Sexualidade alienígena – parte 3

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O corpo da mulher, como disse no texto anterior, é representado em nossa cultura como o corpo afrodisíaco, capaz de excitar sexualmente (quando tem uma forma enquadrada no modelo de beleza vigente) qualquer ser humano. Essa noção faz parte de um conjunto de representações androcêntricas (que têm o humano macho como protagonista e sujeito) que veem a fêmea como coadjuvante e objeto.

A noção de uma capacidade natural e universal de excitar os sentidos é levada aos mundos da ficção científica e do fantástico, e os moldes do corpo feminino como o conhecemos (o da fêmea do Homo sapiens) é muitas vezes transportado para o corpo de seres alienígenas, e as mesmas características consideradas sensuais e belas na mulher humana aparecem nas mulheres extraterrestres. Não só as humanas são objeto de desejo de alienígenas, mas as alienígenas consideradas belas são aquelas que têm o corpo parecido com o humano.

Não é à toa, pois toda a ficção científica elaborada por seres humanos é feita pelo ponto de vista dos humanos. A beleza feminina e, em alguns casos, a masculina são os moldes para a criação de personagens sedutores de outras espécies.

Temos que considerar também que, para efeitos narrativos e de ambientação, sejam em séries de TV como Jornada nas Estrelas, sejam em filmes como Guerra nas Estrelas, usar modelos humanos para os alienígenas provoca um apelo maior no público humano. Ao ver uma dançarina de pele verde que tem tudo o que uma bela mulher terráquea tem em termos de formas do corpo, o espectador entende que ela é indubitavelmente considerada bela por todos os personagens daquela história, sejam de que espécie forem.

Mas, em termos de ficção científica, essa limitação dificulta explorar de maneira mais interessante a possível diversidade de espécies inteligentes no universo, que pode incluir, por exemplo, espécies hermafroditas (neste caso, não fariam sentido corpo e prática da sedução sexual), espécies em que os papéis do macho e da fêmea são invertidos e, quem sabe, espécies que possuem três sexos ao invés de dois.

No entanto, a diversidade na ficção científica, e chama a atenção especialmente o caso de Jornada nas Estrelas, é normalmente utilizada como metáfora da diversidade humana. As diferentes espécies se relacionam quase livremente entre si, e aparecem inúmeras relações inter-raciais, intercruzamentos e, não raro, indivíduos híbridos resultantes desses cruzamentos (como discorri na primeira parte deste ensaio).

Kamala e Picard

Uma fêmea perfeita capaz de agradar a qualquer macho da galáxia – Jornada nas Estrelas: A Nova Geração

Dessa forma, a beleza e os atributos sedutores femininos aparecem quase como universais, ou seja, uma fêmea bela não o é somente para sua própria espécie, mas para qualquer outra. Existe assim um modelo único de beleza para todos os seres da galáxia (ou ao menos para os habitantes do Quadrante Alfa da Via-Láctea).

A personagem Kamala, do episódio O Par Perfeito, da série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, pertence a uma espécie metamorfa que, sendo fêmea em sua cultura, é treinada desde criança para ser a companheira perfeita do homem com quem se casará. Ela assume uma forma idêntica à de uma mulher humana, pois seu pretendente pertence a uma espécie com aparência igual à humana (muitas espécies no universo de Jornada nas Estrelas são estritamente humanoides, ou seja, não possuem nenhuma diferença física em relação aos humanos). Mesmo tendo aparência humana, ela consegue despertar o desejo de todos os machos presentes na nave estelar Enterprise, sejam humanos, klingons ou ferengi.

Garota escrava de Órion

Garota escrava de Órion – Jornada nas Estrelas

Há uma raça habitante da constelação de Órion que é mais conhecida por suas fêmeas, normalmente chamadas de garotas escravas de Órion (Orion slave girls) ou mulheres animais de Órion (Orion animal women). Só se diferenciam das mulheres humanas por terem uma pigmentação verde na pele, e são especialistas em seduzir os machos provenientes de qualquer planeta. Elas corroboram a ideia de que existe um modelo universal de fêmea e das características sedutoras do sexo feminino.

Adira Tyree

Adira Tyree, uma dançarina centauri que, além de agradar os machos de sua espécie, é apreciada por humanos e narns – Babylon 5

G'Kar, Londo e Sinclair

Um narn, um cantauri e um humano assistindo a um show multirracial de dançarinas

Na série de TV Babylon 5, essa curiosa relação se apresenta no personagem G’Kar, da raça narn, uma espécie humanoide que, apesar disso, não tem pelos e possui a pele amarronzada, com tons amendoados e, em algumas partes do corpo, pintas escuras, como as de um guepardo.

