Prometheus

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Prometheus (2012)Título original: Prometheus

Direção: Ridley Scott

País: EUA

Ano: 2012

Sinopse

O muito esperado Prometheus (2012), de Ridley Scott, prometida “prequência” de Alien: O Oitavo Passageiro (1979) – embora Scott tenha declarado que o filme não deve ser encarado como uma “prequência” -, trouxe a história de uma busca pelas origens da humanidade, tendo como mote as ideias que tornaram célebre o escritor Erich von Däniken.

Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) são dois cientistas em busca dos “Engenheiros” que criaram a vida na Terra e que supostamente deixaram mensagens sobre sua localização, em diversos locais do planeta que à época do filme são sítios arqueológicos. Suas teorias chamam a atenção de Peter Weyland (Guy Pearce), empresário ancião e bilionário, e este financia uma expedição ao local indicado pelos antigos “mapas”, na esperança de descobrir uma tecnologia que o permita prolongar sua vida.

No processo de exploração das ruínas alienígenas, os humanos da nave Prometheus (Prometeu, o deus grego que deu o fogo – e consequentemente o poder –  aos humanos e foi punido por Zeus) se deparam com estranhas formas de vida alienígena e com contágios que quase acabam com a missão. Esta tem fim apenas quando um dos “Engenheiros” é reanimado e, aparentemente, tenta viajar à Terra para destruí-la. De uma tripulação de mais de sete pessoas, só sobrevivem Shaw e o androide David (Michael Fassbender), que partem ainda em busca da origem dos supostos criadores da vida na Terra.

Abrindo a obra

Esse resumo da trama não explicita os elementos interessantes nem os pontos fracos da obra. O filme está impregnadíssimo da carga genética herdada de Alien e suas sequências, por mais que Scott tenha tentado ou negado. Isso implica tanto num apelo aos admiradores da “outra” franquia quanto numa previsibilidade advinda de uma fórmula não-original. Vamos aos detalhes.

Em primeiro lugar, Prometheus é uma história sobre a curiosidade humana, a busca científica pela verdade, a perscrutação filosófica das origens. O caráter mítico e místico de ideias fantásticas como as de Däniken em seu Eram os Deuses Astronautas? seduz o espectador com a promessa de uma descoberta fundamental.

Não é à toa que a nave da expedição se chama Prometeu, um dos símbolos ocidentais do humanismo e da autonomia humana perante o poder opressor dos deuses. Porém, nisso reside ao mesmo tempo a esperança e a danação da tripulação. Ou seja: por um lado, a presunção de “brincar” com a vida traz consequências drásticas; por outro lado, a busca revela (ou insinua) certas verdades inconvenientes sobre os supostos “criadores”, que não são os deuses bondosos que se imaginava.

Há então uma mensagem filosófica ambígua. Aparecem, sub-repticiamente, ideias ateístas, quando se observa que o “Criador” não é necessariamente bom, e talvez não haja um Criador absoluto. Weyland, que trouxe à vida David, é inescrupuloso, mas o androide o obedece cegamente, como os profetas fazem, sem questionar as razões ou os métodos daquele que lhe dá ordens. É assim que cristãos, por exemplo, justificam as atitudes antiéticas de Deus pelo argumento de que há um motivo justo por trás de tudo.

Da mesma forma, o “Engenheiro”, imaginado como um ser virtuoso e moralmente evoluído, não é mais do que um humanoide com seus próprios interesses. E, apesar de tudo, vemos a doutora Shaw, movida pela fé, voar atrás de uma resposta mais reconfortante, mesmo com a probabilidade de se arrepender amargamente. Não fica claro, assim, se Scott pretendia exaltar a fé num ideal ou apontar os riscos de uma ideologia míope.

David

Os melhores momentos do filme são encenados por David, o androide a serviço de Weyland. O personagem lembra todo o drama de outros robôs da ficção, como seu xará de A.I.: Inteligência Artificial, WALL-E e Data de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração.

David aprende variados conhecimentos em sua viagem solitária (enquanto os humanos dormem em hibernação induzida), como Super-homem em sua Fortaleza da Solidão, aprendendo com os pais virtuais. Quando a tripulação acorda à chegada ao destino da missão, o androide precisa o tempo todo suportar o desprezo dos humanos que o consideram uma coisa. Este é sempre o problema, em histórias sobre robôs, de se programar um ser artificial para simular perfeitamente um ser humano, pois ele sempre será percebido como um arremedo de pessoa, mas, por outro lado, também está programado para agir como uma pessoa agiria diante de atitudes discriminatórias e vilipendiosas.

Entretanto, tendo características humanas, David se sente superior pelo que é capaz de fazer além do que um ser humano faz. Além disso, ele se orgulha de empreender a missão de que foi incumbido por seu criador, e essa talvez seja sua pequena vingança pelo desprezo e desconfiança dos tripulantes de carne e osso. Além de ser o único no qual Weyland confia (mais até do que na própria filha), ele tem o privilégio de já conhecer seu deus, enquanto os humanos estão perdidos atrás do seu.

Prometheus e Alien

  • Em toda a quadrilogia Alien, o principal vilão/antagonista é sempre a companhia Weyland. Ou seja, a ganância exploratória cujos intentos passam por cima de qualquer ética.
  • Como em Alien, há um androide representando os interesses desumanos da companhia. Como em Alien e Aliens, o androide é destroçado mas continua funcionado, servindo ainda a algum propósito na narrativa.
  • A heroína é a única sobrevivente humana e a que mais sofre com a tensão e o terror dos monstros a bordo. Ela até tem uma cena seminua que muito lembra Ripley no final de Alien.
  • A visão do salão com os cilindros dentro da nave alienígena remete inevitavelmente à câmara de ovos/casulos de Alien, e é de onde sai o contágio que dá origem ao monstro.
  • Uma equipe de “figuras”, com suas idiossincrasias e diferenças. No entanto, os personagens das trupes de Alien, Aliens, Alien 3 e até Alien: A Ressurreição são bem mais marcantes e redondos do que os de Prometheus.

É claro que nem tudo é clonagem. Há elementos novos, especialmente o tema central do filme, a busca pelos primórdios, pelas origens, pela criação da humanidade, e a presença de uma raça alienígena inteligente como um dos antagonistas (os xenomorfos da série Alien são mais instintivos e animalescos).

Porém, algumas novidades deturparam um pouco a temática suscitada pela espécie alienígena dos filmes anteriores. Minha perspectiva a respeito dos xenomorfos, que estrelou os 4 filmes da franquia Alien e da sequência de 2 Alien vs. Predador, sempre foi a de que se tratava de um ser vivo pertencente a um ecossistema alienígena, muito diferente do nosso. Um predador-parasita (cujo complexo ciclo reprodutivo-vital se justificaria pelo equilíbrio, afinal, os predadores são sempre menos numerosos do que as presas) que, em contato com o Homo sapiens, trouxe um sério problema de incompatibilidade ecológica.

O “alien” da franquia anterior a Prometheus não é um monstro maligno, mas um animal fora de seu habitat (ou seria o próprio humano o alienígena deslocado de seu ambiente natural), como os coelhos levados à Austrália por colonizadores, resultando numa praga e na devastação da vegetação local.

Prometheus destrói toda essa ideia, sugerindo que os xenomorfos são na verdade originários de um espermatozoide humano mutante, resultado de um experimento genético, que extraordinariamente já nasceu com toda a complexidade fisiológica, morfológica e filogenética que vemos nas histórias protagonizadas por Ellen Ripley.

Enfim, ao desconstruir a premissa interessante de Alien, Prometheus traz mais do mesmo estereótipo do alienígena que só pode assumir um de dois papéis opostos: o de deuses astronautas bondosos, inspirados nas mitologias em que seres superiores são um reflexo das virtudes que queríamos ter, ou bárbaros invasores frutos de um imaginário xenofóbico e belicista.

Liberdade e livre-arbítrio – parte 2

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A restrição da liberdade é condição sine qua non da própria vida humana em sociedade. Se não fosse o refreamento dos impulsos vitais, por exemplo, os conflitos interpessoais quase sempre terminariam em derramamento de sangue ou morte. Se as pessoas fossem totalmente desimpedidas para expressar o que pensam, qualquer discordância se tornaria uma troca de insultos, xingamentos e ataques verbais preconceituosos, desperdiçando-se a oportunidade do debate de ideias. Se não fosse a cultura, enfim, não seríamos humanos.

