Blanka o brasileiro

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Blanka

© Capcom

[Texto publicado originalmente na Carta Potiguar N. 4 – 07/04/2013]

Street Fighter II é um clássico video game dos anos 90, produzido pela Capcom, que popularizou um formato de jogos de luta replicado até hoje. Mas para além de sua jogabilidade e da diversão proporcionada aos jogadores, SF2 apresentou um pitoresco elenco de personagens, com roupas, penteados, cores, trejeitos e nomes que se tornaram mitológicos na cultura popular. Alguns desses personagens se apresentam também como estereótipos étnicos, culturais e nacionais.

Para os jogadores brasileiros, sempre chamou especial atenção o personagem conterrâneo Blanka, um homem selvagem que vive na Amazônia, vestido apenas com uma calça rasgada na altura dos joelhos, algemas nos tornozelos, pele verde, uma abundante cabeleira ruiva, proferindo apenas grunhidos e com um estilo de luta agressivo em que usa unhas e dentes para ferir seus adversários.

Em sua infância ele caiu na selva amazônica num acidente de avião e cresceu na floresta com outros animais. Aprendeu a controlar a eletricidade do próprio corpo e desenvolveu sozinho um estilo de luta selvagem (embora muitos pensem erroneamente que ele luta capoeira). Conheceu o mundo ao “pegar carona” num caminhão de contrabandistas e acabou se tornando mundialmente famoso num torneio de luta, ao fim do qual foi reconhecido e encontrado pela mãe, que o chama de Jimmy.

Diferente de outros personagens mais estereotipados, Blanka parece representar muito pouco ou quase nada o brasileiro comum ou mesmo o estereótipo do brasileiro, nem a autoimagem nem a visão dos estrangeiros. Mas será que o excêntrico homem amazônico verde diz alguma coisa sobre quem são os brasileiros?  Podemos ver nele símbolos da identidade e da cultura brasileira? Talvez haja nesse inusitado personagem algumas referências ao que significa o Brasil e o brasileiro para si mesmo e para o mundo.

Blanka não é nem amarelo como Ryu, nem branco como Guile, nem vermelho como T. Hawk e nem negro como Balrog. Ele é verde. Como o povo brasileiro, sem uma identidade étnica ou racial definida, ele é não só uma interseção, mas algo diverso e exótico. Ele se apresenta inclusive com várias cores e tons de pele, a depender do título da série de jogos e de acordo com o botão com o qual o jogador o seleciona. Ele pode ser verde, azul ou roxo, assim como os brasileiros são um conjunto de identidades étnicas e de cores, brancos, amarelos, pardos, mulatos, loiros, morenos, negros etc., e o mesmo indivíduo pode assumir diversas identidades raciais de acordo com as situações do dia a dia.

Nosso amigo verde ostenta grilhões nos tornozelos, marca de um possível episódio de cativeiro em seu passado, Como os brasileiros, ele ainda guarda sinais de uma época anterior à independência, ainda se sente preso e estigmatizado com a pecha do colonizado. Ele é o escravo alforriado que não consegue se libertar totalmente da cicatriz dos golpes de açoite. Ele pode ter a pele verde, mas é um negro herdeiro da pseudoliberdade da Abolição. É também um índio ligado à natureza e arredio ao modo de vida Ocidental. E é um branco perdido no Novo Mundo. Se ele não consegue se definir totalmente como branco, índio ou negro é porque tenta frustrantemente criar uma identidade que mascare sua origem mestiça, pobre e sofrida.

Essa identidade mascarada, espelhada em algo externo, se revela em seu nome. Quase todos os personagens da franquia Street Fighter têm nomes que remetem ao povo a que pertencem. Ryu é “dragão” em japonês, Chun-li significa “bela primavera” em chinês, Ken é um típico nome norte-americano e Vega um sobrenome espanhol. Mas “Blanka” não só não soa português como tem um K que não costumava fazer parte do alfabeto oficial no Brasil até antes do Novo Acordo Ortográfico. “Blanka” é o menos estereotipado dos nomes em Street Fighter, mesmo considerando-o como um apelido. Jimmy, diminutivo de James, é simplesmente inglês e nada brasileiro.

Mas essa identidade com referência externa revela muito da representação que o brasileiro faz de si mesmo. A média dos habitantes deste pedaço da América se vê como integrante de uma cultura ocidental branca, eurocêntrica e cristã. Esse povo que vê a si mesmo como um estrangeiro distante e recém-chegado em terras bravias olha para a população pobre e negra, indígena e nativa como uma parte da natureza e fauna locais, como um elemento irreverente e inconveniente da realidade da humanidade e sociedade do país.

Esse que se pensa como um gringo que foi arrebatado pelo inferno verde e obrigado e conviver com a gentalha primitiva não percebe que ele é produto desse meio e fruto dessa floresta, compartilhando os mesmos vícios e virtudes de uma cultura que se diferencia em muitos aspectos de uma Europa ou Estados Unidos da América idealizados. Ele e sua mãe se esforçam para se inserir no mundo globalizado segundo os ditames do Ocidente, e tanto o “Jimmy” quanto o “Blanka” com K são reflexos da tentativa de se “americanizar” e fazer parte de um grupo privilegiado, bem como tantos  nomes luso-brasileiros em que se enxertam Ks, Ws e Ys meio que aleatoriamente.

No entanto, apesar de todo esse conflito, Blanka sabe ser irônico e ridicularizar a si mesmo e ao outro. Quando vence uma luta, solta essa frase de efeito: “Seeing you in action is a joke!”, “Ver você em ação é uma piada!” Ora, sendo um dos mais “ridículos” personagens aos olhos dos outros, Blanka zomba de seus adversários no melhor humor brasileiro. É o patinho feio tupiniquim que na Copa do Mundo de Futebol mostrou 5 vezes ser um grandioso cisne cinzento.

Blanka é uma contradição como é o brasileiro. Nem o lutador glamouroso que sonha ser, nem o monstro que teme dentro de si, o brasileiro é um produto inusitado e único que precisa se reconhecer e ser reconhecido em sua especificidade cultural. Mistura de elementos de várias nacionalidades, não deve negar nenhuma deles como fonte de sua natureza atual, e deve trilhar um caminho só dele, mas lado a lado, de igual para igual com os outros “competidores” do Grande Torneio Mundial.

[As imagens que ilustram este texto são propriedade da Capcom]

Marco Feliciano não nos representa?

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(Aviso: este texto não é nenhum pouco uma defesa de Marco Feliciano.)

A eleição pelo PSC do pastor-deputado Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias tem causado grande repercussão por todos os extratos da sociedade brasileira. Raramente se viu algo assim na História recente do Brasil, uma manifestação tão grande nas redes sociais, na mídia e nas conversas, os brasileiros demonstrando seu repúdio a uma figura frontalmente contra os princípios que deveria defender no cargo que ocupa.

O meme mais difundido agora são fotos de internautas segurando um cartaz dizendo: “Marco Feliciano NÃO me representa”, frase geralmente precedida da identificação do fotografado (“Sou gay, sou negro, sou mulher…”). A sociedade está revelando abertamente que não quer um declarado homofóbico, racista, machista e simpatizante da teocracia representando seus direitos.

Mas a verdade é que Marco Feliciano não é um corpo totalmente estranho na sociedade brasileira, que se vê idealmente como inclusiva, multiétnica, antirracista, antissexista, anti-homofóbica etc. Embora estejamos testemunhando uma positiva manifestação contrária à ideologia discriminatória personificada em Feliciano, incluindo até muitos adeptos da religião do referido pastor, o fato é que a maioria de nós ainda não resolveu plenamente seus preconceitos de raça, sexo e gênero.

Nesse sentido, se por um lado Marco Feliciano é o contrário do que queremos para representar a luta pelos direitos humanos e pela igualdade das minorias, ele nos representa sim quanto aos preconceitos e valores que estão sendo tão combatidos por todos nós.

O problema não é ele ser homofóbico, racista e machista. Eu sou homofóbico, racista e machista, a maioria de nós é. O problema real é Feliciano se manifestar publicamente como defensor de uma tradição homofóbica, racista e machista. Ao dizer que a condição de miséria dos negros é resultado de uma maldição milenar, Feliciano deixa implícito que uma política a favor da população negra é dispensável, pois só quem poderia mudar isso é uma força divina. Ao se declarar contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e ser frontalmente contra o PL 122, ele entra em contradição com o ideal materializado na Comissão em questão. Ao atribuir publicamente as “mazelas” contemporâneas à emancipação das mulheres, parece querer reverter conquistas sociais que não deveriam mais ser questionadas.

