Antonio Candido e a libertação da Literatura

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Ora, o esforço para incluir o semelhante no mesmo elenco de bens que reivindicamos está na base da reflexão sobre os direitos humanos.

Antonio Candido é um renomado sociólogo que fez parte de uma das primeiras levas de formandos da USP, tendo sido discípulo de Roger Bastide e um de seus principais herdeiros intelectuais no Brasil. Sua área de maior interesse acadêmico foi a Literatura, tendo escrito obras literárias e se constituído uma das principais referências em crítica literária no país. Um de seus textos mais importantes é um artigo chamado “O Direito à Literatura”, escrito em 1988 e publicado no livro Vários Escritos, de 1995.

Direitos humanos e Literatura

Neste belo ensaio, Candido parte do tema “direitos humanos e literatura”, para desenvolver sua tese de que a Literatura (entendida por ele de forma muito ampla, como veremos adiante) deve ser considerado um bem indispensável para o ser humano e portanto é necessário garantir o amplo acesso a ela pelos indivíduos humanos. Logicamente, o autor começa seu texto se perguntando o que são direitos humanos, e inicia essa reflexão afirmando que o nível tecnológico a que chegamos hoje permitiria mitigar todos os problemas básicos da humanidade, mas a irracionalidade e a má distribuição de recursos impede que isso seja realizado. Candido concordaria com Carl Sagan, que disse que o ser humano, enquanto espécie, é capaz de destruir seu planeta, mas também tem a capacidade de resolver todas as injustiças e desigualdades existentes na Terra.

Alcançamos um nível tecnológico altíssimo, mas vivemos uma barbárie social, em que os benefícios desses avanços não são usufruídos por toda a humanidade. Paradoxalmente, essa mesma tecnologia nos permite planejar soluções, mas o ciclo vicioso nos mantém essa contradição. Apesar disso, há um certo otimismo, tendo em vista alguns avanços sócio-econômicos pontuais testemunhados nas últimas décadas. De fato, embora continuem ocorrendo atrocidades, promovidas por aqueles que detêm o poder, elas não são mais celebradas ou, pelo menos, não são proclamadas sem alguma dose de vergonha. E mesmo aqueles que se gabam de atitudes antiéticas são facilmente criticados pela opinião pública (no passado, eles seriam amplamente ovacionados).

A correção política da visão hegemônica sobre os pobres (e negros, além de outras minorias tradicionalmente discriminadas) também é um sinal desse otimismo. Mesmo ainda havendo a ideologia classista e meritocrática, que engendram diversos preconceitos sobre os pobres, essas posturas não são mais defendidas com tranquilidade. As minorias podem ser um fator de rompimento e as atitudes politicamente corretas são alimentadas pelo medo dessa quebra do status quo. Isso pode ser visto, por exemplo, na reação negativa a peças publicitárias de teor racista, como bem explicada na reflexão de Dinix sobre o assunto na Carta Potiguar.

Os políticos mais influentes já reconhecem como necessidade premente o combate à desigualdade, contrariando os discursos mais antigos. Tendo em vista essas novas necessidades aceitas como unanimidades e normalmente ligadas ao viés da esquerda política, esses políticos dificilmente se declaram “de direita”, “conservadores” ou “reacionários”, preferindo ser vistos como “de centro” ou até “centro-esquerda”. A desigualdade é declarada como insuportável, o que fomenta um discurso ético idealizado, mas as ações para efetuá-lo dificilmente são postas em prática. É esse discurso da empatia que nos leva a pensar sobre os direitos humanos.

Numa perspectiva ética ideal, aquilo que eu considero indispensável para mim deve sê-lo também para os outros, mas a tendência geral é que pensemos em nossas próprias necessidades como mais urgentes do que as dos demais indivíduos. Isso nos leva à questão: quais direitos estamos dispostos a compartilhar com os outros? Apenas aqueles ligados à mera sobrevivência física? E quanto às artes e a recreação?

Podemos especular que, enquanto seres humanos, não sobrevivemos apenas com pão e água. A história bíblica na qual Jesus afirma que “não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mateus 4:4 e Lucas 4:4) é muito simbólica. Não podemos nos constituir como seres humanos completos apenas com alimento para o corpo (pão), mas necessitamos também de alimento para o espírito, representado aqui metaforicamente como “palavra de Deus”. Mas será que esses bens “espirituais”, como a Literatura, são imprescindíveis?

Candido nos remete ao sociólogo francês Louis-Joseph Lebret, segundo o qual os bens podem ser classificados como compressíveis, considerados supérfluos, ou incompressíveis, quer dizer, os que não podem ser negados a ninguém e que, portanto, constituiriam os direitos humanos essenciais. Porém, as necessidades são relativas e mudam ao longo da história e das culturas ao redor do mundo, o que traz a dificuldade de se estabelecer as fronteiras entre o que é compressível e o que é incompressível. No entanto, estabelecer essa fronteira é importante para definirmos uma noção de igualdade e podermos decidir como aplicá-la na prática. (Esta noção de igualdade deve ser embasada, no âmbito individual, por uma moral altruísta, enquanto que, do ponto de vista social, são as leis que devem garantir essa igualdade).

Então Candido se pergunta se os bens compressíveis podem ser reduzidos apenas aos bens materiais ou se devemos incluir os “espirituais”. Devemos pensar no direito ao acesso às Artes e Literatura, mas como averiguar se estas são incompressíveis? Elas são tão necessárias aos seres humanos a ponto de representar uma parte daquilo que os fundamenta enquanto indivíduos e sociedades? Vale lembrar do discurso corrente segundo o qual os pobres que se divertem estão perdendo tempo, pois deviam gastar seu tempo apenas com trabalho. Por que a ideologia da meritocracia pensa que os despossuídos não têm direito ao lazer?

O que é Literatura

Candido afirma que não existe povo que não produza Literatura, se a entendermos da forma como ele a define:

Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em  todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações.

