Caro Augusto…

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Natal, 28 de agosto de 2015 e.c.

Caro Augusto,

Desde a última vez que nos falamos um vulto alado persiste em rondar minha cabeça. Simplesmente genial sua alegoria da consciência, equiparada a um morcego que volteava sua rede naquela meia-noite desconfortável. Não sei nem quero saber se você tem problemas graves de consciência pesada ou se tudo não passou de fabulação sem conhecimento de causa. Mas de uma coisa estou bem certo: mesmo que se possa provar que há pessoas que não são atormentadas por sentimentos de culpa, todos nós temos, no mínimo, um pouco de insanidade. E tendo em vista uma pitoresca ocorrência pela qual passei outro dia, enquanto tentava descansar na sombra de uma árvore, e que me fez lembrar do seu Morcego, constatei que a consciência quiróptera é apenas uma faceta da loucura humana, ou um tipo de doideira específica (não uma doidice, o que é bem diferente).

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Pela crítica contra a censura

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Da Correção Política à CensuraUma ONG da Itália pretende censurar a Divina Comédia de Dante nas escolas do país, cujo conteúdo é eivado de intolerância religiosa, sexual e racial. Há algum tempo se ouviu uma polêmica sobre um professor norte-americano que “revisou” Mark Twain, retirando de um de seus livros as palavras ofensivas aos negros. Na mesma linha e pouco tempo antes, uma discussão no Conselho Nacional de Educação trouxe a consideração sobre restrições ao uso de uma das obras de Monteiro Lobato no Ensino Fundamental, também por causa de seu conteúdo racista.

Alea jacta est. Cada um se posiciona e constrói um debate sem fim, os defensores da correção política se arriscam a ser taxados de simpatizantes da ditadura e os defensores do patrimônio cultural se arriscam a ser responsabilizados pela manutenção de preconceitos difíceis de erradicar.

Quando escutei pela primeira vez as expressões “politicamente correto” e seu antônimo “politicamente incorreto”, imaginei que este se aplicava ao humor subversivo, no estilo das charges que difamam os políticos corruptos e as brincadeiras que servem para abalar valores conservadores como sexismo e racismo. Afinal, o que seria “correto” numa visão moralista é aquilo que se enquadra nos valores tradicionais a ser defendidos de qualquer movimento revolucionário.

Tanto é assim que a expressão “politicamente correto” é muitas vezes usada para se referir a valores tradicionais. A pornografia, por exemplo, que vai de encontro a uma certa moral cristã assexuada, pode com muito mais probabilidade ser chamada de politicamente incorreta, mesmo nas versões em que a mulher não aparece exclusiva e meramente como objeto do prazer masculino, do que a defesa dos direitos dos homossexuais, condenada pela mesma moral cristã. A pornografia é politicamente incorreta porque é convencionalmente obscena e, certamente, fere os “bons costumes”.

Não é à toa que o critério para a Igreja Católica incluir uma obra no Index Librorum Prohibitorum era justamente a incorreção política. Nesse contexto, tudo aquilo que é transgressor (ou seja, que contraria o poder da Igreja) é politicamente incorreto. Mas, por uma série de fatores, aquilo que outrora poderia ser considerado politicamente correto não o é mais hoje em dia, pois o significado assumido hodiernamente pelo termo se aplica justamente ao que seria mais condizente com os valores democráticos.

O complicado de toda essa história é que não dá para ser maniqueísta sem desconsiderar aspectos problemáticos de ambas as posições extremas do debate, ou seja, da posição dos censuradores (os politicamente corretos) e a dos defensores da tradição (em parte conservadores pouco preocupados com uma visão crítica da sociedade e da cultura).

E é a crítica (junto com a temperança) que deveria nortear esse debate. Ao defender as obras clássicas da correção política, não se pode ignorar o fato de que Caçadas de Pedrinho tem expressões racistas, e é preciso se lembrar que Monteiro Lobato não só reproduzia preconceitos de sua época como era favorável ao segregacionismo e era até simpatizante da Ku Klux Klan.

Ainda vivemos inundados de racismo, sexismo e tantas outras intolerâncias. Uma criança que lê Monteiro Lobato não vai aprender com ele a ser racista. Mas não se pode menosprezar a força e a impressão que uma boa leitura pode causar numa mente em formação. Se há algum valor na obra de Lobato, então mantenhamos seus livros nas grades curriculares. Mas se há algum problema com ela, é imperativo que a abordagem seja atualizada, que os escritos sejam contextualizados, evitando-se demonizar o autor, mas da mesmíssima forma tentando não endeusá-lo.