Entretanto, na verdade Feliciano é a figura de um monstro que ainda existe entre nós e dentro de nós, um reflexo ampliado de algo que ainda não conseguimos extirpar de nossa sociedade nem de nossos âmagos. Mas, enquanto a sociedade em geral está se esforçando para destruir a homofobia, o racismo e o machismo, pessoas como Feliciano estão defendendo ideias homofóbicas, racistas e machistas, trabalhando para difundi-las e tentando evitar que os direitos humanos alcancem sua plenitude.

E não são poucas as pessoas que o apoiam, como revelou uma recente enquete do UOL. Marco Feliciano representa os interesses de uma grande parcela da população brasileira, preocupada em garantir a manutenção de valores conservadores e colocar as crenças bíblicas (próprias de apenas uma parte dos cidadãos brasileiros) acima dos preceitos democráticos constitucionais laicos.

Por esses motivos, faço coro com a sociedade manifestamente contrária à escolha de Feliciano para o papel político que está (ou não) exercendo. Ele é a pessoa errada para presidir a Comissão. Mas ele o é não porque seja preconceituoso, e sim porque é um defensor desses preconceitos. Precisamos de alguém que esteja lutando para superar esses preconceitos (mesmo que essa pessoa os tenha, mas, como eu disse acima, poucos de nós não os têm) e para ajudar a sociedade brasileira a se reeducar, a desconstruir o pior que temos em nós.

O problema é que Marco Feliciano nos representa em nossos valores atávicos e em nossa hipocrisia diária, na negação de nossa herança não-europeia, tanto em nossa biologia (vide a acusação de que Feliciano faz chapinha, não assumindo o crespor de seus cabelos, prática amplamente difundida) quanto principalmente em nossa cultura, nos hábitos alimentares, na língua e, com grande força, na religiosidade. Temos muito de africano em nós, mas boa parte dos cristãos não aceita a presença de terreiros de Candomblé e Umbanda no país.

É justamente porque Feliciano me representa naquilo que eu tenho de pior que eu não o quero na Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Isso não quer dizer que ele me represente em outro sentido mais relevante, pois diferente dele eu estou constantemente tentando vencer meus preconceitos e não sustentá-los. O presidente da Comissão deveria nos representar em nossos anseios democráticos para o futuro, que ainda estamos tentando construir.

Não estou de maneira alguma justificando Feliciano na Comissão. Mas não adianta somente retirá-lo de lá, é preciso também que a sociedade se modifique. E não quero dizer com isso tudo que é bom ter na presidência da Comissão uma pessoa homofóbica, machista e/ou racista. O que não podemos permitir é que esse cargo seja ocupado por um hipócrita estagnado na tradição medieval.

Catequese no Estado laico

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O governo de Ilhéus, Bahia, instaurou uma lei municipal que obriga os alunos das escolas públicas do município a rezar o Pai Nosso antes das aulas. Os 13 vereadores da cidade aprovaram a “Lei do Pai Nosso” por unanimidade e o prefeito a sancionou no dia 12 de dezembro de 2011. A ideia dessa norma no mínimo controversa saiu da cabeça do Vereador Alzimário Belmonte (PP), evangélico da Igreja Batista que, como tantos políticos incompetentes Brasil afora, não compreende o que é Estado laico.

Essa tentativa de cristianizar o Estado brasileiro não é a primeira nem a mais séria. Felizmente, vivemos numa época em que a imposição teocraticista encontra forte resistência da sociedade civil secularista. Neste sentido, a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) ingressou no Ministério Público da Bahia contra a lei, argumentando sua inconstitucionalidade, tendo em vista que viola a liberdade de crença dos estudantes.

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Liberdade e livre-arbítrio – parte 1

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É por parte de cristãos de diversas denominações que mais se ouvem queixas reacionárias perante críticas dirigidas ao Cristianismo, manifestações pelos direitos dos LGBTs e reivindicações pela efetiva laicidade do Estado. Quando uma boa quantidade de pessoas critica o comportamento de evangélicos que transformam uma cabine do metrô numa barulhenta sessão de pregação, com direito a possessões divinas e diabólicas, alguns evangélicos sentem que se trata de uma repressão a sua crença. É difícil que algo assim não provoque calorosas discussões na internet.

Recentemente a direção do Hospital Regional do Agreste, em Caruaru, Pernambuco, proibiu as práticas de pregação e oração por parte de visitantes nas enfermarias. Nada mais é do que um ato de bom senso e compreensão da necessidade de os vários pacientes repousarem e se recuperarem de procedimentos médico-cirúrgicos. Pastores se sentiram oprimidos em sua liberdade de culto, como se a pregação fosse mais importante do que a liberdade e a saúde de outras.

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Sobre genéricos, filhos e a Europa

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Quando soube pela primeira vez sobre os medicamentos genéricos, que eles têm a mesma fórmula que os remédios “de laboratório” e que são mais baratos, eu me perguntei: por que então agora alguém vai querer comprar mais caro se tem um igual e mais barato? As fábricas não vão falir? Elas serão obrigadas a baixar os preços? Qual é a vantagem de se comprar mais caro se a fórmula é a mesma?

Com o tempo me dei conta de que as pessoas dificilmente confiam em empresas que não sejam “de marca”, com propagandas que “mostrem” a eficácia dos produtos e estejam há muito tempo no mercado, o que lhe confere, supostamente, pela tradição, um certificado de validade maior. A desconfiança nos genéricos é tal que o termo serve como pejorativo, sinônimo de piratas, para se referir, por exemplo, aos filmes pirateados vendidos por camelôs.

É uma situação geral, mas não tão hegemônica. O oferecimento de produtos mais baratos com a mesma qualidade é uma grande vantagem para a população mais pobre, que não pode se dar ao luxo de pensar que o mais caro é melhor. A população mais rica pode se manter com a crença de que a marca é um diferencial, além de poder usar isso, até inconscientemente, para se distinguir socialmente (como com qualquer outro tipo de produto).

Mas não é só isso. A propaganda reproduzida abaixo, da fábrica de remédios genéricos Germed, mostra que, para os brasileiros, há um outro elemento que prejudica a confiança nos medicamentos “sem marca”.

A primeira contestação da freguesa frente à oferta de um genérico é justamente o que eu tenho dito acima. Ela tem dúvidas se pode confiar nesse tipo de produto. A vendedora argumenta que a qualidade dos genéricos é supervisionada pela Anvisa. Mas isso não é suficiente para convencer a cliente, como se também não fosse possível confiar num serviço do governo brasileiro. A cliente, ainda não convencida, pergunta à farmacêutica se esta daria esses remédios aos seus filhos. A resposta é positiva, mas, antecipando que seu argumento pode ainda não convencer, a vendedora enfatiza que os genéricos Germed, além de baratos, são exportados para a Europa. Finalmente, a cliente se mostra completamente convencida e compra o genérico.

No mercado contemporâneo, como sustenta o sociólogo inglês Anthony Giddens, temos que nos arriscar minimamente, confiando na qualidade e na eficácia daquilo que as indústrias nos oferecem. Mas a garantia da farmacêutica, que deveria ser suficiente para a cliente comprar qualquer outro produto, é questionada. Ela deve se perguntar se um produto que não se sabe onde foi produzido é mesmo equivalente ao “de marca” (porém, ela também não sabe onde os produtos “de marca” são produzidos – a não ser que trabalhe nessa indústria -; por que sua certeza é maior com os produtos “de marca”?), ainda mais considerando que as marcas mais caras são muitas vezes internacionais, enquanto os genéricos são normalmente nacionais.

(Essa desconfiança em relação à procedência, pela qual os produtos importados são supostamente melhores do que os nacionais, pode não ser clara nem óbvia até aqui, e pode até ser considerada uma viagem hipotética de minha cabeça. Mas o que vem em seguida vai reforçar essa teoria.)

Quando a cliente apela para os filhos da farmacêutica, ela quer um reforço emocional por parte da argumentação da vendedora. Mas esta não se delonga nesse assunto, e vai direto ao ponto principal, que é o fato de que os produtos que ela está oferecendo são vendidos na Europa. Para a cliente, o fato de os europeus usarem esses genéricos comprova sua reconhecida qualidade. Mas por quê?