Esse refreamento deveria se tornar uma prática consciente, parte de uma autocrítica constante, norteada pela razão e por uma noção realmente libertária da liberdade. Esta só tem sentido como valor social quando se aplica a todos igualmente, e isso necessariamente significa que, paradoxalmente, nem tudo é permitido numa sociedade livre.

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A alma dos robôs – parte 3

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Um computador pode emular uma inteligência humana de modo visivelmente artificial. Não é difícil encontrar na internet programas que simulam um interlocutor com o qual você pode travar um bate-papo mais ou menos coerente. Mas basta aprofundar ou complexificar um pouco a conversa para desmascarar o robô e fazê-lo dizer coisas sem sentido.

A inteligência das máquinas tem uma especificidade particularmente artificial. A utilidade de um computador prescinde de qualquer traço de humanidade. Um computador e um braço mecânico de uma fábrica não precisam ser nenhum pouco parecidos com um ser vivo, e talvez fosse muito perturbador para nós se não fossem explicitamente artificiais. Esse é o tema de uma história de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, em que Data descobre que tem um irmão mais velho, Lore, que fora descartado por seu criador porque era parecido demais com um ser humano.

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“A Teia vai nos unir”

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Na última sexta-feira, dia 28 de janeiro de 2011, Miguel Nicolelis ministrou uma palestra, a convite do Movimento dos Blogueiros Progressistas, no Auditório da Livraria Siciliano do Shopping Midway Mall (Natal/RN). Nicolelis aderiu recentemente ao Twitter, onde sofreu a dificuldade de provar que ele é o neurocientista Miguel Nicolelis, e sugeriu que sua palestra tivesse o título “Eu juro que eu sou eu”.

Tomando como ponto de partida sua recente experiência com o Twitter, Nicolelis falou sobre Ciência, democracia, redes sociais e de como o caráter libertário de cada um desses elementos pode convergir para um mundo novo e melhor. Abaixo, segue o registro de cerca de 20 minutos (de uma palestra que durou 40), seguido de breve comentário.

Identidade

A identidade é um valor caríssimo na modernidade ocidental. Porém, ela se reveste de um caráter opressor quando o que temos são classificações impostas pelos valores sociais e quando certas coisas como etnia, classe social, sexo/gênero e fenótipo estão imbuídas de significados pré-estabelecidos.

As redes sociais virtuais, que servem de máscaras para a maioria das pessoas, paradoxalmente permitem que demonstremos um “eu” muito mais complexo do que aquele que apresentamos no cotidiano e que é baseado em um conjunto de preconceitos e expectativas a respeito de nosso sexo/gênero, nacionalidade, profissão, “raça”, etnia e idade, entre outros aspectos.

Nicolelis cita seu próprio exemplo, mostrando que o fato de ser cientista não quer dizer que uma pessoa tenha que se limitar a viver 100% de sua vida pensando, sentindo e fazendo Ciência. Cada um de nós é uma complexa teia de identidades, as que nos são impostas, as que se desenvolvem a partir de nossas experiências e a que escolhemos para nós mesmos.

Porém, pouco interessa quem queremos ser ou o que os outros querem que sejamos. Para o mundo à nossa volta, que inclui milhares de pessoas que não conhecemos pessoalmente, importam muito mais nossas ações e o resultado positivo delas para o máximo de pessoas possível.

Democracia do conhecimento

As redes sociais trazem uma possibilidade libertária para que todos participem da produção, desenvolvimento e divulgação do conhecimento. Blogs, microblogs, fotologs, videologs, comunidades e grupos de discussão permitem que o papel divulgador de notícias e saberes não se limite às pessoas encarregadas socialmente desse papel, sejam jornalistas, filósofos, sacerdotes ou cientistas.

O monopólio da notícia e do saber não apenas cai por terra, como expõe, através dos múltiplos agentes civis que noticiam em primeira mão os fatos que veem ao seu redor (e com os quais às vezes estão envolvidos diretamente), através de câmeras de celular e mensagens de 140 caracteres que podem ser vistas em todo o mundo, quanto a mídia hegemônica e os nichos acadêmicos estão corrompidos por interesses mesquinhos.

Além disso, a facilidade com que cada um pode divulgar sua visão dos fatos, bem como a distância global que essa divulgação alcança, permite que a participação no debate internacional não seja unilateral, pois, se os meios de comunicação podem escolher divulgar ou não as respostas às suas matérias, essas respostas podem ser disponibilizadas e acessadas com muito maior alcance através da internet. O direito da liberdade de expressão assim se faz muito mais efetivamente e tem resultados democráticos muito mais autênticos.

A grande Teia Neuronial

Nicolelis usa (em minha opinião, muito apropriadamente) a palavra “teia” para substituir aquilo que costumamos chamar, em linguagem da internet, “rede”. É, de fato, a tradução literal de “web” e se coaduna melhor com as características, apontadas por Nicolelis, de ser uma realidade que se espalha mas, por causa dos inúmeros fios e conexões, não pode ser quebrada.

Além disso, é uma teia que se constrói segundo suas próprias regras, segundo a própria experiência coletiva que a tece e que não é ditada por autoridade alguma a não ser aquela da democracia que faz a si mesma. A teia é também o lugar em que a identidade criada por cada um e utilizada para interagir (e aqui temos outro paradoxo) não importa tanto quanto se sentir pertencente a uma realidade maior do que nós e o resultado de nossas ações para o conjunto daqueles que formam essa teia.

A importância da Ciência (e eu não me resumiria apenas à Neurociência, mas daria também uma atenção especial às Ciências Humanas) para o reconhecimento de que todos os seres humanos existem na condição da isogênese é crucial para entendermos quão importante é a participação igualitária dentro dessa teia, num exercício de democracia virtual.

Cada um de nós, como nossas teias neuroniais individuais, criamos sinapses com outras teias, construindo uma Teia maior e mais significativa em que cada um de nós é importante perante os outros e (outro paradoxo) não tão importante quanto a coletividade. A Teia pode, enfim, ser vista como um embrião da verdadeira democracia pura (em que cada um representa a si mesmo), que almejamos utopicamente desde a Antiguidade e que ainda não conseguiu ser realizada neste planeta.

Adendo (30/01/2011 e.c.)

Esqueci de colocar um link para o blog Blogueiros Progressistas do RN, dos responsáveis pelo evento. Veja aqui o post deles, em que fazem um bom resumo do que foi discutido:

Por que divulgar o Ateísmo

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O livro Deus, um Delírio, de Richard Dawkins, traz como ideia básica, antes de simplesmente argumentar que a crença em Deus é uma ilusão e justificar o Ateísmo, principalmente encorajar os ateus ou os propensos ao Ateísmo a não terem medo de expressar suas ideias num mundo em que a religião ainda parece possuir um status intocável. Os cristãos parecem perpetuar as palavras atribuídas a Jesus, depois de ressucitar e ser abordado por Maria Madalena: “noli me tangere!”

Conversando com amigos sobre o livro de Dawkins, falamos sobre a postura religiosa de alguns ateus, que pregam a inexistência de Deus como um dogma a ser divulgado e pretendem converter outras pessoas. Mas penso que há um grande benefício em se divulgar ideias do Ateísmo, e digo isso não só porque sou ateu (também por isso), mas pelos motivos que exponho abaixo.

Debate intelectual

A primeira razão, mais óbvia (ao menos para mim), para se divulgar o pensamento ateísta é a abertura para o debate intelectual.

Vivemos numa cultura onde a religião exerce grande influência na vida social, cultural e política, e é muito difícil para aqueles que professam o Ateísmo expressarem o que pensam sobre Deus e deuses sem correrem o risco de sofrerem discriminação e preconceito. Muitas pessoas assumem que falar sobre a possibilidade de não existir Deus é maléfico, e há pouco espaço para que o ateísmo entre de forma justa nos debates sobre religião, crença, moral e temas correlatos.

Sem a divulgação das ideias ateístas, os teístas perdem a oportunidade de pensar sobre os pontos frágeis de suas crenças, o que permitiria rever traços obsoletos e arcaicos de nossa mentalidade e de nossos costumes. Os ateus, por outro lado, perdem a oportunidade de receberem críticas relevantes dos teístas, o que lhes possibilitaria evitar equívocos e contradições na construção do pensamento ateísta.

Ciência

Normalmente o Ateísmo é adotado por cientistas, que, por causa dessa mesma Ciência, fortalecem a convicção de que a existência de Deus é improvável.