Seria um retrocesso obscurantista se os livros fossem censurados e reescritos, perder-se-ia a memória histórica e correríamos o risco de cometer novamente erros crassos de nosso passado. Pessoalmente, minha posição é difícil de ser localizada dentro das casas brancas e pretas desse xadrez. Sou fortemente contra a censura, e acho que qualquer medida que busque dificultar o acesso a obras importantes de nossa história cultural é desmedida. Porém, todas essas obras, sem exceção, possuem algum tipo de preconceito, reflexo do contexto em que foram produzidas.

Eu me oporia, por exemplo, à censura da Bíblia, mesmo tendo opiniões anticristãs. Considerando que o livro sagrado do Cristianismo transborda racismo, belicismo, machismo, homofobia e vários outros tipos de intolerância, ele deve ser lido com cuidado pelas gerações contemporâneas.

Meu trabalho de conclusão do curso de Ciências Sociais abordou as imagens da mãe e da prostituta na poesia de Augusto dos Anjos. Mesmo sendo admirador da obra do poeta paraibano, não deixei de considerar nesse trabalho que o imaginário do artista está carregado de pré-noções típicas de sua época. Esse tipo de crítica é importante para que os clássicos não sejam tomados como obras puramente racionais de portadores de uma genialidade atemporal.

As obras que entraram no cânone literário ocidental, os ditos “clássicos”, estão ali devido a circunstâncias históricas e escolhas intelectuais que, se fossem um pouco diferentes, as preteririam, e os clássicos seriam outros. É difícil imaginar que um defensor dos clássicos defenderia com a mesma ênfase uma “obra menor”, de um “escritor menor”. Também é difícil supor que um defensor da correção política atacaria um livro pouco conhecido e com pouca repercussão em nossa cultura. A disputa é sempre em torno de objetos de grande valor, pois o importante não é a crítica ponderada sobre as grandes obras, mas a imposição de uma visão de mundo sobre a outra, e nisso os “politicamente incorretos” são tão aguerridos quanto os “politicamente corretos”.

O monopólio do poder da palavra

A correção política é importante para que meçamos os limites das manifestações das diversas intolerâncias, muitas vezes reprodutoras de preconceitos arraigados. Sendo assim, sou a favor de uma postura politicamente correta. Mas ela deve ser educadora e não impositiva. Deve, acima de tudo, atacar as causas e não os efeitos (os signos) da intolerância.

E é de se notar que a correção política tem sido feita por meio da imposição e tem criado um ambiente de paranoia e de melindres, que levam a extremos como a tentativa, por parte do MPF de Minas Gerais, de retirar de circulação o Dicionário Houaiss por causa de seu teor preconceituoso na definição do verbete “cigano”. Uma mente ponderada percebe imediatamente o absurdo que é tentar apagar de nossa memória coletiva os significados pejorativos que as palavras assumem, e qualquer dicionário sério como o Houaiss deixa claro quando um significado é pejorativo, figurado ou chulo (claro, para quem sabe consultar o dicionário).

Porém, não são só os politicamente corretos que jogam sujo. Seus antagonistas, ao defender o Houaiss, terminam por defender o uso tradicional das palavras, revelando seus próprios preconceitos e ignorância.

Por exemplo, André, do blog Ceticismo.net, argumenta contra os ciganos, dizendo que eles não têm cultura e não contribuíram com nada significativo para a humanidade. Ele ignora, em primeiro lugar, o que significa cultura no contexto em questão (talvez por lhe faltar alguma noção de Antropologia), sem saber que toda e qualquer sociedade tem cultura. Em segundo lugar, mostra desconhecimento, por exemplo, da influência dos ciganos no patrimônio cultural da Espanha, que em parte deve o flamenco a esse povo nômade.

Ademais, isso nem deveria ser levado em conta, pois uma visão universalista não trata com tolerância só os povos a quem devemos alguma coisa e que não são parasitas da cultura ocidental. O que está em pauta aqui é o preconceito, é achar que todos os ciganos são ladrões, trapaceiros e vigaristas, só porque todo mundo diz que o são, mesmo sem nunca ter visto um cigano na vida. Com base nisso, pessoas são tratadas como se não fossem seres humanos dignos dos mesmos direitos, negando, por exemplo, um atendimento médico pelo sistema gratuito do governo, como se um indivíduo não merecesse os mesmos cuidados só porque acham que é ladrão.