Por causa do complexo de vira-lata ainda presente nos brasileiros. Segundo Nelson Rodrigues, que cunhou a expressão,

por “complexo de vira-lata” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo.

o brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima.

Não confiamos no que se produz no Brasil, ao ponto de boicotarmos a economia de nosso próprio país. Enquanto povos de outros países reconhecem a qualidade de nossos produtos agrícolas, recebem profissionais brasileiros que se qualificaram por estas bandas mesmo e até elogiam nossos governantes, tão vilipendiados pela mídia local, nós continuamos cuspindo na própria cara e deixando a bunda exposta na janela para outros passarem a mão.

Talvez o complexo de vira-lata se reforce, hoje em dia, pelo fato de as mercadorias mais valorizadas serem produtos de tecnologia eletrônica avançada, como os computadores e os celulares. O Brasil não tem, por exemplo, uma indústria própria muito forte de telefones celulares, e esta se concentra em países como os EUA (Apple), Finlândia (Nokia) e Japão (Sony). O que nos dá a ilusão de que o Brasil está atrasado em tudo.

Em muitas áreas, o Brasil ainda é uma vergonha: Saúde, Educação, Meio Ambiente, distribuição de riqueza… Mas temos uma democracia que funciona bem, um sistema eleitoral menos sujeito a fraudes, invenções e descobertas científicas importantes para todo o mundo, frutas, verduras e legumes que alimentam pessoas de outros continentes, um mercado de livros bem feitos e com design melhor do que os norte-americanos e europeus (infelizmente, não temos uma cultura de leitura para aproveitar bem esses livros…) e muitas outras coisas. É só prestar atenção para perceber os problemas desta terra. É só prestar atenção para perceber suas virtudes.

Mas, para reconhecer a qualidade de seus próprios produtos, os brasileiros, infelizmente, precisam do aval das antigas metrópoles colonialistas. “Se um sueco dá esse remédio aos seus filhos, por que não dar aos meus próprios filhos? Quem sabe eu não consiga deixar minhas crianças tão saudáveis quanto aqueles belos, fortes e inteligentes escandinavos?” (só enquanto escrevia este texto e pesquisava na internet, eu descobri que a Seleção Brasileira venceu a Suécia na final da Copa do Mundo de 1958; talvez seja interessante a gente sempre se lembrar desse evento…).

Porém, até na mestiçagem, que caracteriza a formação bio-sócio-cultural do Brasil e que várias áreas da Ciência já demonstraram ser positiva para a evolução humana, os brasileiros não conseguem ver uma vantagem…

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Dilma

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Fiquei contente com o resultado da última eleição presidencial do Brasil. Não só porque a candidata em que votei foi eleita. Fiquei especialmente contente pelo fato de os esforços da propaganda da oposição (inclusive da mídia), caluniadora e abusiva, não terem surtido o efeito esperado por ela. Foi uma demonstração importante de que os brasileiros estão considerando melhor este governo do que os anteriores, que sempre foram apoiados pelos principais “formadores de opinião” de nossa sociedade.

Portanto, podemos considerar que a maior parte dos eleitores não se deixou influenciar pelo infame “PIG” (“Partido da Imprensa Golpista”). O que foi um avanço democrático relevante para a política brasileira. Também, neste sentido, é importante observar o fato de termos a primeira presidente mulher na cabeça do corpo tupiniquim, mostrando que grande parte da população com mente tradicionalista e machista superou a ideia de que os homens são melhores líderes que as mulheres.

Sempre tive um grande desinteresse por política, e até hoje tenho dificuldade de acompanhar as notícias sobre esse assunto. Mas desde que comecei a votar, tenho me interessado pelos candidatos com tendência esquerdista, provavelmente por influência do marxismo com o qual me identifiquei na Universidade, no curso de Ciências Sociais. Votei em Lula nas duas vezes em que ele foi eleito, e sempre preferi os candidatos do PT ou do PCdoB nas eleições regionais.

Quando foram anunciados os candidatos à presidência este ano, eu só sabia que, entre os três principais, não votaria em José Serra (PSDB). Depois de pensar um pouco, decidi votar em Marina Silva (PV), mesmo considerando que o governo Lula foi bom, mas achei que o de Marina seria melhor. Ela parecia mais simpática do que Dilma Rousseff (PT), e claramente comprometida com as causas verdes.

Mas me decepcionaram suas declarações contra o casamento homossexual e contra a legalização do aborto, e percebi que, se votasse nela, estaria endossando uma candidata por demais comprometida com valores e causas religiosos, o que poderia prejudicar importante avanços democráticos em nosso país. Então me restou Dilma, e procurei me inteirar melhor sobre as propostas de seu governo e entender com mais profundidade as vantagens do governo Lula, do qual Dilma seria sucessora.

Colocando na Balança - ilustrebob.com.br

Clique na imagem acima para visitar o site de IlustreBOB e ver alguns infográficos comparando o governo FHC com o governo Lula

Serra vs. Dilma

Ao ver a propaganda política de ambos os candidatos, fui me dando conta de que a linguagem corporal e o modo de falar de Serra era dissimulado e havia certa desonestidade, como se ele sempre estivesse representando e escondendo seus reais interesses. Suas propostas de governo sempre me soaram exageradas demais, muito irreais, e ele sempre as apresentava como se só sua boca estivesse falando. Não dava para acreditar nele.

Dilma, por outro lado, foi muito criticada por opiniões preconceituosas que viam em seu temperamento colérico, combinado com a inspiração marxista que está nos fundamentos da concepção do PT, um risco de termos implantado no Brasil uma ditadura socialista. Ainda houve quem considerasse um perigo colocar no poder alguém que pegou em armas quando era mais jovem, o que ela fez para lutar contra uma ditadura militar. Isso significaria, para alguns, que, juntando guerrilha com ditadura, teríamos um “Estado terrorista”. Há ainda acusações fundamentalistas de que Dilma é ateia e tem propostas que se opõem aos “valores cristãos”.

Mas o governo Lula, do qual o governo Dilma é legítimo herdeiro, não implantou nenhuma ditadura, e é absurdo pensar que a nova presidência fará isso. Também é absurdo considerar que há um carma do passado (a luta armada contra a ditadura) que vai se manifestar no presente. Estou mais propenso a apoiar alguém que lutou contra um regime totalitário do que em alguém que fugiu desse regime (mesmo eu sendo categoricamente contra o uso da violência). Dilma não é mais guerrilheira nem “terrorista”. Recordo de uma passagem do livro Contato, de Carl Sagan, em que há uma observação pertinente sobre o termo “terrorista”:

Enquanto saía rapidamente, caminhando sobre uma porção de jornais abandonados no chão, uma manchete do News-Post lhe chamou a atenção: “GUERRILHEIROS TOMAM RÁDIO DE JOBURG”. Se gostamos deles, são defensores da liberdade, pensou Ellie. Se não gostamos, são terroristas. Se ocorre o caso improvável de não termos idéia formada, temporariamente são apenas guerrilheiros.

Além do mais, não há indícios, analisando o governo de seu predecessor, de que se vai criar um Estado baseado na coerção militar. Por último, sobre as críticas fundamentalistas, não se pode levar a sério uma “acusação” de que alguém é ateu, como se isso fosse um defeito. Vivemos num Estado que é, ao menos em princípio, laico, e penso que a liderança de um país deve se abster de qualquer decisão baseada em crenças religiosas, pois temos inúmeras religiões e variações de religiosidades no Brasil. Além disso, estamos caminhando para um mundo cada vez mais baseado em valores democráticos, o que implica na necessidade de abolir preconceitos baseados em dogmas religiosos, como a homofobia, a noção de que o uso de contraceptivos é um pecado e a ideia de que qualquer caso de aborto, até aqueles realizados para proteger a vida da parturiente, é condenável.

(Pessoalmente, sou muito mais favorável a eleger uma candidata ateia – não sabemos com certeza se ela é ateia ou agnóstica ou se tem alguma religião – do que alguém que pretende representar apenas os cristãos do país. Penso assim não só por ser ateu – o que, admito, nem deveria pesar em minha opção na eleição -, mas por considerar que a liberdade de um povo é muito prejudicada nas teocracias mundo afora.)

O que penso e o que fiz

Minha decisão no primeiro turno se consolidou no voto em Dilma. Infelizmente, estava hospitalizado no dia da eleição. Fiquei realmente descontente com o fato de não ter participado neste evento decisório, mas, quando soube, no recinto da UTI, que haveria segundo turno, fiquei ao mesmo tempo entusiasmado pela possibilidade de votar e receoso de que, a depender dos que votaram em Marina, Serra conseguisse mais votos do que Dilma.

