Sandman e as transgressões de Neil Gaiman

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Encadernado do primeiro arco, "Prelúdios e Noturnos", publicado pela Editora Conrad

Encadernado do primeiro arco, “Prelúdios e Noturnos”, publicado pela Editora Conrad

A série de quadrinhos Sandman, publicada entre 1989 e 1996, pelo selo Vertigo da DC Comics (e continuada posteriormente em vários spin-offs), conta a história de uma entidade que personifica o sono e o sonho (e assim ele é conhecido como Sonho, mas também por diversos outros nomes, como Morfeu, Devaneio, Rei do Sonhar e por qualquer outra denominação que as diversas línguas da Terra e do universo tiverem escolhido para designar esse fenômeno supostamente universal). É contada sua desgraça depois de ser capturado por um mago, a reconstrução de seu reino, uma milenar busca existencialista, os conflitos com deuses, lendas, entidades menores, mortais, e especialmente seus 6 irmãos, os Perpétuos.

Esse épico escrito pelo escritor inglês Neil Gaiman é uma grandiosa narrativa recheada de inusitadas digressões e contos menores que enriquecem o universo de Sandman, colocando em cena personalidades históricas como Shakespeare, deuses de diversas mitologias (judaico-cristã, grega, nórdica, egípcia – e até marciana), personagens do universo DC como Constantine, além de muitos outros seres, humanos, não-humanos, animais e entidades de várias dimensões, cada um com seus sonhos e pesadelos (não importa se reais ou irreais).

Mas um elemento que chama muita atenção do leitor perscrutador é o caráter transgressor de situações e personagens ao longo de toda a série, a começar pela supracitada mistura de mitologias.

Um panteão estendido

Gaiman desenvolveu em suas histórias um mashup mitológico, um pout-pourri teológico em que deuses, demônios, heróis e lendas de diversas mitologias do mundo se encontram, dialogam e entram em conflito. Um dos principais eventos da trajetória de Sonho é quando Lúcifer (da mitologia judaico-cristã) resolve entregar a ele a chave do Inferno. Sonho então preside uma grande e longa reunião com os representantes de todos os panteões da Terra, para decidir quem ficará responsável pelo grande salão das almas condenadas.

Nesse e em outros episódios, vemos uma perspectiva relativista por parte do autor, considerando que diferentes povos e culturas representam o universo de forma diferente, e deixando implícita a possível ideia de que as entidades sobrenaturais só existem por que os humanos as conceberam. Nesse sentido, contra a visão cristã de que todas as outras religiões são falsas, Gaiman apresenta a ideia de que as outras crenças são tão verdadeiras quanto o Cristianismo.

O relativismo das visões de mundo também é bem representado em situações em que Sandman e os outros Perpétuos são vistos por pessoas de culturas ou espécies diferentes. Nesses casos, eles possuem aparência e nomes diversos, como é visto na história do casamento de Orfeu e Eurídice, em que os Perpétuos têm nomes gregos e se vestem à moda helênica. E quando uma gata está sonhando com um mundo em que os felinos brincam com humanos como se estes fossem ratos, ela encontra Sonho na forma de um grande e sombrio gato preto.

Embora com certeza não tenha sido o primeiro a colocar diversas crenças e mitologias lado a lado, Gaiman radicalizou esse conceito, indo além do maniqueísmo, valorizando, indiretamente, a criatividade humana em todas as suas manifestações ao redor do mundo, reconhecendo que são todas dotadas de um significado complexo e um sentido profundo.

Chapeuzinho Vermelho, Lobo Mau, Branca-de-Neve, Pinóquio e outros numa capa da série Fábulas

Chapeuzinho Vermelho, Lobo Mau, Branca-de-Neve, Pinóquio e outros numa capa da série Fábulas, de Bill Willingham

Provavelmente influenciou diversos autores depois dele, o mais notável dos quais talvez seja Bill Williangham, escritor da série de quadrinhos Fábulas, em que os personagens dos folclores e contos de fadas de todo o mundo interagem entre si. Não por acaso Willingham é considerado herdeiro de Gaiman, não só nos temas como no caráter semiépico de suas histórias.

