30 translações

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Há 1 ano eu escrevi um texto sobre meu aniversário de 29 anos, 29 translações ou Uma festa não muito esperada. Hoje eu chego a um número “redondo” (pois tem um zero, que tem forma redonda), 5 vezes 6, 3 vezes 10, 2 vezes 15. Porque um número “redondo” tem tanta importância eu não sei. Meu pai falou em 30 anos como se fosse um marco. Versão “3.0”.

Mas isso não importa agora. Esses momentos institucionalizados pela nossa cultura para servir como celebração e confraternização, ou seja, para reforçar os laços sociais, são para ser aproveitados mesmo, e aqueles que pensam nessas horas com certo cinismo temos mesmo é que usufruir, compartilhando a alegria dos amigos e familiares que vêm nos enviar felicitações e comemorar.

Às voltas com o pós-operatório de uma cirurgia cardíaca realizada em 30 de agosto deste ano, ainda com algumas sequelas físicas que me mantêm em tratamento diário 1, vejo-me na condição de uma peça em manutenção, que vai retomar suas atividades normais com mais energia e eficácia.

O coração é o centro do corpo 2, protegido pela caixa torácica junto com outros órgãos vitais, encontra-se bem no meio, para distribuir igualmente o rubro líquido oxigenador por todo o soma 3. É um órgão fundamental para o funcionamento do cérebro, que, sem o oxigênio capturado pelos pulmões e levado à corrente sanguínea, não poderia tecer ideias, pensamentos, emoções nem sonhos, ficando desligado do mentalsoma, o corpo mental que se manifesta na dimensão mentalsomática, que não pode se manifestar na dimensão intrafísica sem a conexão com a glândula pineal, o coração do cérebro 4.

Hoje, dia seguinte ao meu aniversário, escrevo aqui só para constar. Somando os presentes de Natal com os de aniversário (pois acontece tudo tão perto que eu considero os presentes como referentes a uma situação só), ganhei uma carteira, um cinto, camisas, um par de sandálias, uma miniatura de dragão púrpura, o livro de receitas Quase Vegetariano: Alimentação Saudável através de Receitas Deliciosas, de Geni Coli 5, o livro de ficção científica Ubik, de Philip K. Dick, um lindo vaso de flores-do-serrado, e talvez algo mais que eu tenha esquecido. Um conjunto e tanto para começar as atividades de 2011 e.c..

Houve também, como é costume nos dias atuais, muitas mensagens de felicitações nas redes sociais virtuais, todas “curtidas” e respondidas, além de ligações telefônicas apreciadas.

Last but not least, espero que este post represente um singelo presente aos leitores desta Teia que teço com tanto carinho e cuidado. À maneira dos hobbits, gosto da ideia de dar presentes em meu aniversário. Ademais, também pode servir como presente de Natal atrasado e de Ano Novo antecipado. Boas festas e felicidade a todos nós!


Notas

  1. Depois da cirurgia, fui internado mais 3 vezes. Na primeira, tive que ter parte da cicatriz aberta de novo, para a inserção de um tubo para drenar um derrame no pericárdio. Na segunda vez, após o diagnóstico de uma arritmia cardíaca, tive que ser medicado na UTI e submetido a uma cardioversão (um choque com desfibrilador; ainda estou tomando diariamente um comprimido para manter a regularidade da frequência cardíaca). A terceira vez, bem recentemente, foi para a retirada de um fio de aço, colocado durante a cirurgia original para segurar as duas partes do esterno enquanto este cicatrizava, e que meu corpo estava rejeitando. Ainda vou quase diariamente ao hospital para chek-ups e trocas de curativo.
  2. Talvez por isso ele receba tantas atribuições nas filosofias mundo afora, tendo sido considerado na Grécia antiga o órgão onde se sedia a mente.
  3. …eu acho.
  4. Então, retomando a nota 2, o coração, se não é a sede da mente, ao menos desempenha papel importante em sua manutenção.
  5. Vou me esforçar ao máximo para aprender a cozinhar este ano. Eu não juro, mas prometo.

Cirurgia

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Nasci com Síndrome de Marfan e com um prolapso na válvula mitral. Algumas das minhas cavidades cardíacas desenvolveram, ao longo de 29 anos, um tamanho anormal. As válvulas mitral e aórtica sofrem um círculo vicioso em que a sua insuficiência faz parte do sangue retornar, o que a dilata e a torna insuficiente. Nisso, o próprio coração cresce e já mal cabe na caixa torácica.

Em muitos casos de Síndrome de Marfan, há o risco de romper-se alguma válvula, devido a um problema no tecido conjuntivo, próprio dessa síndrome. Para evitar que o quadro venha a se agravar e “o pior” aconteça, é importante uma eventual intervenção cirúrgica que corrija a insuficiência cardíaca e prolongue a expectativa de vida de um marfan. Após alguns anos sendo acompanhado por uma cardiologista que já havia me preparado para a eventualidade, finalmnte chegou a ocasião.

Válvulas cardíacas

As válvulas mitral e aórtica estão à direita

Então, na próxima Segunda-feira, dia 23 de agosto de 2010 e.c., passarei pelo procedimento cirúrgico em que terei a válvula aórtica substituída por outra, extraída de um porco francês, e a válvula mitral corrigida (a não ser, disse o cirurgião, dr. Marcelo Cascudo, que não dê para corrigir, sendo necessária também a substituição).

Já brinquei com minha amada, dizendo que terei um coração de porco, mas que não ficarei com “espírito de porco”. Não por causa disso, pelo menos. No máximo, talvez eu passe a detestar bacon e a ter impulsos ocasionais de chafurdar na lama, quem sabe? Pelo menos já tenho alguma noção da língua francesa, o que pode ajudar na adaptação. A propósito, será que os porcos franceses falam “óinc” fazendo biquinho? Na verdade, nem sei se o porco é francês, só sei que as válvulas vêm da França, que pode tê-las importado da China.