Cientistas preocupados com a divulgação do pensamento científico, como Carl Sagan e Richard Dawkins, muitas vezes se deparam com o questionamento (seja de outros, seja a si mesmos) sobre a existência de Deus (tema muito relevante para nossa cultura cristã). E normalmente expressam a visão comum na Ciência mais séria de que é mais provável que Deus não exista do que o contrário.

Assim, geralmente as discussões dos ateístas tocam as razões científicas para se justificar a improbabilidade da existência de Deus. Por isso, a divulgação do Ateísmo tem como consequência e vantagem a divulgação concomitante da Ciência, tanto dos seus conhecimentos atuais quanto, principalmente, do modo científico de abordar a realidade.

É claro que essa vantagem da divulgação do Ateísmo só é apreciada por quem valoriza minimamente a Ciência.

Status epistemológico

É uma falácia o argumento corrente segundo o qual a religião tem o mesmo valor que a Ciência enquanto crença/conhecimento. É como se fosse apenas uma questão de escolha: alguns acreditam na religião, alguns na Ciência, e ambos acham que estão certos. Portanto, não se pode dizer que religiosos estão mais certos do que cientistas e vice versa. Conclui-se, então, que se trata apenas de uma escolha entre opções com valor equivalente.

Mas não é assim. Há diferenças cruciais entre as epistemologias da religião e da Ciência. A começar pelo status do saber veiculado por cada uma das correntes. A religião tende a cristalizar esse saber, assumindo-o como dogma, verdade revelada, imutável. Enquanto a Ciência, por mais evidências que tenha sobre uma teoria que sustenta, está pronta a, no momento em que surgem mais evidências, revisá-la, modificá-la, ajustá-la, reformulá-la ou até refutá-la completamente. Isso está na essência do que é a Ciência.

O que não impede a existência de religiosos mais abertos à mudança ou de cientistas com postura dogmática, mas são exceções aos fundamentos de cada uma destas correntes do saber humano.

A Ciência não tem evidências suficientes para provar a existência/inexistência de Deus. Até onde sabemos, é muito mais provável que ele não exista, pois praticamente qualquer fenômeno que se atribua à sua existência tem explicações alternativas. Assim, pelo princípio científico, uma vez que há mais evidências contra a existência de Deus, é cientificamente plausível assumir sua inexistência.

Antiautoritarismo

Normalmente, a crença em Deus ou em deuses está ligada à ideia de que se deve obedecer à autoridade sacramentada em seu nome, seja a ele mesmo, seja aos sacerdotes de sua religião, seja a governantes. A não ser para os deístas (que, diferente dos teístas, consideram que Deus não intervém na vida humana), a crença em Deus pressupõe limitações à vida humana, mais do que a liberdade. Lembrando Bakunin, “se Deus existisse, seria preciso aboli-lo”.

Por isso, o Ateísmo é importante no âmbito político da vida humana, pois abraça uma crítica ao autoritarismo e a qualquer forma arbitrária de dominação. Trata-se de um posicionamento ético.

Dessa forma, mesmo que se provasse que existe um Deus onipotente que demanda obediência, uma mente Ateísta questionaria essa obediência cega. Se esse Deus é tão bom, a razão leva a crer que ele queira para suas criaturas tanta liberdade quanto a que ele mesmo tem. Da mesma forma que temos que renunciar à tendência natural humana a não falar e aos impulsos destrutivos, para poder nos comunicar de forma complexa e vivermos solidariamente, precisaríamos, na hipótese de esse Deus existir, renunciar à posição submissa em relação a ele.

Ética

Muita gente usa as palavras Ateísmo, ateu, ateia etc. com conotação negativa. Há quem afirme que a negação da existência e Deus é uma falha de caráter e que os tementes a Deus são naturalmente mais propensos a ser pessoas boas do que os que duvidam da existência da divindade.

Herdamos um conjunto de livros consagrados a que é atribuído status de verdade absoluta revelada e que tem servido, ao longo da história do ocidente desde a Idade Média, como suposta fonte de ensinamentos morais, como manancial de preceitos para toda a moral humana.

Isso leva grande parte das pessoas a crer que a aceitação (ou a negação) da Bíblia deve ser absoluta. Ou seja, aqueles que rejeitam a existência de Deus como algo relevante para a humanidade estariam automaticamente despojados de qualquer tendência a uma mente e um comportamento éticos. Porém, a ética não vem só da Religião, mas está presente no pensamento de muitos filósofos e cientistas, muitos dos quais não-teístas, desde a Antiguidade até a Idade Moderna.

Estamos caminhando para um mundo cada vez mais aberto às diferenças, e entre essas diferenças está a religiosidade, tão diversa e variada. Mas ainda há quem considere que a divulgação do Ateísmo é prejudicial, por supostamente ferir as crenças da pessoas religiosas. Esquece-se que as próprias religiões, cuja divulgação é muito incentivada e quase nunca impedida, são muitas vezes fonte do mesmo tipo de intolerância. Basta assistir a uma missa do canal de TV Canção Nova para ouvir um sermão afrontando o Candomblé ou o Espiritismo.

Também há quem tema que a divulgação do Ateísmo vai fazer mais pessoas se tornarem ateias. É como aquele medo de que os filhos de pais homossexuais tenham mais chance de se tornarem homossexuais. Ou seja, o preconceito justifica o preconceito.

Na Europa, tem havido há algum tempo uma campanha para expor mensagens ateístas em espaços que também são usados para propagandas de igrejas. Muita gente não gostou. É o caso do cartaz para ônibus que ilustra este texto: que diz:

Provavelmente não existe Deus. Agora pare de se preocupar e vá aproveitar sua vida.

Se descobríssemos provas inequívocas e irrefutáveis de que Deus não existe, será que essas pessoas que acreditam tão ferrenhamente na fonte divina da ética passariam a fazer todo tipo de mal sem se preocupar com as consequências? Acho que não. Há muitos cristãos que são bandidos, com santos tatuados no corpo. E há muitos ateus que fazem trabalhos assistenciais altamente altruístas.

A humanidade tem plena capacidade de desenvolver e ajustar seus preceitos éticos para viver em harmonia consigo mesma, como vem tacanhamente fazendo ao longo de sua história.

O que faz do nerd um nerd? – parte 2

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Desde que a palavra nerd começou a nomear estudantes CDFs das escolas norte-americanas, muitas vezes fascinados por Ciências Exatas, o termo se estendeu para abranger pessoas que têm gostos exóticos ou se aprofundam de maneira exagerada em coisas fora do mainstream (o que às vezes é chamado de cult).

No entanto, certas mídias se tornaram corolários de uma certa identidade nerd que hoje assume o aspecto quase de uma tribo urbana. Quadrinhos, ficção científica, literatura fantástica, cinema de aventura, RPG, video games, Star Wars, Star Trek, O Senhor dos Anéis… A tendência de alguém que goste muito de uma dessas coisas é aumentar seu ciclo de amizades e ampliar seus gostos com base em algo comum a tudo isso. Mas o que há realmente em comum entre tudo isso? O que faz do nerd um nerd?

Romantismo fantástico

A literatura e o cinema de Ficção Científica tratam de coisas que não existem, ainda não existem ou talvez venham a existir. A literatura de Fantasia descreve mundos imaginários, onde há magia, raças mágicas e heróis extraordinários. Os video games são mundos irreais onde o jogador simula uma interação. Os quadrinhos geralmente contam histórias igualmente irreais e espetaculares. O RPG é um jogo no qual se imagina viver numa outra realidade. A literatura e o cinema de Terror mostram seres e lugares sobrenaturais.

O que há em comum entre todas essas coisas é o vislumbre de realidades imaginárias, onde ocorrem coisas impossíveis na vida real. Num futuro utópico ou distópico, vemo-nos diante de tecnologias, mundos e seres vivos novos (“to explore strange new worlds,  to seek out new life and new civilizations”), e imaginamos como seriam as novas facilidades e os novos desafios da vida humana, distanciando-nos de nossa vida cotidiana, tão comum.

Na Fantasia, identificamo-nos com heróis em mundos grandiosos, com monstros incomuns, seres e fenômenos mágicos e malvados vilões. Os arquétipos reinam e a armosfera remete a sonhos de glória e nostalgia, de uma época mítica onde tudo era fabuloso. Nos quadrinhos também imperam temas arquetípicos e míticos, com elementos equivalentes aos da Fantasia. A mesma sobrenaturalidade, com coisas de outro mundo e situações inusitadas, aparece no Terror.

