A Metamorfose

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ArquivoExibirFranz Kafka nasceu em Praga, em 1883, quando a cidade fazia parte do Império Austro-Húngaro (e posteriormente faria parte da Tchecoslováquia). Ele nasceu numa família judia e sua língua materna era o alemão. Sua carreira literária começou com a publicação de contos, mas ele ficaria mais conhecido por seus romances, especialmente O Processo, e suas novelas, com destaque absoluto para A Metamorfose (Die Verwandlung), escrita em 1912 ao longo de apenas 20 dias.

Kafka pretendia publicar A Metamorfose, junto com outros dois textos, numa coletânea chamada Filhos (Söhne). Posteriormente, tentou juntá-la com outras duas obras, chamando o conjunto de Punições ou Castigos (Strafen). “Filho” e “castigo” servem como pistas para se entender o tema central dessa obra, pois, como veremos adiante, trata-se de um personagem carregado de culpa e numa relação conflituosa com a família, especialmente o pai. Este conflito era marcante na própria vida de Kafka e inspiraria quase toda sua obra.

Sinopse

Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

Essa transformação de um jovem caixeiro viajante num inseto asqueroso implicará na metamorfose de sua família e da rotina da casa onde mora. Por não conseguir se virar para sair da cama, Gregor se atrasa para pegar o trem e ir ao trabalho, fazendo com que o gerente venha buscá-lo. No entanto, o estado de Gregor é repugnante demais para que ele volte a trabalhar. Sua irmã, muito dedicada, passa a arrumar o quarto de Gregor e a deixar comida para ele, mas o irmão fica confinado a seus aposentos e não interage mais com ninguém (nem sequer consegue falar mais).

O resultado dessa desgraça é que a mãe, o pai e até a adolescente irmã passam a trabalhar para sustentar a família, o que antes era obrigação apenas de Gregor. Nesse processo, o pai Samsa deixa de ser um inválido que mal podia andar e passa a ser um empregado exemplar. Gregor se torna um fardo moral para a família, e em determinado momento abdica de ser aceito pelos outros e aceita sua nova condição, comendo pão estragado (que é a única coisa que lhe apetece o paladar agora) e subindo pelas paredes de seu quarto.

Quando a mãe decide ajudar a irmã a retirar os móveis, agora inúteis, do quarto de Gregor, para que este fique mais à vontade, a sra. Samsa, que até então não havia visto a nova forma do filho, se depara com este na parede, escondendo uma moldura com a imagem de uma mulher, que ele havia recortado de uma revista, único objeto que ele não admitia ser retirado do recinto.

Essa situação desencadeia a chegada do pai ao quarto, que inicia um bombardeio de maçãs sobre o filho e acaba encravando uma fruta atrás da cabeça de Gregor. Este evento representa o clímax da tragédia de Gregor Samsa, fazendo-o retirar-se a um canto de seu quarto e eventualmente desistir da vida e morrer em paz consigo mesmo. Para a família, o fim de Gregor é um alívio e o começo de um próspero futuro, no qual a filha, irmã de Gregor, passará a ser o centro de tudo.

Moralidade familiar, Capitalismo e contradições modernas

A Metamorfose pode ser lida como uma alegoria de diversas angústias humanas recorrentes na vida de qualquer indivíduo. De modo geral, podemos entender a transformação de Gregor como a estigmatização da pessoa que foge das expectativas de seu entorno social. Quando alguém extrapola os limites morais aceitáveis para sua condição socialmente pré-determinada, ele se transforma num monstro e nunca mais será visto da mesma forma pelos outros ao se redor.

Entretanto, os detalhes da fábula de Kafka podem nos remeter mais fortemente a uma crítica das transformações sociais, culturais e econômicas da modernidade industrial. Nesse momento de transição, os valores familiares tradicionais ainda são muito fortes, mas esbarram com as exigências de uma economia implacável cujo objetivo é o enriquecimento dos empresários, às custas do sacrifício de corpos e mentes dos trabalhadores. Neste âmbito, a felicidade da família é atestada pelo sucesso econômico de seus membros.