O que André acaba fazendo, talvez sem querer, é reafirmar esse preconceito, dizendo que cigano é sim sinônimo de ladrão, com isso deixando implícito que todos os ciganos são ladrões e parasitas sociais. Por isso tudo é importante que sejam feitas pesquisas que averiguem até onde os preconceitos se confirmam na realidade, e deixem claro ao público quem realmente são os ciganos. Isso e não a destruição de livros.

Quem são os subversivos?

A reação dos autoproclamados “politicamente incorretos” costuma se pautar pela defesa da liberdade de expressão. Acusa-se os “politicamente corretos” de agirem autoritária e repressivamente, antecipando o prelúdio de uma distopia bradburiana (Fahrenheit 451) ou orwelliana (1984).

Dentro do debate sobre a correção política, têm destaque as questões relativas à linguagem, seja na tentativa de se reformar o vocabulário e os preconceitos nele embutidos, trocar o uso de certas palavras por outras ou admitir as variedades menos privilegiadas das línguas como formas legítimas de manifestação de certo idioma.

Os defensores do uso tradicional da língua são talvez os que mais facilmente encontram apoiadores. Como afirma Marcos Bagno, citando John Milroy, o preconceito linguístico ainda se mantém fora das discussões sobre discriminação, que já aprofundaram o debate sobre racismo, sexismo, etnocentrismo, homofobia etc., mas ainda advogam a favor do “idioma correto” e das regras gramaticais, condenando os usos que fogem a essa norma. Por isso é tão difícil entender a proposta do MEC de não corrigir os “erros” (na realidade, variantes menos prestigiadas socialmente), sem deixar de ensinar a norma culta escrita. Muita gente acha que a proposta é “ensinar errado”.

Não podemos ignorar que certas palavras reproduzem preconceitos. Há vocábulos que carregam em si noções pejorativas. Mas isso não se deve a qualquer valor intrínseco a essas palavras. Se “negro” tem conotação ofensiva quando se refere a pessoas de fenótipo africanoide, não é porque ela possua em si mesma uma carga negativa que transcenda o contexto em que é usada. Isso se dá porque temos uma história que marcou os descendentes de africanos no ocidente com diversos estigmas. Passar a chamar os negros de afrodescendentes não vai mudar os preconceitos que temos a respeito deles. O que vai acontecer é que “afrodescendente” (duvido muito que essa palavra se torne de uso comum) assumirá toda a carga racista e pejorativa com que ainda representamos os não-brancos no Brasil, com qualquer nome que seja.

Um dos equívocos dessa correção política é justamente achar que qualquer referência à alteridade é negativa, e isso acaba revelando seu próprio preconceito, como se simplesmente apontar a diferença fosse um tipo de discriminação. Mas não importa que palavra seja usada, ela sempre vai se imbuir de preconceito. Nos EUA, o termo “black” foi substituído por “negro”, depois por “Afro-American” e “African American”. Todas elas acabaram se investindo do mesmo preconceito do termo anterior.

A reação dos autoproclamados politicamente incorretos acaba confundindo as pessoas. Normalmente, na História, quem reclama da falta de liberdade são aqueles cujas ideias vão de encontro ao status quo. Eram justamente os hereges que ameaçavam o poder (político) da Igreja Católica que incorriam em incorreção política e precisavam ser silenciados.

O que acontece nos dias atuais é que o movimento reacionário à correção política moderna é tão ferrenho que acaba se passando por subversivo (e de fato pode ser entendido assim se considerarmos a forma conservadora que assumiu o discurso que deveria ser libertário). As pessoas tendem a imaginar que a censura vem contra manifestações subversivas, que ferem a ordem instituída e é por isso que são atacadas. Aqueles que têm motivações libertárias (mas nem sempre se utilizam de meios coerentes com os fins) bancam os conservadores, defensores dos “bons costumes”, e é assim que a pecha de politicamente correto inverte seu significado medieval e recai neles.