Também foi infeliz a campanha do segundo turno, com uma briga maquiavélica para angariar votos dos fundamentalistas religiosos. Não gostei de ouvir tantas referências tautológicas a Deus na campanha de Dilma. Mas ao menos a noção por trás de “Deus” é muito ampla, sendo relativamente aceito para designar uma série de crenças relativas a diversas religiões diferentes, até de algumas versões do Budismo, que a princípio é ateísta.

Mas o pior foi a propaganda de Serra, com escancaradas e desonestas loas aos “valores cristãos”. Defendendo abertamente a posição antiaborto, comprometendo-se a defender uma ideia ultrapassada de família e a pautar sua gestão numa religião que não é seguida por todos os brasileiros (explicitando o que Marina decidiu omitir), Serra buscou apelar para os preconceitos e conservadorismos de grande parte da população do país. Mas talvez seus atos mais gritantemente desonestos tenham sido as calúnias e insinuações preconceituosas proferidas à candidata do PT. Não dava para votar nele e, se eu não considerasse vantajoso votar em Dilma, teria preferido o voto nulo.

Quando alguém se refere a uma ou outra característica da pessoa que está se candidatando a um cargo político como um defeito que vai prejudicar a gestão, sempre lembro de uma citação de Douglas Adams, no livro O Guia do Mochileiro das Galáxias:

Pouquíssimas pessoas sabem que o presidente e o governo praticamente não têm nenhum poder e, dessas pouquíssimas pessoas, apenas seis sabem onde é, de fato, exercido o verdadeiro poder político.

A personalidade de um presidente é importante, sim, na sua performance política. Porém, não é fundamental, pois um presidente não governa sozinho, sendo apenas o rosto que se comunica, através de gestos e palavras, com o povo sob sua jurisdição, trabalhando junto com uma equipe de ministros, senadores, deputados e aliados.

Ultimato

Serra é herdeiro dos governos direitistas que perpetuaram uma lógica monarquista e autoritária. Ele cometeu atentados à liberdade de expressão, permitiu uma absurda cobrança de pedágios nas estradas de São Paulo e assinalou, ao menos através da boca de Fernando Henrique Cardoso, que pretende privatizar instituições públicas, o que geralmente acontece após o sucateamento e a negligência do Estado em relação a algo que deveria ser sua responsabilidade. Nenhuma das privatizações, que representaram uma melhoria no rendimento (desfrutado por poucos) das empresas, teria sido necessária se o Estado lhes desse mais atenção, tanto com incentivos quanto com inspeções mais rigorosas.

O governo do PSDB teria sido um retrocesso, de uma situação favorável à maioria dos brasileiros para circunstâncias que só seriam vantajosas para uma elite social, cultural, política e econômica (especialmente econômica). Mas, honestamente, também pensei nas vantagens que o governo Dilma seria para mim, e tive que admitir que, assim como meu exemplo (sou servidor do INCRA, que sofreu a negligência de FHC e uma atenção maior de Lula), muitas pessoas votam pensando naquilo que é melhor para si mesmas: a elite se beneficiaria de um governo do PSDB e as classes mais baixas se beneficiariam de um governo do PT. Mas não foi só o egoísmo que moveu minha mão no momento de apertar “1”, “3” e “Confirma”. A atenção especial que Lula tem dado aos pobres e os que têm tido pouca chance de assegurar seus direitos de cidadãos são um contraponto positivo à atenção do PSDB, dispensada quase que exclusivamente à defesa dos mais poderosos.

Sinceramente, não vi nenhuma vantagem em eleger Serra. Quanto a Dilma, não escondo que vejo alguns defeitos nela e no partido, mas ao menos enxergo muitíssimas vantagens em elegê-la e ao governo que ela representa.

Não posso deixar de admitir, por exemplo, que repudiei diversas declarações de Lula, eivadas de irresponsabilidade e de preconceitos. Mas ele foi um bom presidente. Não posso deixar de lembrar que o governo do PT fez vista grossa para vários casos gritantes de corrupção, numa demonstração de incoerência e da enorme dificuldade de conseguir, num cenário político corrupto, aliados sem suborno. Mas foi um governo com muitas conquistas aos cidadãos do Brasil.

Da mesma forma, a imagem pública de Dilma não é das mais simpáticas. Ela é grossa, rude, meio atrapalhada na prosódia e na ortoépia, além de ter um histórico de encrencas e desavenças. Mas ela é bem confiante em seus discursos, demonstra sinceridade e assertividade, além de não abusar de difamações nem de promessas  muito extravagantes.

Fim

Esperemos que 2011 represente mais um avanço importante em nossas política e sociedade…

Mais sequelas e consequências

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Meu último texto não esgotou o tema do Acordo Ortográfico. O quiproquó, por exemplo, será sentido no ensino fundamental, especialmente na alfabetização, onde as crianças e, em alguns casos, adultos não saberão mais quando uma nova palavra aprendida na leitura tem o u pronunciado ou não, o que nós sabíamos perfeitamente com a regra do trema.

Aí subjaz outro problema. É que o aprendizado, digamos, natural do idioma começa pela escuta/fala e depois, no caso das sociedades que têm esccrita, a leitura/escrita. A pronúncia das palavras é (ou deveria ser) aprendida primeiro e então conheceríamos a convenção gráfica que representa aquele vocábulo. Se já ouvimos que linguiça tem o u pronunciado e banguela não tem, não teremos grandes problemas ao ver pela primeira vez as duas palavras escritas, e entenderemos que, em alguns casos, qugu são dígrafos e em outros não.

Mas a dinâmica não é bem essa. Em nossa sociedade e em muitas outras, a leitura/escrita é uma parte importante do aprendizado do vocabulário de um idioma. Dessa forma, uma regra de pronúncia como a do trema serviria de guia para que soubéssemos como proferir corretamente uma palavra, ao menos em sua forma culta. Por isso a escrita se adapta à evolução da língua falada, e a grafia serve como um guia importantíssimo para estrangeiros que estão aprendendo um novo idioma.

Quem estudou línguas como o italiano sabe que no idioma de Dante há pouquíssimas variações fonéticas, e com um manual escrito se pode aprender a pronunciar qualquer palavra italiana apenas sabendo como é escrita. Mas quem se aventurou a desvendar os mistérios da língua de Shakespeare tem que aturar o fato de que os ingleses têm um idioma escrito que não obedece a nenhuma regra fonética, e cada palavra tem que ter sua pronúncia e escrita aprendidas separadamente.

O português é relativamente fácil neste aspecto, mas tem algumas variações que são uma dificuldade para os estrangeiros. A nova reforma ortográfica bem que poderia servir para facilitar ainda mais o aprendizado da língua de Camões. Mas, infelizmente, parece que só vai beneficiar dois tipos de pessoas: diplomatas, que só precisarão redigir uma versão de cada documento oficial; e linguistas e gramáticos, que serão chamados a programas de televisão para comentar sobre o assunto.

Porém, se pensarmos bem, perceberemos que há um problema relativo às palavras que mantiveram grafia dupla, uma portuguesa e uma brasileira. O que se vai fazer quando um documento contiver a palavra cômico/cómico? Será privilegiado o brasileiro circunflexo ou o português agudo?

Mas, a propósito, ainda há outro aspecto não muito explorado nas discussões sobre essa reforma. A unificação almejada, que supostamente facilitaria a comunicação entre os países lusófonos, não vai resolver as dicotomias celular/telemóvel, arquivo/ficheiro, fila/bicha, camisinha/durex et coetera et al.

Hoje de manhã escutei na rua uma mulher falando ao telemóvel: “Você vai pu restaurante?” Se ela escrevesse a frase de maneira gramaticalmente correta, seria: “Você vai para o restaurante?” Mas poucos se apercebem que somos um país, no mínimo, bilíngue. Escrevemos “Estou comendo o lanche” mas falamos “Tô cumeno lanche”. Se observarmos bem com nossos ouvidos atentos, percebermos como muitas pessoas articulam formas diferentes de pronunciar o idioma, segundo a situação em que se encontram, se na casa de um amigo conversando sobre um filme de ficção científica do qual gostou muito, ou numa sala de aula da universidade falando sobre o mesmo filme em seus aspectos semióticos, imagéticos e antropológicos (esta segunda é mais parecida com a forma escrita da língua).