Gênero e sexualidade

A diversidade sexual é tratada por Gaiman com relativa naturalidade. Há personagens de destaque ao longo da narrativa que são homossexuais, e isso não aparece problematizado desnecessariamente, os casais gays e lésbicos, os travestis e os andróginos  simplesmente estão lá, com personalidades complexas e humanas, sem precisar prestar contas ao leitor quanto a suas preferências afetivo-sexuais nem qualquer adequação a identidades de gênero preconcebidas. Isso é o que se pode chamar de conteúdo adulto, não por se tratar de tema tabu, mas por este ser apresentado de maneira madura.

Também há personagens entre os irmãos de Sonho que transgridem a ordem do sex0-gênero, especialmente Desejo e Desespero. Quase todos os Perpétuos possuem um gênero. Destino, Sonho e Destruição são “homens”, Morte, Desespero e Delírio são “mulheres”. Mas Desejo não tem uma identidade de gênero definida, normalmente se apresentando como hermafrodita. Porém, a depender do episódio, Desejo pode se apresentar (ou ser identificado) como homem (chegando até a engravidar uma mulher mortal), outras vezes como mulher. Um personagem de destaque sem gênero definido é no mínimo desconcertante, tendo em vista a tendência nos quadrinhos em geral de apresentar os personagens com seu sexo/gênero bem definido, principalmente nas formas dos corpos, com mulheres extrema e idealmente curvilíneas e homens exageradamente musculosos.

Essa tendência a apresentar mulheres importantes com corpos de beleza idealizada é subvertida por Gaiman em suas personagens femininas. Morte, por exemplo, tem a aparência de uma mulher jovem um tanto diferente das super-heroínas peitudas. Ela aparece como uma mulher sensual, mas quase sem seios. Delírio tem o aspecto de uma adolescente desgrenhada, esfarrapada e aparentemente desarticulada. Porém, muito mais do que Morte e Delírio, é Desespero quem representa o ápice dessa subversão, e penso que ela mereceria ter recebido mais atenção de Gaiman nas histórias do universo de Sandman, pois é muito complexa e extremamente cativante. Desespero sempre aparece como uma mulher baixinha, obesa e “feia”, com presas de javali e ostentando cicatrizes pelo corpo nu. Como os Perpétuos são seres atemporais e transcendentes, esses aspectos estéticos não têm a menor importância para eles, o que acaba contagiando o leitor.

A partir da extrema esquerda, em sentido anti-horário, as mulheres Morte, Desespero e Delírio, @ andrógin@ Desejo e os homens Destruição, Sonho e Destino

A partir da extrema esquerda, em sentido anti-horário, as mulheres Morte, Desespero e Delírio, @ andrógin@ Desejo e os homens Destruição, Sonho e Destino

Paradoxos, nonsense e surrealismo

Sandman é uma história sobre coisas descomunais, ao mesmo tempo em que foca em coisas pequenas. Enquanto descreve a existência de seres onipotentes e a ampla repercussão de seus atos, também coloca em destaque a vida de seres comuns e como pequenas ações ou pensamentos podem reverberar Universo afora. Essas coisas todas, grandiosas e ínfimas, se encaixam de uma forma às vezes inusitada, com muitas pontas que dão nó inesperadamente na trama (e às vezes dando nó em nossas tramas neuroniais). Especialmente em seu caráter paradoxal, numa visão repleta de quebra-cabeças que subvertem a forma como costumamos encarar a realidade.

