: “quanto maior melhor?”

A pesquisa foi realizada da seguinte forma. Foram criados modelos tridimensionais virtuais de homens nus, cinzentos e sem pêlos, que variavam entre si em três aspectos: altura, proporção entre ombros e cintura, e tamanho do pênis. Foram mostrados 3 modelos aleatórios para cada uma das 105 mulheres heterossexuais australianas escolhidas como sujeitos da pesquisa, que apontaram qual deles consideravam o mais atraente. O resultado foi que as mulheres preferiram homens (ou melhor, modelos) altos, com corpos mais “masculinos” (ombros mais largos do que a cintura) e com pênis grandes, mas com a ressalva de que os fatores preponderantes foram os dois primeiros e que mesmo os extremos supostamente mais desejáveis foram preteridos (altura e tamanho do pênis extremos). Abaixo, um vídeo-resumo feito pelos pesquisadores.

É interessante notar duas chamadas diferentes, de dois sites diversos, para a mesma notícia. O io9 disse “Últimas pesquisas mostram que o tamanho realmente importa para as mulheres”, enquanto a Nature notificou “O maior nem sempre é o melhor quanto ao tamanho do pênis”. Ou seja, o mesmo resultado suscitou ênfases díspares. Isso revela o peso psicológico da questão e o viés que perpassa a premissa da pesquisa, a metodologia, suas conclusões e as interpretações sobre estas.

Para quem importa o tamanho?

Escultura no Museu Chinês do Sexo

Escultura no Museu Chinês do Sexo

O próprio mote da pesquisa pode ter sido enviesado por uma visão falocêntrica e androcêntrica. Os pesquisadores, antes de se perguntar se o tamanho do pênis é importante para a atração de uma mulher, deveriam se questionar por que essa pergunta é importante. É notória em nossa sociedade a ideia de que homens heterossexuais colocam a aparência física da mulher em primeiro lugar entre os critérios de avaliação da atratividade. E sabe-se que a maioria das mulheres declara que a aparência de um homem é secundária na escolha de um parceiro.

Dessa forma, antes  de se fixar nos dados estatísticos de uma pesquisa baseada em simulações artificiais, é importante antes se perguntar: a ideia de que o corpo de um homem pode determinar a atração sentida por uma mulher heterossexual não seria a aplicação do olhar masculino heterossexual que pensa nos atributos físicos da mulher como o primeiro traço a ser considerado?

(É claro que o estereótipo do homem para quem basta a mulher ser “bonita” para ele ser feliz (independentemente da personalidade dela) pode ser desconstruído na observação das inter-relações reais. A valorização de mulheres consideradas fisicamente bonitas como objeto de escolha do desejo masculino pode estar mais relacionada à ânsia pelo reconhecimento dos pares do que aos próprios anseios do indivíduo quanto à sua “mulher ideal”.)

Também é notório a ideia geral de que o tamanho do pênis é mais importante para os homens do que para as mulheres. Para eles, a autoestima pode ser fortemente influenciada negativa (pênis relativamente menor) ou positivamente (pênis relativamente maior).

Traços físicos

No centro, o modelo intermediário, ao lado dos dois modelos extremos

Ao considerar o quesito proporção do corpo, traduzida especificamente como a razão entre largura dos ombros e a da cintura, ignoram-se outras possibilidades que poderiam ser significativas, como a proporção do comprimento dos braços e/ou das pernas, tamanho e/ou formato da cabeça etc.

(A propósito, a cabeça de todos os bonecos virtuais é a mesma, tem o mesmo tamanho e o mesmo formato, e não foi levada e consideração a possibilidade de um tipo de cabeça combinar mais com um certo tipo de corpo (em termos de uma certa harmonia), ocasionando ou não uma mudança no nível de atração.)

Também vale a pena refletir sobre o fato de todos os modelos apresentados terem uma compleição próxima ao que se considera, no Ocidente, um corpo saudável. Não há modelos magros nem gordos, e uma variação no “peso” poderia ajudar a compreender se há outras combinações de variáveis que seriam mais ou menos atrativas para as mulheres.

Outro aspecto não considerado foi a presença ou quantidade de pêlos no corpo. Os bonecos não possuíam cabelos nem pêlos, e seria interessante saber se a quantidade de pêlos pubianos, por exemplo, teria algum efeito na atração, bem como o corte e o tipo de cabelos, a presença ou ausência de barba etc.