A relação de Gregor com sua família se constitui numa espécie de parasitismo em que o filho provê tudo à família. Pai e mãe estão desempregados e sem perspectiva de voltar a trabalhar. A irmã adolescente, ainda em formação, se acomoda nessa situação e procrastina sua carreira pessoal. Os valores familiares tradicionais (“tudo à família”) obrigam Gregor a se manter trabalhando para sustentar seus parentes, e ele pouco reclama, reprimindo sua frustração.

Nesse capitalismo emergente, as exigências do mercado são prementes. Um trabalhador não pode se dar ao luxo de se distrair com futilidades que o desviem dos esforços para conseguir lucro, e Gregor comete esse erro ao alimentar, mesmo que apenas por uma noite, pensamentos libidinosos. Ele recorta a foto de uma mulher e a emoldura, tem sonhos intranquilos (talvez tenha dormido pouco por ter se masturbado e sofrido com pesadelos de culpa) e acorda mal, atrasando-se para o trabalho.

Como se já não bastasse a acusação de preguiçoso que viria de seus empregadores, Gregor sofre também o estigma de desnaturado, pois sua indolência representa um prejuízo para a família. As duas máculas promovem sua transformação num pária completo, um inseto monstruoso, proscrito tanto pela moralidade familiar tradicional (seus pensamentos libidinosos também são tidos como uma traição) quanto pela nova ética capitalista.

A superexigência das minorias

Extrapolando a interpretação mais direta apresentada acima, podemos entender a metamorfose de Gregor Samsa como uma metáfora da estigmatização das minorias que tentam se inserir em posições tradicionalmente ocupadas pelos grupos hegemônicos. Se Gregor fosse um negro numa sociedade branca pós-escravocrata, por exemplo, poderíamos imaginar o quanto ele é cobrado pela empresa e pela sociedade, além do tamanho esforço que ele precisa fazer para não incorrer na mínima falta em seu trabalho.

Se por um lado os seus colegas brancos se demoram tomando café da manhã na estação de trem e nem por isso recebem admoestações do contínuo ou do gerente da empresa, Gregor é instado a explicar seu atraso de 15 minutos (na única vez em que ele se atrasou), sob pena de ser acusado de todos os estigmas relacionados aos negros: vagabundo, preguiçoso, inepto, estúpido, depravado etc. Para a família e para a empresa, Gregor cometer um deslize é uma prova de todos os preconceitos atribuídos aos negros, e serve para evidenciar seu status social de “inseto”.

Gregor poderia também ser um homossexual, “praticante” de uma preferência sexual “desviada”, “não-natural”. São marcantes os momentos em que as testemunhas ressaltam a imoralidade da condição do protagonista, a “depravação”, a “vergonha”. Da mesma forma que os negros, os homossexuais numa sociedade homofóbica sofrem com as exigências da heteronormatividade e todas as suas falhas profissionais são atribuídas a sua “escolha” sexual.

Qualquer que seja o grupo minoritário a que pertença Gregor, qualquer que seja a etnia marginalizada, identidade sexual ou de gênero discriminada, sexualidade fora do padrão ou deficiência física menosprezada, ele é vítima de uma cultura que sacrifica seu corpo e sua alma, mumificando-o numa carapaça de quitina e confinando-o a um cubículo-túmulo que permita a sua família esconder, até certo ponto, o motivo de sua vergonha.

Trajetória de um fracassado

O caminho de Gregor através da narrativa de A Metamorfose o leva a um trágico fracasso. Sua condição de inseto é relativamente aceita por ele logo de início, resigna-se como se já estivesse esperando acontecer. Passando por todo o processo de demissão, desprezo pelas empregadas da casa e assunção pela família de que Gregor é um fardo, ele recebe a desaprovação dos três inquilinos que vêm morar na casa, símbolos da conciliação entre sucesso e família (infere-se que são irmãos), o que a família Samsa jamais conseguiria senão depois da morte de Gregor.

A queda de Gregor abala a estrutura de parasitismo na qual ele era sugado e este se torna o parasita. A irmã, a mãe e o pai até há pouco tempo inválido passam a trabalhar, e este último se torna uma figura imponente, o arquétipo do pai poderoso que toma para si as mulheres da casa, a esposa (mãe de Gregor) e a filha (irmã de Gregor), antes sujeitas ao filho. Num simbólico conflito edipiano, Gregor é enfrentado pelo pai, que reivindica o papel de provedor e a “posse” das duas mulheres. Diferente de Édipo e da maioria das histórias que seguem este esquema freudiano, Gregor fracassa diante do pai. A mãe, ao ver o filho ferido, se abraça ao vencedor vestida em trajes sumários.