O que muda em ambos os casos é que um se preocupa em eliminar qualquer ameaça ao poder instituído, enquanto o outro tenta reprimir tudo aquilo que ameaça a criação de uma nova ordem menos excludente. Porém, embora simpatize com os fins do segundo, não concordo com os meios a que acaba chegando quando pretende se valer da censura (um dos mecanismos prediletos de qualquer regime conservador).

Felizmente, vivemos numa época em que a liberdade é valorizada e a censura repudiada. Infelizmente, o repúdio à censura é mobilizado por forças conservadoras para defender sua liberdade de expressar quaisquer ideias, até as mais absurdas. O efeito disso é desculpar todo tipo de manifestação, por mais restringidora, preconceituosa e intolerante que seja.

O que poderia nos levar a um mundo com menos violência e intolerância cai na armadilha reacionária e acaba atrasando os avanços libertários. A atitude intolerante e exclusiva daqueles que advogam a tolerância e a inclusão atrapalham os projetos para uma sociedade diferente.

A defesa contra a correção política se fortalece num movimento mais organizado do que os seus antagonistas. Hoje em dia é moda ser politicamente incorreto, é cool se opor à correção política. O público consumidor vai atrás do que ostente em seu rótulo essas palavras, talvez achando que se tratam de autêntica crítica social (muita gente acha que crítica social é falar mal do Brasil, por exemplo).

Ironicamente, à tentativa de se criticar o teor preconceituoso do humor se atribui um caráter moralista, como se a reprodução dos preconceitos, que tem história milenar, não fosse ela mesma profundamente moralista e mantenedora de hierarquias de poder.

Mas o humor pode ser usado no sentido inverso, para colocar em questão essa hierarquia, quando parte daqueles que são oprimidos para aqueles que oprimem, por exemplo. É o caso das charges políticas. Eu tendo a pensar nessas charges de teor mais crítico como verdadeiramente politicamente incorretas, pois mexem com o status quo. Mas elas não são a mesma coisa de uma piada que compara um negro a um macaco.

Por tudo isso é que vejo esse debate como uma briga de poder. Não se trata de revolucionários vs. reacionários ou progressistas vs. conservadores. É uma luta em que cada indivíduo escolhe seu time contingencialmente, da mesma forma que uma pessoa escolhe o time de futebol.

O efeito mais pernicioso dessa luta é fortalecer posturas moralistas por todos os lados, e fica extremamente difícil incluir no debate uma visão crítica sobre a correção política. Essa crítica deve considerar não só os perigos de uma censura bem-intencionada (toda censura o é), mas também os riscos de se manter o status quo em nome da liberdade de expressão e posar histrionicamente como “politicamente incorreto”.

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(Este texto foi publicado originalmente na Carta Potiguar, como parte da Série “Da Correção Política à Censura“)

Culpa, responsabilidade e ética

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Os episódios da infância de um indivíduo podem nos trazer muitos bons insights sobre o desenvolvimento do senso de ética e de convivência social. Vemos nesses episódios, por exemplo, como as atividades sociais e a reação de outras pessoas vão moldando os valores e códigos de conduta desde muito cedo na vida, o que certamente terá implicações na vida adulta.

Reproduzo abaixo uma crônica escrita por minha esposa, Inês Mota, intitulada Mea Culpa e publicado em seu blog ObjetOObscuro. Ela trata de um evento recente encenado por seu neto, Paulinho, em que se discutiram noções de culpa e responsabilidade, e que servirá para que, em seguida, eu teça alguns comentários sobre amadurecimento e ética, esta muitas vezes entendida como algo que emana de nossa “natureza humana”, mas que, sob um olhar sócio-antropológico mais detido, se revela construído nas relações sociais.

Paulo Henrique Mota Teixeira

(Foto: Inês Mota)

Paulo* tem quase 5 anos. Ontem, depois de uma incursão com um grupo de amigos pelo Bloco 10, voltou com um galo feio na testa.

A despeito das chacotas que fazemos de que ele é o chorão da praia, não costuma ser mofino diante dos pequenos infortúnios próprios da tenra idade. Tanto que toma vacinas e injeções avisando logo que não vai chorar, pois trata-se apenas de uma picada de formiga e no máximo vai emitir um discreto ai.