Quanto ao pênis em si, desconsideram-se ainda outras características que não apenas o “tamanho” (não fica claro se se trata exatamente do comprimento), como a largura, o formato (mais cilíndrico ou mais cônico etc.), a altura em que se encontra na pélvis, o fato de estar mais ou menos retraído ou sua proporção em relação ao tamanho do escroto. O tamanho do genital masculino ereto, a propósito, pode não ser facilmente inferido se observado em estado “de repouso”.

Aspectos sociais

Spock e Uhura

O que atrai uma mulher? A inteligência? O uniforme? As orelhas?

Os pesquisadores se basearam em pressupostos de sua própria cultura para elaborar os homens virtuais. Consideraram apenas três aspectos na variação entre os modelos: altura, proporção do corpo e tamanho do pênis. A escolha dessas variáveis, especificamente, pode revelar o tipo de aspecto considerado mais relevante para a cultura dos pesquisadores e dos sujeitos da pesquisa.

As mulheres, ao responderem ao questionamento “Qual desses homens é o mais atraente?”, podem estar respondendo simplesmente aquilo que aprenderam a conscientemente considerar importante na avaliação da atratividade masculina. Declarações desse tipo, expostas a um pesquisador, podem diferir muito daquilo que se passa no íntimo de cada indivíduo.

Além disso, mesmo se considerando que as mulheres estejam sendo sinceras na escolha daquele modelo que consideram mais atraente, isso não leva necessariamente à necessária escolha de tal modelo como parceiro sexual. Não estão sendo considerados diversos fatores subjetivos, psicológicos e sociais que poderiam ser muito mais determinantes do que os traços físicos.

Colocaram-se os sujeitos (as mulheres) diante de imagens virtuais em condições não espontâneas, ou seja, em situação muito diferente de um encontro pessoal com uma pessoa real. Uma situação real deveria considerar vários outros elementos da identidade do objeto de atração, como sua personalidade, seu aparente grau de instrução, suas vestimentas, sua postura, sua linguagem corporal, sua expressão oral, sua classe social e tantas outras variáveis sociais que um modelo estático e sem vida não representa.

Como disse acima, a atração sentida por um modelo sem vida não quer dizer necessariamente que a mulher iria até as vias de fato, se no percurso da interação ela sentisse falta de alguma coisa e desistisse (se você, leitor, é um homem heterossexual, imagine a diferença entre olhar as imagens de bonecas sem vida e interagir socialmente com diferentes tipos de mulheres reais.).

Além disso, se o tamanho e as proporções de um homem ocidental vestido no dia-a-dia podem ser facilmente perscrutados por um olhar atento, normalmente não é tão fácil inferir o tamanho do falo, o que torna esse elemento quase absolutamente irrelevante nesse tipo de situação (a não ser que se considere um possível efeito indireto do tamanho do pênis sobre a personalidade e autoestima do homem em questão).

Mas uma das faltas mais significativas é a pouca abrangência do estudo, que deveria envolver, por um lado, mulheres de diferentes estratos sociais, diferentes idades, diferentes etnias e diferentes culturas e, por outro lado, modelos de tamanhos e proporções ainda mais diversos, abrangendo um escopo maior do que a média dos homens europeus. A perspectiva biologista dos pesquisadores pode fazê-los pressupor que esse tipo de pesquisa revelaria necessariamente algum ditame biológico não afetado por fatores sócio-culturais.

Uma perspectiva mais sociológica/antropológica poderia radicalizar e permitir ir ainda mais fundo na compreensão das dinâmicas das inter-relações afetivo-sexuais de homens e mulheres, incluindo, entre outras, a homoafetividade, que poderia esclarecer ainda mais a influência do sexo-gênero na avaliação pessoal dos critérios de atratividade.

Links

Imagens

  • Destaque: Pão Antropomórfico, de Salvador Dalí
  • Escultura no Museu do Sexo da China
  • Modelos usados na pesquisa
  • Cena da Série Clássica de Star Trek

O paradoxo da misoginia

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Em nossa cultura, o sexo das pessoas e suas respectivas identidades sexuais preconcebidas são objeto de controle e coerção. Os XY são coagidos a serem machos/homens/masculinos, enquanto as XX são coagidas a serem fêmeas/mulheres/femininas, com todo um conjunto de comportamentos, trajes, parafernália e ocupações pré-estabelecidos.