A necessidade de fabulação é universal, quase exatamente como a necessidade de sonhar. O sonho equilibra a mente durante o sono. A fabulação harmoniza o espírito durante a vigília (“sonhar acordado”), e assim pode ser considerado um fator de humanização, pois nos confirma enquanto membros da humanidade. De fato, retornamos à fábula do pão para considerar que nosso caráter humano pressupõe necessidades que superam o alimento físico. A canção Comida, dos Titãs, apresenta esse tema, afirmando que “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”:

A Literatura é muito usada como instrumento de instrução, recurso didático e ferramenta educativa, e tanto as obras sancionadas quanto as proscritas servem a esse propósito. Ela serve como meio de formação da personalidade. Mas esse caráter duplo (permitido/proibido, dicotomia que varia imprevisivelmente e que pode estar contida numa mesma obra) representa para alguns educadores um risco, pois fomenta questionamentos sobre a ordem estabelecida. Por isso a Literatura é encarada de modo paradoxal pelos professores, pois ela ao mesmo tempo confirma  seu papel de alimento do espírito e, por outro lado, seu papel transgressor. Essa antítese (bem/mal) é conciliada quando se encara a Literatura em seu papel humanizador, ou seja, ela faz o leitor viver.

Podemos pensar no professor John Keating (Robin Williams), no filme A Sociedade dos Poetas Mortos, que tinha uma visão subversiva da poesia e conciliava esses dois aspectos da Literatura, levando aos seus alunos a edificação do espírito através das obras literárias e fazendo-os se questionar sobre as visões tradicionais a respeito da Arte e da própria vida em sociedade.

O sociólogo apresenta três aspectos que ele considera serem funções humanizadoras da Literatura, e discorre sobre elas em ordem de importância.

1) Caráter estético: a obra como construção

A forma da obra é o que caracteriza sua natureza literária por excelência e lhe confere uma função organizadora da mente do leitor. A obra literária é organizada através da escolha dos elementos da linguagem de modo a constituir uma estrutura repleta de significado. Isso a diferencia de outras formas de escrita não-literárias, nas quais a preocupação estética é mínima.

A forma/estética da obra tem um impacto sobre nós mesmo quando não apreendemos completamente seu conteúdo (como acontece muitas vezes com a poesia hermética). Em minha experiência de leitor de Fernando Pessoa, nunca havia compreendido a profundidade esotérica do poema “Eros e Psiquê”, apenas via nele a beleza sonora e metafórica mais superficial. Só depois que minha esposa pesquisou sobre ele é que descobrimos que há uma referência à Maçonaria. Mas mesmo desconhecendo essa referência conseguíamos apreciar a obra de maneira satisfatória.

A forma é condição para que o conteúdo da obra atue sobre o leitor. O escritor transforma o caos do repertório de sua linguagem numa construção dotada de ordem, e essa ordem, por sua vez, ordena a mente caótica do leitor. Essa é a primeira função humanizadora da Literatura, promovendo em nós o cultivo de faculdades mentais que nos ajudam a organizar os pensamentos.

2) Caráter subjetivo: a obra como tradutora de sentimento

A obra expressa através de sua forma peculiar uma subjetividade universal que é decodificada pelo autor de maneira organizada e acessível, evidenciando aos diversos leitores a universalidade de certos sentimentos. Aquilo que temos dificuldade de exprimir é feito pelo literato através de sua obra poética, narrativa e/ou dramática, que nos permite visualizar em palavra, sons ou gestos estruturados o que apenas percebíamos de forma vaga em nossa própria subjetividade íntima.

Grande parte do que apreendemos na fruição de uma obra literária nós o fazemos inconscientemente, pois ela atua em nós de um modo que não percebemos. Os insights provocados pela leitura de um livro, por exemplo, podem aparecer muito tempo depois de tal leitura, até mesmo num sonho. Essa capacidade de nos identificar com o gênero humano através da empatia é a segunda função humanizadora da Literatura.

3) Caráter informativo: a obra como transmissora de conhecimento

Mas existe também aquele conteúdo explicitamente veiculado, que é a terceira função humanizadora da Literatura. O conteúdo veiculado conscientemente pelo autor, que pode ser de caráter político, é prescindível na obra literária, embora dificilmente esteja ausente, mesmo que esteja presente de maneira sub-reptícia e acidental. Mas mesmo quando está presente, esse conteúdo só tem efeito porque atua através da forma literária característica. Esse mesmo conteúdo pode ser veiculado por formas não-literárias de escrita, mas aí já se trata de outra coisa (artigos, dissertações e tratados, científicos, filosóficos ou teológicos etc.). Essa terceira função humanizadora, embora não seja essencial, é muito importante do ponto de vista de Antonio Candido, tão importante que ele dedica algumas páginas do artigo para elaborar o tema.

Papel social da Literatura

Graciliano Ramos

Graciliano Ramos

Existe um viés da Literatura que alimenta menos implicitamente o combate pelos direitos humanos. Mesmo quando uma obra não é literariamente interessante (ou seja, não atende muito bem à primeira função humanizadora), ela pode assumir um papel social junto a outras obras do mesmo movimento literário, promovendo uma ampla reflexão a respeito das iniquidades sociais e as possíveis formas de solucioná-las.

O romance humanitário do começo do século XIX se desenvolveu através do Romantismo e foi prolífico em obras que retratam as vidas miseráveis dos pobres na Europa, especialmente as narrativas de Victor Hugo, Charles Dickens e Fiódor Dostoiévski. No Brasil entre outros, temos o exemplo de Castro Alves, conhecido por descrever as mazelas da escravidão dos africanos.

