Macacos

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Num jogo de futebol recente, algum torcedor idiota lançou uma banana ao campo, direcionada ao jogador negro Daniel Alves. Como já é costume, a atitude de mau gosto do torcedor foi aludir à velha piada racista que desumaniza os negros ao insinuar que eles se parecem com macacos (estes, segundo o senso comum, têm uma predileção natural por bananas). A contundente reação do jogador foi pegar a banana, descascá-la, comê-la e continuar jogando.

A atitude de Daniel tem grande força simbólica porque é uma forma de ele mostrar que não tem medo do racismo, uma maneira de dizer, “seu racismo não me afeta”. E isso serve de exemplo para a sociedade que costuma assistir aos negros baixarem a cabeça ou se entristecerem com esse tipo de ofensa. Embora seja muito difícil contornar a violência simbólica do racismo, a mensagem é clara: as coisas estão mudando e não vão ser assim para sempre.

Porém, Neymar, colega de Daniel, levou adiante o gesto deste ao lançar a campanha “Somos Todos Macacos”, convidando os internautas a postar fotos suas comendo uma banana e repetindo a hashtag correspondente (#somostodosmacacos). Em pouco tempo o Facebook e outras redes sociais se encheram com fotos e textos louvando a campanha e rapidamente pessoas começaram a ganhar dinheiro com isso.

Mas o que realmente significa dizer que “somos todos macacos” e quais as consequências de promover essa frase da forma como está sendo divulgada?

Importa salientar que Neymar é conhecido por não se autorreconhecer como negro, embora para o mundo ele seja negro e seja alvo também de racismo. Dessa forma, fica a dúvida se, ao dizer que é macaco, ele está se autorreconhecendo como negro e como pertencente a uma identidade suscetível ao tipo de ofensa sofrida por Daniel ou se está reproduzindo um tipo de campanha comum hoje em dia que é se identificar com uma minoria oprimida apenas a título de solidariedade. Ou Neymar está dizendo

  • ok, eu sou negro e, como Daniel, não me ofendo com o racismo do qual sou alvo; ou
  • embora não seja negro, me solidarizo com Daniel e com todos os negros chamados de macacos pelos racistas; ou ainda,
  • somos todos seres humanos e, como tais, somos uma espécie de macaco.

Infelizmente, como estamos vendo, as coisas são muito mais complicadas do que parecem à primeira vista. Para mim, a única forma que a frase “somos todos macacos” poderia ter algum sentido positivo seria entendê-la com um significado zoológico: “Como Homo sapiens, somos todos pertencentes a uma espécie de primatas e, portanto, somos macacos, tanto os negros quanto os brancos quanto os de qualquer outra cor de nossa raça humana”. Se a frase fosse unanimemente entendida assim, poderia ter, quem sabe, uma força libertária enorme e nos colocaria todos no mesmo lugar, ou seja, desconstruiria qualquer sentido negativo relacionado à palavra “macaco”.

Mas não é bem assim que ocorre na prática. Não podemos ignorar o peso simbólico e político impregnado nas palavras e nos gestos em nossa cultura. Para grande parte das pessoas, o ser humano não é um macaco, e esta palavra se reveste de um significado que a opõe a vocábulos como ser humano, pessoa, homem, mulher etc. Vide um pronunciamento de 2012, viralizado recentemente, em que Ariano Suassuna deixa bem claro a noção de senso comum (e de grande parte das pessoas religiosas) que vê o ser humano como uma criação diferente de qualquer outro animal. Assim, são muito poucos os que apreendem o suposto sentido zoológico presente na expressão “somos todos macacos”.

Infelizmente, o que se apreende dessa frase, em geral, é semelhante ao que estava implícito na frase “somos todos Guarani-Kaiowá”, em campanha a favor dos grupos indígenas citados, e em que pessoas que não eram indígenas se identificaram com eles de maneira fortuita, num gesto político de solidariedade. Quando uma grande parcela de pessoas brancas se identifica como “macacos”, infelizmente o sentido racista ressoa na expressão, e é como se essas pessoas estivessem dizendo que, num gesto de solidariedade, estão se identificando como negros (e não genericamente como seres humanos). Ou seja, por mais bem-intencionada que seja, a pessoa que diz “sou macaco”, nesse contexto em que se discute o racismo, está sem querer dizendo que negro e macaco se equivalem e que macaco não abrange semanticamente o branco.

"Não sou macaca!" (Fang)

“Não sou macaca!” (Fang)

Grande parte das pessoas, além de acreditarem nessa noção de senso comum que vê o ser humano como uma criatura especial, misturam-na com um saber científico difuso sobre a evolução que, contaminado pelo racismo científico do século XIX, não só vê o Homo sapiens como uma evolução do macaco (que supostamente deixou de ser macaco) como também vê nos diversos grupos humanos estágios diferentes dessa evolução. Sabemos bem aonde esse raciocínio leva: grande parte das pessoas, conscientes disso ou não, considera os negros como mais próximos evolutivamente dos macacos do que os brancos, ou seja, como menos evoluídos do que estes e, portanto, menos humanos do que estes.

E é aí que está a força racista do termo macaco, usado ostensivamente em nosso cotidiano como uma palavra “naturalmente” ofensiva. Não é à toa que parte significativa dos representantes dos movimento negros estão rechaçando sumariamente a campanha (difundindo, ao invés disso, a frase “Não Somos Macacos”), pois consideram que ela não desconstrói o racismo subjacente à palavra em questão e pode até reforçar esse racismo. A maioria das pessoas que se deparar com a campanha do “Somos Todos Macacos” não conseguirá dissociar o termo macaco de um sentido negativo profundamente difundido na cultura ocidental.

Há uma grande diferença entre abordar a “macaquice” humana do ponto de vista zoológico e do ponto de vista sócio-antropológico. Embora a Biologia nos permita afirmar a igualdade dos indivíduos da espécie, nos colocando evolutivamente como “macacos”, a cultura, através da representação, nos divide em grupos, nos faz diversos, diferentes, e até desiguais e antagônicos. E, nessa diversidade, a força da representação da identificação entre negros e macacos (diferenciando-os dos humanos brancos) não pode ser menosprezada.

Como disse um amigo, aludindo ao famigerado vídeo “Dancem, Macacos, Dancem”,

Este debate atual – afinal somos ou não somos macacos – tem relação direta com o grande dilema da nossa espécie que é fundante da antropologia: a contradição de sermos uma espécie una do ponto de vista biológico, ao mesmo tempo em que somos diversos do ponto de vista sociocultural. É por causa desse dilema que nos defrontamos com situações inusitadas como o fato de que raças humanas não existem para a biologia, mas são operantes no espectro sociocultural, sendo definidoras de hierarquia e papéis sociais. Assim sendo, estamos diante do atual dilema em que biologicamente não faz sentido negar nossa animalidade – afinal somos primatas, logo, macacos -, mas sociologicamente podemos ser o que quisermos – ou o que os outros querem que sejamos. Ou seja, ser ou não ser macacos depende, diretamente, do contexto em que se insere essa macaquice. Como disse, mundo contraditório…

A nomeação e/ou classificação de nossa espécie como pertencente ao grupo dos macacos é arbitrária e depende da abordagem e do contexto. O que posso dizer com o mínimo de incerteza é que só faz sentido dizer que “somos todos macacos” se com isso entendermos que negros são tão macacos quanto brancos são macacos (bem como quaisquer outras classificações de grupos humanos). Mas é praticamente impossível hoje em dia não associar o malfadado termo a uma noção racialmente negativa, herdada de nossa história recente de subjugação dos africanos e seus descendentes.