Embora muita coisa já tenha mudado, em muitas instâncias de nossa vida cotidiana essa estrutura sexista se mantém forte, e a paradoxal misoginia continua a existir em pequenos gestos coercitivos de desprezo ao feminino e às mulheres que fogem dos ditames da feminilidade.

Boys will be boys

Nesse universo, a satisfação da sociedade e dos indivíduos que conservam o status quo dessa sociedade se dá quando cada membro da comunidade se encaixa perfeitamente nesse esquema “ditado pela natureza” ou “concebido por Deus”. Se mulheres e homens não se adequarem, a ordem do universo estará comprometida e os “sinais do fim do mundo” se mostrarão bem claros.

Nossa tradição sexista só encontra contentamento na adequação dos indivíduos às identidades e aos papéis preparados para eles, segundo a presença de um pênis ou de uma vagina. Uma mulher se realiza de forma “natural” quando usa vestido e maquiagem, cuida da casa e dos filhos e se entrega aos caprichos do marido, “pela graça de Deus”. Do mesmo modo se espera dos homens que sejam “masculinos”, vestindo calças, provendo a família e explicitando sua heterossexualidade.

A costela de Adão

Mas, ao mesmo tempo, o feminino pende desigualmente na balança com o masculino. As qualidades que formam um ser humano moralmente ideal e superior são geralmente as características do homem/masculino ideal: coragem, assertividade, liderança, competitividade, autonomia, foco, senso de direção etc. Não é à toa que o termo virtude provém do latim vir, significando “homem” (pertencente ao sexo masculino e não o ser humano em geral). As características tradicionalmente atribuídas à mulher/feminina não são valorizadas em si mesmas. Vaidade, passividade, dependência, submissão, superfluidade, emocionalismo e atenção dividida não são virtudes em seu sentido próprio e não são consideradas qualidades nobres.

Não é por acaso que a mulher que tenciona uma carreira independente e toma decisões sem submeter o rumo de sua vida a outro é acusada de ser muito ambiciosa, “querer demais”. Porém, o homem que não tem ambição, que se satisfaz na posição de dono-de-casa, não confraterniza com outros homens torcedores de um time e/ou não se sente atraído sexualmente por mulheres é rebaixado à condição de sub-homem, como se a feminilidade o diminuísse. A mulher/masculina é um excesso, “quer ser mais do que é”; mas ao homem/feminino falta algo, é um doente que tem que ser “curado”.

Isso explica a misoginia. Quando uma mulher é feminina, ela é colocada numa posição “naturalmente” inferior. “Você não passa de uma mulher”, canta Martinho da Vila. Paradoxalmente, “o melhor é que a mulher seja feminina, assim é que se pode aceitá-la”; mas se ela for feminina ela será inevitavelmente rebaixada. Sensibilidade e vaidade não são consideradas virtudes humanas nobres, então a mulher não seria tão humana quanto o homem (masculino).

Entretanto, se a mulher foge dessa camisa-de-força, o perigo está à solta. A violência simbólica (e em tantos casos a violência física) é ativada para colocá-la “em seu lugar”. Nessas situações o medo de bruxas acomete os conservadores, pois é um perigo para a ordem social androcêntrica ter mulheres tomando decisões, afinal, supõe-se que elas são destituídas naturalmente da capacidade de julgar e discernir. Sua “natureza” é se postar de diante de um espelho com um pente na mão e um batom na outra, e ela mesma não será feliz se não se entregar à “futilidade” que faz parte de seu âmago.

Então, se é para manter as mulheres “em seu lugar”, se é mais adequado que elas sejam femininas, o paradoxo da misoginia aparece novamente. Pois é sendo femininas, como está em sua “natureza”, que elas encarnam o papel de demônios sedutores, capazes de dominar o coração e (pior) a cabeça de um homem, destituindo-o de sua autonomia, “tirando seu sossego”, “mexendo com seu juízo”. Tanto a esposa-mãe quanto a amante-prostituta (dois extremos do confuso espectro das identidades femininas) têm o poder de domesticar um homem, seja pela chantagem emocional, seja pelos decotes e minissaias, entendidos como principais culpados pelo descontrole sexual dos estupradores.

As mulheres que, por algum motivo, não conseguem se enquadrar no moldes instituídos da beleza feminina também sofrem por não poderem ser aceitas como mulheres completas, e o desprezo pela “mercadoria defeituosa”, que não tem condições de competir no mercado de corpos, é profundamente sentido pela alma vilipendiada. O que paradoxalmente poderia ser uma libertação para elas, mas as que agradam aos consumidores desse mercado é que se sentem felizes por ser objeto da possessividade dos homens.