No mundo criado por J.R.R Tolkien, há magia, lugares pitorescos e raças fantásticas, como os hobbits – Gandalf chega na Cidade dos Hobbits (Gandalf comes to Hobbiton), de John Howe

Nos video games, a realidade também é subvertida, e há uma identificação mais direta com os heróis, incorporados pelo jogador dentro de ambientes inverossímeis e plenos de perigos e desafios. O RPG é outra versão desses desafio de interpretação e solução de problemas.

Podemos aventar uma hipótese segundo a qual a introspecção está ligada à introversão e ao pouco convívio social (seja pelo temperamento do introvertido, seja por traços físicos discriminados, seja por outras circunstâncias). A introversão leva ao desfrute de atividades que são geralmente ou podem ser apreciadas na solidão ou com uma companhia mínima, como a leitura, o cinema, os jogos (eletrônicos ou não), quadrinhos e séries de TV (e até mesmo os estudos, pouco apreciados pela maioria). Disso pode nascer uma tendência à introspecção e o desenvolvimento de certas faculdades mentais. Uma certa angústia por causa da falta de amigos pode levar à imersão em mundos fantásticos, como os relacionados acima, que servem de refúgio ao candidato a nerd.

Essa tendência cria uma personalidade intelectual, que busca sempre mais conhecimentos na suas áreas de interesse. A imagem do nerd usando óculos não é à toa. Embora fique meio isolado durante algum tempo, esse indivíduo encontra pessoas que compartilham de gostos parecidos, o que cria laços de amizade e um convívio social bem específico, mas os traços mentais advindos da introversão se mantêm (a introversão em si pode ser superada).

Desafios mentais

A maioria dos produtos da cultura nerd envolve uma ou mais formas de desafio mental. O aspecto intelectual do nerd se revela em uma constante busca por desafiar as próprias faculdades mentais. Há pelo menos duas formas gerais de manifestação dessa tendência autodesafiadora: 1) a busca pelo aprofundamento em determinado tema ou coleção e 2) o engajamento no desafio em forma de jogo.

Álbum de figurinhas

O álbum de figurinhas (ou, como preferem as editoras,  “livro ilustrado”) é um exemplo-símbolo do aspecto do aprofundamento, pois envolve várias de suas facetas. Em primeiro lugar, o próprio álbum de figurinhas pode ser considerado um item nerd, e muitos nerds já colecionaram ou colecionam figurinhas.

Em segundo lugar, o objeto da coleção é algo fácil e ao mesmo tempo difícil de conseguir. Basta comprar um envelope numa  banca de revistas para ter acesso a umas 10 figurinhas diferentes, Mas é grande a probabilidade de cada envelope comprado vir com itens repetidos. Portanto, é preciso muita paciência para encontrar todas as figurinhas que completarão o álbum. A melhor forma de conseguir isso é trocando as repetidas com outros colecionadores, jogando bafo com eles ou negociando de acordo com um valor atribuído a cada figurinha (segundo sua popularidade e/ou dificuldade de ser encontrada).

O gosto pela busca das peças é mais interessante do que o prazer de completar a coleção. Por isso, talvez o álbum de figurinhas seja um exemplo imperfeito do que estou discutindo aqui, pois ele pode ser completado. Tomemos, por exemplo, a modalidade derivada mais próxima da coleção de figurinhas e mais ligada ao mundo nerd: os card games.

Magic: the Gathering

Cartas de Magic: the Gathering. Cartas, muitas cartas! Um desafio para qualquer colecionador-jogador

Um dos card games mais famosos, Magic: the Gathering, é composto por um número virtualmente infinito de cartas, cada uma com características distintas, diferentes efeitos no jogo, valor de troca e raridade. O desafio é buscar, comprando caixinhas com um baralho inteiro e/ou envelopes com cartas avulsas (que o colecionador só conhece depois que abre), além da troca com outros jogadores, as melhores cartas para compor um deck que funcione bem numa partida. Como a Wizards of the Coast está sempre lançando cartas novas e novos sets temáticos, a busca pelo baralho perfeito é interminável. Além disso, há o prazer de colecionar as cartas em si,, que sempre são belamente ilustradas por renomados artistas especializados em Fantasia.

Como apontou Dilberto Rosa em comentário à primeira parte deste ensaio, uma das principais características do nerd é que o objeto que o fascina é conseguido através de pesquisa e uma busca desafiadora, pois normalmente se trata de um produto fora do mainstream ou “cult”.

A literatura de ficção científica, por exemplo, ocupa um espaço marginal ou underground no mercado de livros, e é difícil para um leitor desse tipo compor uma boa biblioteca, ou porque as editoras são pequenas/independentes ou porque as editoras grandes lançam pequenas tiragens desse gênero. Isso vale para qualquer tipo de artigo, e a geração que viveu a infância nos anos 1980 conheceram vários tipos de coleções daquilo que hoje se tornou uma cultura nerd consagrada ou “clássica”.

Porém, essa cultura nerd consagrada se tornou muito mais fácil de se conseguir e colecionar, e a geração que hoje em dia está na infância/adolescência pode apreciar quase livremente os ligros de J.R.R. Tolkien, as melhores histórias do Batman (sem precisar colecionar todos os números de uma série mensal que data de várias décadas) e todos os episódios da série Jornada nas Estrelas dos anos 1960.

Esses neonerds, adeptos muito mais de uma moda do que portadores de um certo perfil intelectual, não sabem em sua maioria o que é o desafio de colecionar, e podem simplesmente comprar uma caixa completa com todos os episódios de Guerra nas Estrelas, em várias versões remasterizadas e com muito material extra e inédito. Porém, aqueles que buscam as novidades que ainda não viraram moda ou que ainda não foram publicados oficialmente no Brasil podem ser considerados mais próximos do perfil do nerd que hoje tem mais de 25 anos.

A busca e o aprofundamento também se manifestam de modo notável na coleção de “universos expandidos” de realidades fictícias. O “verdadeiro fã” de Guerra nas Estrelas não se contenta com a trilogia original (nem com a infame trilogia-prequência), mas busca os desenhos animados de C3P0 e R2D2 e dos Ewoks, os diversos livros inspirados na série, os video games, os bonecos (ou “action figures”), as miniaturas, o RPG, os quadrinhos… Esse nerd “jedi” quer ser expert em seu hobby, e muitos nerds caem numa armadilha: a produção em massa e desenfreada de novos produtos voltados para este público-alvo.

Ressalte-se que, como diz Dyego em um comentário:

Como o Jovem nerd disse uma vez: “o nerd não é nerd pelo objeto que ele gosta, mas do JEITO que ele gosta, é mais por atitude” (adaptado). Sendo assim, há mais nerds do que se pensava, e até aquele senhorzinho que coleciona garrafas de cachaça pode ser um nerd, mesmo sem se PARECER com um.

Isso me levou a uma expansão da classificação do termo “nerd”, que abrange várias ideias em torno da palavra:

  1. Nerds são aqueles marginalizados das escolas norte-americanas, geralmente estudiosos ou com gostos exóticos.
  2. Por derivação e “evolução”, nerds são uma geração autodenominada que viveu nos anos 80 e trouxe e desenvolveu de lá para os dias atuais uma certa “cultura nerd”. É sobre estes nerds que estou discorrendo mais amplamente neste ensaio.
  3. Por derivação, “nerds” são pessoas que colecionam e se aprofundam em alguma área do saber, da cultura, ou da mídia, não necessariamente da “cultura nerd” supracitada, de modo que já havia “nerds” antes de aparecer o termo, há jovens nerds hoje que não viveram nos anos 80 e vão continuar existindo nerds no futuro.
  4. Por herança, neonerds são como que uma tribo urbana bem jovem que está mais a seguir uma moda do que a portar um certo perfil intelectual.

Jogos

O outro aspecto do autodesafio é a busca por tarefas de cunho mental, como os jogos de tabuleiro, o RPG, os video games, os card games, as palavras cruzadas etc. Muitas vezes o nerd procura se superar mentalmente, não só com jogos; eles podem, por exemplo, ter um gosto especial por entender mecanismos e reproduzi-los, seguir manuais e destrinchar o uso de equipamentos eletrônicos.

Video games, por exemplo, apresentam problemas que o jogador deve resolver, em variados formatos, estilos e gêneros. Há jogos que exigem paciência, outros rapidez de resposta. Alguns lidam com visão esrratégica e de conjunto, outros propõem quebra-cabeças.