Embora tenham diferenças estéticas que para muitos poderiam significar uma incompatibilidade de desejos mútuos entre humanos e narns, G’Kar é fascinado pela beleza de mulheres humanas e centauri (estas são quase idênticas às humanas). Apesar de se tratar de um caso individual (não aparecem explicitamente outros narns com essa mesma tara), fica subjacente a ideia de que há aspectos da sexualidade humana que se repetem em todo lugar do universo.

Dançarinas do Palácio de Jabba

Dançarinas do Palácio de Jabba – Guerra nas Estrelas

Twi'leks fêmeas

Duas twi’leks cuidadndo de Sebulba antes de uma corrida de pods

Numa galáxia distante, há muito tempo atrás, diversas espécies de diversos mundos conviviam dentro ou fora da República Galáctica (ou do Império Galáctico, em outro momento histórico). Em Guerra nas Estrelas – Episódio VI: O Retorno de Jedi, um mafioso chamado Jabba o Hutt se divertia em seu palácio com dançarinas de várias raças (ele chegou até a capturar uma humana, a Princesa Leia). Todas elas têm em comum uma feminilidade semelhante à das mulheres humanas.

Mas o próprio Jabba se parece mais com uma gigantesca lesma obesa. Por que razão ele se interessaria naturalmente pelos encantos do corpo de uma fêmea tão diferente dos da espécie dele, só porque nós humanos consideramos esse tipo de beleza como obviamente agradável e excitante? Ademais, no universo de Guerra nas Estrelas, segundo o universo expandido, os hutts são hermafroditas. A não ser que isso se trate de uma perversão individual de Jabba, não há motivos para que esse tipo de preferência seja tão natural e tão universal.

Uma das espécies presentes no harém de Jabba se chama twi’lek (seu mordomo, Bib Fortuna, pertence a esta espécie), humanoides que possuem peles de várias cores (alguns indivíduos são brancos, outros verdes, azuis, vermelhos, entre outros) e dois grandes tentáculos pendendo da cabeça. Suas fêmeas sempre aparecem nos filmes da franquia como mulheres esguias e belas. No Episódio I: A Ameaça Fantasma, um personagem chamado Sebulba, cuja espécie se caracteriza por longos braços que servem de pernas, pernas curtas que servem como braços e uma cabeça que lembra uma lhama sem pêlos, também parece gostar das twi’leks.

Essa limitação que sofre a imaginação na criação de histórias de ficção científica só se justifica naquilo que as tramas de determinadas histórias pretendem contar. Quando se trata de uma história de caráter mais mítico e fantástico, como Guerra nas Estrelas, não há porque se preocupar tanto com a verossimilhança, pois o mais importante é o drama, os conflitos políticos e os aspectos arquetípicos que dizem respeito exclusivamente aos humanos que escrevem e que assistem a essas histórias.

Quando se tratam de obras mais voltadas para a verdadeira ficção científica, como Jornada nas Estrelas e Babylon 5, essa representação do corpo feminino se justifica quando as histórias sobre espécies alienígenas são alegorias das relação humanas em sua própria diversidade, ou seja, entreveem-se as infinitas possibilidades de inter-relações entre quaisquer indivíduos de nossa espécie. Porém, quando é preciso, esses contos extrapolam os limites humanos e conseguem perceber que o mais verossímil é que cada espécie tenha suas próprias preferências em relação à estética do corpo, o que pode implicar que mesmo a mulher humana convencionada como a mais bela da Terra seja equivalente a um monstro asqueroso para uma certa raça extraterrestre.

Por outro lado, pode-se usar a ficção científica como um meio de imaginar uma utopia em que os indivíduos das mais variadas espécies enxergarem além das convenções de beleza e sexualidade em que vivem e conceberem a troca afetiva e sexual com as pessoas que amam e não com os corpos que agradam seus sentidos animais.

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O corpo afrodisíaco

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“E ainda tem gente que não gosta, não é, rapaz?”, disse um homem ao seu companheiro de mesa no restaurante, referindo-se a duas mulheres bonitas sentadas à mesa em frente. É claro que, com a crescente visibilidade da busca por direitos iguais pelos LGBTs, torna-se muito comum as pessoas tocarem no assunto, muitas vezes para demonstrar seu conservadorismo e sua reprovação, especialmente dirigida aos homossexuais do sexo masculino.

Eis algumas perguntas não muito óbvias para questionar essas manifestações: Por que um homem precisa proclamar de forma irônica seu desprezo pelo desejo homossexual, sugerindo através dessa mesma ironia que sua orientação é heterossexual? Por que esse tipo de afirmação costuma ser restrito às conversas entre homens? Por que existe alguma coisa errada em qualquer pessoa que não se excite com a visão de um corpo feminino?

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