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Leia também

O tamanho de um homem

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Uma pesquisa recente realizada por cientistas australianos procurou responder a uma pergunta que atormenta a cabeça de muitos homens mundo ocidental afora: “o tamanho do pênis  influencia na atração feminina pelos homens?” Em outras palavras: “quanto maior melhor?”

A pesquisa foi realizada da seguinte forma. Foram criados modelos tridimensionais virtuais de homens nus, cinzentos e sem pêlos, que variavam entre si em três aspectos: altura, proporção entre ombros e cintura, e tamanho do pênis. Foram mostrados 3 modelos aleatórios para cada uma das 105 mulheres heterossexuais australianas escolhidas como sujeitos da pesquisa, que apontaram qual deles consideravam o mais atraente. O resultado foi que as mulheres preferiram homens (ou melhor, modelos) altos, com corpos mais “masculinos” (ombros mais largos do que a cintura) e com pênis grandes, mas com a ressalva de que os fatores preponderantes foram os dois primeiros e que mesmo os extremos supostamente mais desejáveis foram preteridos (altura e tamanho do pênis extremos). Abaixo, um vídeo-resumo feito pelos pesquisadores.

É interessante notar duas chamadas diferentes, de dois sites diversos, para a mesma notícia. O io9 disse “Últimas pesquisas mostram que o tamanho realmente importa para as mulheres”, enquanto a Nature notificou “O maior nem sempre é o melhor quanto ao tamanho do pênis”. Ou seja, o mesmo resultado suscitou ênfases díspares. Isso revela o peso psicológico da questão e o viés que perpassa a premissa da pesquisa, a metodologia, suas conclusões e as interpretações sobre estas.

Para quem importa o tamanho?

Escultura no Museu Chinês do Sexo

Escultura no Museu Chinês do Sexo

O próprio mote da pesquisa pode ter sido enviesado por uma visão falocêntrica e androcêntrica. Os pesquisadores, antes de se perguntar se o tamanho do pênis é importante para a atração de uma mulher, deveriam se questionar por que essa pergunta é importante. É notória em nossa sociedade a ideia de que homens heterossexuais colocam a aparência física da mulher em primeiro lugar entre os critérios de avaliação da atratividade. E sabe-se que a maioria das mulheres declara que a aparência de um homem é secundária na escolha de um parceiro.

Dessa forma, antes  de se fixar nos dados estatísticos de uma pesquisa baseada em simulações artificiais, é importante antes se perguntar: a ideia de que o corpo de um homem pode determinar a atração sentida por uma mulher heterossexual não seria a aplicação do olhar masculino heterossexual que pensa nos atributos físicos da mulher como o primeiro traço a ser considerado?

(É claro que o estereótipo do homem para quem basta a mulher ser “bonita” para ele ser feliz (independentemente da personalidade dela) pode ser desconstruído na observação das inter-relações reais. A valorização de mulheres consideradas fisicamente bonitas como objeto de escolha do desejo masculino pode estar mais relacionada à ânsia pelo reconhecimento dos pares do que aos próprios anseios do indivíduo quanto à sua “mulher ideal”.)

Também é notório a ideia geral de que o tamanho do pênis é mais importante para os homens do que para as mulheres. Para eles, a autoestima pode ser fortemente influenciada negativa (pênis relativamente menor) ou positivamente (pênis relativamente maior).

Traços físicos

No centro, o modelo intermediário, ao lado dos dois modelos extremos

Ao considerar o quesito proporção do corpo, traduzida especificamente como a razão entre largura dos ombros e a da cintura, ignoram-se outras possibilidades que poderiam ser significativas, como a proporção do comprimento dos braços e/ou das pernas, tamanho e/ou formato da cabeça etc.

(A propósito, a cabeça de todos os bonecos virtuais é a mesma, tem o mesmo tamanho e o mesmo formato, e não foi levada e consideração a possibilidade de um tipo de cabeça combinar mais com um certo tipo de corpo (em termos de uma certa harmonia), ocasionando ou não uma mudança no nível de atração.)

Também vale a pena refletir sobre o fato de todos os modelos apresentados terem uma compleição próxima ao que se considera, no Ocidente, um corpo saudável. Não há modelos magros nem gordos, e uma variação no “peso” poderia ajudar a compreender se há outras combinações de variáveis que seriam mais ou menos atrativas para as mulheres.

Outro aspecto não considerado foi a presença ou quantidade de pêlos no corpo. Os bonecos não possuíam cabelos nem pêlos, e seria interessante saber se a quantidade de pêlos pubianos, por exemplo, teria algum efeito na atração, bem como o corte e o tipo de cabelos, a presença ou ausência de barba etc.

Quanto ao pênis em si, desconsideram-se ainda outras características que não apenas o “tamanho” (não fica claro se se trata exatamente do comprimento), como a largura, o formato (mais cilíndrico ou mais cônico etc.), a altura em que se encontra na pélvis, o fato de estar mais ou menos retraído ou sua proporção em relação ao tamanho do escroto. O tamanho do genital masculino ereto, a propósito, pode não ser facilmente inferido se observado em estado “de repouso”.

Aspectos sociais

Spock e Uhura

O que atrai uma mulher? A inteligência? O uniforme? As orelhas?

Os pesquisadores se basearam em pressupostos de sua própria cultura para elaborar os homens virtuais. Consideraram apenas três aspectos na variação entre os modelos: altura, proporção do corpo e tamanho do pênis. A escolha dessas variáveis, especificamente, pode revelar o tipo de aspecto considerado mais relevante para a cultura dos pesquisadores e dos sujeitos da pesquisa.

As mulheres, ao responderem ao questionamento “Qual desses homens é o mais atraente?”, podem estar respondendo simplesmente aquilo que aprenderam a conscientemente considerar importante na avaliação da atratividade masculina. Declarações desse tipo, expostas a um pesquisador, podem diferir muito daquilo que se passa no íntimo de cada indivíduo.

Além disso, mesmo se considerando que as mulheres estejam sendo sinceras na escolha daquele modelo que consideram mais atraente, isso não leva necessariamente à necessária escolha de tal modelo como parceiro sexual. Não estão sendo considerados diversos fatores subjetivos, psicológicos e sociais que poderiam ser muito mais determinantes do que os traços físicos.