Seja como for, os video games exigem inteligência de vários tipos (dependendo do estilo de jogo) e, notadamente, ajudam a desenvolver as respectivas faculdades mentais. Estudos mostram que as pessoas que têm o video game como hobby desenvolvem melhor a capacidade de resolver problemas do quotidiano e até têm sonhos lúcidos com mais frequência do que as pessoas que não jogam.

O RPG exige mais imaginação do que os video games, pois os jogadores (players, que neste contexto está mais para atores do que jogadores), sentados ao redor de uma mesa, não têm à disposição mais do que descrições de seus respectivos personagens. Toda a ação acontece nas mentes dos participantes, e as situações imaginadas demandam trabalho em equipe e criatividade.

Além desses dois exemplos, qualquer tipo de desafio mental, qualquer tipo de jogo que demande esforço para ser resolvido, ajudando também a desenvolver as faculdades mentais demandadas, é um típico afazer nerd.

Não à toa, muitos cientistas são nerds e muitos nerds se engajam na Ciência como profissão.Esta é um empreendimento que exige do profissional um grande despojamento mental, criticidade, abertismo, acuidade, associação de ideias. Tudo isso vale para as Ciências Exatas como para as Naturais e Sociais. A própria Filosofia, talvez mais do que as ciências, depende de um algo grau de pensamento crítico, para que o filósofo não se deixe levar pelo puro pensar desenfreado.

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The End?

Contato (romance) [Resenha]

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Título: Contato (Contact)

Autor: Carl Sagan

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2008 (1985)

Carl Sagan é um dos mais conhecidos cientistas norte-americanos da contemporaneidade, e seu renome se dá especialmente pelo fato de ter se dedicado com afinco à divulgação científica, com destaque para a Astronomia, sua área de pesquisa, com o famoso programa de TV Cosmos. Além disso, se notabilizou por vários livros em que apresenta o que é o pensar científico e diversos tópicos do conhecimento de várias áreas da Ciência. São exemplos O Mundo Assombrado pelos Demônios e Bilhões e Bilhões.

O espírito de divulgador científico não ficou de fora de seus textos quando se enveredou na Literatura. Na obra de ficção científica Contato, Sagan explora as possibilidades de uma verossímil mensagem extraterrestre, enquanto explica aos leitores vários conceitos da Ciência de sua época (o livro foi publicado originalmente em 1985), essenciais para se compreender a história, mas nada irrelevantes como saberes que enriquecem a mente.

Sinopse comentada

Eleanor Arroway, mais conhecida pelo seu apelido Ellie, teve desde pequena o incentivo de seu pai para explorar o interessante mundo do rádio-amadorismo, o que a levou a um grande interesse por se aprofundar nos estudos e pesquisar Ciência. Seu rápido amadurecimento intelectual a levou a menosprezar as possibilidades de relacionamento afetivo com os garotos imaturos da escola. Sua mente questionadora a fez perceber incoerências nas histórias bíblicas e a discordar dos professores das aulas de Religião. Seu ímpeto para se aprofundar na busca pelo conhecimento e sua genialidade a levaram a Harvard.

Na universidade, especialmente na área das Ciências Exatas, onde se embrenhou, encontrou o preconceito que menospreza as mulheres, mas nada a impediu de seguir em frente em sua carreira e trabalhar no projeto SETI (Search for Extra-Terrestrial Intelligence, “Busca por Inteligência Extraterrestre”). Especificamente, foi para o Novo México, onde aguardou pacientemente a aparição de uma mensagem extraterrestre a ser captada por rádio-telescópios.

Seu envolvimento com o SETI, contrariando o menosprezo geral pelo programa e o pouco apoio do governo, a tornou responsável pela descoberta de uma mensagem vinda do espaço. No entanto, a mensagem era tão longa que foi necessário mobilizar radiotelescópios de todo o mundo, pois à medida que as ondas eletromagnéticas chegavam, vindas do sistema da estrela Vega, a Terra continuava sua rotação.

A mensagem é na verdade um conjunto de quatro mensagens. A primeira é uma sequência de pulsos que representam mais de duzentos números primos. Considera-se que não há na natureza nenhuma possibilidade de uma formação espontânea de números primos. A formação perfeitamente regular de pulsos vindos de pulsares é um fenômeno natural, mas os números primos são resultado de elaborações matemáticas artificiais, o que dá a esses números o indício de uma inteligência por trás de sua produção.

A partir daí tem início uma discussão, que continua ao longo da história, sobre as possibilidades da existência e das forma de vida extraterrestre. Especulações, baseadas nos nossos conhecimentos científicos atuais (ou melhor, da época em que foi escrito o livro), dão forma a uma excelente obra de ficção científica, apresentando uma possibilidade muito mais realista de contato com seres de outro planeta do que a maioria dos livros e filmes, que fazem mais uma mistura de fantasia com sci-fi. Além disso, os diálogos de Contato estão repletos de informações triviais sobre diversos campos da Ciência, e o romance é uma ótima fonte sobre o pensamento científico e seu saber, carregando não só um caráter literário.

A segunda mensagem, que aparece na forma de modulação de polarização, ou seja, as ondas eletromagnéticas que formam a mensagem têm as rotações artificialmente produzidas, revelam um vídeo que, quando “traduzido”, mostra Adolf Hitler dando as boas-vindas para as Olimpíadas de Berlim em 1936. Como se trata da primeira transmissão televisiva terráquea com força suficiente para escapar da ionosfera, foi também uma forma de os extraterrestres responderem. Ou seja, a mensagem, que se descobre vir da direção da estrela de Vega, foi direcionada para nossa direção e não tem um trajeto aleatório.

A imagem de Hitler tem sentido ao considerarmos que ela foi a primeira transmissão de longo alcance, e não faz nenhum sentido para os extraterrestres, que não podem saber que se trata de um ditador odiado por grande parte dos terráqueos. Mas a maioria dos políticos que tomam conhecimento do vídeo, inclusive a presidenta dos EUA, não entendem isso e relutam muito em divulgá-lo, até serem convencidos pelos cientistas de que os extraterrestres certamente não são nazistas.

O conflito entre cientistas/Ciência e políticos/Política se apresenta várias vezes durante a história, mostrando uma diferença entre os interesses por trás dos atos dos governos e o desinteresse da busca por conhecimento, ao mesmo tempo defendida e relativizada por Sagan. Essa relativização política também aparece destacada nos diálogos entre Ellie, uma norte-americana defensora do Capitalismo, e seu amigo russo Vaygay, defensor do Comunismo. Suas conversas os fazem repensar as vantagens e desvantagens de seus respectivos sistemas de governo.

Após essa polêmica, a pesquisa sobre a transmissão continua, com o descobrimento de uma terceira mensagem, que mostra milhares de páginas com diagramas, percebidas como instruções para a construção de uma máquina. No mundo todo, as pessoas têm acesso a impressões dessa mensagem em grossos volumes, e começa uma busca pelo seu deciframento.

Aqui se vê uma mensagem de Sagan para os habitantes da Terra: é necessária a cooperação entre todos os povos humanos para nos desenvolvermos enquanto humanidade. A perspectiva de entrarmos em contato com uma civilização extraterrestre pode vir a ser uma força propulsora para resolvermos nossos problemas de etnocentrismo, preconceitos e qualquer divisão arbitrária entre seres humanos. Como disse Isaac Asimov, em Civilizações Extraterrenas,

O simples pensamento de outras civilizações mais avançadas que a nossa, de uma Galáxia cheia dessas civilizações, só pode colocar em relevo a mesquinhez de nossas disputas e nos envergonhar, incentivando-nos a fazer tentativas mais sérias no sentido da cooperação.

Todavia, nem todo o mundo está otimista com esse projeto mundial. Aliás, muita gente considera que é um plano perigoso juntar esforços internacionais, como alguns americanos que não confiam na necessidade de trabalharem com os russos, e vice versa. Sobretudo, a maior polêmica é a bandeira levantada por muitos religiosos, que consideram arriscado seguir uma mensagem que ninguém sabe se provém de Deus ou do Diabo. E há ainda aqueles que temem a possibilidade de a máquina servir, na realidade, para a dominação dos humanos pelos “veganos”.

Num diálogo muito interessante entre, por um lado, Ellie e Ken Der Heer e, por outro, os pastores evangélicos Billy Jo Rankin e Palmer Joss, Sagan critica a posição de alguns cientistas que arrogam a Ciência de maneira fundamentalista, ao mesmo tempo em que mostra que há religiosos ponderadamente favoráveis à Ciência. Sagan relativiza sua própria posição de cientista dentro dos debates entre Ciência e Religião.