O pranto, via-se, não era espontâneo, mas fomentado pela gravidade que os próprios amigos pareciam imprimir ao fato, provavelmente sentiu algo distinto da reação que costumava captar diante das menos graves desditas anteriores. Tanto é que vez ou outra cessava o choro e olhava confuso para cada um dos companheiros, buscando subsídios a veredicto menos preocupante.

Questionado por mim acerca do ocorrido e diante da resposta dos amigos de que ele havia caído, Paulo se apressou em relatar o acontecimento, cuidando de encontrar o verdadeiro responsável e, claro, eximindo-se inteiramente de qualquer culpa.

Primeiro, afirmou categoricamente que a culpa era exclusiva de Leando, o amigo mais chegado. E o argumento era forte: Ora, se estavam jogando bola e o chute de Leandro provocou um desequilíbrio e ocasionou a queda, ele era sem dúvida o réu.

A reação da turma foi imediata e em uníssono tratou de tomar partido por  Leandro: Como jogar bola sem chutá-la?

Diante da defesa inconteste, a saída foi arrumar logo outro culpado. Nesse caso, uma culpada. Claro, como não? A bola! Ela, sim, deveria ter braços e aplicar um soco bem no meio da cara de Leandro.

Todos se voltaram surpresos, arguindo que socar o rosto de alguém em qualquer circunstância e, principalmente, se trantando de um amigo é algo violento e inaceitável.

Foi assim que o nosso pequeno personagem se deu por vencido e humildemente  reconheceu de uma vez por todas que não houve culpados. Afinal de contas, como já reza o adágio, o que vale mesmo é a política da boa vizinhança. Além do que é sempre bom ter um amigo com quem jogar e em quem, ocasionalmente, pôr a culpa, ainda mais se ele for o dono da bola.

*Paulo é meu neto querido.

Paulinho voltou da brincadeira aos prantos, com muito mais gemidos e lágrimas do que costuma exprimir. Segundo Inês, o drama dos amigos serviu como multiplicador do drama pessoal de Paulinho. A forma como reagimos às diferentes situações do dia-a-dia é amplamente moldada pelos valores da sociedade em que vivemos. Se o choro é uma reação natural à dor, sua intensidade será proporcional à importância de cada tipo de dor, de sua causa e das circunstâncias em que ocorre. E tal importância é ditada pela sociedade e aprendida na convivência dentro dela.

Kaspar Hauser

Kaspar Hauser não sabia emitir nem um discreto “ai” diante da dor

Numa cena do filme O Enigma de Kaspar Hauser, por exemplo, Kaspar, que não passou por um processo de socialização, reage ao fogo de uma vela, que queima seus dedos ao tentar pegá-la, apenas com uma lágrima, sem emitir nenhum som nem outro gesto que indique dor. Até quando foi esfaqueado, depois de já ter aprendido a ler e a viver razoavelmente em sociedade, nem sequer gritou nem demonstrou desespero (não da forma que as pessoas ao seu redor considerariam adequada), apenas correu ao seu protetor e, banhado no seu próprio sangue, relatou o fato.

As “picadas de formiga”, por exemplo, que provocam apenas um discreto “ai” sem maiores dramas, é entendida por Paulinho como insignificante, devido às circunstâncias em que tomou suas primeiras vacinas. Os adultos que o acompanharam deixaram bem claro, num clima tranquilo, que aquilo não era nada demais, e o encorajaram a mostrar dignidade diante da dor, talvez até tenham recompensado seu destemor com elogios. Toda vez que ele for tomar uma injeção, manterá a serenidade e a dor será sentida com pouca intensidade.

Outras crianças desenvolverão medo e nervosismo diante da agulha e chorarão ou ficarão tontas, até na idade adulta, sempre que tomarem uma injeção. Pelo que diz Inês Mota, seu próprio filho, tio de Paulinho, é um “medroso” diante de jalecos brancos.

Tudo isso fica muito explícito no momento em que Paulinho busca no olhar dos amigos “subsídios a veredicto menos preocupante”. Ele ainda não compreendeu qual é a forma mais adequada de reagir diante da situação, o modo mais aceito e aprovado pelo meio social em que vive de “sentir dor”, não sabe até que ponto é validado ou não verter lágrimas e soltar gemidos.

