Frigatriscaidecafóbica

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Foi num dia como este que ela se deparou com o abismo dos olhos do gato. Não foi um encontro qualquer, não só porque se assustou pelo inesperado deparar-se com a criatura, nem somente por causa da assimetria cromática das íris do animal, mas porque do fundo das retinas deste faiscava algo fantasmático.

O olho verde, o da esquerda, era uma roda com 8 setas apontadas para fora, e emanava uma energia entrópica e muito forte, como se aquela pupila obscura fosse o manancial do próprio Caos. O azul, direito, era sulcado com 13 raios, e a luz do sol poente parecia fazer com que o disco do olho girasse, uma Roda da Fortuna que prometia o inaudito naquele anoitecer de lua cheia, embora fosse o que ela menos quisesse depois de uma semana exaustiva, mas era o que ela mais necessitava, apesar de ainda não saber disso.

Tudo isso ela observou no único segundo em que esteve diante do felino, que rapidamente pulou da janela em que estava empoleirado e correu como um feixe de luz branca para dentro de um beco próximo. Sem pensar demais, ela seguiu o bicho, adentrando o estreito corredor entre duas casas, quase perdendo de vista sua presa. Mas conseguiu avistar a ponta alva da cauda sumindo por cima do telhado.

Prontamente ela começou a subir o andaime que ligava os três andares da casa à sua direita, e foi tão afoita que não percebeu que deixara cair um dos sapatos, só sentindo falta dele quando alcançou o teto, só tendo tempo de ver o gato pular para o telhado de outro prédio, o que rapidamente ela também fez, para o que teve que abandonar resolutamente seu outro sapato. Sem compreender como foi capaz de saltar aquele abismo, achou ainda mais difícil entender como sentiu em que direção o gato correra, tendo ele desaparecido de sua vista.

Mas para descer pelo poste que a levaria até a entrada do terreno baldio em que ela tinha certeza que o diabrete se escondera, teve que largar, sem pestanejar, a bolsa. O céu já escurecera um bocado e ficou difícil se localizar o meio daquele mato denso. Ela parou um instante para se acostumar à penumbra e começou a ver pequenas luzes ao seu redor. Nunca vira vaga-lumes por essa região antes. Porém, não estava vendo senão os olhos de vários gatos que a cercavam.

O susto se arrefeceu aos poucos ao perceber que os animais não estavam se aproximando dela, como pensou a princípio, mas se mantinham posicionados num círculo no exato meio do qual ela se encontrava. E nisso o pavor começou a tomar conta dela. Ela girou sobre os calcanhares e percebeu que havia ali 12 felinos de várias cores, nenhum igual ao outro, formando um círculo perfeito, cada um deles como uma das marcações de um relógio. Repentinamente ela se perguntou onde estava o gato branco que a trouxera ali…

…quando ele surgiu do nada, caminhando despreocupadamente até ela, miando algo que parecia uma frase balbuciada por um moribundo. Um a um, todos os gatos começaram a miar, e ela se sentiu no meio de uma orgia felina agonizante que a fez girar várias vezes, vendo as 26 retinas luminosas formando estrelas cadentes ao seu redor e desfalecendo no exato lugar em que pisava. O gato lambeu seu nariz e sua testa. Fitou seus olhos assustados e piscou, tranquilizando-a. Então aconchegou-se no regaço dela e os dois dormiram enquanto os outros 12 se dispersavam na noite.

Ela sonhou que era uma gata branca que tinha o Sol num olho e a Lua no outro.

[Continua…]

Rambo e Goku natalenses

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Do Museu de Tudo – Quanto maiores e mais caóticas as cidades, maiores são as possibilidades de inadequação, assim como são mais variados os subterfúgios para safar-se dessa onda massacrante de confusão cotidiana. Por isso, personagens como Goku e Rambo de Natal são, em certa altura, compreensíveis.

Se a um primeiro olhar mais precipitado as pessoas sentem a necessidade de tratar essas figuras que têm ganhado espaço nas ruas de Natal e nas redes sociais como loucos é porque, provavelmente, não convivem ou já se perderam em meio ao caos urbano. Ninguém veste roupa de super-herói e sai às ruas gratuitamente: esses rapazes fazem aquilo a que a cidade os obriga: surtar para não surtar. Não é à toa que os personagens escolhidos são heróis que marcaram gerações: não há ninguém vestido de Bento XVI ou de Neil Armstrong, porque a distância que a fantasia estabelece da realidade é peça fundamental para que a primeira adentre a segunda e provoque o efeito desejado.

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