Colocaram-se os sujeitos (as mulheres) diante de imagens virtuais em condições não espontâneas, ou seja, em situação muito diferente de um encontro pessoal com uma pessoa real. Uma situação real deveria considerar vários outros elementos da identidade do objeto de atração, como sua personalidade, seu aparente grau de instrução, suas vestimentas, sua postura, sua linguagem corporal, sua expressão oral, sua classe social e tantas outras variáveis sociais que um modelo estático e sem vida não representa.

Como disse acima, a atração sentida por um modelo sem vida não quer dizer necessariamente que a mulher iria até as vias de fato, se no percurso da interação ela sentisse falta de alguma coisa e desistisse (se você, leitor, é um homem heterossexual, imagine a diferença entre olhar as imagens de bonecas sem vida e interagir socialmente com diferentes tipos de mulheres reais.).

Além disso, se o tamanho e as proporções de um homem ocidental vestido no dia-a-dia podem ser facilmente perscrutados por um olhar atento, normalmente não é tão fácil inferir o tamanho do falo, o que torna esse elemento quase absolutamente irrelevante nesse tipo de situação (a não ser que se considere um possível efeito indireto do tamanho do pênis sobre a personalidade e autoestima do homem em questão).

Mas uma das faltas mais significativas é a pouca abrangência do estudo, que deveria envolver, por um lado, mulheres de diferentes estratos sociais, diferentes idades, diferentes etnias e diferentes culturas e, por outro lado, modelos de tamanhos e proporções ainda mais diversos, abrangendo um escopo maior do que a média dos homens europeus. A perspectiva biologista dos pesquisadores pode fazê-los pressupor que esse tipo de pesquisa revelaria necessariamente algum ditame biológico não afetado por fatores sócio-culturais.

Uma perspectiva mais sociológica/antropológica poderia radicalizar e permitir ir ainda mais fundo na compreensão das dinâmicas das inter-relações afetivo-sexuais de homens e mulheres, incluindo, entre outras, a homoafetividade, que poderia esclarecer ainda mais a influência do sexo-gênero na avaliação pessoal dos critérios de atratividade.

Links

Imagens

  • Destaque: Pão Antropomórfico, de Salvador Dalí
  • Escultura no Museu do Sexo da China
  • Modelos usados na pesquisa
  • Cena da Série Clássica de Star Trek

Palavras incestuosas

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Inês me contou que, quando fez o curso Teoria e Prática da Autopesquisa, uma professora pareceu constrangida ao abordar o tema sexo na frente do filho, que também era aluno no curso. A voz da professora, segundo a narradora da história, quase não saiu, e ela se apressou a pular para o próximo tópico. É tão forte o tabu do sexo nas relações familiares, em muito especial na relação entre pais/mães e filhas/filhos, que provoca situações de enorme constrangimento não só para os protagonistas de um determinado incidente, mas para quem o presencia.

Minha monografia de graduação, por exemplo, que defendi em 2004, disserta sobre a derivação psíquica comum de dois tipos de desejos que em nossa cultura são antagônicos: o desejo sexual de um homem por uma mulher e o amor do filho pela mãe. Minha mãe assistiu à minha defesa, e da minha parte não houve qualquer constrangimento para tratar desse assunto na frente dela, que se sentou na primeira fileira de carteiras da sala, bem diante de mim, que fiquei em pé ao apresentar meu trabalho.

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A alma dos robôs – parte 3

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Um computador pode emular uma inteligência humana de modo visivelmente artificial. Não é difícil encontrar na internet programas que simulam um interlocutor com o qual você pode travar um bate-papo mais ou menos coerente. Mas basta aprofundar ou complexificar um pouco a conversa para desmascarar o robô e fazê-lo dizer coisas sem sentido.

A inteligência das máquinas tem uma especificidade particularmente artificial. A utilidade de um computador prescinde de qualquer traço de humanidade. Um computador e um braço mecânico de uma fábrica não precisam ser nenhum pouco parecidos com um ser vivo, e talvez fosse muito perturbador para nós se não fossem explicitamente artificiais. Esse é o tema de uma história de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, em que Data descobre que tem um irmão mais velho, Lore, que fora descartado por seu criador porque era parecido demais com um ser humano.

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“A saga tropical de William James”

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O espírito antropológico, pelo qual um pesquisador consegue relativizar seu próprio etnocentrismo e conhecer, interagir e conviver com outros povos, não se desenvolve com a mera formação acadêmica em Ciências Sociais. De fato, muitos dos que escolheram a Antropologia como carreira já tinham uma predisposição a um pensamento mais humanista, antes de entrar na Academia.

E muitos antropólogos e/ou pensadores que contribuíram para a Antropologia não tinham formação nesta disciplina. Basta lembrar de Michel de Montaigne (filósofo), Karl Marx (economista… na verdade um polímata), Sigmund Freud (psicanalista) e até o “pai da etnografia” Bronislaw Malinowski (formado em Ciências Exatas).

Abaixo trago um texto da revista Carta Capital, de Elias Thomé Saliba, sobre o filósofo norte-americano William James, que em sua obra mostrou possuir um espírito crítico que o permitiu ver além de seu próprio etnocentrismo e do racismo que marcou o pensamento de sua época. O livro de que fala a matéria deve valer a pena ler.

A saga tropical de William James

Elias Thomé Saliba

8 de março de 2011 às 16:07h

William James

O filósofo narra sua viagem ao Brasil e contesta a atitude racista de seu professor. Por Elias Thomé Saliba

Quando chegou ao Rio, em 1865, contraiu a varíola que o deixaria cego por semanas. Depois passou meses coletando espécies de peixes tropicais e convivendo com as populações ribeirinhas da Amazônia. Dormiu em rede, pitou cachimbo, comeu “iguarias de bugres”, como pirarucu seco com farinha de mandioca, e aprendeu português para “conversar acocorado” com índios da Amazônia. Não se trata de um aventureiro caçando borboletas em terras exóticas, mas de William James, um dos filósofos fundadores do pragmatismo, famoso por definir, pela primeira vez, o “fluxo da consciência”, conceito que inspiraria pensadores como Henri Bergson e Sigmund Freud, transmutando-se em técnica literária nos romances de James Joyce, Virginia Woolf, William Faulkner e tantos outros.

Procedente de boa família da Nova Inglaterra, irmão do escritor Henry James, William viajou para cá ainda estudante de Medicina em Harvard. Tinha 23 anos e veio como uma espécie de estagiário na expedição liderada pelo naturalista suíço Louis Agassiz, professor de James e, na época, um dos mais renomados cientistas norte-americanos. A história da expedição era razoavelmente conhecida, sobretudo porque ganhou uma cronista oficial, Elizabeth Agassiz, mulher de Louis, que, três anos após o fim da viagem, publicou seu A Journey in Brazil. James permaneceu por aqui por quase dez meses. Deixou um diário incompleto e inúmeras cartas aos familiares. É esse conjunto precioso e inédito de escritos que chega até nós em O Brasil no Olhar de William James (Edusp, 184 págs., –R$ 60),– edição recheada de fotos da época, com desenhos originais do filósofo e uma densa introdução da organizadora, a historiadora Maria Helena P. T. Machado.