A inclusão dos pobres na literatura romântica e a forma digna com que foram tratados foi relevante para se pensar os direitos humanos. Mesmo que certos aspectos estéticos dessas obras estejam datados, elas ainda nos tocam nesse sentido humanitário (e humanizador). Se pegarmos, por exemplo, um José de Alencar com sua rebuscada e florida linguagem em Iracema, podemos achá-la muito melosa ou melodramática, mas a mensagem humanista a respeito dos indígenas ainda faz muito sentido para nós, mesmo com as limitações de uma mentalidade ainda um tanto colonialista da época em que foi escrito.

No Naturalismo, isso se intensificou especialmente nas obras de Émile Zola, com sua análise fria e detalhista da sociedade. O impacto de seus escritos teve inclusive repercussão no próprio autor, que assumiu posição política favorável ao combate às injustiças depois de ter publicado suas obras, o que mostra o papel humanizador da Literatura até para aqueles que a produzem.

No Modernismo brasileiro (e talvez, simultaneamente, no Vanguardismo latino-americano) a vida dos excluídos foi retratada com teor crítico ainda maior, nas obras de Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Rachel de Queiroz, Érico Veríssimo, entre outros. Graciliano Ramos, por exemplo, retrata as vidas secas dos habitantes pobres do Sertão brasileiro, chamando a atenção para as dificuldades de uma existência no meio de uma sociedade desigual.

Em suma

Augusto dos Anjos

Em suma, a Literatura se relaciona com os direitos humanos de duas formas:

  1. Através de seu intrínseco caráter humanizador, nas três funções descritas por Candido, e
  2. Servindo como crítica social e explícito questionamento sobre os direitos humanos.

Porém, vivemos um problema social de falta de oportunidade de acesso a obras literárias eruditas por parte dos mais pobres, ocasionada por má distribuição de recursos e pela visão de que a Literatura é um bem compressível. Para se contornar isso, é necessário criar uma sociedade igualitária e menos estratificada, onde a alfabetização seja garantida como direito de todos e as obras literárias eruditas sejam mais acessíveis.

Talvez as iniciativas de algumas editoras, imitando um modelo mercadológico norte-americano, de oferecer publicações em formato de bolso e material mais barato tenham contribuído um pouco para a maior difusão de obras renomadas no Brasil. Lembremos que Antonio Candido escreveu seu ensaio em 1988 e desde então ocorreram mudanças mais ou menos significativas.

As iniciativas de Mário de Andrade como chefe do Departamento de Cultura da Cidade de São Paulo mostraram a possibilidade real de difusão das obras artísticas e o fato de haver influências múltiplas entre o popular e o erudito.

A intercomunicação entre os “níveis culturais”, para Candido, deve servir para que os menos favorecidos socialmente tenham acesso à cultura erudita. Isso deve se dar através de mais oportunidades e não de uma “capacitação” intelectual. O interesse pela boa literatura aparece quando o acesso a ela é garantido. Fazer uma literatura “popular” só para atender a um público “popular” é menosprezar sua capacidade de apreciar obras boas. Veja-se o caso da difusão da Divina Comédia nas diversas classes sociais da Itália, e do caso de Augusto dos Anjos, popular entre várias camadas do Nordeste brasileiro. Este último, note-se, é uma exceção, pois em geral no Brasil a literatura não é tão bem difundida.

É comum, por outro lado, que as classes privilegiadas não usufruam desses bens literários senão por comodismo, modismo ou esnobismo. Essa apropriação das boas obras representa sua privação às pessoas pobres, que poderiam estar usufruindo delas, um fato análogo à má distribuição de bens materiais. Podemos acrescentar também à análise de Antonio Candido o fato de a cultura popular ser pouco apreciada ou consumida pela elite, o que se dá não por dificuldade de acesso, mas pelo pouco prestígio social imputado a ela.

A meu ver, falta a Antonio Candido enfatizar a necessidade de relativizar mais as fronteiras arbitrárias entre popular e erudito. Devemos considerar que, assim como os analfabetos podem apreciar boas obras, são capazes de criar boas obras. Um exemplo notável é Patativa do Assaré, agricultor cearense que escreveu versos geniais, tanto em formas populares quanto eruditas. Tirar o popular e o erudito de ma hierarquia que ponha aquele abaixo deste seria um movimento de democratização também, com a valorização da produção artística e da criatividade dos que têm pouco acesso aos meios de produção da literatura, mas que em diversas ocasiões demonstram que conseguem produzir mesmo assim.

Desacato aos detentores do poder

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foto11Desacato à autoridade é um conceito a ser revisto.

Infelizmente, o desacato à autoridade, na prática, se refere a uma ação contra o agente do poder (intermediário) e não contra o representante do poder (na outra ponta), que é o verdadeiro problema dos cidadãos. Dessa forma, enquanto os representantes lidam de forma relativamente pacífica com artigos ou charges que os criticam e ridicularizam, eles estão protegidos fisicamente pelos agentes do poder, autorizados a se utilizar legitimamente de violência e armas se forem agredidos com palavras feias e gestos obscenos.

É a mesma relação entre o empregado, o capataz e o patrão. O agente intermediário é uma figura ambígua. Ao mesmo tempo em que se encontra mais próximo do empregado, é cercado de uma aura de desconfiança, pois age de maneira dura, inspecionando e delatando, às vezes punindo. O patrão, a verdadeira figura dominante, não se envolve diretamente e, quando intercede como mediador, pode aparecer até como um pai condescendente, que quer o melhor para todos. É mais fácil odiar o chefe imediato do que o empregador, mesmo sendo este quem autoriza aquele a agir com violência.

Nosso direito de desacatar o representante do poder está garantido pela liberdade de expressão. Mas a mesma lei que nos autoriza a fazê-lo impede-nos de questionar a autoridade do agente do poder, que se constitui numa barreira de gás e plástico. O conflito mais acirrado se concentra no embate dos cidadãos com a muralha policial, e o efeito perverso disso é que tendemos a supervalorizar esse conflito e esquecer que o problema está nos representantes do poder e não em seus agentes.