(Percebemos que vários episódios da história podem ter tido como base a experiência de Sagan como cientista. A partir da leitura desse livro, compreendemos melhor a relação entre cientistas, políticos, religiosos e empresários, e como é difícil evoluir como sociedade se mantivermos uma postura fechada ao diálogo e à mudança. É claro que o desejo de mudança é a tônica da obra de Sagan, e não são todos os interlocutores que a querem.)

O deciframento não vai muito bem, com pouco ou quase nenhum avanço, e Ellie começa a ficar frustrada. Num importante contato com o industrialista milionário S. R. Hadden, Ellie tem acesso à quarta mensagem, decifrada por ele. Trata-se, finalmente, da chave que permite a tradução das instruções para a construção da máquina.

A participação de Hadden no projeto provoca uma reação negativa por parte de fundamentalistas. Hadden é dono de um complexo chamado Babilônia, onde se encontram cassinos e bordéis, mal-vistos pelos cristãos puritanos dos EUA, e que já sofreram ataques de vândalos moralistas. Isso torna o projeto da máquina um alvo de críticas ferrenhas por parte de religiosos, que desconfiam que a máquina representa uma ameaça apocalíptica.

A construção finalmente tem início e é empreendida por uma força-tarefa internacional. Várias indústrias são criadas para a fabricação de partes da máquina totalmente inusitadas para a tecnologia humana. Como o modelo da máquina mostra cinco assentos a ser ocupados quando de sua ativação, decisões políticas são feitas e, após alguma polêmica quanto à representatividade na escolha de quem vai entrar na máquina e representar a humanidade no experimento, são escolhidos cinco cientistas: um norte-americano, David Drumlin, professor de Ellie e coordenador do SETI; um nigeriano; uma indiana, um chinês e um russo. A escolha de Drumlin ao invés de Ellie a deixa frustrada, pois ela se sente merecedora, por todo o seu trabalho.

Nesse ponto vemos a cooperação e a escolha de representantes de vários povos como o resultado positivo do projeto que envolveu várias partes da humanidade. Além de representarem povos, também representam várias áreas do conhecimento humano, todas importantes para a humanidade. Todos esses cientistas não professam nenhuma religião, numa perspectiva de que as crenças são supérfluas diante da imensidão do Cosmo, onde habitam seres cujas doutrinas religiosas podem ser tão diferentes das nossas quanto um ser humano é de uma lesma-do-mar.

No entanto, uma sabotagem, provavelmente de algum fundamentalista religioso contrário ao projeto, explode grande parte da máquina antes que sua ativação fosse realizada, e Drumlin morre no acidente. Essa é a chance de Ellie, e ela substitui seu professor. Porém, a reconstrução da máquina levaria meses para ser realizada. Mas eles têm uma surpresa ao receber a informação de que há outra máquina, escondida do público, pronta para ser usada.

Os cinco representantes finalmente entram  na máquina e esta é ativada. Ninguém ao longo do romance sabia o efeito que a ativação da máquina traria, sendo a hipótese mais sustentada a de que se tratava de uma cápsula que viajaria até o planeta de onde proveio.

Para os cientistas que entraram nela, pareceu que eles fizeram uma longa viagem pelo espaço. As paredes da cápsula ficaram invisíveis, e eles puderam ver um percurso que lhes deram a impressão de buracos de minhoca, fazendo diversas paradas em espécies de estações que ligam diversos pontos da galáxia. Enfim parando numa praia com aparência bem terráquea, os tripulantes passaram praticamente um dia conversando e aproveitando o ambiente. Então passaram por uma interessante experiência em que encontraram e conversaram com pessoas importantes de suas vidas, já falecidas, na verdade alienígenas transfigurados, que lhes responderam perguntas sobre aspectos obscuros para a ciência humana.

Para as autoridades, agentes e auxiliares que acompanharam o experimento do lado de fora da máquina, não passaram mais do que alguns segundos entre a entrada e a saída das cobaias da cápsula, o que trouxe a preocupação dos governos dos respectivos países em divulgar ou não os relatos de cada cientista. Por fim, nada foi dito, a não ser que a máquina não funcionou.

Vemos que há certas coisas que ainda são incompreensíveis mesmo para a Ciência humana mais avançada. Alguns continuam a chamar essa parte inescrutável do universo de Deus. Mas para o cientista se trata de uma busca interminável por explicações para os fenômenos da natureza. Essa busca é representada pelo desfecho da obra, quando Ellie, por sugestão de um dos alienígenas que encontrou na viagem, programa um computador para procurar uma mensagem na dízima infinita do número π (pi), em várias escalas, não só a decimal.

Palmer Joss, o pastor com quem Ellie chega a iniciar uma paquera no final da história, e com quem provavelmente vem a ter um caso depois, é quem a incentiva a continuar a busca pela mensagem oculta no π. Ela acaba encontrando um trecho da dízima, em escala undecimal (11), que, quando organizado em várias linhas de um determinado número de algarismos, formam a figura de um círculo.

Este talvez seja o único ponto da história que me desapontou, pois sugere que há um Criador que deixou, em algum lugar na natureza, sua assinatura. Mas também é uma forma interessante de retomar uma discussão levantada por Ellie no diálogo com Joss e Rankin. Ela havia questionado a razão de Deus não ter deixado uma mensagem clara para humanidade sobre sua existência, recorrendo, supostamente, a um livro sagrado que só uma pequena parte do mundo conhece. Ela encontra essa “prova” num lugar inusitadíssimo. Mas, embora seja imptovável (por enquanto) descobrir se realmente existe uma mensagem desse tipo, é remotamente possível que, se existir, ela seja aleatória.

De qualquer forma, a relação de Ellie com Joss trouxe mudanças significativas para ambos. Enquanto ele passa a dar mais valor à Ciência e ao conhecimento científico, ela descobre que ainda não tinha tanta segurança em sua postura de cientista, sendo uma carreira buscada mais para satisfazer um problema pessoal familiar. A “mensagem” do π, que não é lida por Ellie no final do livro (devido a um momento de tristeza ao descobrir que seu padrasto é na verdade seu pai e que aquele que a criou como pai é seu padrasto), talvez signifique a necessidade de ponderar sentimentos e razão na busca da verdade, seja na Ciência, seja na vida.

A luta para salvar Deus

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A recente visita do Papa Bento XVI à Inglaterra trouxe à tona a atual, recorrente e insistente tentativa das igrejas cristãs de questionar o valor da Ciência e reabilitar a Religião, tão “esquecida” e “menosprezada” nos dias atuais. Numa reunião de líderes religiosos na St. Mary’s University College, Strawberry Hill, na parte sudoeste de Londres, o papa interveio no debate sobre a origem do Universo, alegando que a Ciência não pode explicar o “sentido definitivo” da existência humana.

Afirmando que as ciências nos apresentam uma “inestimável compreensão” de aspectos de nossa existência, o papa afirma que elas não conseguem responder à pergunta fundamental: “por que existimos?” Toda a argumentação do papa para “desqualificar” a Ciência no papel de “dar sentido à vida” e a suposta necessidade de a Religião assumir esse papel se baseiam em pressupostos discursivos que escondem falácias lógicas.

Papa Bento XVI

Em primeiro lugar, o discurso supostamente conciliador que busca colocar lado a lado a Ciência e a Religião se revela uma tentativa de subordinar aquela a esta. Ao dizer que as ciências nos trazem uma “compreensão inestimável de aspectos da existência”, o papa está usando um eufemismo para dizer que nenhum conhecimento sobre o mundo, por mais acurado e útil que seja, é suficiente para nos trazer felicidade, ou seja, que qualquer conhecimento científico é dispensável. O que não é dispensável, segundo ele, é o desejo humano de dar sentido à vida, o que, para ele, só pode ser feito satisfatoriamente pelas religiões (especialmente, é claro, a religião cristã em sua versão católica).

Veja mais um trecho do discurso de Bento XVI:

They cannot satisfy the deepest longings of the human heart, they cannot fully explain to us our origin and our destiny, why and for what purpose we exist, nor indeed can they provide us with an exhaustive answer to the question ‘Why is there something rather than nothing?

[Elas [as ciências] não podem satisfazer os mais profundos desejos do coração humano, elas não podem nos explicar completamente nossa origem e nosso destino, por que e para que propósito existimos, nem certamente podem nos prover uma resposta exaustiva à pergunta ‘por que existe algo ao invés de nada?’]