Apesar dos objetivos puramente científicos, comuns a toda expedição oitocentista, a missão tinha o apoio oficial do governo dos Estados Unidos, que se aproveitou da amizade (epistolar) de Agassiz com dom Pedro II para incentivar a abertura da Amazônia à navegação internacional e sondar territórios destinados ao assentamento de populações negras norte–americanas na várzea amazônica. Nada disso vingou, mas, de qualquer forma, tais objetivos velados destoavam da visão paradisíaca com a qual a cultura naturalista representava a Amazônia, mostrando que, em meados do século XIX, proliferavam projetos mais perversos e reacionários em relação aos países tropicais.

Defensor do criacionismo, Agassiz sonhava com uma coleção enciclopédica para o Museu de Zoologia Comparada de Harvard que espelhasse a distribuição das espécies no globo, segundo desígnios divinos. Adepto da teoria da degeneração, que atribuía a decadência biológica das raças à miscigenação ou ao mullatoism (mulatismo), adotou posições racistas, radicais até para a época, como aquela segundo a qual a raça negra havia sido criada para colonizar áreas tropicais, inadequadas à sobrevivência do homem branco. Agassiz contratou fotógrafos para retratar, no Rio e em Manaus, tipos étnicos de negros e índios em posições fixas (de frente, de costas e de perfil), produzindo uma polêmica coleção de imagens de mestiços. De mulheres, preferencialmente.

O que encanta e surpreende nos relatos de James é o quanto ele se afasta e critica as posições de Agassiz. Jovem leitor de Spencer e adepto entusiasta do nascente darwinismo, atenuado pelo legado espiritualista e religioso do pai, James não contraria publicamente seu chefe e professor. Mas seus escritos estão entremeados de observações irônicas, nas quais deixa implícito seu constrangimento com a maneira pouco ética como Agassiz utilizava a autoridade para convencer nativos a se deixar fotografar despidos. James mostra-se sensível à violência presente na relação fotográfica, que produzia a imobilidade do figurante, reduzindo-o a um estado de inferioridade emocional ao posar.

Mero coletor e embalsamador de peixes e outras espécies, ele perdia entusiasmo pelas lições do professor, como registrou em carta: “Tenho me beneficiado muito em ouvir Agassiz falar, pois nunca ouvi alguém pôr para fora uma quantidade maior de bobagens”. Naturalmente, como todo viajante oitocentista no Brasil, James revela preconceitos e observações duras, perdendo a paciência com a “sonolência e a ignorância dos brasileiros”. “Esses índios”, escreveu, “são particularmente enervantes, devido à sua preguiça e indiferença. Seria engraçado (se não fosse tão enfurecedor) perceber o quanto é impossível apressar alguém, não importa quão iminente a emergência.”

Conforme convive mais tempo com os barqueiros, ajudantes, guias, empregados e gente que lhe dá hospedagem, revela invulgar empatia, esforçando-se por aprender o nhengatu (dialeto derivado do tupi, a língua falada indígena) e elaborando um pequeno vocabulário nas duas línguas. No final da viagem, garatuja uma carta em português. O filósofo parece ter apreendido nos trópicos o relativismo dos comportamentos humanos. Registra, em carta à mãe: “Você não tem ideia, minha querida mãe, quão estranha a minha vida de casa me parece, vista das profundezas deste mundo, soterrado como ele é em mera vegetação, necessidades físicas e prazeres. (…) a ideia de pessoas fervilhando por aí, se matando de pensar sobre coisas que não têm nenhuma conexão com circunstâncias externas, estudando ao delírio, perdendo o juízo por causa de religião e filosofia, respirando o perpétuo gás do aquecimento e da excitação, me parece inacreditável e inimaginável”.

Escritas ao sabor das circunstâncias, as cartas divergem dos repetitivos livros de viagens que desde os séculos XV e XVI colocavam tudo na chave do pitoresco, descrevendo aberrações do clima e da topografia, encontros com grifos, amazonas e gente sem boca, terminando tudo com a descoberta de fontes da juventude ou do paraíso terrestre. Sobretudo, as cartas contrariam o olhar naturalista supostamente neutro e cheio de cientificidade que descrevia pessoas como se fossem vegetais e obscurecia qualquer sociabilidade que não se prestasse à notação exótica.

James deixou um testemunho valioso sobre a Amazônia, diferente do olhar distanciado que lançava o manto do paternalismo, da inferioridade ou da vitimização sobre brasileiros infelizes. Infelizes? Nem tanto. Em uma de suas últimas expedições de coleta, hospedado na casa de Urbano da Encarnação, um brasileiro cafuzo, escreveu: “Nunca houve uma classe de pessoas mais decentes do que estas. O velho Urbano é talhado para ser amigo de qualquer homem que exista, não importando quão elevado seja seu nascimento e bens. Não há nem uma gota de nossas amaldiçoadas brutalidade e vulgaridades anglo-saxônicas. Todos conversam com tanta beleza e harmonia (…) sempre num tom suave, baixo e vagaroso, como se a eternidade inteira estivesse à frente deles”. Para o futuro filósofo do pragmatismo, o velho Urbano parecia melhor do que tudo o que viria depois.

Foto: Reprodução do livro O Brasil no olhar de William James

Fonte

Coleção de sinapses 13

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Esta semana, jogadores de video games descobriram que têm sonhos mais criativos do que os outros, vimos logomarcas muito criativas, enquanto Diderot fala da falta de criatividade dos usuários da internet. Os Thundercats disseram Hello! num crossover engraçadinho e alguns posters cinematográficos voltaram aos anos 60 num crossover temporal.

Uma artista usa a Ótica para recriar obras de arte e o Estatuto da Igualdade Racial foi recriado e aprovado. O Cinema e a Antropologia nunca mais foram os mesmos depois de Rouch e a Literatura nunca mais foi a mesma depois de Saramago. Vimos belas imagens do espaço, descobrimos que as noções de espaço e número surgem muito cedo na infância humana e o trauma de infância de Bruce Wayne dá ensejo a 2 fan films excelentes do Batman.

Video Gamers Can Control Dreams, Study Suggests – LiveScience

Pela minha própria experiência de “gamer”, sei que os jogos eletrônicos ajudam a melhorar o campo visual. Sempre joguei video game, desde os 8 ou 9 anos de idade, e, depois que tive sérias complicações na visão, passei a jogar certos jogos que exigiam mais atenção visual, o que me ajudou a enxergar melhor. Também noto que tenho muita facilidade de lidar com sonhos perturbadores e de perceber, durante o sono, que são sonhos.