Exemplos de misoginia

Muitos homens não entendem o que é a misoginia, pois simplesmente pensam no sentido mais próprio da palavra, como sinônimo de ginofobia, medo de ou aversão à mulher (o que às vezes é atribuído, por exemplo, à aversão dos homossexuais pelo sexo feminino, mas não a um homem heterossexual que gosta de mulheres). Com base no que foi dito acima, eis alguns exemplos de comportamento misógino por homens (e em vários casos mulheres) heterossexuais, ainda muito comuns:

  • O medo de “perder o controle” diante de uma mulher gostosona vestindo uma microssaia e a consequente atribuição da pecha de “puta” a essa mesma mulher, o que se constitui num mecanismo de defesa para o homem se eximir da culpa e da pecaminosidade, atribuindo-as ao seu objeto de desejo; “Eu odeio essas mulheres que usam decote só para a gente olhar e ficam com raiva quando a gente olha!”;
  • A aversão a mulheres que não se encaixam no modelo ideal de feminilidade, especialmente quando são “feias”, embora elas mesmas não tenham nenhuma dúvida sobre sua identificação como mulher e não tenham nenhum traço “masculino” de personalidade; “Mulher de bigode nem o Diabo pode”; o desprezo a essas mulheres se acentua com o imperativo de que a mulher “tem que se cuidar” e de que “não existe mulher feia, mas mulher que não se cuida”; pouco se admite a possibilidade de um homem heterossexual gostar de uma mulher “feia”, como se este gosto fosse errado, o que fortalece ainda mais a pressão para as mulheres serem “bonitas”, sob pena de “não encontrarem um namorado” e consequentemente não serem felizes;
  • A antipatia pela esposa exigente que reclama das aventuras sexuais do marido e se torna uma “megera” a infernizar sua vida, nela recaindo toda a culpa pelos problemas do relacionamento, como se sempre só fosse a mulher a responsável por “complicar” tudo;
  • O rancor declarado pela “ex-amiga” que não quis sair dos limites da “zona de amizade” (“friendzone”), como se o fato de ele sentir atração sexual por ela fosse motivo suficiente para ela sentir o mesmo por ele; a imagem de femme fatale (“mulher fatal”) que recai sobre ela e consequentemente sobre todas as outras mulheres, supostamente propensas a brincar com os sentimentos de “caras legais como eu” e se entregar a “babacas como ele”;
  • A raiva contida pela mulher que se destaca no emprego, superando seus colegas homens, alguns dos quais se acham desonrados e emasculados por terem sido colocados para baixo por um ser humano do sexo feminino; a vontade de se vingar dessa mulher por tê-lo colocado numa condição “inferior”;
  • A raiva que muitos homens têm das feministas e o medo de que as ideias do Feminismo sejam adotadas pela sociedade; a alcunha pejorativa de “feminazis” a todas a mulheres que desejam ter os mesmos direitos dos homens; a indignação desses homens sob a justificativa de que as reivindicações feministas são “besteira”, refletindo o próprio estereótipo de que as mulheres só pensam em coisas fúteis e ou não merecem atenção ou merecem uma punição física.

As mulheres sofrem quando assumem o papel que se espera delas, pois este implica em menos liberdade de escolhas para ela, e sofrem quando fogem desse papel, pois são constrangidas a repensar sua adequação e fidelidade a um ideal de feminilidade “natural” . É claro que muita coisa mudou, mas isso não significa que essas manifestações de misoginia tenham se extinguido. Antes, significa que há aqueles que já não vivem na mentalidade dos séculos passados e que há muita gente (mulheres e homens) que não manifesta seus preconceitos e/ou procura superá-los.

Pelo que luta o Feminismo?

Então, pelo que luta o Feminismo? Pela subjugação dos homens pelas mulheres? Por uma ditadura matriarcal? Por um mundo em que as mulheres não usem maquiagem? Por uma sociedade cor-de-rosa?

O Feminismo luta por muitas coisas, mas com certeza ele não quer que o sexismo se inverta, criando uma sociedade ginocêntrica; nem que os homens sejam impedidos de assumir cargos de poder; nem que as pessoas sejam obrigadas a abandonar os papéis de gênero tradicionais; nem que se crie uma sociedade homogênea em que cada gesto e pensamento seja patrulhado em favor de uma ordem misândrica.