Samsa remete a Sansão, o nazireu superpoderoso que se tornou um fracassado ao se deixar levar pelo amor de uma mulher. Assim como aconteceu com Gregor, os desejos pessoais de Sansão o levaram à desgraça. O herói hebreu se tornou um escravo dos filisteus, numa condição de total derrota. Mas tanto Gregor quanto Sansão se redimem em suas mortes. Enquanto este se mata junto com seus captores (derrubando as colunas do palácio em que estava e o fazendo ruir sobre todos), aquele renuncia a tudo para que a família se reconstrua feliz, unida como uma família tradicional e bem-sucedida nas modernas relações econômicas.

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A alma dos robôs – parte 2

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Desde as histórias de estátuas que ganham vida, passando por bonecos de madeira e robôs que desenvolvem consciência e sentimentos, a fantasia da passagem do inanimado para o animado está muito presente nos mitos, na literatura e no cinema. Por que os seres humanos são fascinados por personagens robóticos que buscam se tornar humanos? O que há neles com que nos identificamos tanto?

Além disso, por que essa fantasia do robô tornado humano extrapola para histórias em que as máquinas se tornam uma ameaça à humanidade, subjugando-a e invertendo os papéis do dominante e do dominado? Porque, enfim, sentimos um misto de medo e simpatia pelos robôs revoltosos, que são apenas máquinas inanimadas que deveriam servir aos seus criadores?

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Semelhanças entre Star Wars e Indiana Jones

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As duas obras cinematográficas mais bem-sucedidas de George Lucas são provavelmente as séries de filmes Guerra nas Estrelas e Indiana Jones. É notório entre os fãs de ambas as séries que há várias referências de Guerra… nos filmes de Indiana…, como a aparição de R2-D2 e C3P0 como hieróglifos e o Clube Obi Wan.

Mas há várias semelhanças nas narrativas, nos personagens e nas cenas que podem não ter sido intencionais e provavelmente se tratam da marca do criador, elementos da imaginação de George Lucas que se repetem e dizem mais sobre o autor do que sobre a obra. Essas recorrências podem ainda nos dizer muito sobre os elementos indispensáveis para o sucesso e a longevidade de um filme de aventura.

Eis uma relação de algumas semelhanças entre as duas séries, bem como a provável razão porque estão presentes em filmes de aventura bem-sucedidos. Os filmes referenciados são:

  • Guerra nas Estrelas – Episódio IV: Uma Nova Esperança
  • Guerra nas Estrelas – Episódio V: O Império Contra-ataca
  • Guerra nas Estrelas – Episódio VI: O Retorno de Jedi
  • Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida
  • Indiana Jones e o Templo da Perdição
  • Indiana Jones e a Última Cruzada

Harrison Ford

Han Solo e Indiana Jones

George Lucas escolheu Harrison Ford tanto para o papel de Han Solo, um dos coadjuvantes mais importantes  em Guerra nas Estrelas, e para Indiana Jones, o protagonista dos filmes homônimos.

Tanto Han Solo quanto Indiana Jones são epítomes do arquétipo do aventureiro, e Ford incorpora muito bem o intrépido viajante em busca de tesouros e aventura.

Por que dá certo? Harrison Ford consegue interpretar um personagem ao mesmo tempo audacioso e extremamente fleumático, que enfrenta as situações mais tensas sem hesitar. Grande parte dos homens se identificacom um ideal de masculinidade e muitas mulheres se encantam. E o intrépido viajante que há dentro de todos nós encontra uma ressonância.

Troca de tiros num bar

Han enfrenta Greedo e Indiana enfrenta Lao

Na primeira aparição de Han Solo em Guerra nas Estrelas, ele topa com o caçador de recompensas Greedo e é obrigado a se sentar numa das mesas da cantina de Mos Eisley e trocar uma rápida sucessão de tiros.

Na primeira cena de O Templo da Perdição, Indiana está num restaurante em Xangai, em busca de um diamante. Sentado à mesa do chinês Lao e seus dois capangas, há um tenso trecho em que um amigo de Indiana aponta uma arma escondida, ameaçando os chineses. Em seguida, o barulho de garrafas de champanhe se abrindo abafa o tiro que mata o assistente de Indiana.