Golada de 50 logos inspiradores – Design on the Rocks

Misturar imagens, imagens com letras e letras com letras exige muita imaginação e criatividade. Eis um bom exercício de percepção e inventividade. Dá vontade de sair inventando logos…

Logos criativas e inspiradoras

Blog do Diderot – Blogs do Além

Li este “blog” quando estava me questionando sobre a dispersão causada pela enorme quantidade de informação encontrada na internet e como ela afeta a capacidade de criar novos conteúdos. Simplesmente o tempo disponível para escrever fica reduzidíssimo se nos deixarmos levar pelos infinitos hyperlinks. O efeito colateral que sinto é que, quando estou escrevendo um novo texto para a Teia, tenho a impressão de estar perdendo novas notícias que aparecem o tempo todo na internet…

Hello Thunderkitties – Flickr

Acho legal todo crossover bem feito. Aqui vemos como o estilo e a forma são essenciais para caracterizar certos personagens. O aspecto ferino e heroico dos Thundercats se perde quase totalmente nessas imagens, assim como a Hello Kitty! perderia sua fofura se fosse desenhada no estilo dos Gatos do Trovão.

Posters de filmes atuais ao estilo noir – Getro

Da mesma forma que os crossovers fazem perder certos aspectos de ambos os universos cruzados, colocar um filme contemporâneo num cartaz dos anos 60 mostra uma disparidade. A forma dos cartazes dos anos 60 já diziam muita coisa sobre a concepção de Cinema da época, assim como os dos anos 90-00 são uma forma de sentir antecipadamente seus filmes correspondentes.

Timothy Lin

When spools of thread become ART-masterpieces by Devorah Sperber – Yatzer

Vejam o vídeo no link e confiram o processo de criação das obras de Devorah Sperber. É um trabalho mental fenomenal, que mexe com as percepções, a Ótica a formação de imagens mentais. É extrapolar a experiência visual.

Devorah Sperber

Senadores aprovam Estatuto da Igualdade Racial, mas retiram cotas – Correio Braziliense

Esse Estatuto tem dado o que falar entre militantes dos movimentos sociais e acadêmicos das Ciências Humanas. Só o tempo dirá se as mudanças feitas na proposta inicial do senador Paulo Paim serão suficientes para não caracterizar o Brasil como uma nação racializada e para realmente servir na luta contra o racismo. Em breve, um post mais detalhado…

O legado realista de Jean Rouch – Tribuna do Norte

O olhar do cineasta pode revelar muito do seu etnocentrismo. Ao combinar o uso da câmera com um olhar antropológico, Rouch dá novas perspectivas não apenas aos aos seus colegas, mas também aos cientistas sociais.

NASA Astronauts on Extraterrestrial Life – The Daily Galaxy

Pena que não há mais informações a respeito. Mas que é intrigante, isso é…

Morre o escritor português José Saramago – O Globo

Saramago revolucionou a literatura da língua portuguesa não apenas com novas abordagens de conteúdo, temática e narrativas, mas também na forma, abolindo exclamações e interrogações, por exemplo, e estendendo os parágrafos por páginas e páginas… Só li dele O Evangelho Segundo Jesus Cristo e uns techos do último, Caim, e foi suficiente para sentir que ele fará falta. Vou tentar escrever algo sobre o escritor português nos próximos dias.

Image of the Day -The Mysterious Beauty of a Supernova Embryo – The Daily Galaxy

Image of the Day: Galaxy X – The Daily Galaxy

Image of the Day: A Brilliant Island Universe -How Many Twin Earths Exist Here? – The Daily galaxy

Image of the Day: Red Monster of the Milky Way – The Daily Galaxy

Como disse meu amigo Dyego, “imagens do espaço rule”!

NGC 4725

NGC 253

V385 Carinae

New Study Shows Human Infants Grasp Number, Space and Time Concepts – The Daily Galaxy

Novas descobertas sobre a cognição humana. Noções matemáticas de quantidade e espaço aparecem desde muito cedo no desenvolvimento humano. Somos mais espertos do que muitas vezes queremos admitir.

Veja agora fan film incrível de Batman! – Jovem Nerd News

Dois curtas muito bem feitos com o Homem-Morcego, feitos por um estúdio amador com qualidade nada amadora. Foram bem fiéis ao espírito dos quadrinhos, tanto na construção da trama (especialmente no segundo vídeo) quanto na exemplar caracterização dos personagens (com destaque para o Coringa).


CITY OF SCARS
Enviado por Batinthesun. – Temporadas completas e episódios inteiros online

Contatos imediatos – parte 2

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Em Contatos imediatos – parte 1, comentei algumas observações de Stephen Hawking a respeito da probabilidade da existência de seres vivos extraterrestres e das possibilidades de sua natureza. É improvável que a Terra seja o único astro da galáxia a ter vida, e é possível que esta se manifeste de várias formas.

Dando continuidade aos meus comentários ensaísticos sobre as observações de Hawking (retiradas diretamente de um post do site The Daily Galaxy), faço mais algumas especulações sobre as probabilidades e possibilidades da vida extraterrestre, de esta vida vir a desenvolver inteligência e de esta inteligência assumir várias naturezas, reportando-me a referências da Ficção Científica e da Antropologia.

Hawking certa vez questionou:

What are the chances that we will encounter some alien form of life, as we explore the galaxy?

[…] there ought to be many other stars, whose planets have life on them. Some of these stellar systems could have formed 5 billion years before the Earth. So why is the galaxy not crawling with self-designing mechanical or biological life forms?

[Quais são as chances de nós encontrarmos alguma forma de vida alienígena quando estivermos explorando a galáxia?

[…] deve haver muitas outras estrelas cujos planetas tenham vida. Alguns desses sistemas estelares podem ter se formado 5 bilhões de anos antes da Terra. Então por que a galáxia não está infestada por formas de vida mecânicas ou biológicas autoprojetadas?]

Boa pergunta. Mas uma coisa que me vem à mente é o tamanho dos seres vivos da Terra, minúsculos em comparação com o tamanho dos astros. Já os astros são minúsculos em comparação com a quantidade de espaço vazio que existe na Via Láctea. Se houver um planeta habitado em cada constelação, destes apenas alguns teriam forma de vida inteligente, e destes apenas alguns teriam alcançado a Era Espacial, e destes só uns poucos conseguiriam viajar a uma velocidade com que valesse a pena explorar outras constelações.

Outra variável a ser considerada no “cálculo” acima é a sobrevivência dos extraterrestres antes de poderem fazer viagens interplanetárias. Se seres inteligentes chegarem a um ponto semelhante ao que chegamos na Terra, arriscando-se a exaurir os recursos naturais de seu planeta, eles podem vir a destruir seu mundo, e provavelmente não os encontraremos vivos.

Assim, a probabilidade de criaturas minúsculas vagando em tanto espaço vazio se encontrarem é também bem reduzida. E nós nem sabemos com certeza ainda se iremos um dia realmente viajar na velocidade da luz ou dobrando o espaço.

A pequenina nave espacial Discovery perdida na imensidão do espaço; análogo a um átomo, o Sistema Solar é, na maior parte, espaço vazio (a distância entre o Sol e os planetas está fora de escala - eles são bem mais espaçados -, mas os tamanhos estão)

A pequenina nave espacial Discovery perdida na imensidão do espaço; análogo a um átomo, o Sistema Solar é, na maior parte, espaço vazio (a distância entre o Sol e os planetas está fora de escala – eles são bem mais espaçados -, mas os tamanhos estão na escala correta)

Apenas com uma tecnologia capaz de detectar numa determinada seção tridimensional do espaço qualquer objeto do tamanho de um ônibus espacial ou maior poderia resolver esse problema (afinal, detectar com radar um jato no céu é uma coisa, mas detectar uma nave espacial no espaço sideral é bem diferente… ou não?). Como não sei se essa tecnologia existe, não sei se seria tão fácil assim ver uma nave se aproximando da Terra, se ela tiver o tamanho, por exemplo, da Discovery.