A perplexidade pode ser experimentada no fato de que os Perpétuos, ou seja, Sandman e seus irmãos, são onipresentes e ao mesmo tempo se apresentam em formas visíveis e interativas. Quando Sonho assume a forma de um homem vestido em roupas elizabetanas e conversa com Shakespeare, ele está ao mesmo tempo presidindo todos os sonhos de todos os seres do Universo. Sua irmã Morte acompanha cada criatura existente em seu momento de despedida da vida, e se encontra em milhões de lugares ao mesmo tempo. E assim com cada um dos outros. Gaiman nos convida a imaginar como seria ter uma individualidade e ao mesmo tempo estar imerso e atuante no Cosmos.

Os Perpétuos também são entendidos como eternos e imortais, existindo atemporalmente, mas também há referências a um momento em que eles começaram a existir. No entanto, existe um tipo de evento ainda mais paradoxal e, digamos, até nonsense. Os Perpétuos, enquanto personalidades (além de serem aspectos da realidade), podem deixar de existir e ser substituídos por outra consciência, como acontece com Sonho. Essa consciência assume totalmente o papel do Perpétuo expirado, inclusive com suas memórias. Porém, embora passe a existir naquele momento com outra personalidade, considera-se que ele sempre foi um Perpétuo e compartilha toda a história do Universo com seus irmãos.

Há um personagem importante em um dos arcos da saga chamado Fiddler’s Green, que em sua essência não é uma pessoa ou uma entidade pessoal, mas um lugar (Fiddler’s Green é o nome de um local mítico para o qual os marinheiros vão depois da morte, uma espécie de paraíso para navegantes e piratas). Esse também representa um aspecto surreal das  histórias de Sandman. Há várias “pessoas” que aparecem interagindo umas com as outras que são não apenas personificações de aspectos da realidade (como os próprios Perpétuos), mas são coisas do universo, como estrelas e planetas. Isso pode ser bem visto na história Sonho: O Coração de uma Estrela, encontrada no livro Noites sem Fim, em que várias entidades do universo se encontram numa reunião.

Outro elemento bem maduro e relativamente transgressor da abordagem de Gaiman é seu afastamento do maniqueísmo típico das histórias de Fantasia. Os próprios Perpétuos são exemplo disso, ao se mostrarem representantes não só daquilo que seus nomes revelam, mas do elemento oposto. É Destruição quem o afirma em determinado momento: Sonho também se define em complemento à Realidade, Morte à Vida, Destino à Liberdade, Delírio à Sanidade, Desespero à Esperança, Destruição à Criatividade e Desejo ao Ascetismo. Nenhum dos elementos dessas díades é entendido como mau ou bom, e todos os outros personagens da narrativa também são mais complexos do que numa visão em preto e branco.

  • [A imagem em destaque é uma ilustração de John Watkiss para Estação das Brumas, um dos episódios mais icônicos da saga de Sandman.]

Acessibilidade em Natal e uma cultura excludente

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Há algum tempo, numa manhã em que saí para caminhar, vi um senhor, cadeirante, dando uma volta na rua. Literalmente na rua. Ele não tinha condições de passear na calçada, caminho dedicado a quem não se locomove de carro, simplesmente porque essa calçada parecia mais uma escada (o trecho era uma ladeira, e parece que os natalenses só concebem as calçadas de suas casas como pedaços separados e individualizados do resto, sem a menor noção de comunidade).

Os pedestres de Natal percebem facilmente os problemas de acessibilidade da cidade. Pessoas com dificuldade de locomoção, sejam deficientes físicos e visuais ou idosos, e em muitos casos até pessoas sem essa dificuldade, não podem andar livremente pelas calçadas, repletas de obstáculos, degraus de meio metro de altura, desníveis de 45º, pisos táteis irregularmente colocados, trechos em terra nua, outros tão estreitos que por onde só anda uma pessoa de cada vez, equilibrando-se para não cair na rua, além de diversos postes que barram o caminho de qualquer cadeirante.