Eu me pergunto se esse porco (ou será um boi? Na verdade, o médico disse que a válvula pode ser suína ou bovina, mas a piada do “espírito de porco” ficou tão marcada que acabei esquecendo dessa possbilidade.) ou boi morreu para ter suas entranhas “doadas” a um paciente como eu ou aproveitaram o abate de um animal destinado à indústria alimentícia para atender também esse propósito.

Caso tenha ocorrido a primeira hipótese, será que a perspectiva egoísta é eticamente válida para justificar a troca de uma vida por outra? O porco (ou boi… pode até ter sido uma porca ou uma vaca) não teve escolha, foi abatido por seres humanos treinados para coagir e matar, enquanto eu pude optar (se bem que as circunstâncias também se impuseram sobre mim) por um procedimento cujo objetivo é me manter vivo.

Mas, se eu tiver certeza de que minha existência nesta vida intrafísica poderá ser mais positiva para o conjunto policármico de pessoas no universo do que a vida de um animal irracional que talvez (?) esteja adiantando sua evolução individual ao deixar sua atual vida e ser encaminhado para a próxima, então posso ficar perfeitamente tranquilo quanto à implicação ética.

Tranquila, aliás, é o que se pode dizer de minha disposição diante da abertura de meu tórax, a intrusão de instrumentos cortantes no interior de meu peito e a longa recuperação que me espera. Como Sarek e seu filho Spock, impassíveis vulcanos sob os cuidados do Dr. McCoy, na ilustração que inicia este post (cena do episódio A Caminho de Babel, da 2ª temporada da série clássica de Jornada nas Estrelas). Não que eu não tenha um pouco de medo e excitação diante de um evento tão contundente em minha vida. Porém, diz-se que a coragem não é ausência de medo, mas a habilidade de enfrentá-lo. Tampouco é sinônimo de bravura e ímpeto destemido. A serenidade perante as vicissitudes da existência é um dos maiores sinais de coragem.

E nada disso tem a ver com qualquer crença religiosa ou recurso a um deus todo-protetor. Certa vez, alguns dias antes de eu me submeter a uma cirurgia ocular (problemas oftalmológicos também são comuns na Síndrome de Marfan), uma amiga me disse que embora eu fosse forte e demonstrasse calma diante de um procedimento invasivo ao meu corpo, eu precisava recorrer a algo externo e mais forte do que eu, e em circunstâncias piores do que aquela seria necessário que eu buscasse conforto em Deus.

Entretanto, não sinto necessidade de recorrrer a uma força misteriosa, mística e oculta para me manter “confortado”. Não vejo necessidade de acreditar que há um ser onipotente e bondoso que “guia a mão do médico” para que tudo dê certo. Afinal, se ele fosse mesmo bondoso, não ajudaria só os que a ele confiam suas vidas, como um chefão da Máfia que protege aqueles que beijam sua mão e o chamam de “padrinho”.

Don Corleone

O padrinho da Máfia. Não é à toa que em inglês o chamem de “godfather”

E o adágio segundo o qual “tudo o que acontece, bom ou mau, é pela vontade de Deus”, é ainda mais ilógico e irracional, pois não é preciso dar uma explicação teológica ao que acontece aparentemente por acaso (não que eu ache que as coisas ocorrem por acaso; vejo sincronicidade e relações de causa e efeito). Além disso, observo que toda essa “teo-lógica” parece não abrandar o sofrimento de ninguém. Há pessoas muito crentes que oram desesperadamente em situações críticas e não apresentam nenhum sinal de que estão “confortadas”. A manutenção da serenidade em situações de crise depende muito mais do autocontrole e de uma força desenvolvida intimamente do que de uma força exterior. Tanto há ateus e agnósticos que se desesperam quanto os que se mantêm calmos. E há crentes tranquilos e outros não tanto.

Tenepes

Há uma complexa conexão entre as consciências e suas energias conscienciais

O único conforto de que preciso é meu próprio otimismo. E a certeza de que tudo ficará bem, seja o que acontecer, é apenas uma tranquilidade advinda de uma visão consciencial das coisas. Posso parecer contraditório ao dizer que confio na ajuda de consciências extrafísicas (que alguns preferem chamar de anjos da guarda ou espíritos de luz) e até solicito a elas essa ajuda. Mas não se tratam de deuses numa relação de poder. São pessoas que conheço e que estão elas mesmas imersas numa imensa rede de relações de causa e efeito, e a quem hei de ajudar quando eu estiver sem este corpo físico e quando elas estiverem vivendo na dimensão intrafísica (como estou agora).

De qualquer forma, pensem positivamente sobre a ocasião. Se alguém quiser orar para que o deus em que acredita faça com que tudo ocorra bem, por favor, ore. Sua energia bem-intencionada será bem vinda. E se alguém preferir torcer com o mero pensamento positivo, só posso agradecer. Quem tiver a disposição de me enviar deliberadamente suas energias conscienciais benfazejas terá minha gratidão. E caso alguns de vocês, por convicção pessoal, não queiram recorrer a nenhum desses meios, só o fato de desejarem o bem-estar de todos os seres existentes (para não dizer que estou pensando só em mim) já me deixa grato.

Espero, como disse uma amiga minha, que a cirurgia signifique um ajuste e uma melhora em minha manifestação nesta vida, para que eu possa dar mais de mim em minha programação existencial e contribuir ainda mais em meus modestos esforços para o bem comum das consciências do universo. Como disse Galadriel a Frodo,

Even the smallest person can change the course of the future.

Até breve.

Fim

I’ll be back!