Caro Augusto…

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Natal, 28 de agosto de 2015 e.c.

Caro Augusto,

Desde a última vez que nos falamos um vulto alado persiste em rondar minha cabeça. Simplesmente genial sua alegoria da consciência, equiparada a um morcego que volteava sua rede naquela meia-noite desconfortável. Não sei nem quero saber se você tem problemas graves de consciência pesada ou se tudo não passou de fabulação sem conhecimento de causa. Mas de uma coisa estou bem certo: mesmo que se possa provar que há pessoas que não são atormentadas por sentimentos de culpa, todos nós temos, no mínimo, um pouco de insanidade. E tendo em vista uma pitoresca ocorrência pela qual passei outro dia, enquanto tentava descansar na sombra de uma árvore, e que me fez lembrar do seu Morcego, constatei que a consciência quiróptera é apenas uma faceta da loucura humana, ou um tipo de doideira específica (não uma doidice, o que é bem diferente).

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Carta ao poeta sem nome

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Natal, 20 de agosto de 2012

Parecem formigas em dia de chuva. Marcham equilibrados no rastro forjado pela modernidade. Um ter que ir e vir. Um ter que levar e trazer. Um ter. Multidão de olhares paralelos negando o cruzamento no infinito. Homens-horizonte, grudados ao chão. Então, você.

Você surge na perpendicular. Pendular. Movimento constante entre o tudo e o nada. Entre o certo e o errado. Entre o ser e o devir. Salta e livra-se da cartografia. Projétil lançado ao infinito. Saco plástico em queda livre colore de transparente o azul. Rouba-lhe o equilíbrio. Então, eu.

Eu vértice. Nós dois, triângulos no chão. Meus braços devolvem o movimento estático de sua contemplação. O plástico inerte. Pares de olhos alforriados da agonia encontram-se. Você sorriso, eu mão. Num quase aceno.

Nós dois, soluços reprimidos. Desejos de materna eternidade. Entre o tudo e o nada, entre o certo e o errado, entre o ser e o devir: palavras. Escritas. Meu endereço. O tempo mancomunado com a distância trouxe você tarde demais. Estou longe para me tornar verdade.

O desenho do caracol enrolado, estacionado fora da carapaça, não entendo. Esperava palavras… Fico sem resposta. Outro envelope e o silêncio. Sem voz permaneço e finalmente elas. Parcas.

As que nomeiam destinatário e remetente. Desfeito o envelope, palavra solitária pede sentido. No papel manchado de linhas, impera único termo: poesia. Sibila na memória a imagem do som. Surge a vontade de lançar a língua nos dentes e viver livre das estruturas. P… O… E… S… I… A…

O som atravessa minha cabeça, equilibrado num fio armado entre as orelhas. A voz da leitura perfura a concha acústica direita, percorre o miolo ganhando sentido. Ao chegar à concha oposta, salta. Do lado de fora há luz e melodia.

Do percurso vivido, uma pergunta: no mundo chamado papel, o que veio a ser poesia? Contrariando seu peculiar minimalismo, devolvo estas linhas decoradas com letras. Se mais ou menos preenchidas de sentido, não escravize a resposta. Empreste-me.

Neste que se faz intervalo, entre o tudo e o nada, entre o certo e o errado, entre o ser e o devir, entre a minha pergunta e a sua resposta: penso. A poesia está para o silêncio. Na ausência do dito, a gente se encaixa. Engraçado. “A gente se encaixa…”. Não eu e você. A poesia (seus conjuntos vazios) e quem lê.

(…)

As linhas paralelas. É isso! (Euforia. Euforia.). As linhas paralelas na folha do caderno. (O nosso momento). Os olhares da multidão embevecidos consentem o não encontro. Descartam o cio do cruzamento. E nós dois escritos naquela página. Quebramos as regras e fomos arestas num instante. Tornamo-nos poesia concreta. Então poesia é isto? A existência sibilante sobreposta à vida plana?

Tripulante desta embarcação chamada livre interpretação, já percebo o caracol. Enrolado sobre si mesmo, longe de sua carapaça, é ponto de convergência entre os olhares. Seria o animal poeta?

No poente desta carta, descortino os fatos. Não fosse você quem é: seu caracol, seu silêncio e sua palavra seriam brincadeiras de gosto infantil? Descubro no curso do quase último parágrafo que a infância e o estar poeta possuem única e relevante coincidência, o potencial para a subversão semântica.

Um filósofo me disse, em livro lido, que a literatura existe como porvir. Estaria no plano virtual, anterior à execução da palavra. Fomos poesia até o momento. “A ponto de partir, já sei que nossos olhos sorriem na distância”.


Texto elaborado para a disciplina Poesia Brasileira Contemporânea, ministrada pela professora Tânia Lima, da Universidade Federal do RN.