Fechem os olhos e imaginem as duas cenas (ou cenas que evoquem a mesma ideia de disparidade linguística) com bastantes detalhes. Não é pitoresco?

Bem, um amigo meu me disse hoje que só vai adotar a nova ortografia quando for fazer algum concurso público. Muita gente não está gostando da reforma, e parece que muitos portugueses se negam a adotá-la. Eis o advento de uma nação trilíngue. Temos agora uma língua falada rica em movimento, uma língua falada/escrita mais formal e uma só escrita, que serve para os documentos sagrados da burocracia. Se antes já tínhamos uma norma de difícil acesso, cujos segredos esotéricos só os mais bem-preparados poderiam desvendar, agora temos um idioma místico e hermético apenas para iniciados.

Nota pós-texto

Texto publicado originalmente em 20 de janeiro de 2010 e.c.

O sequestro do trema

Padrão

O ano de número 2009 da era comum começa, para lusófonos, com algumas mudanças de ortografia. Algumas pessoas estão reclamando da dificuldade que será aprender novas regras ortográficas. Algumas críticas, porém, se referem à arbitrariedade das novas regras, principalmente no que toca o uso do hífen.

O Acordo Ortográfico foi realizado com a justificativa de aproximar as culturas dos países falantes do português, mas vai de encontro à tendência normal das reformas ortográficas de se adequar às mudanças da língua falada, ou seja, do uso da língua. Se fosse realizado com esse objetivo, o acordo não seria internacional, pois cada país (e cada região de um mesmo país!) desenvolve sua própria pronúncia.

Se se decidisse por uma reforma ortográfica fonética, aí sim haveria motivos para pânico geral. Teríamos que acrescentar inúmeros acentos para diferenciar a pronúncia de cordeiro (côrdeiro) e corte (córte), e dessa forma a regra geral que preside a tonicidade das sílabas sofreria uma mudança escalafobética (êscalafôbética). Além disso, em algumas regiões do Brasil, cordeiro seria córdeiro e, em Portugal, seria curdairo.

Até há pouco tempo, havia duas ortografias oficiais do português: a lusitana e a brasileira. Os diplomatas estão contentes com a possibilidade agora da não necessidade de se escrever duas versões de um mesmo documento. Mas, esperem aí! É para unificar, não é? É. Então por que permanece a diferença entre o tônico brasileiro e o tónico lusitano? O português lusitano vai sofrer mais mudanças do que o brasileiro, mas ainda vai permanecer essa variação de agudos e circunflexos. Para que então a unificação, se não haverá diferença gráfica entre o presente do indicativo da terceiro pessoa do singular do verbo atear e a denominação da mulher que nega a existência de Deus? Como saber qual tem o e agudo e qual o tem grave?

Ateia

É interessante ter uma gramática e uma ortografia unificadas, mesmo que esta unificação tenha restrições. Afinal, dessa forma, na comunicação entre pessoas de regiões diferentes do mundo lusófono, a escrita é compreensível. Se cada região lusófona tivesse sua ortografia, haveria mais dificuldades na comunicação. Neste aspecto, acho que unificar é, em teoria, uma boa ideia.

Em teoria. Pois, pessoalmente, não vejo nenhuma dificuldade na leitura de textos escritos em português de Portugal. Já ouvi algumas pessoas reclamando por terem que aturar a leitura de um livro de que só encontraram a versão lusitana. Ora, qual a dificuldade de substituir fato por facto, objeto por objecto, econômico poreconómicoidéia por ideia? Tenho dúvidas se os enormes gastos para reimprimir milhares de textos e livros valem uma unificação que muda menos de 1% das palavras de um idioma (até este ponto neste texto, só houve duas palavras escritas segunda a nova ortografia). Será que já houve algum manifesto ambientalista contra essa reforma?

E se vão retirar o hífen de muitas palavras, por que não o extirparam de uma vez? Se pára-quedas agora é paraquedas, por que anti-higiênico não é antigiênico? Ora, se vamos mudar, porque não mudar para melhor e simplificar as coisas? Se subumano continua assim, deveriam estipular circunavegação e não o esdrúxulo circum-navegação.

A línguiça do banquela

A línguiça do banquela

Está-se enfatizando, como se isso representasse algum atenuante, que a reforma não mudará a pronúncia. É claro que não existe a intenção de modificar a pronúncia, mas lembremo-nos que sempre há as consequências (olhe, mais uma!) imprevistas. Se a palavra tóxico, cultamente pronunciadatócsico, se popularizou em grande escala como tóchico, consequência da leitura fonética que naturalmente pensa o x com som de ch, o que impedirá algumas pessoas em processo de alfabetização ou com alfabetização deficitária de difundirem em alguns meios a pronúncia sekestro ou consekência? E o que será da hilária empresa de uns metidos a cultos que pensam que falar cuestão é sinal de erudição? Afinal, agora ninguém mais sabe quais são os os us que tiveram seus tremas sequestrados, e não haverá fiscais em todo lugar para assegurar que a linguiça foi mutilada e o banguela não.


Se ainda não se inteiraram das novas regras ortográficas, confiram este link.

Nota pós-texto

Este texto fora publicado originalmente em 5 de janeiro de 2009.

Copa do Mundo – parte 1

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Não há nada mais brasileiro do que um esporte inventado na Inglaterra. A bola no pé faz parte da cultura brasileira de uma forma que impressiona os outsiders. Digo isso porque nunca fui fã de futebol e sempre achei exagerada a “cultura futebolística”, as incessantes conversas sobre “o jogo de ontem” e os usuais cumprimentos entre amigos: “E aí, flamenguista!” – “Diga lá, fluminense!”

Mas desde há muito tempo reconheço o esporte como um espetáculo de inteligência corporal digno de ser visto e apreciado. E a Copa do Mundo é uma chance de se ver os melhores (é o que se espera) jogadores de cada país mostrando suas habilidades numa competição acirrada e emocionante, com bons exemplos de extrapolação das habilidades do corpo humano. Mas estou longe de ser um típico brasileiro quando o assunto é futebol.

Um brasileiro (não muito) longe do futebol

Thiago flamenguista

A foto fatídica que não deixou marcas no tempo… ou sim?

Meu padrinho, flamenguista, me deu uma camisa rubro-negra quando eu tinha 2 anos, e eternizou o momento em que desejou passar adiante seu fanatismo. Não conseguiu, e eu só lembro muito vagamnente daquele momento. Provavelmente a falta de entusiasmo do meu pai, pouco afeito aos campeonatos nacionais, e de minha mãe, mulher tipicamente desinteressada por futebol, contribuíram (e eu lhes agradeço) para que eu não me interessasse tanto (quase nada) por futebol.

Acho que foi em 1994 que, em clima de Copa do Mundo, 13  anos de idade, com meu irmão e com um primo, treinávamos na garagem de uma casa vazia, na vizinhança de uma tia-avó, alguns chutes e defesas. Eu me convenci que tinha jeito para goleiro. Mas as recomendações oftalmológicas eram de que eu evitasse esportes de impacto, que poderiam causar descolamento das retinas. Vicissitudes da Síndrome de Marfan…

Torcer para um time era algo que nunca me atiçou. A camisa do Flamengo que vestiu minha pele na infância não tocou meu coração, e houve até certa época em que eu acompanhei um campeonato norte-americano de basquete, torcia para o Chicago Bulls (d’oh!), mas não me tornei fã e nem voltaria a torcer (eu acho).

Num episódio de escola, meus colegas perceberam que eu não acompanhava as conversas futebolísticas. Um deles me perguntou qual era meu time, e eu respondi “Chicago Bulls”. Zombaram de mim, e alguns tentaram me convencer a escolher seus times preferidos. Contei que era flamenguista por imposição avuncular, e um deles, corintiano, se revoltou. A filiação a um time, em nossa cultura, é quase uma obrigação, especialmente para os homens, chegando a ser uma forma de manifestar virilidade competitiva. Na época em que eu tinha um Mega Drive, eu nem sequer entrava em discussões para discutir se a Sega era melhor do que a Nintendo.

Até hoje nunca me dei ao trabalho de jogar um video game de futebol. FIFA Soccer e quejandos sempre me causavam certa repulsa, não via graça alguma em simular o técnico de um time e controlar vários bonequinhos levando uma bola para fazer gols. Acho que isso tem muito a ver com minha dificuldade com jogos de estratégia, como Warcraft II e Total Annihilation. Controlar várias unidades a mesmo tempo, ou seja, fazer duas ou mais coisas concomitantemente, sempre foi uma dificuldade.