O Feminismo propõe uma sociedade diferente, onde as pessoas sejam mais livres. Em que as mulheres possam ser “femininas” sem serem menosprezadas por isso, ou que sejam “masculinas” sem se sentir culpadas, e onde também os homens sejam livres para fazer as mesmas escolhas. Em suma, é pela liberdade individual de ser quem é e de escolher ser quem quer que seja que o Feminismo e qualquer movimento social libertário luta.

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A evolução do homem branco

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Desde que as teorias sobre a evolução biológica do Homo sapiens começaram a ser elaboradas, tornaram-se comuns os esquemas gráficos que representam os diversos estágios que vão desde os primatas que deram origem aos hominídeos modernos até o ser humano como o conhecemos nos dias de hoje.

A Ciência se guia pelo ideal da objetividade, embora reconheça que a limitação dos sentidos humanos tenha que ser relevada e implique sempre na aproximação da realidade e não em sua pura apreensão. Os valores e pré-noções culturais também marcam a forma como construímos o conhecimento científico e os esquemas evolutivos humanos são exemplos de como as representações do mundo restringem o alcance das representações científicas.

Os esquemas evolutivos do ser humano normalmente mostram o ápice da escala como um homem branco. Daí já tiramos, pela simples pinçagem de duas palavras significativas, que a maioria dos desenhos que representam a genealogia da espécie humana está pintada por um ideal androcêntrico e eurocêntrico. Vejamos o gráfico abaixo, conhecido como A Marcha do Progresso, de autoria de Rudolph Zallinger, na famosa obra Early Man.

Um esquema mais simplificado do diargama acima. Em ordem cronológica: Proconsul sp., Australopithecus afarensis, Homo habilis, Homo erectus, Homo neanderthalensis, Homo sapiens

Esta é uma das inúmeras representações científicas que se podem encontrar e que servem para nos dar uma ideia aproximada de como um primata peludo se tornou um antropoide pelado. Mas quase todos esses esquemas culminam num homem branco, de traços europeus. Isso se justifica em parte pela tradição científica, que herdou diversos esquemas de pensamento do Iluminismo europeu. Os europeus fizeram os primeiros esboços desses esquemas e, portanto, desenharam a si mesmos ali.

Essa justificativa dá ao suposto (por mim) racismo/etnocentrismo dessas representações uma origem relativamente inofensiva, afinal, o homem ali representado poderia ser qualquer um do imenso universo da diversidade humana. Porém, a ideia evolucionista moderna de que a civilização europeia representa o auge da realização humana não deixa de aparecer implícita nessa escala, principalmente se nos lembrarmos de tantas teorias do chamado “racismo científico”, que infelizmente ainda têm muitos adeptos (que muitas vezes nem se dão conta de que o são).

E mesmo considerando o contexto (europeu e androcêntrico) em que se elaborarm esses esquemas (afinal, se um melanésio tivesse desenhado a Marcha do Progresso, seu ápice seria um homem melanésio; se tivesse sido construído numa sociedade ginocêntrica, o ápice da evolução seria uma mulher), eles ainda são, em nossos dias de ideiais mais humanistas, propagados sem modificações, o que implica em efeitos indesejáveis para a democracia moderna.

Evolução branca

Nesse racismo que permeia nossas mentes, que vê, por exemplo, os negros africanos como pertencentes a um estágio anterior ao dos brancos europeus, surgem piadas absurdas como a que se segue:

Imagem de uma publicação “científica” do século XIX (Types of Mankind, de Josiah C. Nott e George Robins Gliddon), que sugeria que os negros são o elo evolutivo entre os brancos e os macacos

Esse gráfico, encontrado alhures na internet, mostra bem a ideia que expus acima. Os africanos são vistos como menos evoluídos do que os europeus, do que os norte-americanos e do que os asiáticos. São ainda hoje apelidados, em muitos contextos, de “macacos”. A pilhéria acima, curiosamente, evoca certas ilustrações do século XIX, que representavam o racismo científico da época (como o desenho ao lado).

Num estudo publicado em 2008 por um grupo de psicólogos de duas universidades norte-americanas, foi averiguada a presente e constante representação dos negros como mais próximos dos primatas e menos próximos da humanidade do que os brancos.