Por que dá certo? Essas cenas criam uma tensão que deixa o espectador na iminência da possibilidade de uma reviravolta na trama. Estão todos sentados, o que a princípio significaria que estão todos relaxados, mas a tensão cria um paradoxo, uma leve perplexidade que traz incerteza. A mesa, símbolo da confraternização, se torna palco de um festim de sangue.

Vilões imperialistas militaristas

Oficial Jerjerrod e Coronel Vogel

Os principal antagonista em Guerra nas Estrelas é o Império Galático. Os oficiais do Império são claramente uma referência aos oficiais nazistas, com uniformes e postura muito parecidos com os dos militares da Alemanha do 3º Reich.

Não por acaso, os maiores inimigos de Indiana Jones são os nazistas, que estão sempre atrás das relíquias buscadas pelo Dr. Jones.

Por que dá certo? A mentalidade moderna rechaçou o imperialismo militarista e ditatorial representado pelo Nazismo, pelo Fascismo e pelos regimes socialistas. Um vilão que traga ameaça à liberdade, seja dos povos de uma ex-República Galática, seja ao desenvolvimento da ciência arqueológica, provoca a hostilidade de quase todos os espectadores e a automática simpatia pelos que lutam contra ele.

Disfarce entre os vilões

Han como stormtrooper e Indiana como nazista

Luke Skywalker e Han Solo, ao tentar resgatar a Princesa Leia, se infiltram na Estrela da Morte disfarçados de stormtroopers, os soldados de infantaria do Império, para chegar até a cela onde está presa Leia.

Em A Última Cruzada, Indiana vai em busca do diário de seu pai, que está nas mãos dos nazistas. Ele precisa se vestir em uniforme nazista para se infiltrar, e acaba topando com o próprio Führer, Adolf Hitler. Ficamos esperando que ele será desmascarado e perderá o diário que está em suas mãos, mas Hitler pega o livro e o autografa. Ufa! O diário acaba ficando ainda mais valioso.

Por que dá certo? Uma cena em que os heróis mergulham na fortaleza inimiga, arriscando-se a ser descobertos a qualquer momento, cria uma tensão que prende o espectador na frente da tela. É uma cena tão clichê… mas, quando bem feita, provoca suspense.

O piloto e o artilheiro

Luke Skywalker na Millenium Falcon e Henry Jones num aeroplano nazista

Quando estão fugindo da Estrela da Morte, Han, Luke e cia. embarcam na Millenium Falcon e escapam, mas são perseguidos. Luke assume a artilharia da Falcon, pilotada por Han, para se livrar das naves imperiais em seu encalço.

Em A Última Cruzada, há uma referência a esta cena, em que Indiana e Henry Jones sobem num aeroplano para fugir de seus perseguidores. Indiana assume a cadeira do piloto enquanto seu pai, no assento posterior, pega a metralhadora para repelir os nazistas. Jones pai acaba destroçando o leme do próprio veículo…

Por que dá certo? São cenas típicas de perseguição que acrescentam animação à história. E é quase indispensável que numa história de aventura haja pelo menos uma cena de perseguição. Além disso, temos o acréscimo de haver dois personagens trabalhando em conjunto para fugir dos perseguidores, um encarregado da pilotagem e outro do armamento. A resolução depende da boa sintonia entre os dois, o que Han e Luke, que mal se conhecem, conseguem com êxito, enquanto os Jones, pai e filho, falham.

Batalhas contra veículos encouraçados

AT-ATs em Hoth e um tanque nazista

Ao longo da trilogia Guerra nas Estrelas, o Império se utiliza de armamentos gigantescos, como os Destróieres Imperiais, os AT-ATs, que parecem quadrúpedes imensos de metal, e a própria Estrela da Morte, que destrói planetas. Os rebeldes não têm mais do que pequenas naves ou pistolas e rifles laser. Tanto na batalha do planeta Hoth, em O Império Contra-ataca, quanto na batalha na lua de Endor, em O Retorno de Jedi, os rebeldes são como Davis enfrentando Golias.

Os tanques nazistas que Indiana Jones e seu pai enfrentam lembram os grandes AT-ATs blindados ou os AT-RTs bípedes que os pequenos ewoks de Endor derrubam com fundas e toras de madeira.