Fifa Soccer

Por mais que os novos games de futebol tenham belos atrativos áudio-visuais, ainda não sinto vontade de jogá-los

A última vez em que me envolvi mais de perto com a Copa do Mundo foi em 1998, quando eu tinha 17 anos e me deixava levar pelo clima festivo, anotando os resultados dos jogos numa tabela da revista Veja, que meu pai assinava. A final superdisputada entre Brasil e Itália, com um pênalti atrás do outro, prolongou inusitadamente a decisão. O interessante, ao rever o vídeo abaixo, é observar Dunga, atual e rabugento técnico da seleção brasileira, como capitão e chutador que ajudou a decidir os pênaltis, com um semblante bem diferente da carranca de treinador.

Em 2002, a Copa aconteceu num período em que eu estava com problemas na retina direita, fazendo cirurgia em São Paulo, com tampão num olho (o outro já tinha a visão ruim) e sem condições de ver os jogos. Ma eu me emocionei especialmente com um jogo acirrado entre Inglaterra e Argentina, que acompanhei só ouvindo.

Acho que foi uma experiência que me mostrou como é possível acompanhar um jogo pelo rádio, sem altos recursos áudio-visuais, o que para muitos da juventude contemporânea é impensável. Mas minha mãe conta que a final da Copa de 1970 ela e toda a sua vizinhança ouviram pelo rádio, e se emocionaram tanto quanto os telespectadores atuais.

A imaginação humana é poderosa.

Eu impliquei muito com o futebol em minha vida. Mas passei a me interessar pelo seu aspecto “arte”, pelo espetáculo corporal, a inteligência somática e estratégica levada para fora dos limites do cotidiano. Mesmo em casos que extrapolam a própria normalidade do âmbito do futebol, como as estripulias de um René Higuita, são motivos para prestar atenção.

Nas raríssimas vezes em que vejo jogos, ou seja, a cada 4 anos, procuro apreciar o jogo em si, ver as seleções mais preparadas, as partidas mais desafiadoras. Jogos como Eslováquia x Itália foram bonitos de se ver.

Pequeno ensaio despretensioso sobre antropologia do futebol

Mas as pessoas não se atêm muito a uma apreciação do esporte pelo esporte. As conversas sobre futebol costumam girar em torno de superficialidades, que às vezes nada têm a ver com a partida em si. O senso comum, com seus muitos preconceitos, se manifesta com vigor nessas conversas e não menos nos comentários dos narradores.

Ouvi, por exemplo, alguém dizer que “os negros jogam melhor”. E pouco tempo depois li um artigo de Luiz Carlos Azenha criticando, com muita razão, a infeliz afirmação de um comentarista de que “o negro é cientificamente mais forte” e, pior ainda, a de um narrador que completou a ideia sugerindo que aos times africanos falta inteligência. Isso tudo sem mencionar as várias vezes em que a plateia xingou algum jogador com ofensas racistas ou homofóbicas. O próprio nacionalismo que incita ufanismos e etnocentrismos, além dos ódios aos rivais e xenofobias, é para mim uma excrescência que deveria ser superada.

Penso que essa tendência geral a colocar em segundo plano o esporte em si tenha a ver com a função social do futebol, como um meio mais de congregar as pessoas e atender a uma necessidade psicossocial do que uma oportunidade de se debater sobre as potencialidades psíquicas e somáticas humanas. Como disse certa vez meu amigo sociólogo Flaubert Mesquita, a experiência do torcedor é análoga à experiência religiosa, na comunhão e no êxtase. É uma forma também de se ter um meio de socialização, como observou meu amigo antropólogo Samuel Cruz.

Além dessa observação mais básica e óbvia para qualquer cientista social, sempre percebi uma relação mais estreita entre o meio do futebol e a religião, especialmente me reportando à teoria ainda atual de Émile Durkheim (As Formas Elementares da Vida Religiosa) e de Sigmund Freud (Totem e Tabu). A forma elementar da vida religiosa pode ser extrapolada para quase qualquer tipo de instituição social, pois os elementos básicos da religião são formas de se criar coesão social e dar sentido ao mundo humano.

As sociedades menos complexas se organizam como grandes grupos denominados tribos, que representam um grupo étnico maior (a tribo dos torcedores de futebol), subdividido em vários clãs (os times), cada qual com seu totem, que é um animal, planta ou algum ser da natureza (o mascote), com seus símbolos específicos que o diferenciam dos outros clãs (o brasão do time e as cores) e com uma noção de ancestralidade comum (geralmente os filhos torcem para o mesmo time que os pais; mas mesmo nos casos em que se foge à regra, o importante é que os torcedores de um mesmo time se sentem como uma família). Isso tudo se amplia planetariamente na Copa do Mundo: a tribo é o conjunto dos países que participam, os clãs são as seleções, com seus símbolos, brasões e cores e com a noção de pertencimento a um mesmo grupo étnico e linhagem.

Seleção universal

Camisa 10 - Spock

Uma camisa nada séria para um campeonato que não se deve levar a sério

Minha esposa gosta mais de futebol do que eu, e ela acabou me levando a gostar um pouco mais, principalmente neste campeonato mundial. Recentemente, comentei no Botecagem S.A., dos irmãos Heering, que não me daria ao trabalho de fazer considerações sobre os posts que tratem de futebol. Ironicamente, aqui estou eu escrevendo um texto sobre o famigerado esporte (e ainda mais com a parte 2 em forma de rascunho.)

Este ano o Brasil não é favorito. De qualquer forma, nem para o Brasil eu torço. A onda, na Copa, para quase todos os brasileiros, os leva para a torcida ferrenha pela seleção canarinho. Embora seja apenas uma diversão, não compartilho do espírito competitivo, não tomo partido nenhum, nem mesmo do time do “meu país”. Para mim, os jogos são um show para ser apreciado. O importante para mim é ver um jogo bem disputado no final.

Anteontem vi o jogo em que disputaram Brasil e Portugal. Vesti minha camisa da seleção da Federação Unida de Planetas, camisa 10, do Sr. Spock. Um símbolo do que eu acho que deveria ser o espírito da Copa. Não uma competição entre nações (que leva os times desclassficados a ficarem deprimidos – ora, alguém tem que vencer, uns perdem, outros ganham, os que já venceram antes devem dar a chance para que outros levem a copa dourada para casa), mas a celebração da humanidade, com todos os povos pisando o mesmo gramado e desmentindo qualquer teoria que coloque numa hierarquia natural os diversos grupos humanos.

Continua...

Continua…

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Nota pós-texto – 27/06/2010 10:03

Errata

  1. A Copa do Mundo em que a Itália e o Brasil disputaram a final dos pênaltis foi em 1994, como mostra o vídeo, e não em 1998, como afirmei. Eu tinha 13 anos.
  2. O vídeo sobre a partida entre Itália e Eslováquia que eu incorporara ao texto foi retirado pelo usuário; coloquei outro no lugar.

 

Cotas raciais – parte 3

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A raça é uma construção social. A maioria dos cientistas sociais e biólogos vão concordar com essa afirmação. Isso não quer dizer que ela não tenha efeitos nocivos sobre nós. A ideia de que existem raças baseia a discriminação racial. Mas, justamente por isso. a ideia de que uma “raça” possui aspectos intrínsecos que a diferenciam das outras deveria ser desconstruída. No entanto, há muito mais coisas a ser consideradas na discussão sobre cotas raciais…

Nesta terceira parte da Série Cotas Raciais, dou continuidade à análise dos comentários que foram deixados na primeira parte. Retomo aqui um comentário de Eduardo Prado, autor do blog Conversa de Bar, e um de AmBar Amarelo. O tema vai se complexificando ainda mais e, pessoalmente, vou ficando com grandes dúvidas sobre o posicionamento anticotas que eu costumava defender…

Comentário de Eduardo Prado

Concordo, por exemplo, que na raiz do problema está o acesso à uma educação de qualidade.

É interessante notar que a questão educacional parece ser a única unanimidade. A diferença é que os pró-cotas defendem ações emergenciais antes que a (certamente demorada) reforma educacional seja realizada, enquanto os anticotas geralmente alardeiam a imediata melhoria do ensino público, mas ninguém faz nada para mudá-lo. Neste sentido, eu tendo a concordar com cotas que atendam minorias, como forma de pressionar a implementação dessas mudanças.