Os cidadãos deveriam ter o direito de discordar de e manifestar sua indignação à autoridade que supostamente os serve, que está mais próxima deles. Os agentes deveriam ser intermediadores, levando o recado para seus patrões. Eles estão ali, protegidos com armaduras e escudos, para se proteger e não para proteger quem neles manda (nem para contra-atacar). No entanto, as manifestações de desacato a sua autoridade não são ofensas pessoais, como as atitudes vingativas que se veem por parte de alguns deles parece sugerir, mas são no fundo uma indignação contra quem os colocou ali.

O verdadeiro desacato é contra a autoridade do conjunto do povo. Pois, é bom lembrar, se este não é representante nem agente, é o detentor do poder.

Marco Feliciano não nos representa?

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(Aviso: este texto não é nenhum pouco uma defesa de Marco Feliciano.)

A eleição pelo PSC do pastor-deputado Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias tem causado grande repercussão por todos os extratos da sociedade brasileira. Raramente se viu algo assim na História recente do Brasil, uma manifestação tão grande nas redes sociais, na mídia e nas conversas, os brasileiros demonstrando seu repúdio a uma figura frontalmente contra os princípios que deveria defender no cargo que ocupa.

O meme mais difundido agora são fotos de internautas segurando um cartaz dizendo: “Marco Feliciano NÃO me representa”, frase geralmente precedida da identificação do fotografado (“Sou gay, sou negro, sou mulher…”). A sociedade está revelando abertamente que não quer um declarado homofóbico, racista, machista e simpatizante da teocracia representando seus direitos.

Mas a verdade é que Marco Feliciano não é um corpo totalmente estranho na sociedade brasileira, que se vê idealmente como inclusiva, multiétnica, antirracista, antissexista, anti-homofóbica etc. Embora estejamos testemunhando uma positiva manifestação contrária à ideologia discriminatória personificada em Feliciano, incluindo até muitos adeptos da religião do referido pastor, o fato é que a maioria de nós ainda não resolveu plenamente seus preconceitos de raça, sexo e gênero.

Nesse sentido, se por um lado Marco Feliciano é o contrário do que queremos para representar a luta pelos direitos humanos e pela igualdade das minorias, ele nos representa sim quanto aos preconceitos e valores que estão sendo tão combatidos por todos nós.

O problema não é ele ser homofóbico, racista e machista. Eu sou homofóbico, racista e machista, a maioria de nós é. O problema real é Feliciano se manifestar publicamente como defensor de uma tradição homofóbica, racista e machista. Ao dizer que a condição de miséria dos negros é resultado de uma maldição milenar, Feliciano deixa implícito que uma política a favor da população negra é dispensável, pois só quem poderia mudar isso é uma força divina. Ao se declarar contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e ser frontalmente contra o PL 122, ele entra em contradição com o ideal materializado na Comissão em questão. Ao atribuir publicamente as “mazelas” contemporâneas à emancipação das mulheres, parece querer reverter conquistas sociais que não deveriam mais ser questionadas.

Entretanto, na verdade Feliciano é a figura de um monstro que ainda existe entre nós e dentro de nós, um reflexo ampliado de algo que ainda não conseguimos extirpar de nossa sociedade nem de nossos âmagos. Mas, enquanto a sociedade em geral está se esforçando para destruir a homofobia, o racismo e o machismo, pessoas como Feliciano estão defendendo ideias homofóbicas, racistas e machistas, trabalhando para difundi-las e tentando evitar que os direitos humanos alcancem sua plenitude.

E não são poucas as pessoas que o apoiam, como revelou uma recente enquete do UOL. Marco Feliciano representa os interesses de uma grande parcela da população brasileira, preocupada em garantir a manutenção de valores conservadores e colocar as crenças bíblicas (próprias de apenas uma parte dos cidadãos brasileiros) acima dos preceitos democráticos constitucionais laicos.

Por esses motivos, faço coro com a sociedade manifestamente contrária à escolha de Feliciano para o papel político que está (ou não) exercendo. Ele é a pessoa errada para presidir a Comissão. Mas ele o é não porque seja preconceituoso, e sim porque é um defensor desses preconceitos. Precisamos de alguém que esteja lutando para superar esses preconceitos (mesmo que essa pessoa os tenha, mas, como eu disse acima, poucos de nós não os têm) e para ajudar a sociedade brasileira a se reeducar, a desconstruir o pior que temos em nós.

O problema é que Marco Feliciano nos representa em nossos valores atávicos e em nossa hipocrisia diária, na negação de nossa herança não-europeia, tanto em nossa biologia (vide a acusação de que Feliciano faz chapinha, não assumindo o crespor de seus cabelos, prática amplamente difundida) quanto principalmente em nossa cultura, nos hábitos alimentares, na língua e, com grande força, na religiosidade. Temos muito de africano em nós, mas boa parte dos cristãos não aceita a presença de terreiros de Candomblé e Umbanda no país.

É justamente porque Feliciano me representa naquilo que eu tenho de pior que eu não o quero na Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Isso não quer dizer que ele me represente em outro sentido mais relevante, pois diferente dele eu estou constantemente tentando vencer meus preconceitos e não sustentá-los. O presidente da Comissão deveria nos representar em nossos anseios democráticos para o futuro, que ainda estamos tentando construir.

Não estou de maneira alguma justificando Feliciano na Comissão. Mas não adianta somente retirá-lo de lá, é preciso também que a sociedade se modifique. E não quero dizer com isso tudo que é bom ter na presidência da Comissão uma pessoa homofóbica, machista e/ou racista. O que não podemos permitir é que esse cargo seja ocupado por um hipócrita estagnado na tradição medieval.

Professor

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Como seres humanos, dependemos por natureza da presença de outros de nossa espécie para realizarmos nosso potencial mínimo, básico. Sem a presença de adultos, as crianças não aprendem a falar e dificilmente conseguirão andar. Sem a intervenção da cultura, personificada nesses adultos, o indivíduo não aprende noções e regras básicas para o convívio social. Sem esse aprendizado, o Homo não se torna sapiens.