Este trecho condensa várias armadilhas lógicas. A primeira é que o pressuposto da necessidade de se dar sentido à existência e a ideia de que a falta desse aspecto à Ciência é uma falha. A tarefa da Ciência nunca foi dar sentido à existência, não da forma como uma perspectiva transcendente do mundo o faz. Concordo com o papa em que a Ciência por si mesma não oferece nenhum sentido fundamental à existência, nenhum elã transcendente que torne o cru Universo algo mais do que ele próprio (como o olhar brilhante de uma criança viva que se diferencia do olho de um robô – por mais perfeitamente que este seja feito para replicar uma criança).

O discurso do papa gira em torno de Religião e Ciência. Ou seja, ao negar à Ciência o papel de dar sentido à vida, a sardinha pula automaticamente para o seu lado, como se a Religião fosse a única e óbvia candidata para responder às “questões fundamentais”. No entanto, um pouco de erudição e conhecimento de mundo é suficiente para sabermos que existem muitos meios que não as diversas e díspares religiões para dar sentido à existência, como a Poesia, a Filosofia, a Mitologia, e que dentro dessas várias formas de saber, há inúmeras possibilidades, dependendo do contexto histórico e cultural que busquemos.

De fato, desde que começou a existir neste planeta, o ser humano deu início (e jamais parou) à produção de milhares de sentidos para a existência. Seja recorrendo a estórias para explicar os fenômenos naturais, seja atribuindo ao Universo uma alma única que dá coesão ao todo, seja concebendo o tempo como um ciclo que faz tudo retornar ao início eternamente, o Homo sapiens nunca deixou de criar sentido para o mundo, e é improvável que qualquer cientista, por mais ateu que seja, não tenha ele mesmo uma concepção do universo que o imbui de significado, mesmo que este seja a busca pelo conhecimento ou o bem que este pode trazer à humanidade. O que não é um sentido menos valioso para ele do que Deus é para um cristão.

Ao colocar a pergunta “por que existe algo ao invés de nada?”, o papa pretende automaticamente legitimar a explicação bíblica para a existência do Universo, ou seja, a criação deste por Deus. Mesmo considerando que essa pergunta possa, entre outras possibilidades, ser respondida: “porque é assim que o Universo é”, a solução religiosa parece ser para o discurso do papa um caminho óbvio. No entanto, a resposta bíblica se mostra em muito incompatível com a Ciência, pois fala de uma entidade cuja existência pode ser dispensada da explicação astronômica, uma entidade que a História mostra ter aparecido no imaginário humano em um determinado contexto histórico-cultural e que não é a única alternativa teológica no vasto mundo antropológico, havendo inúmeras explicações religiosas na face da Terra, algumas contraditórias entre si.

Outra falácia comum na defesa da Religião como complemento necessário à Ciência é a necessidade de valores morais, o que estaria ausente de uma visão puramente científica do mundo:

Never allow yourselves to become narrow. The world needs good scientists, but a scientific outlook becomes dangerous and narrow if it ignores the riches or ethical dimensions of life. Just as religion becomes narrow if it rejects the legitimate contribution of science to our understanding of the world.

[Nunca se permitam tornar-se estreitos. O mundo precisa de bons cientistas, mas uma visão científica se torna estreita se ela ignorar as riquezas ou a dimensão ética da vida. Assim como a religião se torna estreita se rejeitar a legítima contribuição da ciência ao nosso entendimento do mundo.]

É comum os autodeclarados ateus serem repreendidos pelos crentes com a afirmação de que é preciso crer em Deus para ser uma boa pessoa. O papa defende que sem a Religião os cientistas não têm como se garantir quanto aos seus valores morais. Assim como quanto ao “sentido da vida”, o discurso católico apresenta apenas uma alternativa de fonte de valores éticos: a Religião.

Da mesma forma que a Ciência pura não dá por si mesma um “sentido para a existência”, ela não oferece um sentido de ética, apenas provê conhecimento sobre o Universo. Porém, temos valores morais em nossa cultura que estão presentes em nossas condutas cotidianas e que não estão vinculadas direta nem necessariamente à Religião.

Além disso, temos na história do pensamento universal o desenvolvimento profundo de estudos sobre a Ética fora da esfera religiosa. Se ficarmos só na Filosofia, temos um universo de autores e obras, Aristóteless, Espinoza, Nietzsche, Confúcio, entre muitos outros, que mostram a capacidade de se elaborar um intenso senso ético baseado nas necessidades humanas e não em necessidades divinas.

Apesar de tudo, é papel do sumo pontífice vender seu peixe e seu pão (e tentar multiplicá-los desesperadamente). O mundo católico já não é mais o mesmo, ainda bem, e o cabeça da Igreja Católica recorre às crenças cristãs mais básicas para fisgar “de volta”, com argumentos escusos, o maior número possível de cordeiros para seu rebanho. De outro lado, cientistas e entusiastas da Ciência devem permanecer atentos para não ceder tão facilmente aos pressupostos, tidos por muitos como sabedoria, de que o ser humano precisa da Religião e de que é necessária a integração entre esta e a Ciência.

Fonte

Coleção de sinapses 12

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Estas semana revisitamos o tema das cotas raciais numa pesquisa controversa sobre seus danos, visitamos um berçário de estrelas numa viagem cósmica, fomos ao planeta Marte e ao satélite Titã procurar sinais de vida, encontramos vida em Mos Eisley num anúncio da Adidas e constatamos que tanta informação em tão pouco tempo dispersa alguns atributos cognitivos como a atenção.

Encontramos criatividade numa mesa de colo para notebooks e em alguns logos que escondem símbolos de forma criativa. Carl Sagan nos mostra como descobrir ou estimar a quantidade de civilizações na galáxia e voltamos à questão racial com uma pergunta: a “raça” é incompatível com o individualismo? Se os golfinhos têm uma resposta, ainda nos é desconhecida…

Pesquisa mostra danos das cotas raciais – O Globo (via Ministério do Planejamento)

O fato de grande parte dos cotistas não alcançar a nota mínima para entrar na Universidade não é de surpreender. Grande parte dos não-cotistas também não alcança essa nota. Por isso outras coisas é que acho que há um problema na concepção da ideia de cotas raciais no Ensino Superior. Mas sobre isso me delongarei em outro post…

cartazes modernos com um toque retro – obvious

O estilo do ilustrador Tom Whalen é muito criativo, como se vê nos dois exemplos abaixo. Veja outros trabalhos dele no link, com cartazes recriados num estilo “retrô” que mistura influências dos quadrinhos e do cinema hollywoodiano.

Image of the Day: The Ghostly Beauty of a Dark Globule & Star Birth – The Daily Galaxy

Um berçário de estrelas, é o que diz a fonte. Será que dá para ver coisas assim numa viagem interplanetária, da maneira que os tripulantes da Enterprise veem?

Berço de estrelas

“ExoMars” -Europe’s Robotic 2018 Mission to Search for Life on Mars – The Daily Galaxy

New NASA Mars Discovery: Evidence of an Ancient Environment Favorable for Life – The Daily Galaxy

Is there Life on Saturn’s Moon,Titan? NASA Asks… – The Daily Galaxy

A busca por sinais de vida no Sistema Solar continua. Nada de homenzinhos verdes em Marte, é claro, mas se sabe agora que o planeta vermelho já teve um ambiente que parece ter sido favorável à vida. Já em Titã, um dos satélites de Saturno, a química flerta com a bioquímica e talvez encontremos uma forma de vida orgânica não-carbônica… ainda, ainda, ainda esperar para ver…

Vote na Teia Neuronial – Prêmio Top Blog

A Teia Neuronial está participando do Prêmio Top Blog na categoria Cultura. Se você gosta, curte, admira, acha legal e quer contribuir, vote na Teia pelo link acima ou por um dos dois links que estão na barra lateral do site. Obrigado e volte sempre.

adidas Originals – Star Wars™ Cantina 2010 – YouTube

Para quem se lembra bem da cena em Mos Eisley do primeiro filme de Guerra nas Estrelas, essa propaganda é muito bem-feita e criativa, com umas celebridades interagindo no mesmo ambiente filmado em 1977.