Diante da interrogação sobre o que aconteceu, o pequeno se apressa a apontar a culpa de sua dor, deixando para depois o relatório dos acontecimentos. Isso mostra que sua mente está concentrada em entender a razão de sua própria reação e justificá-la. Já que a dor na testa é suportável, o que atestam episódios anteriores de machucados e cortes, era preciso encontrar outra solução para explicar o choro e a dor, incitados mais pelos amigos do que por sua própria psico-fisiologia.

A experiência parece mostrar que tendemos, ao menos em nossa cultura, a ignorar nossos próprios erros. Paulinho não conseguiu ver que sua própria inabilidade em chutar a bola causou o tropeção que levou sua testa ao chão. Numa tendência muito humana a buscar uma causa inteligente externa para qualquer fenômeno, ele viu em Leandro, que havia lançado para ele a bola, o responsável indireto por sua queda.

No entanto, também parece haver uma tendência, quando reconhecemos nossas inadequações às normas vigentes nos meios em que vivemos, a criarmos e instigarmos sentimentos individuais de culpa. Especialmente dentro dos valores religiosos ocidentais cristãos, essa culpa se busca redimir com condutas de mortificação e auto-humilhação, o que em si mesmo reforça o sentimento da própria vileza.

Às vezes a autoculpa se manifesta em quadros clínicos como a depressão e a melancolia, e podemos ver como isso se expressa em obras como a poesia de Augusto dos Anjos e a prosa de Franz Kafka. Este era tão obcecado pela culpa que seu romance O Processo é um suspense todo baseado num crime supostamente cometido pelo protagonista, mas este nunca consegue descobrir qual é.

Franz Kafka

A obra de Franz Kafka mostra uma obsessão pela culpa

Considero, em minha própria perspectiva ética, que a culpabilização do outro e a autoculpa são extremos opostos que devem ser evitados. A mortificação acaba sendo uma forma de prorrogar a resolução do problema, enquanto focar em acusações nos faz perder a visão do conjunto da situação e os detalhes que ajudariam a elucidar a solução do conflito.

Inês enfatizou que Leandro é o amigo mais chegado de Paulinho. Talvez não tenha sido sua intenção, mas, em minha própria leitura, dei importância a esse detalhe pelo fato de considerar a amizade um valor inestimável, o que aprendi em minha própria socialização. Assim, Paulinho recebe a desaprovação de todos ao seu redor ao fazer uma acusação injusta, e, pior ainda, ao seu melhor amigo.

Velho Rooter

“A culpa não é de ninguém”

Mas a ação socializadora impôs com eficácia sua lição. Paulinho se curvou aos argumentos contra a acusação de Leandro e contra a personalização da bola, que foi uma forma de projetar seu próprio impulso violento e o desejo de devolver a dor que recebeu. Porém, ele não chegou a assumir responsabilidade por seu próprio infortúnio, mas ao menos admitiu que ninguém teve culpa, o que satisfez o status quo e representou, também ao meu ver, um avanço em seu aprendizado ético.

A voz de Rooter, personagem misterioso do filme Em Busca do Vale Encantado, ecoou em minha mente quando refleti nestes assuntos:

Não é sua culpa, nem culpa de sua mamãe. Agora, preste atenção ao velho Rooter. A culpa não é de ninguém. O ciclo da vida apenas começou.

Paulinho não se mortificou com a culpa e absolveu Leandro e a bola. Ele pôde assim exercitar a mediania aristotélica, procurando a virtude no meio. Mas ainda está por completar 5 anos de idade e aprenderá muito. Talvez ainda tenha que aprender (e aqui falo de meus próprios valores éticos) que não vale a pena procurar culpados, mas esclarecer cada situação e, da parte dele, assumir a responsabilidade naquilo em que teve parte, perdoando os erros dos outros e tentando errar menos.

Fim

Fim

Quatro amores

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O homem parece que leva chifre depois que começa a raparigar. Quando eu comecei a raparigar, comecei a levar chifre [V. C. P.].

Toma lá, dá cá. Os homens desta região do Brasil (no mínimo, mas em outras regiões deve ser a mesma coisa) tratam duas formas de infidelidade de duas formas diferentes. Se um homem está saindo com outras mulheres que não sua esposa, ele está raparigando ou se divertindo sem compromisso, o que não é motivo para conflito. Se uma mulher comete adultério, enseja a chacota e o título de corno ao marido e pode levar a briga e separação. Claro que em alguns contextos há mais simetria, mas parece que esta ainda não é completa.

Vênus e Marte, de Botticelli

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