Assim, a função de professores e educadores (e da Pedagogia) é fundamental para o desenvolvimento de indivíduos e de uma sociedade ética e democrática. Somente com um sistema (formal ou não) educacional de qualidade e igualitário é que podemos ter a difusão do conhecimento.

Cada um de nós foi acolhido no seio da humanidade ao nascer, foi alimentado com leite, afeto e palavras . Cada um de nós tem o potencial para se tornar um professor, um difusor daquilo que recebemos, dando alguma orientação às gerações seguintes.

A função daqueles que se dedicam profissionalmente à Educação não é apenas ensinar e orientar, mas desenvolver a ciência Pedagogia e explicitar sua importância, servindo de exemplo não só para educandos, mas para aqueles que já o foram e que podem atuar cotidianamente como professores e educadores em situações pontuais. Afinal, conhecimento todos nós temos, mas a arte da Didática é dominada por poucos.

A profilaxia dos shoppings e a harmonia excludente

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As praias urbanas sempre me pareceram símbolos de liberdade e convivência harmônica entre as pessoas de quaisquer classes sociais ao longo das décadas. A ausência de barreiras físicas claras, a gratuidade do acesso, a possibilidade de compartilhar espaços com uma infinidade de membros das famílias ou vizinhança, as refeições levadas de casa e outros aspectos, permitiam essa co-habitação pacífica. Obviamente, existiam – como ainda existem – áreas dessas praias em que determinados grupos se posicionavam, no entanto, nada podia privá-los de ocasionais misturas. Assim, a convivência democrática era possível e as delimitações sociais eram menos claras. Isso é o oposto dos novos espaços de convivência: os shoppings, sínteses do mundo ideal pasteurizado.

Se a praia permitia gratuidade, os shoppings são o auge das relações de compra e venda. Tudo nos shoppings é pago, mesmo quando não se paga nada aparentemente, pois as vitrines, fachadas, cartazes e até as pessoas fazem propaganda dos shoppings, de suas lojas e serviços, mas, sobretudo, do estilo de vida que lá se comercializa. Ainda que os shoppings não cobrem pelo acesso, o ambiente é, por natureza, intimidador aos menos favorecidos. Há, a partir daí, um movimento de exclusão ideológica.

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Liberdade e livre-arbítrio – parte 2

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A restrição da liberdade é condição sine qua non da própria vida humana em sociedade. Se não fosse o refreamento dos impulsos vitais, por exemplo, os conflitos interpessoais quase sempre terminariam em derramamento de sangue ou morte. Se as pessoas fossem totalmente desimpedidas para expressar o que pensam, qualquer discordância se tornaria uma troca de insultos, xingamentos e ataques verbais preconceituosos, desperdiçando-se a oportunidade do debate de ideias. Se não fosse a cultura, enfim, não seríamos humanos.

Esse refreamento deveria se tornar uma prática consciente, parte de uma autocrítica constante, norteada pela razão e por uma noção realmente libertária da liberdade. Esta só tem sentido como valor social quando se aplica a todos igualmente, e isso necessariamente significa que, paradoxalmente, nem tudo é permitido numa sociedade livre.

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“A Teia vai nos unir”

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Na última sexta-feira, dia 28 de janeiro de 2011, Miguel Nicolelis ministrou uma palestra, a convite do Movimento dos Blogueiros Progressistas, no Auditório da Livraria Siciliano do Shopping Midway Mall (Natal/RN). Nicolelis aderiu recentemente ao Twitter, onde sofreu a dificuldade de provar que ele é o neurocientista Miguel Nicolelis, e sugeriu que sua palestra tivesse o título “Eu juro que eu sou eu”.

Tomando como ponto de partida sua recente experiência com o Twitter, Nicolelis falou sobre Ciência, democracia, redes sociais e de como o caráter libertário de cada um desses elementos pode convergir para um mundo novo e melhor. Abaixo, segue o registro de cerca de 20 minutos (de uma palestra que durou 40), seguido de breve comentário.

Identidade

A identidade é um valor caríssimo na modernidade ocidental. Porém, ela se reveste de um caráter opressor quando o que temos são classificações impostas pelos valores sociais e quando certas coisas como etnia, classe social, sexo/gênero e fenótipo estão imbuídas de significados pré-estabelecidos.

As redes sociais virtuais, que servem de máscaras para a maioria das pessoas, paradoxalmente permitem que demonstremos um “eu” muito mais complexo do que aquele que apresentamos no cotidiano e que é baseado em um conjunto de preconceitos e expectativas a respeito de nosso sexo/gênero, nacionalidade, profissão, “raça”, etnia e idade, entre outros aspectos.

Nicolelis cita seu próprio exemplo, mostrando que o fato de ser cientista não quer dizer que uma pessoa tenha que se limitar a viver 100% de sua vida pensando, sentindo e fazendo Ciência. Cada um de nós é uma complexa teia de identidades, as que nos são impostas, as que se desenvolvem a partir de nossas experiências e a que escolhemos para nós mesmos.

Porém, pouco interessa quem queremos ser ou o que os outros querem que sejamos. Para o mundo à nossa volta, que inclui milhares de pessoas que não conhecemos pessoalmente, importam muito mais nossas ações e o resultado positivo delas para o máximo de pessoas possível.

Democracia do conhecimento

As redes sociais trazem uma possibilidade libertária para que todos participem da produção, desenvolvimento e divulgação do conhecimento. Blogs, microblogs, fotologs, videologs, comunidades e grupos de discussão permitem que o papel divulgador de notícias e saberes não se limite às pessoas encarregadas socialmente desse papel, sejam jornalistas, filósofos, sacerdotes ou cientistas.