I discount suggestions that UFO’s contain beings from outer space. I think any visits by aliens, would be much more obvious, and probably also, much more unpleasant.

[Eu descarto as sugestões de que os ÓVNIs contenham seres do espaço sideral. Acho que quaisquer visitas de alienígenas seriam muito mais óbvias e, provavelmente, muito mais desagradáveis.]

Talvez sim, talvez não. Talvez nós precisássemos de muito tempo observando e avaliando um planeta habitado antes de aterrissar, se chegássemos a encontrar um. Há muitos possíveis riscos, como doenças desconhecidas que podem ser mortais (que foi a causa da ruína dos marcianos em A Guerra dos Mundos), plantas e/ou animais cujos corpos são venenosos para certos visitantes do espaço, ou até mesmo uma reação violenta e intolerante por parte dos nativos.

Dito isso, podemos imaginar que, se alguns dos ÓVNIs avistados da Terra são naves extraterrestres, seus tripulantes tomariam essas mesmas precauções antes de pousar na superfície terráquea. Isso sem considerar uma ou outra espécie com tendências mais arredias ou paranoicas. Isso tudo explicaria porque é tão difícil ver ETs na superfície terrestre.

Por outro lado, possíveis problemas técnicos por parte dos tripulantes extraterrestres já deveriam ter ocasionado alguma aparição mais evidente, no meio de uma cidade populosa, por exemplo. No entanto, essas aparições, se em alguns casos forem mesmo alienígenas do espaço, acontecem na zona rural ou em locais ermos, sem grande concentração populacional humana, e as testemunhas sempre são escassas.

Porém, quase todos os relatos impactantes conhecidos de pessoas que dizem que viram e/ou encontraram extraterrestres são envoltos em mistério e confusão, além de serem abafados pelas autoridades militares. O ET de Varginha foi visto por um militar, que deu um depoimento à mídia, mas pouco tempo depois desmentiu tudo o que disse à mesma mídia.

Uma outra possibilidade para a dificuldade da obviedade de um encontro com uma espécie extraterrestre é ela ser composta de matéria num estado sutil ou em outra dimensão, ou ainda serem muito pequenos. Pode ser até que nem consideremos os alienígenas como seres vivos, e os confundamos com robôs (como no filme O Milagre Veio do Espaço) ou até com naves espaciais (como no primeiro episódio de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração).

 

O Milagre veio do Espaço

No filme O Milagre veio do Espaço, humanos conhecem uma forma de vida não-orgânica, que mais nos parecem robôs

What is the explanation of why we have not been visited? One possibility is that the argument, about the appearance of life on Earth, is wrong. Maybe the probability of life spontaneously appearing is so low, that Earth is the only planet in the galaxy, or in the observable universe, in which it happened. Another possibility is that there was a reasonable probability of forming self reproducing systems, like cells, but that most of these forms of life did not evolve intelligence.

[Qual é a explicação para nós não termos sido visitados? Uma possibilidade é que o argumento sobre a aparição da vida na Terra está errado. Talvez a probabilidade de a vida aparecer espontaneamente seja tão baixa que a Terra é o único planeta na galáxia, ou no Universo visível, no qual isso aconteceu. Outra possibilidade é que houve uma razoável probabilidade de se formarem sistemas autorreprodutivos, como células, mas que a maioria dessas formas de vida não desenvolveu inteligência.]

Essa é uma possibilidade que temos que considerar. Porém, em termos puramente físicos, astronômicos e bioquímicos, alguns cientistas, como Carl Sagan, concordam que é improvável, pelas dimensões do Universo, que não exista vida fora da Terra. Mas que essa vida tenha evoluído para um estágio de inteligência como a conhecemos na Terra, ou até superior a ela, é uma outra possibilidade.

It took a very long time, two and a half billion years, to go from single cells to multi-cell beings, which are a necessary precursor to intelligence. This is a good fraction of the total time available, before the Sun blows up. So it would be consistent with the hypothesis, that the probability for life to develop intelligence, is low. In this case, we might expect to find many other life forms in the galaxy, but we are unlikely to find intelligent life.

[Levou muito tempo, dois e meio bilhões de anos, para células simples evoluírem para seres pluricelulares, que é um precursor necessário para a inteligência. Esta é uma boa fração do tempo total disponível antes que o Sol exploda. Então isso seria consistente com a hipótese de que a probabilidade da vida desenvolver inteligência é baixa. Neste caso, deveríamos esperar encontrar muitas outras formas de vida na galáxia, mas é improvável que encontremos vida inteligente.]

Nós temos um conceito de vida muito restrito aos parâmetros terráqueos, àquilo que conhecemos na superfície do terceiro planeta do Sistema Solar. E temos padrões mais restritos ainda para o que concebemos como vida inteligente.

A vida celular foi o que vingou na Terra, e talvez não houvesse muitas outras possibilidades neste ambiente. Mas o vírus é uma forma de vida não-celular, que talvez tivesse mais possibilidades de diferenciação num planeta diferente, e talvez até viesse a evoluir e alcançar o status de vida inteligente em outras paragens do Cosmos.

A vida pluricelular também deve ter sido o mais adequado para as condições deste planeta. Mas  não seria possível que, em determinadas condições, uma espécie unicelular evoluísse de modo a crescer mais e mais, se diferenciando cada vez mais em suas organelas e assumindo uma forma macroscópica com um sistema interno próprio ao desenvolvimento da inteligência? O sistema neurológico é a única estrutura que a natureza poderia ter encontrado para desenvolver cérebros?

Toda essa especulação vai no sentido de vislumbrar uma forma de vida com inteligência da maneira como entendemos esta. Por mais que façamos abstrações, a cognição humana pode ser apenas uma de inúmeras possibilidades.

A organização do pensamento humano tem uma especificidade que advém da peculiaridade da experiência do Homo sapiens. Grande parte da forma como o ser humano representa o mundo, o compreende e o interpreta é resultado de um modo peculiar de percebê-lo e de interagir com ele. É o que mostra Gilbert Durand no livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário: aprender a se erguer e caminhar nos faz valorizar e desvalorizar de uma certa forma as noções de cima e baixo, de subida e descida; o impulso e o ato de comer e a sexualidade nos fazem entender de uma certa maneira nossa animalidade e os conceitos de dentro e fora. A especificidade dos sentidos humanos também influenciam essas valorizações, de modo que, por exemplo, a luz se torna um conceito/imagem extremamente importante nas metáforas sobre o conhecimento do mundo, já que a visão é um dos, se não o mais, sentidos mais importantes do Homo sapiens.