As pesquisas de especialistas apontam para a veracidade do problema, mostrando a precariedade da infraestrutura natalense, objeto de descaso da administração municipal. Complementando a situação calamitosa para os pedestres, motoristas despreocupados e incivilizados ignoram completamente  as consequências de estacionar da maneira que lhes é mais conveniente, como se não houvesse possibilidade de uma pessoa com dificuldades de locomoção querer atravessar o trecho barrado por seu caríssimo veículo, ou como se essa dificuldade não fosse problema seu. Além disso, esses mesmos motoristas há muito adotaram o hábito de estacionar em vagas dedicadas a pessoas com dificuldades, mesmo quando não trazem deficientes físicos nem idosos a bordo.

O mesmo descaso é perpetuado por empresários que constroem as calçadas (quando as têm) de seus estabelecimentos comerciais da forma mais cômoda para eles próprios. Felizmente, muitas iniciativas privadas mais recentes têm se preocupado com a acessibilidade.

Por outro lado, as instâncias governamentais locais, que deveriam empreender a acessibilidade de toda a cidade, não o fazem sequer nos próprios prédios públicos. O acesso ao poder público (em qualquer sentido que tenha esta expressão) é dificultado às pessoas com mobilidade reduzida, configurando-se uma antidemocracia, com acesso garantido apenas a uma parcela dos cidadãos. Aliás, os principais projetos de melhoria da acessibilidade se voltam quase exclusivamente aos pontos turísticos, como sempre, e não atendem às demandas de quem se locomove diariamente pelas ruas de sua cidade.

Entre os diversos problemas que o cidadão de Natal enfrenta, um dos que menos atenção recebe é o da acessibilidade. Essa desatenção não ocorre somente da parte da administração pública como um todo, mas da pacata população resignada. Quando a calamidade atinge grande parte dos contribuintes, usuários de ônibus e motoristas de ruas esburacadas, os protestos aparecem. Mas pouquíssimos estão preocupados com as calçadas. Por quê?

Reporto-me à ideia, defendida por Gustavo Barbosa, de que Natal é uma “terra das aparências”. Faz parte de nossa cultura mostrar para o mundo e principalmente para nós mesmos uma população “bela”, “branca” e “cristã”. Dificilmente se vêm pessoas obesas, anãs ou deficientes mentais e físicos em público. Só recentemente  temos visto com mais frequência pessoas negras e pobres nos espaços da moda, como os shopping centers, talvez pelo aumento do poder aquisitivo (embora a lógica da exclusão mantenha espaços que só a elite “descendente de holandeses” frequenta). E todos aqueles que são “inadequados”, com raras exceções (a exceções são em geral pessoas da elite), ficam confinados em suas casas, inclusive os deficientes físicos.

Assim, são poucos os cadeirantes que se beneficiam dos modernos ônibus do PRAE (Programa de Acessibilidade Especial), pois não só são poucos os veículos dotados desse serviço como são poucos os cadeirantes que se atrevem a enfrentar as pistas de obstáculos que margeiam as ruas e avenidas (desafiadoras até para quem não tem problemas de locomoção).

Se existem polêmicas, confusões e processos judiciais, nunca vão a público. A exclusão na prática se conjuga com a cultura das aparências, com o preconceito geralmente velado, mas algumas vezes visível e audível, que constrange a diversidade. Na opinião de muitos, “o que um velho vai fazer na rua saindo às 6 da manhã?”, “quem mandou esse deficiente sair de casa?”, “tem gente que nem devia sair na rua, para não enfeiar a cidade”.

A cultura natalense alicerça uma cidade especialmente construída para quem tem carro e, secundariamente, para pedestres sem deficiência. A longo prazo, qualquer tipo de crítica e protesto por uma cidade com mais acessibilidade só alcançará maior repercussão aos poucos, e mesmo as mudanças práticas que puderem ocorrer na infraestrutura urbana não serão plenamente usufruídas de imediato, mas somente quando, tornando-se uma sociedade mais preocupada com a saúde e bem-estar de todos e menos com o glamour, abraçar igualmente todos os cidadãos em sua ampla diversidade, aceitando na vida pública os deficientes mentais, os cadeirantes, os idosos, os cegos, os negros, os anões, os obesos.

Referências

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