O monopólio da notícia e do saber não apenas cai por terra, como expõe, através dos múltiplos agentes civis que noticiam em primeira mão os fatos que veem ao seu redor (e com os quais às vezes estão envolvidos diretamente), através de câmeras de celular e mensagens de 140 caracteres que podem ser vistas em todo o mundo, quanto a mídia hegemônica e os nichos acadêmicos estão corrompidos por interesses mesquinhos.

Além disso, a facilidade com que cada um pode divulgar sua visão dos fatos, bem como a distância global que essa divulgação alcança, permite que a participação no debate internacional não seja unilateral, pois, se os meios de comunicação podem escolher divulgar ou não as respostas às suas matérias, essas respostas podem ser disponibilizadas e acessadas com muito maior alcance através da internet. O direito da liberdade de expressão assim se faz muito mais efetivamente e tem resultados democráticos muito mais autênticos.

A grande Teia Neuronial

Nicolelis usa (em minha opinião, muito apropriadamente) a palavra “teia” para substituir aquilo que costumamos chamar, em linguagem da internet, “rede”. É, de fato, a tradução literal de “web” e se coaduna melhor com as características, apontadas por Nicolelis, de ser uma realidade que se espalha mas, por causa dos inúmeros fios e conexões, não pode ser quebrada.

Além disso, é uma teia que se constrói segundo suas próprias regras, segundo a própria experiência coletiva que a tece e que não é ditada por autoridade alguma a não ser aquela da democracia que faz a si mesma. A teia é também o lugar em que a identidade criada por cada um e utilizada para interagir (e aqui temos outro paradoxo) não importa tanto quanto se sentir pertencente a uma realidade maior do que nós e o resultado de nossas ações para o conjunto daqueles que formam essa teia.

A importância da Ciência (e eu não me resumiria apenas à Neurociência, mas daria também uma atenção especial às Ciências Humanas) para o reconhecimento de que todos os seres humanos existem na condição da isogênese é crucial para entendermos quão importante é a participação igualitária dentro dessa teia, num exercício de democracia virtual.

Cada um de nós, como nossas teias neuroniais individuais, criamos sinapses com outras teias, construindo uma Teia maior e mais significativa em que cada um de nós é importante perante os outros e (outro paradoxo) não tão importante quanto a coletividade. A Teia pode, enfim, ser vista como um embrião da verdadeira democracia pura (em que cada um representa a si mesmo), que almejamos utopicamente desde a Antiguidade e que ainda não conseguiu ser realizada neste planeta.

Adendo (30/01/2011 e.c.)

Esqueci de colocar um link para o blog Blogueiros Progressistas do RN, dos responsáveis pelo evento. Veja aqui o post deles, em que fazem um bom resumo do que foi discutido:

Cotas raciais – parte 2

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No primeiro artigo sobre as cotas raciais, apontei questionamentos sobre a guerra discursiva entre os pró-cotas e os anticotas, tendo como mote o pronunciamento do senador Demóstenes Torres no Supremo Tribunal Federal. Antecipei que na segunda parte eu escreveria sobre minhas razões para ser um anticotas e sobre os problemas relacionados ao vestibular e à Universidade.

Porém, os comentários à primeira parte foram muito extensos e decidi que não valeria a pena respondê-los diretamente na seção específica. Ao invés disso, achei que os comentários mereciam ser respondidos como continuações ao primeiro texto, prolongando-me aos poucos nas respostas e fazendo surgir mais questionamentos, tecendo uma teia neuronial extensa sobre o tema.

Comentário de Duzão

Primeiramente, retomo o comentário de Duzão, que afirma o seguinte:

Na minha visão, está é principalmente uma tentativa de se superar a deficiência clara do ensino fundamental e médio no país, introduzindo a força pessoas de baixa renda social e sem cultura alguma em grandes faculdades. [sic]

Há pelo menos duas coisas a se dizer sobre isso:

  1. As cotas raciais provavelmente incluem mais negros de classe médiado que os de baixa renda. Não só porque aqueles tenderão a estar mais preparados, por terrem estudado em escolas particulares (imagino que um negro que tire uma nota muito ruim provavelmente não conseguirá uma cota), mas também porque muitas pessoas de baixa renda não fazem o vestibular.
  2. Muitos pobres não têm autoconfiança para passar por uma prova tãodisputada quanto o vestibular. Certa vez perguntei a um jovem negro de uma comunidade rural muito pobre se ele iria fazer o vestibular, já que naquele ano ele estava terminando o 2º grau. Ele disse que ia fazer, mas acrescentou: “Mas a gente não tem muita chance de entrar, não”. Ou seja, há uma baixa autoestima que, provavelmente, atrapalha a própria prova.

Neste segundo ponto, penso que jaz um dos problemas reais do racismo no caso do acesso à universidade. Afinal, ainda temos uma herança racista que coloca os negros num patamar inferior quanto às capacidades mentais, e muitos dos próprios negros, especialmente os pobres, tendem a acreditar nessa suposta inferioridade.

Em alguns anos, será fácil de se observar o governo se gabando de uma grande quantidade de bacharelados vindos do ensino público.

Especialmente tendo em vista que um dos principais apelos deste governo, que dificilmente será esquecido nos próximos, é o de termos um presidente semianalfabeto que se orgulha de nunca ter lido um livro.

Dentro desse pacote, o Governo consegue incluir outras milhares de discussões, que nada têm a ver com educação. A principal delas, os problemas raciais. Isso desvia o foco do que realmente devia ser discutido, a qualidade de todo o sistema educacional brasileiro, q é pior que o de governos muito mais pobres que o nosso.

Isso não quer dizer que devemos esquecer o racismo existente em nosso país. Misturar os assuntos confunde o público, aumenta o atrito e não leva nada a lugar nenhum.

Até que há uma relação entre ensino fundamental e racismo. Quantos casos já não ouvimos de professoras do primário ofendendo alunos com depreciações à cor de sua pele ou à textura de seus cabelos? Quanto ainda se representam, inocentemente, ideias racistas nos livros escolares?