Uma espécie sem visão, que pautasse a maior parte de suas percepções do mundo na audição, por exemplo, da forma como um morcego “enxerga” (e da forma como o super-herói Demolidor (Daredevil), da Marvel, “vê”, usando uma audição aguçadíssima), poderia construir o entendimento (interessantemente, o verbo entender é cognato do francês entendre, que significa “ouvir”) do mundo com base em metáforas que incluem a ideia de voz, de música, de melodia, e poderia, ao invés de textos para serem lidos, gravarem seus conhecimentos em meios auditivos. Como deve ser a cognição de um rapaz cego que se localiza no espaço através de ecolocalização, se a compararmos com o pensar de uma uma pessoa vidente?

Além disso, se buscarmos as variações da própria espécie humana, veremos como às vezes é difícil traduzir os modos de pensar de povos com cultura diferente da nossa. Essa tentativa de compreender a linguagem, o pensamento, a cosmologia e a cultura do outro é o principal esforço das obras etnográficas de autores como Bronislaw Malinowski, Ruth Benedict, Claude Lévi-Strauss e todos os antropólogos que viveram entre alienígenas e escreveram sobre suas experiências.

Se muitas vezes é preciso ficar imerso na cultura do outro humano por um bom período até se entender seu modo de viver e pensar, imaginemos como seria hercúleo o esforço para compreender a cultura de uma espécie nascida num planeta diferente, com composição química diferente, aparência diferente, modos de se comunicar diferentes.

Ora, demoramos tanto tempo para descobrir uma fração da inteligência dos golfinhos, uma das espécies mais inteligentes no planeta Terra. Douglas Adams, em O Guia do Mochileiro das Galáxias, mostra de forma bem-humorada como é difícil uma espécie chegar a compreender a inteligência de outra. Na história, os golfinhos, a segunda espécie mais inteligente da Terra (antes dos humanos,a terceira, e depois dos ratos), sabiam que a Terra estava prestes a ser destruída, mas não conseguiram avisar os humanos, que interpretaram sua mensagem como piruetas divertidas. Vejam o trecho inicial do filme inspirado no livro:

Podemos então vislumbrar espécies extraterrestres tão díspares daquilo que consideramos vida inteligente que teríamos dificuldade até de reconhecer que são inteligentes, como a criatura de silício encontrada por Kirk e Spock, descrita na primeira parte deste texto. Assim, qualquer primeiro contato entre duas espécies inteligentes está sujeita a muitos mal-entendidos.

Esse foi o tema de um episódio da série televisiva Babylon 5, em que a origem da guerra entre humanos e minbari é explicada: em seu primeiro contato, uma nave humana encontrou uma nave minbari, cujos tripulantes ativaram as armas da nave, que para eles é um sinal de respeito (algo como tirar a espada da bainha e pô-la no chão, significando a intenção de não entrar em conflito). Os humanos interpretaram o gesto como uma ofensiva, e teve início um longo conflito.

Há assim muitos motivos para ter cautela nos contatos com extraterrestres, e sobre isso me delongarei na próxima parte de Contatos Imediatos.

Continua...

Continua…

Oroboro

Padrão

No filme A História sem Fim (The NeverEnding Story, 1984), de Wolfgang Petersen, o garoto Bastian encontra um livro cuja trama é afetada pela leitura de quem o tem em mãos. A terra de Fantasia, cenário da história lida por Bastian, está em declínio, e cabe a Bastian salvar a Imperatriz Menina, dando-lhe um nome e assegurando a continuidade das história de Fantasia.

Mas a obra de Michael Ende, Die Unendliche Geschichte (A História sem Fim), que inspirou o filme, tem um apelo maior (infelizmente ainda não o pude ler), pois na própria trama de A História sem Fim acompanhamos Bastian encontrar um livro com esse mesmo nome, e temos a impressão de que nossa própria leitura afeta a história na qual há um livro cuja leitura afeta uma outra história, que no final é a mesma.

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Coleção de sinapses 7

Padrão

Nesta semana, vimos que a questão das cotas raciais se complexifica com os argumentos de um militante negro anticotas, e jogamos um joguinho de uma fase só que se complexifica a cada etapa, enquanto assistimos a um belo e complexo filme concebido por Dalí e Disney e os filmes da série Guerra nas Estrelas foram lembrados no seu próprio dia comemorativo,

Acompanhamos a discussão sobre mídia hegemônica e políticas de reconhecimento, vimos uma crítica gráfica aos que são contra as políticas que defendem o casamento entre homossexuais, encontramos indícios de que humanos e neandertais se casaram antes de estes se extinguirem (ou não) e vimos que ainda não se extinguiu a teoria de que Jesus veio do espaço.

O Estado deve incluir, jamais discriminar – CartaCapital

Nessa entrevista com José Roberto Militão, vemos que nem todo o Movimento Negro é a favor das cotas raciais, o que pode enriquecer muito o debate sobre a real função e conseguências de uma política de reservas de vagas baseadas em critérios raciais.

This Is The Only Level – Armor Games

Neste joguinho simples para relaxar no trabalho, cada fase se passa no mesmo lugar, com pequenas variações que vão deixando o jogo mais difícil. Às vezes a gravidade e/ou os controles se invertem, às vezes os obstáculos são diferentes… enfim, um jogo casual.

O “Destino” uniu Salvador Dalí e Walt Disney – Design on the Rocks

Em 1946, o mágico da animação Walt Disney se encontrou com o mágico da pintura Salvador Dalí e ambos conceberam a ideia de um filme chamado Destino. Infelizmente, o projeto foi arquivado. Felizmente, um funcionário dos Estúdios Disney retomou o projeto e criou um curta que combina o caráter fantástico da animação disneyiana e as extrapolações sensoriais do gênio surrealista.

Star Wars Day – Wikipedia

Descobri que 4 de maio é o Dia de Guerra nas Estrelas, ou Star Wars Day. Tudo por causa da sonoridade de May the 4th, que lembra “May the Force…”, primeiras palavras da icônica frase “May the Force be with you”, proferida pelos jedi da galáxia concebida por George Lucas.

A Veja e as Políticas de Reconhecimento – Núcleo de Análises em Políticas Públicas – UFRRJ

A revista Veja é conhecida por manipular informações em nome do status quo da sociedade brasileira, além de privilegiar matérias direcionadas à elite, pouco representando os interesses das minorias. Na matéria A farsa da antropologia oportunista, Veja publicou dados incorretos sobre as áreas indígenas, de preservação e quilombolas,  truncou e inventou citações de dois estudiosos das Ciências Sociais e proferiu expressões preconceituosas e pouco compreensivas da realidade antropológica brasileira. O dossiê linkado acima mostra a matéria e diversas respostas e contrarrespostas, evidenciando as contradições da mídia que se pretende imparcial mas veicula sutilmente sua posição política.