Discordo, no entanto, dos que acreditam que as cotas vão servir para racializar as relações sociais no Brasil, talvez por que eu não entenda raça como uma determinação biológica. A palavra raça, que provavelmete tem origem comum a palavra raíz, é muito mais antiga que o conceito biológico de raça inventado no século XIX, talvez um pouco antes, no XVIII. Eu entendo raça como uma construção cultural e dinâmica, cujos sentidos e significados variam e se transformam ao longo do tempo. Sob o meu ponto de vista, o Brasil já é um país racializado, sempre foi.

Sim, raças são construções sociais. E, sim, existem relações raciais no Brasil, existem identidades raciais e existe racismo aqui. Mas justamente por ser uma construção social é que a raça deve ser desconstruídas, por um ideal antirracista. O racismo se baseia na ideia de que existem raças.

É claro que se pode conceber a existência de raças como meras identidades superficiais, sem que se pense em diferenças intrínsecas a elas. Como se fossem “tribos” (algo parecido com a ideia de “tribos urbanas”). Outra forma comum (embora em desuso) e com implicações bem menos sérias de se usar o termo “raça” é quando ela é sinônimo de família ou estirpe. “Fulano é da raça dos Araújo”.

Só através do reconhecimento de raças e de que as relações sociais sofrem interferência do racismo é que se poderiam criar políticas destinadas à mitigação dessa discriminação. Afinal, é preciso identificar de alguma forma quem é a população discriminada.

Eu também discordo que a implementação de cotas raciais criariam um racismo no Brasil. O racismo já existe. Mas eu tenho uma grande suspeita de que elas poderiam intensificar, em alguns contextos, o racismo já existente. Por outro lado, ao dar uma chance a pessoas que não têm condições de competir em igualdade no vestibular, abrir-se-ia a possibilidade de melhorar a vida dessas pessoas e, a longo prazo, melhorar sua autoestima, o que, por tabela, diminuiria até certo ponto o menosprezo e a subestimação dos negros, o que, por fim, diminuiria um pouco o racismo.

Mas, neste sentido, penso que seriam melhor as cotas sociais, que atuariam em cima do fator mais relevante na exclusão da Academia. O vestibular não discrimina a raça do candidato, mas a capacidade de resolver uma prova. O fato de uma pessoa ser negra não diminuiu a possibilidade de ela passar na prova, mas o fato de ela ter estudado em escola pública diminui. Mas as cotas sociais poderiam trazer um complicado dilema: será que elas 1) pressionariam o Estado a melhorar o Ensino Público ou, pelo contrário, 2) fariam o Estado relaxar nesse âmbito? Acho mais provável o primeiro caminho, e seria uma vantagem a longo prazo das cotas sociais.

Dito tudo isso, eu acho sim que poderiam haver cotas raciais em determinados contextos, mas não na Universidade. Existe racismo. Este precisa ser combatido. Mas há muitas outras formas, diretas e indiretas, de se fazer isso que não o acesso à Academia.

É comum ouvir comparações com os EUA, que teve uma história de escravidão em comum com o Brasil em muitos aspectos. Em geral compara-se a especificidade das relações “raciais” no Brasil a dos estados do Sul dos EUA, onde a discriminação contra o negro foi legal até o fim dos anso 50. São poucos os que lembram que a situação do negro nos estados do Norte, que assim como o Brasil, não conheceu leis raciais. Lá, como aqui, a discriminação se dá a partir das praticas sociais, na seleção para uma vaga de emprego, na recusa a alugar um imóvel, entre outras. Não foram as leis raciais, já que elas não existiam no Norte, que induziram a formação de bairros negros em Nova Iorque ou Boston, e sim a precária situação econômica dos negros, que os impedia de morar em bairros melhores. Nas grandes cidades brasileiras também existem bairros de negros e bairros de brancos. Só não existe a placa.

Bebedouros segregados na Carolina do Norte em 1950

Bebedouros segregados na Carolina do Norte em 1950

É preciso averiguarmos a real/atual situação brasileira, bem diferente da norte-americana. Não só pelas histórias diferentes das duas nações, mas principalmente porque não podemos generalizar o “racismo norte-americano” ou o “racismo brasileiro”. As manifestações do racismo no Brasil variam de região para região, de estado para estado, de cidade para cidade, de classe social para classe social, entre a zona urbana e a rural, e muitos outros recortes possíveis.

Provavelmente a violência simbólica e não-simbólica contra negros motivada por racismo na Bahia, onde há uma população negra muito numerosa, seja proporcionalmente menor do que no Rio Grande do Norte, onde há poucos negros, a maioria pobres da zona urbana ou agricultores da zona rural (uma minoria mesmo, no sentido político-social da palavra). E as formas como o racismo afeta as pessoas também vai variar com a região. Não posso apresentar nenhum dado específico, só estou especulando, mas penso que não estou dizendo nenhuma besteira. O fato é que, para situações diferentes de racismo, deveria haver soluções diferentes.

Quanto à comparação com os EUA, é preciso lembrar o trabalho de Bourdieu e Wacquant, “Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista”, onde os autores apontam para a importação de modelos de ação afirmativa, de países como os EUA por países como o Brasil. Não devemos esquecer isso, para construirmos políticas antirracistas que se adéquem a nossa realidade.

Muitas pessoas defendem a adoção de cotas sociais, com toda razão, mas as cotas para quem se declara negro ou indígena tem um significado diferente. Não deixa de ser social, evidentemente, mas tem por objetivo acelerar a ascenção de mais brasileiros negros à classe média e a formação de negros em áreas onde sua presença é muito pequena ou quase insignificante, como a Medicina, a Engenharia, e tantas outras. O que aqueles que defendem as cotas pretendem é que o Brasil tenha uma classe média tão “colorida” como suas ruas. Claro que só garantir o acesso à Universidade não basta, é preciso dar condições para que o aluno continue no curso até o fim. Para isso, aprovar ajuda financeira ao estudante com dificuldades para se manter é fundamental.

Um outro problema que vejo na “colorização” das classes mais favorecidas é que ela se faz numa perspectiva que não critica a própria estrutura de poder de nossa sociedade. Há uma estrutura social, econômica, cultural e política baseada na desigualdade de grupos (sociais, raciais, seja lá o que for, o fato é que há desigualdade), e as cotas não atuam na mitigação ou erradicação dessa desigualdade, mas a mantém, só mudando a composição de cada grupo. (Não adianta colocar um mendigo no trono do príncipe; a monarquia continua existindo.)

Mas as cotas, embora mantenham a ordem social vigente, poderiam ter resultados positivos a longo prazo. Como disse acima, o menosprezo a e a baixa autoestima dos negros e pobres poderiam diminuir e os preconceitos raciais e/ou sociais também diminuiriam.

No entanto, repetindo o que disse acima, a “raça” não dificulta a entrada de alguém na Universidade, o que dificulta é sua formação. Se devemos dar uma chance a um grupo, deveria ser aos pobres que frequentam a escola pública. Acho que seria negativo criar uma situação tal em que seja possível a um branco pobre que conseguiu, por esforço próprio, tirar uma ótima nota perder a vaga para um negro rico que não estudou e tirou uma nota medíocre.

Quanto ao ensino público brasileiro, bem, é uma tragédia. Apesar das melhorias significativas apontadas pelos índices do MEC em quase todos níveis, ele vai precisar melhorar muito, mas muito mesmo, para ser considerado ruim. É lembrar que só recentemente alcançamos a universalização do acesso ao Ensino Fundamental. Hoje, segundo estatisticas do MEC, 97% das crianças dentre 6 e 12 anos estão na escola. Mas esses números não são motivo de comemoração. Metade dos estudantes brasileitos deixa a escola antes de terminar o 9º ano do Ensino Fundamental (antiga 8ª série), e só uma minoria,entre 20% e 30% conclue o Ensino Médio. Estes são os privilegiados, que apesar das dificuldades, da precariedade da escola pública (e de suas próprias condições de vida), dos professores sobrecarregados e mal pagos, podem concorrer a uma vaga no Ensino Supeior. Se a realidade fosse outra não precisaríamos estar aqui discutindo sobre cotas.

Criança sergipana trabalhando (www.jornaldacidade.net/)

Criança sergipana trabalhando (www.jornaldacidade.net/)

Pois é, ainda há muito o que melhorar. E é necessário sanar o problema da impermanência na escola, para que mais e mais crianças pobres, negras, indígenas, ciganas etc. tenham mais chances de chegar à Universidade… agora estou me dando conta de um outro problema relacionado ao acesso à Universidade: boa parte das crianças negras/pobres nem chegam a fazer o vestibular, pois nem chegam ao final do segundo grau.