Penso que a própria escola deveria reassumir o papel de educar cidadãos com poder de reflexão, e que as crianças deveriam ser instigadas desde cedo a enxergar a humanidade como um só, entendendo desde cedo que há diferenças que são superficiais e não implicam em inferioridade nem superioridade.

Dessa forma, considero importante misturar os assuntos, sim, mas de forma crítica.

Comentário de Gilson

Gilson Rodrigues, a cujo texto sobre cotas raciais eu fiz referência na primeira parte, também comentou, deixando pontos importantes a ser discutidos.

Senti-me, como deveria ser, provocado pelos argumentos que listou sobre os defensores das cotas… Falastes de uma tendência a diluição da identidades racionais através de expressões como as que referi anteriormente – moreninho – Bem, o complicador ai nao está na relação semantica e sim no peso simbólico… Pelo menos em minha experiencia de quase 17 anos em Natal… o uso de tal expressão tem mt mais a ver com “um politicamente correto”, como se fosse mais educado usar “moreninho” do que preto ou negro… Qts vezes chegaram para mim ou meu pai (com a pele bem mais escura que a minha) e ao ouvirem-nos afirmando que somos negros, ou chamando um ao outro de NEGÃO… Dizem: “Voces nao são negros… Olha a cor da sua pele (para mim)” ou “Seus lábios e sei nariza são afilados” (para o meu velho)… O que é isso? Diluição? Creio q não…

Não me referi exatamente a uma diluição, mas a uma multiplicação de tipos raciais. Não acho que o fato de as pessoas se negarem a considerar alguém como negro seja necessariamente um eufemismo. A situação relatada por Gilson mostra um caso específico: duas pessoas que se consideram negros e cuja identidade racial autoatribuída se choca com uma identidade heteroatribuída. Talvez, se Gilson tivesse uma pele mais escura e seu pai tivesse nariz e lábios mais grossos, as mesmas pessoas que disseram que eles não são negros tivessem concordado com o termo que pai e filho usam, “negão”.

Ademais, retomando a questão da multiplicação de tipos raciais, eu procurei dizer que ela implica em diversos tipos de preconceito. Os tipos mestiços que não são considerados negros nem brancos sofrem uma discriminação (eu não disse que não a sofrem) diferente daquela sofrida por indivíduos considerados negros. Já os índios sofrem um outro tipo de discriminação, e por aí vai. Isso deveria ser levado em conta nas propostas de políticas afirmativas, para não se proporem soluções baseadas num quadro irreal.

E ainda há as diferenças de discriminação tendo em vista o status social. Por mais que um rico negro seja de vez em quando alvo de algum constrangimento, ele não tem as mesmas dificuldades de um pobre negro. As roupas, a linguagem corporal, a forma de falar, enfim, o habitus, exercem uma grande influência no tratamento que uma pessoa recebe das outras.

Se eu caísse (ou cair) numa classificação racial, provavelmente serei considerado branco. Apesar disso, em minha certidão de nascimento consta “pele morena”, e já disseram que sou mulato, já disseram que tenho cara de árabe, cara de judeu e cara de francês.

E também já fui muitas vezes chamado de “negão” em tratamentos informais e carinhosos por parte de amigos. Mas meus irmão e irmã são mais mulatos do que eu; enquanto Diego, quando menorzinho, era chamado de “nego lindo” por meu pai, Naninha é chamada de “moreninha”, mesmo que ambos tenham a mesma tonalidade de pele. Já o filho de Diego, que tem a tez branca, herdou do pai o mesmo apelido de “nego lindo”, talvez por ter as feições muito parecidas com a de seu progenitor.

Não há nada homogêneo no Brasil quanto às classificações raciais e suas correspondentes (ou não) discriminações. Em cada região temos “modelos” diferentes de identidade racial e da composição populacional dessas identidades, de discriminação racial etc. Esse seria um bom motivo, bem melhor do que a suposta brandura do racismo brasileiro, para se contrapor a uma discriminação reversa que reduza a população em apenas 2 tipos raciais com uma suposta inequívoca relação de dominante/dominado.

Acho bem complicado a postura de militantes dos movimentos negros que se circunscrevem a discussão, limitando-a, a certa religião (de matiz afro, o que faz com que pessoas que se identifiquem como negras, mas sigam uma “crença de branco” sejam ignoradas, isto é, alvo de preconceitos…), ou tenhe q se vestir com roupas que remtam a um mítico passado africano… Uso dreads (aqueles cabelos rasta)… Claro q isto vai gerar certo impacto e incomodo, mas n estou preocupado simplesmente em afirmar isto como coisa de negro… Basta ver qts “rastas” brancos (mestiços? )vc encontra… (A maioria dos que conheço, por sinal)… Apenas, nas transformações da vida e na reinvenção do meu cotidiano… dentro de determinada trajetória que é social, passei a achar este tipo de cabelo mais bonito esteticamente… Claro q com isso contrario uma antiga “verdade” de que negro por ter “cabelo ruim” nao pode deixá-lo crescer… Incomoda? Sim? Q bom!!!

Com esse tipo de discurso inflamado por parte dos militantes dos MOVIMENTOS NEGROS findam por reproduzir um preconceito… e retomando a citação feita por Thiago… acabaremos, nesse caminho, todos cegos, aprofundando-do-nos mais ainda no “estado de guerra” hobbesiano… do qual tentamos sair, mas nunca conseguimos totalmente…

Há muitos casos desse tipo, e não é uma tendência nova nem é exclusiva do Brasil. Desde que as ideias de Johann Gottfried von Herder se espalharam, em todo lugar vêm aparecendo “ressurgimentos” étnicos. Esse tipo de imposição de aspectos identitários vai de encontro a um dos valores modernos que considero dos mais importantes: a liberdade individual. É pedir para esquecer tudo o que surgiu de bom da mistura cultural, até qualquer coisa que seja considerada positiva por um dado indivíduo.

