Mitose Neural 7 – MEIOSE

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Bem-vindos à primeira Meiose do podcast Mitose Neural!

No Mitose Neural, a Meiose é um conteúdo complementar a um episódio que rendeu muita conversa e discussão.

Neste episódio, Thiago Tecelão, Diego Misantropo e Dyego Wally aprofundam alguns dos temas discutidos no episódio Mitose Neural 7 – A Piada Mortal, como a relação neurótica entre Batman e Coringa e o poder imaginativo e mnemônico do Palhaço do Crime.
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Mitose Neural 7 – A Piada Mortal

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Saudações! Bem-vindos a nossa espaçonave Mitose Neural! Neste episódio 7 do podcast da Teia Neuronial, Thiago Tecelão, Diego Misantropo e  Dyego Wally (Alter-Egos) conversam sobre a clássica graphic novel do Batman e do Coringa, A Piada Mortal (The Killing Joke), de Alan Moore e Brian Bolland, discutindo a profundidade de seus simbolismos, questionamentos morais, drama psicológico e as instigantes ambiguidades da trama.
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O paradoxo da máscara

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A máscara pode ser tecnicamente definida como um objeto que cobre parte de ou todo o rosto de uma pessoa. Há máscaras que servem para proteger o usuário de inalar gás ou poluente venenoso; há aquelas que servem para evitar a transmissão de doenças e/ou para prevenir o usuário de uma infecção; algumas máscaras protegem os olhos do soldador das faíscas de sua solda. Em vários casos, o objeto que cobre o rosto tem uma utilidade prática.

Mas há máscaras decorativas cujo uso está ligado à fantasia e assunção de um papel/personagem. Essas máscaras não têm utilidade prática ou laboral. Porém, possuem um certo poder e exercem um fascínio extraordinários sobre quem a usa e quem a vê. O mascarado pode se tornar outra pessoa (pode até ficar irreconhecível para aqueles que o conhecem bem) e fazer coisas que jamais faria em seu cotidiano normal. Paradoxalmente, ao esconder quem aparentamos ser, a máscara permite que nos manifestemos como realmente somos.

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O peixe pela boca…

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O Coringa interpretado por Heath Ledger, no filme O Cavaleiro das Trevas (2008), é provavelmente a melhor tentativa de se representar o arquivilão de Batman. Antes de ver o filme, não gostei da idéia de o personagem não ter as deformações presentes nos quadrinhos e usar uma pintura no rosto. Mas isso se mostrou secundário.

O Coringa é uma espécie de paródia realista do supervilão que faz o mal sem motivos aparentes. Essa crueldade inexplicável é explicada por um temperamento imprevisível e uma visão do mundo fatalista e caótica. Ele é como um menino ferido pelo mundo e que busca vingança (ou seja, ele é semelhante ao Batman na origem, mas diferente no modo de resolver seus conflitos). Seu alvo nunca é uma pessoa, nunca é uma instituição. Seu oponente é o mundo racional, e seu aliado é o lado obscuro e irracional desse mesmo mundo.

Warning: Spoilers!

Como o homem-morcego, ele não possui superpoderes, a não ser sua inteligência. Com esta, e sem obediência a regras morais, ele seria capaz de destruir Gotham City, se quisesse. Mas não é o que ele quer. Ele parece renunciar a isto, talvez por ser fácil demais, e prefere criar um jogo, uma brincadeira, com a sociedade, com o poder instituído. Ele não quer a aniquilação (nihil), mas sim a anomia. Não quer destruir as pessoas, mas enlouquecê-las.

De modo que seus crimes são como piadas, o que está implícito no seu nome inglês, The Joker, que também pode ser traduzido como O Piadista (sentido que se perdeu da palavra coringa, para nós designando uma carta de baralho – que tem a figura de um bobo-da-corte – ou qualquer tipo de substituto genérico).

Ele tem tanto poder que pode ser considerado o maior assediador de Gotham City, tramando os planos de forma ousada e superelaborada. Talvez seu maior êxito tenha sido minar todas as esperanças depositadas pela cidade no Cavaleiro da Luz, o procurador Harvey Dent, e transformá-lo no criminoso Duas Caras. Ele simplesmente remexeu com uma loucura latente do virtuoso procurador, e o converteu ao caos.

É inevitável a comparação que se pode fazer com o aliciamento de Anakin Skywalker por Darth Sidious, em Guerra nas Estrelas: Episódio III – A Vingança dos Sith (2005). Skywalker era o Escolhido, o jadi que traria equilíbrio à Força, a esperança mais promissora. Sidious usou o medo e as emoções mais icontroláveis do jovem para desviá-lo do lado virtuoso da Força e torná-lo o mais poderoso sith da história da galáxia.

Tanto o Coringa quanto Darth Vader causam uma impressão paradoxal nos espectadores. São personagens cruéis, monstros do mal que controlam o universo à sua volta segundo seus desejos. Talvez o fascínio por essas figuras venha de uma experiência infantil comum a muitas pessoas, o desejo egoísta de fazer tudo o que nos foi proibido pelos pais, pela sociedade, pela Lei.

A diferença entre eles é que Vader instituiu, ao lado de Sidious, sua própria lei tirana, ocupando o lugar onde antes havia a República e reprimindo toda manifestação contrária. O Coringa, por sua vez, quer destruir as leis, quer que os impulsos não se reprimam, mas explodam. Aristóteles e tantos outros filósofos já disseram que a virtude está no meio, nem a repressão (que destrói por sufocamento) nem o extravasamento (que destrói por desintegração).

É muitas vezes pelos instintos, pelas emoções e apegos que deixamos descarrilhar nossos investimentos pessoais mais elevados. Por causa de uma pessoa, deixamos de investir em empreendimentos que poderiam beneficiar milhares de indivíduos. Por causa de uma situação confortável, podemos renunciar a um esforço que traria satisfação para a humanidade (e conseqüentemente para nós também).

Mas às vezes a emoção pode levar ao caminho inverso, como em Sindicato de Ladrões (1954), onde o assassinato do irmão do protagonista o leva a lutar contra uma máfia que antes os beneficiava. Algumas vezes, para compreender a situação estagnada em que estamos, precisamos de um empurrão que nos desequilibre e nos mostre que precisamos aprender a usar nossas próprias pernas para andar em liberdade.

Tudo depende do discernimento, que nos ajuda a compreender o que é prioritário e o que é dispensável. Na evolução da humanidade e de cada indíviduo, a busca pelo conhecimento e autoconhecimento cada vez mais nos liberta das crenças e dos apegos que nos dominam. Dominar os próprios impulsos não é jogar fora tudo o que nos distrai e nos conforta. É, mais do que isso, não sentir falta dos prazeres quando estes estiverem ausentes.