Essa pré-noção, que durante alguns séculos serviu para justificar a escravidão de africanos, se alia a uma visão dos negros como parecidos fisicamente com os primatas. Tendo em vista que os chimpanzés e gorilas, os antropoides mais conhecidos e mais próximos da espécie humana, têm pêlos negros (e no caso dos gorilas também a pele negra), a associação imediata entre pessoas de pele escura e macacos nos faz pensar numa proximidade evolutiva.

Mas é bom salientar que os humanos em geral são parecidos com os macacos, e há traços nos humanos brancos que os aproximam mais dos chimpanzés do que os humanos negros (como os pêlos mais abundantes, a pele clara, as narinas bem visíveis e os lábios finos). Um esquema como o desenho ao lado mostra que é preciso forçar a barra para sustentar as teses racistas. Neste caso, o artista se vale da cor escura das duas figuras inferiores para aproximá-las; as dos dois homens são caricaturais, uma na forma do ideal grego e outra exageradamente bruta; além disso, vê-se que o crânio do negro foi propositalmente inclinado para se parecer mais com o do chimpanzé.

Provavelmente, num contexto histórico diferente, em que os negros tivessem colonizado e escravizado os brancos, estes seriam vistos como mais próximos dos primatas do que os negros, e jogadores de futebol como Kaká e Cristiano Ronaldo poderiam receber bananas de presente das torcidas racistas.

A ideia de que o branco representa o humano normal, sendo os outros tipos considerados meras variações secundárias, é tão forte que até numa história em quadrinhos de Jornada nas Estrelas (Star Trek), franquia conhecida por veicular ideais libertários, a reproduz de maneira sub-reptícia e quase despercebida. No quadrinho abaixo, retirado da revista Klingons: Herança de Sangue (IDW/Devir, 2008), vê-se um klingon (uma das espécies alienígenas do universo de Star Trek) sofrendo uma brutal cirurgia plástica para se parecer com um humano, o que inclui ter sua pele “clareada”.

“Jornada nas Estrelas – Klingons: Herança de Sangue” (Devir, 2008, p. 35)

O que deixa implícita a exclusão de diversas cores que caracterizam os grupos humanos, que variam desde um tom escuro quase negro, passando por uma pele avermelhada e morena até tons brancos e propriamente pálidos. O klingon em questão poderia muito bem passar por um ser humano sem precisar clarear sua pele.

Evolução masculina

Uma paráfrase de uma ilustração vista acima, mostrando a mulher no lugar do homem

Outra pré-noção presente na “marcha do progresso” é a de que o ser humano é basicamente macho, tendo a fêmea um papel secundário na espécie. Quase todos os desenhos mostram um homem no auge da escala e seus antepassados também são todos machos. Os desenhos que representam a mulher são em geral feitas a partir dos desenhos androcêntricos já consolidados ou, em muitos casos, são paródias.

Mas vemos na imagem ao lado que os primeiros estágios são idênticos aos do modelo masculino que lhe serviu de base, ignorando inclusive que outras espécies de mamíferos são tão dimórficas quanto os humanos.

Pensando nisso, o artista Tom Rhodes concebeu o desenho abaixo, que mostra a evolução dos dois sexos humanos, mostrando também o dimorfismo nos estágios anteriores ao Homo sapiens.

“A evolução do homem… e da mulher”

Essa é uma perspectiva interessante e mais aberta quanto à questão de gênero. Mas se voltarmos ao racismo discutido acima, vemos que os dois últimos exemplos ainda são eurocêntricos, mostrando mulheres e homens brancos no final da evolução. Vemos nesta última ilustração que o Homo sapiens usa roupas que remetem à vida na Europa, como se o ser humano tivesse surgido lá e não na África.

De qualquer modo, a mulher ainda não aparece como protagonista na história evolutiva humana. Mesmo neste último exemplo, os rostos de algumas de nossas antepassadas está oculto e elas sempre aparecem em segundo plano, exceto no último estágio. Mas mesmo neste a mulher meio que parece estar mais próxima da primitividade, com menos roupas do que o homem, imagem que reproduz a ideia sexista de que os homens são mais racionais (e portanto mais humanos).

A placa da Pioneer

O papel coadjuvante da mulher na representação da espécie humana é tão marcado que até mesmo a mensagem das sondas espaciais Pioneer 10 e 11, lançadas ao espaço pela NASA, que deveria ser a mais objetiva possível, mostra o ser humano macho na posição de representante, enquanto a mulher ao seu lado assume a postura de um papel secundário. Além disso, essa imagem não mostra o ser humano em sua diversidade, pois os traços são europeus (embora, em termos práticos, seja bem provável que uma espécie elienígena não vá perceber isso, os humanos podem ser todos iguais para ela).