Por que dá certo? É emocionante ver heróis lutando contra uma força muito maior do que eles e usando a astúcia para derrotar o poder dominador. Os grandes monstros de metal que os na’vi enfrentam em Avatar pertencem a este mesmo tema, assim como os 300 espartanos liderados por Leônidas em 300 de Esparta, de Frank Miller, que enfrentam um exército persa muito maior e com muito mais armadura.

Vira-casaca que se arrepende

Lando Calrissian e Elsa Schneider

Desde sua primeira aparição em O Império Contra-ataca, Lando Calrissian provoca uma impressão ambígua. Única esperança de Han Solo para fugir do Império, não sabemos se podemos confiar nele. Primeiro, ele acolhe Han, Leia e Chewbacca, demonstrando hospitalidade e oferecendo socorro. Depois, ele os entrega a Darth Vader para enfim se arrepender da traição e se tornar um dos maiores aliados da Aliança Rebelde.

Dra. Elsa Schneider ajuda Indiana Jones e seu pai na busca pelas pistas para encontrar o Santa Graal, para depois entregá-los aos seus colegas nazistas. Mais tarde, ela muda sua intenção, renegando os interesses dos nazistas e tentando retomar a confiança dos Jones.

Por que dá certo? Em situações de perigo, busca e incerteza, os heróis precisam contar com alguém que tenha meios e recursos extras. Mas nem sempre se pode confiar em todo mundo. É esse um dos elementos que tornam O Clã das Adagas Voadoras, para citar outro exemplo, tão instigante e envolvente.

Além disso, quando tanto os traídos quanto os traidores se deparam com uma ameaça maior a ambos, eles tendem a juntar forças. A solidariedade diante das adversidades nos toca.

A salvação do pai

Luke salva Darth Vader e Indiana salva Henry Jones

A missão de Luke Skywalker em O Retorno de Jedi deveria ser matar Darth Vader. Quando aquele descobre que este é seu pai, ele deliberadamente muda de ideia e enfrenta seu antagonista com a intenção de salvá-lo do lado sombrio da Força. Uma das cenas memoráveis deste filme é quando Luke dialoga com seu pai moribundo, cujo verdadeiro nome é Anakin:

ANAKIN (muito fraco)
Agora… vá, meu filho. Deixe-me.

LUKE
Não. Você vem comigo. Não posso deixá-lo aqui. Tenho que salvá-lo.

ANAKIN
Você já me salvou, Luke. Você estava certo sobre mim. Diga a sua irmã… que você estava certo.

Numa posição semelhante, Indiana traz até seu pai ferido um pouco de água no Santo Graal, com que cura um ferimento de bala. A cura física da ferida é apenas uma metáfora de uma situação em que pais e filho, depois de tantos anos de desentendimento, finalmente se entendem.

Por que dá certo? O conflito entre pai e filho, segundo Sigmund Freud, que batizou esse conflito de Complexo de Édipo, está na base da maioria das neuroses e é inclusive uma realidade psíquica que move a maioria das pessoas, estando geralmente relacionado, para falar em termos mais generalistas, a um conflito entre os impulsos naturais e a autoridade repressora. Resolver esse conflito na forma de um encarar de frente o próprio pai e derrubar a tradição segundo a qual existe uma hierarquia absoluta em que pai (ou a Lei, o Estado, Deus etc.) precede o filho mexe com todos nós. Quando Luke se salva do conflito com o pai, ele também salva Anakin. Quando Indiana se livra do constrangimento do pai, este também se liberta, e podemos ver este diálogo no final de A Última Cruzada:

INDY
O que você encontrou, pai?

HENRY
Eu?… Iluminação.

Considerações finais

Não busquei fazer aqui uma relação dos easter eggs de Guerra nas Estrelas presentes em Indiana Jones. Uma relação dessas referências/homenagens pode ser vista neste link.

Aqui procurei relacionar referências (provavelmente) não intencionais, temas presentes nas boas histórias de aventura. O fato de ambas as sagas terem sido concebidas pelo mesmo George Lucas só facilita essa identificação. Mas se analisarmos bem qualquer grande aventura, poderemos encontrar a maior parte dos itens que relacionei neste texto.

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