Tradukka

Ainda não se criou um tradutor automático perfeito e, se Umberto Eco estiver correto, nunca aparecerá um. Mas o Tradukka até que acerta bastante. Porém, sigam meu conselho: nunca confiem cegamente num tradutor automático. Ao invés disso, participem dos Wordreference Language Forums, onde é possível conversar com nativos dos idiomas estudados e entender nuances de significado que escapam aos tradutores automáticos.

Consequences of gay marriage – Flickr

Há ainda quem pense que o casamento entre homossexuais, por ser contrário a uma tradição milenar, vai trazer grande sofrimento aos seres humanos, talvez advindo de uma punição de um poderoso deus que nos confunde com ideias como “livre arbítrio” e “pecado”.

Farinha do mesmo neandertal – Xis Xis

Seria improvável que, no contato dos humanos modernos com os neandertais, não tivesse ficado nenhum resquício.  E agora sabemos que alguns de nós têm herança genética do Homo sapiens neanderthalensis. Assim, talvez não seja tão acurado dizer que os neandertais estão extintos…

“Jesus Cristo era um ET” – CartaCapital

As pessoas que têm contatos imediatos dos mais variados graus com extraterrestres normalmente são figuras notáveis. Lourival Navarro não é exceção, mostrando-se um polímata que conserta bolsas, administra um estúdio de gravação, faz música e conhece todas as supostas referências bíblicas aos assuntos da Ufologia. Um potencial intelectual que poderia ter sido melhor aproveitado, talvez…

Coleção de sinapses 4

Padrão

Esta semana uma jornalista negra sofreu uma ofensa racista por um mestre de cerimônias, o que nos remete a uma análise interessante sobre a permanência do racismo no Brasil. A acusação de que os antropólogos brasileiros são parciais em seu trabalho é relativamente desmentida num relatório da Associação Brasileira de Antropologia sobre os índios maxakali.

Dito isso, aprendemos com os portadores da Síndrome de Williams que as pessoas não devem ser julgadas pela “raça”. E vimos numa entrevista não muito recente com Peter Fry que, além da raça, a religião, a sexualidade e a política também não devem ser motivo de preconceito, até porque tudo está misturado. E não é preciso nenhum salto de fé para aceitar alguns preceitos éticos que envolvem todos esses temas…

Jornalista do Hôtelier News é vítima de racismo na Fistur – Hôtelier News

É interessante notarmos como é fácil uma coisa dessas acontecer. E, paradoxalmente, como é fácil ficarmos indignados. Os brasileiros vivem uma tensão entre o racismo latente e a ideologia antirracista. Talvez por haver essas duas forças contrárias atuando sempre é que seja tão complicada a discussão em torno das ações afirmativas no Brasil.

Também é interessante ver, como o fez um amigo meu, que, embora seja perfeitamente legítima a defesa da jornalista contra o preconceito que sofreu, ela mesma não está livre de preconceitos, ao sugerir que uma pessoa ateia ou agnóstica não pode ser moralmente íntegra. Mas aí é outra longa história…

Quem tem medo de raça? A paranóia branca e as ações afirmativas no Brasil – Adital

É fácil confundir o ideal antirracista com a negação do racismo. Essa confusão é feita tanto por quem se opõe à institucionalização das raças quanto por quem a defende. Podemos pensar que há realmente um status quo que uma certa mentalidade elitista e conservadora quer manter, e que passa pela manutenção das desigualdades raciais. Mas nem todos os argumentos que se opõem às ações afirmativas (tais quais as cotas raciais) se baseiam nesse conservadorismo eurocêntrico. Em suma, o texto é interessante e pertinente, mas incorre também em generalizações.

Laudos e Ética – Estadão

Há uma constante acusação aos antropólogos de que seus trabalhos periciais são sempre pautados por um posicionamento unilateral e favorável aos povos estudados por eles, como na confecção de relatórios de identificação e delimitação de seus territórios, para a regularização fundiária. Mas muitas vezes falta quem represente os interesses dos índios e quilombolas, por exemplo, na interlocução com o Estado, e até agora a Antropologia tem sido um dos poucos recursos disponíveis…

Considerações a respeito da situação Maxakali – Associação Brasileira de Antropologia

Nesta nota da ABA, os antropólogos que fazem os relatórios citados no link acima mencionam uma situação em que mostram como se dá a relação entre Antropologia e os povos que são seu objeto de estudo. E entendemos que nem sempre os índios têm razão.

Williams syndrome children show no racial stereotypes or social fear – Discover Magazine – Blog: Not Exaclty Rocket Science

Essa síndrome é interessante. Seus portadores não têm medo de se relacionar com nenhuma pessoa, independentemente do grau de intimidade. A pesquisa sugere que eles não fazem discriminação racial ao julgar as outras pessoas. Porém, serão precisos mais dados para confirmar se isso é uma tendência ou um dado absoluto.

Comment of the Week: The America Christians Want to Return To – Austin’s Atheism Blog

Nesse comentário a um post de Austin Cline em seu blog, vemos que a maioria dos ideais tradicionalistas que os religiosos fundamentalistas querem “de volta” implicariam um retrocesso. Inclusive, os próprios avanços democráticos da contemporaneidade permitem que eles expressem essas ideias sem serem punidos. Mas no mundo que eles querem, alguém que discordasse deles iria para a fogueira.

De Cazemiro@edu para Demóstenes.Torres@gov – Portal ClippingMP

De Washington@edu para Gaspari@jor – Andifes

Esse diálogo em forma de cartas “psicografadas” é pitoresco. Élio Gaspari e Demóstenes Torres estão discutindo ações afirmativas, em especial a proposta de cotas raciais nas universidades. O primeiro é pró-cotas, o segundo é anticotas. Mas o mais interessante é que a incorporação dos personagens serviu para suavizar o debate e deixá-lo um pouco mais civilizado. No entanto, ainda vemos aí a manutenção das posições firmes e maniqueístas no debates sobre cotas raciais, sobre os quais já discuti em Cotas raciais – parte 1.

Religião, política e sexualidade na visão de um antropólogo cosmopolita – Globo Universidade

O cosmopolitismo é muito importante para abstrairmos as ideias com que fomos  criados no restrito ambiente-natal. Peter Fry, antropólogo inglês, mostra que suas viagens pelo mundo não só ajudam a relativizar a visão que temos de nossa própria religião-natal, vida política-natal ou vida sexual-natal, mas também nos faz entender relações imprevistas entre esses vários aspectos da vida humana, tanto numa perspectiva prática quanto epistemológica.

Leap of faith – Wikipedia

Procurei saber sobre a expressão “leap of faith” depois de ver um episódio de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, em que o androide Data diz a Worf que, para considerar a si mesmo uma pessoa, precisou fazer um “salto de fé”, um “leap of faith”. Isso significa deixar em suspenso a falta de provas para algum fato e assumir este fato como verdadeiro, para suprir alguma necessidade existencial. Muitas de nossas assunções são baseadas num “salto de fé”, já que a Ciência e o conhecimento em geral é sempre uma aproximação e não uma descrição exata da realidade. “Se a aparência das coisas coincidisse com sua essência, toda ciência seria supérflua” (Karl Marx).