Excesso de informações provocado pelo avanço da tecnologia altera capacidade de concentração – O Globo

Se você está lendo isso e ao mesmo tempo está ouvindo um podcast, conversando com sua mãe no MSN, regando sua fazenda na Colheita Feliz, twittando sobre o gol da Coreia do Norte contra o Brasil e baixando filmes piratas no µTorrent… já notou alguma dificuldade de ler um livro durante alguns minutos? Eu já. E essa matéria me deixou preocupado…

P.S.: Minha mãe não usa MSN e não jogo Colheita Feliz. Vai, Coreia!

Mesa de colo – Pino

Uma invenção pertinente, baseada numa necessidade contemporânea. Só não vou usar isso para não destruir ainda mais minha coluna vertebral (quem é alto e tem a visão ruim sabe do que estou falando).

25 logos bem legais com símbolos escondidos – Design on the Rocks

A aplicação dos conceitos das artes plásticas na publicidade dão origem a belas obras de arte, como essas logomarcas que abusam das lacunas dos grafemas ocidentais, que os tornam parecidos com certas imagens ou que deixam espaços em branco que podem ser interpretados como símbolos. Um bom exercício de criatividade. Um dia eu ainda faço uma logo nesse estilo para a Teia Neuronial.

Will the Mysteries of the Universe Fuel a New Religion? A Galaxy Insight: Sagan, Hawking, Dawkins – The Daily Galaxy

Talvez venha a surgir alguma religião “baseada na Ciência”… Surpreende-me a afirmação de Dawkins de que ele é um “não-crente religioso”… Deste link eu destaco o vídeo abaixo, em que o astrônomo Carl Sagan demonstra a famigerada Equação de Drake, que calcula a quantidade provável de planetas com vida inteligente na galáxia.

‘Raça e Destino’ – O Globo

Um argumento lúcido sobre a questão identitária racial brasileira. A instauração de “raças” nos moldes que estão sendo pensados por uma parcela do Movimento Negro cria a ilusão de que há um conjunto de desejos, aspirações e potecialidades inerentes a cada uma das “raças” (“negros”, “brancos”…). Isso é um meio de minar a diversidade inerente a cada conjunto de pessoas arbitrariamente englobados numa “raça”. Se se quer mesmo ir adiante com as políticas voltadas a “raças”, é preciso ter muito cuidado com como se usa esse conceito.

Dolphin Speak -A Language of Infinite Complexity & Sophistication – The Daily Galaxy

Bem, como já disse em post anterior, fascinam-me muito os cetáceos, especialmente os golfinhos. Eles talvez saibam mais sobre a vida, o universo e tudo mais do que imaginamos. Espero que consigamos um dia nos comunicar com eles, seria um imenso aprendizado para nossa espécie.

Coleção de sinapses 9

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Nesta semana vimos um glossário de palavras de origem africana e a Ciência e o Budismo buscando juntos a origem da felicidade. Para a felicidade de quem luta contra preconceitos, alguns mitos sobre os homossexuais foram desmentidos. Alguns computadores já conseguem desmentir o sarcasmo de textos, e com sarcasmo Green Jelly reconta Os Três Porquinhos.

Enquanto um concurso para escritores de contos é anunciado, o escritor Jean-Claude Carrière fala sobre a mudança e evolução dos livros, e olhamos a mudança de 30 anos nas caras de Lando e Han, enquanto homossexuais mostram as caras e protestam com bom humor contra a homofobia. Com bom humor uma história sobre a vida e a morte é contada, e com muito bom humor e criatividade uma empresa anuncia seus produtos.

Memória das Palavras

Sob o selo A Cor da Cultura, este miniglossário mostra que uma grande parte das palavras do falar português no Brasil tem origem africana, a maioria tendo sido absorvida por influência dos escravos negros. Até na língua somos mestiços.

The Dalai Lama & the Science of Happiness – The Daily Galaxy

Muitos empreendimentos que se baseiam numa “parceria entre Ciência e Religião” precisam ser tratados com cautela, pois há muitas tentativas de usar a Ciência para “provar” as crenças religiosas. No caso do convite do Dalai Lama a Richard Davidson para “descobrir as causas das qualidades humanas positivas, como felicidade e compaixão”, penso que é uma boa abordagem, tendo em vista que se busca entender como a meditação budista afeta o cérebro dos monges e como se pode otimizar o cultivo desses sentimentos sugeridos pelo Dalai Lama, sem qualquer pretensão de se provar a ligação entre meditação, sentimentos e realidades sobrenaturais. Toda a conclusão que vier será lucro para a humanidade.

Derrubando 5 mitos sobre os homossexuais – Bule Voador

Ainda hoje se escutam e veem manifestações medievalescas que condenam a homossexualidade como um perigo à “sociedade”. Portanto, nunca é demais discutir sobre as falácias dos preconceitos, sempre baseados na ignorância, e mostrar com dados factuais o que realmente é ou não mito quando se trata dos homossexuais, especialmente tendo em vista que a maioria desses mitos se baseia na ideia pré-concebida de que a homossexualidade é errada e condenável.

Computadores já conseguem captar o sarcasmo de textos – Veja

Será mais um avanço no desenvolvimento de inteligência artificial que simule o pensar humano? Talvez não, já que o computador em questão trabalha com algoritmos que não percebem sutilezas emotivas. Há casos em que, para deixar o programa mais eficaz, será necessário acrescentar exceções, o que me lembra um software que “lia” textos em voz alta, em inglês. Logicamente, não bastava informar ao programa que a terminação -ipe se pronuncia -aip (como nas palavras ripe e pipe) já que há excessões como recipe (réssipi), que o software precisava saber para, seguindo o padrão, não errar a pronúncia. Ainda estamos muito longe de cérebro positrônico…

Three Little Pigs (Green Jelly) – YouTube

Divertidíssimo. O Lobo Mau é um motoqueiro e cada porquinho representa um arquétipo da juventude contemporânea.

Prêmio Sesc de Literatura inscreve até o dia 30 de setembro – NoMinuto

Coloco esse link aqui mais com o intuito de divulgar o concurso para quem se interessar. Já tive muitas ideias para escrever romances e contos (tenho alguns destes escritos e não publicados). Quem sabe não tenho uma inspiração um dia ante s do prazo de inscrições?

Jean-Claude Carrière: “O e-book vai desaparecer” – Época

Achei bastante pertinente a pergunta feita por Carrière: “o que define um livro?” Certamente não é a encadernação. E talvez nem sequer consigamos imaginar as tecnologias para leitura que estarão popularizadas daqui a 100 anos.

Garoto de 7 anos envia desenho e ganha emprego em revista infantil – G1 Planeta Bizarro

Meninos-prodígios podem ser encontrados em qualquer lugar do mundo, é só procurar. Mas seria muito bom para a humanidade se todas as crianças mais estimuladas desde cedo a desenvolver e descobrir suas aptidões, já se preparando para planejar suas vocações e evitando escolhas que atrasam suas realizações profisisonais.

Lando Calrissian & Han Solo Reunited – TMZ

O que achei mais interessante foi analisar a linguagem corporal dos dois atores. Na primeira foto, vê-se uma euforia, talvez pelo entusiasmo das gravações, que deviam ser divertidas, com os corpos próximos e os braços entrelaçados, mas as cabeças distantes, o que denota que os atores não eram tão íntimos (ou talvez estivessem apenas esticando o pescoço para seus rostos saírem bem na foto), embora estivessem próximos devido ao projeto em comum. Na segunda foto, eles estão mais relaxados, sem a mesma proximidade física, mas sem a tensão nos pescoços. O que quase não mudou foi o sorriso de Ford.

Fuck You Homofobia – YouTube

Um vídeo de revolta bem-humorada contra a homofobia. Por um lado, tendo a considerar exagerada  a violência das palavras do refrão, mas entendo que, para muitas pessoas que insistem apaixonadamente a lutar contra os direitos de os homossexuais serem felizes, reações como a desse vídeo sejam uma forma necessária de essas pessoas entenderem o recado.

Always Look on the Bright Side of Life – Cadu Simões

Uma HQ bem-humorada estrelando a Morte (Thanatos, da mitologia grega), que tenta convencer um suicida a não estragar sua noite de folga. Com referências à mitologia grega, Douglas Adams, Monty Python, death metal, nota-se uma inspiração do estilo deNeil Gaiman, especialmente as histórias da série Sandman.

Campanhas da Hortifruti

Não adianta dizer muita coisa para quem ainda não viu essas campanhas. Deem uma olhada no link e vejam como essa empresa transforma frutas e verduras em garotos-propaganda, com criativíssimas chamadas, parodiando filmes, músicas e outras mídias.