Um fato que pouco se discute é que a formação fundamental formal não é um índice totalmente confiável da vocação acadêmica. Há muitos graduandos que, embora tenham tirado boas notas no vestibular, são universitários medíocres. E há aqueles que não têm condições de resolver a prova do vestibular com eficácia mas, tendo a chance, se mostram excelentes acadêmicos. Esse é um tema que devo retomar em outro post.

Esse é um tema que não se esgota. Na verdade, teria muito ainda pra escrever, mas já precisei cortar várias partes desse comentário para deixá-lo um pouco menor.

Sem problema. Sempre haverá oportunidades para pincelarmos alguma coisa sobre esse extenso tema.

Comentário de AmBar Amarelo

Thiago, sou CONTRA as cotas RACIAIS, e vou além: sou contra a identidade racial no Brasil (que não seja a brasileira).

Também sou contra a manutenção das identidades raciais. O ideal antirracista que eu defendo é a ideia de que só existe uma identidade humana. Neste sentido, vou ainda mais além de você, pois uma “identidade brasileira” não deixa de ser um tipo de identidade racial. Ainda neste caminho, sou favorável a um cosmopolitismo e um antiufanismo.

Gostaria de adicionar a discussão (por mais lenha na fogueira) que a própria idéia de “LIBERDADE-ANTE-ESCRAVISTA” é Européia (corrija-me se eu estiver errado). Tanto Europeus quanto Africanos possuíam seus próprios escravos. Porém estudos sugerem que até nos Quilombos havia escravidão entre Africanos de diferentes etnias.

Não que o senso de LIBERDADE , IGUALDADE e FRATERNIDADE seja exclusivamente europeu. Qualquer um que esteja preso terá senso de liberdade. Porém quem implantou isso no mundo foram eles!

Já que me pediu para corrigi-lo, o correto é antiescravista :P. Sim, os europeus impuseram, motivados por seus próprios interesses mercantis, o fim da comercialização de pessoas e, por tabela, o fim da escravidão. Mas isso não foi necessariamente inspirado por ideais humanistas (liberdade, igualdade, fraternidade).

Os negros ainda foram durante muito tempo considerados inferiores e com menos direitos do que os brancos (ainda há pessoas que pensam assim, nos EUA, no Brasil e muitos outros países da América). Embora estes não pudessem mais transformar aqueles em mercadorias, continuavam tendo que “aturar” sua presença.

Se hoje consideramos a escravidão como algo brutal é porque os europeus impuseram isso ao mundo (não que no desenrolar a História outra civilização não pudesse fazer isso).

Amistad (1997), de Steven Spielberg

Amistad (1997), de Steven Spielberg

Dito isso, eu pergunto: e daí se foram os europeus que impuseram o antiescravismo? Por que lembrar isso com tanta ênfase? Por que insistir em que os africanos praticavam escravidão? Por que lembrar que os quilombolas tinham escravos?

Talvez se faça isso para relativizar a acusação de que os brancos são sempre algozes e de que os negros são sempre vítimas (o que fiz na primeira parte deste texto). Mas daí eu também me pergunto: isso é tão relevante assim? Dar crédito aos brancos que desenvolveram os ideais humanistas não diminui a gravidade da escravidão de negros por brancos. Lembrar que os negros tinham escravos não diminui o sofrimento sofrido por aqueles que estiveram no cativeiro.

Enfim, essas informações só são importantes para compreendermos como se deu a História humana e para evitarmos os erros cometidos no passado. Mas o importante em relação ao racismo na atualidade é entendermos como se dão hoje as relações raciais, de preconceito étnico, de desigualdade social etc. Procurarmos formas de resolver essas desigualdades entre os seres humanos contemporâneos. Afinal, há brancos pobres que descendem de famílias nobres e não sofrem menos por causa dessa ascendência. E há negros ricos que descendem de escravos e não necessitam de ações afirmativas para viver na liberdade de seus direitos.

Quanto ao fato das relações sexuais que desencadearam a miscigenação: Será que foram apenas estupros? Então todos os mestiços do Pará são frutos de índios estuprados? CLARO QUE NÃO!

Lembremos de um ditado popular: “A pobreza aproxima as pessoas”. Agora imagine um sertanejo “português” esquecido nos desertos do nordeste, junto a ele uma negra “africana” compartilha de seu sofrimento (FOME, SEDE). Ambos não podem se apaixonar?

A grande pergunta: TODA MESTIÇAGEM BRASILEIRA FOI FRUTO DA VIOLÊNCIA?

É difícil de crer.

Você tem toda razão, AmBar. A mestiçagem não foi fruto só da violência. Aliás, duvido que a maior parte dela tenha sido gerada por meios violentos. É um exagero dizer que toda a mistura se deu pela violência sexual dos colonizadores sobre as colonizadas e escravizadas, e é exagero afirmar que as relações entre senhores brancos e escravas negras era, em larga escala, consensual.

As cotas sociais teriam o mesmo impacto positivo que as raciais, com a vantagem de não promover a identidade racial, que, ao meu ver, é um negro se achar africano e um branco se achar europeu.

Eu discordo em alguns pontos. Como expus acima, penso atualmente que as cotas sociais seriam mais vantajosas do que as raciais no acesso à Universidade.

Quanto à identidade racial, ela não se dá necessariamente com a assunção de uma identidade africana ou europeia. As identidades raciais já existem sem essas referências geográficas de origem ancestral. É só olharmos ao nosso redor e percebermos com que facilidade nós identificamos os brasileiros como “negro”, “branco”, “japa”, “alemão”, simplesmente em referência ao fenótipo e sem nem pensar em quem eram seus ancestrais  de além-mar. É uma identidade racial que muitas vezes pode não ter grandes implicações. Às vezes pode.

Repetindo o que eu disse acima, tenho um ideal cosmopolita. Ser brasileiro não é mais importante do que ser alemão ou nigeriano ou coreano ou argentino. Seres humanos não têm raízes (e nem deveriam se dividir em raças, Eduardo). Se alguém quer se considerar “africano de alma” ou “europeu de coração”, por afinidade, acho que ela tem total liberdade.

Mas (e nisso concordo em certo sentido com AmBar) a intenção de se impor uma identidade em termos de uma origem extracontinental (o que se reflete em expressões como afro-brasileiro, ítalo-brasileiro, nipo-brasileiro etc.) é justamente uma violação da liberdade individual de cada um escolher sua própria identidade, baseada em suas próprias experiências e afinidades particulares.

Quanto a dívida histórica eu pergunto: Mostrem-me os culpados!!

Negrinho da beija-flor é 80% europeu!!!! ele é 80% CULPADO!!

Todos os mestiços brancos são culpados? então a culpa é um fator aleatório.

Como já disse na primeira parte, procurar culpados é uma tarefa improfícua e irracional. Precisamos superar a mentalidade antiquada de justiça, segundo a qual uma compensação para alguém tem que implicar necessariamente na privação de outro. Acho que é possível para o Brasil conceder compensações sem precisar prejudicar alguém. Há recursos suficientes para promover uma revolução da sociedade brasileira, mas… o dinheiro se concentra nas mãos de quem governa, de quem trabalha para manter seus exorbitantes salários e, se possível, aumentá-los.

Devemos buscar o ideal de um país onde a mistura seja algo positivo e a negação à mistura seja algo terrivelmente negativo. E para que isso ocorra devemos acabar com essa mentira de identidade racial em um país mestiço.

O ideal da identidade mestiça contém um paradoxo: a mistura pressupõe que há pelo menos duas coisas diferentes que deram origem a um híbrido, ou seja, se baseia na pré-noção de que há raças e de que o mestiço é uma interseção dessas raças. O ideal que defendo é a desconstrução de qualquer conceito de raça. Portanto, acho que ainda é limitado o ideal mestiço.

Assumir a mistura e viver segundo a ideia de que somos todos mestiços seria bem melhor do que vivermos sob a égide da segregação identitária. Mas acho que seria ainda mais evoluído considerarmos que não existe mistura por que não existe diferença. Um humano de pele escura e uma humana de pele clara dão origem a um humano.

Todos os indivíduos humanos são mestiços porque são resultado do cruzamento entre dois indivíduos, e nenhum indivíduo é igual a outro. Cada um de nós é uma raça, o que nos torna todos iguais.

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