Isso me lembra o filme A Outra História Americana, em que o líder neonazista proíbe seus amigos de fumar maconha, por ser “coisa de negro”. Fazer esse tipo de comparação entre Movimento Negro e Nazismo sempre incomoda, mas não há como negar que se trata da mesma tentativa de manutenção de uma suposta pureza ou autenticidade de uma suposta raça que ecoa de um suposto passado latente e inequívoco, uma cultura que parece estar nos genes.

Continuo concordando com o fato de que a solução estaria na melhoria profunda da educação pública, muito longe de ser deficitária… Se assim o fosse estaria mt melhor… Porém, como dizia Maquiavel… estou falando da “realidade efetiva das coisas”, da urgencia imposta pela sociedade capitalista, que mesmo n gostando, temos de nos adaptar, em alguma medida… “Facilitar” a entrada na universidade teria esse caráter emergencial gritante…

Por mais que possamos levantar críticas pertinentes ao vestibular (e farei isso num texto vindouro), ele é uma forma muito democrática de acesso à Universidade. Através dele, cria-se uma eleição baseada na capacidade de resolver alguns problemas. Essa capacidade só depende de um preparo intelectual que não tem nada a ver com a cor da pele. É claro que os pobres, em grande parte negros, não têm tantas chances de passar no vestibular sem uma “facilitação”, e as cotas seriam um meio de compensar essa deficiência. Mas, se o raciocínio seguir por aí, seria melhor adotar cotas sociais, já que o problema não é o fenótipo, e sim a qualidade do ensino gratuito.

Notemos um paradoxo: por um lado, os cotistas recebem uma ajuda para compensar uma deficiência; no entanto, o consequente maior número de negros com diplomas pode ajudar a erradicar a ideia de que pessoas negras são menos capazes, e isso poderia melhorar a autoestima da população que sofre preconceito racial (essa poderia ser uma vantagem das cotas, mas ainda acho negativa a classificação racial imposta a toda a população que essa política implicaria).

Mas acho que essa possível vantagem teria muito mais sentido numa seleção de candidatos na qual a “raça” já fosse critério de exclusão. Se os negros fossem discriminados diretamente no vestibular, sendo excluídos por causa de sua “raça”, as cotas seriam uma forma de obrigar a instituição a rever seus critérios: “Se vocês não pararem de excluir os negros, vão ter que aceitá-los na marra”. Mas felizmente a “raça” não é (ou não era) critério de seleção, e as cotas criariam esse critério, tornariam o vestibular racista.

Gritante tb, como já disse em meu blog, é a força do “arbitrário cultural” sobre a auto-estima do preto pobre… Ah, e se a quantidade de dinheiro faz com que o branco pobre sofra mais preconceitos que o negro rico… a força do preconceito contra este último se reafirma, não? Enfim, n tenho respostas fechadas, e n quero mt perto de mim quem as tenha… POr isso, quero proximidade com vc, meu caro… alguem que aprofunda as perguntas… provocando… sempre… Abraços…

Como coloquei acima, não é o simplesmente o dinheiro que nos faz ter menos preconceitos com pessoas ricas. São suas roupas (consideradas mais condizentes com o ideal de civilidade), seus trejeitos (considerados mais finos), sua fala (considerada mais culta). Isso tudo vem de um habitus, que aqueles pertencentes a uma certa “classe social” aprendem por ser criados e/ou conviver em determinado meio social. Tanto é assim que até um pobre que consiga adquirir uma formação erudita pode ser mais respeitado nas interações com outras pessoas do que alguém que esteja desprovido dela. Já vi isso acontecer. E um pobre qualquer, quando “bem vestido”, tem grande chance de ser bem tratado em público.

Mas você tem razão sobre o preconceito racial contra negros ricos. Pensando bem, essa questão é tão complicada que seriam necessárias muitas pesquisas para averiguarmos como ocorrem os preconceitos no cotidiano. Esses preconceitos são uma mistura de muitos elementos, principalmente o preconceito contra pessoas de pele escura e o preconceito contra pobres. Chamam atenção os casos em que uma pessoa negra da elite é “confundida”com uma pessoa pobre e é então maltratada. Como se maltratar um pobre fosse mais legítimo do que maltratar um negro.

O desrespeito contra pobres é tão grande que alguns jovens acham que podem justificar o ato de incendiar um indivíduo que dormia numa praça em Brasília por pensarem que se tratava de um mendigo.

Enfim, à medida que escrevo, surgem mais e mais questionamentos. Tudo vai ficando mais confuso, mas prevejo que o debate ajudar a organizar as ideias rumo a uma conclusão (temporária, espero, e que vai demorar algumas postagens para aparecer).

Aos poucos estou encontrando bons argumentos para me posicionar a favor de uma solução emergencial, contato que sejam em condições bem específicas e sejam bem pensadas. Acho que implantar cotas raciais nos moldes que estão sendo propostos é uma medida precipitada e mais fácil do que a solução profilática, que é o sempre caro e relegado ensino público.

Na próxima parte, continuarei a comentar os comentários postados na primeira. Continuem contribuindo com o debate, a Teia Neuronial não pode parar de ser tecida.

[Continua…]

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Há alguns dias, publiquei um texto sobre casamentos de homossexuais. Analisei, na ocasião, o discurso do padre/deputado José Linhares, que alterou um projeto de lei que regulamenta a união estável, excluindo desta os homossexuais. O que moveu o padre Linhares a fazer isso foi uma visão católica e não uma noção democrática da questão.

Meu texto foi bastante comentado (um dos mais comentados até hoje na Teia). Tive o prazer de, inclusive, receber acréscimos de pessoas que nunca haviam comentado ou que só o haviam feito pouquíssimas vezes. Entre elas, o mais contundente foi AmBar Amarelo, que apresentou uma posição diferente da maioria (inclusive da minha) e suscitou reações de outros comentaristas.

Roy e Silo

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