O libertador

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Antes de ser morto meu pai, ensinou-me que ao homem é preciso sempre superar-se, romper seus limites, como um Raskónikov capaz de relevar a culpa, de não ceder às pressões que se abatem sobre o homem que fraqueja. Antes de ser morto meu pai, disse-me tantas coisas a respeito da vida e da necessidade de não ser passageiro, de eternizar-se.

Disse-me, antes de ser morto meu pai, da glória de Caim: explicava-me que a Abel restou a inanidade dos mártires, cujo feito maior é deixar-se abater. Dizia-me que o irmão a ser celebrado era aquele capaz de quebrar a apatia em que Deus mergulhara seus pais, a quem a subserviência deveria ser uma condição inquestionável. Caim fora sempre o libertador, o que estilhaçou as amarras a com que o Criador atara suas crias: Caim desfez a escravidão de seus pais e pôde fazer-se, de fato o primeiro homem, pois que seu pai era um arremedo, a pantomima de um homem incompleto.

Antes de ser morto meu pai, contou-me que era preciso ser único em seu tempo, desenhar marcas indeléveis a seu redor, ser insuperável, destroçar a apatia, o imobilismo que tende a acomodar-se, primeiro na alma, depois nos músculos do corpo do homem.

Compreendi suas lições e, por isso, nunca precisei que ele me perdoasse por tê-lo matado.

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Anticristo

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De Anticristo (Antichrist, 2009), de Lars von Trier, se diz que é um filme de terror. Não gosto de classificar os filmes em gêneros, “comédia”, “ação”, “ficção científica”. Isso sempre empobrece a apreciação da originalidade de uma obra. Felizmente, Anticristo é tão sui generis que se torna um bom exemplo da impossibilidade de se reduzir uma obra original a um rótulo.

A história é no geral um drama, com elementos de tragédia e, certamente, de terror. O tema principal é a face maléfica do feminino e a misoginia. Mas, se há mérito pela originalidade artística e pela abordagem ao tema, também se pode dizer que a obra como um todo é um exagero de grotesquidão, e a impressão que fica no final é: “o que diabos esse filme diz?”

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