No senso comum, em nossa cultura e em muitas outras mundo afora, homens e mulheres costumam ser encarados como duas espécies diferentes. É muito mais comum percebermos e salientarmos as diferenças (pensadas como irreconciliáveis) do que as semelhanças que nos tornam uma espécie única. Isso pode ser notado em algumas charges anedóticas que utilizam como base a Marcha do Progresso. Fica subjacente a ideia de que a evolução do gênero feminino segue uma rota alternativa em relação ao masculino.

Considerações finais

Se, por um lado, as representações da evolução humana segundo os gêneros valorizam as diferenças entre estes, esquecendo as semelhanças, as representações com cunho racista deixam de reconhecer a diversidade fenotípica humana. Mas as duas coisas estão misturadas, e elas ficam mais explícitas nesta elaborada ilustração de Milo Manara:

Clique na imagem para ampliá-la

Neste esquema, o homem da Europa, com origens na Mesopotâmia, é o protagonista. A mulher aparece desde o início até o fim como coadjuvante da história, normalmente tratada como mercadoria e/ou objeto sexual. Além disso, os povos ameríndios e asiáticos só aparecem em episódios da história humana em que houve contato significativo e impactante deles com o Ocidente.

É certo que se podem encontrar marchas do progresso que fogem meis ou menos das pré-noções racistas e sexistas. Algumas das paródias até contêm elementos de crítica. Porém, as mais bem-humoradas e interessantes permanecem reproduzindo sub-repticiamente o racismo androcêntrico.

Retomamos a postura dos primatas

Como disse Winston Churchill, “os porcos são os únicos animais que nos olham de igual para igual”

Toda a tecnologia visa ao conforto humano

Evolução incompleta

Humanos são macacos

Poluímos e causamos danos a nós mesmos

Ainda há quem não dê valor às evidências…

Este texto é dedicado a Dyego Saraiva, que me deu a ideia de escrevê-lo.

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Sobre as ilustrações

Todas as imagens usadas neste texto foram copiadas da internet. Quando possível, atribuí os créditos devidos, mas não arrogo propriedade de nenhuma dessas ilustrações. Façam-me o favor, portanto, de não dizer que essas imagens são minhas, caso queiram copiá-las para usar em outros sítios da rede.

Quanto ao texto, se quiserem copiar e compartilhar, fiquem à vontade. Agradeço se citarem a autoria, e podem até não citar, mas jamais digam que o texto é de outra pessoa.

Obrigado.

Quatro amores

Padrão

O homem parece que leva chifre depois que começa a raparigar. Quando eu comecei a raparigar, comecei a levar chifre [V. C. P.].

Toma lá, dá cá. Os homens desta região do Brasil (no mínimo, mas em outras regiões deve ser a mesma coisa) tratam duas formas de infidelidade de duas formas diferentes. Se um homem está saindo com outras mulheres que não sua esposa, ele está raparigando ou se divertindo sem compromisso, o que não é motivo para conflito. Se uma mulher comete adultério, enseja a chacota e o título de corno ao marido e pode levar a briga e separação. Claro que em alguns contextos há mais simetria, mas parece que esta ainda não é completa.

Vênus e Marte, de Botticelli

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Emo vs. “nordestino cabra macho”

Padrão

No dia 21 de junho de 2009 e.c., Carlos Cardoso, conhecido blogueiro (ou bloguista, no vocabulário dele) brasileiro e usuário do Twitter com mais de 7.000 seguidores, comentou no próprio Twitter, enquanto assistia ao programa televisivo Pânico na TV, que noticiou o festival Mossoró Cidade Junina, que achava engraçado haver emos em Mossoró (uma das principais cidades potiguares).

Não vi o programa, mas imagino que o Pânico deva ter filmado algum emo no festival. Eu, usuário do Twitter com mais de 80 seguidores, não entendi bem a graça de haver emos em Mossoró. Imaginei, preconceituosamente, que Cardoso talvez pensasse que uma identidade urbana, adolescente e tribal comum às grandes cidades não deveria existir numa cidade “nordestina”.

Comentário de Cardoso sobre emos em Mossotó

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